O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 50
Marionete


Notas iniciais do capítulo

Yo, sendo bem breve aqui, caso alguém esteja interessado, eu comecei uma outra história que está sendo feita paralelamente a essa e a Luz e Ouro, chamada "Guerra das Gangues". É um estilo meio diferente, mas acho que vocês podem gostar dela. Caso queiram dar uma olhada, só seguirem o seguinte link:

http://fanfiction.com.br/historia/625241/Guerra_das_Gangues/



– REFORÇOS... isso significa que agora são quatro inimigos que tenho diante de mim, não é? – As palavras vieram em um tom extremamente calmo dos lábios de Neshka, como se isso não significasse nada para a garota. A maioria das pessoas ficaria no mínimo apreensiva ao ver o número de seus inimigos aumentar tanto assim de uma vez, mas Neshka simplesmente não parecia se importar, comportando-se de forma completamente indiferente a isso. – Não faz diferença. Um inimigo, dez inimigos, cem inimigos... formigas são formigas, no fim das contas.

– Você planeja vingar Ulrock ao subestimar seus inimigos, Neshka? – A censura de Hadvar foi quase que imediata. O braço do mercenário havia voltado ao normal depois que seu confronto com Robert havia chegado ao fim, mas mesmo assim ele ainda estava visivelmente tenso, ainda que por um motivo diferente. Os dentes rangentes dele e seus punhos cerrados deixavam bem claro que a sua vontade era de ir para o lado de Neshka e ajuda-la, e o pedido da maga era a única coisa que ainda lhe segurava. – Não se esqueça de que um desses quatro é aquele que derrotou Ulrock. Não os subestime, não seja burra. Pare com essa estupidez e me deixe te ajudar. Juntos podemos derrotar todos el-

– Eu estou bem, Hadvar, não se preocupe – cortou ela, um leve tom de irritação começando a se formar em sua voz com aquela resposta. – Não vou perder para eles, para nenhum deles. Fique tranquilo. Irei derrota-los num instante.

Ouvir aquilo fez com que uma careta surgisse no rosto de Syd. Uma gota de suor frio escorria pela lateral de seu rosto, e embora a postura que ele assumia parecesse ser uma postura de batalha, ele estava preparado para correr dali com tudo se a situação ficasse realmente ruim. Droga... isso é preocupante. Essa garota... ela está bem confiante. Confiante demais para alguém que viu um de seus companheiros ser derrotado por mim daquela forma. Só conseguia assumir que ela tinha algum bom plano em sua mente para estar tão confiante, mas considerando que não sabia qual era a habilidade exata dela, era bem difícil planejar ao redor disso. Ela parece ser uma usuária de Magia de Fios pelo que posso ver; não necessariamente o tipo de magia mais popular, mas um estilo que ainda pode se mostrar consideravelmente forte nas mãos de alguém esperto. Além disso, todos os membros do S.O.M.B.R.A. possuem um título interno se não me engano, e a não ser que eu esteja errado, o título pelo qual ela atende é algo como “a Incrível Rainha dos Fantoches” ou coisa do tipo. Sendo assim, seu chute seria de que a habilidade de Neshka constituía-se de, de alguma forma, controlar fantoches com seus fios de forma a fazer com que eles lutassem por ela. Isso dito... ela não parece trazer nenhum fantoche consigo, e se ela fosse usar alguma magia de transporte para trazer um fantoche de batalha para a luta, ela provavelmente já teria feito isso... sendo assim...

– EI, SKYLAR! – Gritou com todas as forças no momento em que seu cérebro raciocinou uma conclusão, fazendo com que o jovem mercenário se virasse para ele um pouco assustado. – O que você está fazendo parado aí? Temos muitos feridos aqui! Tire-os do campo de batalha e aplique os primeiros socorros sobre eles, maldição!

Foi como se suas palavras tivessem despertado o garoto de um transe; assim que disse elas os olhos dele imediatamente caíram sobre Zetsuko e os outros, e então o seu rosto se iluminou como se só agora tivesse notado a presença deles. Com um salto, Skylar correu com todas as forças em direção ao primeiro dos três mercenários – Denis – algo que fez com que Syd suspirasse levemente em alívio, mesmo que por apenas um momento. Ótimo. Skylar possui algumas habilidades de cura. Não sei se poderemos contar com esses três na batalha que está por vir, mas isso pelo menos não vai deixar que eles morram para um defunto. No entanto, seu aviso tinha tido um custo, e um bem caro; quando voltou a olhar para ela viu que os olhos de Neshka agora estavam fixos nele, tentando lhe olhar de forma neutra, mas falhando em esconder o completo ódio da garota. Sinto muito garota, mas eu não vou lhe deixar fazer o que quer. Te chamam de “a Rainha dos Fantoches”, e eu acho que sei o porquê disso. Você realmente usa de fantoches nas suas batalhas, não é? Fantoches Humanos.

Mesmo com Skylar correndo para ajudar os mercenários e com a clara compreensão de Syd daquilo, ela não desistiu de seu plano. Viu-a mover suavemente um de seus dedos com fios amarrados ao redor dele, e no momento em que ela fez isso o corpo de Zetsuko sacudiu-se por inteiro. Ah não, como se eu fosse deixar você fazer algo assim! Não queria gastar outro dos seus tiros especiais – principalmente não considerando que ainda não tinha completa noção de quais eram as habilidades do adversário – mas aquela não era nem de longe a única arma que tinha em seu arsenal. Graças as suas vestes, um pequenino botão ficava escondido na parte do seu pulso da outra mão; apertou esse botão, e imediatamente uma pistola branca surgiu na palma dessa mão como que por um passe de mágica, surgindo como uma manifestação de pura energia.

O primeiro disparo foi verdadeiramente um erro dele; um disparo muito rápido sem que mirasse primeiro antes, almejando surpreender sua oponente. Bom, alcançou seu objetivo, ela pareceu bem surpresa, mas em troca disso o disparo também passou a cerca de trinta centímetros do rosto dela. Ah, porcaria. Ajustou sua mira e disparou de novo, mas agora Neshka já não se surpreendeu; ela moveu seu rosto para o lado bem a tempo, fazendo com que a bala conseguisse apenas fazer um leve corte superficial em sua bochecha, e os olhos da menina se afiaram de imediato diante daquilo. Disparou mais três vezes, mas não teve sorte em nenhum desses; ela abaixou-se rapidamente, evitando completamente o primeiro, e imediatamente disparou a correr em uma velocidade tão grande que nunca teve tempo de acertar os outros dois. Droga, ela é boa. Muito boa. Continuou a atirar contra ela – mais para mantê-la longe e em movimento do que para tentar atingi-la a essa altura – e enquanto fazia isso arriscou-se a olhar para onde Blair e Coralina estavam antes. Coralina havia desaparecido completamente – o que era algo francamente bem insultante já que, se alguém deveria estar correndo ali, esse devia ser Syd – mas Blair por sua vez havia saltado até o chão e agora corria com tudo em direção a Neshka enquanto trazia uma adaga em suas mãos, visando interceptar a maga.

