O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 5
História Paralela 2 - O Herói Traído


Notas iniciais do capítulo

Yo!

Belezinha, vocês?



– Meu Deus – sussurrou a mulher ao ver a notícia que os jornais traziam. Vacilou um, dois passos para trás, e isso acabou fazendo com que ela escorregasse e caísse de bunda no chão. Estava tão assustada, no entanto, que nem prestou atenção a isso. – O que fazemos agora? Ele vai vir até nós!

Ninguém ali tinha uma resposta para isso. O resto de cada membro daquele vilarejo estava solene e temeroso, como se todos eles fossem homens mortos andando, pessoas esperando no corredor da morte para que o carrasco cortasse suas cabeças. O que, verdade seja dita, não estava realmente muito longe da verdade.

– Como ele conseguiu escapar de Dungvield? – perguntou um deles, um mais jovem, olhando freneticamente para os outros em procura de uma resposta. – Aquela é supostamente a prisão mais segura do mundo, não é? Ele não deveria ter escapado de lá nunca! Nunca! Esse foi o acordo!

– Não importa como ele escapou de lá – declarou o mais velho deles, um ancião careca e cego que apenas se apoiava de pé com a ajuda de um cajado. – O que importa é que ele escapou, e que isso nos coloca em perigo. Precisamos ser rápidos, agora; talvez se formos rápidos podemos contratar mercenários para nos proteger, ou talvez possamos fugir para outros vilarejos antes que ele chegue.

– Um pouco tarde demais para isso, meus amigos – disse a voz de um fantasma, bem conhecida por eles.

O medo que eles sentiram naquele momento foi tão grande que ele era palpável. Um único pensamento passou pela mente de cada um dos aldeões daquele vilarejo naquele instante, simultaneamente. Estamos mortos. Estamos todos mortos.

Lentamente eles viraram sua cabeça em direção aquela voz, e viram exatamente o que esperavam. Sem um olho, de braços abertos e com um sorriso selvagem, Dokurei Deux fitava aqueles aldeões.

– Yo! – saudou ele, bem uma voz bem-humorada e alegre... apenas para que logo em seguida o sorriso desaparecesse de seu rosto para ser surpreendido por uma careta de puro ódio. Aquele homem começou a avançar e eles começaram a recuar, e quando a voz de Dokurei veio novamente, ela foi pouco mais do que um sussurro, carregada de raiva e ódio. – Faz tempo desde a última vez que vi vocês, pessoal.

Nenhum deles sequer tentou balbuciar a menor resposta para isso. Apenas se encolheram, temerosos, como coelhos assustados diante de um lobo. Aquilo apenas irritou Dokurei ainda mais. Não, não. Não se encolham, seus filhos da puta. Vocês foram bem corajosos na hora de me foder; ergam suas cabeças e aceitem a minha vingança como os vermes que vocês são. Karma é uma puta, meus amigos; ele sempre te acha.

– Vocês sabem, parece que a qualidade de vida de vocês melhorou bastante aqui – disse ele, dando uma olhada ao redor. – As casas estão reformadas, vocês parecem ter um pouco mais de gado e... ei, aquilo é um moinho? Ora bolas; vocês ganharam a porra dum moinho! Nada mal! Nada mal mesmo. – voltou a pousar seu olhar sobre os aldeões, sorrindo falsamente para eles. – Diga, foi essa a premiação que vocês ganharam por me trair?

Dessa vez, ao menos, um dos aldeões teve bolas o suficiente para lhe responder.

– Por favor, Dokurei – disse ele, uma dos habitantes mais antigos dali, um velho que havia há muito ficado corcunda graças ao trabalho duro que fez em sua juventude, e desde então havia se retirado dos campos. – Você não entende. As coisas não foram assim. Nós tivemos de fazer o que fizemos. Ninguém nunca quis te entregar. Fomos forçados à isso; simplesmente não tivemos escolha.

