O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 45
Sangue Sujo


Notas iniciais do capítulo

Então... bom, pessoal, deixem-me dizer isso: eu sei que esse capítulo demorou um pouco, eu sei, eu sei, e eu tenho uma boa explicação para isso.

E irei certificar-me de compartilhar essa explicação com vocês assim que eu descobrir qual é ela.



AVANÇOU COM TODA A SUA VELOCIDADE CONTRA SOULCAIRN, jogando seu punho revestido de aço para trás, apenas para movê-lo em seguida com todas as suas forças em direção ao rosto de seu oponente. Desvia desse, velhote!

Infelizmente para Duke, foi exatamente isso que ele fez.

Com passos rápidos, Soulcairn moveu-se agilmente para o lado, evitando completamente o soco de Duke e colocando-se em uma posição perfeita para lançar um contra-ataque. Merda! O punho do cavaleiro subiu com uma força imensa, atingindo a barriga revestida de Duke com uma brutalidade tão grande que suas defesas poderiam muito bem serem feitas de vidro diante dele. Sentiu o aço que reforçava seu corpo quebrar-se em miseras migalhas com o golpe e o sangue subir aos seus lábios, mas mesmo assim suportou a dor que veio com aquilo e prosseguiu com seus ataques. Abriu sua mão direita e modificou levemente o aço que a revestia, fazendo com que ele assumisse uma postura e constituição mais semelhante à de pequenas navalhas em seus dedos. Sem pensar duas vezes moveu sua mão aberta como uma garra contra seu oponente, mirando direto nos olhos, pretendendo rasga-los com seu ataque... mas mais uma vez, Soulcairn provou-se mais rápido. Muito antes que seu ataque pudesse chegar sequer perto de atingi-lo, seu oponente já havia se abaixado, saindo do alcance de Duke, e antes que pudesse pensar em alguma forma de reagir a isso, sentiu a perna do Destruidor de Mundos atingir um poderoso chute na parte de trás de seus joelhos. Ainda tentou sustentar-se firme ali, mas isso foi simplesmente impossível; com aquele chute Soulcairn tirou as pernas de Duke e levou o mago ao ar, e girando rapidamente ele já se posicionava para um novo ataque. Quando viu o velho cavaleiro pairando acima de si com um punho fechado, preparado para o ataque, Duke soube de imediato que o que viria a seguir iria doer muito, e sua previsão foi concretizada quando o punho de Soulcairn atingiu-o direto no rosto com uma força medonha, esmagando-o contra o chão da caverna com força o bastante para quebrar o chão de pedra pura abaixo deles.

O punho que lhe atingiu continuou pressionado contra seu rosto por alguns instantes, dificultando a respiração de Duke até ser retirado dali de forma vagarosa demais para o seu gosto. Com uma expressão carrancuda no rosto, Soulcairn ficou apenas observando a forma como Duke puxou desesperadamente ar para seus pulmões, cuspindo um pouco de sangue enquanto tentava levantar-se com algumas dificuldades. Em seu cinturão o cavaleiro trazia alguns cantis de água – parte dos suprimentos que ele havia levado consigo para o treinamento – e ele não demorou para soltar um desses cantis ao lado de Duke e depois se afastar, ganhando alguma distância do Titã a passos duros.

– Quanto mais eu vejo vocês, mais eu me convenço de que esse treino foi uma das melhores decisões que tomamos – comentou ele ainda de costas enquanto Duke alcançava o cantil com sua mão humana. Virou um gole de água na boca, mas por mais que estivesse com sede, o que fez foi carcarejar essa água, misturá-la bem e depois cuspi-la de lado. Ela havia entrado transparente, mas agora saia vermelha, misturada com seu sangue. Agora sim posso beber alguma coisa. Não queria sentir o gosto de ferro a cada gole que eu tomasse. Tomou mais um pouco de água enquanto voltava sua atenção para o cavaleiro, que agora reclinava-se contra uma das paredes da caverna. – Vocês realmente precisam desse treinamento. Pelo que eu me lembro do que ouvi, você seria o quê... o terceiro mais forte da guilda? Só Kastor e Hozar deveriam ser mais fortes do que você, e mesmo assim, a distância não deve ser assim tão grande. E mesmo assim, você não tem a menor chance contra mim. Se vocês fossem direto contra o Olho Vermelho, não iriam sobrar nem os seus ossos.

– Tch... não fala merda, velhote – grunhiu Duke em resposta, engolindo mais um pouco d’água para depois cuspir um pouco de sangue que havia ficado em sua boca. Merda, acho que quebrei um dente nessa última. Se pretendia manter seu sorriso maravilhoso que aquecia os corações das donzelas, teria de achar algum jeito de apanhar menos. Ou, no mínimo, apanhar menos na cara. – Você pode estar tendo a melhor aqui até agora, mas eu estou perto de chutar essa sua bunda velha. Além do mais, você é um cavaleiro lendário, mas o mesmo não vale para o Olho Vermelho. Eles devem ser bem mais fracos. Depois que eu chutar sua bunda, estarei forte o suficiente para chutar a bunda de todos eles sozinho.

– Se você realmente acha isso, você é um idiota colossal – afirmou de imediato Soulcairn, olhando para Duke de forma séria e falando como se estivesse meramente apontando um fato. Isso fez com que Duke parasse o que estava fazendo para focar-se completamente nele, fitando o velho com uma ameaça escondida por trás do olhar, mas o velhote não demonstrou o menor medo disso, continuando a encará-lo sem vacilar. – Olhe para o meu braço, garoto arrogante. Acha que isso foi o quê: um acidente ou uma doença? Um dos membros do Olho Vermelho, um homem chamado Bertold, tirou o meu braço em combate. Uma mulher, mais forte do que ele, abriu um rombo no peito de Ezequiel, um dos líderes do Salão, alguém muito mais forte do que eu. E não é só isso; outros deles derrotaram vários guerreiros de alto nível do Salão; Alexandre, Kazegami, Bernaz, Zephyr... todos eles eram do seu nível ou superiores a você, e todos eles foram derrotados e mortos pelo Olho Vermelho. E isso sem contar que Gwynevere, uma membra do clã Sunfyre, a lendária família que reina sobre o Reino das Amazonas, Valenford, foi também derrotada e morta pelo Olho. Acha realmente que os membros do Olho Vermelho serão tão fracos assim, garoto? Se você entrar no campo de batalha com essa mentalidade, você só sairá dele em pedaços.

Não gostou do que ouviu, não gostou nada do que ouviu, mas ficou calado. Eu... suponho que esse velho faz algum sentido. Talvez estivesse sendo otimista demais em assumir que o Olho Vermelho seria mais fraco que ele; afinal, se fosse realmente esse o caso, então pra quê estariam lhes treinando em primeiro lugar? Apesar de que... só isso irá realmente ser o suficiente? Sabia que supostamente o lugar aonde estavam treinando era um lugar especial, em que... alguma coisa fazia com que o desenvolvimento dos seus poderes fosse muito mais rápido do que deveria ser normalmente, mas ainda assim... o fato persistia de que, no fim das contas, eles estavam treinando por apenas uma semana para baterem de frente contra inimigos que deveriam ser muito mais fortes do que eles. O que devemos fazer caso não fiquemos fortes o bastante? Quero dizer, o inimigo parece estar atrás de Kastor, então não é como se pudéssemos apenas ignorá-lo ou coisa do tipo. Mas ao mesmo tempo... droga, isso é complicado, complicado demais!

– Apesar de que... pra ser sincero, não sei se mesmo esse treinamento vai ser o suficiente – comentou Soulcairn em som pensativo, chamando a atenção de Duke com aquelas palavras. O cavaleiro ainda estava com suas costas apoiadas em uma das paredes da caverna, mas ao invés de olhar para Duke como ele antes fazia, seu olhar estava perdido, olhando em direção a parede do outro lado sem realmente focar-se em nada em seu caminho. – O Olho Vermelho é bem poderoso, e Kastor e Hozar... eles não são tão poderosos assim. Eles são os mais poderosos da sua guilda, mas mesmo assim, o próprio Hozar possui no máximo um poder comparável ao de um Primeiro Cavaleiro, e vários desses morreram durante a batalha. E não há ninguém na sua guilda mais forte do que ele. Mesmo com esse treinamento, tudo que estamos fazendo é dando força o bastante para que vocês possam reagir de alguma forma ao ataque do Olho Vermelho. No fim das contas, acho que tudo que podemos realmente fazer para proteger vocês é rezar para que vocês consigam ferir alguns inimigos e que ao menos Kastor saia vivo disso, mas mesmo assim, duvido que vocês saiam dessa batalha sem que ao menos três de vocês estejam mortos.

Nem bem aquelas palavras foram ditas, a atenção de Soulcairn foi imediatamente conquistada pelo som de um punho colidindo com força contra o chão. Quando virou seu rosto na direção desse som, o que Soul viu foi nada menos do que Duke, seu corpo voltando a ser revestido de aço lentamente, uma feição animalesca em seu rosto. Os dentes brancos de Duke estavam todos a mostra, sua boca contorcida em uma careta furiosa, fazendo com que cada um deles parecesse tão afiado quanto o de um animal selvagem. Seus olhos estavam esbugalhados e vermelhos, suas pupilas parecendo terem se transformado em elipses afiadas, encarando Soulcairn com uma raiva primal. O aço subiu até o pescoço de Duke, parando ali, sem tomar conta do rosto do mago como fazia normalmente; na verdade, ao contrário do normal, o aço só havia revestido a área do torso e braços de Duke, a metade superior de seu corpo com exceção da cabeça. Por um momento, chegou a pensar que isso significava que Duke havia falhado em ativar sua magia, mas algo chamou sua atenção e convenceu-lhe de que esse não era o caso; apesar de terem aço as revestindo, Duke estava fechando suas mãos em punhos com tanta força que seus dedos quebravam o aço e perfuravam a carne, trazendo sangue à tona, e à medida que o viscoso líquido vermelho ia entrando em contato com o aço, ele ia se misturando a esse, se fundindo até que os dois tornassem um. Mas... espere um pouco! Como ele está fazendo algo assim?! Um dos braços dele... ele é feito de aço! Como um braço de aço está sangrando?! Não compreendia aquilo, mas também não teve a chance de compreender. Em poucos segundos Soulcairn pode ver com seus próprios olhos que os punhos de Duke haviam se tornado vermelhos, o que por si só já foi o suficiente para fazer com que o cavaleiro ajustasse sua postura, se preparando para batalha.

– Do que você está falando, seu velhote de merda? – Resmungou Duke, fitando intensamente Soul com seus olhos animalescos, sua respiração entrecortada, todo o seu corpo clamando, gritando para que ele avançasse contra o cavaleiro. – “Vocês não saíram dessa batalha sem que ao menos três de vocês estejam mortos”? Você tem alguma noção, a MÍNIMA NOÇÃO, da MERDA que acabou de falar?! – Seus punhos agora mais se assemelhavam a garras, e imediatamente cravou essas garras no chão. Com um esforço desprezível Duke facilmente arrancou um grande bloco de pedra do chão, erguendo-o acima de sua cabeça como se ele fosse feito de isopor, e ver a facilidade com que ele fazia isso foi o suficiente para fazer com que Soul assumisse uma posição de guarda. – Você por acaso acha que eu vou deixar isso acontecer? HEIN?! ACHA QUE VOU DEIXAR ALGUÉM MORRER, SEU PEDAÇO DE MERDA VELHA?!

