O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 44
17 a 16


Notas iniciais do capítulo

Now things get serious!



CAMINHOU AO LADO DE SYD em silêncio, acompanhando o mercenário sem expressar seus pensamentos, apesar de manter olhos sobre ele a todo momento. Não confiava nele; aparentemente, pelo que Blair dizia, Syd havia os ajudado na mansão, mas não havia visto ele fazer nada, e de qualquer forma, não confiava totalmente em Blair também. Dois mercenários saindo do nada para nos ajudar num momento em que precisávamos de ajuda... isso me parece oportuno demais. Havia perdido um pouco de suas suspeitas quando Soulcairn havia demonstrado conhecer os dois, mas nem mesmo isso lhe deixava totalmente segura. É importante lembrar que o Salão Cinzento foi há pouco atacado e derrotado pelo Olho Vermelho, e considerando o estado dele, não acho que Soulcairn saiu ileso dessa batalha. A possibilidade de que algum dos membros do Olho Vermelho tivesse implantado memórias falsas na mente de Soulcairn para fazer com que esse auxiliasse na infiltração de inimigos em meio as fileiras do Salão Cinzento. Talvez eu esteja sendo um pouco paranoica ao suspeitar tanto assim das pessoas, mas isso é algo que tenho de fazer. Não posso me dar ao luxo de ser descuidada. Seu grupo era, em geral, bem descuidado; com exceção de Hozar e Bryen, todos ali eram relaxados no que dizia respeito à segurança, o que fazia com que um possível inimigo não fosse encontrar muitas dificuldades em emboscá-los ou guia-los para algum outro tipo de armadilha. Devo ser cuidadosa, tanto por mim quanto por eles. Desde que usasse de bom senso, afinal, toda essa sua paranoia apenas seria benéfica para ela, no fim das contas. Não devo agir com base em paranoias, mas elas são úteis para me manter sempre com a guarda erguida, preparada para qualquer coisa. Era exatamente assim que planejava agir com Syd; não iria fazer nada contra ele enquanto não lhe desse razão, mas se o mercenário tentasse lhe atacar em algum momento ou tivesse uma ideia similar, ela teria a certeza de reagir rapidamente.

E talvez, estivesse sendo bem astuta em manter sua guarda erguida. Conhecia bem o Salão Cinzento e era perspicaz, e por isso não havia demorado a notar que Syd estava lhe guiando em voltas e voltas pela cidade, fazendo como se ela fosse um grande labirinto. O que ele planeja com isso? Se ele pensava em confundi-la com aquilo, estava falhando nisso, mas não conseguia ver que lucro ele podia tirar de confundi-la um pouco. Talvez ele esteja me guiando para uma armadilha? Não, isso também não faz sentido. Se ele quisesse me guiar para uma armadilha, tudo que ele teria de fazer seria me levar direto para ela; não teria necessidade de ficar dando voltas assim. Pelo que sabia, a única utilidade que alguém podia ter para ficar dando voltas como aquela era tentar despistar um possível perseguidor, mas não havia sentido a presença de ninguém lhes seguindo, e mesmo se tivesse, não via motivos para se preocupar muito com isso. Estamos no centro do Salão Cinzento. Mesmo depois desse ataque, temos muito mais poder disponível aqui do que a maioria das organizações. Caso alguém nos atacasse, não demoraria tempo nenhum para que outros cavaleiros viessem ao nosso apoio. Isso não fazia sentido... a não ser que ele estivesse tentando garantir que qualquer um que estivesse lhes observando não soubesse para onde estavam indo.

– Syd, o que você pensa que está fazendo? – Questionou Teigra, erguendo uma de suas sobrancelhas enquanto encarava as costas do mercenário. – Aonde vamos treinar, afinal de contas? Só me diga o lugar e faço meu próprio caminho até lá.

A resposta do homem a isso foi virar levemente sua cabeça para trás, olhando por cima do ombro para Teigra com uma expressão confusa por um momento, antes de parecer subitamente compreender do que ela estava falando e voltar a olhar para frente.

– Ah, treino. Sim, sim. Sobre isso... eu não vou treinar você. – Anunciou ele, colocando as mãos atrás da cabeça. Isso apenas fez com que Teigra franzisse seu cenho, ainda mais confusa por isso. – Sabe, eu sei que eles falaram que eu iria te treinar e tudo mais, mas isso foi... bem, como posso dizer? Uma fachada, uma mentira, algo feito apenas para enganar os outros. Uma desculpa, por assim dizer.

– Em outras palavras, você está sugerindo que você nunca teve a intenção de me treinar em primeiro lugar? Que esse nunca foi o seu trabalho? – Sua pergunta foi feita mais para confirmar o que ele havia dito do que tudo. Não era lerda o suficiente para não compreender o que ele estava tentando dizer.

– Exatamente – respondeu Syd, acenando alegremente com a cabeça em resposta.

– ... Muito bem. – Não tinha lá muita fé nas palavras do mercenário, mas ele parecia inteligente pelo que havia visto dele; se realmente quisesse lhe enganar com alguma coisa, o mais provável é que ele fosse capaz de fazer bem melhor do que aquilo. Aquela desculpa fraca dava mais veracidade as suas palavras do que uma desculpa forte, por mais incrível que isso pudesse parecer, e de qualquer forma, queria ver exatamente aonde tudo aquilo iria lhe levar. – Nesse caso, quem será o responsável pelo meu treinamento? Considerando que todos os outros possuem um tutor pré-estabelecido, creio que o mesmo vale para mim, não?

– Sim, sim, você está certa – respondeu Syd, coçando sua cabeça ao dizer aquilo. – Você realmente tem um tutor preparado para você, mas... bem, como eu posso dizer? Digamos apenas que ele é alguém um pouco famoso, e que por isso eu não posso simplesmente ir dizendo o nome dele assim, ao ar livre. Aguarde um pouco mais, que tal? Acho que já demos voltas mais do que o suficiente para despistarmos qualquer tipo de bisbilhoteiro que tenha resolvido nos seguir; posso lhe levar até a casa na qual ele está se abrigando, e aí você poderá ver com seus próprios olhos quem é ele e compreenderá o porquê de estarmos sendo assim tão... cuidadosos.

Tinha de admitir; aquelas palavras enigmáticas foram o suficiente para conquistar um pouco do seu interesse, mas contra sua vontade, Teigra permaneceu calada. Não seria bom perguntar mais a Syd sobre o que ele queria dizer com isso, tanto porque ele não parecia disposto a falar mais nada quanto porque isso demonstraria seu interesse, o que nunca era algo bom. Ele me pediu para ser paciente, não é? Muito bem. Paciente é o que eu serei.

Não teve de esperar muito. Depois da sua pequena conversa, os rumos que eles tomavam mudaram bastante. Syd começou a entrar por outras ruas e a olhar mais atentamente ao seu redor como se estivesse procurando por algo, e eventualmente ele pareceu encontrar o que buscava em um velho armazém de madeira, um dos que havia ficado de pé depois da batalha. Abriu a porta dele com um rangido, e para a surpresa de Teigra, o interior do armazém estava limpo; pra onde quer que ela olhasse, não conseguia ver nenhum sinal de ninguém. Isso... está errado, não está? Pelo que me lembro, Soulcairn havia dito que os armazéns da cidade haviam sido usados como postos de emergência, que os feridos haviam sido colocados neles para serem tratados por aqueles que possuíssem algum conhecimento médico. Ou talvez ele tinha dito que eram só alguns? Não lembrava exatamente das palavras, e isso fazia com que sentisse-se frustrada consigo mesmo. Droga, isso não me cheira nada bem.

– E então, Syd? – Pressionou ela, buscando uma resposta do mercenário. – Você disse que iriamos encontrar o responsável pelo meu treinamento, certo? A menos que ele seja o Sr. Invisível, eu não acho que ele está aqui.

– Calma, calma, estamos quase lá, mas ainda não chegamos – murmurou Syd, afundando sua cabeça entre os ombros. – Afinal, vamos lá Teigra, você é esperta. Se alguém quer se manter em estado de incógnita, essa pessoa provavelmente não vai ficar em algum lugar em que qualquer um que entre nesse lugar pudesse lhe ver de imediatamente, certo?

Não deu resposta a isso, reconhecendo o ponto que Syd erguia com aquela afirmação, mas nem por isso ficou mais satisfeita com aquilo. Três minutos. É esse o tempo que darei para que ele me apresente alguma prova concreta de tudo isso. Caso ele não conseguisse fazer algo assim, então iria simplesmente seguir por si só e procurar treinar de alguma forma. Já estava desperdiçando tempo demais naquilo.