– Não tiveram escolha? – repetiu Dokurei, arquejando uma de suas sobrancelhas. – Há! Essa é uma mentira, se já vi uma. Todo mundo sempre tem uma escolha. Talvez nem sempre uma escolha boa ou agradável. Nem sempre as escolhas que ela iria querer ter. Mas se tem uma escolha, ah, isso tem! Os únicos que falam que não tem escolha são aqueles fracos e covardes demais para lidarem com as consequências dela. Vocês escolheram me entregar, e agora vão pagar por isso.

– E o que você pretende fazer, Dokurei? Nos matar? – desafiou o mais velho deles, o ancião do cajado. – Nós conhecemos você. Você não é um assassino. Três anos atrás, você lutou bravamente contra a opressão de Fredora. Sozinho, você travou uma guerra solitária contra a nação do comércio em nosso nome, pelo nosso bem. Eu conheço você. Por mais agressivo e perigoso que você possa parecer, você é um homem com um bom coração em seu peito.

– E esse meu “bom coração” fez com que eu tomasse majestosamente no cu, ou vocês já se esqueceram disso? – questionou ele, afiando sua voz. Talvez o velho pretendesse comovê-lo com aquelas palavras, mas tudo que ele conseguiu foi irritá-lo ainda mais, lembra-lo do que havia acontecido no passado. – Eu lutei por vocês sim, e enquanto eu fazia isso, vocês eram só sorrisos, sempre falando sobre o quão bondoso eu era, sobre o quão corajosa e heroica era a minha pessoa. Grandes merdas que isso fez. Assim que os homens dos duques vieram, vocês foram bem rápidos em envenenar a minha bebida e me entregar pra eles, seus filhos da puta, e isso tudo a troco de quê? Casas melhores? Um pouco mais de gado? A porra dum moinho? Foda-se o moinho! Eu estava lutando para lhes dar a liberdade! Eu! Era eu que estava no campo de batalha, eu, apenas eu! Enquanto eu lutava e arriscava o meu pescoço por vocês, vocês sentavam suas bundas em suas respectivas casa e ficavam apenas esperando! E mesmo assim, quando chegou o momento deles irem atrás de mim, logo quando eu precisava da ajuda e apoio de vocês, vocês enfiaram a porra duma adaga nas minhas costas! – no início, havia decidido por lidar lentamente com aquilo, aproveitar lentamente sua vingança, mas a cada momento que passava isso se tornava mais e mais impossível para ele. Viu e sentiu gotas de veneno escorrerem de suas mãos, pingando até o chão e derretendo-o mais e mais, deixando que uma fina fumaça branca subisse. – Seus filhos da puta, bando de merdas, bundões, zé bocetas, arrombados miseráveis, monte de esterco! A morte mais dolorosa que eu posso lhes dar ainda é algo muito misericordioso para lixo como vocês, mas eu prometo, eu vou mata-los e vou aproveitar cada momento disso. – ao mesmo tempo em que seu sorriso se tornou algo descontrolado, quase tão louco quanto os sorrisos que Fera frequentemente exibia. Sua mão direita se fechou, e quando ela voltou a se abrir, o veneno que ele criava havia a cercado, envolvido-a como se tivesse criado uma luva ou garra venenosa abrir, capaz de derreter o que quer que tocasse. – Eu vou derreter todos vocês até só sobrar ossos, traidores malditos.

Aquilo já estava sobre a cabeça de cada um dos aldeões ali como uma possibilidade bem real, mas as palavras daquele homem apenas fizeram confirmar o que ia acontecer ali. E isso quebrou todo o resquício de compostura que eles tinham.

Separaram-se de uma vez, cada um correndo em uma direção diferente. Talvez eles mantivessem a esperança em seu interior de que, caso eles se separassem e corressem, pelo menos alguns deles iriam acabar conseguindo escapar da fúria de Dokurei. Se pensavam assim, então a esperança deles era estúpida. Eu não vou deixar ninguém fugir. Vocês todos vão pagar, miseráveis.

