O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 43
O Lendário Super Esquadrão Especial de Elite: S.O.M.B.R.A.


Notas iniciais do capítulo

Sim, sim, sim, SIM! Eu cheguei, eu estou aqui, e com minhas palavras eu vou te encantar! O mais esperto, o mais bonito, o grande maioral, o melhor que há! Com a inteligência de um macaco e a força de um louva-a-deus! Sim, sim, sim, SIM! Esse sou eu, o Extraordinário Autor Dessa História, IGOR LUCAS!



O PUNHO DE HOZAR moveu-se com tanta força que a mera pressão que ele exerceu sobre o ar foi o suficiente para quebrar uma árvore em duas como se ela fosse de vidro. Mas por mais fortes que fossem seus ataques, eles não faziam nada se não acertassem seu oponente. Com um sorriso no rosto Mefisto se abaixou, evitando facilmente o de Hozar e colocando-se em posição ideal para contra-atacar. Seu punho disparou contra o estômago do cinzento com uma velocidade tão grande que sua movimentação pareceu até ser instantânea, quebrando a armadura do cavaleiro e acertando-o com tanta força que Hozar viu-se forçado a parar seus movimentos por um instante, sangue escorrendo de seus lábios. Essa força... essa velocidade... isso é tudo absurdo demais. E o pior de tudo é que sabia que aquele não era o poder total daquela criatura; quando ele havia lhe... “matado” antes, Hozar havia sentido uma força muito maior do que aquela. Ele não está lutando a sério aqui, e ainda assim ele está me pressionando tanto assim. Eu nem sei se ele estava lutando a sério antes, e mesmo assim ele me matou facilmente. Afinal... quão poderoso esse maldito é?! Tentou ainda reagir; moveu seu outro punho contra Mefisto em um gancho, e quase que um sorriso de satisfação surgiu em seu rosto quando viu seu golpe colidir em cheio com o queixo de seu oponente... mas qualquer alegria que pudesse sentir com isso foi perdida de imediato quando viu que seu ataque não havia surtido efeito algum sobre o demônio. Antes que pudesse manifestar qualquer outra reação a perna de Mefisto moveu-se rapidamente, acertando um poderoso chute na lateral do rosto do cinzento e arremessando-o para o lado com uma força terrível.

Quicou no chão com violência, rolando, só parando quando suas costas explodiram com violência em uma árvore próxima, partindo essa ao meio e deixando que seu corpo machucado e exausto caísse no chão. Sentia o gosto de ferro em sua boca e cuspiu sangue no chão enquanto tentava se erguer novamente. Dois golpes. Ele me acertou dois golpes. Era forte, sabia bem disso. Estava acostumado com lutas, estava acostumado a apanhar. Mas mesmo assim, esses dois golpes faziam com que ele se sentisse como se tivesse acabado de levar a pior surra da sua vida. Maldito seja, demônio... eu vou rasga-lo em pedaços. Custe o que custar, irei rasga-lo em pedaços com minhas próprias mãos.

– Hozar Royes, filho de Azel Royes, conhecido como “Deus da Fúria”... você é um poço sem fundo de decepção, hm? – contemplou Mefisto em tom pensativo, brincando com Hozar de onde estava, sem o menor medo de qualquer ameaça que o cinzento pudesse estabelecer contra ele. – Eu esperava mais de você, Hozar. Muito mais. Principalmente considerando que você é o que chamam de “braço direito” de Kastor, um dos líderes da nova queridinha da mídia, a Era Dourada. E temos também que levar em conta a questão de seu pai! Um cavaleiro lendário, poderoso e temido, mais forte sozinho do que Odin, Gwynevere e Ezequiel juntos! Os genes dele deveriam ser mais do que o bastante para fazer de você um verdadeiro monstro em matéria de força! ... Mas, aparentemente, esse não é o caso. Desapontante. Apesar de que, creio que não devo ficar tão surpreso com isso. Mesmo bons genes podem ser corrompidos por sangue-ruim, não é?

Ouvir aquelas palavras fez com que todo o modo de agir de Hozar se modificasse imediatamente. Uma de suas mãos estava aberta, sendo usada como apoio para que ele tentasse se levantar, mas ela imediatamente se fechou em um punho com aquilo. Seus olhos brilharam em um vermelho vivo e forte, voltando-se para Mefisto com uma fúria que mal conseguia controlar. Chamas surgiram ao redor de seus braços, cercando e formando as suas costas o vulto do que parecia ser um cão demoníaco de três cabeças, ao mesmo tempo em que a pele de seu rosto começava a se abrir conforme sua boca começava a assumir a mesma feição monstruosa que ela assumiu durante sua luta contra a dama de ferro.

– Olhe as suas palavras – advertiu Hozar, sua voz tão grossa e furiosa que mal podia ser compreendida, soando tão poderosa quanto a que se esperaria de uma besta gigante. – Continue nesse caminho, demônio, e nada nesse mundo vai lhe salvar. Me irrite, e eu irei destruí-lo!

Mefisto só fez sorrir sarcasticamente ao ouvir aquilo, divertido com a irritação de Hozar. Fez gestos zombeteiros como se estivesse assustado antes de voltar a sorrir de forma arrogante. Seus braços se abriram, exibindo seu peito para Hozar como se estivesse se oferecendo para receber os golpes do cinzento. Ver aquilo fez com que os dentes do cavaleiro rangessem uns outros; a cada segundo que passava ele sentia sua fúria se tornar cada vez maior, fazendo com que ficasse cada vez mais difícil para Hozar se controlar e não avançar direto contra seu inimigo. Eu juro, aliado ou não, eu irei matar esse bastardo assim que eu tiver a chance!

