O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 47
O Glorioso Cometa Vermelho


Notas iniciais do capítulo

Vamo invadi! Vamo invadi, vamo invadi, vamo invadi!



... 6 dias depois...

De pernas cruzadas, deitado no teto de um prédio com ambas as mãos na parte de trás da sua cabeça, Breath fitava o céu vermelho das Terras Velhas, completamente entediado. Cara... isso é um verdadeiro porre. Já fazia uma semana desde que havia chegado até o Salão Cinzento, e durante essa semana ele não fez absolutamente nada de útil. O pessoal da Era Dourada havia ido treinar, e com eles haviam ido uma boa parte dos cavaleiros que ainda estavam de pé. Odin também havia ido embora resolver qualquer coisa de importante, e as únicas ordens que o velho cavaleiro havia lhes passado antes de ir haviam sido “protejam esse lugar e me esperem aqui”. Só que não há o que se proteger se não tem nada sobre ataque! Francamente, do jeito que as coisas estão aqui, o único risco de ataque ao qual estamos sujeitos é o de sermos atacados por abutres querendo as nossas carcaças, pois estaremos todos MORTOS DE TÉDIO!

– Ei, Breath! – O grito súbito cortou através do silêncio como... alguma coisa bem afiada, sendo o suficiente para que o mercenário ao menos abrisse os seus olhos. – O que você pensa que está fazendo ai? Levante-se!

Jogou seu tronco para cima ao ouvir aquilo e seus olhos de imediato correram atrás do dono daquela voz. Não demorou muito a encontra-lo; em cima de um prédio próximo com um boné na cabeça e as mãos no bolso, Denis não estava necessariamente fazendo algum esforço para se manter oculto.

– Denis. – Disse simplesmente o mercenário em resposta, não muito surpreso por aquilo. Não era um aliado dele nem tão pouco tinham algum tipo de parceria formal, mas ele, Denis e Zetsuko haviam sido contratados simultaneamente por Odin. Com isso, o vínculo do trabalho fez com que eles acabassem formando uma espécie de... grupo informal ou coisa do tipo. Eles haviam agido como uma espécie de aliança desde então, e pelo que parecia isso iria continuar pelo menos até o fim daquele trabalho. E isso significava que de tempos em tempos ele tinha um dos dois atrás dele, lhe enchendo o saco. – O que você quer? O que está fazendo aí?

– Eu poderia te perguntar a mesma coisa – contrapôs o outro, erguendo uma de suas sobrancelhas ao falar. – O que você está fazendo aqui, Breath? Não estamos de férias, sabe. Você não deveria estar fazendo as suas patrulhas?

– A cidade está vazia como um deserto, Denis – respondeu Breath, sem lhe dar muita atenção. – Não há muito o que “patrulhar” aqui; dificilmente temos pessoas ou recursos o suficiente aqui para nos preocuparmos com roubos ou qualquer outro tipo de crimes. E não é como se estivéssemos sob risco de ataques. O inimigo já atacou e já destruiu essa cidade, eles não têm mais interesse nenhum nela. Não vou ficar me dando ao trabalho de ficar andando por essa cidade feito barata-tonta, procurando e esperando por inimigos que nunca virão.

– Então talvez você pudesse desperdiçar seu tempo treinando, hum? – Questionou Denis. – Afinal de contas, se estamos perdendo tempo aqui, poderíamos muito bem estar perdendo tempo com algo útil, algo que pode melhorar nossas habilidades. Não concorda?

– E qual o ponto em tudo isso? – Questionou Breath, dando de ombros. Ou fazendo o que mais parecia com “dar de ombros” que alguém podia fazer enquanto deitado. – A “uma semana” que deveríamos esperar se completa hoje, Denis. Odin e os outros devem chegar a qualquer momento, e depois disso não deve demorar muito antes que avancemos contra o Olho Vermelho. Não dá pra fazermos nada de útil nesse tempo. E francamente, tendo em mente a consideração que eles nos deram, não é como se eles estivessem contando com nosso apoio de qualquer forma.

Percebeu que havia falado demais assim que as palavras deixaram seus lábios. Merda... eu tenho de aprender a ficar calado. No fundo da sua mente teve a esperança de que Denis não tivesse se atentado ao seu deslize, mas sua consciência sabia que o homem era inteligente demais para deixar passar algo assim. Dito e feito; quando moveu seu único olho para ele, o mercenário estava lhe olhando com uma feição curiosa e interessada que sugeria que ele havia começado a entender do que se tratava tudo aquilo. Grunhiu em chateação quando viu ele pular do telhado onde estava para o de Breath e ergueu-se ainda que a contragosto até que ficasse sentado; sabia que agora que havia atraído a atenção de Breath ele iria lhe encher bastante o saco, então tudo que podia fazer agora era fingir prestar alguma atenção no que quer que ele falasse na esperança de que isso o afastasse mais rápido.

– Muito bem, Breath, vamos jogar seu jogo – murmurou Denis, sentando-se de pernas cruzadas para ficar na altura de seu companheiro. – O que é que há? O que lhe incomoda ao ponto de você dizer algo assim?

– Não “há” nada, Denis. É só que... – tentou pensar em alguma palavra que pudesse usar para explicar a situação, mas seu vocabulário lhe falhou. Sacudiu a cabeça, irritado, e decidiu improvisar. – Olha, você viu como foram as coisas com o pessoal? Todo o pessoal da Era Dourada saiu para treinar em locais especiais junto de cavaleiros do Salão Cinzento e tudo mais. Pelo que foi dito, esses locais devem fazer com que a evolução deles seja muito mais rápida do que o normal ou coisa do tipo. Só que, enquanto eles estão lá treinando e se tornando mais fortes, nós estamos aqui parados!

– Bem, dificilmente podemos culpar os cavaleiros por algo assim, não concorda? – Os olhos sempre inexpressivos de Denis estavam olhando dentro dos de Breath naquele momento, o que era mais do que apenas um pouco perturbador, mas não ousava se afastar desse olhar. Denis era astuto, e era bem capaz que ele descobrisse mais sobre ele do que queria através de um gesto desses... e pra ser sincero, ele simplesmente não queria correr o risco que estaria associado a isso. Podia parecer um pouco estúpido, mas valorizava tanto Denis quanto Zetsuko um pouco como amigos, e isso fazia com que não quisesse ver os dois feridos, quanto menos ser o responsável por feri-los. Xingar e reclamar com eles seria normal vindo dele, sempre fazia isso, mas desviar seu olhar... isso já era rude e isso poderia magoá-los de alguma forma, então não queria fazer isso. – Afinal de contas, eles precisam deixar algumas pessoas aqui para protegerem a cidade.

De quê?! Eu já te falei, essa cidade não vai ser atacada! Eles já atacaram aqui! Eles já saquearam o que tinham de saquear, mataram quem tinham de matar e destruíram o que tinham de destruir! Literalmente não há mais nada aqui que eles possam querer! E além do mais, considerando que a cidade já está destruída nós poderíamos simplesmente abandoná-la sem problema algum se ela estivesse servindo apenas como um ponto para ataques inimigos! Eles não precisavam de nós aqui, não de verdade! Mas eles nos deixaram aqui, e sabe por quê? Porque eles precisavam de uma desculpa convincente para nos deixar de lado.

Olhou para seu companheiro esperando por uma resposta depois daquilo, mas não teve nenhuma. Denis só permanece ali, parado, lhe olhando impassivelmente com seus olhos cor-de-madeira, e de alguma forma isso foi muito pior do que se ele tivesse dito algo. Sentiu-se frustrado por isso, e a frustração fez-lhe ficar nervoso.