Mas para sua surpresa, Syd não precisou desses três minutos. Ele caminhou para dentro do armazém, olhou ao redor enquanto assoviava levemente, e ao ver uma porta em particular, caminhou direto para essa. Abriu uma greta nela e enfiou sua cabeça por ela, e um segundo depois gesticulou para que ela viesse até ele. Fechou a cara, fechou a porta, e fez exatamente isso, embora usando toda a cautela possível. Se isso for uma armadilha, eu devo estar preparada. Pode muito bem ter alguém do outro lado dessa porta com uma adaga nas mãos, só ali, parado, esperando. Ou algum arqueiro com uma flecha envenenada e seu arco preparado, pronto perfurar no crânio no momento em que me ver. Tinha de estar preparada para tudo, para absolutamente tudo... mas além de simplesmente estar preparada, supunha que podia tirar alguma vantagem também de surpreender quem quer que estivesse do outro lado.

Quando se aproximou o suficiente, Syd começou a abrir a porta, mas foi mais rápida do que ele. Antes que o homem pudesse abrir completamente a porta, avançou com passos rápidos e esmurrou-a com a palma de sua mão, abrindo-a bruscamente e batendo-a com força na parede, virando imediatamente seu rosto para dentro do quarto afim de ver o que lhe esperava.

O que viu foi um cão. Mais especificamente, um poodle, sentando em uma cadeira acolchoada, vestido em alguma espécie de terno em miniatura, com uma cartola sobre a cabeça, um monóculo no olho direito e uma pequena bengala pendurada em sua pata dianteira direita, sendo que ambas as patas estavam apoiadas sobre uma mesa de carvalho.

Ambas as suas sobrancelhas se ergueram, até o limite de onde podiam se erguer. Mas... o que diabos é isso? Era aquilo que Syd tinha a lhe mostrar? Aquele cachorro por acaso era o que deveria ser o tutor dela? Vocês devem estar brincando comigo. Isso é completamente ridículo, uma porcaria absurda! Ele não pode estar falando sério, pode?! Ia virar imediatamente seu rosto para Syd afim de questioná-lo quanto a isso, mas não teve chance. Antes que pudesse fazer alguma coisa, o cachorro virou-se para ela com olhos carentes, pidões.

– Humana – disse o cão, em voz feminina. Disse o cão, em voz feminina. – Por favor, tenha dó. Me salve.

Nesse momento, Teigra compreendeu que qualquer tipo de lógica que aquele mundo um dia havia tido já não valia de mais nada.

Esse cachorro... ele acabou de falar?! Ou, melhor dizendo, essa cachorra, considerando que a voz era feminina assim. Supunha que, de certa forma, não deveria estar tão surpresa assim; viviam em um mundo muito estranho cheio de coisas bizarras, repleto de homens e mulheres que eram por si só tão poderosos e destrutivos quanto exércitos gigantescos, um mundo aonde seres extraordinários como monstros, bestas e demônios eram um constante perigo. Em um mundo assim, um cão (ou, no caso, uma cadela) falante não deveria ser algo tão estranho assim... mas por mil diabos, nunca havia visto um cão falante, e isso era mais do que um pouco estranho!

– Esse cão está falando – disse Teigra, virando seu rosto para Syd enquanto falava. Sabia bem que estava dizendo o óbvio, mas sentia que era necessário reforçar um pouco mais exatamente o quão absurdo era aquilo. – Por que diabos esse cão está falando?

– Isso é culpa minha, creio eu – disse uma voz. Uma voz que claramente não pertencia a Syd; ela também era masculina, podia perceber isso facilmente, mas ao mesmo tempo, seu timbre tinha um certo tom... metálico? Como o som que você obteria ao raspar duas barras de ferro uma na outra. E mais do que tudo... esse som era familiar a Teigra, de uma forma que a mulher simplesmente não esperava. – Eu andei fazendo alguns experimentos com ele, e parece que Bob...

– Sou uma fêmea, seu imbecil! – Interrompeu a cachorra, gritando em protesto.

– ... Eu andei fazendo alguns experimentos com ela, e parece que Jane conquistou essa pequena habilidade de falar. – A voz não vinha da sala em questão, ao menos não pelo que Teigra podia supor, mas sim de algum lugar próximo. Caminhou para dentro da sala sem hesitação afim de averiguar o local e olhou prontamente ao redor. Não viu aquele que falava, mas viu outra pessoa, alguém bastante... peculiar. Era um homem forte e alto, com um corpo musculoso e duro como se fosse feito de pedra. Não vestia muito; com exceção das calças negras que vestia e das nuvens (também negras) que cobriam suas mãos, o homem estava completamente nu, mas isso não era nem de longe o mais estranho nele. Em seu peito, bem no meio dele, algum tipo de... suporte ou coisa do tipo estava cravado. Um suporte de formato circular feito de prata, protegido por um vidro vermelho que parecia bem resistente, trazendo em seu interior um órgão que constantemente ficava pulsando, como se estivesse vivo. Esse é... o coração dele? A partir desse suporte estavam conectados vários tubos de metal que o ligavam a várias partes do corpo do homem, como costas e braços, e pelo que podia ver, esses tubos terminavam em grandes agulhas que perfuravam a pele dele, e nas áreas nas quais essas agulhas estavam cravadas, Teigra podia ver várias veias. Isso tudo, por si só, já era algo extremamente perturbador, e somado aos olhos completamente brancos e brilhantes que o homem tinha e o fato de sua boca ficar perpetuamente aberta, liberando nada mais do que vapor cada vez que ele respirava, elevava toda aquela situação a outro nível. – Creio que talvez tenha alguns que virem pra mim e digam “poxa, eu esperava mais de você! Você faz tanta coisa útil normalmente, mas agora resolveu fazer uma cachorra que fala?!”, e eu entendo o ponto dessas pessoas, mas francamente, o que elas têm de entender é o seguinte: eu faço o que eu quero, e se você não gostar disso, me morda! Essa é uma boa filosofia de vida, não concorda comigo?

Ouvir aquela voz novamente chamou sua atenção, fazendo com que seu rosto se virasse para um dos cantos da sala de imediato. Uma única porta simples de madeira jazia ali, tão patética que ela poderia ser completamente ignorada, não fosse pelo fato de estar se abrindo agora, e de por ela estar passando aquele homem. Um sujeito de pele pálida pela falta de sol, com cabelos que eram longos e anormalmente esvoaçantes, fluindo e balançando como se uma brisa estivesse soprando sobre eles constantemente, embora isso fosse impossível. Seus olhos tinham olheiras enormes, mas apesar disso o homem não parecia minimamente cansado ou exausto, principalmente considerando o largo sorriso animado e divertido que ele trazia em seu rosto. Seu olho direito, humano, era verde e estava vidrado, focado intensamente sobre Teigra, enquanto seu olho esquerdo por sua vez... ele era puramente mecânico, uma esfera de ferro com uma luz vermelha no centro que parecia “fitar” Teigra de forma um tanto mais branda e cuidadosa. Pelo rosto daquele homem era possível se ver várias marcas de costura, como se ele tivesse cortado sua própria pele por algum motivo e depois a costurado de novo como se costura uma roupa – o quê, considerando quem ele era, não surpreenderia Teigra. Um grosso macacão preto cobria todo o corpo do homem do pescoço para baixo, certamente ali para protege-lo de todos os experimentos que ele fazia. Vestido daquela forma, ele não parecia nem de longe tratar-se da realeza que era ou do importante homem que era pro mundo, mas Teigra sabia bem que, se quisesse, ele poderia parecer mais elegante e refinado do que o mais sofisticado dos nobres.

– O que alguém como você está fazendo aqui? – Questionou ela, tentando manter o tom de sua voz o mais neutro possível. Sua pergunta, no entanto, apenas fez com que o sorriso dele crescesse um pouco mais, e isso irritou Teigra, fazendo com que ela se virasse para ele e falasse com um pouco mais de firmeza. – Responda a minha pergunta! O que o Rei de Carcino faz no Salão Cinzento, Tiamat Dragoneir?!

Isso apenas fez com que ele gargalhasse. A gargalhada do Rei de Carcino era como a de uma hiena; divertida, zombeteira, descontrolada e perturbadora. Caso a aparência de Tiamat não fosse o suficiente, aquela gargalhada era o bastante para deixar claro exatamente o porquê daquele homem ser conhecido como “o Rei Louco de Carcino”. Grunhiu, rangendo os dentes perante a isso, sentindo-se humilhada pela forma como o rei estava reagindo... mas para o seu próprio bem, controlou-se e manteve-se aonde estava, sem fazer nenhum movimento realmente ofensivo. Se Tiamat está aqui, então eu suponho que esse... essa coisa que está sentada é algum tipo de guarda-costas dele ou coisa do tipo. Não preciso de mais do que um olhar para poder dizer que isso é bem mais forte do que eu; se eu fizer qualquer coisa errada aqui, isso pode me matar em um instante. E mesmo deixando isso de lado, tem a questão de Tiamat em si. O Rei de Carcino não era famoso por ser um poderoso guerreiro nem nada do gênero, mas com toda a inteligência que ele possuía, suas capacidades com um inventor e as alterações que ele havia feito no próprio corpo, não tinha dúvidas de que o poder dele deveria ser grande. Gigantescamente grande.