– Parece que sua família é um tópico bem sensível para você, Hozar. Me pergunto: isso vem da sua mãe ou de seu pai? – questionou Mefisto em um tom de voz carregado de malícia, caminhando passo a passo em direção a Hozar. Os músculos do cinzento tremiam, cada fibra de seu corpo querendo investir contra o demônio, sendo que o pouco de racionalidade que lhe restava era a única coisa que lhe segurava. – Eu, particularmente, chuto que seja a sua mãe. Quero dizer, Azel provavelmente não foi um bom pai; ele nunca quis ter nada com você e abandonou o Salão alguns meses antes do seu nascimento para nunca mais voltar, então ele seria no mínimo um pai ausente... mas creio que um pai ausente ainda consegue ser bem melhor do que uma mãe que é, no fim das contas, nada mais do que uma prostituta barata, não concorda?

Suas pernas flexionaram-se rapidamente. Em um instante Hozar saltou em direção ao seu oponente, movendo um punho fechado revestido por chamas ardentes contra o rosto dele com todas as suas forças. Seu soco acertou Mefisto em cheio bem no meio da cara, criando uma onda de impacto tão poderosa que as árvores ao redor dos dois balançaram devido a força do golpe... mas isso não foi o suficiente. Mefisto recebeu seu golpe em cheio com toda a força que Hozar conseguia manifestar, mas isso não foi o suficiente para fazer com que o demônio se movesse um centímetro sequer. Os olhos de Hozar se arregalaram diante disso, fitando seu inimigo sem poder acreditar no que via. Havia investido toda a sua força naquele golpe, e mesmo isso ainda não significava nada para Mefisto.

Sentiu um punho acertar seu peitoral esquerdo, quase que ao mesmo tempo em que outro punho acertava o lado direito de seu estômago. Uma fração de segundos depois sentiu outro punho acertar-lhe novamente no lado esquerdo de seu peitoral, apenas um pouquinho acima do ponto anterior, seguido prontamente por um golpe no peitoral esquerdo, que por sua vez foi sucedido por um soco direto na boca de seu estômago. Os braços do demônio moviam-se tão rapidamente que para ele eles não eram nada mais do que vultos movendo-se a uma velocidade absurda, e cada um dos golpes que Mefisto lançava lhe atingia com tanta força e tão rapidamente que a dor deles ia se misturando, a sensação ia tornando-se uma só, como se um punho gigante estivesse atingindo seu corpo. Sua armadura se estraçalhou em pedaços, seus ossos quebraram-se dentro de seu peito, seu sangue subiu a sua boca em quantias tão grandes que escapou de seus lábios, empopando toda a parte inferior do rosto de Hozar no viscoso líquido vermelho.

O assalto de Mefisto durou exatos seis segundos. Nesses seis segundos, a mente de Hozar foi capaz de registrar que seu corpo recebeu seiscentos e sessenta e seis golpes, sendo que apenas o último desses lançou o cavaleiro longe, para dar fim a sequência.

Seu corpo foi lançado pelos ares como se fosse um saco de lixo. Antes, apesar da força de seu inimigo, a colisão com uma árvore havia sido o bastante para deter seu corpo, mas não teve a mesma sorte dessa vez; quebrou uma árvore, e depois outra, e outra. Enquanto da primeira vez havia parado com uma colisão, dessa vez o que lhe parou foi a queda de meia dúzia de árvores sobre sua cabeça.

Mas isso não foi o pior de tudo. Depois de todos aqueles golpes, seu corpo estava imensamente dolorido, ao ponto de que respirar era difícil para Hozar, mas não era esse o maior dos problemas que enfrentava.

Dentre tudo ali, o que realmente lhe atormentava era o fato de que não tinha vontade nenhuma de voltar a se erguer. Miserável... maldito seja... como eu devo derrota-lo? Sentia-se furioso, sentia-se irado, sentia vontade de esmagar o crânio daquele demônio arrogante com suas mãos... mas ao mesmo tempo, sabia que não iria conseguir fazer isso independente do quanto tentasse. Simplesmente não tinha a força necessária para fazer algo assim. Esse monstro... ele levou um soco meu em cheio sem sofrer nada. Talvez eu pudesse usar o Braço Infernal para tentar aumentar o meu poder de ataque o suficiente para fazer algum dano nele, mas do que adiantaria? Se eu conseguisse fazer algum dano, esse seria pequeno demais, e eu estaria gastando muita energia muito rapidamente com isso. Não fazia sentido... não importa o quanto pensasse nisso, não fazia sentido continuar a lutar. Eu não tenho como derrota-lo.

– Eu posso estar errado, Hozar, mas pelo que me lembro, sua mãe era bem abusiva para com você, correto? – questionou a voz de Mefisto em tom divertido. Com as árvores sobre ele e seus olhos virados para cima, Hozar não conseguia ver o demônio, mas ouvia os passos dele, e isso era o suficiente para que soubesse que ele estava se aproximando, passo após passo. – Ouvi alguns rumores sobre ela... sobre como ela te batia quando não arranjava clientes e era forçada a cuidar de você. Ouvi sobre como ela não lhe deixava dormir de noite com os sons de sexo quando ela voltava pra casa com um cliente ou um namorado, tal como ouvi sobre como ela te jogava pra fora de casa em noites frias e escuras quando seu parceiro não queria você ali. Ouvi sobre como ela se recusava a te alimentar, como por vezes ela lhe batia quando você tentava fazer sua própria comida e sobre como ela as vezes lhe forçava a cozinhar para ela e os homens que lhe acompanhavam. Deve ter sido difícil viver assim, não? Isso é realmente sensibilizante. Não é a toa que um cavaleiro eventualmente veio e lhe tirou daquela casa, tomando-o daquela mulher e criando-o como um filho. – sentiu peso e pressão em cima de si, e um momento depois o rosto de Mefisto surgiu em seu campo de visão, olhos vermelhos olhando diretamente dentro dos de Hozar, um sorriso maldoso nos lábios do demônio. – Só é uma pena que quem fez isso foi um fracassado como Odin.