– Não fique apenas me encarando aí! – Censurou Breath, como se o mercenário estivesse lhe questionando ou coisa do tipo. Por mais que Denis não tivesse feito nada, essa era a sensação que ele tinha; sentia-se como se ele estivesse lhe questionando, como se ele estivesse perguntando quais eram suas motivações para pensar daquela forma. – Vai me dizer que você não viu isso? Está claro como o dia! Os membros da Era Dourada treinam! Os cavaleiros treinam! Mas nós, os mercenários, nós não. Nós ficamos com nossas bundinhas bem paradinhas aqui, definhando nessa cidade quebrada! E eu sei o motivo disso! Eles provavelmente não confiam em nós; eles acham que vamos traí-los a qualquer momento e por isso eles não querem que tenhamos treinamento algum, querem que continuemos a ser fracotes para que não sejamos um desafio a eles na possibilidade de virarmos a casaca pro Olho Vermelho! Ou então eles simplesmente veem a gente como um monte de camisas vermelhas, um bando de inúteis que não tem função alguma além de servir como escudos de carne. Sim, provavelmente é esse o caso. Eles provavelmente estão pretendendo nos jogar primeiro contra o Olho Vermelho para fazerem com que eles acreditem que o inimigo é fraco, para depois atacarem com suas forças fortalecidas e pegarem o inimigo de surpresa!

Nem bem havia terminado de falar e seu olhar já havia se voltado para Denis novamente, rapidamente, sedento por ver qual seria a reação do mercenário a isso. Dessa vez conseguiu uma reação dele, apesar de que essa não foi necessariamente a reação que tinha em mente.

Quando olhou para Denis, viu o mercenário virar seu rosto de lado, sem nunca deixar de olhar dentro de seus olhos, e os lábios dele moveram-se lentamente em palavras simples.

– Você realmente acredita nisso?

Aquela pergunta lhe pegou desprevenido. Abriu sua boca para responder a ela, mas quando tentou falar nenhuma palavra veio, não porque algo lhe impedia de falar ou coisa do tipo, mas sim porque ele não tinha resposta para aquilo. Antes de toda aquela conversa, Breath estava completamente certo do que falava. Tinha a mais completa certeza de que o Salão Cinzento havia deixado ele e os outros de lado em favorecimento de outros, a mais completa certeza de que eles eram pouco mais do que peões prontos para serem descartados no jogo dos grandes, mas com aquelas simples palavras Denis havia lhe desarmado, e agora ele se pegava questionando-se se estava realmente certo em pensar daquela forma... ou, melhor dizendo, se ele realmente pensava daquela forma.

Estava pensando naquilo quando subitamente um brilho vermelho cobriu seu rosto. Tanto ele quanto Denis moveram seus rostos de imediato na direção da qual esse brilho veio. Nos céus, acima da cabeça de todos eles, o que podia ser descrito apenas como um grande cometa vermelho estava caindo sobre o Salão Cinzento em uma velocidade aterrorizadora.

– Mas.... Que bosta é essa?! – Não pode conter sua surpresa ao ver aquilo. Um cometa?! Um raio dum cometa?! Quando?! Donde?! Cometas eram visões raras, coisas que você só via uma vez na vida, e isso se chegasse a ver um em algum lugar. Sendo assim, não sabia tanto sobre eles quanto poderia querer, mas sabia o suficiente para ser capaz de dizer que deveria ter visto uma merda grande e brilhante como aquela bem antes dela chegar perto dele, principalmente antes dela está prestes a cair sob sua cabeça. O que significa que... esse não pode ser um cometa de verdade! E se isso não for um cometa de verdade... então... então... ESTAMOS SOB ATAQUE?!

Como que para responder à sua pergunta, o cometa demonstrou sapiência. Parecendo ouvir as palavras de Breath e ser atraído por elas ele se virou em meio curso; antes ele estava indo em direção a sede do Salão Cinzento, mas ao ouvir o mercenário ele voltou-se rapidamente em direção a ele, avançando contra Breath e Denis com uma velocidade completamente insana. Ah, bosta! Por que eu sempre tenho de abrir essa minha boca de merda?!

– Merda, isso é mal! Denis, fu... – Interrompeu a si mesmo no meio de sua frase. Estava virando o seu rosto em direção ao seu companheiro para avisá-lo a correr dali, mas logo viu que isso era desnecessário; sem nem esperar para ver a reação de Breath Denis já havia girado pro lado contrário ao do cometa e disparado a correr como se estivesse fugindo dos próprios Corações. A situação era tão absurda que por um momento o próprio Breath congelou, incapaz de fazer qualquer coisa que não fosse olhar para ele com uma sobrancelha erguida, mas logo os sons da aproximação do cometa lhe despertaram de seu transe, e praguejando entre dentes Breath correu com todas as suas forças junto de seu colega.

Conseguiram saltar daquele telhado para o chão bem no último instante, um momento antes que cometa vermelho atingisse o prédio no qual estavam antes. A força da colisão foi tão grande que ambos os mercenários foram arremessados pelo ar devido à onda de choque dele, jogados contra algumas ruínas próximas. Merda, merda... por que essas merdas sempre acontecem comigo? Não podia dizer que era normal que cometas caíssem sobre sua cabeça, mas coisas estranhas estavam sempre acontecendo ao redor de Breath, para sua eterna frustração.

Balançou rapidamente sua cabeça numa tentativa de organizar um pouco seus pensamentos e ergueu os olhos de volta para o ponto de colisão. Em geral, todo o Salão Cinzento era constituído de ruínas chamuscadas a essa altura devido ao último ataque do Olho Vermelho, mas aquela se destacava; a fumaça que saía dela deixava claro que aquilo era recente, e mais do que isso, o grande buraco e a cortina de fumaça e poeira que vinha dele tirava qualquer dúvida que podia restar sobre aquilo ser o trabalho das mãos de um homem... ou de vários. Graças a toda aquela fumaça não podia ver muito bem, mas mesmo assim conseguia identificar claramente cinco sombras em meio a fumaça.

.... Estou vendo que as coisas vão piorar bastante antes de começarem a melhorar, não é? Supunha que isso podia ser algum tipo de punição divina por ter reclamado antes do trabalho que haviam lhe dado e afirmado com tanta convicção que não atacariam a cidade. Improvável que seja realmente isso já que, bem, os Deuses estão mortos, mas se existe uma lógica nesse mundo é “pro inferno com a lógica”. Trocou um rápido olhar com Denis e ambos acenaram quase que imperceptivelmente um pro outro em sinal. Se levantaram tão rápido quanto puderam, e nem bem se colocaram novamente de pé, o som de passos rápidos se aproximando ressoou em seus ouvidos. Não tiveram tempo nem de virar-se em direção a esse som; antes que fizessem qualquer coisa Zetsuko aterrissou diante deles, seus cabelos balançando com o soprar de uma brisa suave enquanto a espadachim trazia em mãos ambas as suas espadas.

– Denis. Breath. – O murmúrio dela veio juntamente com um suspiro aliviado, como se ver os dois bem tivesse removido um peso enorme das suas costas. Logo ela voltou sua atenção para as figuras em meio a fumaça, no entanto. – Quem são esses? Inimigos?

– Aparentemente – respondeu Denis.

– Não, inimigos não – disse Breath, batendo um punho fechado no outro, fazendo com que faíscas vermelhas fluíssem ao redor de suas mãos. – No momento, eles são sacos de pancada ambulantes. E em cinco minutos eles serão corpos carbonizados!

Foi o tempo de dizer aquilo e uma risada veio de dentro da fumaça. Uma das figuras que podia ver dela – a maior de todas cuja forma se assemelhava a de um homem – era claramente a responsável por aquilo, a que gargalhava com a maior satisfação.

– O garoto tem fogo nos punhos e fogo na alma! – Zombou ela, divertida e expansiva, um vozeirão bem potente. – Interessante! Me pergunto se ele pode fazer jus às suas palavras no campo de batalha!

– “Cão que muito late não morde”. Esse é um ditado bem antigo e bem verdadeiro – disse uma segunda voz, também masculina, mas muito mais séria e contida do que a do primeiro, com um certo tom que dava um ar muito mais profissional a ela. – Teste seu oponente se quiser, mas as chances são de que ele não seja metade do que diz ser. Ainda assim, não o subestime. Até mesmo o mais fraco dos oponentes pode se revelar problemático se você ficar o subestimando.

– Isso não é lá totalmente verdadeiro, Hadvar – murmurou em resposta uma voz feminina, divertida e sedutora; a voz de uma mulher que fazia de cada gesto e palavra uma tentação com tamanha competência que isso parecia completamente natural. – Um leão nunca vai prestar muita atenção em um rato, e por mais que esse rato se esforce ele jamais será capaz de ter qualquer chance contra um leão.

