O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 52
Contra-Ataque




UM URRO MONSTRUOSO ECOOU POR TODA AQUELA SEÇÃO DA CIDADE DESTRUÍDA, forte o bastante para fazer com que as próprias estruturas ao redor daquela área estremecessem, trincassem e rachassem devido à força dele. A mera pressão do ar que o som causou foi o bastante para fazer com que Enderthorn e Trevor não soubessem se tampavam os ouvidos ou fixavam seus pés no chão, sentindo aquela força agir sobre eles, empurrar-lhes como se quisesse jogar ambos ao ar.

Aquilo foi meramente o aviso de Hadvar que ele iria começar seu ataque.

O Terror Celeste disparou contra seus oponentes com uma velocidade muito além de qualquer coisa que qualquer um dos dois já havia visto. Em sua forma humana Hadvar já era extremamente rápido, tanto por sua velocidade natural quanto pela força de seus músculos, mas em sua forma transformada o seu poder crescia tanto que aquilo não era nem sequer comparável. Praticamente todos os seus atributos físicos eram ampliados quando transformado, o que por si só já era o suficiente para aumentar a sua velocidade a níveis muito além do seu normal, e com o auxílio do bater de suas asas essa velocidade cresceu a um nível que seus oponentes simplesmente não conseguiam acompanhar.

Foi usando dessa velocidade que ele lançou seu ataque.

Suas garras fecharam-se ao redor das cabeças dos guerreiros antes mesmo que eles pudessem se dar conta de que aquilo estava acontecendo. Também não lhes deu tempo para compreenderem nada, de qualquer forma. Abriu seus braços tanto quanto pode, afastando os dois um do outro, e imediatamente depois fechou seus braços em um movimento de arco, batendo as cabeças deles com todas as forças uma na outra. Sangue veio da cabeça de ambos com o impacto e pelo contato que tinha com os dois foi capaz de dizer que eles haviam ficado zonzos depois daquilo, o que era justamente o que ele queria. Arremessou os corpos de ambos aos céus sem pestanejar, fazendo com que eles se debatessem em meio ao ar, tentando desesperadamente recuperar algum controle e seus corpos. Duvidava que fossem ter sucesso nisso, mas de qualquer forma não lhes deu uma chance; bateu suas asas com força e subiu aos ares em caça a eles. O garoto – Skylar, se não me engano – deve entender a essa hora o porquê de me chamarem de “Terror Celeste”. Suas garras fecharam-se em punhos fortes, sua boca se abriu e exibiu afiados dentes brancos. Hora de ensinar o mesmo para esses dois.

Avançou primeiramente contra Trevor; ele parecia ser o mais fraco dos dois, e era lógica básica de qualquer luta que você devia se livrar dos inimigos mais fracos primeiro antes de focar-se nos mais poderosos. Com a ajuda de suas asas ele cruzou os céus com uma velocidade que daria inveja ao mais rápido dos pássaros, e num piscar de olhos Hadvar se encontrava bem diante de seu oponente, os olhos de Trevor arregalando-se em surpresa ao vê-lo tão próximo. Ergueu um de seus punhos e imediatamente o mercenário reagiu, usando de suas estranhas habilidades sobre a luz para fazer com que essa se concentrasse ao redor da palma de uma de suas mãos de forma quase que sólida, ampliando-se bastante em uma fração de segundos até que o que antes parecia apenas ser uma espécie de disco luminoso na palma de sua mão se transformasse em um verdadeiro escudo de luz. Sentiu vontade de escarniar em descrença perante a tamanha estupidez. Que ingênuo. Acha que vai se conseguir se defender de mim com algo assim? Você ou é idiota ou está me subestimando demais, mercenário.

Seu punho desceu como uma bigorna em queda livre, acertando em cheio o escudo de luz de seu oponente. Para sua surpresa não conseguiu estraçalhar esse escudo em pedaços com o golpe como pretendia, mas no fim das contas, isso não importava; mesmo que não tivesse conseguido atingir realmente o corpo de seu oponente com seu ataque, seu golpe ainda havia sido mais do que forte o suficiente para exercer uma boa força de impacto mesmo sem isso. O próprio mundo pareceu congelar ao redor deles por um instante antes que Trevor fosse isolado, jogado em direção ao chão como um projétil em grande velocidade. Seu corpo destruiu parte de um prédio no caminho, e a colisão dele com chão de concreto abaixo deles criou uma cratera e levantou uma grande nuvem de poeira no ar. Hmpf. Menos do que eu esperava, mas deve bastar. Sua intenção era de esmagar o peito do homem com um soco, quebrando seus ossos ao mesmo tempo em que os forçava para dentro de seus órgãos, mas supunha que apenas aquilo devia ser o suficiente por hora. Não poderei me descuidar enquanto ele estiver vivo..., mas isso me dá tempo para matar o outro.

Seus olhos – agora dourados e afiados, com uma aparência que parecia um misto entre o que você esperaria de um réptil e de um pássaro – moveram-se rapidamente até seu segundo alvo. Havia golpeado Trevor tão rapidamente que Enderthorn ainda estava no ar, e à uma boa altura ainda por cima. Perfeito. Bateu suas asas, e quase que instantaneamente disparou contra o cavaleiro.

Os olhos do cavaleiro voltaram-se na sua direção praticamente logo após ele começar seu avanço. Ele tem instintos bons, notou Hadvar, mas vai precisar de muito mais do que isso se quiser sobreviver! Enquanto se aproximava, viu que ele tolamente tentava posicionar sua espada em seu caminho, como se planejasse bloquear seu golpe com uma mera lâmina de aço. Isso é me subestimar um pouco demais. Você vai se arrepender disso, cavaleiro. E vai se arrepender agora. Sem hesitação, abriu sua boca tanto quanto pode e avançou contra o homem com ainda mais velocidade, mirando direto no ombro de seu oponente. A espada foi estraçalhada sem pedaços pela sua mandíbula forte sem que nem se desse conta, quebrada como se fosse feita de vidro, e quando percebeu sua boca se enchia novamente com o gosto de sangue, dessa vez pertencente ao cavaleiro que chamavam de Enderthorn.