Arremessou o bloco de pedra contra Soulcairn imediatamente assim que terminou de falar, arremessando-o com tanta força e velocidade que ele seguiu como se fosse uma flecha. O velho cavaleiro praguejou em voz baixa ao ver o bloco de pedra se aproximando, e assim que esse esteve próximo o suficiente para entrar no seu alcance, seu braço disparou contra ele com uma velocidade tão grande que por um instante pode ouvir o barulho da parede do som se rompendo. Seu punho colidiu em cheio com o bloco e quebrou-o em milhares de pedaços pouco maiores do que migalhas... apenas para revelar que Duke estava bem atrás do bloco, seus olhos ainda animalescos, seu punho direito posicionado como se fosse a boca de uma besta selvagem, pronta para envolver o crânio de Soulcairn e quebra-lo em pedaços.

Afastou-se para o lado bem a tempo de evitar o ataque de Duke, deixando que o que deveria acertar seu crânio acertasse seu ombro. Os dedos de Duke cravaram-se no seu ombro com força, arrancando sangue a acertando direto os ossos de Soul, apertando-os com tanta força que sentia como se eles pudessem quebrar-se a qualquer instante. Maldição... que força é essa?! Alguns minutos atrás, Duke não tinha uma força nem de longe comparável aquela; era como se num instante ele tivesse ficado duas ou três vezes mais forte. Se ele tivesse alcançado minha cabeça com isso, eu estaria em sérios problemas! O que aconteceu com ele?!

Tentou mover sua mão para apanhar Duke e afastá-lo de si, mas não conseguiu fazer nem isso. Antes que conseguisse realmente alcançar o Titã, sentiu todo o peso dele sobre seu ombro; movendo rapidamente seus olhos o que viu foi que usando apenas a força de seus músculos Duke havia erguido todo o seu corpo do chão, usando o ombro de Soulcairn como apoio para isso, como se fosse uma barra de ferro. Quando viu aquilo, todo o corpo de Duke já estava erguido verticalmente sobre ele, mas ele não continuou assim; num instante Duke saltou do ombro de Soul para o outro lado. Ouviu-o aterrissar as suas costas e virou-se tão rápido quanto pode para reagir a isso.

O que ganhou por seus esforços foi um golpe direto na cara. Com suas mãos ainda abertas, ambas ainda na posição de presas, Duke lançou um golpe poderoso que jogou o rosto de Soulcairn para trás ao mesmo tempo em que seus dedos rasgaram o rosto do cavaleiro. Grunhiu em irritação com isso e tentou reagir, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa sentiu outro golpe – igual ao primeiro – acertar-lhe na lateral do estomago, perfurando sua carne e deixando sangue fluir – e nem um instante depois disso sentiu outro golpe lhe acertar no peitoral direito, e outro no ombro esquerdo, e outro no abdômen, no umbigo, no pulmão, sobre o coração...

Em um piscar de olhos os braços de Duke tornaram-se nada mais do que vultos vermelhos movendo-se em uma velocidade absurda, dilacerando a carne de Soulcairn e arrancando sangue do cavaleiro com cada golpe, como se fossem as presas de animais selvagens rasgando sua carne, devorando-o vivo.

Não pode defender-se, não pode esquivar-se. Tudo que pode fazer foi permanecer firme aonde estava e aguentar todos os ataques de seu oponente, um após o outro, cada vez mais fortes, cada vez mais brutais. Sentia-se tonto. Sentia-se zonzo. Sentia-se fraco, sentia-se indefeso, sentia-se derrotado pelos ataques de seu oponente. Quando tempo se passou desde que isso começou? Por quanto tempo estou recebendo esses ataques? Um ano? Dez anos?

Ao fim de sete segundos de ataques contínuos, no entanto, Duke parou a sequência sem fim de golpes. Vacilou um passo para trás com isso, ainda tonto, e um suspiro aliviado quase escapou de seus lábios.

Mas antes que esse sorriso pudesse realmente sair, seus olhos captaram os sons de movimentos de Duke.

Sua visão havia ficado turva com tudo que havia sofrido, mas naquele momento ela voltou ao normal. Viu a postura de Duke, viu os movimentos dele. O homem não havia parado seus ataques por bondade do seu coração ou porquê estava terminado com eles, mas sim porque ele estava se preparando para o golpe de misericórdia. Seus pés estavam recuados, sua postura estava fixa e firme, e seus punhos vermelhos estavam unidos, recuados atrás dele.

E então, de uma só vez, Duke gritou.

PRESAS SANGRENTAS DO LOBO DE AÇO! – Foi o que ele anunciou, disparando imediatamente ambos os seus punhos contra Soulcairn. Suas mãos estavam posicionadas da mesma forma que antes, unidas de forma que cada uma delas parecesse uma metade da boca de um lobo selvagem. Não... não apenas parecer!

Por um momento, por um único momento, as mãos de Duke transformaram-se na boca de um lobo de aço, seus dentes afiados repletos de sangue, prontos para devorar sua nova presa.

O impacto veio com uma força tão grande que gerou um estrondo e uma onda de choque poderosos o bastante para fazer com que toda a caverna na qual estavam parecesse se abalar. O corpo de Soulcairn foi arremessado para trás com uma força monstruosa como se não fosse nada, sangue sendo vomitado pelos lábios do cavaleiro, dor expressa em cada centímetro do seu rosto. Maldição... d’onde foi que ele tirou toda essa força?! Furioso e frustrado, ergueu seu braço tão alto quanto pode e moveu-se para cravá-lo no chão com toda a sua força. Sentiu dor graças ao atrito da pedra com sua carne, mas sabia que aquilo era muito melhor do que deixar-se ser lançado contra o fim da caverna e correr o risco de fazer com que parte dela desabasse sobre ele. Correu o olhar para seu peito, e o que viu lhe deixou francamente muito assustado; oito buracos haviam surgido em seu peito, cada um deles representando um dos dedos de Duke com exceção dos polegares, e a área atingida por aquele ataque... aonde aquele golpe havia lhe atingido, o peito de Soulcairn havia literalmente afundado como se você tivesse dado uma marretada com toda a força numa placa de ferro. Ver aquilo fez com que que grunhisse novamente em irritação; tornou a erguer seus olhos e o que viu foi Duke, distante dele, de pé, encarando-o de forma séria e fria.

– Kastor, Hozar, Kyanna, Bryen, Anabeth, Teigra… eles são meus preciosos amigos – disse o Titã, erguendo uma de suas garras vermelhas a mostra enquanto falava. – Não fale que eles vão morrer de forma tão leve assim, seu velho de merda. Você por acaso conhece a dor da perda de amigos? Pois eu conheço! Eu já perdi meus amigos uma vez, e eu nunca vou me perdoar por isso! Se eu tivesse sido mais forte, se eu tivesse feito as coisas diferentes naquela época, então eles estariam vivos! Tom, Annie, Dalton... eu poderia ter salvado todos eles, mas devido aos meus erros e a minha fraqueza, eles estão todos mortos! – Ao dizer aquilo, a garra de Duke fechou-se em um punho. Não sabia dizer ao certo o que exatamente estava acontecendo com ele devido à distância, mas tinha certeza de que os olhos do Titã também se fecharam, como se ele estivesse se lembrando de alguma memória há muito reprimida, mas isso também não durou muito. Logo eles voltaram a se abrir, e quando isso aconteceu, Duke parecia ainda mais furioso do que antes. – Você realmente acha que alguém vai morrer? Você realmente acha que vou deixar alguém morrer?! Eu sou um pedaço de merda desprezível, eu sei bem disso, mas enquanto tiver um pouco de vida e força nesse corpo, eu não deixarei mais ninguém morrer! Eu me recuso a perder mais algum dos meus amigos, não importa qual seja a situação ou quem seja o inimigo! E se você pode entender isso, ponha-se de pé, cavaleiro! Você está aqui pra me treinar, não é? Pois bem, eu quero ser treinado! Venha contra mim, com tudo que você tem!

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Caiu de joelhos no chão, completamente exausta, suando como uma porca, apoiando-se com a ajuda do único braço que lhe restava. Eu... nunca... pensei que... isso pudesse ser... tão... exaustivo... Se lhe perguntassem antes, de hoje, diria sem dúvida alguma que era bem versada nas artes da magia, que havia as praticado por longos períodos de tempo e que conhecia bem o mundo da magia.

Se lhe perguntassem hoje, no entanto, a mesma coisa, diria que não era mais do que uma garota ingênua antes que achava saber muito quando mal havia arranhado a superfície do que a magia representava.

– Você não se saiu mal para o primeiro dia, sabe. – Foi o que comentou a voz daquela mulher. Valery, a cavaleira que chamavam de “Miragem”, havia sido apontada como a tutora particular de Anabeth, a responsável pelo treinamento da arqueira. Inicialmente não havia compreendido bem o porquê daquilo (conseguia ver algum tipo de sentido nas outras escolhas, mas não naquela) mas logo compreendeu exatamente o porquê daquilo. Por mais que aquela mulher fosse uma especialista no uso de magias que se caracterizavam como ilusões, criando imagens falsas e usando técnicas que se focavam em distorcer os sentidos de seus inimigos, ela possuía também conhecimento sobre vários outros tipos de magia, bem como a habilidade de usá-los de certa forma, embora a ilusão fosse de longe o seu forte. Os conhecimentos dela eram valiosos para qualquer mago que se prezasse, mas para alguém como Anabeth que havia perdido o principal meio que usava em conjunto da sua magia em batalha, aquilo era extremamente fundamental. – Francamente, a minha expectativa é que você acabasse desmaiando antes de metade do que fez. Considerando que estou te forçando a tentar algo novo e bem complicado, você está se saindo até que muito bem.

Um sorriso fraco ganhou seu rosto ao ouvir aquilo. Esperava muito mais de si do que apenas aquilo, mas mesmo assim podia apreciar os elogios da cavaleira. Estou vendo que vou ter de me esforçar e me dedicar bem mais do que os outros para conseguir aproveitar esse treino. Seus companheiros estavam treinando meramente com a intenção de aumentarem seu poder a um nível alto o suficiente para que pudessem enfrentar de frente o Olho Vermelho, mas esse não era o caso para Anabeth. Com a perda de seu braço na luta contra Zaniark Grimweather, todo o seu estilo de luta havia sido comprometido. Eu sou uma arqueira. Como devo disparar uma flecha com apenas uma mão?

Era esse o problema com o qual estava tentando lidar naquele momento.

Inicialmente, seu plano havia sido bem simples, e um tanto quanto ingênuo por isso. Havia criado uma de suas flechas de fogo na palma da mão, e depois tentou usar de uma pequena explosão controlada na palma dessa mão para disparar a flecha de forma similar a como fazia com um arco. Isso... não deu muito certo, por assim dizer. Não estava acostumada a controlar suas chamas de forma tão sutil e precisa como tinha de fazer para um ataque como aquele, e isso havia culminado numa explosão em seu braço. Por sorte havia sido esperta o suficiente para saber bem que isso poderia dar errado de dezenas de formas diferentes e por isso fez conscientemente com que suas chamas fossem bem fracas naquele momento; a explosão não lhe trouxe danos, mas foi um susto grande e um risco que ela não queria voltar a correr... e aparentemente, o mesmo também valia para Valery.

Depois de ver os problemas que havia tido com sua tentativa, Valery interviu com conselhos e instruções. Com a ajuda da cavaleira Anabeth havia formado um plano muito melhor para seus ataques, apesar de que bem mais complicado também. Ter a flecha em mão é perigoso demais. Disparar a flecha da minha mão é simplesmente estúpido. Para conseguir atacar de forma correta, eu preciso manter-me longe da flecha e das minhas próprias chamas.