– Creio eu que você está perdendo o ponto que nosso companheiro quer fazer, minha bela Flavent – disse uma terceira voz masculina, mais galante e divertida do que as dos outros, como se seu dono estivesse tentando soar conscientemente mais refinado. – Um rato nunca terá qualquer chance contra um leão, mas isso é devido a sua inabilidade. Sendo assim, estimar pouco de um rato é algo acurado, já que o rato é realmente capaz de pouco. Hadvar nos avisa a tomar cuidado para não estimar que uma criatura mais capaz seja capaz de menos do que o que ela pode fazer. Você não lida com um rato esperando que ele fosse tão forte quanto um cão de caça, mas você tampouco lida com um cão de caça esperando que ele se mostre tão fraco quanto um rato.

– Espera, espera... isso tudo me soa um tanto... confuso. – A voz que disse aquilo era novamente feminina, mas também infantil, como se sua dona fosse uma garotinha. Pelo que podia ver com a cortina de fumaça, não ficaria surpreso se fosse esse o caso, considerando seu tamanho. – Isso quer dizer que... um cão é mais forte que um rato... então você não deve considerar um cão como um rato..., mas por que você consideraria um cão como um rato em primeiro lugar? Digo, eles são bem diferentes... a não ser que o cão em questão seja um chihuahua..., mas chihuahuas são meio que mestiços entre cães e ratos, certo? Então, considerando que chihuahuas são mestiços entre cães e ratos, eu deveria considera-los como? Como cães? Ou como ratos? Ou talvez eu deva criar uma outra classificação nova exclusiva para os chihuahuas? Mas... se eu fosse criar uma nova classificação, então como eu deveria considera-la? Superior aos cães? Inferior aos ratos? Em algum tipo de meio termo? Mas... espera, chihuahuas são considerados como cães apesar de serem misturados, certo? Isso significa que eles são mais fortes que ratos? Ou talvez isso seja apenas uma relação estabelecida devido a julgarem que há uma predominância de características caninas neles, sem levar em conta padrões como força, mas isso significaria que... que...

Aquela frase nunca teve conclusão. Antes que a dona da voz pudesse concluir seu pensamento, o som de algo se quebrando ecoou pelo ambiente, e um instante depois Breath viu a sombra dela cair no chão. Mas que merda? Não entendia nada do que havia acabado de acontecer, mas aparentemente os demais companheiros dela compreendiam, tanto que não demorou para que um deles suspirasse audivelmente.

– E ela quebra de novo – resmungou a voz do terceiro homem enquanto sua figura balançava a cabeça. – Nós já deveríamos ter aprendido ter aprendido a não colocar lógica alguma diante de Neshka. Isso nunca dá certo.

– Tarde demais pra isso – suspirou a voz do segundo homem, aparentemente o que eles haviam chamado antes de “Hadvar”. – E o pior é que ela demora um tempo tão longo até acordar de novo... não podemos contar com ela por pelo menos uma hora.

– Na verdade, podemos contar com ela em cerca de dez minutos – corrigiu a voz do primeiro homem, soando bem satisfeita consigo mesmo. – Eu e Neshka temos trabalhado isso juntos. Ela está bem melhor agora.

– Oh, então quer dizer que o grande bobão e a menina burrinha têm trabalhado juntos? Que meigo, que adorável! – O sarcasmo da mulher era quase que venenoso enquanto ela falava. – Parabéns, Ulrock! Eu nunca imaginei que um paspalho como você seria capaz de ensinar qualquer coisa a qualquer um, quanto mais à uma criaturinha tão estúpida quanto Neshka.

– Cuidado com a língua, Flavent. – A voz de Ulrock, antes tão leve e satisfeita, assumiu rapidamente um tom de censura irritado ao falar com a mulher. – Insulte Neshka de novo que eu arranco essa sua língua de cobra e empurro-a pela sua garganta abaixo.

– Acho que seria melhor deixar esse trabalho para mim, Ulrock – comentou Hadvar, também direcionando sua fúria à mulher. – Você é o mais forte fisicamente falando de nós. Segure-a que eu faço isso.

– Calma, calma, chega disso agora meus amigos. – Disse a voz do terceiro homem em um tom apaziguador. – Lembrem-se, somos o S.O.M.B.R.A.; o S.O.M.B.R.A. não briga entre si.

Aquelas siglas chamaram a atenção de Breath. Espera aí... S.O.M.B.R.A.? Você quer dizer, aquele S.O.M.B.R.A.?! Lançou um rápido olhar ao lado e viu que, tal como ele, Denis e Zetsuko pareciam bem surpresos por aquilo. Eles se chamam de S.O.M.B.R.A., e eles tem esses nomes... Ulrock, Flavent, Neshka, Hadvar... não me diga que estamos realmente lidando com eles! Havia imaginado que o Olho Vermelho devia ter usado alguns de seus fundos ilegais para contratar mercenários ao seu serviço... mas havia um mundo de diferença entre contratar mercenários e contratar o S.O.M.B.R.A..

E no entanto, quando uma brisa soprou e afastou a fumaça, não restou dúvida alguma. Ali estavam eles, bem diante dos seus olhos. Ulrock dos Punhos Vermelhos. Flavent dos Espinhos de Prata. Neshka, a Ventríloqua. Hadvar, o Terror Celeste. Robert, o Demônio das Sombras. Todos os cinco estavam reunidos. Todos os cinco estavam relaxados. Todos os cinco eram, aparentemente, seus inimigos.

Esse pensamento assustava Breath, tanto que ele foi o responsável por fazer com que o mercenário engolisse em seco e fechasse seu punho com ainda mais força.

– Hum? – Um leve grunhido veio da garganta de Ulrock quando ele notou que a fumaça havia desaparecido. Seus olhos se moveram até repousarem sobre Breath e os outros, e no momento em que isso aconteceu um sorriso ganhou seu rosto. – Oh, olhem, olhem só! Formigas vieram brincar junto dos leões!

Foi só depois que ele disse aquilo que todos eles pareceram notar a presença de Breath e os outros; contra a sua vontade, sentiu seu corpo se tornar rígido e estremecer quando os olhos dos cinco caíram simultaneamente sobre ele, sentiu-se como uma lebre diante de tigres e lobos. Merda, MERDA! O que porra está acontecendo?! Esse não sou eu! Era um mercenário – um dos mais corajosos e bravos, modéstia à parte – não uma garotinha para ficar tremendo de medo diante de seus oponentes!

Mas apesar de não querer, era exatamente isso que estava acontecendo.

– Inimigos... – aquele murmúrio de Hadvar foi bem baixo, quase inaudível. Os olhos do Terror Celeste se afiaram sobre Breath, e quando ele voltou-se em sua direção, o mercenário por um momento parou de respirar em apreensão. Fortaleceu rapidamente sua guarda tanto quanto pôde, bem a tempo de ver seu oponente lançar-se contra ele com tudo.

Mas antes que ele pudesse chegar perto dos mercenários, a mão forte de um de seus companheiros lhe segurou.

– Calma, calma. Não sejamos precipitados aqui, Hadvar. – A voz de Robert Steins era calma e centrada, como se ele estivesse no mais completo controle da situação... o que, considerando quem ele era, provavelmente não era necessariamente errado. Hadvar voltou-se para ele com um olhar um tanto quanto aborrecido por ter sido parado, mas seu chefe não se dignou a dar uma razão pras suas ações; tudo que ele fez foi mostrar um meio sorriso ao outro (em parte apologético, em parte zombeteiro) e dar-lhe duas palmadinhas no ombro antes de voltar sua atenção aos mercenários. – Senhores, senhores! Cavaleiros... e donzela. É um grandíssimo prazer lhes conhecer nesse maravilhoso dia! Permitem-me me apresentar; meu nome é Robert Steins, e eu tenho a honra de ser o líder desse magnífico grupo de mercenários que vocês veem diante dos seus olhos, o S-

– Pelo amor dos Deuses, você está apenas desperdiçando nosso tempo aqui Steins! – Censurou rapidamente Hadvar, lançando um olhar afiado ao seu líder ao dizer aquilo. Viu uma expressão furiosa cruzar o rosto de Steins rapidamente ao ouvir aquilo, seus olhos tornando-se violentos e animalescos por um instante, antes que ele suspirasse de forma exasperada e tudo isso subitamente sumisse da sua pessoa. – Eles claramente sabem quem nós somos; somos famosos, afinal de contas, e não faria sentido que eles estivessem tão claramente amedrontados sem saberem quem somos... a não ser que eles fossem péssimos guerreiros, claro, mas creio eu que o Salão Cinzento é competente demais para ter covardes em patrulha. Apenas siga com a parte relevante antes que eu perca a paciência, sim?