Assim que cravou seus dentes no ombro de seu oponente, a primeira coisa que buscou fazer foi avançar em direção ao chão. Graças a sua velocidade atingiram o solo em meros instantes com uma velocidade tão grande que o mundo ao seu redor pareceu tremer diante daquilo, alguns prédios em pior condição chegando até a desabarem devido a força do impacto. Com suas mãos prensou o corpo do cavaleiro no chão, impedindo-lhe de escapar enquanto continuava a morder e puxar o ombro dele com todas as forças. Inicialmente o cavaleiro tentou empurrar-lhes com mãos e pernas de alguma forma, mas não demorou para que ele percebesse que isso era completamente inútil, e isso fez com que ele mudasse de ideia. Ficou confuso quando sentiu os braços do cavaleiro envolverem seu torso como se estivesse o abraçando, mas quando sentiu a força do aperto percebeu que ele estava na verdade lhe prendendo, certificando-se de que ele não escapasse. Mas por que isso?

Teve sua resposta em questão de momentos.

CHAMADO DO RELÂMPAGO!

O céu acima estava claro, tão limpo e belo quanto o céu das Terras Velhas podia ficar. Isso não havia impedido que um raio caísse sobre Ulrock durante sua luta contra Syd, entretanto, e não foi mais efetivo em impedir que o mesmo acontecesse ali. O raio de energia dourada veio dos céus sem aviso algum além de seu ensurdecedor estrondo, um raio natural mais controlado, voltado para um ponto em específico. Ele caiu direto sobre Enderthorn... ou, mais especificamente, sobre o que seria Enderthorn. Por estar mordendo-o e o prendendo ao chão, Hadvar estava por cima do cavaleiro, e isso fez com que o raio que ele havia chamado lhe atingisse diretamente.

O ataque foi poderoso o suficiente para fazer com que os prédios que haviam de alguma forma sido capazes de sobreviver a colisão de Hadvar e Ender fossem completamente engolidos pela energia elétrica daquele raio, destruídos por ela até que não sobrasse nem sequer uma migalha deles. Um urro inumano ecoou da garganta de Hadvar, forçando o guerreiro a se afastar de Enderthorn para dar vazão a sua dor. O cavaleiro não perdeu a chance que se mostrou a ele com aquilo; com seu pé ele chutou com força o Terror Celeste, conseguindo com sucesso jogá-lo para trás por seu despreparo e aproveitando-se do impulso do movimento para rolar de costas no chão e se colocar novamente de pé. Um raio... um maldito raio! Sentia raiva de seu inimigo por ter usado de um golpe como aquele para lhe atacar como se isso fosse um verdadeiro problema para ele, mas mais do que isso, sentia raiva de si mesmo por ter sido atingido por algo assim.

Felizmente os efeitos do raio não duraram muito tempo. Em poucos segundos já sentia-se recobrando o controle de seu corpo enquanto fumaça saia de sua pele, um sinal das queimaduras que aquele raio havia causado. Tch. Um desses não é um problema, mas eu realmente não devo fazer um hábito de levar golpes desse nível. O fato de estar transformado lhe permitia resistir bem a isso, mas teria mais problemas se estivesse em sua forma humana. Não devo estender isso muito mais. O garoto entre eles já está morto. Agora, eu mato esses dois!

Quando ergueu de volta seus olhos na direção de Enderthorn já estava praticamente pronto para avançar contra ele com tudo, mas não pôde fazer isso. Simplesmente porque, no momento que seu olhar caiu sobre ele, viu algo mais bizarro do que qualquer coisa que havia visto antes em sua vida.

Sua mordida não havia sido completa, não havia conseguido arrancar um pedaço tão grande do ombro de Enderthorn quanto queria, mas ainda havia sido capaz de fazer um bom estrago. Enderthorn estava fuçando justamente nesse estrago quando o viu. Não “fuçando” no sentido de estar tentando avaliar a gravidade da ferida ou coisa do tipo, mas sim fuçando sentido de estar propositalmente enfiando sua mão dentro do ferimento e embebedando-a em seu próprio sangue, tudo isso enquanto uma careta de dor estava claramente visível em seu rosto. Isso por si só já era estranho o bastante para fazer com que erguesse uma sobrancelha, mas não se comparava ao que Ender fez em seguida; depois de certificar-se que sua mão estava bem banhada em sangue, o homem não hesitou em levá-la até seus lábios, lambendo e bebendo seu próprio sangue como se ele fosse algum tipo de geleia.

– Mas... o que... como... que porra é isso?! – Em geral, não era alguém que gostava de usar palavras rudes como aquela, mas tinham situações nas quais apenas essas palavras conseguiam expressar corretamente os sentimentos de alguém em relação a algo, e essa era definitivamente uma dessas. – Eu já vi muitas coisas estranhas nesse mundo. Já vi dezenas de coisas bizarras, coisas que eu nunca pensei que veria. Mas vez alguém bebendo seu próprio sangue... isso é simplesmente repulsivo!

– Admito que essa não é a mais agradável das experiências – concordou Ender, mesmo enquanto continuava a lamber o sangue de sua mão. – Mas ainda é bem melhor do que algumas experiências que eu poderia ter se não fizesse isso, como a experiência que chamam de “mutilação”, ou a experiência que ninguém quer que chamam de “morte”.