Com um grito de guerra e animação, Dokurei avançou sobre eles.

=====

Não soube exatamente dizer o que foi que lhe manteve ali quando tudo estava terminado. Quando havia ido para aquele lugar, sua intenção era bem simples; o plano era matar os aldeões, tirar sua vingança deles e depois sair dali rapidamente, antes que qualquer complicação pudesse surgir em seu caminho. Mas se é assim, por que eu ainda sinto toda essa necessidade de ficar aqui? Por que eu estou parado aqui, ao invés de seguir meu caminho? Eles estão mortos. O que estou esperando?

Obteve sua resposta mais rápido do que esperava.

– Mãe? Pai? – disse uma voz fina e jovem de criança no momento em que um garoto saiu de uma das casas daquele vilarejo, ainda coçando os olhos, tentando expulsar o sono deles. – Eu ouvi um barulho estranho. O que a-

Foi rápido ali, bem rápido. Aquele garoto estava prestes a bocejar, e assim que ele o fizesse, sabia que ele também iria abrir os olhos e ver tudo aquilo ali. Eu não posso deixar o pirralho ver algo assim. O que raios isso faria pra cabeça de um garoto? Era impossível dizer ao certo, mas ele se atrevia a chutar que não seria nada de bom. Felizmente, sua velocidade não o decepcionou ali e ele conseguiu tampar a boca do garoto com uma mão enquanto golpeava a nuca dele com a palma de sua outra mão. Os olhos dele haviam começado a se abrirem ali, mas seu golpe veio a tempo o suficiente para fazer com que eles voltassem a se fechar quase que instantaneamente, ao mesmo tempo que o corpo daquela criança perdia as forças e caia sobre o de Dokurei. Bem... beleza. O que raios eu faço agora? Havia nocauteado aquele garoto e estava bem certo de que ele não havia visto muito, e mesmo se tivesse, ele provavelmente iria se esquecer disso assim que acordasse. Ainda assim, deixar ele aqui não seria lá a melhor das minhas ideias, e eu duvido que eu seja a melhor companhia para uma criança. Tinha de fazer alguma coisa com aquele pirralho... mas o quê?

=====

Tinha acabado de colocar a água pra ferver em preparação o seu chá quando ouviu baterem na porta.

– Estou indo! – gritou ela, a voz frágil como vidro. Arrastou suas pernas pelo tapete e moveu-se, tão rápido quanto a idade lhe permitia.

Ah, o que eu daria para ser dez anos mais jovem. Antes, lembrava-se ela, quando era uma garotinha em seus quinze, dezesseis anos, havia sido extremamente ativa, ao ponto de seus pais e irmãos terem constantemente lhe dito que ela tinha “formigas nas calças”. Nunca parava quieta, e sempre que batiam na porta, ela corria e era a primeira a atender. Mas o tempo passou. Ela ficou velha, seus pais e irmãos morreram, ela ficou sozinha, e agora demorava uma eternidade para sequer alcançar a porta. Quando a pessoa tornou a bater na porta, sentiu-se levemente irritada por isso, mas simplesmente não podia censurá-la por aquilo. Suponho que eu, também, quando jovem, era impaciente em ser atendida.

– Sim, sim, o que é? – perguntou ela, gentilmente, enquanto abria a porta.

O que ela viu foi algo que ela realmente não esperava.