A resposta de Steins a isso foi virar-se rapidamente para seu subordinado, fazendo gestos teatrais dramáticos e exasperados, antes de balançar a cabeça e voltar-se novamente para o trio, agora visivelmente um pouco aborrecido.

– Kastor Strauss – disse ele de forma simples, colocando as mãos no bolso. Isso imediatamente conquistou a atenção de Breath. Strauss? Espera aí, esse não é um dos discípulos do Odin? Aquele cavaleiro azul? – Vocês devem conhecer ele, não é? Não, não respondam. Já consigo ver toda a resposta que preciso no rosto de cada um de vocês, e além do mais, seria bem patético se vocês não o conhecessem considerando que foram contratados para lutar em uma guerra que surgiu devido a ele, mas bem, isso não vem ao caso. Meu contratante, eterno seja o seu dinheiro, me incumbiu com a delicada tarefa de trazer o senhor Strauss até ele; se em pé e com um sorriso ou amarrado em correntes, bem, eu acho que não faz muita diferença. Mas o que faz muita diferença é o que vocês vão fazer. Afinal de contas, são as ações de vocês que definirão qual será o seu futuro. – O tom de voz de Robert não falhava em ser amistoso e amigável enquanto ele falava, discursando como se fosse um velho amigo dos três, mas as suas palavras também não faziam esforço algum para esconderem a ameaça contida por trás delas. – Ei, que tal um pequeno e bom acordo? O meu trabalho aqui é lidar com Kastor, não contra vocês. Digam-me aonde ele está e eu não farei nada contra vocês. Diabos, levem-me até ele e eu lhes darei até um pouco de ouro! Digamos... uma moeda. Meia moeda. Um quarto de moeda. Cinco-oitavos?

Ao ouvir aquilo os punhos de Breath se fecharam instantaneamente com uma fúria indomável. Esse cara... ele tem de estar de sacanagem comigo! Não iria mentir; estava assustado, estava bem assustado ali. Aqueles oponentes diante dos seus olhos eram os membros do S.O.M.B.R.A., lendas vivas entre os mercenários, um grupo de guerreiros de elite famoso por ser capaz de fazer com que cidades-estados inteiras caíssem de joelhos diante deles. Quem não iria temê-los? Mas temer alguém era muito diferente de dobrar-se a essa pessoa. Eu não sou um covarde. Eu não sou um traidor. E também... eu não vendo minha dignidade!

Enfia essa sua moeda de merda no meio do seu cu, seu filho da puta arrombado! – O grito de Breath veio com todas as suas forças, pondo para fora toda a sua fúria, não só daquilo, mas também da sua própria covardice de momentos atrás. Esse grito fez com que ele se tornasse o centro das atenções; os olhos de Denis, Zetsuko e de todo o S.O.M.B.R.A. caíram imediatamente sobre ele, mas não se dignou a responde-los, ao menos não de imediato. Fechou os olhos e respirou fundo por um momento, e quando abriu-os novamente ele brandiu bravamente seu braço direito contra seu Steins, mostrando-o o dedo do meio em desafio. – Eu não sou a porra dum vendido, seu retardado de merda! Nosso trabalho aqui é proteger o Salão Cinzento de quaisquer invasores, e vocês são invasores! Tirem suas bundas gordas daqui, ou eu faço isso por vocês!

Robert só fez erguer uma sobrancelha perante àquilo. Nenhuma palavra veio de seus lábios, mas mesmo assim Breath compreendia bem a pergunta que ele estava fazendo. “E como você planeja fazer isso?” era ela, e pra ser sincero, Breath não tinha resposta para uma pergunta dessas. Eu não sei se eu posso derrotar o S.O.M.B.R.A.; normalmente tenho total confiança nas minhas habilidades, qualquer que seja o meu oponente, mas contra esse grupo... as coisas são mais complicadas. Mas mesmo que não pudesse derrotar o S.O.M.B.R.A., definitivamente não iria trair ninguém. Eu sou um mercenário, mas antes disso sou um homem e um guerreiro! Não irei trair a mão que me alimenta, nem tampouco irei fugir do meu dever. Se o S.O.M.B.R.A. planeja insistir com isso, então eu vou chutar a bunda deles, ou morrer tentando!

Foi então que aquele som irrompeu: uma gargalhada feminina bem divertida, imensamente prazerosa. Por um momento pensou que ela vinha de Flavent, mas quando olhou para a mulher viu que ela estava apenas lhe observando com um leve interesse; o som de passos ressoou próximo a Breath, e então ele descobriu quem havia rido.

– Breath, Breath... você é sempre bem imprudente, não é? – Zetsuko trazia um sorriso divertido no rosto enquanto se aproximava. Uma das mãos da espadachim caiu sobre seu ombro, apertando-o levemente de forma afetuosa. – Essa sua imprudência é bem perigosa e pode meter você e aqueles ao seu redor em muitas enrascadas..., mas, quer saber? Nunca perca ela. Por mais frustrante que ela possa ser, ela também é adorável de vez em quando; uma das coisas que gosto em você. – E como que para pontuar sua frase a mulher piscou para ele. Sabia bem que ela provavelmente estava apenas de sacanagem com ele, era difícil imaginar que alguém como Zetsuko fosse flertar a sério com alguém como Breath, mas nem mesmo isso fez com que ele deixasse de corar e se afastasse dela de forma brusca.

– “Imprudente” devia ser o seu sobrenome, Breath. Não acho que existem muitas pessoas nesse mundo que ousariam falar assim com o S.O.M.B.R.A. – Denis falava aquilo com um curto sorriso em seu rosto, e por uma vez seus olhos sempre indiferentes a tudo também demonstravam alguma coisa. Os olhos mortos daquele mercenário também sorriam naquele momento, parecendo tão divertidos quanto orgulhosos de Breath. – Isso dito, a imprudência pode revelar-se uma coisa boa em determinados momentos... como esse, por exemplo. Essa sua resposta foi perfeita. – Viu o mercenário voltar imediatamente sua atenção para Steins ao dizer isso. Em sua mão direita surgiram múltiplas bolinhas de energia púrpura nos espaços entre seus dedos, um sinal claro de que ele estava pronto para lutar. – Membros do S.O.M.B.R.A., faço das palavras do meu amigo as minhas. Saiam dessa cidade, ou iremos expulsá-los dela!

A resposta de Robert a isso foi suspirar de forma dramática, deixando que todo o seu corpo caísse como se ele estivesse extremamente desanimado. De forma preguiçosa ele ergueu seu braço direito até que sua mão estivesse ao mesmo nível de seu rosto, e com um estalar dos dedos ele deu sinal.

– Ulrock – disse ele simplesmente. – Mate esses três.

Um sorriso largo e cheio de dentes pontudos abriu-se no rosto do Punhos Vermelhos ao ouvir aquilo. Sorrindo de orelha a orelha ele caminhou a passos largos em direção ao trio, fazendo com que Breath imediatamente assumisse uma postura de batalha. Droga, logo ele?! Não conhecia o S.O.M.B.R.A. tão bem quanto podia querer esperar conhecer, mas pelo que sabia do grupo, Ulrock era provavelmente um dos mais fortes deles. A brutalidade, violência e completa capacidade que ele tinha de reduzir qualquer um que cruzasse seu caminho a carcaças sangrentas irreconhecíveis eram coisas que davam fama a ele, e por isso aquele homem era provavelmente a última pessoa que Breath queria enfrentar.