O plano que Valery havia lhe ajudado a elaborar não só atendia as suas necessidades como também ampliava o seu poder. Se eu conseguir fazer isso, meu poder ofensivo vai ser muito mais forte do que era mesmo quando eu tinha os dois braços.

Mas isso só seria verdade se conseguisse sucesso.

– Mais... mais uma vez. – Disse a ruiva, esforçando-se. Cansada como estava, sentia todo o seu corpo pesado como se ele pudesse cair ao chão a qualquer instante, mas não deixou essa sensação lhe derrubar. Colocou força em seu braço e com a ajuda dele empurrou-se até conseguir começar a ficar de pé, sustentando-se em suas duas pernas trêmulas, tudo sob o olhar de Valery. A cavaleira fitava-a em silêncio enquanto fazia isso, sem julgar ou oferecer ajuda, apenas observando a determinação de Anabeth em seguir com aquilo. Foi só depois que a ruiva se pôs em pé que ela falou, e mesmo assim seu tom veio um tanto quanto impessoal, parecendo mais estar citando um fato do que fazendo uma sugestão.

– Você sabe que não precisa continuar com isso se não quiser, não é, Anabeth? Você já fez mais do que o suficiente por hoje. Temos uma semana para treinar, e você já começou a fazer um bom progresso hoje. – Disse ela, cruzando os braços à frente do corpo, um gesto corporal que lhe dizia que, apesar do que dizia, ela não iria necessariamente tentar pará-la se quisesse teimar com aquilo. – Além do que... acredito que você é mais do que experiente o suficiente para saber que, se você insistir demais, você pode muito bem acabar danificando seu próprio corpo. E eu não estou falando de coisas como uma queimadura ou alguma dormência; você pode acabar danificando seus nervos ao ficar se forçando demais, o que pode deixa-la paralítica em vários possíveis pontos, tal como forçar o fluxo de mana além dos seus limites pode tanto danificá-lo como danificar seus próprios órgãos internos.

– Eu... sei disso... – respondeu Anabeth, erguendo seu braço com alguma dificuldade, abrindo sua mão a sua frente mais uma vez e focando seu olhar nela, buscando concentrar todos os seus esforços nela, trabalhando o fluxo de mana no interior de seu corpo naquele mesmo momento. – Eu só... só preciso tentar mais uma vez... mais uma única vez... sinto que... estou tão... próxima...

Não disse mais nada depois daquilo, não porque não tinha mais o que dizer, mas porque aquilo estava drenando ainda mais sua preciosa força e concentração. Fechou os olhos numa tentativa de melhorar sua concentração e conseguir resultados mais rápidos, mas nem isso foi o suficiente. Apesar de todos os seus esforços, não demorou para que caísse sobre um joelho, simplesmente não aguentando mais sustentar-se. Droga... estou tão... cansada!... Com todas as tentativas que havia feito naquele dia, sua energia havia sido drenada até os limites. Sentia dor quase que constantemente, e simplesmente manter-se consciente necessitava de grandes esforços e uma soberba força de vontade da sua parte. Maldição... nesse ritmo... eu vou... desmaiar... Mas não podia desmaiar. Não, ainda não. Estou tão... tão próxima...

E foi então que sentiu aquilo. Um brilho caindo sobre seu rosto, e calor sobre a palma de sua mão.

Abriu os olhos e pode vê-la. Acima da palma de sua mão, flutuando no ar, estava uma pequena flecha de fogo. Muito pequena, sim, mas isso não importava para ela naquele momento. Eu... consegui. Consegui! Que a flecha seria pequena, isso era algo que ela já podia esperar devido a sua falta de forças atual, mas o simples fato de que havia conseguido fazer isso, que havia conseguido misturar sua magia de fogo com magia telecinética... isso já era o suficiente para satisfazê-la imensamente.

Com um sorriso nos lábios, seu rosto foi ao chão.

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– Descanse por hoje, Kyanna; você já fez um bom progresso – disse o responsável por seu treinamento, Maoh, sorrindo de forma gentil para ela. Quando havia visto o homem, tinha de admitir que foi imediatamente tomada por preconceito. Ele não parecia alguém necessariamente amigável, tão sério e com um rosto tão fechado, e além disso tinha também a questão dos chifres em sua cabeça que faziam com que ele parecesse mais uma espécie de monstro ou demônio do que um humano. Mas viu exatamente o quão errada estava nas suas suposições assim que começou a falar com ele. Podia não parecer à primeira vista, mas Maoh era um homem gentil e educado, como Kyanna havia descoberto. Ele parecia sério na maior parte do tempo, mas isso aparentemente era mais fruto de algum tipo de timidez do que tudo; depois que haviam ficado a sós e conversado um pouco, ele rapidamente começou a mostrar-lhe pequenos sorrisos, ainda um tanto quanto tímidos, mas mesmo assim calorosos.

Sorriu de volta para ele, e depois ergueu suas próprias mãos para dar uma olhada nelas. As palmas de suas mãos estavam vermelhas e doloridas, ardendo como se tivesse ficado raspando-as em rochas ásperas por horas. E pensar que um treinamento desse tipo podia causar danos físicos assim... Como era uma maga, o foco do seu treinamento com Maoh não era no aprimoramento das suas habilidades físicas – elas eram definitivamente importantes, claro, e estavam dedicando-se um pouco em melhorar os seus reflexos, aumentar a sua agilidade geral e torna-la um pouco mais resistente – mas o foco principal desse treinamento era em aprimorar seus poderes mágicos. Ou, melhor dizendo, me ensinar a controlar melhor a minha magia e manipulá-la de forma mais efetiva. Não havia entendido completamente bem o que Maoh queria dizer, mas o cavaleiro havia lhe dito que “sua magia era um dos estilos mais livres e moldáveis que o mundo já viu” e que ela deveria “vesti-la como uma luva e usá-la para revestir seus ataques”. Apesar da sua confusão, Maoh aparentemente sabia bem o que ela deveria fazer e estava lhe dando orientações surpreendentemente úteis, lhe submetendo a um treinamento que não só estava lhe ajudando no controle de seus poderes como também estava exercitando seu corpo, ainda que de uma forma sutil.

Caindo sobre um joelho, Maoh pousou a bolsa que havia trago consigo cheia de suprimentos para o treinamento dos dois no chão. Abrindo-a ele retirou dela uma garrafa cheia de água cristalina, oferecendo-a para Kyanna. As mãos da maga estavam sensíveis ao ponto de que sentia dor só de segurar uma garrafa como aquela, mas mesmo essa dor não era nada perto da sede que sentia depois de tudo o que passou. Tomou a garrafa em mãos rapidamente e virou tanto do líquido quanto pode enquanto suportava a dor. Menos de um minuto depois, o que devolvia a Maoh era uma garrafa completamente vazia enquanto olhava para o lado, suas bochechas coradas pelo que havia acabado de fazer.

Depois disso ser feito, Maoh se pós a procurar por alguns galhos ao redor deles para alimentar a fogueira que ardia entre os dois. O ponto de treinamento que haviam deixado para Kyanna era numa das florestas próximas do Salão Cinzento, na beirada de um rio, o que lhes deixava com uma boa fonte de água e comida fresca, mas infelizmente o mesmo não valia para combustível. As árvores ao redor deles não eram tantas, e elas eram bem jovens, ainda fortes demais para que galhos ressecados tivessem caído ao chão. Não era necessariamente difícil encontrar galhos bons na floresta, mas isso forçava Maoh a se afastar, e quando ele fazia isso Kyanna ganhava tempo para ficar a sós com seus pensamentos. Da última vez que isso havia acontecido, estava ocupada com seu treinamento e portando seus pensamentos foram todos sobre isso, mas agora... agora que tinha algum tempo livre em mãos, seus pensamentos foram sobre uma das coisas que mais lhe intrigavam ali. Aqueles chifres de Maoh... o que eles significam?

Nunca havia tido realmente muita oportunidade para estudar em sua vida. Haviam duas formas de obter um bom acesso a informações, e elas eram integrando alguma organização como o Salão Cinzento ou o Colégio Branco, ou estando envolvida em meios nobres, na alta sociedade. Não podia dizer que havia tido a chance de fazer parte de algum deles em nenhum momento da sua vida, e isso significava que, por mais que Kyanna tivesse uma boa noção do funcionamento da magia através de experiência, companheiros que teve em alguns trabalhos nos quais esteve envolvida no passado e livros que havia comprado com seu próprio dinheiro, em muitas coisas ela não tinha conhecimento algum além do básico, do conhecimento que era comum até entre fazendeiros. Na verdade, chamar isso de conhecimento é ser um pouco generosa. Isso se classifica melhor como... superstição. Histórias sem nenhuma prova concreta ou base história que são passadas oralmente de geração em geração. Rumores.

Mas pelo que os rumores diziam, eram apenas os monstros e os demônios das lendas mais antigas e obscuras que traziam chifres em seu corpo, como uma espécie de prova das trevas das quais foram originados. Era por isso que, incialmente, havia tido preconceito para com Maoh; esses rumores vieram imediatamente para a sua mente assim que viu o homem. Mas esses rumores têm de estarem errados. Eles simplesmente não podem estar certos. Pelo que sabia, monstros eram criaturas selvagens, extremamente fortes mas desprovidas de qualquer nível mais avançado de inteligência, criaturas que viviam apenas para matar e destruir tudo que alcançavam. Quanto aos demônios... pelo que os rumores diziam, eles eram inteligentes, tão ou mais inteligentes do que os próprios humanos, mas seus espíritos eram sombrios e seus corações eram negros como a noite. Eles eram seres que viviam apenas para o mal, que buscavam pelo choro e desespero dos humanos. Maoh é inteligente, e ele definitivamente tem um bom coração em seu peito, ninguém de coração ruim seria capaz de sorrir de forma tão gentil como ele faz.

Mas ainda assim, não conseguia afastar os pensamentos de sua mente. Inquieta, remexeu-se, coçando o braço direito enquanto fitava a fogueira a sua frente com olhos perdidos. Normalmente eu não daria muito crédito a lendas como essa..., mas depois de tudo que aconteceu. Pelo que havia acontecido nos últimos dias, ela conhecia pessoalmente alguns demônios, sendo inclusive subordinada de um. E isso sem falar do homem que enfrentei no mercado de escravos. Byron Cromwell.... Perguntava-se o que havia acontecido com ele. Pelo que me lembro, Ex havia o congelado, mas não sei o que aconteceu com ele depois disso. Teria ele morrido? Essa era uma possibilidade, mas considerando o que havia visto das habilidades regenerativas dele, não era uma na qual ela colocava muita fé. Droga... isso é tão...

– ARRRRRG! – Berrou a maga, liberando toda a sua frustração com aqueles pensamentos de uma vez naquele berro, apenas para logo em seguida corar severamente e olhar ao rapidamente ao redor, tentando ver se alguém havia visto sua demonstração vergonhosa de agora. Depois que viu que havia tido a sorte de Maoh estar distante o suficiente para que não pudesse vê-lo suspirou em alívio e afundou sua cabeça entre os ombros. Eu não posso continuar com uma dúvida dessas. Mesmo se isso não estiver atrapalhando o meu treinamento, eu vou acabar ficando louca se continuar pensando nesse tipo de coisa. E só havia uma coisa que podia fazer para não ser mais importunada por esses pensamentos. Quando Maoh voltar... quando Maoh voltar, irei perguntar a ele sobre seus chifres.