Sua reação foi instantânea. As árvores que antes pressionavam seu corpo contra o chão e lhe impediam de se mover foram arremessadas para cima facilmente pela força com a qual se ergueu, forçando o próprio Mefisto a ir para o ar também. Em um instante o Braço Infernal manifestou-se tanto no braço direito quanto no esquerdo de Hozar, e sem pensar duas vezes o cinzento avançou contra o demônio. Sua mão direita fechou-se em um punho, e soco furioso acertou em cheio o rosto do demônio, dez vezes mais forte do que seu soco anterior.

O corpo de Mefisto foi arremessado longe pelo impacto do seu golpe, quicando no chão com tanta força e violência que grandes blocos de pedra foram arrancados pelo seu impacto. O corpo dele girou no ar, fumaça saindo de seu rosto; no mero instante em que havia colidido contra seu oponente, o punho de Hozar havia conseguido queimar a carne e sangue da área atingida, abrindo um grande rombo em parte do rosto de Mefisto.

Mas isso não era o suficiente para Hozar.

Com uma velocidade que faria inveja a Kastor o Cavaleiro Cinzento avançou com tudo contra o demônio, alcançando-o enquanto ele ainda estava no ar com seu Braço Infernal. Segurou a cabeça do demônio com toda a sua força enquanto ele ainda estava no ar, ouvindo os sons e sentindo o cheiro da carne desse queimando em contato com o calor da sua mão, e sem um pingo de misericórdia ele bateu a cabeça do demônio no chão com toda a sua força. Pressionou-a com violência, tentando esmaga-la em mil pedaços, mas não demorou a compreender que não ia ter sucesso com isso.

Não perdeu tempo em mudar sua estratégia.

As chamas concentradas em seu braço para formarem o Braço Infernal foram liberadas de uma só vez, queimando absolutamente tudo em seu caminho. Toda a área ao redor de Hozar em um raio de mais de vinte metros foi envolvida pelo vermelho ardente em um instante, as árvores e pedras nessa área sendo imediatamente queimadas até o pó pela força das chamas. Um pilar rubro gigantesco ergueu-se até os céus, abrindo as nuvens e alcançando o sol. Por um momento – um único momento – todos os homens e mulheres nas Terras Velhas puderam ver o pilar de fogo criado pela fúria de Hozar Royes.

Foi desse pilar de fogo que emergiu Mefisto.

O demônio saiu dele com um salto, seu corpo uma ruína, uma sombra deformada do que ele antes era. Cerca de oitenta por cento de seu rosto havia sido carbonizado e derretido pelas chamas de Hozar; tudo que se via do lado esquerdo de seu rosto eram ossos brancos cobertos por carne queimada e derretida, e mesmo do lado direito a metade inferior do rosto de Mefisto havia simplesmente desaparecido e seu olho direito já não existia mais, uma poça de pus sendo tudo o que restava em seu lugar. As roupas do demônio também haviam desaparecido completamente, totalmente destruídas pelas chamas de Hozar, e isso exibia o corpo dele, queimado ao ponto de se tornar negro, parecendo mais feito de carvão do que qualquer outra coisa. Um olhar para a situação daquele demônio seria o suficiente para gelar a alma do mais duro guerreiro, fazer com que o terror daquilo causasse pesadelos por décadas a vir... mas mesmo assim, de alguma forma, o demônio estava vivo, e por sua postura, ele parecia estar olhando para Hozar.

E então, num instante, o demônio voltou ao normal. Ele nem chegou a se regenerar; seu corpo e suas roupas simplesmente voltaram ao normal de uma vez como se nada nunca tivesse acontecido. Os olhos do demônio caíram instantaneamente sobre a figura que emergia do pilar de chamas, como um homem saído do inferno. Os olhos de Hozar estavam inteiramente brancos, sua boca aberta como a de um animal selvagem, seus caninos parecendo tão avantajados que era fácil acreditar que eles poderiam até mesmo quebrar rochas. Veias se encontravam visíveis por todo o seu rosto, e a cada respiração de Hozar, o que saia de sua boca não era ar, mas sim puras chamas vermelhas, quentes o suficiente para derreter aço. E não era só isso; a armadura de Hozar havia sido quebrada com os ataques anteriores de Mefisto, e isso permitia que o demônio visse o peito nu do guerreiro... que estava coberto por dezenas de marcas estranhas naquele momento, quase que tribais, cada uma delas de um vermelho tão vivo quanto as chamas que vinham de Hozar. De cada lado do cinzento, seus braços vermelhos brilhavam com as chamas concentradas dentro deles, e pelo que podia ver, isso não era tudo; a cada passo que ele dava, Hozar afundava um pouco, simplesmente porque seus pés estavam derretendo o solo abaixo dele cada vez mais.

Quando viu aquilo, Mefisto não pode impedir que um fino sorriso de satisfação viesse ao seu rosto.

– Isso mesmo – sussurrou o demônio para si mesmo, fechando sua mão direita em um punho. Com a ajuda das Artes Demoníacas, fez com que o sangue fluísse para sua mão e endurecesse ali, revestindo-a e fazendo com que ela assumisse uma coloração rubra. – Mostre seu verdadeiro poder, Hozar Royes.