O homem que estava do outro lado da porta definitivamente não era alguém daquela cidade; isso estava mais do que claro com um simples olhar para ele. Era consideravelmente alto; se ela tivesse de supor, chutaria que ele tinha mais ou menos um metro e oitenta de altura ou coisa do tipo. Sua pele era morena e seu físico era esguio mas definido, apesar de que ele quase não podia ser visto. Vestia-se com o que lembrava um uniforme militar, calças negras longas com uma camisa também negra, ambos tendo detalhes estéticos em dourado ali, chamando bastante a atenção. Usava botas de couro e pelo, bem como um casaco longo sobre suas roupas. O casaco era algo bem bonito, tinha de admitir; um casaco grosso carmesim, com bordas de pelos prateados, bem como a parte inferior dele cortada no meio desde os pés até pouco acima dos joelhos, deixando que elas balançassem livremente com o mover do ar. Seus cabelos eram avermelhados, jogados para trás e espetados como se fossem os espinhos de um ouriço, e no lugar aonde deveria estar seu olho direito restava uma cicatriz.

Uma das mãos daquele homem estava no bolso do casaco. A outra, entretanto, segurava uma criança desacordada como se ela fosse uma sacola.

Abriu a boca para perguntar o que significava tudo aquilo, mas não teve a chance de dizer nada. No momento em que a primeira palavra começou a deixar seus lábios, o homem arremessou o garoto subitamente sobre ela, com uma força assustadora até mesmo para alguém tão jovem e grande quanto ele. A simples força por trás daquele arremesso foi mais do que o suficiente para tirar os pés dela do chão e lhe jogar alguns centímetros para trás, caindo de costas no chão. É um milagre que eu não tenha quebrado um osso com isso. O impacto havia sido doloroso, e o corpo dela não era mais o que um dia havia sido.

Segurou a criança com ambas as mãos e abriu os olhos, erguendo-os para o nível daquele homem. Por um momento pensou em reclamar, repreendê-lo por aquilo, questionar qual era a ideia dele com tudo aquilo, mas mudou de ideia no momento em que viu aquele homem voltar a colocar sua mão no bolso. Não seria esperto da minha parte provocar ou irritar alguém assim. Principalmente em uma cidade como essa. Em uma cidade normal, ela poderia contar com a guarda e o governo local para sua proteção, mas não ali, não em Fredora. Em Fredora, a guarda não protege a população, mas sim o senhor local e os grandes comerciantes. Talvez eu tivesse alguma chance de conseguir ajuda se eu fosse jovem e tivesse alguma força trabalhista, mas sou velha demais para fazer qualquer coisa, e por isso, para eles, sou pouco mais do que uma parasita. Só estava viva até hoje devido as doações generosas de algumas pessoas de coração mais bondoso; para o governo dali, não fazia diferença alguma se ela vivia ou morria.

O homem se aproximou um passo dela, e isso fez com que ela recuasse, empurrando seu corpo para trás com as pernas. O que é que ele quer aqui, afinal? Aquela criança, aquela hostilidade... tudo aquilo não fazia sentido. Afinal, o que ele quer de mim?

Obteve sua resposta no mesmo momento em que ele retirou de um dos bolsos do seu casaco um saquinho e jogou-o ao lado dela, fazendo com que as moedas dentro dele balançassem e tintilassem.

– Uma vez por mês eu virei aqui e deixarei uma quantia similar a essa com você – disse ele, apontando para o saco com um dedo, e depois olhou para ela, como se esperasse que ela o abrisse. Apressou-se em colocar a criança delicadamente no chão ao seu lado e verificar aquilo. Várias moedas estavam ali, moedas de prata e de ouro. Isso é... muito, muito dinheiro! Aquilo era, facilmente, mais do que meia dúzia de pessoas jovens e saudáveis conseguiam fazer em um mês inteiro bem remunerado. – Se isso não for o bastante, me avise. Não sei se posso conseguir mais, mas... – viu o homem suspirar, como se estivesse cansado, e sua cabeça afundou entre os ombros. – Farei o que puder.

Não conseguiu deixar de olhar para ele incrédula ali. Ele... ele está realmente falando sério? Aquilo era incrível. Incrível! Com todo esse dinheiro, doações nem sequer serão mais necessárias. Poderei viver bem, poderei viver bem e poderei ajudar os outros e...