– Ah, sim? Então beber o seu próprio sangue te ajuda a ter de evitar essas experiências? – Em sua mente, sabia que não devia estar dando trela para aquele cavaleiro. Devia aproveitar-se da chance que tinha diante de seus olhos e avançar contra ele antes que fosse tarde demais, mas não conseguia isso. Por mais asqueroso e absurdo que fosse o que Enderthorn fazia, isso era ainda assim estranhamente fascinante, algo que Hadvar simplesmente não conseguia deixar de observar, independente do quanto tentasse. – Se importa em me dizer “como”?

– ... Minha Aloeiris se chama “Vampiro”. – Respondeu Enderthorn depois de um breve momento de hesitação, como se tivesse considerado rapidamente se realmente devia informar seu oponente de algo como aquilo. – Talvez você já seja capaz de ter uma ideia do que se trata pelo nome, mas basicamente falando, minha Aloeiris permite que eu aumente minhas forças ao beber sangue humano. – Sua mão já estava limpa a essa altura, e por isso ele voltou a enfiá-la em sua ferida. Seus olhos fecharam-se brevemente em dor ao fazer isso, e no momento em que isso aconteceu Hadvar reparou em algo; eles estavam se tornando vermelhos e sua forma estava mudando, tornando-se mais próxima do que você esperaria de uma besta violenta. – Idealmente esse seria o sangue de um inimigo, mas não é estritamente necessário. Meu sangue, seu sangue... desde que ele tenha origem humana, ele cumpre o seu propósito.

Sangue humano? Aquilo era uma completa novidade para Hadvar, e uma que era mais do que apenas um pouco perturbadora. Eu... nunca ouvi falar de uma Aloeiris assim. É verdade que todas as Aloeiris são diferentes em poderes e funcionamento e que algumas tem alguns requerimentos estranhos, mas algo assim... eu nunca imaginei que algo assim existiria. No entanto, Ender definitivamente não estava mentindo. Pouco a pouco a figura do cavaleiro estava começando a se modificar diante dos seus olhos; seu rosto, naturalmente magro, pareceu ficar ainda mais desnutrido, a pele agarrando-se aos ossos como se eles fossem apenas um; seus dedos tornaram-se ligeiramente maiores, e de meros dedos humanos eles se transformaram em verdadeiras garras como as de um animal selvagem, garras elas que foram continuamente ganhando uma coloração avermelhada, tornando-se rubras como sangue coalhado; por fim, seu próprio corpo em si pareceu de uma vez perder todos os seus nutrientes e se tornou tão magro que seus ossos eram claramente visíveis por todo ele. Seu sangramento parou, sua pele tornou-se pálida e, como que em um teste, Enderthorn moveu o braço e ombro que havia atingido antes sem demonstrar o menor sinal de desconforto com isso. Apesar de sua aparência sugerir que ele deveria estar em um estado miserável, a aura que aquele cavaleiro emitia ia contra isso; pela força que Hadvar sentia emanando dele, era claro que aquele era de longe o estado mais forte eu o cavaleiro já havia exibido até então.

Nosferatu. – anunciou Enderthorn ao fim daquilo, todas as estranhas transformações que seu corpo havia sofrido aparentemente chegando enfim a sua conclusão. Não podia dizer que sentia-se particularmente intimidado pela aparência que o cavaleiro havia assumido depois daquilo, mas a mudança clara no seu nível de força fazia o serviço. Ele está bem forte agora. Bem mais forte do que antes. E além do mais, a postura que Enderthorn tinha agora... ela incomodava Hadvar. Antes ele parecia ser um daqueles guerreiros bem concisos, um daqueles famosos guerreiros que usam tanto a sua mente quanto a força de seus braços para alcançarem a vitória em uma batalha. Agora, no entanto... a situação parece ter se invertido. Se antes Enderthorn parecia um guerreiro tático e inteligente, sua aparência agora passava uma ideia feral, como se ele fosse algum tipo de homem-besta enlouquecida que podia saltar contra qualquer um a qualquer momento.

E foi exatamente isso que aconteceu.

O movimento foi tão súbito e tão rápido que mal foi capaz de vê-lo. Tudo que viu foi um borrão deslocando-se insanamente rápido em sua direção, e foi capaz de saltar para o lado apenas um instante antes que seu oponente lhe alcançasse. Já que sua espada estava quebrada, Enderthorn não foi capaz de usar sua arma padrão para realizar aquele ataque, mas ele substituiu bem isso com as garras que antes eram suas mãos. Rubras como se fossem feitas de sangue-sólido, as garras de Ender eram de longe a coisa mais assustadora no homem, e elas faziam por merecer a aparência intimidadora delas; com elas o cavaleiro não teve dificuldades em abrir cortes que atravessavam uma parede de concreto atrás de Hadvar como se ela fosse feita de manteiga. Rápido e forte... maldição, isso vai ser trabalhoso!

Mesmo enquanto Enderthorn atacava e Hadvar se ocupava em desviar do golpe dele, conseguiu ver os olhos de Ender movendo-se na sua direção de uma forma que definitivamente não era nada humana, esbugalhados como se eles estivessem prestes a saltar para fora de suas órbitas, sem nunca o perder de vista. Havia saltado para esquivar-se do último golpe do cavaleiro sangrento, e nem havia tido tempo para colocar seu pé novamente no chão antes que visse Enderthorn tornar a avançar contra ele com aquela mesma velocidade que fazia que ele mais parecesse um borrão. Sentiu o golpe bem antes que compreendesse o que acontecia; com as pontas de seus dedos, Enderthorn desferiu um golpe com sua garra direita direto no estômago de Hadvar, criando cinco pequenos buracos em sua barriga e jogando o homem-pteradon para trás como se ele não fosse nada.