– Hahahahaha, calma, calma, não precisa ficar nervosa – disse ele enfim, controlando um pouco seu riso. Sempre sorridente ele aproximou-se, caminhando até a mesa. Nessa jazia uma xícara de café ainda quente, bem como um pequeno potinho do lado o qual Tiamat logo abriu. Havia imaginado que aquele potinho devia conter açúcar, mas para sua surpresa, o que viu dentro dele foi puro sal. Tiamat não notou ou não deu importância para isso, considerando a forma como ele começou prontamente a virar sal no café com a ajuda de uma pequena colher, sem nunca tirar os olhos de Teigra. – Pode não parecer, mas eu fui convocado até aqui, sabia? Bom, não exatamente “eu”, mas... bem, ouça só o que tenho pra te contar. Eu estava na minha sala lá no... como é o nome do meu palácio mesmo? Não, não, esquece. Não responda. Não importa. Ninguém dá a mínima para o nome dum raio de palácio. Bom, de qualquer forma, eu estava lá, relaxando, tentando bolar um modelo ou esquema para a minha próxima invenção, quando... ah, raios partam, você não quer saber toda a história, quer? Basta saber o seguinte: o Salão enviou um pedido por um técnico treinado por mim que pudesse colocar um par de pernas artificiais num cavaleiro qualquer aí que ficou aleijadinho, e como eu estava entediado, fui eu quem vim até aqui. Só que eu cheguei recentemente, e quando cheguei, ao invés de ser recebido com vivas e aplausos e peitudas seminuas, fui recebido por uma cidade destruída, um monte de gente feia toda ferrada e uma caolha extremamente defensiva de um cara sem pernas! Obviamente, como sou um grande profissional, eu não me importei com a situação precária do Salão e cumpri meu trabalho normalmente mesmo assim, mas então, enquanto eu estava tirando as medidas do zé-sem-pernas pra começar a trabalhar nas pernas novas dele, um cavaleiro veio até mim querendo saber se eu poderia ajudar no treinamento de alguém. – Piscou repetidamente com seu olho mecânico para Teigra ao dizer aquilo, como que pra dizer se uma forma nada sutil que era ela esse “alguém”. – Obviamente, sendo o homem ocupado que sou, e considerando o fato de que considero “treinar alguém” como um porre, eu ia recusar isso, mas então me disseram que aquela que eu treinaria seria você, e isso mudou completamente as coisas! Afinal de contas, como eu poderia recusar um favor desses a filha de um grande amigo meu?

– Não seja tão falso assim, maldito seja – grunhiu a cavaleiro, cerrando os dentes e fechando suas mãos em punhos. – Não ouse falar do meu pai assim!

– Hmm... você parece ressentida. – Contemplou Tiamat, ainda virando sal no café. A essa altura, já havia mais sal no café do que no pote, chegando até mesmo a montar um montinho nesse, mas mesmo assim o Rei de Carcino não dava sinal algum de ter notado isso. – Sabe, você não deveria permanecer assim. Não só por que isso não é saudável e faz mal pra alma, mas também porque as coisas não são assim do jeito que você pensa. Eu amava seu pai como se ele fosse do meu próprio sangue, um irmão, sabe? Tínhamos uma relação maravilhosa.

– Você removeu todos os órgãos dele, drenou seu sangue e substituiu todo o interior dele por máquinas! – Exclamou ela, sem conseguir acreditar no cinismo e na calma com a qual Tiamat falava tudo aquilo, avançando um passo em direção ao rei. Assim que fez isso o rosto da criatura que Tiamat havia trago de Carcino voltou-se imediatamente para ela, fitando-lhe sem disser nada nem fazer qualquer som, mas com um sorriso perturbador nos lábios e aqueles olhos brancos doentios. Merda... merda...! Sentiu uma gota de suor frio correr pela sua espinha. Se eu fizer mais alguma coisa, isso vai me matar. Se seu mover um músculo sequer, essa criatura vai me matar!

– Ei, eu disse que a nossa relação era maravilhosa, não perfeita – justificou-se Tiamat, dando de ombros como que se não se importasse ao mesmo tempo em que dizia aquilo, girando seu café com a colherzinha para misturar o sal ao líquido melhor enquanto falava. – Mas, como eu disse, as coisas não são assim do jeito que você pensa. Eu sei que você deve imaginar que eu sou um indivíduo doente, o que não está errado, e que eu me diverti fazendo aquilo com seu pai, o que está absolutamente correto, mas essa não é toda a história. Seu pai, como eu lhe disse, era como um irmão para mim. Eu o adorava, o amava com todas as forças... mas o amor morre bem rápido com uma traição, sabe? Seu pai, apesar de ser um grande amigo meu, não hesitou em conspirar com alguns fracassados para me tirar do trono e colocar um parente distante da família Dragoneir em meu lugar. Pelo que descobri, ele até iria ser o responsável por me matar; aparentemente ele iria se aproveitar da nossa amizade para se aproximar de mim e rasgar minha garganta com uma adaga. Foi por isso que reagi da forma que reagi. Matei os envolvidos nesse plano, incluindo seu pai, e para assegurar-me de que algo assim nunca mais voltasse a acontecer, matei também cada membro da minha família. Os Dragoneir são os únicos com algum tipo de clamor ao trono de Carcino; se eu sou o último da minha linha, então o povo vai ter que se contentar comigo, quer queira ou não.

Se Tiamat estava falando aquilo com a intenção de fazer com que Teigra ficasse mais calma, seu plano estava dando terrivelmente errado. A cada palavra que ouvia, a fúria da cavaleira só fazia aumentar mais e mais, não só pelas memórias do que ele havia feito, como também pela ousadia e o desrespeito. Ele tem a audácia de dizer pra mim que meu pai era um traidor? Que meu pai merecia a morte que teve? Havia vivido poucos anos com seu pai; ele morreu quando tinha sete anos, e então veio para o continente junto de sua mãe; quando esta também morreu, poucos meses depois, acabou se tornando uma menina de rua, até ser encontrada por um cavaleiro e levada até o Salão Cinzento para ser criada lá. No entanto, o pouco que podia lembrar de seu pai já era mais do que o suficiente para que soubesse que ele era um homem alegre, bondoso e honesto. E mesmo que por algum motivo ele realmente tivesse tentando, não é como se ele estivesse errado em fazer algo assim. Desde o começo de seu governo, Tiamat exibiu sua loucura de várias formas, seja através de ações estúpidas e sem motivo, seja através de crueldade e completo desprezo por qualquer tipo de moral e humanidade. Mesmo se seu pai tivesse feito aquilo, ele seria então um herói, um mártir... mas se havia algo que não podia admitir, era que alguém como Tiamat estivesse declarando-o um traidor.

– Você acha que eu vou acreditar numa palavra disso tudo?! – Questionou ela, usando de todo seu autocontrole para não fazer mais nenhum gesto agressivo em direção a Tiamat, sabendo bem que estava sobre o olhar constante do protetor dele.

– Acreditar ou não nisso, francamente, é secundário – declarou Tiamat, terminando de misturar seu café e pousando a colher que havia usado para isso ao lado da xícara. – O que eu lhe disse é verdade. Isso é um fato. Se você vai ser corajosa o suficiente para lidar com a verdade ou se você vai ser uma covarde e fugir dela, tentar negar tudo... isso é com você. Fatos não mudam, independente da forma como você os enxerga ou de como você os aceita. É por isso que são fatos.

Seu rosto se contorceu ainda mais em uma careta ao ouvir aquilo, mas sabia que não iria conseguir nada além de se irritar ainda mais se tentasse algo assim, por isso controlou-se e ficou calada. O sorriso de Tiamat cresceu um pouco mais ao ver aquilo, como se apenas para provoca-la... e isso acabou sendo muito bom para Teigra. Tão distraído que ele estava em focar-se em irritá-la, Tiamat nem notou que o que pegou em mãos foi o pote de sal, virando-o de uma vez na boca.

BUH! MAS QUE MERDA?! – Gritou ele de imediato, cuspindo todo o sal para o lado enquanto fazia uma careta absurda, seu olho humano tão esbugalhado que ele parecia prestes a saltar para o ar. – Essa porra é horrível, salgada demais! – Sem pensar duas vezes ele mandou longe o pote de sal, fazendo com que esse se explodisse em milhares de pedaços na parede... e sem aprender com seu erro anterior, pegou a xícara de café e virou o conteúdo dela de uma vez garganta abaixo. Sua reação foi bem rápida. – PORCARIA! – Exclamou ele, cuspindo todo o café que havia acabado de beber para cima como se fosse um chafariz. – ISSO É AINDA MAIS HORRÍVEL E SALGADO!