=====

– Você está certo disso, Shell? – questionou o homem que era conhecido pelo título de “Grande Panda”, o mais poderoso mago do mundo. Um verdadeiro gigante, Panda era simplesmente enorme; enquanto no mundo haviam pessoas extremamente altas, com mais de dois metros de altura, Panda tinha exatamente três metros e setenta e oito centímetros de altura, deixando-o seguramente afrente de outras pessoas nesse quesito. E tal como ele era grande para cima, ele também era grande pros lados. Se fossem perguntar para ele, Panda provavelmente responderia dizendo que ele tinha ossos grandes, mas a verdade é que o fato dele comer bastante e passar a maior parte do dia sentado atrás de uma mesa havia feito com que ele se tornasse bem gordo. Isso, no entanto, não era algo que preocupava o líder do Colégio Branco. De certa forma, ele até gosta do fato de ser gordo assim. Para um mago, o estado físico não influenciava muito em sua capacidade de batalha, mas mesmo assim muitas pessoas caiam no erro de pensar o contrário, e o Grande Panda tirava vantagem desse conceito pré-existente. – Pelo que você disse em sua mensagem anterior, esse tal de Kastor parece ser bem perigoso, e considerando o que você estava dizendo nela, imagino que haja ao menos algumas dúvidas no que diz respeito ao caráter dele. Pela lógica, o melhor que poderíamos fazer seria nos apressar e dar um fim nele antes que algo aconteça, não?

– Não, não, isso não vai ser necessário – retrucou Shell, abanando sua mão a frente de si como que para afastar as considerações do Panda. Os olhos do grande mago, cada um deles cercado por uma coloração preta em pele branca que fazia com que seu dono parecesse o animal pelo qual era nomeado, se apertaram em suspeita ao ouvir isso. – Veja bem, quando eu escrevi a mensagem pra você, eu ainda não estava certo do tipo de homem que era Kastor, ainda tinha coisas a verificar. Mas o que eu tinha de descobrir eu já descobri, e estou bem satisfeito com as informações que tenho agora. Kastor não representa uma ameaça, Panda. Eu garanto isso.

Pela feição no rosto de seu mestre, soube que ele não estava totalmente seguro daquilo. Viu o holograma dele recuar em sua cadeira, afastando-se um pouco mais da imagem de Shell como que para olhar melhor para o Inquisidor. Apesar de ser chamado de “Panda”, ele não se assemelhava tanto ao animal se não por algumas pequenas questões da sua aparência. Em personalidade, por exemplo, ele era completamente diferente. Enquanto pandas eram famosos por serem dóceis, pacíficos e fofinhos, o Grande Panda era o contrário de tudo isso. Seu rosto era carrancudo, sempre mortalmente sério, com um queixo duro e rígidos olhos maus. E ele certamente não era dócil ou pacífico; não era um carrasco que mataria qualquer um, mas Grande Panda não hesitava em punir aqueles que iam contra as regras e direções do Colégio Branco, e ele era completamente desprovido de qualquer tipo de misericórdia quando diante de seus inimigos. O Grande Panda definitivamente não era alguém eu você queria irritar... mas pelo que Shell estava vendo, irritá-lo seria exatamente o que teria de fazer para livrar Kastor e os outros do Colégio. Droga... sabe, as vezes eu gostaria de não ter códigos morais. As coisas seriam tão mais fáceis assim.

– O que exatamente esse Kastor fez para que você se assegurasse tanto assim de que ele não é um perigo? – questionou subitamente o Grande Panda, surpreendendo Shell tanto com essa pergunta que o mago do gelo quase saltou ao ouvi-la.

O que exatamente Kastor fez para que eu não o considerasse um perigo? Hmm... essa é uma pergunta mais complicada do que parece. Precisava dar uma resposta a ela, e uma resposta satisfatória. Em geral, nós, Inquisidores, trabalhamos independentemente do Colégio em si, o que significa que possuímos a autonomia de tomar nossas próprias decisões, mas ainda estamos sujeitos ao Colégio. O que decidimos geralmente é definitivo simplesmente porquê o Grande Panda não vê motivos para ir contra isso, mas se ele quiser ir contra nós, ou mais especificamente, contra mim... bom, aí eu terei alguns problemas. Isso dito... também não era como se pudesse mentir para seu líder ou fazer algo do tipo. O Grande Panda é um líder sábio, poderoso, e bem experiente. Ele vai saber reconhecer quase que de imediato caso eu tente lhe enganar. E além do mais, mentir para ele depois de tudo que ele fez no passado por mim e por meu irmão... isso seria baixo da minha parte, muito baixo.

Francamente, não sabia se isso seria uma resposta satisfatória para ele, mas a sua melhor opção era dizer a verdade.

– Ele não me fez mal – respondeu Shell, olhando firmemente para seu mestre e líder. – Eu o confrontei hoje mais cedo em relação ao que eu sabia sobre ele e ao que eu fiz. Fiz isso com a intenção de ver qual seria o caráter dele; se ele tentasse me matar ou me silenciar a força de alguma outra forma, então eu saberia que a personalidade e o caráter de Kastor fazem dele um perigo para a sociedade. Mas ele não fez anda contra mim, mesmo quando seus companheiros queriam me atacar, e isso indicou exatamente o contrário; ele não é uma ameaça para o mundo, ao menos não no momento.

– Ele sempre vai ser uma ameaça ao mundo, ao menos enquanto ele continuar a ter um maldito demônio lendário dentro dele – apontou o Grande Panda, franzindo as grossas sobrancelhas negras sobre seus olhos. Não respondeu nada a isso, até porquê, o que ele dizia não era exatamente uma mentira. – Eu entendo o que você quer dizer, Shell, mas você também deve entender que as coisas não são assim tão simples. Você está afirmando que Kastor não é um perigo devido a reação que ele teve, mas há muito mais a se considerar do que só isso. Por exemplo, você já considerou que ele pode ter feito aquilo justamente porque ele, ou talvez Coração Azul, tenha notado as suas intenções e então reagido da forma como reagiu justamente para lhe agradar. Ou talvez, sendo um pouco mais otimista e partindo do pressuposto de que ele não tenha tentado lhe manipular com isso, devamos levar em consideração o fato de que, tal como você mencionou, ele não é uma ameaça no momento. Nada garante que Kastor manterá esse autocontrole, nada garante que ele não será corrompido. Pelo que consigo entender de você e do que pensa sobre ele, eu não diria exatamente que ele é alguém com um firmamento moral sólido o suficiente para que assumíssemos que ele se manterá firme em sua posição para sempre, e acredite, ter algo ou alguém dentro da sua mente sussurrando sugestões venenosas pra você dia e noite não é algo fácil de se ignorar.