Seus pensamentos pararam no momento em que olhou novamente para o rosto daquele homem. Antes ela estava irritada com ele, com raiva, perguntando-se o que ele queria ali... mas agora estava mais calma, e isso fazia com que ela prestasse mais atenção as feições daquele homem. Esse rosto... esse rosto me parece... familiar. Mas como, e de onde? Sentia que conhecia aquele homem... mas se era assim, quem era ele?

– Eu conheço você – disse ele, subitamente, e foi só agora que ela notou algumas coisas. Apesar da postura dele ser aparentemente hostil ali, havia algo de estranho. Ele parecia evitar olhar diretamente para ela quando falava, e a voz dele parecia um tanto quanto... gentil para a voz de alguém com a sua aparência. Isso atiçou sua memória, também. – Se tem uma coisa que eu sei, é que Fredora tem uma grande falta de pessoas decentes... mas você é uma delas. Você é uma boa pessoa, uma das poucas pessoas que eu posso dizer com toda a certeza que, se existe algum paraíso, você está destinada a ir pra ele. Esse garoto provavelmente vai ter alguns problemas, mas você deve ser mais do que capaz de lidar com isso. – virou-se de uma vez, fazendo com que seu casaco balançasse, e caminhou para fora dali com ambas as mãos no bolso. – Conto com você, senhora Sonya. – disse ele de costas.

Essas palavras foram o suficiente para que ela se lembra-se, e no momento em que isso aconteceu, ela simplesmente não pode compreender como demorou tanto para chegar àquela conclusão. O cabelo, o físico, a voz... pelos Deuses, como eu pude esquecer? Levantou-se, apressada e atrapalhada, e precipitou-se em direção aquele homem, correndo para poder alcança-lo antes que fosse tarde demais.

Rei! – gritou ela, e soube que estava certa. No momento em que ele ouviu aquelas palavras, o Santo Vermelho parou seus movimentos aonde ele estava e virou levemente o rosto, fitando-a com uma feição surpresa e assustada desenhada nele. – Dokurei! Eu me lembro de você! O que aconteceu? Eu ouvi rumores sobre você ter sido capturado, mas...

Não teve tempo para terminar de falar. Antes que pudesse concluir seu pensamento, sentiu seu corpo ser empurrado para trás por uma força absurda, uma onda de ar que mais parecia algo vindo de um furacão ou coisa do tipo. Tentou resistir àquilo, mas simplesmente não teve chance alguma; tudo que conseguiu foi de alguma forma manter seus pés fixos o suficiente para não ser jogada pelos ares. O que é isso?! Fechou os olhos no esforço que fez para tentar suportar aquilo melhor, mas nem isso impediu-a de ser arrastada para trás por aquilo.

Quando a força finalmente parou e ela finalmente abriu os olhos, não havia nada diante deles.

=====

– Você demorou – disse o que chamavam de Retalhador quando ele voltou, apoiado em uma árvore de braços cruzados. Skuld estava próximo dele, também, mas aquele cara não estava nem de longe tão rígido ou tenso quanto o outro. Enquanto o primeiro estava apoiado na árvore, claramente impaciente, Skuld aparentemente tinha apenas ficado um bom tempo dormindo ali em cima de uma formação rochosa especialmente grande.

– Eu sei, eu sei – declarou Dokurei, por sua vez. Não estava realmente com o humor de discutir com aquele cara ali. Então, ela me reconhece, não é? Aquilo não era algo que ele realmente esperava. Fazia anos, e ela era velha; pessoas velhas não eram realmente famosas por terem a melhor das memórias. Isso foi... interessante. Embora eu não ache que tenha sido bom. O nome dele não era algo que devia ser mencionado em Fredora. A mera menção que ela fez pode ser o suficiente para lhe colocar em problemas. Se Fredora ainda não recebeu notícias da minha fuga, ela deve receber em breve, e quando isso acontecer...

Mas, de qualquer forma, não adiantava ficar pensando naquilo, e isso não era problema seu.