Mas Neshka era uma membra do S.O.M.B.R.A., e sendo assim, ela não iria simplesmente deixar que Syd e os outros fizessem o que quisessem daquela forma. Ela não demorou nem um segundo para reagir depois que viu o que Blair planejava fazer; sem nem sequer diminuir seu ritmo ela simplesmente moveu sua mão para um lado, e no momento em que ela fez isso tanto Syd quanto Blair puderam ver os inúmeros fios que vinham dessa mão envolverem o corpo da invocadora, amarrando-se ao redor dela por apenas um instante antes que Neshka voltasse a mover bruscamente sua mão e os fios acompanhassem seu movimento. Blair foi facilmente arremessada violentamente para longe por esse golpe, sendo lançada direto contra as ruínas de uma casa destruída durante a Batalha do Salão Cinzento, quebrando a pedra e o concreto com seu corpo e soterrada sobre os destroços de ambos. Syd simplesmente não pode impedir que seus olhos se arregalassem ao ver isso. Mas... que força! Eu pensei que essa garota fosse ser mais fraca fisicamente do que Ulrock, mas se ela é capaz de fazer algo assim com tanta facilidade... ela é muito perigosa! Apertou novamente o gatilho de sua arma, mas ao invés de ouvir o estouro de um novo disparo, o que ouviu foi o clique que indicava que o gatilho estava fazendo.

No momento em que ouviu isso, uma expressão de terror surgiu em seu rosto, ao mesmo tempo em que Neshka voltou seu olhar de volta para ele com uma terrível sede de sangue nos olhos.

Esperou que ela lançasse algum ataque contra ele ou coisa do tipo ao ver a sua situação, mas não foi isso que ela vez. Ao invés disso, tudo que Neshka fez foi mover um dedo, gesticulando como se estivesse chamando por Syd. Não entendeu o que isso significava, nem tampouco teve tempo para tentar compreender; uma grande dor cortou através de suas costas, fazendo com que seus dentes se cerrassem com força e com que seu corpo vacilasse. Caiu sobre um joelho no chão, reprimindo um grito de dor que tentava lhe fugir, sentindo o seu sangue correr pelas suas costas. Como? Quem?! Será que aquela garota havia em algum momento enrolado um de seus fios ao redor dele? Havia sido descuidado ao ponto de não notar algo assim?

Ergueu seus olhos para ver se era esse o caso, e o que viu lhe surpreendeu mais do que o que podia imaginar. Neshka não havia usado de seus fios para lhe cortar, ao menos não diretamente; quem havia lhe cortado era ninguém menos do que Zetsuko... ou, melhor dizendo, o corpo claramente desacordado de Zetsuko.

– Você... tem de estar brincando! – Sua frase saiu misturada a um grunhido de dor devido ao esforço que fez para colocar-se novamente de pé enquanto falava, sem nunca tirar seus olhos do corpo de Zetsuko ou da sua verdadeira oponente mais ao longe. – Eu estive atirando em você a todo momento. Blair também avançou contra você. Quando foi que você teve a chance de colocar fios em Zetsuko?!

– A todo momento – respondeu simplesmente Neshka, em um tom que sugeria que essa resposta era óbvia para ela. – Por que está tão surpreso? Eu sou uma integrante do S.O.M.B.R.A., uma mercenária de elite. As minhas habilidades estão muito além dos sonhos mais loucos que pessoas como você podem um dia ter.

– Sim, claro, é por isso que eu chutei a bunda do seu amigo daquele jeito, não é? – O retruque saiu de seus lábios por puro instinto antes que ele sequer pensasse no que estava falando, e assim que disse as palavras Syd imediatamente se arrependeu disso. Oh, droga! Eu e minha boca grande! Isso certamente vai me dar problemas...

Não estava enganado em pensar assim. A garota antes parecia até conservar algum tipo de calma e racionalidade, mas no momento em que ela ouviu aquelas palavras, qualquer traço disso desapareceu por completo de seu semblante. Seu rosto foi consumido pela fúria, e sem pensar duas vezes ela moveu seus dedos, fazendo com que o corpo de Zetsuko tornasse a avançar contra Syd. Merda, merda, merda, merda, bosta, cocô, merda, merda, MERDA! Tentou se afastar da mulher tão rápido quanto pôde, mas não teve muito sucesso nisso também; graças ao corte em suas costas Syd sentia um pouco de dor sempre que tentava fazer um movimento um pouco mais brusco, e além do mais, com o corpo naturalmente ágil de Zetsuko sendo forçado além dos seus limites pelos fios de Neshka, ele simplesmente não era rápido o suficiente para fugir dela. Ah, DROGA!

Invocação de Nível Dois: MINOTAURO! – Aquelas palavras ressoaram pelo ambiente com uma força comparável à de um trovão, apenas um momento antes que um grande estrondo chamasse tanto a atenção de Syd quanto de Neshka. Havia sido a voz de Blair que havia dito aquilo, mas o que emergiu da dos escombros nos quais a invocadora estava antes foi nada mais do que um gigantesco homem-touro de mais de cinco metros de altura, extremamente musculoso e com um par de chifres de mais de um metro cada em sua cabeça, bem como que com uma argola de ouro em seu nariz. Quando o viu, esse grande monstro já havia saltado em direção a eles, e para um ser tão grande e aparentemente pesado como ele, a sua velocidade era completamente insana; num piscar de olhos ele havia cruzado a distância que o separava da ação e em um instante um machado gigante surgiu em suas mãos, descendo de imediato com toda força; não contra Syd, nem contra Zetsuko, mas mirando atrás de Zetsuko.

Mirando nos fios que a controlavam.

O corpo da espadachim caiu no chão como uma boneca quebrada no momento em que os fios se partiram. Syd viu isso e não perdeu tempo; reunindo todas as suas forças o mercenário avançou, tomou a mulher prateada nos braços e disparou em direção a cidade, fugindo desavergonhadamente do campo de batalha sem olhar para trás. A besta de chifres que havia o salvado acompanhou cada movimento do homem com grandes olhos brancos furiosos; cada músculo dela estava tenso e sua respiração era vinha com força, tudo devido a todos os esforços que ela estava fazendo. Um minotauro era, afinal de contas, pouco mais do que uma besta selvagem com algum semblante de humanidade em seu cérebro, e bestas selvagens – sobretudo predadores – tinham o forte instinto de massacrar qualquer coisa que fugisse delas.

Mas aquele era um minotauro domado, uma besta com mestre, e por mais que não quisesse, tinha de obedecer aos comandos de sua senhora.

De onde estava, Neshka olhava para aquela criatura enquanto tentava conter seu ódio. Ela havia chegado tão perto, tão, tão perto! Por um momento ela pôde até mesmo vislumbrar sua vingança – ver aquele idiota ser decapitado pela mulher que havia salvado poucos momentos atrás seria mais do que apenas irônico; seria uma vingança digna, seria algo que garantiria que o espírito de Ulrock pudesse repousar em paz. Mas, claro, alguém tinha de se intrometer, não tinha?