Isso não demorou muito. Um momento depois de tomar sua decisão Kyanna foi surpreendida pela figura de um homem chifrudo correndo, tendo acabado de saltar do meio do mato, arbustos e folhas ainda presos em suas roupas e cabelo. O susto que tomou ao ver aquilo quase fez com que ela saltasse para trás, mas ele pareceu nem notar isso; seu rosto virou-se para ela em questão de instantes, mortalmente sério, ignorando completamente todos os arbustos ao seu redor.

– Kyanna! Está tudo bem com você? – Questionou ele, aproximando-se rapidamente dela enquanto olhava ressabiado ao redor. – Eu ouvi um grito de mulher agora, então pensei que você poderia estar sendo atacada por algum inimigo. Tem alguém aqui? Você está ferida?

Um grito de mulher? ... Ele... não pode estar se referindo a mim, não é? Já era vergonhoso o suficiente o fato de que ela havia berrado de forma tão aleatória como aquela, mas considerar que além disso ela também havia assustado tanto assim um aliado... Há! Há há. Há há há há há há. Eu... acho que não devo mencionar pra ele que fui a responsável por isso. Por mais que ele fosse um cavaleiro tanto em título quanto em profissão e personalidade, não achava que existia alguma coisa no mundo que fosse impedir Maoh de bater-lhe com força caso soubesse do que ela havia feito. Com os olhos brilhando e seu rosto parecendo o de um felino, Kyanna mentiu da melhor forma que pode, assegurando-se mentalmente de que essa era a melhor coisa a fazer.

– Grito? Não, não, eu não gritei, nem ouvi grito nenhum. Isso deve ser apenas a sua imaginação Maoh, sua imaginação! Há! Há há! Há há há há há há há! – Sua risada saiu parada e claramente forçada, e numa tentativa de desviar a atenção dela, ficou constantemente abanando sua mão de um lado para o outro. Quando notou que isso só estava fazendo com que ela parecesse ainda mais suspeita ao invés de ajuda-la, decidiu mudar rapidamente de assunto. – De qualquer forma, e sobre seus chifres, Maoh? Por que você tem eles?

Se arrependeu imediatamente assim que disse isso. De uma só vez, toda a expressão Maoh azedou. Aparentemente ele tentou disfarçar isso, tentou não deixar a mudança tão transparente, mas falhou gravemente nisso. Quando falou, sua voz meio muito mais profunda, grossa e ameaçadora.

– Meus chifres... por que você tem interesse neles?

Ouvir a forma como ele disse aquelas palavras foi tudo que Kyanna precisou para que compreendesse exatamente o quão grande havia sido seu erro.

– N-N-Nenhum! – Disse ela pateticamente, balançando freneticamente suas mãos a frente do corpo em gestos de negação, embora soubesse muito bem que seria no mínimo difícil que ele acreditasse nisso considerando que havia acabado de perguntar sobre aquilo. – Qu-quer saber? Esqueça do que eu falei. Isso não me diz respeito. Eu não devia ter te pergun-

– Não – disse subitamente o cavaleiro, interrompendo as palavras de Kyanna de forma um pouco brusca. Silenciou-se imediatamente com aquilo, e por um momento os dois ficaram no mais profundo silêncio, até que por fim Maoh suspirou, cansado. Desajeitadamente ele ergueu sua mão, coçando a cabeça de forma desleixada, seu rosto passando a impressão de que ele estava preso em um grande dilema. Por fim ele voltou a falar, e quando o fez sua voz veio muito mais calma e controlada, embora ele não parecesse deixar de estar incomodado por aquele assunto, muito menos satisfeito em ter de falar dele. – Você... você tem o direito de saber, eu suponho. Afinal de contas, você está treinando sob a minha tutela e terá de passar uma semana comigo. É apenas justo que você saiba... o que, exatamente, eu sou.

“Meu nome, como você já sabe, é Maoh. Dentre os cavaleiros do Salão Cinzento, a minha alcunha é ‘Demônio Chifrudo’. O motivo disso deve ser óbvio para você. Eu tenho chifres... e eu sou um demônio. Ou, melhor dizendo, possuo o sangue de um demônio.

Você pode estar familiar com a grande guerra que abalou nosso mundo, muitos anos atrás. A Guerra dos Grandes, que envolveu Deuses, humanos e demônios em uma guerra gigantesca que definiu o futuro do mundo. O lugar aonde estamos – as Terras Velhas – foi o palco principal dessa guerra, e por isso temos mudança perceptíveis aqui, como o céu vermelho acima de nós. Eu sou descendente dessa terra. E aqui temos uma quantia... substancial de pessoas que se encontram na mesma... situação que eu.

Cerca de aproximadamente 200 anos atrás, durante a guerra, milhares de homens e mulheres foram estuprados pelos demônios que lutavam aqui. Os Deuses e seus anjos consideravam os humanos imundos demais para deitarem-se com eles, para eles isso seria o mesmo que rolar com os porcos, mas os demônios não tinham um complexo como este, e eles não hesitaram em violar qualquer humano que caísse em suas mãos, em parte pelo prazer que tiravam do ato, em fato devido a satisfação que tiravam em humilhar seus ‘rivais’. Os homens que impregnavam as fêmeas entre os demônios eram destroçados pela audácia e os bebes eram arrancados ainda no ventre pelas mãos das próprias mães e esmagados, mas as mulheres... os demônios divertiam-se em ver as mulheres humanas passando pela gestação de mestiços. Eles as obrigavam a ter seus filhos e observavam tudo atenciosamente, não por algum amor ou afeto por sua cria, mas porque tiravam prazer disso.

Nenhuma mulher nunca sobreviveu a dar vida à um mestiço entre homens e demônios, e foram poucos as crianças que sobreviviam depois disso também. Demônios não precisam de leite materno ou algo do tipo, mas os pais dos mestiços geralmente ganhavam desprezo por suas crias depois que as viam, e então eles as matavam. Mas nem todos sofriam o mesmo destino; alguns demônios deixavam que os mestiços vivessem e lhes alimentavam com carne humana para certificarem-se de que eles crescessem fortes e cheios de ódio, enquanto outros simplesmente perdiam qualquer interesse que pudessem ter antes e abandonavam suas crias ao esmo.

Meu pai foi um desses. Eu não sei como ele fez isso – e francamente, nem mesmo ele sabia – mas ele de alguma forma sobreviveu mesmo depois de ter sido abandonado. Ele sobreviveu, e ele cresceu, embora não de uma forma muito feliz. Os humanos já tinham uma imagem ruim de nós demônios antes da guerra, e invadir seu mundo enquanto matávamos selvagemente todo e qualquer humano que cruzasse o nosso caminho provavelmente não foi algo que melhorou a visão que tinham de nós. Eu apenas possuo os chifres como uma denúncia da minha herança sanguínea, mas meu pai tinha uma aparência muito diferente e muito mais demoníaca, o que fez com que ele sofresse imensamente nas mãos de humanos. O que eles fizeram foi compreensível e nada que realmente me surpreendesse – veja bem, você tem de levar em conta que aquelas pessoas perderam familiares para a minha raça e passaram por dias de terror e sofrimento simplesmente porque o meu povo julgou isso divertido, então não é como se pudéssemos querer que eles nos dessem uma chance, nunca fizemos nada para merecer uma chance. Mas isso não muda o fato de que por múltiplas vezes meu pai foi afugentado de um vilarejo correndo, sendo caçado por homens e mulheres armados com tochas e forquilhas.

De certa forma, foi isso o responsável por uma das coisas que eu mais admiro em meu pai. Na situação dele, seria muito fácil que ele se deixasse consumir pelo ódio e se revoltasse contra os humanos. Se você vai ser tratado como um monstro independente do que faça, então por que não fazer jus a sua reputação? ... Mas não foi isso que ele fez. Por mais fácil que fosse para ele deixar seu ódio tomar conta, meu pai superou o sangue de demônio em suas veias, e tomando vantagem da força natural que sua herança lhe dava, ele começou a proteger e ajudar os humanos da melhor forma possível. Você entende isso? Poder corrompe, ódio corrompe, e ninguém é mais suscetível a corrupção do que alguém com sangue de demônio em suas veias, mas mesmo assim meu pai conseguiu superar sua corrupção e manteve sua alma pura, do seu primeiro ao seu último dia nessa terra. Você não tem ideia do quanto eu lhe admiro por isso.

Demorou um bom tempo para que sua ajuda fosse recompensada, ou sequer vista com bons olhos. Foi apenas em seu aniversário de cem anos que o meu pai finalmente foi aceito em um vilarejo depois de muito ajuda-lo com o passar dos anos, que ele pode se misturar aos humanos. E foi só mais recentemente, quando ele tinha cerca de cento e quarenta anos, que ele se envolveu com minha mãe, uma mulher maravilhosa que conseguiu vê-lo por mais do que sua herança demoníaca e casou-se com ele por amor. Pelo que sei, a união entre os dois gerou muitos problemas na época, muito barulho e balbúrdia, mas eventualmente eles conseguiram acalmar os ânimos, e... bem, eventualmente, eu nasci.”

Maoh fez uma pausa ao chegar a esse ponto da história, e pouco a pouco o silêncio foi voltando a achar seu lugar. Desconfortável, Kyanna remexeu-se aonde estava; era óbvio pelo que ele ainda não havia contado toda a sua história, mas pela forma súbita como ele havia parado e o olhar fixo que ele mantinha na fogueira, não sabia se ele iria continuar. Eu... suponho que eu devia querer que ele não continuasse. Quero dizer, isso é obviamente algo muito pessoal e um assunto muito delicado para ele, algo no qual eu realmente não deveria me envolver, mas ainda assim... Por mais envergonhada que sentia-se disso, a simples verdade era que Kyanna estava curiosa demais quanto ao passado de Maoh para simplesmente dizer a ele para não seguir em frente com aquilo.

De qualquer forma, o silêncio dele não foi eterno. Com mais um suspiro e sem tirar os olhos do fogo, Maoh voltou a falar.

– Meu pai... ele morreu há algum tempo atrás, sabe? Com cento e noventa e dois anos de idade. Tendo o sangue de um demônio, ele tem uma expectativa de vida muito maior do que a de um humano normal. Claro, ela é infinitamente pequena se comparada a de um demônio puro, mas ainda é consideravelmente maior do que a de humanos como você. Ele só morreu tão cedo assim porquê ele passou sua vida toda lutando e se esforçando, e no fim das contas todo o esforço que ele fez cobrou seu preço em seu corpo; se ele tivesse passado sua vida em paz, isolado, ele chegaria no mínimo aos trezentos anos de vida, talvez até aos quinhentos. Mas... não foi esse o caso.

“Como eu já disse aqui várias vezes, eu admiro imensamente meu pai. Ele fez muitas coisas que eu francamente não acho que nunca serei capaz de fazer; ele aceitou todo o ódio que foi lançado contra ele e trabalhou duramente para dissipar esse ódio e ser aceito em ao menos um lugar. Ele achou uma boa mulher entre a raça que lhe odiava, casou-se com ela e permaneceu sempre fiel ao seu lado até o dia da sua morte. Mas... apesar de todas essas características admiráveis e todos esses feitos louváveis que meu pai fez, existe algo que ele fez que foi muito errado, algo pelo qual eu não posso perdoá-lo.

Ele foi o responsável pela minha existência.”