E foi então que aquele grito ressoou.

Sabre de Luz!

O som daquela voz fez com que imediatamente virasse sua cabeça para trás enquanto ainda era jogado pelo ar, não a tempo o suficiente para que pudesse tentar evitar o golpe, mas a tempo de ver o que aconteceu. Avançando em sua direção com todas as forças enquanto segurava em ambas as suas mãos uma espada bastarda tão envolta em luz que quase parecia ser feita de luz, Trevor tinha seus olhos fixos sobre Hadvar, sua postura deixando claro que ele planejava cortar o mercenário ao meio com seu próximo golpe.

O ataque veio com uma velocidade incrível, como se os próprios Deuses estivessem guiando suas mãos. A lâmina iluminada cortou o ar e o peito de Hadvar; graças a seu couro duro o mercenário não foi realmente cortado em dois como seu oponente queria, mas mesmo assim o golpe foi bem mais forte do que tinha qualquer direito de ser, criando um corte profundo em seu peito que cauterizou quase que imediatamente graças ao grande calor que emanava da arma. Num piscar de olhos Trevor havia desferido um golpe tão forte assim contra Hadvar e passado pelo Terror Celeste, ficando bem às suas costas. A dor que sentiu fez com que ele sentisse-se prestes a fechar os olhos e gritar, mas suportou-a e manteve seus olhos bem abertos; virou seu rosto em direção a Hadvar bem a tempo de ver o homem girando novamente em torno de si mesmo, movendo sua espada novamente contra Hadvar, mas dessa vez conseguiu reagir antes que ele concluísse seu ataque; enquanto ainda estava no ar ele bateu suas asas com toda a sua força, impulsionando-se com a pressão do ar que o movimento exerceu para trás na tentativa de criar alguma distância de seus oponentes.

Mas já havia feito algo assim antes, e seus inimigos haviam aprendido com isso. Assim que bateu suas asas, Enderthorn não perdeu tempo em avançar contra ele com tudo. Graças a força do impulso que havia ganhado ele se movia muito rápido, mas depois de beber seu próprio sangue Ender parecia capaz de ser ainda mais rápido que ele; ainda não havia sequer chegado a colocar um pé no chão quando a o cavaleiro lhe acertou com um poderoso chute lateral que lhe jogou direto para o lado, fazendo com que atravessasse uma casa e uma rua antes de parar depois de quebrar a parede de uma segunda casa com suas costas, caindo no chão com seu corpo todo doendo intensamente, cada músculo parecendo gritar em dor e desespero.

Por alguns segundos ele apenas ficou parado aonde estava. Não moveu um único dedo, nem fez qualquer gesto. Ficou simplesmente bem quieto e pacífico de olhos fechados, respirando fundo enquanto pensava no que havia acabado de acontecer. Isso é mal. A situação está ruim, muito ruim. Se as coisas continuassem naquele ritmo, iria acabar morto, sem dúvida alguma. Trevor. Enderthorn. Esses dois são bem mais fortes do que eu imaginei inicialmente. Teria de fazer mais se quisesse ter alguma esperança de derrotar seus oponentes.

Iria ter de lutar com tudo.

Quando abriu seus olhos novamente, o pé de alguém estava vindo direto contra ele, como que em uma tentativa de esmagar seu crânio. Segurou-o com uma mão firmemente, e sem pensar duas vezes puxou o pé com todas as forças, desequilibrando o dono dele ao ponto de derrubá-lo no chão. Não se dignou nem sequer a dar uma rápida olhada para ver quem havia lhe atacado; apenas se concentrou em abrir sua boca tanto quanto pôde e morder com toda as forças a perna de seu inimigo. Seus dentes rasgaram a carne e os músculos, trituraram o osso como se fosse vidro e deceparam de uma vez a perna de seu oponente, fazendo com que um grito de dor viesse da garganta deste. Jogou seu corpo para cima com sua outra mão, apenas o suficiente para que pudesse avançar novamente contra ele, dessa vez mirando em seu pescoço. Enderthorn teve de pensar rápido; com uma de suas mãos o cavaleiro segurou a boca de Hadvar em uma tentativa de impedi-lo, e apesar dos melhores esforços do Terror Celeste a força do cavaleiro mostrou-se grande demais para que pudesse seguir com seu plano. Sendo assim, fez a segunda melhor coisa possível; ergueu seu braço direito alto no ar por um momento e flexionou suas garras antes de investir com ele e perfurar a barriga de Ender com elas. Uma expressão de dor cruzou o rosto do cavaleiro, mas mesmo assim ele não fraquejou, permanecendo firme em seus esforços de segurar-lhe. Francamente, a essa hora nem se importava mais que ele ficasse tentando segurá-lo assim. Pelos meus dentes ou pelas minhas garras, não importa. Você está morto de qualquer jeito, Enderthorn.

Ou ao menos foi isso que pensou, mas estava enganado. Tão focado que estava em tentar arrancar as tripas do cavaleiro, Hadvar esqueceu-se de uma variável importante. Lembrou-se dela bem rápido, no entanto, assim que sentiu a ponta de uma espada perfurar suas costas até que repousasse dentro de seu corpo. Seu corpo estremeceu e quase que Hadvar vacilou; instintivamente sua cabeça virou-se para na direção daquela espada, e o que ele viu não foi nada menos do que Trevor, olhando seriamente para ele com uma expressão completamente desprovida de misericórdia no rosto.

Rayleigh – foi a palavra que saiu calmamente de seus lábios, e no instante em que ela foi dita o braço do homem brilhou com uma luz pura e dourada. Essa luz logo passou para a empunhadura de sua arma, e da empunhadura ela seguiu para a lâmina em si. Sentiu o calor dessa luz dentro de seu corpo, o queimando por dentro, mas isso só durou um instante.