– Eu deveria ter te matado antes, quando tive a chance.

As palavras da garota não foram direcionadas ao minotauro, mas sim aquela que o comandava. A mercenária que chamava de Blair emergiu dos escombros nos quais havia sido jogada antes com um pequeno sorriso satisfeito brilhando em seu rosto. Estava suja devido ao pó e a pedra e seu braço direito em particular estava sangrando de forma bem considerável, mas fora isso ela não demonstrava sinal algum de estar realmente ferida, nem ao menos de sentir alguma dor. Ela apenas... sorria. Sorria de uma forma debochada, auto satisfeita e cheia-de-si que irritava profundamente Neshka.

– Você deveria. Você realmente deveria. – A cabeça dela pendeu para a direita e depois para a esquerda, como se estivesse procurando por um ângulo melhor pelo qual observar Neshka, e a cada movimento dela a maga dos fios conseguia ver o seu ar mudar, conseguia ver a aura da mulher ir perdendo o seu tom zombeteiro para ganhar um tom mais sério e ameaçador. – Isso é realmente uma pena para você, garota. Você não terá outra chance.

No momento em que as últimas dessas palavras ganharam voz, os olhos de ambas as oponentes se encontraram. Ambas estavam sérias agora. Ambas estavam furiosas – cada uma por seus próprios motivos. Ambas tinham a mais completa e absoluta intenção de parar apenas quando a outra estivesse morta.

Mas só uma iria poder alcançar seus objetivos.

Quem começou foi Blair. A besta que ela havia invocado subitamente jogou sua cabeça para trás e rugiu com toda a sua força, e de alguma forma isso serviu como alguma espécie de gongo. Por mais que a mercenária fosse uma maga, Blair também contava com excelentes habilidades físicas; seus movimentos eram rápidos e por mais que ela não fosse comparável a alguém que realmente se focava na velocidade, ela ainda era veloz o suficiente para cruzar o ambiente mais rápido do que alguém esperaria. Enquanto avançava ela retirou outra adaga escondida em suas vestes uma vez que a primeira que havia tentado usar havia desaparecido em meio aos escombros, segurando-a com a mão esquerda e reforçando o apoio dela com a direita. Hm.... ela deve ter dificuldades com isso. A maioria das pessoas no mundo eram destras, e até então Neshka estava convencida de que esse também era o caso de Blair; isso significava que ela teria maiores limites em seus ataques e menos firmeza na arma. Além do que... o braço direito dela está muito ferido. Isso implicará num rendimento pior por parte dela devido a dor. Sim, dor. Ela havia tentado esconder isso – e honestamente, até que havia feito um bom trabalho nisso – mas Neshka não havia deixado a expressão de dor que cruzou o rosto dele por um instante quando usou de sua mão direita passar despercebida. Hm.... talvez eu deva me focar em matá-la de uma vez. Aquilo provavelmente seria mais complicado do que simplesmente lançar alguns ataques contra ela – o que estava ferido era o braço de Blair, afinal de contas, não suas pernas. Mas ainda assim, valia a pena considerar isso. O garoto entre eles deve está ocupado com os outros a essa hora. A mulher que veio com ela e o tal de Syd fugiram, abandonaram a batalha. Ela está sozinha. Se eu puder matá-la, então posso caçar o idiota em paz.

Mas por maior que fosse a sua vontade de dar um fim rápido ao estorvo que era aquela mulher, viu-se forçada a voltar sua atenção para preocupações maiores naquele momento.

Pouco depois de Blair começar seu avanço, o minotauro que ela havia invocado fez o mesmo. Dado seu tamanho, seu peso e o fato de que aquilo estava carregando o que deveria ser no mínimo trezentos quilos em aço forjado, a besta era bem mais lenta do que sua mestra, mas seu tamanho elevado fazia com que ela avançasse bem mais com cada passo. Aquilo não era o suficiente para tornar a velocidade total do seu avanço comparável ao de Blair, mas ajudava bastante em diminuir a diferença entre os dois de forma que ela não fosse tão gritante assim. O minotauro estava apenas há cerca de dois ou três metros atrás de Blair, aproximadamente, e isso era um tanto quanto preocupante. Eu não sou uma especialista em magias de invocação, mas eu sei o suficiente para poder dizer que a não ser que você invoque um ser que ganha forma devido as suas forças – como um elemental, por exemplo – a sua invocação não desaparece depois da sua morte. O máximo que acontecia era que essa invocação em questão enlouquecesse – invocações como aquele minotauro eram, afinal de contas, bestas sem muita capacidade racional. O que dá alguma direção a essas criaturas são os seus “mestres”, seus invocadores. Sem as ordens de Blair para lhe orientar, o minotauro possivelmente iria enlouquecer e atacar todos ao seu redor. Ou, talvez, ele simplesmente continuasse a seguir o último comando que recebeu e só depois disso perdesse a cabeça. Qualquer que fosse o caso, ambas as alternativas não mudariam o fato de que ele continuaria a avançar contra Neshka, e isso não era algo que ela apreciava. Se eu perder tempo tentando matar essa mulher agora, esse minotauro vai me cortar ao meio antes que eu possa evita-lo. Preciso me livrar dele antes de fazer qualquer coisa assim.

Respirou fundo. Flexionou os dedos de ambas as suas mãos e em seguida fechou-as em punhos rígidos. Então, lentamente, deixou que o pai-de-todos da sua mão esquerda se erguesse, no que muitos consideravam como um gesto obsceno. Deixou que sua mana fluísse por seu braço para esse dedo, tomando forma sólida na ponta dele. Um único fio foi o que se manifestou dali, tão fino que o olho humano era incapaz de vê-lo, tão afiado quanto uma navalha, tão flexível quanto um chicote. A arma perfeita para alguém como Neshka.

Fio-Navalha: – A pequena maga jogou seu braço para trás sem medo, esticando completamente seu fio e preparando-o para o que estava por vir. – Chicote Laminado!

Ela tornou a lançar seu braço para frente com duas vezes mais velocidade do que quando havia o jogado para trás, movendo-o em um completo ângulo de cento e oitenta graus ao redor da dianteira de seu corpo. Naturalmente, seu fio acompanhou todos os movimentos dela, e naturalmente, isso fez com que ele acertasse em cheio o minotauro.

Um urro inumano angustiado de dor ressoou por todo o ambiente com uma força tão grande que ele ameaçava estouras os tímpanos de Neshka. As metades inferiores das pernas do minotauro permaneceram em pé aonde estavam antes, enquanto que o resto do corpo da criatura caiu ao chão. Sangue fluiu dos cortes que haviam decepado as pernas do monstro em jatos negros, formando rapidamente uma poça abaixo dela, tudo isso enquanto a criatura se debatia com todas as forças em dor e agonia. Isso é um pouco triste, para ser sincera. Poucos minutos atrás aquele minotauro era um verdadeiro terror, um monstro que representava uma ameaça tão grande que Neshka havia tido de priorizá-lo sobre a mestra dele. Agora, no entanto, gemendo e se debatendo daquela forma, ele simplesmente não conseguia deixar de ser bem... patético. Essa coisa me mataria sem pensar duas vezes se tivesse a chance..., mas não tenho nada contra ele. Ele não merece sofrer dessa forma. Com esse pensamento em mente, Neshka não pensou duas vezes em mover novamente seu dedo. Dessa vez chicote acertou a criatura na cabeça, e enquanto metade de seu crânio caia para trás, o resto da besta tombou para frente.