Não pode impedir que um pequeno sorriso satisfeito surgisse em seu rosto. Não gostava nada do Rei de Carcino, e isso só fazia com que tudo aquilo – que já seria engraçado em uma situação normal – fosse ainda mais satisfatório para ela. Mas mesmo essa satisfação não durou muito; enquanto deleitava-se nela, um pensamento veio a sua mente, um pensamento súbito de algo que ela não sabia como não havia notado antes, que fez com que seu humor voltasse a coalhar. Syd havia me dito que ele estava me levando até aquele que iria me treinar... isso significa que...

– Syd! – Exclamou a cavaleira, furiosa, virando bruscamente seu rosto para o mercenário que segurava a porta, fazendo com que ele quase desse um salto para trás em susto. – Tiamat não é aquele do qual você tinha falado antes, não é? Não é possível que vocês tenham apontado ele para me treinar!

O mercenário recuou quando sua fúria foi direcionada para ele, encostando-se ainda mais na porta enquanto erguia as mãos em um gesto de rendição, um sorriso amarelo e trêmulo surgindo em seu rosto. Ah, não. Droga, não!

– É claro que eu sou aquele responsável por te treinar. Eu disse isso, não? – Foi a voz de Tiamat que disse isso, fazendo com que a cavaleira se virasse novamente para ele. Enquanto estava distraída o Rei de Carcino havia alcançado uma das pias naquela sala e estava lavando sua boca com água corrente. A careta que ele constantemente expressava e a forma como passava a mão na língua deixava claro que o gosto de todo aquele sal ainda não havia saído por completo, mas mesmo assim ele parecia mais do que bom o suficiente para falar normalmente. – De qualquer forma, mesmo caso eu não tivesse dito isso, você deveria já ter assumido que eu seria o seu mestre aqui. Se não pelo fato de que esse cara se deu a todo o trabalho de trazê-la até mim, pelo simples fato de que isso é o lógico a se fazer. Afinal de contas, você é uma cavaleira que se foca no uso da alquimia em batalhas, certo? Quem melhor pra te treinar do que o criador da alquimia?

– Qualquer outra pessoa no mundo, eu diria! – Retrucou Teigra, sentindo uma veia pulsante começar a surgirem seu rosto; toda aquela discussão estava alcançando os nervos da cavaleira, algo raro e extremamente difícil de se fazer, mas que Tiamat conseguia sem muito esforço. – O que te faz pensar que eu vou aceitar treinar sobre a sua tutela, afinal de contas?

– Eu sei lá; talvez o fato de que você não fazer isso provavelmente vai culminar nas mortes sua e de seus companheiros? – Questionou Tiamat tranquilamente em um tom neutro, fazendo com que a boca de Teigra, que já havia se aberto para continuar com seus argumentos, se fechasse novamente de imediato. – Não se engane, Teigra; todos os seus companheiros estão treinando nesse exato momento, se esforçando para tornarem-se mais e mais poderosos. Mais do que isso, eles estão treinando em locais especiais que aceleram o desenvolvimento de seus respectivos corpos, o que faz com que eles ganhem ainda mais força do que deveriam. Se você não treinar sob a minha tutela, você não tem chances de manter-se no mesmo nível deles, o que significará que você será o elo fraco da equipe. Acha mesmo que um grupo que vai enfrentar pessoas tão poderosas quanto os membros do Olho Vermelho pode se dar ao luxo de ter um elo fraco em seu grupo? Você seria derrotada rapidamente, entraria em perigo, e muitos do seu grupo iriam morrer tentando salvá-la, o que culminaria na derrota completa sua e de seus aliados e na morte de todos. Creio que você não quer isso, quer?

Frustração e raiva foram os sentimentos que ela teve de imediato ao ouvir aquelas palavras, mas não agiu seguindo nenhum deles. Miserável... maldito seja o seu nome, Tiamat! O Rei Louco era um homem desprezível, um sadista mimado que fazia tudo o que queria sem que ninguém tivesse forças o suficiente para se opor a sua vontade, mas por mais terrível que ele pudesse ser, ele tinha grandes talentos que ninguém podia negar. O maior e mais notável deles era a sua criatividade e a sua mente avançada que lhe permitia criar muitas coisas com as quais a humanidade não podia nem sequer sonhar antes dele, mas um outro fator que ele tinha a seu favor era o pensamento lógico e rápido. Não diria que ele era necessariamente bom no que dizia respeito a diplomacia, mas ele certamente sabia fazer bons pontos que colocavam o jogo ao seu favor. Esse era exatamente um dos casos disso. Por mais que detestasse o homem, Teigra não conseguia pensar numa resposta à altura para algo assim. Porque não existia uma.

– Além disso, eu não sei se isso vai te deixar aliviada ou não, mas não será bem um treinamento o que você terá nas minhas mãos – disse Tiamat, gargarejando um pouco de água antes de cuspi-la de volta na pia. – Você pode não saber disso, mas eu não treino ninguém. Não tenho paciência pra esse tipo de coisa. E além do mais, um treinamento seria pouco útil pra alguém como você. Seu corpo sempre foi fraco, ele definitivamente não é seu ponto forte. Não, não, o que planejo fazer não é treinar você, mas sim... aprimorar seu repertório, por assim dizer. O seu e o de Syd.

– O de Syd também? – Perguntou ela, lançando um olhar para o mercenário na porta.

– Sim, claro. Ele também é um especialista no uso da alquimia, runas e outros métodos alternativos em batalha. Por que acha que foi ele quem escolhemos para servir como frente para lhe trazer até mim? – Juntando um pouco de água em suas mãos, Tiamat molhou um pouco seu rosto antes de enfim endireitar seu corpo e seguir em direção a Teigra. – Apesar de que, devo dizer, o que tenho em mente pra ele é bem diferente do que tenho em mente pra você. Já conversei com ele sobre isso e ele se negou a deixar que eu fizesse com ele o que quero fazer com você, então vou simplesmente lhe fornecer ferramentas, equipamentos e conhecimento que lhe darão mais recursos em uma batalha. Mas, claro, tenho a esperança de que você não vá se contentar com tão pouco.

As palavras do Rei Louco não apelavam de forma alguma para Teigra. Não só já não gostava naturalmente do homem como suas palavras e seu discurso também soavam muito suspeitos, um tanto quanto perigosos. E considerando a forma como ele estava sorrindo e o olhar empolgado e animado como o de uma criança que ele lançava sobre ela, a vontade de Teigra era fugir dali tão rápido quanto pudesse.

Mas por mais que quisesse isso, como ele havia dito antes, ela precisava daquele treinamento. E também... tinha de admitir; por mais que não gostasse do rumo daquela conversa, estava curiosa com o que ele tinha oferecer.

– E... o que seria o que você quer fazer? – Perguntou a cavaleira, mais do que um pouco hesitante.

O sorriso de Tiamat se alargou ainda mais. Avançando sobre ela, ele invadiu seu espaço pessoal, forçando a cavaleira a inclinar-se para trás enquanto era assaltada pelo olhar enlouquecido e doentio do Rei Louco.

– Você tem um lindo corpo, sabia, Teigra? – Disse ele, de forma perturbadora. Subitamente apreensiva, a cavaleira virou rapidamente seu rosto para trás na direção de Syd para ver o mercenário fitando aquilo com olhos arregalados e uma gota de suor frio escorrendo por seu rosto, como se aquilo lhe trouxesse más lembranças. Não teve muito tempo para isso, entretanto; antes que pudesse fazer qualquer coisa, sentiu as mãos de Tiamat segurarem-na firmemente pelos ombros com uma força que alguém tão magro quanto ele não deveria ter, provavelmente proporcionada por implantes artificiais. – Diga-me... cavaleira Teigra Blacktiger – murmurou o Rei Louco, deixando seu rosto perturbadoramente próximo do de Teigra. – Você me deixaria experimentar no seu corpo?

=====

A espadachim ruiva avançou contra ela com um salto, segurando firmemente sua espada com ambas as mãos. Seu ataque foi carregado; pelo que pode ver pela careta dela e as veias em seus braços, ela deveria estar usando toda a sua força naquele ataque.

Com uma única mão, Titânia segurou a espada de Bryen sem a menor dificuldade.

Os olhos da garota se arregalaram ao ver aquilo, mas não lhe deu tempo para que ela nem sequer começasse a compreender o que estava acontecendo ali. Sua perna se ergueu rapidamente, acertando um poderoso chute na boca do estômago da mulher, lançando a espadachim ao ar. A expressão que tomou conta de seu rosto deixou claro a dor que ela sentia, mas nunca foi alguém que se importava com coisas assim, e a situação atual não foi diferente: girou em torno de si mesma com uma perna erguida, acertando um chute em cheio no rosto de sua oponente, lançando voando para o lado até que colidisse em cheio com a montanha próxima delas.