Pois no momento seguinte, toda essa luz dispersou-se ainda em seu interior, abrindo inúmeros buracos por todo o seu peito para escapar daquela prisão.

=====

– Tch... ei, bonitão! Não sabe fazer nada mais que isso não? – Seus cabelos encobriam o corpo de Flavent para protege-la dos projéteis que Syd disparava insistentemente contra ela. Supunha que devia admirar a insistência do idiota em continuar atacando, ou talvez a força do seu desejo de vingar sua companheira, mas nunca foi alguém que viu o menor valor em coisas estúpidas como aquelas e, francamente, aquilo era simplesmente irritante. – Sabe, uma dica para você: se você quer ter um pouco mais de sucesso com mulheres, por que você não tenta parar de encher o meu maldito saco?!

Aparentemente seu oponente não deu a menor atenção a isso. Não ouviu nada dele, nenhuma reação, como se não tivesse dito nada. Tch, saco. Esse cara vai ser um oponente bem chato de se lidar. Afinal de contas, quantas balas ele tem? Considerando a frequência com a qual ele estava atirando, seria de se imaginar que Syd já teria ficado sem munição a essa altura, mas parecia que o mercenário tinha um suprimento infinito ao seu dispor. Eu poderia testar essa teoria e tentar estender essa batalha o bastante para que ele fique sem munição, mas essa não me parece lá a menor das ideias. Trabalhoso demais. Tinha de bolar um plano melhor, uma maneira de atacar Syd sem que corresse riscos desnecessários e sem que tivesse de ficar um ano parada.

E também, pensou ela, correndo os olhos pelo ambiente que lhe cercava, tenho de lidar com esse outro cara.

Enquanto Syd se ocupava em atirar contra ela de forma a limitar seus movimentos, Marco corria ao redor dela, buscando por alguma falha em suas defesas que pudesse usar a seu favor. Idiota... será que ele realmente pensa que vai conseguir fazer algo como aquilo de novo? Ele conseguiu me atingir antes, sim, mas isso foi só porquê eu não esperava por um golpe como aquele. Um fracote como ele não tem a menor chance de esperar atingir alguém do meu nível enquanto estou preparada. Pelo que estava vendo, Syd estava buscando tanto mantê-la ocupada com seus tiros como também tomar a atenção dela para tentar dar a seu companheiro uma janela de ataque, mas se era realmente o plano, era melhor que o mercenário soubesse lidar bem com o desapontamento. Assim que eu tiver a chance eu vou acabar com toda essa palhaçada. Assim que eu tiver a chance eu mato um de vocês... começando pelo babaca do bastão.

E como que por destino, essa chance surgiu bem naquele momento. Quando Syd apertou o gatilho de sua arma mais uma vez, o que veio não foi o estrondo do disparo, mas sim um fraco e desesperador som de um clique de metal. Viu o mercenário ejetar rapidamente o cartucho vazio de sua arma e não perdeu tempo quando viu essa chance: virou-se rapidamente e lançou seus cabelos com tudo em direção a Marco, usando seus poderes para fazer com que eles assumissem a forma de uma grande lança vermelha mirada direto em direção ao peito do mercenário. Um sorriso sanguinolento ganhou os lábios de Flavent quando viu sua lança prestes a atingir seu oponente, mas esse sorriso desapareceu bem rapidamente quando sua lança simplesmente atravessou Marco sem parecer atingi-lo. Seus cabelos haviam atravessado o peito de Marco de forma bem clara e visível, mas apesar disso não via nenhum sangue, nem tampouco ele parecia ferido. Ele apenas continuou a avançar contra ela como se nada tivesse acontecido, o que foi o bastante para que o queixo de Flavent caísse. Mas... isso não é possível! O que diabos aconteceu?! O que ele es-

Algo duro colidiu com força contra o seu rosto, acertando-lhe em cheio e interrompendo seus pensamentos. Seu corpo foi arremessado longe pela força do golpe, lançado por alguns metros no ar. Sentiu seus lábios racharem e sangue encher sua boca, mas mesmo assim continuava a não entender o que exatamente havia acontecido. Esse golpe... ele foi por trás! Aquele definitivamente não havia sido um ataque de Marco, e francamente, duvidava que fosse um ataque de Syd. Um estava na minha frente – não tem como ele ter me acertado. Quanto ao outro, ele simplesmente não mostrou qualquer sinal de ser rápido o suficiente para se aproximar e me atacar assim, principalmente não considerando que ele estava ocupado recarregando sua arma. Mas se é esse o caso, então quem diabos me atingiu?! Será que havia algum outro inimigo ali que não havia notado antes?

Obteve sua resposta em questão de instantes. Usou de suas habilidades para cravar envolver o chão com seus cabelos e fazer com que esses se tornassem fofos e macios como um colchão de penas, evitando assim qualquer dano que pudesse receber de uma queda dura. Colocou-se em pé com um salto assim que caiu, sabendo bem que não podia perder tempo, e o que viu respondeu à todas as suas dúvidas. A figura de Marco avançava em alta velocidade contra ela, correndo com toda a sua velocidade para tentar ataca-la antes que se recuperasse totalmente, mas enquanto isso acontecia uma segunda figura – completamente igual a Marco em absolutamente todos os aspectos – corria na direção contrária. Isso só durou por um instante antes que essa segunda figura desaparecesse de uma vez como se nunca tivesse existido, mas foi o suficiente para esclarecer tudo para ela. Não se trata de um aliado novo ou coisa do tipo. Se trata de uma ilusão. Não estava certa se aquilo havia feito pelas habilidades próprias de um dos dois ou se era fruto de algum desses apetrechos estranhos que Syd parecia trazer consigo, mas de alguma forma eles haviam sido capazes de fazer uma ilusão – ou, mais precisamente falando, um truque de luzes – que fez com que a imagem de Marco trocasse de lugar, fazendo com que um ataque que vinha pela sua frente parecesse vir por trás. Miseráveis... parece que esses dois são bem adeptos a usar de estratégias sujas em batalha, não é? Não estava acostumada a esse tipo de coisa – um membro do S.O.M.B.R.A. dificilmente precisava de algo mais do que de sua pura habilidade para alcançar a vitória no campo de batalha, afinal de contas – mas pelo que estava vendo, iria ter de começar a acostumar-se com aquelas trapaças se quisesse vencer aquela luta. Sim... me acostumar com elas, e talvez começar a usá-las eu mesma.