Dedicou um único rápido olhar ao minotauro morto antes de voltar novamente sua atenção para o principal perigo ali. Blair estava perigosamente próxima agora, próxima demais para que pudesse se dar ao risco de lançar um ataque contra ela. Nem tão pouco tenho tempo para me esquivar... o que me deixa com apenas uma alternativa.

Usando de seus poderes, fez rapidamente com que um único surgisse entre dois dos dedos de sua mão livre, e usando esse fio ela bloqueou a lâmina da adaga quando sua oponente atacou.

Surpreendente. A força pura por trás do ataque de Blair foi muito mais do que havia imaginado. Considerando que a mulher era apenas uma maga com uma tendência a lutar de forma semelhante a uma guerreira por vezes, havia imaginado que a força física dela devia estar em um nível bem baixo e que, portanto, só um fio deveria ser mais do que o bastante para defender-se. Estava começando a arrepender-se dessa decisão agora; com apenas um fio não tinha poder defensivo o suficiente para suportar bem a pressão que sua oponente exercia, e isso fazia com que Neshka sentisse-se mais pressionada do que deveria. Compreender isso fez com que uma careta surgisse em seu rosto. É problemático que ela seja forte assim... mas isso ainda não é um perigo para mim, não na situação atual. Parte das suas habilidades era a capacidade de criar múltiplos fios no mesmo ponto, ligando-os a pontos similares. Foi exatamente o que fez naquele momento; criou mais quatro fios paralelos ao primeiro, e com a ajuda deles viu-se capaz de bloquear o golpe de Blair de forma mais efetiva.

– Você é bem forte para uma criança – murmurou sua oponente, mostrando-lhe um sorriso amarelo enquanto continuava a lutar para ganhar espaço na disputa.

– Você é bem forte para uma fracote – respondeu Neshka, sem humor para manter papo-furado em um momento como aquele.

Estava usando apenas de uma de suas mãos para bloquear o golpe, o que significava que, apesar de tudo, ela ainda tinha a possibilidade de atacar. Foi isso que fez. Usando seus poderes, criou finos fios ao redor de seus dedos da mão livre, envolvendo-a com fios laminados e fazendo com que ela se tornasse tão afiada quanto a lâmina de uma navalha, e sem hesitação moveu essa mão contra sua oponente. Blair até que conseguiu ver esse golpe e teve uma reação bem rápida, desistindo imediatamente de seu ataque e saltando para trás, mas nem toda a velocidade do mundo iria ser o suficiente para livrar completamente a mulher do seu poder. Ela conseguiu evitar a maior parte do dano, mas mesmo assim suas roupas foram rasgadas e cortes profundos surgiram em sua barriga, deixando com que uma boa quantia de sangue caísse no chão. Uma expressão de dor surgiu em seu rosto – algo que trouxe uma boa satisfação a Neshka, e sem pensar duas vezes a maga dos fios preparou-se para investir e criar mais disso.

Mas no momento em que dobrou as pernas e preparou-se para lançar-se contra Blair, sentiu algo vindo com força em sua direção pela direita.

Dessa vez, foi Neshka que não pode evitar completamente o golpe de seu oponente. Saltou para o lado assim que sentiu aquilo, mas mesmo assim a lâmina de uma adaga conseguiu atingir sua testa de raspão, criando um corte que, embora não fosse profundo o suficiente para ser considerado um dano real, ainda era profundo o bastante para tirar sangue dela. Droga, isso não é bom. Um corte desses em uma área como a sua testa era algo bem problemático – não por ser perigoso por si só ou coisa do tipo, mas pelo fato de que o sangue que fluía da ferida iria atrapalhar a sua visão se corresse solto assim. Eu tenho de fechar essa ferida com um pouco de magia assim que puder..., mas não agora. Por hora, tinha questões mais preocupantes com as quais lidar.

Ergueu seu rosto e olhou na direção da qual o golpe havia vindo antes, e não viu absolutamente nada. Tal como esperava. Compreendo... um oponente que usa habilidades de disfarce, hm? Essa era a única explicação. Se seu oponente tivesse se afastado correndo ou coisa do tipo, Neshka certamente teria ao menos ouvido os passos dele. Isso significa que o que ele deve ter feito é usar de alguma habilidade de disfarce para que eu não possa vê-lo. Pelo que sei, ele está bem diante de mim, mas essa sua habilidade de camuflagem – qualquer que seja ela – está me impedindo de vê-lo. Aquilo era problemático. Teria de buscar uma boa alternativa para lidar com esse oponente se não podia contar com sua visão contra ele...

– Neshka, mantenha-se atenta! – A voz de Hadvar cortou pelo ambiente, chamando a atenção dela. Era claro que ele fazia isso a contragosto, mas isso não mudava o fato de que Hadvar havia permanecido parado aonde estava, deixando que Neshka fizesse o que queria. No entanto, aparentemente nem mesmo isso era o suficiente para que ele ficasse totalmente de fora da luta, dada a forma como ele estava chamando a atenção de Neshka naquele momento. – Um oponente que você não pode ver é realmente um problema, mas já lidamos com coisa pior no passado. Você vai poder lidar com ele ou ela quando a hora chegar tranquilamente, então não se preocupe com isso. Ao invés disso, foque sua atenção no oponente que você pode ver! Lembre-se: essa mulher aparenta ser uma invocadora, então você deve prestar duas vezes mais atenção nela! Até mesmo invocações de baixo nível podem ser um perigo se você tiver de enfrentar um exército delas!

Sentiu seus lábios se contorcerem em uma careta ao ouvir aquilo. Hadvar, você é um doce e eu te amo como se fosse meu irmão, mas pelos Deuses, você enche o saco de vez em quando. Sabia de tudo aquilo, tinha a mais completa noção do que ele estava falando, e o que ele havia lhe aconselhado era justamente o que ela planejava fazer. Tudo que ele havia conseguido com aquele grito era anunciar sua estratégia para seus inimigos, o que não era algo que Neshka apreciava. Mas... por mais que você seja chato as vezes e que isso tenha me prejudicado mais do que me ajudado... eu ainda fico feliz em ver que você se importa comigo assim, Hadvar.

Moveu seus de volta para Blair, bem a tempo de ver que a mulher estava partindo em outra investida contra ela. Foi mais rápida; enquanto Blair ainda corria em sua direção, deixou com que apenas o pai-de-todos de uma de suas mãos ficasse a mostra, usando seus poderes para criar um fio na ponta de seu dedo. Esse ataque foi o que matou facilmente o seu minotauro, invocadora. Vamos ver como você se sai.