Pontos válidos, esses. Sentiu seu cenho franzir-se um pouco ao ouvir aquilo; aquelas palavras não haviam sido o suficiente para mudar sua opinião ou sua ideia de ação, mas não podia negar que havia um bom sentido no que Panda dizia... e mais importante ainda, isso deixava claro que Panda tinha razões bem sólidas para querer Kastor morto. Não vai ser fácil convencê-lo a não fazer nada. Já estou vendo que isso vai me dar uma boa dor de cabeça.

– Nada do que você disse é uma mentira, Panda, mas nada aí é uma verdade, também – contrapôs Shell, selecionando bem as palavras que usava e a forma como as dizia. A essa altura, aquilo havia se tornado uma batalha diplomática; tinha de apresentar bons argumentos de uma boa forma se quisesse que as coisas corressem da sua forma. – Tudo o que você disse se trata de nada mais do que possibilidades e suposições, coisas que podem ou não terem acontecido, estarem acontecendo ou vir a acontecerem. Da última vez que chequei, não trabalhávamos com suposições. Corrija-me se eu estiver errado, mas isso é, inclusive, algo que vai direto contra as nossas éticas e morais, correto? Qual era a frase mesma? “Suposições... possibilidades... esses são os argumentos que aqueles a quem falta caráter usam para defenderem suas monstruosidades”. Pela história, aconteceram inúmeros casos de reis e rainhas que ordenaram a morte de centenas de inocentes, incluindo crianças, sustentando tamanha brutalidade na “possibilidade” que essas pessoas ameaçassem seu reinado em algum momento. Quando foi que decaímos a esse ponto? Existe a possibilidade de que Kastor seja um perigo, sim... tal como existe a possibilidade de que todos os hospedeiros dos outros demônios sejam um perigo, que todos os futuros hospedeiros dos demônios sejam um perigo, ou que outra pessoa ou organização qualquer seja um perigo. Jiazz, Xelia, Ember, Tiamat, Odin, até mesmo você, Panda... todos podem ser um perigo pro mundo, e isso também vale para aqueles que estão abaixo de vocês. E aí? Devemos matar todas essas pessoas?

– Não seja um dramalhão, Shell, você sabe que as coisas não são simples assim! – censurou rispidamente o Panda, fazendo com que qualquer bravura que o mago de gelo pudesse ter obtido se dissipasse de uma vez. – Sim, nós não trabalhamos com base em justificativas de possibilidades. Você falou certo, essas coisas realmente são usadas de forma leviana demais como justificativas para atos horríveis... mas existe também o uso real de possibilidades, ao qual essa situação se aplica. É uma coisa tomar uma ação drástica por base de uma possibilidade distante ou mínima, e outra completamente diferente quando essa possibilidade é forte e está próxima. Kastor tem uma boa chance de representar um grande perigo ao mundo a qualquer momento, e isso não é algo que podemos simplesmente ignorar.

– Que bom, porque não ignorar isso é a última coisa que estamos fazendo – retrucou seriamente Shell. – Eu já passei a você qual é a situação, e não tenho dúvidas de que você a compartilhará com algumas pessoas de confiança. Eu, pessoalmente, irei acompanhar Kastor e seu grupo, avaliar o desenvolvimento deles. Caso ele comece a demonstrar um verdadeiro risco de tornar-se um perigo, eu lidarei com ele.

– Da mesma forma como lidou com Balak? – perguntou o Grande Panda de forma simples.

Poderia dizer que a pergunta foi feita de uma forma quase que inocente, mas isso seria uma grande mentira; Panda não fez esforço algum para esconder a maldade em suas palavras, e mesmo se tentasse se enganar, o olhar dele deixava inegavelmente claro o que queria dizer com aquilo. E o pior de tudo é que não há muito que eu possa dizer sobre isso. Odiava ter de admitir algo assim, mas a verdade era que Panda tinha um bom ponto no que dizia respeito a isso.

Mas não podia simplesmente desistir, também.

– O que aconteceu com Balak não vai se repetir nunca mais – prometeu Shell. – Eu subestimei as habilidades dele e fui derrotado. Sei disso. Mas aprendi com meus erros também, Panda. Não tornarei a perder.

– Sim... você aprendeu com seus erros... é por isso que, ao invés de planejar enfrentar um mago de elite, você planeja enfrentar o hospedeiro de um dos demônios mais poderosos que a nossa história já conheceu. É... faz sentido para mim – retrucou Panda, de forma sarcástica. – O que aconteceu uma vez pode muito bem acontecer uma segunda vez. E uma terceira. Uma quarta. E até uma centésima vez. Só um imenso tolo assume o contrário, Shell, e eu espero que você não seja tolo assim. E essa é uma situação séria demais para termos falhas aqui. Acha mesmo que você está preparado para manter seus olhos sobre ele?

– Foi você que me deu o cargo de Inquisidor – apontou Shell, começando a sentir-se levemente irritado com aquela discussão. Droga, isso é mal. Mesmo enquanto sentia aquilo, sua mente ainda era racional o suficiente para compreender o que se passava ali. Eu estou ficando frustrado. Isso é sinal de que estou perdendo essa batalha. – Não confia na minha força, Panda?

– Para isso? Não. – respondeu secamente seu mestre, sem se deixar abalar. – Mas mesmo assim, confio mais na sua força do que no seu coração. Você desde já não possui nenhuma intenção de fazer algo contra Kastor, não é, Shell?