– Hmm? – Não pôde impedir que aquele ruído viesse de sua garganta ao ouvir aquelas palavras. Demorou um instante para compreender exatamente o que Maoh sugeria com aquilo, mas quando o fez, seus olhos prontamente se arregalaram. – Maoh... o que você...

– Eu não tenho direito algum de estar vivo – interrompeu o cavaleiro, erguendo uma de suas mãos para com ela acariciar suavemente um de seus chifres. – Na vila aonde nasci e fui criado, eu era amado e protegido. Aqui no Salão Cinzento aonde treinei e me consagrei, eu sou amado e protegido. Minha fraqueza de espírito faz com que eu usufruía de ambos, mas não tenho direito algum disso. Eu sou alguém com sangue podre nas veias, o sangue de demônios. Meu pai não pode ser culpado por existir; ele foi fruto de um estupro e de forças maléficas, não escolheu isso em momento algum. Mas ele escolheu espalhar a sua prole pelo mundo através de mim, e isso é algo incrivelmente errado, errado demais para que eu o perdoe. Eu não devia estar vivo. Alguém como eu não tem o direito de estar vi-

O demônio-cavaleiro não teve nem sequer a chance de terminar suas palavras. Enquanto estava absorto em seu relato e em seus sentimentos, ele nem notou o momento em que Kyanna se levantou, tal como não notou o movimento de suas pernas. Enquanto ele ainda falava a maga lhe acertou em cheio no rosto com um poderoso chute, carregado com muito mais força do que uma maga pura devia ter. Ele foi lançado longe facilmente pelo impacto do ataque, indo parar dentro do rio próximo, afundando nele. De olhos arregalados e completamente surpreso por aquilo, Maoh desesperou-se um pouco, seguindo para imediatamente nadar em direção a superfície.

Assim que conseguiu fazer isso e sua cabeça emergiu da água, foi recebido imediatamente pelo rosto enfurecido de Kyanna, sentada a beira do rio, encarando-lhe fixamente com olhos irritados. E ao ver aquilo, Maoh sentiu um calafrio correr pela sua espinha.

– “Alguém como eu não tem o direito de estar vivo”... você tem alguma noção do quão estúpida é essa frase, Maoh? – Questionou a maga em uma voz surpreendentemente calma considerando as feições que ela trazia, embora o olhar fixo dela sobre ele não lhe deixasse ter dúvidas de que ela estava ainda tremendamente furiosa com ele. – Todo mundo tem o direito de estar vivo. Todos aqueles que nasceram em algum momento tem o direito de estar vivo. Se a sua herança sanguínea fosse motivo para que você não devesse estar vivo, então todos os bastardos e filhos de criminosos seriam executados enquanto ainda bebês. Só porque você tem o sangue de um demônio em suas veias, isso não significa que você deve morrer. O sangue significa pouco, e menos ainda, muito menos.

– Você fala mas não entende, Kyanna – murmurou Maoh, balançando negativamente sua cabeça enquanto nadava para a beira do rio com movimentos de suas pernas. – Eu sei o que você está querendo dizer, que toda vida é valiosa e tudo mais. Acredite em mim, eu já ouvi esse tipo de discurso muitas vezes dos meus colegas e amigos cavaleiros, mas essa questão não é tão simples assim. Eu sei que toda vida é valiosa, sei bem disso, mas o fato é que eu não devia estar vivo em primeiro lugar, entende? Alguém com sangue de demônio simplesmente não deveria existir, pelo menos não no mundo dos humanos. Minha existência é indigna e faz de mim uma aberração, um erro. Como eu disse antes, meu pai não tem culpa alguma em sua existência pois ele foi o resultado de estupros, e mesmo que não fosse esse o caso, ele não pode ser culpado por outras pessoas terem feito algo que resultou no seu nascimento. Talvez pudéssemos culpa-lo por não ter cometido suicídio, mas francamente, eu simplesmente não consigo fazer isso considerando a forma como ele agiu, a forma como ele tomou vantagem das habilidades especiais que seu sangue lhe deu para ajudar as pessoas ao seu redor e redimir-se. Mas nem mesmo isso tira o peso do erro que ele cometeu em perpetuar sua linhagem através de mim, e ao contrário dele, eu não possuo uma desculpa. Eu não tenho, por natureza, direito algum de estar vivo, e nunca fiz nada na minha vida que me conquistasse esse tipo de direito. Entende o que quero dizer?

Pela forma como ela suspirou, supunha que não. Franziu um pouco seu cenho ao ver aquilo, um pouco frustrado, mas quando abriu novamente sua boca para tentar explicar melhor a situação para ela, foi prontamente interrompido pela sensação de seu corpo sendo erguido do meio d’água. Debateu-se em meio ao ar angustiadamente, sem compreender o que estava acontecendo, e foi só quando olhou para a maga que estava treinando que viu que ela era a responsável por aquilo. Desde antes a mulher já parecia irritada com suas palavras, mas agora... agora ela parecia absolutamente furiosa. Veias nervosas eram visíveis em seu rosto e suas sobrancelhas estavam franzidas de forma ominosa, passando a impressão de que ela estava lutando para manter algum tipo de autocontrole. Um de seus braços estava cruzado, segurando seu outro antebraço, seus dedos movendo-se impacientemente enquanto a mão do braço que segurava se mantinha aberta, os dedos dela erguidos e apontados em direção ao céu, servindo como base para a concentração de energia que trazia Maoh pouco a pouco até ela. Ela parece estar tão irritada... e ela está abertamente usando seus poderes para me levar até ela. Não precisava pensar muito sobre isso para poder concluir que nada de bom lhe esperava nas mãos de Kyanna, e pensar nisso fez com que engolisse em seco.

Seus temores logo se provaram corretos quando finalmente aproximou-se o suficiente dela para ficar ao seu alcance, sendo prontamente recebido por um tapa no rosto, forte o suficiente para estalar e deixar uma marca vermelha na área atingida.

– Você é um grande idiota, sabia disso? – Disse ela, mais furiosa do que nunca. A mesma mão que havia acabado de atingir seu rosto foi a que se ergueu para segurar seu queixo, virando o rosto do cavaleiro a força de volta para ela. – Você diz que não estou entendendo o que você diz, mas você é quem está fazendo exatamente isso. Eu não disse em momento algum nada sobre a vida ser valiosa; isso é algo tão básico que até mesmo um idiota como você sabe disso, não há necessidade que eu vá dizendo o óbvio assim. O que eu estou dizendo é que é estúpido dizer que você não tem direito de viver, e isso porque isso é tremendamente estúpido! – Com força ela jogou o rosto de Maoh para o lado, frustrada, e por sua vez o cavaleiro deixou-o assim; não voltou-se novamente para ela, não ousou tornar a encará-la. Era simplesmente mais fácil lidar com tudo aquilo se não tivesse de ficar olhando para ela. – Não entra nessa sua cabeça chifruda que todos, absolutamente todos, tem o direito de viver? Nada tira esse direito de ninguém, e nada faz com que ninguém deixe de ter esse direito. Um bastardo tem o direito de viver. Um filho de criminosos tem o direito de viver. O descendente de um demônio tem o direito de viver. Mas você não pode ver isso, não é? Você está ocupado demais em auto-piedade e martirização pessoal para ver o que está na sua cara!

Aquelas palavras em especial chamaram a atenção de Maoh. Estava apenas ouvindo em silêncio tudo o que a mulher dizia antes disso, já sabendo que tentar falar com ela apenas iria fazer com que ela ficasse ainda mais irritada, mas ao ouvir aquelas palavras em particular a sua atenção foi por um momento realmente tomada por Kyanna. Voltou-se para ela, uma sobrancelha franzida enquanto a outra se erguia; o rosto da maga estava vermelho a essa altura de tanto que ela havia ficado excitada com toda aquela discussão, sua respiração saindo pelos lábios com tanta força e fúria que mais parecia que ela estava bufando.

– Essa sua cara de surpresa me diz que você realmente não havia pensado nisso, não é? Eu deveria saber – resmungou Kyanna, jogando as mãos para os ares enquanto virava-se e caminhava a passos fortes na direção oposta a Maoh. Em algum momento ela desativou seu poder, deixando que o cavaleiro caísse de cara no chão, mas mesmo o barulho de seu corpo colidindo com a pedra dura não foi o suficiente para fazer com que ela se voltasse. Massageando a bochecha que ela havia estapeado antes Maoh tornou a se erguer de forma um pouco vagarosa, fitando o chão enquanto o fazia, perdido em pensamentos sobre o que ela havia dito. Auto-piedade. Martirização. Eu... realmente emprego essas coisas? Não sabia, pra ser sincero, e era isso o que lhe dava mais medo, pois o pior doente era o que não reconhecia sua própria doença. Procurando uma resposta voltou-se para Kyanna, apenas para ver que a mulher já havia se reaproximado enquanto ele estava distraído, erguendo um dedo bem em frente ao rosto dele naquele exato momento. – Olhe só pra você! – Disse ela, olhando para Maoh agora sem o sinal da irritação de antes, embora seus olhos demonstrassem uma determinação fervente em... alguma coisa. – Você é bonito. Você é forte. Você é jove-

– Se você for falar que eu sou jovem, devo lhe informar que tenho cerca de cinquenta anos – interrompeu rapidamente ele de forma casual. – Demônios... ou... “um-quarto de demônios”, no caso, demoram mais a envelhecer.

– Você parece jovem – corrigiu rapidamente a maga, sem perder o ritmo – e também... poxa, só olhe pra você! Você teve um pai do qual você pode se orgulhar e uma mãe que, pelo que tudo indica, é bondosa e ainda está viva! Você sabe quanta sorte você tem por isso? Sabe o quanto eu queria poder ter pais como os seus? Os meus pais tentaram me queimar viva pelo “crime” de ter nascido com talento para a magia. Você não me vê saindo por aí dizendo que eu não tenho direito de viver devido ao meu talento mágico, vê? – Abriu a boca para responder a isso, mas antes que pudesse dizer uma palavra uma das mãos de Kyanna disparou, apertando suas bochechas e impedindo-o de falar. – Você também é um cavaleiro do Salão Cinzento, um dos mais poderosos e respeitados cavaleiros de uma das maiores organizações do mundo, e pelo que eu vi você é bem tratado lá. Eu, por minha vez, já lutei muito para obter a Carta Branca e poder entrar no Colégio Branco, mas nunca consegui alcançar o meu objetivo. E, corrija-me se eu estiver errada, mas devido a tudo que seu pai fez você nunca chegou a realmente sofrer algum verdadeiro preconceito devido a sua herança de sangue demoníaco, correto? Pois eu sofri. Quando eu tinha sete anos eu já tive de correr pela minha vida, isso porque as pessoas que eu amava e com as quais havia convivido até então decidiram que eu deveria morrer depois que viram minhas habilidades mágicas. Você entende o que eu quero dizer com isso, Maoh? Você tem tudo, absolutamente tudo! Sua vida é boa e cheia de promessa, o seu passado é pacífico, seus pais são dignos do seu respeito e suas conquistas são grandes o suficiente para que você tenha muito orgulho delas... mas mesmo assim, você fica reclamando, dizendo que você não tem “direito de estar vivo” e que você “não devia ter nascido”, chegando ao ponto de culpar seu pai por ser seu pai! Nunca mais, em hipótese alguma, ouse falar algo assim! Você não tem direito algum de maldizer o próprio fato de ter vida em seus ossos assim, principalmente não com o número gigantesco de pessoas por aí que estão numa situação muito pior do que a sua e mesmo assim continuam lutando, continuam otimistas!