Isso é tudo? Dizer que estava um pouco desapontada com as demonstrações de Bryen seria uma grande atenuação. Essa mulher é uma das membras da guilda de Kastor. Supostamente eu deveria estar treinando-a para derrotarmos o Olho Vermelho. Mas como ela deve derrotar uma guilda tão monstruosa como essa sendo tão patética como é? Sabia que o foco era aumentar a força da mulher para coloca-la em condições de enfrentar o Olho Vermelho, mas para fazer algo assim era necessário que ela tivesse algum tipo de forma de início, o que não era o caso pelo que estava vendo até então. Não estamos fazendo progresso. Eu estou apenas desperdiçando o meu tempo aqui!

Enquanto a garota ainda se ocupava em tentar juntar forças o suficiente para se colocar novamente de pé, Titânia deu-lhes as costas e começou a caminhar para longe dali a passos largos. Isso é tudo um desperdício. Um desperdício tanto de tempo quanto de esforço. Não iria ganhar nada tentando treinar uma lagarta para que ela se tornasse uma guerreira decente; aquela mulher era fraca demais, e iriam se passar anos e anos de treinamento duro antes que ela tivesse força o suficiente para comparar-se ao poder de alguém como Titânia. Não tenho tempo a perder com ela. Se ela é tão fraca assim, então tudo que tenho de fazer é ampliar a minha própria força. Irei usar esse tempo para focar-me em treinar meu próprio corpo e aprimorar minhas próprias técnicas, e então irei matar os malditos do Olho Vermelho com minhas próprias ma-

Pressentiu um ataque e moveu-se rapidamente para o lado afim de evita-lo. O que parecia ser uma lâmina voadora passou bem ao lado de seu rosto, abrindo um corte profundo em sua bochecha direita, e foi só então que compreendeu que aquilo não tratava-se de uma lâmina, mas sim de um corte efetuado devido a mera pressão do ar. Um corte... não é possível! Incrédula, virou-se rapidamente para trás, e o que viu foi algo que francamente não esperava; Bryen estava de joelhos, uma careta de dor cobrindo seu rosto. Era óbvio que ela tinha dificuldades e sangue escorria de sua boca e nariz, manchando o rosto da espadachim de vermelho, mas mesmo assim, mesmo com toda a dor que ela claramente sentia, ela conseguia demonstrar um fino sorriso de satisfação, enquanto em suas mãos segurava a espada que havia acabado de mover para ferir Titânia.

– Não me subestime, Caçadora de Corações... – disse a espadachim da Era Dourada. Com algum esforço ela conseguiu se colocar de pé, e a passos incertos ela começou a caminhar em direção a Titânia, um passo após o outro. – Eu sei que não tenho forças o suficiente para enfrentar uma mulher tão monstruosa quanto você no momento. Eu sei muito bem que, para você, eu devo ser fraca. Mas mesmo assim... não ouse dar as costas para mim! Eu sou Bryen Hardying, uma guerreira e membra da Era Dourada! Você irá me respeitar, se não pelo que eu sou e pelo que já conquistei, pelo fato de que, antes dessa semana chegar ao fim, eu vou chutar a sua maldita bunda!

Por um momento seus olhos se arregalaram, fitando a espadachim sem poder acreditar no que ela estava dizendo. Logo, entretanto, isso mudou. Uma risada subiu-lhe pela garganta, escapando de seus lábios; uma gargalhada gostosa e profunda, um tipo de gargalhada que apenas Lancelot conseguia arrancar dela, uma gargalhada que há muito tempo Titânia não conhecia mais. Isso é completamente absurdo. Essa mulher que mal se aguenta em pé pretende me derrotar em uma semana? Completamente absurdo! Mas por mais absurdo... tinha de admitir; aquilo lhe divertia e lhe intrigava.

– Ora, ora... – murmurou Titânia, a Caçadora de Corações, girando Gáe Bolg, a lança amaldiçoada forjada do sangue dos Deuses, em sua mão direita. – Talvez isso não seja uma completa perda de tempo, no fim das contas. Muito bem. Mostre-me do que é capaz, Hardying!

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A brisa da noite geralmente era algo refrescante, com um dom de acalmar e tranquilizar o coração de Saber. Mas por algum motivo, naquele momento, naquela noite, ela não conseguia fazer isso.

Estava – tal como Jiazz e o resto dos mercenários contratados pelo Olho Vermelho – acomodados no terceiro andar da fortaleza voadora que chamavam de Pandemonium. Não compreendia bem como aquele lugar funcionava, mas pelo que parecia, Pandemonium era uma estrutura... peculiar. A fortaleza tinha cinco andares, mas pelo que parecia, cada um desses andares era separado um do outro por fortes barreiras, como se fossem dimensões paralelas. Aparentemente, a única maneira de entrar na fortaleza – se não por magias especiais cheias de detalhes específicos como as de Balak – era através do primeiro andar, e para se seguir para qualquer outro dos andares alguém necessitava avançar pelas escadas específicas. Era por isso que, mesmo estando em uma das varandas do terceiro andar como estava, não tinha a sensação de que estava realmente olhando para o céu quando olhava para cima – mesmo que não pudesse vê-las, sabia da existência delas e podia sentir a presença das barreiras, confinando-a, prendendo-a. Tal como naquela época...

Sua mão alcançou os botões de seu uniforme, apertando-os com força, mas ela congelou ali. Novamente, lembrou-se das palavras que havia ouvido durante a Batalha do Salão Cinzento. “Uma mulher que nem parece mulher como você”... Sabia que as palavras daquele cavaleiro não eram nada mais do que uma das várias provocações que eram jogadas durante uma batalha para irritar seu oponente e induzi-lo a cometer erros, mas mesmo assim... elas haviam lhe afetado, bem mais do que deveriam. Uma mulher que nem parece mulher como eu... ele tem razão, não é? Eu realmente não pareço uma mulher. Não parecia, talvez porque não era. Ou, ao menos, não se julgava como uma. Eu... não sou uma mulher. Não sou uma mulher. Não so-

– Saber, que raios tu tá fazendo?

Aquela voz familiar lhe pegou de surpresa, fazendo com que desse um salto para trás e com que uma exclamação de surpresa escapasse de seus lábios. Virou os olhos em direção a ela para ver Jiazz se aproximando, caminhando a passos largos em sua direção enquanto tinha as sobrancelhas levemente franzidas, como se estivesse curioso quanto a alguma coisa.

– J-Jiazz! – Gemeu ela, censurando-se imediatamente pela forma como sua voz saiu, frágil e vulnerável. Sua tola, fale com mais segurança! Você sabe melhor do que ninguém o quanto Jiazz aprecia a força! Não ouse passar vergonha diante dele, sua idiota! – Eu... só... o que você está fazendo aqui? – Questionou ela, mordendo o lábio inferior, torcendo para que ele se distraísse com sua pergunta de forma a lhe comprar um pouco mais de tempo para lhe dar uma resposta.

– Eu? – Perguntou ele, erguendo uma sobrancelha. – Bem, eu estava tentando dormir. Mas não ‘tava conseguindo. Insônia. Levantei, fui beber um pouco d’água. Esse lugar é como a porra dum labirinto. Eu provavelmente vou precisar matar alguém se quiser um pouco d’água aqui. ‘Tava andando por aí, tentando encontrar algum lugar aonde eu pudesse beber um pouco d’água. Vi uma varanda, pensei “ei, seria uma boa ideia pegar um pouco de ar fresco”, vim pra cá, e subitamente vejo a mulher que é meu braço direito se apalpando. – Em nenhum momento ele havia parado de avançar, e ao terminar sua frase Jiazz já estava bem em frente a Saber. A figura imponente do Juggernaut se estendia diante de seus olhos, um homem alto, musculoso, forte... e absolutamente lindo, da sua própria forma. Sentiu-se engolindo em seco diante dele. – Mas você não respondeu minha pergunta. O que tu tá fazendo?

Pensou que poderia pensar em uma resposta boa o suficiente no tempo que havia comprado com sua pergunta, mas esse não foi o caso. Desviou o olhar, olhando para o chão abaixo de si... mas cometeu o erro de não mover sua mão, e Jiazz não deixou de nota-la. Foi só quando viu o olhar do Juggernaut caindo curioso sobre ela – ou, mais especificamente, sobre o lugar aonde ela estava – que Saber se deu conta do erro que havia cometido. Foi rápida em movê-la então, mas a essa altura já era tarde demais.