Rangeu seus dentes ao ouvir aquilo. Miserável... Ouvir aquelas palavras era humilhante para alguém como Shell, alguém que havia se dedicado tanto em prol do Colégio Branco e que tinha um débito de gratidão tão grande com o Panda... mas ao mesmo tempo, não podia deixar de compreender o porquê de seu mestre estar lhe dizendo algo assim, e concordar com ele em certo grau. Ele não está errado no que diz. Eu... realmente não quero fazer nada contra Kastor. Quando havia ido confrontar o azul, esse não era o caso; talvez tivesse suas dúvidas quanto a moralidade de matar alguém baseado quase que completamente em algo que essa pessoa não pode escolher ou controlar, mas naquele momento pelo menos ele estava preparado para matar o cavaleiro caso ele falhasse em passar no seu teste. Mas agora... agora não tinha intenção nenhuma de fazer mal a Kastor. Ele havia se saído bem no teste, bem melhor do que achou que ele se sairia. Por que deveria mata-lo? Não via moralidade nisso. Não via justiça em algo assim.

Mas também, as coisas não eram como Panda sugeria. Não tinha a menor intenção de ferir Kastor no momento, mas isso devia-se ao fato do cavaleiro ter demonstrado ser uma boa pessoa com um bom coração e um bom autocontrole. Não tinha a menor intenção de fazer algo contra uma pessoa assim – hospedeira de demônios ou não – mas a situação seria completamente diferente se o caráter de Kastor fosse corrompido. Enquanto Kastor permanecer sendo uma boa pessoa, não levantarei a mão contra ele. Mas se em alguém momento sua alma tornar-se corrupta, serei eu que irei destruí-lo.

– Eu não tenho a menor intenção de fazer algo contra um bom homem, Panda – respondeu Shell de forma calma, fechando seus olhos afim de que pudesse se tranquilizar e se expressar de forma mais coesa. – Se a situação mudar, irei modificar meu modo operante de acordo com as necessidades, mas não antes. Se Kastor se tornar um verdadeiro perigo para o mundo, eu irei tirar sua vida com minhas próprias mãos, mas não farei nada antes disso. Nossa história já registrou mais do que um caso em que, em busca de tentar evitar que um grande mal caísse sobre o mundo, grupos de pessoas agiram de forma brusca e violenta, e com isso acabaram assegurando a vinda desse mal. Não pretendo fazer parte disso também. Caso você discorde do meu modo de fazer as coisas, sinta-se livre para enviar um servo pessoal seu pra fazer o trabalho sujo... – por um momento deu uma pausa ao dizer aquilo, respirando fundo, enchendo seus pulmões de ar e expirou tudo isso calmamente. Abriu seus olhos lentamente, e esses foram imediatamente encarar seu mestre com um olhar frio como o inverno. – ... mas mantenha em mente uma coisa, Panda: meus padrões morais são bem firmes. Eles não se curvam perante a conveniência, não importa o que aconteça. Tenho uma grande dívida para com você, mas se você enviar alguém para matar um homem que considero inocente, eu irei fazer tudo que estiver ao meu alcance para impedir isso, bem como esquecerei de toda a nossa relação e usarei todas as minhas forças para deter você.

Por um momento uma expressão de surpresa surgiu no rosto de Panda. Seus olhos se arregalaram por um instante – olhos brancos com sua íris negra tão pequena como um ponto no meio deles – mas isso não durou muito antes que eles fossem consumidos por pura ira. Mesmo através do holograma, Shell pode ver várias veias surgirem subitamente ao redor do rosto do Panda, uma demonstração clara da irritação do grande mago, mas não vacilou perante a isso. Seu mestre rangeu os dentes com força, parecendo um animal selvagem e enfurecido, mas por mais que no passado isso sempre foi o suficiente para assustar Shell o bastante para fazer com que ele se dobrasse a vontade do Panda, esse não foi o caso agora.

Mesmo com toda a ira e a fúria do Grande Panda, permaneceu firme, pois sabia que um vacilo seu significaria a morte de pessoas inocentes.

E por incrível que pareça... isso de alguma forma deu certo. Panda parecia enfurecido enquanto lhe encarava, parecendo completamente capaz de esmagar o mago do gelo na palma de sua mão se pudesse fazer isso, mas ao ver que Shell não iria recuar, ele de uma vez se acalmou. Seus dentes pararam de ranger um no outro, seus olhos se acalmaram e todas as veias que antes se destacavam em seu corpo desapareceram por completo. Com um grande suspiro, o Grande Panda relaxou em sua cadeira, e mal pode acreditar nas palavras que vieram dos seus lábios.

– Muito bem, faremos a sua vontade – disse ele, fechando os olhos, sua voz baixa como um sussurro. Shell piscou ao ouvir isso, por duas e depois três vezes, e não pode impedir-se de ficar fitando seu mestre de queixo caído depois. Ele... está falando sério? Eu ouvi mesmo isso? Ficou assim por tanto tempo que o Grande Panda voltou a abrir seus olhos, e ao ver a postura de Shell ele manifestou uma pequena irritação, apesar de que nada com o que se preocupar. – O que foi? Pretende ficar com essa cara estúpida no rosto por quanto tempo, Shell? – bufou, e pelo que Shell pode ver dos movimentos de seu corpo, suas mãos estavam alcançando algum tipo de papelada em sua mesa. – Nunca antes no passado você desafiou minha autoridade, não quando eu me demonstrei irritado. Mas você acabou de fazer isso afim de proteger a vida desse tal de Kastor. Me recuso a acreditar que algo assim não tem razão. Para você chegar a esse ponto, você deve ter bons motivos. Não vou mentir e dizer que estou satisfeito com tudo isso, mas tendo em vista suas ações e o fato de que você é um velho colaborador do Colégio Branco, vou lhe dar uma chance. Ao menos por agora, faremos as coisas como você quer.