– Ulrock? Apenas Ulrock? Você deve estar brincando comigo! – Mais atrás do ruivo, Hadvar demonstrava não estar muito satisfeito com aquilo. – Por que você insiste em desperdiçar tanto tempo assim? Somos cinco aqui! Podemos todos reduzir esses três a pedaços num piscar de olhos e partir para nossa missão logo em seguida!

– Sim, sim, podemos fazer isso, mas por que tanta pressa? – Enquanto seu subordinado estava completamente frustrado, Steins mostrava-se relapso, desinteressado em suas reclamações. Com suas mãos no bolso ele avançava lentamente para junto dos seus novamente, completamente despreocupado. – Ulrock pode lidar com eles, Hadvar, deixe-o se divertir um pouco. Além do mais, não seja fominha. Você pegou os últimos oponentes que achamos, certo? Agora é a vez de outra pessoa se divertir.

– Seu maldito tolo, isso não é a droga dum parque de diversões! – A frase escapou como um grunhido por entre os dentes de Hadvar enquanto ele encarava firmemente Steins, como se estivesse lutando para se manter no controle de sua própria mente e não avançar contra seu chefe. – Não devemos subestimar nossos oponentes; se eles foram contratados por uma organização como o Salão Cinzento para enfrentarem um oponente tão forte quanto o Olho Vermelho, então eles definitivamente possuem uma força bem acima do normal, e não devemos lhes dar chance de usar essa força contra nós! Além do mais, cada minuto que gastamos em uma batalha contra eles é um minuto barulhento que chama atenção; tenho certeza de que devem ter outros companheiros deles espalhados por aí em algum lugar, e ficar demorando em uma luta vai chamar todos eles pra cá.

– O que é bom para nós, como você poderá notar assim que parar de ficar se focando em criticar minhas ações – retrucou Robert sem esconder um certo tom de ironia. – Quanto mais atenção chamarmos, mais pessoas virão nos enfrentar. Isso significa que a chance que nosso alvo saia de qualquer que seja o buraco no qual ele se escondeu aumenta, e mesmo que ele decida bancar o covarde e não saia, podemos simplesmente questionar alguns dos outros.

– Esse é um plano estúpido! – Protestou um Hadvar claramente frustrado.

– Talvez, mas é o plano que você vai seguir – concluiu Steins, parando por um momento para lançar um olhar firme contra seu subordinado. Por um momento Breath foi capaz de sentir a pressão das forças de ambos no ar, como se eles estivessem prestes a avançar um contra o outro com tudo, mas no fim das contas isso acabou não acontecendo. – Agora, cale a boca e apenas observe. Ulrock vai lutar, e ele vai lutar sozinho. Talvez você tenha uma chance de ganhar um pouco de ação caso ele perca, mas eu não torceria por isso se fosse você; se ele perder, ele morre.

– Se for esse o caso, então eu sou um imortal, Steins! – Exclamou alegremente Ulrock, parando há cerca de vinte metros do trio, ambos os seus grossos braços cruzados a frente de seu corpo. – Afinal de contas, eu nunca perco! – Ele estufou seu peito ao dizer aquilo, orgulhoso de seu próprio recorde, e em seguida abriu um largo sorriso. Com uma das mãos ele gesticulou para que viessem contra ele, chamando Breath e os outros pra luta. – O que foi? O que estão esperando, pirralhos? Seu oponente está aqui. Podem vir um por vez ou o trio pode lutar unido se preferirem assim, não importa pra mim. Apenas venham me enfrentar, e preparem-se para serem quebrados!

Nem bem aquelas palavras foram ditas, Denis e Zetsuko imediatamente avançaram um passo a frente, aparentemente ansiosos por seguirem em frente com aquilo. Esses dois idiotas... eu não acredito que estou sendo o sensato aqui! Foi Breath que teve de impedi-los, segurando o ombro de cada um com uma mão e puxando-os novamente para trás.

– Breath? – Seu nome escapou dos lábios de Zetsuko por pura surpresa enquanto a espadachim tentava recuperar seu equilíbrio depois da puxada.

– O que você pensa que está fazendo? – Perguntou Denis por sua vez, erguendo uma sobrancelha.

– Eu poderia perguntar o mesmo para vocês. O que vocês pensam que estão fazendo? – Questionou o mais bruto dos mercenários, franzindo as sobrancelhas e encarando firmemente os dois enquanto tentava fazer sua melhor imitação da voz de um pai ao dar um sermão em seu filho. – Vocês não ouviram o que esses caras estavam falando momentos atrás? Sobre atenção e tudo mais?

– Sim. Mas o que isso tem a ver com a situação atual? – Perguntou Zetsuko, confusa.

– Tudo! Absolutamente tudo, seus malditos cabeças-ocas! – Estava mais do que apenas um pouco frustrado com todas as ações de seus companheiros, mas mesmo assim forçou-se a se acalmar e abaixar o tom de sua voz. Não podia deixar que seus inimigos ouvissem o que tinha de dizer a seguir. – Mais atenção significa que mais pessoas serão atraídas até aqui, e isso significa reforços até nós. Kastor não está na cidade, o que significa que não há chances de que ele acabe sendo atraído e caindo numa espécie de armadilha, então isso é simplesmente bom pra nós. Esses caras que vamos enfrentar são os membros do S.O.M.B.R.A.; não só cada um deles é famoso por ser bem poderoso, eles são em cinco. Só nós três nunca seremos o bastante para derrota-los. Por isso precisamos de duas coisas; um plano e ajuda. Bom, eu lhes ofereço uma forma de ter ambos; eu vou enfrentar esse cara e tentarei fazer com que a luta dure tanto quanto possível. O barulho vai atrair os outros, e a luta lhes dará tempo para analisar nosso oponente.

– Analisar o oponente? .... Espere um pouco... você não pode estar realmente querendo ir em frente com um plano tão louco como esse, está? – Depois de seu sorriso, os olhos de Denis haviam recobrado sua indiferença natural, mas agora eles tornavam a mostrar alguma emoção; surpresa, susto, medo. Internamente, Breath sorriu. Devo estar em um bom dia para arrancar emoções por duas vezes dos olhos desse filho da puta. – Breath, esse plano é suicídio.

– Só se eu estivesse sozinho. Mas tenho vocês aqui comigo, então sei que vou sobreviver. – Pra ser sincero, não sentia tanta confiança nas suas próprias palavras, mas tinha de demonstrar segurança para seus companheiros e ficou bem satisfeito com sua atuação. – Se parecer que estou prestes a morrer, interrompam e me salvem porque eu não quero conhecer a Dama Morte no momento, mas fora disso não se intrometam na batalha. Observem bem o que vai acontecer, observem as técnicas de nosso inimigo, seus pontos fortes e fracos, e mantenham isso em mente, entenderam?

– Você está louco, garoto! – Os olhos de Zetsuko estavam arregalados, olhando para Breath como se estivessem realmente assustados, como se ela realmente acreditasse que ele havia perdido sua cabeça.

– Eu diria que estou completamente são. De todos nós, eu sou o que é mais resistente e o com a maior vitalidade. Não existe ninguém mais recomendável dentre nós para manter um inimigo ocupado por longos períodos de tempo. – Mostrou a ela um sorrisinho arrogante ao dizer aquilo e estalou seus dedos em preparação para o que estava por vir. – Além do mais, você disse que minha imprudência é adorável, não disse? Existe algo lá mais imprudente do que o que vou fazer?

Viu-a abrir sua boca para responder a isso, mas não demorou-se o bastante para que ela soltasse qualquer resposta. A passos largos caminhou em direção à Ulrock, e foi apenas com o canto de olho que dignou-se a observar a reação dos dois, tomando o cuidado de não deixar mostrar que estava olhando para trás. Zetsuko ainda tentou segui-lo, mas aparentemente Denis viu a lógica em seu plano ao ponto de apoiá-lo um pouco, segurando-a pelo ombro e balançando a cabeça de forma negativa. Beleza, devo meus agradecimentos a você por isso. Se saísse vivo dali, teria de pagar uma garrafa de uísque praquele bastardo.