– Saber – disse o Juggernaut, em uma voz bem mais séria, calma e maneirada do que a que ele normalmente usava. Normalmente, Jiazz tinha a tendência de agir mais como um garoto, de forma mais divertida, descontraída e infantil, mas sempre que ouvia aquela voz, Saber sabia que não estava lidando com o garoto, mas sim com o homem. – Erga seu rosto. Olhe nos meus olhos, por favor. – Ainda não estava nem um pouco confortável com a ideia de encarar Jiazz. Se eu fizer isso, ele vai imediatamente compreender o que está acontecendo. Se eu fizer isso, estou perdida. Mas ao mesmo tempo em que esse era o pensamento que passava por sua mente, a voz de Jiazz compelia os outros a sua vontade, e antes de muito deu por si erguendo os olhos para fitar o Juggernaut. Orbes castanhos fitaram dentro dos dela, encarando-a de uma forma séria e forte, mas ainda assim gentil e até mesmo carinhosa. Lhe encarando com um olhar que só Jiazz tinha. – Diga-me a verdade: o que aconteceu? O que lhe incomoda?

– Eu... – seus lábios moveram-se por vontade própria, mas conseguiu controla-los antes que fosse tarde demais. Tentou rapidamente pensar em alguma coisa, qualquer coisa, que pudesse dizer como desculpa para Jiazz, mas nada veio a sua mente, e o olhar de Jiazz sobre ela deixou claro que ele não iria deixa-la enrolar de novo. Fechou os olhos, suspirou em derrota, e quando voltou a abri-los disse a ele o que ele queria ouvir, ainda que envergonhada e a contragosto. – Durante a Batalha do Salão Cinzento... teve um homem, um dos meus oponentes, que disse que... bem... disse que sou uma mulher que não parece uma mulher.

O rosto de Jiazz ficou rígido ao ouvir aquilo. Ele não mudou muito, ao menos não pelo que os olhos podiam notar, mas a energia que vinha dele, a aura que ele exalava... essa mudou, essa mudou totalmente. A energia descontraída e divertida que vinha de Jiazz normalmente havia se tornado séria quando ele se tornou sério, mas agora ela se tornava agressiva, violenta, cheia de raiva e fúria.

– Quem disse isso? – Perguntou ele com uma calma falsa, as intenções que tinha escondidas apenas um palmo atrás de suas palavras. Teve de suspirar novamente ao ouvir isso.

– Um homem. Eu não vou lhe dizer o nome dele, Jiazz – conhecia o Juggernaut bem o suficiente para saber o porquê dele querer o nome do homem. Vaen havia lhe afetado e lhe ofendido com suas palavras, mas aquelas foram as palavras de um oponente que ela estava derrotando; não trazia rancor contra ele em seu coração, e não tinha vontade alguma de ver Jiazz matando-o em vingança. – Não há porquê ficar ofendido com isso, de qualquer forma. Não é como se ele estivesse mentindo, afinal de contas. Eu... eu realmente não pareço uma mulher. Eu sei disso. Eu não tenho seios, não tenho curvas, não sou bonita e tam-

Foi interrompida de forma brusca. Enquanto estava falando, imersa em seu discurso, nem notou a movimentação da mão de Jiazz, ao menos não até que essa segurasse-a pela parte de trás de sua cabeça. Tudo que pode fazer foi liberar um gritinho de susto quando o Juggernaut puxou-a subitamente para junto dele, envolvendo-a em um abraço com um braço enquanto que com sua mão ele acariciava sua cabeça de forma gentil, reconfortante.

– Não diga algo assim, Saber – sussurrou Jiazz em um tom de voz mais gentil do que tudo. – Você é uma mulher linda e maravilhosa. Qualquer um que não consiga ver isso é tolo demais para merecer a sua companhia.

Seus olhos se arregalaram ao ouvir aquilo. Jiazz... As palavras do Juggernaut haviam sido poucas, mas elas significavam tanto, tanto para ela. Fechou seus olhos, deixou que um sorriso surgisse em seu rosto, e relaxou, aproveitou o que tinha ali. Jiazz... eu lhe devo tanto, tanto. Quando ainda era uma criança, muito jovem, foi capturada por escravistas depois que esses atacaram seu vilarejo, matando todos que moravam ali. Seus pais também foram mortos, mas antes de morrerem, sabendo que sua filha seria capturada, eles lhe disseram para passar-se por um homem, dizendo que isso seria o melhor para ela. Foi exatamente o que fez. Quando pequena, seu corpo não era muito diferente do de um garoto, tanto por pura natureza quanto pelo fato de que constantemente participava junto dos outros garotos em suas brincadeiras, e no fim das contas, foi exatamente isso que permitiu que ela se passasse por um garoto. Não soube exatamente o que foi que garantiu isso – sua habilidade, sua aparência, ou pura sorte – mas de alguma forma ela conseguiu enganar os escravistas, passando por um garoto, e sendo assim, foi treinada para ser um soldado-escravo junto de outros garotos. Teve a sorte de ter um desenvolvimento demorado, o que fez com que seus seios só começassem a se desenvolver realmente por volta dos quatorze ou quinze anos, e mesmo quando isso aconteceu ela conseguiu disfarçar um pouco com faixas – na maioria das vezes treinavam usando armaduras leves, e mesmo quando treinavam sem armaduras ela apenas continuava a usar sua camisa; ninguém nunca prestou muita atenção nisso. Mas, eventualmente, tornou-se impossível disfarçar os seios, e isso mostrou um problema. Garotas em geral eram feitas de escravas de casa ou sexuais, e para isso eram necessários muitos anos de treinamento e investimento. Ela não poderia desempenhar nenhuma dessas funções, não só porque já estava consideravelmente velha para mudarem todo o seu treinamento do nada ou porquê isso representaria gastos enormes, mas também porque seu treinamento como um garoto havia lhe proporcionado músculos que não eram anda atraentes aos olhos da maioria dos homens, e todas as garotas eram vistas como tendo beleza como uma necessidade fundamental. No entanto, também não podiam vender uma garota como soldado-escravo; não só seria difícil vende-la, mesmo se conseguissem um vendedor que a quisesse, ela certamente seria bem desvalorizada. Os escravistas viram-se diante de um grande problema.

A solução deles não podia ser mais brutal. Com lâminas eles cortaram seus seios, deixando seu peito mutilado e cheio de marcas de costura – para eles, era fácil explicar essas marcas como um resultado dos treinamentos aos quais ela foi sujeitada, e aquela era uma forma simples e definitiva de lidar com o problema dos seios. Para evitar que outros sinais de feminidade fossem manifestados por seu corpo, passaram também a forçar hormônios masculinos nela, dia após dia, afim de não deixar que seu corpo se desenvolvesse propriamente como o de uma mulher. Por isso sua voz não era tão fina quanto deveria, por isso não tinha curvas, por isso não tinha seios. Toda e qualquer marca de feminidade nela que eles puderam achar, os escravistas removeram, tudo sem que Saber pudesse fazer nada para se defender. Seu próprio nome – Saber – era um nome que eles haviam lhe dado, já que ela mostrava um talento em particular com sabres. Já havia tentado lembrar-se de seu verdadeiro nome, o que seu pai e sua mãe lhe deram um dia... mas por mais que se esforçasse, não conseguia lembrar. “Saber” era tudo que era.

E foi então que eu conheci Jiazz... Lembrava-se bem desse dia. Havia sido vendida e estava apenas esperando ser entregue ao seu novo “dono” quando aquilo aconteceu. Subitamente, chamas douradas envolveram todo o campo dos escravistas, e o caos se espalhou entre as fileiras deles quando um único homem abriu seu caminho entre eles, matando todos em seu caminho. Naquele dia, Jiazz sozinho matou todos os escravistas que haviam feito de sua vida um inferno por anos e anos. Naquele dia, Jiazz libertou ela e todos os que estavam com ela, como se fosse um herói saído das suas preces. Ela, Alcatraz, Reivjak... todos foram libertados pelo Juggernaut naquele dia sem que ele pedisse nada em troca, e mais do que apenas libertá-los, ele também ajeitou suas vidas; com a ajuda de contatos que ele havia obtido com todos os seus trabalhos mercenários, Jiazz arranjou um trabalho para Saber na prisão, bem como comprou para ela uma casa – uma casa pequena, sim, mas mais do que ela teve por muitos anos. Através de ações, Jiazz estabeleceu-se para ela como não só seu salvador e herói, mas também como um homem gentil e bondoso, de coração quente. Foi por isso – por quem Jiazz é – que eu não hesitei quando ele me pediu ajuda nesse trabalho. Foi por isso... por essa personalidade dele, por essa gentileza que faz parte de sua alma... que eu me apaixonei por você, Jiazz. Sabia que nunca teria uma verdadeira chance com ele, sabia que ele só devia vê-la como uma amiga ou companheira... mas simplesmente não conseguia evitar. Amava aquele homem, amava-o com todas as forças, e aquela situação atual – parada numa varanda, abraçada com Jiazz, com sua cabeça apoiada no peito dele, sentindo o calor que emanava daquele homem – era um pedaço do paraíso para ela.