Mal pode acreditar nisso. Tá brincando... eu ganhei essa batalha diplomática? Ganhei de alguém como o Grande Panda, ainda por cima? Isso só pode ser algum tipo de milagre! As sensações que aquilo lhe davam eram muitas; sentia satisfação, sentia alegria, sentia-se entusiástico, sentia-se vitorioso!... e ao mesmo tempo, sentia-se também temeroso. Aquilo nunca havia acontecido antes. Absolutamente nunca. Por mais que se sentisse satisfeito em ter ganhado aquela discussão, simplesmente pensar nas consequências que podia encarar por aquilo era o suficiente para acabar com toda a sua alegria.

– Isso dito! – o punho de Panda chocou-se subitamente com toda a força contra o que deveria ser a mesa dela, fazendo um estrondo tão forte que foi transmitido ainda alto mesmo pelo holograma, fazendo com que Shell desse um salto gigante para trás enquanto soltava um grito tão agudo quanto o que alguém esperaria de uma garotinha de três anos... com uma voz particularmente aguda. Ele e Panda trocaram olhares depois disso, Shell corando e envergonhado por sua demonstração enquanto seu mestre simplesmente lhe encarava em silêncio com uma expressão que parecia dizer “o que raios foi isso?”. Por fim, no entanto, ele acabou simplesmente balançando a cabeça, estalando a língua em um som de desprezo, e continuou a falar. – Eu vou lhe conceder o que você quer, mas não pense que isso não vai vir sem responsabilidades. Irei exigir relatórios detalhados a cada três dias, tanto orais quanto escritos. Irei exigir também informações sobre os planos de Kastor; pra onde ele pretende ir, o que pretende fazer, quando tempo ele pretende permanecer em determinado lugar. Quero estar preparado para cada passo dele. E também, tenha isso bem claro em sua mente; se Kastor demonstrar estar perdendo o controle de si mesmo para o demônio dentro dele, eu irei exigir a eliminação de Kastor, e se você se negar a executar essa eliminação, então você será eliminado juntamente com ele. Fui claro?

– Cristalino – respondeu rapidamente Shell, ansioso por dar um fim a tudo aquilo. Droga... eu devia saber que ele não ia deixar isso barato. Relatórios a cada três dias, ter de fornecer diversos tipos de informações, ter o peso de uma ameaça como aquela sob sua cabeça... é, Panda definitivamente não estava tornando aquilo mais fácil para ele. O melhor que posso fazer a essa altura é tentar acabar com isso tão rápido quanto possível. Tenho a impressão de que quanto mais tempo eu continuar falando com ele aqui, mais exigências ele vai jogar pra mim. – Presumo que isso é tudo, certo?

– Também irei exigir que você apresente todos os seus relatórios em traje formal. Chega dessa sua mania de cuidar de assuntos importantes com trajes desleixados ou uma direta falta de peças importantes do guarda roupa. Você tem vinte e três anos, Shell; já passou da hora de você começar a usar uma maldita camisa! E também, estarei exigindo que você corte o seu cabelo; esse seu cabelo longo faz com que você pareça um vagabundo. E além dis-

Não deu tempo para que seu mestre concluísse as suas exigências, até porque sabia que elas não teriam fim. De forma um tanto quanto discreta – ou ao menos tão discreta quanto ele podia fazer – chutou o cristal que estava usando para comunicar-se com Panda, mandando-o para longe e cancelando a ligação. Aguardou firmemente até que a comunicação fosse cortada antes de afundar sua cabeça entre os ombros e liberar um suspiro de alívio e cansado com gosto, relaxando todo seu corpo de uma vez. Droga. Eu gostava do meu cabelo longo. Panda já deveria estar irritado depois de ter cortado a ligação; não seria bom pra ele testar a paciência quase inexistente daquele mago mais ainda ao contatá-lo novamente com o cabelo longo.

– Você sabe que existe um grande problema nesse acordo que acabou de fechar, certo? – Comentou uma voz calma e gelada, vinda das árvores. Não se assustou com ela; apenas virou levemente seu rosto para ver a chegada de Shell irmão, emergindo dentre duas árvores, sua postura tão séria quanto ele sempre a mantinha, embora Shell pudesse dizer que um pouco do gelo que sempre o cercava como uma couraça havia derretido com o reencontro dos dois. O que é algo bem irônico, considerando que eu também sou um mago do gelo, mas ei, eu não vou reclamar. – Segundo o acordo, você deve enviar um relatório para Panda de três em três dias. Conforme as orientações de Odin, ficaremos todos isolados uns dos outros em treinamento por cerca de uma semana. Estou curioso para ver como pretende bolar um relatório nessas condições.

– De forma bem simples, pra ser sincero – respondeu Shell, inclinando sua cabeça de lado e coçando-a preguiçosamente com uma mão. – Panda exigiu relatórios, e eu concordei com as exigências dele, mas ele nunca exigiu relatórios verídicos.

– Você pretende mentir para ele? – Pelo timbre levemente incrédulo na voz de Ex e a sobrancelha que se ergueu ao dizer aquilo, chutava que seu irmão não achava aquela a melhor das suas ideias.

– Ei, o que posso fazer, eu sou bom nisso – retrucou Shell, dando de ombros. – Eu sou um Inquisidor, lembra? Considerando que não devemos nem existir, oficialmente falando, eu minto praticamente com tanta frequência como respiro. Prática gera perfeição.

– Ainda assim, mentir para Panda me parece uma péssima ideia que pode facilmente voltar-se contra você..., mas eu sei que você não vai me ouvir mesmo que eu discuta com você sobre isso, e não é como se você tivesse muitas opções de qualquer forma, então não vou perder tempo com algo assim. – Um passo após o outro, Ex caminhou em direção a Shell. – E então? Pra quê você me chamou aqui?

– Ora, vamos lá irmão – fez Shell, sorrindo e usando sua magia para fazer com que uma brisa gélida soprasse ao redor de sua mão direita, o próprio ar tão frio que conseguia sentir pequenos cristais de gelo formarem-se em seus dedos e nas costas da mão. – Você sabe bem o porquê. Em uma semana, teremos uma batalha muito importante. Tenho de estar preparado para ela.