– Apenas um? Que decepção. E eu que esperava os três de uma vez. – Ulrock balançou sua cabeça enquanto suspirava, desapontado, mas Breath não lhe deu muita atenção.

– Não se decepcione – disse Breath, colocando-se em uma posição de combate. Fechou seus punhos com força, e faíscas de chamas fortes fluíram ao redor deles quando o fez. – Eu sozinho sou o bastante pra queimar essa sua bunda gorda.

– Palavras ousadas para um garoto ousado..., mas ousadia é estúpida. Você tem muito isso quando é jovem, as depois você aprende que a ousadia pertence aos tolos, garoto. Os homens, eles usam de algo muito melhor, a sensatez. Pena que você não vai viver o suficiente para conhece-la. – O punho direito de Ulrock também fechou-se com força, mas a diferença foi enorme; a própria força com a qual ele fechou seu punho foi tão grande que ela exerceu uma pequena pressão de ar ao redor dele, forte o suficiente para balançar seus cabelos. Parece que os rumores não são exagerados. Esse bosta é realmente forte. – Diga-me, garoto... você tem um nome?

– Breath “do Fogo” é como me chamam – respondeu o mercenário, revestindo imediatamente seus braços com chamas ao dizer aquilo. – Lembre-se desse nome, Ulrock dos Punhos Vermelhos! Quando conhecer a Dama Morte, avise-a que irei mandar seus amigos também num instante!

Nem deu chance para que seu oponente lhe desse alguma resposta. Com um salto rápido Breath avançou contra ele, movendo seu punho direito em um direto com toda a força contra o rosto dele. Viu uma expressão de susto surgir na face de Ulrock quando ele se deu conta de que já estava tão próximo num piscar de olhos, e isso fez com que um sorrisinho de satisfação se mostrasse no rosto de Breath.

E como se estivesse apenas esperando por isso, um sorrisinho igual ao seu surgiu no rosto de seu oponente, um instante antes que ele desaparecesse.

– “Punhos Vermelhos” é uma alcunha antiga – sussurrou suavemente uma voz ao mesmo tempo em que uma perna forte acertava um poderoso chute lateral na barriga de Breath. Seu corpo foi arremessado longe pela força do impacto, o mercenário sendo lançado girando pelos ares enquanto cuspia sangue. Suas costas colidiram em cheio com o chão e ele foi arrastado por esse por um bom tempo antes de perder força, ao ponto de suas costas estarem em praticamente puro sangue quando parou, sua jaqueta já praticamente inexistente. – Desde que me juntei ao S.O.M.B.R.A., minha alcunha passou a ser “Glorioso Cometa Vermelho”. – Sua visão estava um pouco turva, mas mesmo assim ele conseguiu ver claramente aquele que se aproximava; com um sorriso no rosto e uma postura imponente, Ulrock se movia em direção a Breath sem pressa alguma, como um predador que brinca com sua presa. – Mas permita-me mostrar como consegui essa alcunha!

Ah, porcaria! Aquelas palavras foram todo o aviso que necessitava para que soubesse do que estava por vir, e rapidamente cruzou seus braços em frente ao seu corpo em preparação para o ataque de seu oponente. O sorriso de Ulrock alargou-se ainda mais por um momento, tornando-se puramente malévolo, e sem pensar duas vezes ele investiu contra Breath.

Sua velocidade foi simplesmente absurda. Ouviu o estrondo causado pela quebra da barreira do som, e mesmo já tendo cruzado seus braços e preparado-se completamente para invoca-lo, os braços de Ifrit só surgiram no último instante para bloquear o punho de Ulrock, quase tarde demais. Um ruído de confusão veio da garganta de seu oponente ao encontrar de frente com aquilo e Breath não deixou a chance que se mostrou escapar por entre seus dedos; descruzou os braços com toda a sua força, fazendo com que o demônio de fogo que controlava como uma marionete fizesse o mesmo, isolando Ulrock com força o bastante para força-lo a recuar. Seu inimigo aterrissou há cerca de pouco mais de vinte metros de distância dele, e sabendo que aquela ainda não estava nem sequer perto de ser uma distância segura, Breath não perdeu tempo em colocar seu corpo em uma posição que deixasse os braços do demônio de fogo diante do seu corpo, como um grande escudo. Um grande escudo feio e flamejante.

– Mas que droga é essa? – Perguntou Ulrock, estalando um pouco seus dedos enquanto observava a criação de Breath com claro interesse, parecendo por um momento confuso antes que a compreensão começasse a lentamente tomar conta do seu rosto. – Ah, entendo. Esse demônio de fogo.... ele deve ser uma das suas habilidades, não é, garoto? Aquilo que chamam de “Aloeiris”. – Cuspiu ao dizer aquela palavra, como se esse nome fosse nojento para ele. – Francamente, não sei como que vocês conseguem usar uma habilidade dessas e ainda se chamam de guerreiros. Verdadeiros guerreiros lutam com suas mãos nuas, não usando uma habilidade espalhafatosa dessas!

Não disse nada em resposta a isso, mas mentalmente anotou o que seu oponente havia acabado de dizer. “Não sei como vocês conseguem usar uma habilidade dessas”... isso significa que ele não usa Aloeiris? Aparentemente, era esse o caso. Isso é... bem interessante. Havia ouvido rumores sobre pessoas como essas – “Ignorantes”, eram como eles eram chamados, as pessoas que se tornavam fortes o suficiente para terem um nível de poder que deveria significar que elas teriam Aloeiris, mas ainda assim permaneciam surdos ao chamado do seu poder. Sempre me perguntei o porquê deles não serem chamados de “Surdos”, mas sim de “Ignorantes”. Agora tenho minha resposta. Pelo que estava vendo, Ulrock era alguém que desprezava esse tipo de poder, o que sugeriria que ele não o usaria mesmo se pudesse. Não sei se isso é uma vantagem muito grande, mas é certamente algo que eu posso usar. E no momento, irei usar toda vantagem que eu tiver em mãos!

Rangendo os dentes Breath moveu seu braço esquerdo lateralmente, fazendo com que o braço do demônio de fogo que havia criado acompanhasse seus movimentos, ao mesmo tempo em que fazia isso também direcionou uma parcela maior da sua energia ao seu demônio. Ifrit era uma criação das suas forças, e isso significava que com suas forças podia controla-lo; direcionando uma quantia maior de energia a ele, era capaz de aumentar o tamanho e o poder por trás do demônio do fogo, fazendo com que ele se tornasse uma arma ainda mais letal em batalha. Ifrit expandiu-se conforme a sua energia o ampliava, e com sua expansão o movimento de Breath chegou até mesmo a alcançar Ulrock. O membro do S.O.M.B.R.A. teve de saltar aos ares para que não fosse atingido por seu ataque, e isso por sua vez fez com que ele ficasse completamente vulnerável ao que estava por vir. Deixou que um curto sorriso viesse ao seu rosto enquanto jogava seu braço direito para trás, para em seguida dispará-lo com todas as suas forças contra Ulrock enquanto ele ainda estava no ar... ou melhor dizendo, disparar o punho de Ifrit com todas as forças.

Nem mesmo alguém tão tremendamente forte como aquele homem foi capaz de fazer alguma coisa para evitar aquele golpe. O punho atingiu-lhe em cheio, lançando-o para longe com uma força tão monstruosa que seu corpo abriu buracos em pelo menos três prédios antes de destruir por completo um quarto. Isso aí! O que acha disso, seu monte de esteroides ambulante?! Sem poder contar com uma Aloeiris, Ulrock dependia de nada mais do que suas habilidades físicas em um combate, e por mais avançadas que elas pudessem ser, elas ainda eram habilidades físicas. Existe um limite do que ele pode fazer apenas com essas habilidades. Ele não pode se mover livremente em meio ao ar, por exemplo, tal como ele não pode se curar de alguma forma. Isso significava que, se conseguisse manter seu oponente no ar de forma a lhe acertar com golpes poderosos como aquele, então conseguiria ir pouco a pouco detonando o corpo daquele bosta. Só preciso disso, de um pouco de estratégia. Vou usar esse plano, e com ele, eu irei ven-

Como que lendo seus pensamentos, algo emergiu em alta velocidade dos escombros do prédio destruído pelo corpo de Ulrock naquele instante. Sua velocidade foi completamente absurda, rápido demais para que pudesse sequer pensar em tentar acompanhar seus movimentos. Nem conseguiu se dar conta do que aconteceu direito; quando percebeu, abria a boca para gritar de dor, uma dor forte o suficiente para desativar forçosamente sua habilidade. Seu braço direito doía imensamente, e quando voltou-se para ele viu bem motivo disso; seus ossos haviam sido quebrados num instante pela força do chute de Ulrock, sendo que o Cometa Vermelho estava agora bem diante de Breath, completamente ileso depois de seu ataque, um sorriso sanguinário estendendo-se pelo seu rosto.