Fio-Navalha... – no momento em que jogou seu braço para trás, os olhos de sua oponente se arregalaram, compreendendo o que estava por vir. Sorriu maldosamente, e sem hesitar, foi em frente com seu ataque. – Chicote Laminado!

A força do golpe foi tão grande quanto a do primeiro, o responsável por decepar as pernas do minotauro. Ainda assim, ele não nada mais do que cortar alguns prédios e destroços distantes ao meio. No momento em que ela viu o golpe que preparava, Blair dobrou seus joelhos. Quando lançou seu ataque contra ela a mulher já havia saltado ao ar, o que fez com que seu ataque simplesmente passasse inofensivamente por baixo dela. Tch... eu devia ter imaginado que ela não iria ser atingida por um ataque desses tão facilmente. Uma vez que ela já viu o ataque, a preparação dele e a sua área de alcance, ela se torna capaz de desviar disso. Ainda assim, isso não fazia muita diferença. Por mais que ela tenha sido capaz de desviar do meu golpe, ela agora está em pleno ar. Sem capacidade de locomoção, sem magias de defesa... ela não tem para onde correr dessa vez. Jogou novamente sua mão para trás, preparando-se para um novo golpe...

E sem hesitar lançou um ataque contra a oponente atrás dela.

Ela ressurgiu assim que levou o ataque, sua expressão atônita, incapaz de acreditar no que havia acabado de acontecer. Acho que já ouvi falar alguma coisa dessa mulher. Coralina.... Pelo que havia ouvido, aquela mulher era uma mercenária famosa por dominar um estilo de magia bem único que fazia com que ela se tornasse imperceptível. Supostamente, enquanto usando suas habilidades, Coralina era impossível de se notar. Não havia prestado atenção o suficiente para saber se os sons dela eram ocultos por sua magia ou se ela apenas afetava o visual, mas de qualquer forma, isso não havia importado. No fim das contas, isso era apenas magia. E se algo é criado pela magia, então outra magia pode compreender isso. Essa era uma regra básica da magia, mas uma extremamente útil também. Foi ela que havia acabado de usar para conseguir acompanhar os movimentos da mulher. Ela se máscara com a magia. Sendo assim, se eu usar minha própria magia em meus sentidos para ampliar as capacidades deles além dos limites humanos, eu posso encontrá-la. Não tinha usado uma habilidade para ampliar sua audição ou visão, mas uma simples habilidade que servia como um sensor, que lhe informava as concentrações e atividades envolvendo a mana e a magia ao seu redor, dizendo as suas posições e lhe informando a distância delas. Dados mais do que o suficiente para que eu possa reagir a algo assim.

A mulher vacilou um passo para trás, aquela expressão embasbacada ainda congelada em seu rosto. Em seu peito, um longo corte diagonal profundo sangrava, tingindo suas roupas de vermelho enquanto seu corpo pouco a pouco ia perdendo as forças e caindo de costas ao chão. Infelizmente, devido à forma súbita como havia acertado o ataque nela e o fato de que esse ataque nem sequer havia sido mirado naquela mulher originalmente, seu golpe não fez metade do dano que deveria causar. Em qualquer outra situação esse golpe teria cortado o corpo dessa mulher ao meio como se não fosse nada, mas isso? Isso não é nem sequer um golpe fatal. A mulher provavelmente iria acabar morrendo devido à perda de sangue, mas essa seria uma morte lenta e angustiante, o completo contrário da morte rápida que havia planejado para ela. Mas, bem, não importa. Ela é minha oponente, não devo perder tempo me perguntando o estado dela. Principalmente não quando tinha coisa bem mais importantes com as quais lidar.

Ouviu os passos da sua oponente original aproximando-se rapidamente, mas não se preocupou com isso; já estava preparada para lidar com ela. Virou-se de uma vez de volta para a invocadora, e no momento em que fez isso aproveitou-se do movimento para lançar fios quase que invisíveis da palma da sua mão e das pontas dos seus dedos. Quase, quase. Sua adversária estava bem próxima dela quando fez seu movimento; mais alguns momentos e ela iria estar próxima o bastante para lhe atacar, e isso seria bem perigoso. Mas a situação não chegou a isso. E agora, a vitória é minha.

Moveu seus dedos, e conforme fez isso o corpo de Blair também se moveu, contra a vontade de sua dona. Blair White. Também ouvi falar de você, Invocadora. Dos estilos de magos que conhecia, invocadores eram uns dos com o maior potencial. A capacidade de invocar criaturas para lutar a seu favor era algo bem poderoso, embora inegavelmente covarde. Em níveis avançados, invocadores eram capazes de invocar verdadeiros exércitos para lutarem pela sua vontade, bem como capazes de invocar criaturas antigas com um nível de poder quase lendário, submissas a sua vontade. A desvantagem é que, por não estarem acostumados a irem para a linha de frente da batalha, invocadores geralmente são fracos por si só. Se você conseguir passar por suas invocações e alcança-los diretamente, a vitória é quase que certa. Esse, no entanto, não era o caso com aquela mulher; Blair havia repetidamente mostrado um certo nível de competência em combate pessoal na pequena batalha delas, o que fazia com que ela tivesse um potencial perigoso. Sendo assim, para derrotar essa mulher, eu não preciso somente ser capaz de lidar com as invocações dela, mas sim também com suas habilidades de luta normais. E que maneira melhor de fazer isso do que controlando seus movimentos? Os fios que havia jogado contra a mulher há pouco tempo atrás não haviam sido fios afiados como os que havia usado antes; cada um desses fios havia caído sobre uma seção diferente de seu corpo, perfurado a pele de forma tão minúscula que a mulher não havia sentido nada e tomado controle de seus nervos, tudo isso em um segundo. E tão fácil assim, a vitória é minha.

– Você deveria se sentir orgulhosa, Invocadora – murmurou a Rainha dos Fantoches, permitindo-se abrir um curto sorriso vitorioso diante daquilo. – Eu não costumo usar minha habilidade dessa forma. Não é fácil, sabe? Controlar os mortos ou pessoas inconscientes é consideravelmente fácil; ou eu uso pura força nos fios para controlar os movimentos deles como se estivessem vivos, ou eu tenho simplesmente mais facilidade em controlar o corpo de alguém já que essa pessoa não está consciente para impedir as minhas ações. Mas controlar pessoas vivas e conscientes? Bem mais complicado. – Não estava sendo sarcástica quando dizia isso. Realmente era muito mais difícil para ela controlar o corpo de alguém consciente, e isso era claro pelo simples esforço que tinha de colocar em seus fios; conseguia sentir que Blair estava a cada momento tentando livrar-se do seu controle, e era necessário que mantivesse sempre atenção no que fazia para que não perdesse o controle. – Isso dito... uma grande vantagem de coisas assim é que posso fazer isso.