Mas então, subitamente, foi arrancada desse paraíso. De uma única vez Jiazz arremessou-a para o lado.

– J-Jiazz...? – Foi tudo que uma confusa Saber conseguiu murmurar. Jiazz só pode direcionar um rápido olhar apologético em sua direção antes de tornar a virar seu rosto para cima, no exato momento em que um raio negro vindo dos céus atingiu-lhe em cheio, criando uma explosão de luz que impulsionou-a ainda mais para longe. Quando viu que o corpo de Jiazz foi completamente consumido por essa explosão, seus olhos se arregalaram de imediato, e num único instante sentiu desespero tomar conta de si. – JIAZZ!

Aterrissou novamente no chão ainda com os olhos vidrados naquilo, incapaz de acreditar no que tinha acabado de ver. Aquele definitivamente não era um raio normal; seu poder era grande demais, ela podia sentir isso mesmo à distância, e a destruição que ele havia causado era mais do que prova o suficiente disso. Até agora a fumaça resultante da explosão erguia-se em uma cortina negra ali, impedindo-lhe de ver a situação de Jiazz, e isso só fazia deixa-la mais e mais apreensiva. Afinal, como esse raio conseguiu atingi-lo?! Deveriam ter barreiras aqui, não é?!

Foi no momento em que pensou nisso que uma risada debochada soou, atraindo sua atenção e sua ira de imediato.

– Hahahahaha! Que acha disso, Juggernaut, seu covarde! – Aquele que disse aquelas palavras era um homem de cabelos negros volumosos e esvoaçantes, em pé em meio ao ar, literalmente flutuando. Ambas as mãos dele estavam erguidas e trazia ao rosto um sorriso cruel, e se mesmo com isso restasse qualquer dúvida de que ele havia sido o responsável por aquilo, os raios negros que cercavam seu corpo servindo como algum tipo de corrente contínua de alta tensão eram o bastante para deixar tudo bem claro. – Você realmente achou que podia fugir de mim? Hein?! Tolo! Eu sou Ishir Daemon, o Deus Demoníaco do Raio Negro! Ninguém pode fugir de mim, principalmente você!

Sentiu seus olhos se afiarem no momento em que ouviu aquelas palavras, caindo fixamente sobre aquele homem, consumidos pelo ódio. Seu miserável... seu maldito miserável! Acha que vou deixar que faça algo assim?! Não permitiria que ninguém insultasse Jiazz diante de seus olhos, principalmente não alguém como aquele monstro. Sua mão fechou-se rapidamente ao redor da empunhadura de sua espada, e num movimento mais rápido que um piscar de olhos Saber desnudou aço puro ao mundo. Fazer isso atraiu a atenção daquele homem para ela, mas não podia se importar menos com isso; envolveu sua lâmina com sua mão livre, e sem hesitação cortou-a de forma a deixar que o sangue fluísse para sua arma, embebedando sua lâmina de vermelho. Um golpe. É tudo que preciso para mata-lo. Mas um golpe não seria o bastante para ela. Um golpe iria dar uma morte rápida demais a esse homem. Vou usar um golpe para paralisá-lo, e depois irei fazer com que ele se arrependa desse dia!

Mas não teve a chance de fazer o que queria. Antes que pudesse seguir com a investida que tinha planejada contra seu oponente, algo aconteceu que fez com que parasse seus movimentos.

Vindo de trás dela, dezenas de correntes de ferro avançaram com velocidade o suficiente para fazer um som afiado, como se estivessem cortando o próprio ar. Todas avançavam em sincronia e unidas uma com as outras, assumindo uma forma que se assemelhava a um tridente gigante cinzento de ferro. No momento em que viu aquilo, Saber compreendeu imediatamente quem era o responsável por esse ataque.

Grande Tridente do Deus do Ferro! – Gritou a voz de ninguém menos do que Reivjak. Virou rapidamente sua cabeça para trás e viu seu velho amigo há cerca de dez metros atrás dela, as mangas de suas vestes completamente arrebentadas pela força e a velocidade com a qual suas correntes avançavam contra o alvo, as infinitas correntes de ferro que ele usava cobrindo seus braços e torso como se fossem uma armadura cinzenta. A expressão cansada e preguiçosa que ele normalmente mantinha no rosto havia desaparecido por completo, dando espaço a uma feição compenetrada e mortalmente séria.

– Oi, oi, é sério isso? – Disse o homem flutuante por sua vez, vendo a grande lança se aproximar sem demonstrar medo ou apreensão alguma com aquilo. – As pessoas devem ter perdido o respeito com o passar dos anos. Acha mesmo que algo assim representa perigo pra mim?

Aquele comentário atraiu novamente a atenção de Saber para ele, fazendo com que ela virasse seu rosto uma vez mais em sua direção... bem a tempo de ver o tridente de Reivjak ser completamente destruído por violentos raios negros que vieram da mão direita do homem. Sabia que as correntes de Reivjak eram muitas vezes mais resistentes do que qualquer ferro normal, revestidas por magias do guerreiro, mas isso não impediu que dezenas de pedaços de correntes destroçadas caíssem ao chão, quebradas facilmente pelo poder dos raios do homem... por exceção de uma única corrente. Uma única corrente escapou daquele ataque, sendo apanhada pelas mãos do homem ao invés de destruída com as outras, e assim que isso aconteceu, o homem mostrou um terrível sorriso maldoso. De uma só vez os vários raios negros que corriam ao redor de seu corpo se concentraram em sua mão, sendo prontamente transmitidos pela corrente, e quase que de imediato ouviu gritos de dor vindos de Reivjak. Não! Voltou seu rosto para seu amigo para ver o corpo dele tremendo e vacilando enquanto raios negros percorriam cada centímetro dele, chocando-o com uma força tão grande que conseguia ver seus ossos por baixo da carne e das vestes, fazendo com que fumaça saísse dele. Droga! Se isso continuar, Reivjak vai morrer! Queria avançar contra o inimigo, mata-lo de uma vez, mas não podia deixar seu amigo morrer daquela forma diante de seus olhos. Ergueu sua espada acima de sua cabeça com ambas e mãos e saltou, preparada para cortar a corrente com um bom golpe rápido...

Mas antes que tivesse a chance de fazer isso também, o que parecia ser uma espada de energia púrpura passou pela corrente, e essa foi prontamente cortada em duas de forma perfeita, cada uma das suas metades caindo ao chão com uma pequena barreira na parte cortada, como se tivessem sido seladas. Essa habilidade... esse é...

Uma vez que os choques pararam, o corpo de Reivjak vacilou e este quase caiu, mas antes que ele fosse até o chão Alcatraz surgiu ao seu lado, usando seu próprio corpo como suporte para seu amigo.

– Alcatraz! – Sabia que disser o nome dele daquela forma deveria parecer bem idiota, mas não podia conter-se. Apesar de toda a situação, não podia deixar de sentir-se aliviada em ter seus dois amigos ali, do seu lado. – O que você e Reivjak estão fazendo aqui?

O Aprisionador ergueu seu rosto para fitar Saber, um sorriso amarelo em seus lábios.

– Bem... nós estávamos vendo você e o líder juntos, sabe? Vocês são bonitinhos quando estão juntos dessa forma. – Contra a sua vontade, sentiu-se corar um pouco ao ouvir aquilo. Então, estávamos sendo observados? Mas como eu não notei que eles estavam per– ah, espera. Distração. – Mas então chegou esse cara, e... bem. Digamos que as coisas não ficaram tão legais depois disso.

Seus olhos tornaram a se afiar ao ouvir aquilo. Voltou prontamente seu olhar para o inimigo, movendo novamente sua espada e apontando-a na direção dele. O homem estava no ar no mesmo lugar aonde estava antes; a essa altura ele já havia soltado a corrente de Reivjak e se limitava a fitar os três sem muito interesse, uma expressão esnobe em seu rosto enquanto mantinha ambos as mãos no bolso. Maldito seja... ele é forte, mas eu serei maldita antes de deixá-lo impune depois disso tudo. Atacar Jiazz, ferir Reivjak... eu definitivamente não irei perdoá-lo por isso. Dobrou suas pernas, travou seus olhos sobre seu oponente, e sem pensar duas vezes avan-

PAREM COM ISSO, TODOS VOCÊS! – Trovoou uma voz forte e grossa, fazendo com que todos os movimentos de Saber parassem instantaneamente. Essa voz... Sentiu sua garganta travada ao ouvi-la, bem como sentiu suas mãos tremerem. Seus olhos voltaram para o centro daquela varanda, tal como fizeram os de todos os outros ali, para fitarem a figura em pé naquele lugar. – Esse homem é Ishir, o Deus Demoníaco do Raio Negro. Vocês três são fortes, mas eu sou o único aqui capaz de derrotar alguém como ele. Não é, Ishir?