Aquilo doeu. De todas as vezes que ela havia falado sobre aquilo com ele até então, essa era provavelmente a na qual Kyanna havia sido mais pacífica, sem tentar feri-lo nenhuma vez, mas mesmo assim, aquilo foi o que mais lhe machucou dentre tudo o que foi dito, simplesmente porque as palavras tocaram na ferida. Ela... ela... ela tem um ponto. Realmente, apesar de sua herança, Maoh nunca havia sofrido verdadeiro preconceito devido ao seu sangue; nas poucas vezes em que a situação começou a se tornar mais pesada, sempre teve o apoio da sua família e do Salão Cinzento. E outros dos pontos que ela fazia... eles faziam muito sentido. A auto-piedade e martirização que ela havia citado antes... essas coisas seriam isso? Isso seria eu tendo piedade de mim devido a minha condição? Devido ao... meu sangue? Minha herança.

De alguma forma, depois de ouvir as palavras de Kyanna, a impressão que Maoh tinha era que seu sangue de demônio não importava tanto do mundo, mas só para ele. De alguma forma, depois de ouvir tudo aquilo, Maoh sentia que, por todo esse tempo, ele estava sofrendo nas mãos do seu próprio preconceito consigo mesmo.

Com sua permissão, um sorriso lentamente começou a surgir no rosto de Maoh. Voltou-se para a maga, vendo que Kyanna agora era a que parecia confusa, mas não lhe deu tempo de tentar entender o que estava acontecendo. Abraçou-a antes que ela pudesse fazer qualquer coisa, arrancando um gritinho de susto da mulher que lhe fez gargalhar.

– Kyanna... – murmurou ele, apertando o abraço na maga um pouco mais, não com força, mas com ternura e gratidão. – Muito, muito obrigado.

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Com cerca de 819 mil quilômetros quadrados como sua área, a ilha de Tamagura se consagra como a maior de todo o arquipélago de Slen. Localizado a mais de cem mil quilômetros da costa oeste da ilha mais longínqua de Valenford – o Reino das Amazonas –, esse gigantesco arquipélago é quase que completamente desconhecido aos humanos devido à enorme distância que o separa da principal massa de terra do mundo conhecido. Apenas as pessoas mais importantes do mundo – os grandes senhores e reis – tem sequer o conhecimento da existência do arquipélago de Slen, e mesmo esses nunca mostraram muito interesse por ele. O arquipélago é formado por cinco ilhas, cada uma delas do tamanho de um país, cada uma delas com uma rica flora e fauna aonde se podia achar de praticamente tudo, além de inúmeras riquezas minerais. Intocada pelo homem, aquela terra era um verdadeiro paraíso, e se um dia uma nação viesse a se firmar ali, essa inevitavelmente iria crescer até se transformar no maior reino que o mundo uma vez já viu.

Mas mesmo assim, nenhum dos grandes senhores do mundo nunca tentou tomar aquelas terras para si.

Haviam motivos para isso, claro, e muitos bons. Dois deles, na verdade. O primeiro – bem simples, mas difícil de se resolver – era a pura distância que separava seus reinos daquelas terras. Cem mil quilômetros eram muito para qualquer um viajar, principalmente para viajar enquanto levava consigo um número suficiente de pessoas para explorar uma terra completamente nova. Nove entre dez frotas simplesmente nunca chegariam até Slen, mesmo nas melhores condições e com o melhor dos preparos, e mesmo que chegassem, até isso acontecer eles certamente teriam perdido pessoas demais durante a viagem para que essa simplesmente não fosse justificada. Além disso, devido a distância, seria completamente impossível para que qualquer rei explorasse as riquezas naturais daquela terra ou que mantivesse um pulso firme sobre as atividades de quem estivesse trabalhando ali; enviando homens até Slen para que formassem uma colônia do seu corpo iria apenas fazer com que estes homens fundassem o seu próprio reino ali usando dos recursos do rei, o que tirava qualquer valor que aquela terra pudesse ter a não ser que o rei fosse pessoalmente fundar sua colônia ali... mas fazer isso seria praticamente o mesmo que abandonar seu reino do outro lado do mundo, e nenhum rei em sã consciência sacrificaria o reino que já possui pela promessa arriscada e duvidosa de formar um novo reino em uma região remota e perdida.

Mas além disso, havia um segundo motivo, o verdadeiro motivo principal por aquilo. Slen era uma terra intocada mesmo sendo conhecida (ainda que por poucos) e havia uma razão crucial para isso; aquela terra era habitada por seu próprio estilo de criaturas, animais gigantescos e tremendamente poderosos, capazes de destruírem verdadeiros exércitos sozinhos. E isso fazia com que ninguém quisesse se aproximar de Slen.

Um exemplo disso se mostrava naquele exato momento. No centro da ilha, em um espaço aberto em meio ao que chamavam de “Floresta das Árvores de Pedra”, duas das criaturas mais dominantes na cadeia alimentar daquele ecossistema lutavam. De um lado estava o que chamavam de Dentes-Brancos; uma espécie de tigre única daquele arquipélago. Com cerca de onze metros de altura e vinte e cinco metros de comprimento em sua fase adulta, esses tigres se distinguiam devido a sua ferocidade; cada uma de suas presas e suas garras tinham por volta de um metro, cada uma delas comparável as espadas que guerreiros e cavaleiros usavam livremente nas terras do continente. Com quatro pares de pernas ao invés dos dois que seus familiares “tradicionais” possuíam, os Dentes-Brancos eram capazes de atingir uma velocidade absurda quando em corrida, tornando-se tão rápidos que olhos humanos tornavam-se incapazes de acompanhar seus movimentos, e em sua parte traseira esses animais traziam três caudas, cada uma delas tão poderosa que seu impacto com o chão era capaz de causar pequenos tremores que podiam ser sentidos por uma área tão grande quanto a ilha de Tamagura. Eram inteiramente brancos, sem nenhum sinal de qualquer outra cor por todo o seu ser, com exceção de seus olhos; esses, embora fossem normalmente também inteiramente brancos, tornavam-se inteiramente vermelhos sempre que um Dentes-Brancos avistava uma presa, uma indicação clara da natureza predatória e sangrenta desse animal.

E enfrenando esse poderoso animal estava o que era possivelmente uma das mais fortes criaturas que o mundo já viu. Um gigantesco réptil cujo qual a altura variava de quinze a vinte e um metros de altura, o Quimerassauro era uma criatura absurdamente feroz e poderosa. O que enfrentava o Dentes-Brancos naquele momento possuía vinte metros de altura, sendo que três desses metros provinham de sua cabeça... ou, melhor dizendo, de suas cabeças. Com duas grandes cabeças, o Quimerassauro possuía dentes de dois metros insanamente poderosos, mais duros que diamante e afiados o suficiente para que pudessem cortar aço como se fosse manteiga. Mas o mais temível era a sua mordida; cada uma das cabeças do Quimerassauro era capaz de exercer uma mordida com um peso de oitenta toneladas – muito mais do que o suficiente para destroçar qualquer coisa em seu caminho. Além disso, ele conta com diversas outras vantagens; seu couro possuía, de forma desconhecida, propriedades de camaleão, o que significava que ele podia alterar a sua cor de acordo com o ambiente em que estava, usando isso para emboscar suas presas. Possuía seis garras em cada “mão”, cada uma delas tendo um metro e meio de comprimento e sendo tão afiada quanto seus dentes, e além disso, um urro de um Quimerassauro era potente o suficiente para que fazer com que rochas se quebrassem em pedaços. E como se tudo isso não bastasse, cada uma das cabeças do Quimerassauro possuía independência funcional; embora ambas fossem completamente capazes de trabalhar em conjunto para alcançar seus objetivos, matar apenas uma cabeça não era o suficiente para matar esse animal, sendo que a não ser que ele fosse completamente morto, a cabeça morta iria eventualmente dar lugar a uma cabeça nova que emergiria em seu lugar. Com um conjunto de oito corações em seu peito, cada um deles aproximadamente três ou quatro vezes maior do que o de um homem adulto, o Quimerassauro era quase que impossível de se matar através da destruição desse órgão, principalmente considerando-se que, apesar de serem apenas três vezes maiores que o coração de um homem, cada um dos corações do Quimerassauro era dez vezes mais potente do que o de um humano.

A luta entre esses dois animais – ambos absolutamente monstruosos comparados a qualquer homem – era algo admirável de se ver. Apesar de todo o seu poder, o Dentes-Brancos sabia que não podia comparar-se ao poder ofensivo do Quimerassauro, mas tinha a vantagem no que dizia respeito a agilidade e mobilidade, e era um animal esperto, muito esperto. Ao invés de tentar um confronto direto, o que ele fazia era correr ao redor de seu oponente, lançando rápidos ataques e investidas, arrancando um naco de carne aqui e ali enquanto o Quimerassauro, em sua lentidão, tentava atingir-lhe com movimentos selvagens. Isso podia parecer uma luta perdida para o Quimerassauro, mas foi então que sua habilidade especial se manifestou. Todos aqueles ataques do Dentes-Brancos estavam irritando o réptil, e quando irritado o Quimerassauro entrava em um modo conhecido como “Frenesi”. Enquanto nesse estado o Quimerassauro se transformava em um monstro de pura destruição; sua ferocidade natural era ampliada em múltiplas vezes, e através da liberação de grandes quantidades de adrenalina o animal se tornava quase que imune a dor, bem como tinha a força e velocidade de seus movimentos ampliada consideravelmente. E era exatamente isso que estava acontecendo. Por mais que a estratégia do Dentes-Brancos fosse baseada em uma boa lógica, irritar um Quimerassauro era sempre uma péssima ideia.

Tal como o Dentes-Brancos compreendeu em questão de instantes quando o Quimerassauro girou e, com a ajuda de sua velocidade ampliada, acertou-lhe em cheio com um poderoso golpe de sua longa cauda.

Em um instante o grande tigre foi arremessado pelos ares como se não fosse nada, sendo lançado a metros de distância do seu oponente. Sua sorte foi que como estavam em um campo aberto não havia nada com o qual pudesse colidir, pois se fosse esse o caso ele certamente teria acertado em cheio uma rocha ou árvore próxima. Mas mesmo isso não aliviou muito o dano que sofreu; foi arrastado bem longe no chão pela força do golpe, e ao mesmo tempo em que o orgulhoso tigre era forçado a emitir um gemido de dor com aquilo, ambas as cabeças do feroz Quimerassauro urraram com todas as forças em triunfo e glória.

Mas naquele momento, tudo isso foi interrompido por algo muito, muito maior.

O céu se tornou dourado, as nuvens se transformaram bolas de fogo. O mar ao redor da grande ilha se agitou, e os menores animais, os que estavam nas piores posições na cadeia alimentar, esses fugiram a toda a velocidade, como quem foge da morte. Tanto o Quimerassauro quanto o Dentes-Brancos ergueram seus olhos para ver o que era o responsável por aquilo.

O que viram foi um grande meteoro flamejante dourado, caindo direto direção a eles.

A reação das duas bestas foi imediata. Ver algo tão monstruoso foi o suficiente para convencer ambos de que a luta tinha de acabar ali, e sem pensar duas vezes eles se moveram tão rápido quanto puderam. Com alguma dificuldade o Dentes-Brancos procurou se levantar para em seguida correr pra longe dali tão rápido quanto podia, enquanto o Quimerassauro corria na direção oposta, o grande animal de Slen por uma vez assustado, amedrontado. E isso não era apenas devido ao meteoro, não. O que realmente assustava esses animais era quem era o responsável por esse meteoro.