Moveu levemente alguns de seus dedos, controlando os braços de Blair. Lentamente e de forma trêmula eles foram se erguendo, e consigo eles levavam também a adaga de Blair. Ela não compreendeu imediatamente, mas também não demorou para que isso ficasse claro; à medida que a adaga foi subindo, os olhos de Blair foram se arregalando, e em um instante a força que ela fazia para tentar voltar a controlar o seu próprio corpo havia se tornado dez vezes maior do que antes.

– V-Você... não me diga que...

– É irônico, não é? – Contemplou Neshka, mostrando um fino sorriso cruel em seu rosto. – Você é uma Invocadora, uma manipuladora que sempre usou de terceiros para lutar suas batalhas. É irônico, e ao mesmo tempo correto, que o seu fim seja sendo manipulada para cortar sua própria garganta.

A confirmação do seu objetivo fez com que os olhos de Blair se arregalassem ainda mais, e pela primeira vez uma sombra de medo pairou sobre eles. Os esforços da mulher redobraram de força para tentar se livrar, e em resposta a isso Neshka também redobrou seus esforços em manter o controle. Por mais que Blair lutasse contra isso, ela não conseguia deter o avanço. Pouco a pouco a adaga se aproximava. Lentamente a ponta fria do metal tocou a carne quente de seu pescoço...

E então, Neshka sentiu seu corpo queimar.

Algo grande e forte chocou-se contra seu corpo pela direita com uma velocidade e poder absurdo. Seu corpo não foi capaz de estabelecer resistência nenhuma contra aquilo; foi completa isolada para longe quase no mesmo instante em que o foi acertada por aquele golpe, jogada para o lado como se fosse uma boneca de pano, parte da carne de seu braço e perna direitos queimadas pelo calor do ataque. Era claro que aquele não havia sido um golpe realmente focado no calor, mas mesmo assim, seus efeitos haviam sido catastróficos; o susto do ataque somado a dor súbita que havia sentido haviam sido mais do que o suficiente para fazer com que a concentração de Neshka se quebrasse naquele momento, dando a Blair a chance da qual ela tanto precisava para se libertar. Não... não é possível.... Já havia compreendido isso, mas compreender não era aceitar. Por mais que Neshka compreendesse que era esse o caso, a mente da garota ainda se recusava a aceitar isso. Eu... perdi? ...

=====

Um suspiro aliviado escapou dos lábios de Blair ao sentir-se novamente no controle de seu corpo; de imediato, a primeira coisa que a maga fez foi mover cada um de seus membros, regozijando-se em descobrir que agora tinha pleno controle de todos eles novamente. Ah, pelos Deuses, como é bom ter controle do meu próprio corpo novamente! A sensação que teve antes – de ser incapaz de controlar seus próprios movimentos ou ter algum tipo de influência sobre suas próprias ações – era algo absolutamente terrível, algo que não queria para ninguém. Agora eu faço alguma ideia de como os paraplégicos devem se sentir. Ninguém merece sentir algo assim.

Girou um pouco seu braço direito para ir voltando a se acostumar a movê-lo, e enquanto fazia isso moveu seus olhos para o lado. No fim das contas, havia sido salva. Não gostava disso – não tinha apreciação nenhuma por acabar pagando o papel de “Donzela Indefesa” em momento algum – mas tinha de admitir que estava grata pela interrupção. Isso não é necessariamente o tipo de coisa do me orgulho, mas... bem, eu estaria ferrada se não fosse por isso. O que, no entanto, fazia pouco para esclarecer o porquê de ter sido salva por um grande punho flamejante que atingiu em cheio Neshka, exatamente como o de-

– Parece que cheguei bem a tempo – murmurou a voz de um homem, um tanto quanto ofegante, como se ele tivesse tido de correr bastante para fazer aquilo a tempo. – Ei, Blair! Você está bem, não é? Por favor, diga que sim. Seria uma verdadeira merda se eu tivesse feito tudo isso atoa.

Ouvir aquela voz e ver aquele rosto acabou com qualquer dúvida que ela ainda pudesse ter sobre aquilo. Caminhando em direção a ela com uma aura flamejante saindo de seu corpo que se manifestava na forma do demônio que havia acabado de derrotar Neshka estava Breath, o mercenário que chamavam de Breath “do Fogo”, um dos três que Odin havia contratado para servir como sua escolta quando foi atrás de Kastor. Como esse cara está de pé? Não havia chegado a tempo de ver a luta dele contra o S.O.M.B.R.A., mas havia visto o corpo dele depois dessa batalha, e ele estava bem ferido ao fim de tudo. Ele não deveria ser sequer capaz de se levantar depois de algo assim... mas não só ele está tranquilamente de pé como ele também não demonstra um único ferimento, e ainda por cima ele acabou de aparentemente ser o responsável por derrotar um dos inimigos! O único sinal de que Breath sequer havia sido atingido era o fato de estar caminhando com o torso nu e suas calças trazerem ainda sinais dos danos que sofreram durante a batalha, mas fora isso, o estado dele era absolutamente perfeito.

– Você deveria responder, Invocadora. É rude ignorar as perguntas dos outros, sabia? – Quem disse aquilo era dono de uma voz bem diferente da de Breath, bem mais calma e centrada. Voltou seu rosto para trás, e quem viu caminhando em direção a ela era ninguém menos do que Denis. O homem ainda trazia suas vestes danificadas da sua batalha anterior, inclusive com sangue ainda espalhado por elas, mas surpreendentemente ele também vinha ileso. Lembrava-se bem de ter visto um grande buraco no peito dele ao fim da batalha, mas agora não conseguia ver o menor sinal de que esse buraco sequer existiu um dia. Similarmente, a feição e expressão dele era completamente calma, tranquila como se estivesse passeando por um parque; ele até mesmo havia se dado ao trabalho de pegar novamente um boné, algo que Blair notou já que ele estava sem seu famoso boné na cabeça quando sangrava até a morte no chão. – Apesar de que, devemos ser compreensivos também. Você provavelmente não entende o que está acontecendo aqui, não é?

– É, essa seria uma boa forma de colocar as coisas – respondeu Blair, tomando o cuidado de manter sempre sua guarda erguida enquanto falava. Eu não confio nisso. Não confio nada nisso. Aquilo estava tudo muito estranho; não ficaria surpreendida se fosse revelado que tudo que estava vendo era pouco mais do que uma ilusão, um truque esperto de algum mago, talvez até de Neshka. Apesar de que... isso não faria muito sentido, faria? Por que ela iria se dar ao trabalho de me colocar sobre o efeito de uma ilusão se ela já me tinha literalmente na ponta dos dedos? Isso não faz muito sentido..., mas as coisas no mundo muitas vezes não faziam sentido, e Blair sentia-se francamente muito mais confortável em ser um pouco paranoica do que ser um pouco morta. – O que aconteceu com vocês? Dá última vez que vi os dois, vocês pareciam ter um pé-na-cova. Agora vocês parecem... bom, vocês parecem mendigos, mas creio que isso é um passo acima de ter um pé-na-cova... de alguma forma...