Não teve tempo algum pra tentar reagir. Antes que uma única palavra pudesse escapar de seus lábios um punho forte e duro acertou em cheio o rosto de Breath, empurrando-o com tudo para o chão. Não foi capaz de erguer resistência alguma a isso. Seu crânio atingiu em cheio a pedra dura com força, e pressionado entre o chão e o punho de Ulrock, Breath honestamente não era capaz de dizer qual era o pior. Tanta força... como isso é possível?! Aquilo era absurdo, completamente absurdo. Era alguém que estava muito além dos padrões humanos, sabia disso, mas Ulrock mesmo assim estava em um patamar completamente diferente, um nível muito superior. Eu... não tenho chances contra ele.

– Sabe, garoto, esse foi um bom soco – disse a voz de Ulrock, enquanto ouvia um som que sugeria que o mercenário estava estalando seu pescoço enquanto falava. – Ele foi até que consideravelmente forte, pra ser sincero. A maioria das pessoas, e estou falando de guerreiros de alto nível aqui, iriam sair bem feridas de algo assim. Mas eu... eu não sou a maioria das pessoas. Você tem que aprender, garoto, que o mundo é vasto. Existem muitas pessoas espalhadas por aí, e muitas delas são tremendamente fortes. Existem aqueles que são do seu nível, o que chamamos de “Sobre-humanos”... e existem aqueles que vão muito além, os “monstros” e os “Deuses”. Você entende o que quero dizer com isso, não entende? Não importa qual seja seu plano ou qual seja a sua habilidade; existe um nível de força bruta nesse mundo que você simplesmente não pode vencer se não estiver nele também!

Sem nem sequer dar tempo para que essas palavras caíssem bem na mente de Breath, Ulrock continuou seu ataque sem nem um pingo de misericórdia. Com a ponta da bota ele acertou um poderoso chute na boca do estômago de Breath, tirando o ar do guerreiro e arremessando seu corpo com força para cima, apenas para que ambos os braços de Ulrock caíssem com todas as forças contra o peito de Breath, explodindo com ele com tanta força que seu corpo foi arremessado imediatamente de volta ao chão, a pressão exercida pelo impacto sendo grande o bastante para fazer uma pequena cratera ao redor dele. O sangue subiu a sua garganta em quantidades tão grandes depois daquilo que simplesmente não pode parar de tossi-lo violentamente; sentia seu músculos e ossos afundados para dentro de seu peito, e seu rosto – principalmente a área da boca – estava coberto em seu próprio sangue... e nem mesmo assim Ulrock abrandou seus ataques. O que veio a seguir não foi nem de longe o mais poderoso dos golpes dele, mas nem por isso deixou de ser o mais humilhante; Ulrock pisou no rosto de Breath, pressionando o rosto do mercenário contra a terra quebrada abaixo dele como se estivesse tentando esmagar uma barata.

– Pobre garoto, esforçou-se tanto em me derrotar, mas não me fez um arranhãozinho sequer. Pobrezinho. – A troça foi dolorosamente clara na voz de Ulrock; ele divertia-se em zombar de Breath e não fazia nenhum esforço para tentar esconder isso. – Quer saber, garoto? Farei algo por você. Como você foi bem corajoso em tentar me enfrentar dessa forma e tudo mais, eu vou lhe agraciar com algo glorioso! – O pé se foi, e por um momento Breath pode respirar decentemente, mas isso não durou muito antes que uma mão se fechasse ao redor de seu rosto. Seu corpo foi erguido facilmente do chão como se fosse um saco vazio, e mesmo sem ver pode sentir que Ulrock estava erguendo-o além do seu próprio nível. – Diga-me, garoto... você já viu o corpo de alguém depois que você quebra cada osso dele?

Não lhe deu chance de responder a isso, nem de sequer tentar entender o que aquilo significava. Com força e violência Ulrock arremessou o corpo de Breath com tudo aos ares, lançando-o muito longe e muito alto em míseros segundos. Estava completamente mole e derrotado, incapaz de sequer debater-se contra o ar, mas seus olhos ainda estavam bem abertos, e com eles ele pode ver todo o mundo girar ao seu redor. As nuvens e o céu... elas estão tão próximas. E as casas... elas estão tão... tão... distantes. Em questão de instantes foi capaz de ver todo o Salão Cinzento do alto, pequeno como se fosse uma formiguinha em meio ao horizonte longínquo.

E então, viu um borro vermelho movendo em altíssima velocidade na sua direção.

Ulrock lhe alcançou em instantes, mas surpreendentemente ele não lhe acertou golpe algum. Ao invés disso, o que ele fez foi sorrir, ajeitar-se de forma a deixar suas costas da mesma forma das de Breath (ainda que em um plano inferior) e enroscar seus braços nos de Breath, como que prendendo-o a ele. Em poucos momentos os dois estavam em uma posição estranha; Breath, de cabeça para baixo, tinha sua cabeça apoiada no ombro de Ulrock, paralela a cabeça do Cometa Vermelho, enquanto o resto de seu corpo estendia-se ereto como um graveto, movido a essa posição pelo apoio que Ulrock exercia.

– Prepare-se para conhece-la, garoto – disse o mercenário em um tom completamente sádico. – Essa é a minha técnica mais forte, e ela vai lhe ensinar a verdadeira dor! Ao fim disso, você vai desejar ter morrido há tempos!

Ao ouvir aquelas palavras, os olhos de Breath se arregalaram, e quando essas palavras foram ditas o corpo de Ulrock subitamente disparou em direção ao chão, levando o seu junto dele. A velocidade dos dois foi imensa; ao seu redor as nuvens passavam tão rapidamente que pareciam um simples borro branco, e não demorou muito para que Breath visse chamas ao redor deles, tamanha a velocidade com a qual caiam. Espera... essa velocidade, essa postura... não me diga que...! Se as coisas continuassem naquele ritmo, o impacto dos dois com o chão seria comparável ao de um meteoro.

E na posição em que estava, Breath iria a força desse impacto diretamente sobre o seu corpo.

Tentou desvencilhar-se de alguma forma, mas era impossível. Se estivesse bem ele já provavelmente não seria capaz de fazer isso devido a pura força bruta de Ulrock, o que fazia com que isso fosse completamente absurdo para ele, ferido como estava. E também, já era tarde demais. Num instante, Ulrock atingiu o chão. Uma gigantesca cratera surgiu no solo, tamanha a força do impacto, mas Ulrock não sentiu nada disso; arremessando de pé com suas pernas levemente dobradas, Ulrock aterrissou com tal postura que a maior parte do impacto simplesmente passou por suas pernas sem causar dano, seguindo para sua cintura, braços, torso e ombros, sempre seguindo para cima, até atingir o corpo de Breath acima dele. Um berro angustiado de completa dor ressoou pela cidade com aquilo, ao mesmo tempo em que uma frase triunfal veio de Ulrock.

Glória Máxima!

Ele soltou o corpo de Breath após aquilo, e completamente mole o mercenário caiu no chão. Ele não estava mentindo antes com o que havia dito; a dor que havia sentido com aquele ataque era maior do que qualquer outra que sentiu em qualquer momento da sua vida, e por mais que não soubesse dizer se todos os seus ossos haviam sido quebrados por aquilo, tinha certeza de que ao menos a maior parte deles havia sofrido esse destino. Sem ossos ou forças, o corpo de Breath apenas jazeu jogado no chão como um brinquedo quebrado, tendo espasmos de tempos em tempos.