Toda a ilha tremeu quando o meteoro colidiu com ela, caindo exatamente no lugar aonde as duas bestas lutavam antes lutavam. Uma explosão de chamas douradas veio dele, queimando tudo ao seu redor até o pó e criando uma força tão grande que mesmo distantes o Dentes-Brancos e o Quimerassauro foram arremessados longe, jogados pelo ar. Uma nuvem densa de terra, fumaça e poeira se ergueu, impedindo a visão da área de impacto... exceto por uma única sombra. Uma sombra bem grande e de forma humanoide.

– Ah, Ilha Tamagura! Perfeito! – A voz jovial daquele homem era no mínimo inesperada vindo de alguém com tanto poder como ele, mas ainda assim ela era conhecida por aqueles animais, o que fazia com que eles tivessem a confirmação de quem era ele, o que apenas fez com que eles se amedrontassem ainda mais. Daquela sombra vieram chamas douradas, fortes e expandindo-se rapidamente, pondo fim a cortina de poeira antes de desaparecerem novamente e revelarem quem estava ali. Com um sorriso no rosto e duas espadas às suas costas, Jiazz parecia divertido e confortável, como se estivesse em casa. – Esse é um lugar perfeito para lutarmos! Espaçoso, sem humanos por perto que possam acabar se envolvendo na luta e com uma bela seleção de animais que podemos comer se tivermos fome! Bem legal, né, Ishir?

No momento em que essas palavras foram ditas, o que lhe acompanhava se manifestou. Vindo do completo nada, um raio negro caiu dos céus direto naquela planície, destruindo completamente o chão no local atingido e criando uma onda de choque tão ou mais poderosa que a do meteoro dourado de Jiazz havia gerado. Pequenos feixes de pura eletricidade negra tornaram-se visíveis no ar, criados pela pura tensão que a força daquele raio produzia, e a energia que fluía dele era tão poderosa que destruía ainda mais o pouco que havia restado ao seu redor, abrindo fendas profundas o suficiente no chão para que alguém pensasse que a própria ilha podia se quebrar em pedaços a qualquer instante.

– Essa é uma ilha bem longe de qualquer lugar – comentou a voz de um homem no momento em que o raio começou a se transformar. Lentamente a pura energia elétrica que o constituía começou a tomar uma estranha forma humanoide, assumir a figura de um homem pouco a pouco até que, por fim, Ishir Daemon surgisse aonde ele antes estava, a cara fechada, olhando ao redor com apenas uma leve lembrança de interesse nos olhos. – Como você conhece um lugar como esse?

O Juggernaut apenas fez abrir um pouco mais seu sorriso ao ouvir aquilo, um ar de moleque esperto presente em cada feição dele.

– Eu viajo bastante, daqui pra lá, de lá pra cá. Você ficaria surpreso se tivesse sequer uma ideia do número de coisas que você aprende caso pare pra ouvir o que as várias pessoas que você encontra em cidades e vilarejos tem a dizer. A maior parte dessas são coisas extremamente chatas e banais, mas aqui e ali você acha algo que vale a pena. – Enquanto dizia isso, a mão de Jiazz enfiou-se num dos bolsos de sua calça, algo que não passou despercebido por Ishir. O olhar do Deus Demoníaco tornou-se atento depois disso, observando bem todos os movimentos do Juggernaut com cautela, preparado para reagir imediatamente caso ele parecesse estar prestes a lançar algum ataque... mas por sua vez, Jiazz não parecia dar a mínima para isso. Ficou apalpando alguma coisa às cegas por um bom tempo, antes de finalmente parecer achar o que procurava. Sem oferecer explicações ele jogou alguma coisa para Ishir, que apanhou-as por puro reflexo, ainda sem entender nada. – Tome essas coisas.

O homem-raio ergueu uma sobrancelha ao ouvir a explicação vaga de seu rival, mas mesmo assim dignou-se à ao menos voltar seu olhar para o que tinha apanhado. Na palma de sua mão estavam três pequenas pílulas alaranjadas, cada uma delas menor ainda do que a unha de seu mindinho. Vê-las não lhe ajudou a compreender melhor nada daquilo, e por isso ele tornou a erguer seu rosto para Jiazz, que agora retirava mais três dessas pílulas do seu bolso.

– O que diabos essas coisas devem ser? – Questionou Ishir, deixando seu tom de voz ríspido, na esperança de que até mesmo um idiota como o Juggernaut pudesse compreender que ele não achava aquilo nada divertido.

– Pílulas de Energia – explicou Jiazz, simplesmente. Foi só quando franziu o cenho que ele se deu ao trabalho de explicar melhor aquilo, e mesmo assim ele o fez meio a contragosto. – Invenções de Carcino, ou, mais precisamente, de Tiamat. Essas pílulas foram feitas para serem vendidas durante guerras e para aqueles que gerenciam grandes competições. Ao serem ingeridas, essas pílulas fornecem ao seu usuário uma grande quantia de energia. Em situações normais, cada uma delas fornece energia o suficiente para que um soldado normal passe uma semana lutando comer, dormir ou sequer precisar de descanso.

– Uma semana não é nada pra pessoas como nós, Juggernaut. Principalmente não uma semana de pessoas “normais”.

– Eu sei, eu sei. É por isso que encomendei algumas pílulas com alterações – comentou o Juggernaut, brincando com as pílulas em sua mão enquanto falava. – Essas são mais potentes, bem mais potentes. Pelo que Tiamat me falou, cada uma delas é o suficiente para fazer com que um guerreiro com acesso permaneça usando as habilidades de sua Aloeiris ao máximo sem parar pra nada por pelo menos um ano. Claro, mesmo isso não é muito para nós, o que é o motivo pelo qual estamos usando três delas simultaneamente. Três delas devem ser o suficiente para fazer com que um guerreiro de alto nível permaneça dando o seu melhor por três anos seguidos sem nunca parar... o quê, em nossos termos, significa que elas devem nos energizar por cerca de dez dias; pouco mais, pouco menos.

– ... E tudo isso sem nenhum efeito colateral? – Questionou Ishir, achando aquilo bom demais.

– Por mais incrível que pareça, sim... de certa forma – murmurou Jiazz, girando seu pescoço enquanto falava. – Tiamat é um cara genial, principalmente no que diz respeito às suas invenções. Elas quase não possuem defeitos. O único defeito dessas pílulas é que elas são meio que viciantes se você ficar tomando muitas delas, apesar de que não de uma forma danosa... viciantes no estilo de algo como café ou coisa do tipo, sabe? Além disso, você tem de gastar a energia que elas vão lhe fornecer. Eu não entendi bem a explicação que ele deu sobre isso, mas aparentemente, seu coração vai explodir ou coisa do tipo se você não gastar essa energia. O problema é que a maioria das pessoas não tem como gastar toda essa energia, o que faz com que essas pílulas mais fortes sejam uma sentença de morte para qualquer um que não use tanta energia quanto eu ou você. Até mesmo a versão mais básica dessas pílulas dá problemas com isso, de forma que a maioria dos exércitos só as usam quando necessitam fazer coisas como marchas forçadas ou coisa do tipo, assim como os responsáveis por arenas apenas as passam para seus guerreiros quando eles estão prestes a competir em eventos longos e exaustivos.

– Hunf... – fez Ishir, ainda não gostando muito de tudo aquilo. Isso me parece bom demais pra ser verdade. O Rei de Carcino realmente tem a fama de ser um grande gênio, mas criar algo assim tão bom com efeitos colaterais tão pequenos... isso me parece bom demais. Além do quê, aquilo poderia ser muito bem apenas algum tipo de plano do Juggernaut para enfraquece-lo antes da luta. Pelo que bem sabia, aquelas pílulas podiam ser muito bem veneno. Talvez eu devesse fazer com que ele as provasse primeiro. Sim, sim... vamos ver como ele reage a algo as-

Não teve nem sequer tempo de concluir seu pensamento antes que o Juggernaut virasse as três pílulas em sua mão para dentro da sua boca de uma só vez. Não pode impedir que seus olhos se arregalassem diante daquilo. Esse... irresponsável... ele é um maldito retardado?! Quase que imediatamente após ingerir aquelas pílulas Jiazz caiu de joelhos, ambas as suas mãos segurando seu estômago em dor. Ah, não! Você não vai morrer assim, seu miserável! Você vai morrer nas minhas mãos, não devido a algumas pílulas de merda somadas à sua burrice natural! Por um momento, precipitou-se em direção a ele, mas antes que desse um único passo em direção a ele, viu ambos os olhos de Jiazz brilharem no mesmo dourado de suas chamas.

Esse foi todo o aviso que teve. No instante seguinte viu-se forçado a cobrir seu rosto com os braços para proteger-se do puro calor que veio do Juggernaut. Vindas direto do corpo de Jiazz, chamas douradas selvagens queimaram absolutamente tudo que o cercava, envolvendo-o como um gigantesco mar de fogo que reduzia tudo que se aproximasse ao pó. O próprio de Jiazz mal podia ser visto, tão envolvido nas chamas que estava, ficando apenas a sombra do guerreiro a mostra para indicar aonde ele estava e o que fazia. Ainda estava de joelhos no chão, mas ao invés de segurar sua barriga como antes, ele agora apoiava-se a partir de ambos os seus punhos fechados. Tanto poder! Quanto poder esse cara está liberando de uma vez?! Aquilo significava que Jiazz estava falando a verdade sobre as pílulas? Elas realmente concediam tanta energia ao seu usuário? Parece que sim, mas... maldição, se ele não parar com isso, toda essa ilha vai se transformar em puro pó!

Felizmente, aquilo não durou muito tempo. Logo, todas as chamas douradas que o Juggernaut havia liberado voltaram para ele... ou, melhor dizendo, concentraram-se nele, no punho dele. Em questão de momentos a figura de Jiazz tornou-se novamente visível, revelando um homem sorridente cercado por uma paisagem recém-queimada da qual ainda saia fumaça, com o braço direito brilhando em dourado. O sorriso dele se dirigiu a Ishir por não mais do que um instante antes que ele subitamente movesse seu braço aos céus, liberando todas as chamas que havia concentrado em seu punho para o alto... na forma de um gigantesco punho flamejante.

Primeiro Mandamento do Deus do Fogo: Punho de Deus! – Entoou alegremente, disparando aquele punho de fogo com uma força absurda. A velocidade na qual aquele ataque se moveu foi incrível, muito acima da velocidade do som, no mínimo hipersônica. E com tanta força! Mesmo algo tão gigantesco quanto aquilo desapareceu em questão de instantes, deixando para trás o que não podia ser descrito como nada mais do que um buraco no céu; por onde ele havia passado não havia mais nada. Qualquer nuvem que havia ficado em seu caminho havia aparentemente sido engolida ou dissipada pelas chamas, e pressão que aquele golpe exerceu foi tanta que o próprio céu pareceu distorcido, como se ele tivesse gerado um vácuo nele, literalmente criado um buraco no céu. E vendo que Ishir ainda estava olhando para o que havia criado, Jiazz não perdeu tempo em virar-se para seu rival, um sorriso arrogante no rosto. – E então, Ishir? Que acha? Antes que cague nas calças, meu amigo, deixe-me lhe informar que esse é apenas o primeiro dos meus “mandamentos”, golpes especiais que eu criei desde a última vez que nos enfrentamos. Tenho sete deles no total, apesar de que não devo usar o sétimo. Se eu usar o meu Sétimo Mandamento, “Terranova”, temo que não vá sobrar nada desse mundo pra contar história.