Saiu de seus pensamentos para direcionar seu foco ao inimigo que se aproximava. A velocidade de Marco era consideravelmente alta para um guerreiro de classe tão baixa como a dele, o que significava que ele provavelmente era alguém com foco em velocidade. Seus golpes não foram necessariamente leves antes, mas eles também não foram particularmente poderosos. Não era uma guerreira como Hadvar, ou Robert, ou mesmo Ulrock; era uma maga, e como podia se esperar de um mago, seu corpo não era um dos mais fortes. Se ele não conseguiu me nocautear com dois golpes, isso significa que a força dele não é nada especial. O que, por sua vez, significava que Marco era apenas um clássico guerreiro focado em velocidade, sem nenhuma outra característica realmente notável.

Se era realmente esse o caso, então a situação era ótima para ela.

Assim que ele se aproximou o suficiente, Marco dobrou rapidamente suas pernas e saltou contra Flavent, balançando seu bastão violentamente pelo ar em direção ao rosto dela. Apenas sorriu em resposta a isso. Tão previsível. Não se deu ao trabalho de tentar desviar; apenas ficou parada aonde estava, esperando pelo golpe de seu oponente, já preparada para reagir no momento em que fosse atingida. Assim que você estiver perto o bastante de mim, Marco, eu irei literalmente fechar as portas pra você. Iria fazer com que seus cabelos envolvessem tanto ela quanto o mercenário em um casulo, tal como havia feito com Blair antes. Se eu enrijecer meu cabelo o suficiente, Syd não vai conseguir me interromper com seus tiros, e usando de um pouco de controle eu poderei fazer com que as mechas ao redor de Marco perfurem o corpo dele. A “Dama de Ferro” será o fim desse idiota. Depois disso as coisas seriam fáceis; iria exibir o corpo morto do tolo para Syd, e se o homem fugisse – como esperava que ele fizesse – iria se aproveitar disso para lançar um último ataque e mata-lo de uma vez. E mesmo caso ele não fuja, eu posso sempre usar o corpo de Marco como um escudo humano para cobrir o meu avanço e permitir que eu me aproxime o suficiente para desferir o golpe final. Aquilo era um pouco sujo, tinha de admitir... mas seus oponentes certamente haviam feito por merecer aquilo.

Foi então que, pela segunda vez em um curto período de tempo, um sorriso desapareceu de seu rosto diante que algo que ia completamente além do que ela imaginava. Quando viu Marco mover seu bastão imaginou de imediato que ele estava fazendo aquilo em preparação para lançar um ataque para ela, e por isso sua surpresa foi tão grande quando, ao invés de ataca-la, Marco apoiou a ponta de seu bastão no chão. Usando-o com uma espécie de vara de salto, Marco usou desse bastão para tomar impulso e lançar-se alto, passando acima da cabeça de Flavent enquanto a mercenária só podia observar aquilo de boca aberta.

E enquanto ela ainda estava distraída por isso, o som de um disparo foi ouvido.

Em uma situação normal, Flavent lidaria com isso de forma esperta, racional. Ela procuraria saber de onde exatamente veio o disparo, procuraria identificar de alguma forma do que exatamente isso se tratava para avaliar se era um golpe que podia defender ou um que lhe forçava a se esquivar e então iria reagir de acordo com a necessidade da situação. Mas aquilo não era uma situação normal. Foi pega completamente de surpresa pelo golpe, e, portanto, a sua reação foi puramente impulsiva. Uma mecha de seu cabelo moveu-se como que por vontade própria, assumindo uma forma rígida similar à de uma espada e acertando em cheio o projétil que havia sido disparado contra ela, assumindo corretamente que havia sido Syd quem havia atirado.

Foi só depois disso que ela olhou para o projétil em questão e testemunhou que ele se tratava de nada mais do que uma grande bola de metal disparada por uma arma muito maior. Uma grande bola de metal repleta do que pareciam ser pequenas plaquinhas de metal com um centro vermelho e brilhante. Minibombas de Carcino, compreendeu ela com uma única e rápida olhadela.

Suor correu pelo seu queixo e uma expressão de medo tomou conta de seu rosto, um único instante antes que todas essas bombas explodissem simultaneamente de uma só vez.

=====

A explosão chamou sua atenção, fazendo que por um momento tirasse seus olhos de sua oponente para dirigir seu olhar até ela. A nuvem vermelha e negra se ergueu tão alto quanto os olhos podiam ver, estabelecendo um lindo contraste com o céu naturalmente vermelho das Terras Velhas. Bom, não. Na verdade, não. Quero dizer... nuvem vermelha, céu vermelho, isso realmente não combina tão bem, sabe? Não é como se realmente realçassem um ao outro. Mais para “se misturam um ao outro e fica difícil distinguir qual é qual”. E ao contrário de pintinhos, você não pode só afastar as penas no meio das pernas para ter sua dúvida esclarecida.