– Creio que você pode dar vivas a mim por isso! – Ao contrário das vozes dos outros dois, aquela foi uma voz que ela reconheceu de imediato, simplesmente por já estar bem acostumada a ela. Syd. Moveu um pouco seu rosto para o lado, e quando o fez pode ver Syd, Zetsuko e Skylar emergindo de uma das ruas da cidade destruída. Em sua mão direita Syd trazia três frascos de vidro vazios, com apenas um resquício de algum estranho líquido vermelho sobrando no fundo de um deles. – Sabe, Blair, você pode dizer o que quiser sobre Carcino. Pode falar que eles são amantes do metal, pode dizer que o povo de lá é louco, pode dizer que esse é um País Cinzento, mas você não pode negar que eles são geniais. Consegui colocar minhas mãos em algumas dessas coisinhas, coisas que eles chamam de “Poções de Vida” em Carcino, e devo dizer... elas são bem eficazes. Um frasco desses foi capaz de curar completamente os corpos de pessoas como Breath ou Denis. Verdadeiramente impressionante, se você me perguntar!

– Poções de Vida, hein? – Coçou levemente o queixo ao ouvir aquilo. Eu... nunca ouvi falar nada sobre esse tipo de coisa. Estranho. Não era necessariamente uma amante da tecnologia de Carcino, mas não negava que ela tinha lá suas utilidades, e em geral se dava ao trabalho de tentar manter-se tão atualizada quanto possível. Considerando que eu nunca nem ouvi falar disso e que esse tipo de coisa parece ser algo que ganharia bastante destaque no cenário mundial devido a seus possíveis usos, eu só consigo assumir que essas coisas ainda não estão prontas para comércio. Talvez ainda sejam protótipos ou coisa do tipo, eu sei lá. De qualquer forma, não se importava muito com o fato de serem protótipos desde que aquelas coisas funcionassem, mas estava bem curiosa quanto há como Syd conseguiu colocar suas mãos em algo assim. Deve ter alguma coisa aqui que ele não está me contando... e eu vou descobrir o que é, conte com isso. Mas não agora. – Interessante. Devo admitir, eu nunca esperei que você fizesse algo assim, Syd. Pensei que você tinha fugido quando correu antes.

– E isso, minha cara, é apenas mais uma prova da falta de fé que cresce como uma praga em seu coração – respondeu Syd de uma forma um tanto quanto teatral, gesticulando de forma dramática enquanto falava. – Você vê como peca, minha boa Blair? Eu me retiro por alguns momentos da cena e você imediatamente assume que eu fugi! Assume que estou abandonando meus companheiros ao perigo! Improcedente, declaro eu, completamente improcedente! Nunca que eu faria algo assim! Absolutamente nun-

– Ele realmente tentou fugir depois de levar a mercenária para um lugar seguro, só que encontramos ele no meio do caminho e o obrigamos a dar meia volta – esclareceu uma outra voz masculina, um pouco distante. Uma careta surgiu no rosto de Syd em desprazer com aquilo, fazendo com que o mercenário se voltasse também para trás no exato momento em que duas outras pessoas emergiam. Vindos da mesma direção que Syd, Trevor e Marco aproximavam-se calmamente, o líder com um sorriso no rosto enquanto seu segundo em comando mantinha uma feição séria e compenetrada. Esses dois... eles são membros daquele grupo que chamam de “Potentia Aurae”. Havia ouvido falar um pouco desse grupo, principalmente durante a Batalha do Salão Cinzento. Se não me engano, uma boa parte desse grupo entrou em confronto direto com Jiazz o Juggernaut e foi derrotada por ele. Supostamente, Trevor não estava junto de seus subordinados naquele momento, e ao ouvir sobre como eles haviam perdido ele aparentemente tinha ficado bem irritado. Dentre todos nós, ele foi o que mais se dedicou aos treinamentos. Ele não foi fazer nenhum treinamento em lugar especial como Hozar e os outros..., mas considerando o quanto ele se esforçou, eu não sei se isso faz realmente uma diferença significativa.

– Ei, ei, eu já expliquei que eu não estava fugindo – murmurou Syd em resposta, gesticulando como que para explicar o que dizia enquanto mostrava uma feição exasperada e ofendida em seu rosto que Blair estava quase que completamente certa tratar-se de uma bela cara-de-pau. – Como eu já disse várias vezes, eu estava efetuando uma retirada estratégica. Uma vez que Zetsuko estava em um lugar seguro, eu comecei a correr para poder buscar a ajuda de Senjur, que é a pessoa mais forte aqui no momento, para lidarmos com o inimigo. Entende? Eu estava tentando salvar todo mundo aqui.

– Sabe, eu me sentiria tentando a acreditar em você Syd, sério mesmo – rebateu Trevor, falando enquanto olhava o outro com um olhar divertido que deixava claro que ele achava graça nisso e não tinha ressentimentos pelo que viu – se não fosse pelo fato de que você fez a maior cara de bunda do mundo quando me viu, pelo seu gaguejar quando tentou se explicar inicialmente e pelo fato de que você estava seguindo para o norte. Senjur está guardando o que restou do Portão do Leste.

– .... Ei, eu tenho um péssimo senso de direção, não me julgue por isso.

Essas palavras foram o bastante para que uma gargalhada a plenos pulmões rebentasse da garganta de Trevor, uma gargalhada bem-humorada e de ótimo humor. Quem só ouvisse aquela gargalhada seria perfeitamente capaz de imaginar que o homem estava se divertindo em uma roda com os seus amigos, não em um campo de batalha diante de inimigos poderosos. Esse cara é.... absurdamente relaxado pelo que parece. Se não tivesse visto o treinamento dele – e por tal, a determinação daquele homem – teria certeza de que ele era só um paspalho, mas tendo visto isso... bem, pensava que ele era um paspalho bem forte.

Por que você está rindo? – Por um instante pensou que aquela voz vinha de algum dos membros do S.O.M.B.R.A., mas imediatamente descartou essa hipótese. O timbre era bem diferente do que o que qualquer membro do grupo mercenário havia demonstrado até então, mais profundo e gutural e trazendo uma sombra de irritação e autoridade. Ele foi o suficiente para que Trevor parasse de gargalhar naquele momento e com que a postura relativamente relaxada de Syd se transformasse quase que imediatamente em uma postura mais apropriada. De um dos becos do Salão Cinzento emergiu um homem vestido em vestes roxas, de cabelos negros e feição severa com uma cicatriz recente no rosto, trazendo uma espada a sua cintura; não um mercenário, mas um cavaleiro, um dos poucos que havia saído relativamente bem da batalha do Salão Cinzento. – O inimigo está bem diante de nossos olhos. Um inimigo forte e poderoso, que só não matou vocês até agora porque não quis. E vocês riem diante dele? Que tipo de tolos vocês são?! – As palavras de Enderthorn ressoaram com força em seus ouvidos, fazendo com que Blair se sentisse como se estivesse diante de algum tipo de instrutor militar. Não gostava de receber ordens, e, portanto, não simpatizou com aquele homem, mas mesmo ela não era capaz de negar a autoridade que ele exercia com suas palavras. – Se vocês têm tempo para ficarem parados aí conversando entre si, então usem esse tempo para prestarem atenção no que seus oponentes fazem!