Por alguns instantes, ficou no mais completo silêncio depois de ouvir aquilo, sem que uma única palavra viesse de seus lábios, deixando que o Juggernaut caísse na ilusão de que havia lhe surpreendido com seu ataque. E então, de uma vez, irrompeu em uma gargalhada barulhenta, extravagante, enlouquecida. O olhar de Jiazz que antes trazia, tão arrogante e orgulhoso, desapareceu para dar lugar a uma expressão de pura confusão. Não deu muita atenção a ele, ao menos não no momento; o que fez primeiro foi tomar todas as pílulas que ele havia lhe passado antes, virando-as de uma vez em sua garganta, e só depois dignou-se a dar alguma resposta ao seu rival.

– Você é arrogante, Jiazz o Juggernaut. Arrogante demais! Esse é o seu grande ponto fraco, seu pirralho! Você sempre acha que você é o mais forte, o mais poderoso, que ninguém nunca pode te derrotar em uma batalha! Mas, deixe estar. Eu vou logo lhe mostrar exatamente o quão errado esse pensamento está! – Começou a sentir a energia que as pílulas prometiam correr por suas veias, e isso foi o suficiente para que compreendesse o porquê daquilo poder ser viciante. Hahahaha! Tanta energia, tanta! Sinto-me tão, tão bem! Melhor do que no melhor dia do meu primor! Sentia como se tivesse forças o suficiente para ficar correndo noite e dia sem parar por uma década inteira, e essa sensação era absolutamente incrível. E com tanta energia assim... heh, creio que posso me dar ao luxo de desperdiçar um pouco dela com uma boa demonstração. – Você pode ter melhorado e criado novas técnicas, Juggernaut, mas não acha que eu fiz o mesmo? Eu não fiquei parado por todo esse tempo, sabia? Da mesma forma que você vem aprimorando seus poderes, eu tenho me tornado melhor e mais forte. Permita-me demonstrar!

Foi divertido ver quão rapidamente a postura antes despreocupada do Juggernaut entrou em uma posição de guarda, pronto para defender-se de qualquer golpe que Ishir pudesse lançar... mas para a sorte de Jiazz, não tinha nenhuma intenção de ataca-lo, não agora. Sua mão direita se ergueu lentamente, meio entreaberta, todo o seu braço revestido por raios negro que fluíam ao seu redor com tanta intensidade que formavam quase que uma espécie de armadura ao redor do Deus Demoníaco. Olhou fixamente para o Juggernaut, sorriu, e em um movimento fechou sua mão com força.

No mesmo instante em que sua mão se fechou, um grande estrondo soou nos ouvidos de todos ali, e um clarão branco chegou ao mundo por um momento. Até mesmo Jiazz foi forçado a virar seus olhos pra baixo depois disso, apesar de que ele não permaneceu assim por muito tempo; logo ele lançou um olhar para Ishir, confuso e irritado, para em seguida mover seus olhos para os céus, tentando ver o que havia causado aquele clarão. Como sabia que ele não iria ser capaz de descobrir isso por si mesmo, Ishir resolveu ser um pouco bonzinho e lhe explicou o que havia acontecido.

– Esse estrondo, esse clarão... não se preocupe, Jiazz. Eles não estão restritos a essa área, não são coisas daqui. Todo o mundo presenciou esses dois, embora acho que a maioria dos outros devem estar tão confusos quanto você agora. – Uma risada divertida e maléfica veio de sua garganta ao dizer isso, enquanto faíscas negras saiam de seus olhos. – Há trezentos e vinte e sete mil quilômetros ao leste daqui, em Fredora, existe uma cidade chamada “Grande Glória”; um colosso de cidade com cerca de quatro milhões de habitantes e uma área total de pouco mais de mil quilômetros quadrados. Ou, melhor dizendo... existia. – Os olhos do Juggernaut caíram novamente sobre ele ao ouvir aquilo, confusos, mas ao mesmo tempo em que eles traziam confusão, Ishir começava a ver a compreensão surgir neles. – Isso que eu demonstrei agora é uma das técnicas que eu criei desde a última vez que nos enfrentamos, Jiazz: Retribuição Divina do Deus Demoníaco. Como alguém com o sangue de um Deus, um certo grau de onipotência e onisciência faz parte de mim. Usando disso, sou capaz de conjurar meus raios negros quando eu bem quiser, em qualquer lugar abaixo das nuvens. Ainda não sou bom o suficiente nisso para achar pessoas, fazer algo assim seria como tentar achar uma agulha no paliteiro para mim, mas consigo definir as localizações precisas de lugares consideravelmente grandes, e isso permite que eu possa me mover instantaneamente para esses lugares... ou que eu aniquile completamente essas grandes áreas com um bom raio de energia concentrada. A essa altura, Grande Glória está mais pra Grande Ruína Fumacenta.

Se havia ainda alguma lembrança de sorriso no rosto de Jiazz, essa morreu imediatamente depois que disse aquilo. Quando estava voltando novamente seu rosto em direção ao Juggernaut foi interrompido bruscamente pelo punho dele, por um soco furioso que lhe acertou em cheio no meio do rosto com tanta força que sentiu como se seu nariz estivesse afundando para dentro dele. Seu pescoço virou-se de forma tão brusca e rápida que temeu que ele se quebrasse, e seu corpo foi arrancado do chão para ser jogados aos ares como uma boneca de pano, girando como se fosse desprovido de ossos por alguns instantes, antes que Ishir pudesse se recompor. Seus dentes rangeram com força uns nos outros, um grunhido de irritação escapou de seus lábios; recuperando o controle sobre o seu próprio corpo, girou de forma a aterrissar agachado no chão, cravando furiosamente uma de suas mãos no solo duro para que não fosse arrastado mais pela força daquele golpe. Irritado, ergueu seu rosto para encarar Jiazz, sendo recebido por um olhar irritado do Juggernaut.

– Quatro milhões de habitantes? – Repetiu o Juggernaut, uma veia de irritação visível na lateral de seu rosto enquanto falava. Sua postura ainda era a que ele havia assumido para desferir seu golpe, mas lentamente ela estava se reajustando, lentamente Jiazz tornava a se erguer por completo. – Você matou quatro milhões de pessoas assim... à toa? Que porra de direito você acha que tem de fazer algo assim, Ishir?!

– O Direito dos Fortes, seu idiota. – Retrucou o Deus Demoníaco, cuspindo um pouco de sangue enquanto se erguia também, endireitando sua postura tal como Jiazz havia endireitado a dele. – Você não compreende isso até hoje, Jiazz? Esse é o mundo dos fortes! Nada, absolutamente nada além da força importa aqui! Se você é inteligente, se você é bonito, se você é habilidoso, se você tem talento, se você possui conexões, riqueza ou sangue nobre... nada disso significa nada nesse mundo! Esse é o mundo dos fortes, a era dos fortes! Se você possui força o suficiente para fazer alguma coisa, então você tem todo o direito de fazer isso! Eu quis destruir a cidade com essas pessoas, então eu fiz isso! Se elas não queriam morrer, então elas deviam ter se preocupado em tornarem-se mais fortes!

– Que modo de pensar infantil é esse, seu filho da puta de merda?! – Respondeu de imediato Jiazz, parecendo ficar mais agitado a cada minuto que passava; a essa altura, ele estava quase que literalmente latindo para Ishir, tamanha a sua irritação. – Eu entendo o Direito dos Fortes, e francamente, eu não posso dizer que sou exatamente contra isso, mas isso não te dá o direito de matar montanhas de inocentes apenas porquê você está afim!

– Você fala como se pudesse falar alguma coisa comigo, seu pirralho hipócrita! – Declarou Ishir em alto e bom som, fazendo com que Jiazz recuasse um pouco por um momento, em parte devido a confusão, em parte devido a surpresa. Sorriu novamente ao ver aquilo, um sorriso puramente maldoso, repleto de descaso, ironia e malícia. – O que foi, Juggernaut? Acha que eu não conheço seu passado? Idiota! Essa é parte dos seus maus-hábitos, Jiazz. Você é arrogante e nunca analisa os seus oponentes, e por isso é estúpido o bastante para achar que eles não analisam você. Eu estudei o seu passado... “Garoto do Massacre”. – Uma expressão puramente horrorizada tomou conta do rosto de Jiazz ao ouvir novamente sua antiga alcunha, e diante dela, Ishir não pode impedir que uma gargalhada explodisse de sua garganta. – Hahahahaha, hahahahahahaha! Quem diria! Quem diria que um dia eu iria tomar um sermão sobre matar vidas inocentes de Jiazz, o pirralho que dilacerou todo um vilarejo quando tinha seis fodidos anos! Essa é uma porra duma ironia, hein?!

As chamas douradas vieram de imediato, e foram seguidas prontamente pelos raios negros. Nenhum dos avançou contra o outro, mas apenas se encararam a distância; Jiazz extremamente sério e irritado, suas feições as de um animal enfurecido, enquanto Ishir mantinha seu sorriso maldoso, seu rosto a perfeita máscara do mais doente dos sádicos. Enquanto a energia de ambos os guerreiros fluía e se manifestava fazendo com que a terra da ilha aonde estavam tremesse e o mar ao redor dela se agitasse, os cabelos negros de Ishir lentamente iam caiando ao chão, desaparecendo completamente ao tocarem o solo.

– Sabe, Jiazz, da última vez que lutamos, você acabou vencendo. E desde que isso aconteceu, eu fiz uma promessa a mim mesmo – afirmou Ishir, sem nunca perder seu sorriso. A maior parte da juba que antes era o seu cabelo já havia caído a essa altura, deixando apenas uma parcela ainda volumosa mas infinitamente menor do seu cabelo para trás, parcela essa que foi logo afetada pela eletricidade que fazia parte do Deus Demoníaco. Em um piscar de olhos seus cabelos tornaram-se completamente espetados, todos os seus fios apontando para cima de forma uniforme. Junto da eletricidade negra que cercava o corpo de Ishir e das tatuagens de raios negros que pareciam ter ganhado vida em seu corpo, aquilo completava o visual agressivo característico do Deus Demoníaco do Raio Negro. – Quando perdi pra você da última vez, eu prometi a mim mesmo que não iria cortar o meu cabelo até que eu te quebrasse. Mas já que você morre aqui, não faz mais sentido que eu continue com aquela porra de juba, certo?!

Sem esperar por resposta alguma, avançou com toda a sua velocidade contra Jiazz. Impulsionado por seus raios negros e por sua velocidade natural, cruzou a distância que os separava em uma fração de segundos, surgindo diante de Jiazz quase que instantaneamente já movendo seu punho contra ele. Mas em todo mundo, Jiazz era uma das únicas pessoas que conseguia competir com Ishir, o que significava também que ele era uma das poucas pessoas que conseguia acompanhar sua velocidade. Por mais que sua velocidade fosse hipersônica, a de Jiazz também era, e enquanto Ishir movia seu punho em um soco, Jiazz cruzava seus braços afrente de seu corpo e formava com eles uma defesa.

Naquele instante, o ataque do Deus Demoníaco colidiu com a defesa do Juggernaut, e diante da força de ambos, a Ilha de Tamagura quebrou-se em pedaços.



Notas finais do capítulo

Por sinal, só pra confirmar caso alguém tenha dúvidas disso: sim, eu vou continuar a luta entre Jiazz e Ishir no próximo capítulo. Aguardem por isso!



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