Enquanto estava distraído com aquilo a sua oponente tentou reagir, avançando rapidamente contra ele com ambas as suas espadas em mãos. Não se dignou nem a virar seus olhos para ela; com uma de suas garras de dragão ele facilmente segurou a cabeça da mulher e aplicou pressão ali, não o bastante para esmagar seu crânio de uma vez, mas o suficiente para que as espadas escorressem de suas mãos e a brava mercenária que avançava contra ele se transformasse num único instante em uma mulher derrotada que gritava de dor. De qualquer forma, essa explosão foi bem poderosa. E considerando que ninguém no meu grupo possui uma habilidade que possa gerar algo desse tipo, não consigo deixar de imaginar que isso deve ser obra de nossos oponentes. Isso significava que, pelo que lhe dizia respeito, Hadvar ou Flavent poderiam estar com problemas em suas lutas. Bem, se eles estiverem realmente com problemas, que se virem de alguma forma. Não sou babá de ninguém aqui. O dever mínimo de qualquer membro decente do S.O.M.B.R.A. era ser forte o suficiente para cuidar de si mesmo em uma batalha; se aqueles dois não eram poderosos o bastante para lidarem com alguns oponentes fracos como aqueles, então eles não mereciam fazer parte do S.O.M.B.R.A. em primeiro lugar. O que me lembra... aquela pirralha, Neshka, ela foi salva por Hadvar depois da luta dela, não é? Tinha de encontrar o lugar aonde Hadvar a deixou depois. Os fracos não têm lugar entre os membros do meu grupo de elite, e ela envergonhou a todos nós ao ser derrotada. Como líder, é meu dever puni-la por isso... com a morte.

– Largue-a! – A exclamação veio furiosa, mas de uma voz fraca pertencente a um homem fraco. Moveu seus olhos para quem havia dito aquilo, mais divertido do que tudo, e o que viu foi o corpo de Breath há alguns metros deles, jogado no chão, uma poça de sangue abaixo dele. O mercenário havia perdido muito sangue em suas batalhas, sofrido danos demais. Era verdadeiramente milagroso que ele ainda estivesse vivo, mas apesar disso ele ainda parecia tirar forças o suficiente para continuar consciente e até conseguir se arrastar em direção a Robert, como se estivesse tentando detê-lo de alguma forma. Isso era quase fofo. Quase. – Zetsuko... largue ela, maldito! .... Eu... eu sou o seu opon-

Você é meu oponente? Há! Não me faça rir, Breath! – O escárnio e a zombaria ganharam sua voz quando gargalhou do patético mercenário de fogo. O idiota ainda me vem com algo assim? Quem ele pensa que é? Quem ele pensa que eu sou? O que ele pensa que pode fazer? – Você se elogia demais ao dizer que é meu oponente, moleque. Você não tem a menor condição de ser meu oponente em seu estado atual. Na verdade, mesmo em seu melhor dia você não tem a menor condição de ser um oponente para mim. Eu não sei se você entendeu isso até agora, Breath, mas você. É. UM PERDEDOR! Um fracasso ambulante, um fracote sem valor, um pedaço de lixo que não vale o ar que respira! Os chutes que eu dava na barriga da minha mãe quando ainda era um bebezinho nojento são mais fortes do que seus socos. Você nunca foi um oponente meu; você e seus amigos são, para mim, pedaços de carne. Sacos de pancadas com os quais eu me divirto por um tempo até que se tornem entediantes e eu decida me livrar de vocês. Meus subordinados inúteis podem ter falhado em deixar isso claro o bastante, mas permita-me esclarecer algo, Breath “do Fogo”. Eu sou a estrela que brilha na noite, a brisa que vem do mar, a lava que arde nos vulcões e o sol que ilumina o mundo! Eu sou a água que vive na montanha, o crocodilo que vive no pântano, o leão que vive nas savanas e o tubarão que reina nos mares! Eu sou o gato que interrompe o seu sono, o cachorro que rouba a sua comida, a mosca que pousa na sua sopa e o pombo que caga na sua cabeça! EU SOU ROBERT STEINS, LÍDER E FUNDADOR DO GLORIOSO S.O.M.B.R.A., O MAGNÍFICO DRAGÃO DAS SOMBRAS! ... E você, Breath, não é nada perante a mim.

Apesar de todo o seu grandioso discurso que deveria quebrar completamente o espírito de seu oponente e reduzir qualquer medíocre esperança que ele ainda tivesse de lhe derrotar a pó de estrelas, Breath não mostrou medo, nem sequer um sinal de derrota. Faltava um braço e um olho ao homem – ele estava coberto em seu próprio sangue, jogado no chão como o fracassado que era, completamente quebrado e derrotado... e ainda assim, com seu único olho restante Breath encarava firmemente Robert com um olhar desafiador e insubmisso. Um olhar de alguém que não reconhecia sua derrota, que se recusava a se render. Esse olhar... ele me irrita profundamente. Por um momento o sorriso de Robert chegou a coalhar de pura irritação, mas isso não durou muito; logo uma ideia veio a sua mente, e com um sorriso sadista no rosto ele se pôs a implementá-la.

Ainda estava segurando Zetsuko com uma de suas mãos; aproveitou-se disso. Moveu bruscamente o corpo da mulher com facilidade como se ela fosse uma boneca de pano, erguendo-a acima do chão para exibi-la como um troféu ao companheiro dela. Esses dois parecem ser bem próximos. Talvez eles sejam amantes. Talvez sejam apenas bons amigos. Pouco importa, pra ser sincero. O que importa é que eles se importam um com o outro... e esse é um sentimento que eu posso usar. Sorriu triunfantemente para Breath um momento antes de começar a apertar o crânio de Zetsuko com ainda mais pressão do que antes. Os gritos de dor da mulher se tornaram mais altos e mais desesperados, sangue começou a escorrer dos lugares aonde seus dedos começaram a ameaçar perfurar a pele dela. Podia esmagar a cabeça da vadia quando bem quisesse, mas aquela era a forma mais vagarosa, a mais agonizante... a mais divertida.