Aquelas palavras foram pontuadas pelo som de um passo forte, e isso fez com que Blair e os outros se virassem de imediato, sua atenção indo direto para o S.O.M.B.R.A. de novo. Com ambas as suas mãos nos bolsos de sua calça, Robert Steins olhava pacientemente para a esquerda, direção da qual vinha a figura de Hadvar, trazendo nos braços o corpo ferido de Neshka e parecendo dez vezes mais irritado do que antes, encarando firmemente Blair e os outros como se não desejasse fazer nada mais do que os rasgar em pedaços. E enquanto Hadvar se mostrava assim tão furioso com aquilo, seu líder mostrava uma calma perturbadora, olhando ao redor com tranquilidade como se nada tivesse acontecido, coçando levemente seu queixo como se estivesse simplesmente contemplando algo.

– Hm.... a situação aqui está... bem problemática, não é? – Murmurou Steins, lançando um leve olhar para o grupo de mercenários e cavaleiro que se erguiam contra ele. – Dois membros do S.O.M.B.R.A. derrotados. Um morto, a outra gravemente ferida... isso não é nada bom. Se continuarmos nesse ritmo, toda a reputação que o grupo adquiriu com todos esses anos.

Reputação?! – Antes a ira de Hadvar estava toda direcionada aos mercenários do Salão Cinzento, mas rápido assim ela pareceu voltar-se completamente para Steins, e com uma intensidade bem maior do que antes. – É com isso que você preocupado, Steins?! Ulrock está morto! Neshka está ferida! Tudo isso devido a sua estupidez, sua mania de tratar as coisas como se fossem algum tipo de jogo estúpido! E você se preocupa com nossa reputação?!

– Novos membros podem ser achados com certa facilidade, Hadvar. Uma reputação não pode ser conquistada com a mesma facilidade. – Quem disse isso não foi Robert, mas sim Flavent, falando enquanto movia uma mecha de seu cabelo com uma mão de forma esnobe. Um único olhar era todo o necessário para dizer a qualquer um que a mulher não dava a mínima para o que havia acontecido com seus companheiros. – Além do mais, vamos ser sincero; não é como se tivéssemos sofrido perdas graves. Ulrock, Neshka... os dois eram pouco mais do que estorvos.

– Ulrock era um bom homem, guerreiro e companheiro, e Neshka é uma garota bom coração que ainda não está morta. Os dois são infinitamente melhores do que um pirralho mimado como Robert ou uma puta barata como você, Flavent! – A mão direita de Hadvar fechou-se em um punho com toda a sua força, e o olhar que o homem lançou para Flavent não demonstrava nada se não pura raiva. – Vocês dois são completamente desprezíveis. Eu fracamente não sei se mato os mercenários do Salão Cinzento ou se faço vocês em pedaços!

– E por que se dar por satisfeito com apenas um ou outro? Por que não os dois?

As palavras de Robert surpreenderam todos ali, Blair inclusa. Como é? Aquilo era... estranho, no mínimo. Considerando a forma como havia visto Hadvar e Robert entrarem em confronto antes e a forma como Hadvar parecia gostar de seus companheiros derrotados, não ficaria surpresa se eles realmente acabassem brigando entre si, e supunha que Robert também não duvidava dessa possibilidade..., mas ao invés de tentar afastá-la, ele parecia aceita-la, abraça-la alegremente. Será que ele planeja matar Hadvar de qualquer forma e por isso está relaxado assim? .... Não, não pode ser. Mesmo que matar Hadvar fosse parte da sua intenção, ele não iria querer um confronto com Hadvar agora, não quando tem tantos oponentes diante dele. Lhe parecia que aquele era um homem bem arrogante, mas isso já seria ultrapassar os limites da estupidez.

– O que você quer dizer com isso?

– Ora, exatamente o que disse! – Exclamou alegremente o líder do S.O.M.B.R.A. – Veja, por que não fazemos o seguinte? Temos um total de nove inimigos aptos diante de nós. Se quisermos lutar, não podemos fazer isso aqui já que eles se aproveitariam disso, e ambos temos motivos para quere-los mortos. Sendo assim... por que não cooperamos por hora? Juntamos forças para matar esses nove, e ao fim de tudo você pode decidir se quer me matar ou não. O que me diz? Essa parece uma boa ideia, não parece?

Hadvar não respondeu. A feição do mercenário estava fechada, fitando seu líder com ódio, mas ainda assim, Blair sentia que ele estava pensativo. Esse miserável... isso foi bem jogado. De certa forma, o que Robert estava fazendo era sábio. Hadvar naquele momento podia odiá-lo pela forma como estava tratando o destino que seus companheiros têm sofrido, mas ele certamente odiava Blair e os outros ainda mais já que eles haviam sido os responsáveis pelo estado de seus companheiros em primeiro lugar. Ele estava jogando um joguinho ali, usando desse ódio para fazer com que Hadvar permanecesse seu aliado, o menos temporariamente. E ao fim de tudo ele poderá matar Hadvar. Isso faz completo sentido para ele. O guerreiro havia mostrado por diversas vezes aversão ao comando de Robert e até o desafiado constantemente em questões de liderança. Fazia sentido que ele quisesse se livrar dele – naquele ritmo, a tendência era que Hadvar acabasse se rebelando contra ele.

Em um momento, o Terror Celeste desapareceu completamente sem que ninguém pudesse ver aonde ele havia se metido. Ele tornou a aparecer logo em seguida, antes que um único minuto se passasse, mas quando ressurgiu ele já não trazia a garota nos braços. Seus olhos estavam sérios e compenetrados, e num único movimento ele sacou sua espada. A lâmina fria de aço foi apontada sem medo para Robert, e por um momento, a tensão naquele lugar se tornou palpável.

E então, ele moveu sua lâmina em direção a Blair e os outros.

– Você morre depois disso, Robert. – Jurou Hadvar, em um tom muito mais calmo do que o que ele tinha usado momentos atrás. – Você e essa puta de prata... eu vou matar os dois. Meu maior erro nessa vida foi ter me juntando ao S.O.M.B.R.A. em algum momento. Irei matar vocês, arranjar alguém para cuidar de Neshka e irei fazer alguma outra coisa com ela. Trabalhar sobre alguma outra pessoa ou trabalhar sozinho, não importa. Qualquer coisa é melhor do que ficar com vocês.

– Faça o que quiser – respondeu tranquilamente Robert. Seus olhos se fecharam, um sorriso de satisfação surgiu em seu rosto, e quando ele voltou a abrir seus olhos, eles haviam se tornado completamente negros, como que envolvidos por sombras. – Antes disso tudo, no entanto... vamos mostrar o verdadeiro poder do S.O.M.B.R.A.! Três contra nove... nem de longe desvantagem o bastante!





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