– Existem várias coisas que eu quero te perguntar – disse subitamente Retalhador, afastando-se de sua árvore e aproximando-se alguns passos de Dokurei, fitando o Demônio Escarlate direto nos olhos. – O que é aquela criança. Por que você se importa tanto com ela. O que você fez com ela. Mas, suponho que você não me daria uma resposta caso eu lhe perguntasse.

Não pode deixar de rir ao ouvir isso.

– Bom, pelo menos você é bom com suposições, eu acho – disse Dokurei, gargalhando abertamente daquele homem.

Retalhador não disse nada em resposta a isso. Ao invés disso, ele agiu. Sua mão se ergueu rapidamente, seus dedos permanecendo semiabertos, com um fraco brilho azul reluzindo ao redor deles.

– Diga, Dokurei... – começou ele, a voz não mais do que um murmúrio. – Devo matar aquela criança?

A reação de Dokurei foi imediata. Antes que Retalhador sequer tivesse terminado de falar, sua mão direita já havia se fechado ao redor do pulso dele, segurando-o com uma força tão monstruosa que, fosse aquele um homem normal, os ossos de seu pulso já teriam se estraçalhado em mil pedaços diante daquela pressão.

– Diga, Scar... – zombou Dokurei, apesar de que sem humor algum. Todo o humor havia sumido de suas feições, substituído por um simples desejo assassino, uma vontade de rasgar o homem diante dele em pedaços. – O quanto você gosta dessa sua mão? – e para deixar seu ponto claro, criou veneno ácido nas costas de sua mão; perto o suficiente para ameaçar, longe o suficiente para não ferir.

Nem bem havia acabado de dizer aquilo, sentiu dedos cortarem sua garganta.

– Eu poderia lhe fazer uma pergunta similar – apontou Retalhador, seus olhos frios e afiados, dignos de um assassino como ele. – O quanto você gosta da sua garganta, Dokurei?

Por longos momentos, os dois simplesmente ficaram se encarando ali. O peso da determinação e do desejo assassino de ambos era tanto que o próprio ar ao seu redor parecia mais pesado. Ambos estavam preparados ali, prontos para lutarem a qualquer momento.

– Ei, só pra constar – disse Skuld ali, olhando para ambos enquanto coçava seu ouvido com o mindinho, completamente desinteressado em tudo aquilo. – Se vocês sacarem os paus pra fora e começarem a medir pra ver quem tem o maior, eu estou oficialmente mandando um grande “foda-se” pro trabalho e indo embora daqui.

Isso foi o suficiente para que ambos se afastassem um passo para trás ao mesmo tempo. Posso matar esse cara à hora que eu quiser, pensou ele, mas a hora não é agora. Por mais odiasse aquele homem e lhe quisesse morto, só tinha a perder se o fizesse no momento. Se eu o fizer, perco Skuld, o que significa que eu estarei sozinho no meio de Fredora com uma grande recompensa em minha cabeça. Além disso, tem a questão dos companheiros dele. Já tinha muitas pessoas querendo sua cabeça no momento; uma das últimas coisas que precisava era adquirir mais pessoas ainda para juntarem-se a esses, principalmente pessoas fortes. E além do mais, eu ainda tenho uma dívida com eles, goste eu ou não.

– Bom, suponho que o garoto não é problema meu – disse Retalhador, ainda olhando Dokurei de forma ressabiada depois do que havia acontecido ali. – Ainda assim, suponho que ainda podemos contar com a sua colaboração...?

– Não se preocupe com isso – retrucou Dokurei, sem olhar para aquele homem. Não se atrevia a olhá-lo; se o fizesse, não sabia se conseguiria se impedir de ataca-lo novamente. – Eu já disse, e torno a dizer. Vou matar quem quer que vocês queiram morto.



Notas finais do capítulo

Discussão do Capítulo: http://igorescritor.forumeiros.com/t9-discussao-da-historia-paralela-2-o-heroi-traido#11



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