– Talvez isso deixe mais claro para você o que quero dizer, Breath – disse Robert, regozijando-se da expressão abismada e temerosa que havia tomado conta do rosto de Breath, da forma como o olho dele estava arregalado e de como a pele do mercenário havia se tornado pálida. Não parece tão desafiador agora, hum? – Você é um fracote, um fracassado. Um guerreiro poderoso poderia me impedir de fazer isso, poderia proteger aqueles que amam. Mas, novamente, você é um fracote. Portanto, faça o que os fracotes fazem; fique aí de joelhos enquanto eu esmago o crânio dessa puta barata!

Suas palavras fizeram com que o mercenário entrasse em desespero total. Seu braço restante moveu-se freneticamente, tentando de alguma forma lança-lo para frente, mas lhe faltavam forças para algo assim. Por mais que ele tentasse, tudo o que conseguia era se aproximar alguns centímetros de forma extremamente vagarosa, uma verdadeira tartaruga aleijada. Isso, isso mesmo. Sinta esse desespero, Breath. Sinta esse medo, esse terror absoluto. Sinta a impotência de ser incapaz de fazer algo para me impedir! Consegue ver agora? Essa é a diferença entre um vencedor como eu e um fracassado como você!

Preparou-se para fechar com tudo sua mão e enfim esmagar a cabeça da mulher, mas antes que tivesse a chance de fazer isso, um nome ecoou pelo ar.

Wasserfall.

Aquilo chamou sua atenção, bem a tempo que visse alguma coisa surgindo no horizonte. Um estranho tipo de projétil de forma similar a de uma flecha avançava em direção a ele com uma velocidade estrondosa que quase não conseguia acompanhar. Mas o quê? Que raios é isso? Tentou saltar para fora do caminho daquilo, mas não teve a menor chance de fazer algo assim; no momento em que esse projétil se aproximou um pouco de Robert a velocidade dele aumentou ainda mais, dobrando ou triplicando em questão de momentos. Antes que se desse conta o projétil lhe atingiu bem no meio do peito, e no instante em que isso aconteceu, ele explodiu.

Aquela não foi uma explosão descontrolada e espalhafatosa como a que havia visto pouco tempo atrás. Não, aquela foi uma explosão extremamente concentrada com uma área de efeito muito pequena, o que apenas fez com que ela fosse ainda poderosa. A força da explosão fez com que sua mão soltasse Zetsuko, bem como fez com que seu corpo fosse arrastado para trás com violência; teve de usar toda a sua força apenas para conseguir manter seus pés firmes no chão, e mesmo assim foi pouco que não foi lançado pelos ares por aquela explosão. Quando finalmente a força daquela explosão aliviou e ele foi capaz de parar, seus pés haviam deixado uma verdadeira trilha de destruição por onde haviam passado... e mais importante que isso, Robert estava realmente ferido. Mas o que foi isso? Quem lançou um ataque desses contra mim?! Um buraco havia surgido em suas vestes, um buraco que dava diretamente para sua carne tão queimada quanto carvão por baixo delas. Esse golpe... ele foi.... Contra a sua vontade, sangue subiu à sua garganta escapou para o chão; uma quantia medíocre, mas muito mais do que deveria vir. Maldição... MALDIÇÃO! QUEM?! QUEM OUSA?!

MALDITO SEJA, QUEM É O RESPONSÁVEL POR ISSO?!

Seu rosto se ergueu quando disse aquilo, completamente diferente de antes. Enquanto antes Robert mantinha uma aparência controlada, divertida e zombeteira, sempre agindo como se estivesse no mais absoluto controle da situação, naquele momento ele mostrava que isso não era mais do que uma máscara. Seus cabelos agarravam-se ao seu rosto; seus olhos estavam esbugalhados, acirrados, fixos a sua frente, buscando encontrar o oponente responsável por lhe ferir.

Pela primeira vez, Robert mostrava-se verdadeiramente enfurecido.

– .... Sabe, eu devo dizer, estive um tanto quanto hesitante em usar essa técnica. Wasserfall. – A voz que disse aquilo era uma voz tranquila e controlada, extremamente calma. Robert conhecia essa voz, e isso fez com que uma de sobrancelha se erguesse, tal como fez com que Breath e Zetsuko virassem com esforço seus rostos na direção da qual ela vinha. – Quero dizer, na teoria ela é ótima, mas você sabe que a diferença entre a teoria e a prática é bem grande, não sabe? Eu testei ela algumas vezes antes e os resultados... bem, digamos que eles não foram tão bons quanto eu esperava que fossem. Mas, parece que no fim das contas eu consegui efetuá-la com sucesso. Quem diria, hein? Bem que dizem que a necessidade faz o homem; consigo ver a lógica por trás de um pensamento como esse.

Enquanto falava, o dono da voz ia se aproximando. Inicialmente ele se manifestou apenas como uma figura no longínquo horizonte, mas à medida que ela ia caminhando em direção a Robert, a figura ia ficando cada vez mais clara. Quando ela se aproximou o suficiente para que pudesse reconhecer quem era aquela pessoa, nem mesmo ele foi capaz de esconder sua surpresa.

– De qualquer forma, agora que sei que sou capaz de usar técnicas como essa, acho que minhas chances contra você são um pouco melhores, não concorda? – Disse Denis Gladen, o homem que havia matado poucos minutos atrás, olhando para Robert com um sorriso no rosto enquanto forjava uma flecha de energia similar à que havia atirado antes na palma de sua mão direita. – O que me diz, Steins? Hora da Segunda Rodada?





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