Mas de alguma forma, mesmo depois de tudo isso ele ainda não havia morrido.

– Hein? Você está vivo ainda? – Para sua surpresa, deu-se conta de que ainda tinha forças e ossos o suficiente para mover seu rosto, e foi isso que ele fez. Acima dele Ulrock estava olhando para seu corpo, parecendo um pouco decepcionado pelo que via. – Ora... isso é realmente uma droga, viu. Eu tinha um recorde perfeito com isso! Cem usos, cem mortes! Mas você tinha de quebrar isso, né, pirralho? Um golpe com taxa de mortalidade de noventa e nove por cento não soa tão bom quanto um com taxa de cem por cento. Mas, bem... creio que não posso fazer muito quanto a isso... além disso, é claro! – Sem nunca tirar seu sorriso do rosto o pé de Ulrock se ergueu ao ar, ficando acima da cabeça de Breath, pairando sobre ele como a sombra da morte. – Adeus, Breath “do Fogo”. Quando chegar ao inferno, seja um bom garoto e reserve os lugares dos seus companheiros, sim?

E assim que essas palavras foram ditas o pé de Ulrock caiu contra Breath com toda velocidade, aproximando-se em questão de instantes.

Mas antes que ele pudesse sequer tocar-lhe, viu o brilho de várias pequenas bolinhas de energia púrpura ao redor do rosto de Ulrock.

Granato Viola!

Ao som daquelas palavras, essas bolinhas explodiram de uma única vez em uma explosão tão poderosa quanto concentrada. Sua força foi o suficiente para desequilibrar Ulrock e força-lo a interromper seu ataque e recuar um passo para trás praguejando para não cair de bunda no chão. As explosões criaram uma nuvem de fumaça que envolveu tanto Breath quanto Ulrock, o que impediu que qualquer um dos dois visse a aproximação daquela pessoa. Quando se deu conta, alguém segurava seu corpo e movia-o rapidamente para fora dali em alta velocidade. Não foram longe demais – só o suficiente para tirar-lhe do campo de batalha – e só quando pararam foi que pode ver quem havia lhe salvado. Acima dele, Zetsuko lhe olhava com uma expressão horrorizada, como se não conseguisse compreender o que havia acontecido com ele.

– Breath... ah, bondosos sejam os Deuses, o que ele fez com você? – Os dedos dela acariciaram gentilmente seu rosto com suavidade e ternura, como se fosse de vidro. A dor que sentia era imensa, e carícia nenhuma seria o bastante para fazer com que esquecesse dessa dor... mas apesar disso, foi capaz de tirar algum tipo de conforto do toque dela. Tentou dizer alguma coisa, sussurrar o nome dela com alguma fração de força que lhe restasse, mas para a sua angústia viu que era incapaz de fazer sequer isso, tamanho o dano que havia sofrido... e de qualquer forma, não teve a chance de fazer isso por muito tempo. Logo Zetsuko se afastou um pouco, sua mão se fechando em um punho, sua feição horrorizada se transformando numa expressão de mais completa fúria. – Espere aqui, Breath. Eu sinto muito por não termos te ajudado antes, mas eu lhe prometo o seguinte; farei esse bastardo de merda pagar caro pelo que ele te fez.

Não. Nunca em sua vida desejou tanto poder falar quanto naquele momento. Quis falar, quis gritar, quis se debater, mas não podia fazer nada disso, e a angústia que isso lhe causava era pior do que qualquer tortura. Não, não, não! Não o enfrente! Não enfrentem ele, seus idiotas! Vocês não podem vencer! Me esqueçam aqui e corram pra se salvar, maldição!

Era isso que queria dizer, mas não conseguiu emitir palavra nenhuma. Tudo que pode fazer foi acompanhar tudo com seus olhos. Viu a fumaça ao redor de Ulrock começar a se dissipar, afastada dele por movimento da mão do mercenário. Mesmo depois de ter sofrido aquelas explosões direto no rosto, Ulrock não demonstrava sinal algum de estar ferido; na verdade, mesmo olhando para seu rosto, tudo o que poderia ver era uma expressão de frustração e irritação por ter sido interrompido.

– Mas que droga, os pirralhos de hoje estão muito mal-educados! Na minha época, respeitávamos os duelos entre homens!

– “Respeitar duelos”? Não fale bosta, Cometa Vermelho. – A voz que disse aquilo foi a mesma voz que havia dito o nome daquele ataque, pertencente ao que possivelmente era o mais poderoso mercenário do trio que formavam. Denis estava distante, do outro lado de onde Breath estava, mas mesmo assim conseguia vê-lo. Sua postura era séria, seu boné servindo para obstruir um pouco a visão de seu rosto de forma a fazer com que ele parecesse ainda mais perigoso. Conseguia ver apenas um dos olhos dele, mas esse olho que via expressava uma fúria incrível; considerando o quanto os olhos de Denis geralmente mantinham-se “mortos”, aquilo era algo que indicava bem para Breath o quão irritado ele estava. – Você... você tem alguma ideia do que acabou de fazer ao meu amigo, seu monstro? – A voz dele não era muito mais do que um grunhido furioso, sua ira mal contida; o próprio corpo de Denis tremia enquanto ele falava, não em medo, mas devido a sua vontade de avançar com tudo contra seu inimigo. – Meu nome é Denis Gladen, Ulrock, e pelo que você acabou de fazer, eu irei quebra-lo!

=====

Em um ponto do Salão Cinzento, uma figura jazia sentada de forma relaxada sobre uma cadeira. Trazia um jornal em uma mão e bebia uísque de um cantil com a outra, bem como tinha uma lança e um escudo apoiados na lateral de sua cadeira. Seus olhos fitavam o longe; mais especificamente, outro ponto da cidade do qual sons de batalha vinham. Aquele cometa vermelho caiu mais ou menos nessa área pouco tempo atrás, e esses sons me parecem genuínos demais para serem de treinamentos ou coisa do tipo. Era claro como o dia que a cidade estava sendo invadida naquele momento, mas essa não era a questão. A questão era... deveria se intrometer?

– Hm... não, melhor não – decidiu ele rapidamente, reclinando-se novamente em sua cadeira. Era um mercenário, não um herói ou algum tipo de benfeitor. Seu foco ali era ganhar dinheiro, não sair ajudando os outros como se fosse uma instituição de caridade. Se surgir algum inimigo na minha frente eu lutarei com ele, mas até isso tem seus limites. Não vou enfrentar alguém que sei que não posso vencer. Gostava de dinheiro, mas gostava mais ainda da sua vida, e tinha a completa intenção de conservá-la.

Tendo tomado essa decisão, fechou o cantil e guardou-o no cinturão, seguindo para abrir o jornal e começar a lê-lo. Não terminou nem o primeiro parágrafo de uma matéria particularmente interessante antes que o som de um grito completamente agoniado ressoasse por toda a cidade – o grito de alguém vivendo a pior das dores – seguido por uma onda de choque tão poderosa que conseguiu senti-la de onde estava. Ao sentir e ouvir isso, seu rosto azedou de imediato. Bosta. Jogou o jornal com raiva no chão, frustrado; levantou-se com um e chutou a cadeira pra longe, machucando seu dedão nisso e deixando suas armas caírem no chão. Bosta, bosta, bosta! Quem foi o idiota que deu consciência aos humanos?! Apanhou suas armas do chão, praguejando, e colocou-as em seus lugares nas suas costas. Depois disso virou-se na direção da qual aqueles sons vinham, totalmente desanimado.

Por mais que fosse orgulhosamente um covarde que prezava bastante por sua própria vida, era também um homem com alguma consciência, e sendo assim ele não era capaz de permanecer de braços cruzados enquanto pessoas sofriam nas mãos de inimigos que ele também deveria estar enfrentando. Queria poder ser assim em momentos como esse, mas não era.

– Guarde as minhas palavras; eu ainda vou me ferrar bonito por isso um dia desses – resmungou consigo mesmo Syd Ostrower, ao mesmo tempo em que soltava um suspiro e começava a avançar naquela direção contra a sua própria vontade.





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