A fumaça que antes lhe cobria havia desaparecido, revelando Jiazz o Juggernaut. Seu braço direito estava um pouco queimado – aparentemente tendo sido o que ele usou para parar o ataque de Ishir – mas fora isso ele estava completamente ileso, e as chamas douradas que surgiram ao redor desse braço logo serviram para curá-lo como se nada tivesse acontecido. Um sorriso animalesco estava expresso em seu rosto, seus dentes brancos afiados e a mostra, e os próprios olhos e feições gerais de Jiazz haviam ganhado um tom selvagem e primitivo. Ele encarava Ishir diretamente com animação, enquanto que a expressão esnobe do que ele havia chamado de “Deus Demoníaco” havia desaparecido, dando lugar a uma expressão de aborrecimento.

– Juggernaut... – murmurou ele, cuspindo o título como se fosse uma praga. – Tch. Você é como uma barata. Não morre, por mais que eu pise em você.

– Ah, vamos lá, não fale como se isso lhe irritasse – debochou Jiazz, falando como se estivesse conversando com um velho amigo. – Você não lutaria tantas vezes comigo se não gostasse dessa minha teimosia em não morrer. Além do mais, isso dificilmente foi “pisar em mim”. Pra ser sincero, eu classificaria esse seu raio mais como um “tapinha carinhoso” do que tudo.

– Ah, é? – Questionou Ishir, um tom mais ameaçador juntando-se a sua voz no momento em que ele disse isso. Retirou sua mão do bolso e ergueu-a alto, raios negros correndo por todo seu braço. – Então você não se importaria se eu mandasse mais alguns “tapinhas” contra você, não é?

– Nem de longe – disse Jiazz, sorridente, abrindo seus braços lentamente enquanto falava, para que de uma única vez chamas douradas surgissem em ambos os braços, envolvendo-os completamente. – Só mantenha em mente que eu revido os tapas, e você sabe que a minha mão é bem mais pesada que a sua. Brinque de tapinha comigo e você sai daqui com a cara inchada, Pequeno Deus.

Aquilo claramente irritou Ishir. Raios negros fluíram do homem de uma vez, tão fortes, súbitos e furiosos que chegavam a parecer uma tempestade de relâmpagos concentrada, e em resposta a isso, chamas douradas vieram de Jiazz com uma intensidade muito maior, consumindo tudo ao redor dele. Im-Impressionante! Era forte e estava distante deles, mas mesmo assim conseguia sentir a força do encontro das chamas com os raios; o poder que vinha dali era tão monstruoso que ameaçava lança-la pelos ares, e a própria varanda na qual eles estavam estava se desfazendo diante daquela demonstração como se fosse feita de papelão.

E então, tão súbito quanto começou, tudo parou, e toda a situação voltou a ser nada mais do que uma disputa de olhares entre Jiazz e Ishir.

– Vamos mudar de lugar. – Disse subitamente o Juggernaut, fazendo com que o outro erguesse uma sobrancelha.

– Hein? – Murmurou ele, sem entender. – Por quê?

– Porque nossas lutas sempre são destrutivas, e não quero destruir esse lugar – respondeu Jiazz, sem nunca deixar de sorrir. – É pra isso que você veio, não é? Acertar o placar. Se não me engano, está 17 a 16, certo?

– 17 a 16? – As palavras escaparam de seus lábios antes que pudesse tentar contê-las. Viu os olhos de Jiazz moverem-se rapidamente em sua direção e o sorriso nos lábios dele crescer um pouco mais, ao mesmo tempo em que Ishir grunhia em aborrecimento.

– A relação das nossas lutas. – Disse Jiazz, simplesmente. – Eu enfrentei esse cara 33 vezes, no total. Dessas 33 batalhas, eu ganhei 17, enquanto ele ganhou 16. Ishir é um mal perdedor, então chuto que ele está aqui pra dar um jeito nesse placar. Não é, Ishir?

– Calado, verme insolente! – Exclamou o Deus Demoníaco, claramente irritado. Aparentemente, ouvir alguém mencionando uma suposta inferioridade dele parecia ser o suficiente para fazer com que toda a panca e arrogância do homem caíssem para revelar uma figura frustrada e irritadiça, com um ego bem sensível. Ele é como uma criança, refletiu Saber. Uma criança bem mimada. – Quem você acha que é para falar assim? Quem você pensa ser pra falar assim de mim?! EU SOU ISHIR, DEUS DEMONÍACO DO RAIO NEGRO! Você fala como se fosse superior a mim, Juggernaut, mas você é apenas um humano, pouco mais do que um macaco supercrescidos! Eu vou esmagar-lhe em batalha com os meus raios, e depois irei destruir o seu corpo até que não sobre nada mais do que o pó!

– Ei, ei, calma, tempo, você não pode fazer algo assim – protestou Jiazz. – Mesmo se você me derrotar aqui, o placar será apenas 17 a 17, ou seja, igualado. E se você me matar assim, o placar será eternamente igualado, o que significa que estaremos sempre no mesmo pé. Você não quer isso, quer?

– ... MUITO BEM! Nesse caso, eu vou lhe esmagar em batalha com os meus raios, esperar cinco minutos, esmaga-lo em batalha de novo, e depois irei destruir o seu corpo até que não sobre nada mais do que o pó!

– ... Sabe, eu tenho a impressão de que isso não é muito justo – reclamou calmamente Jiazz, cruzando os braços. – Na verdade, pra ser sincero, isso não é lá algo que faz com que você pareça um cara legal, Ishir.

EU SOU A PORRA DUM DEUS DEMONÍACO DO RAIO NEGRO! – Exclamou Ishir em fúria, seus olhos arregalados, veias visíveis por todo o seu rosto. A fúria e frustração de um homem tão poderoso quanto ele deveriam ser assustadoras na maioria das situações, mais ali, daquela forma, direcionadas a alguém que simplesmente não dava a mínima pra isso como Jiazz, elas não conseguiam ser nada mais do que divertidas. – EU SAIO POR AÍ DESTRUINDO O QUE EU QUERO, MATANDO QUEM ME DER NA TELHA! EU LITERALMENTE TENHO SANGUE DIVINO E DEMONÍACO CORRENDO EM MINHAS VEIAS! EU NÃO SOU UM "CARA LEGAL", SEU GORILA SUPERCRESCIDO RETARDADO DE MERDA!

– Tá, tá, já entendi... cara, você realmente deveria se acalmar, todo esse estresse não pode fazer bem pra sua saúde – comentou o Juggernaut de forma relaxada, coçando a parte de trás de sua cabeça com uma das mãos enquanto estalava o pescoço. Seu rosto virou-se preguiçosamente para Saber e os outros, fitando-os com uma calma anormal. – Saber, posso ficar longe por um tempo, então cuide das coisas por aqui pra mim, beleza? Volto assim que puder.

– Mas... o quê? Como? – As palavras tropeçaram por sua língua sem que conseguisse controla-las. Pior de tudo, não tinha tempo para isso. – E-Espera, Jiazz! Você... você realmente tem de fazer isso? Quero dizer... você mesmo disse que esse cara te derrotou 16 vezes. 16. Vezes! Não deveríamos ir com você? Isso pode ser perigoso...

Tudo o que o Juggernaut fez ao ouvir isso foi abrir um fino sorriso em seu rosto.

– Perigoso? Há! O perigo é amigo íntimo meu, Saber, não preocupe-se com isso. – Voltou novamente seu rosto para Ishir, fitando firmemente seu oponente, mas mesmo assim, as palavras que seguiram vieram para Saber. – Eu sou Jiazz, o Juggernaut! Não importa quem seja o oponente, lembre-se de uma coisa, Saber; eu não vou perder.

A expressão de Ishir tornou-se ainda mais irritada ao ouvir aquilo, mas Jiazz não deu tempo para mais reclamações. Antes que qualquer um pudesse dizer mais alguma coisa, ele dobrou rapidamente suas pernas, exercendo uma pressão tão grande sobre a varanda que rachaduras profundas surgiram de imediato sobre uma boa parte dela. Tão forte! O que ele pretend... Nem teve tempo de concluir seu pensamento antes que Jiazz saltasse de uma única vez em uma velocidade absurda, e no momento em que ele fez isso, toda uma seção da varanda se quebrou. Uma cortina de poeira subiu ao mesmo tempo em que destroços caíram ao chão, cobrindo a visão de Saber e dos outros de tudo que acontecia ali.

Quando essa poeira finalmente se pôs, tanto Jiazz quanto Ishir já haviam desaparecido.





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