– E você pretende testar suas habilidades contra mim, Shell? – Questionou seu irmão, em um tom sério, embora o que chamavam de Tormenta Branca pudesse vê-lo tentando conter um fino sorriso que teimava em surgir em seu rosto. Ao contrário de Shell, que havia usado a brisa gélida apenas ao redor de sua mão, conseguia ver a energia de Ex atuando ao redor de todo o seu corpo, como que se estivesse envolvendo-o em uma cortina branca. – Parece que o tempo lhe deixou arrogante. Você é forte... mas realmente acha que está no meu nível?

– Me pergunte isso depois que eu fizer você beijar o chão, irmão – foi a resposta de Shell num tom de falsa arrogância, sorrindo de forma divertida para seu irmão mais velho.

Ao ouvir aquilo, o sorriso tomou por fim conta do rosto de Ex. Na maioria das vezes seu irmão parecia extremamente sério e mal-humorado, e isso não estava necessariamente errado, mas Shell tinha o dom de melhorar o humor dele consideravelmente, a capacidade de quebrar a concha que protegia o Tecelão Branco. Devido ao seu trabalho, os dois não se falavam muito e não tinham tanto contato um com o outro quanto poderiam querer, mas isso não era nem de longe o suficiente para afetar a relação deles; não importa onde, não importa quando, se um irmão precisasse do outro, este iria até o inferno para ajudar-lhe.

Gargalhou brevemente por um instante, antes de subitamente investir contra seu irmão. Pensou que poderia surpreendê-lo com isso, mas Ex era um homem esperto, e o avanço de seu irmão veio no mesmo momento em que começou o seu. Num piscar de olhos os dois se encontraram, e as mãos revestidas pela magia de ambos chocaram-se com força.

E assim, num único momento, toda aquela seção da floresta foi congelada no mais frio gelo.

=====

– Ah... finalmente – não pode nem tentou conter um grunhido de satisfação ao poder finalmente repousar seu corpo cansado no cadeirão do Pandemonium. – Depois de tudo que fiz hoje, eu realmente posso usar de um bom descanso.

Os últimos dias haviam sido... exaustivos, para dizer o mínimo. Tal como suas havia suspeitado durante o fim da Batalha do Salão Cinzento, J e T.I.T.A.N.... não voltaram. Além disso, suas forças haviam perdido muitos dos seus aliados, e muitos outros estavam feridos. Pelos últimos dias, Balak havia revezado entre lamentar a morte dos que se foram e cuidar para que os vivos se recuperassem; mesmo depois daquela vitória, não podiam relaxar, principalmente considerando que Kastor e os demais provavelmente não iriam demorar a descobrir o que aconteceu. Na verdade, considerando o tempo que já se passou, o mais provável é que eles já tenham descoberto isso. Com a morte de Apollo, Kastor havia obtido meios de chegar até a base das suas forças, e isso significava que podiam esperar um ataque a qualquer momento. Eu já tinha o plano de atacar o Salão Cinzento desde o início para tirar o maior dos meus empecilhos do caminho, mas se eu tinha alguma dúvida, ver que Kastor havia triunfado no Mercado de Escravos acabou com toda a minha hesitação. Ainda teria de enfrentar muitos oponentes poderosos – Kastor, Hozar e principalmente Odin – mas enfrentar apenas eles era mil vezes melhor do que enfrentar toda a força combinada da Era Dourada e do Salão Cinzento. Mas mesmo assim, não posso subestimá-los. Subestimar seu inimigo – qualquer que seja esse – é uma ótima forma de acabar morto. Para isso precisava ter certeza de que todos que pudessem se recuperar estivessem prontos para voltar a batalha quando viesse a hora, e era por isso que Balak estava dedicando todo o seu foco ao tratamento dos feridos.

Estava tendo um bom sucesso no que dizia respeito a isso, mas ninguém podia negar que aquilo era tremendamente exaustivo. Minha vontade é de só relaxar, deixar minha cabeça cair para trás, fechar os olhos e dor-

FUFUFUFUFUFU! – Riu sombriamente uma voz de forma súbita, soando bem alto, vindo de todos os lados. Os olhos de Balak haviam se fechado à medida que o mago começou a relaxar, mas ao ouvir aquilo eles voltaram a se abrir de imediato, correndo por toda a sala em busca do dono daquela voz. – Você parece estar cansado, Balak Hauss. Parece estar cansado, parece estar cheio de problemas, parece estar à beira de um abismo. Sim! Um abismo, um terrível abismo profundo e escuro e... e...

– .... Úmido? – Sugeriu uma outra voz, soando de forma similar a primeira, apesar de que muito mais calma, controlada e até mesmo cansada.

Úmido! – Concluiu a voz original, aceitando de bom grado a ajuda que lhe foi oferecida. – Mas, não tema! Nessa hora de desespero, nesse momento de terror, nesse pesadelo inesquecível... nós chegamos! Nós finalmente chegamos! E com a nossa presença e a nossa força, iremos dissipar todos os seus problemas!

Essa voz... A medida que ia ouvindo todo aquele discurso estranho e bizarro, Balak ia ficando progressivamente mais calmo, tanto porquê aquela voz não parecia mais nem de longe tão ameaçadora quanto pareceu inicialmente quanto pelo fato de que estava começando a reconhecer essa voz. Eu me lembro dela... e pelo que ela está falando e o fato de ser mais de uma voz, isso deve se tratar dos...

Não pode nem sequer concluir seu pensamento. Um forte brilho vermelho iluminou toda a sala por um momento, fazendo com que os olhos de Balak ardessem como se estivesse queimando em suas órbitas. Filho da puta! Teve de esfregar seus olhos para tentar recuperar-se daquilo, e enquanto se ocupava com isso, ouviu o som de tambores. Quando finalmente pode abrir novamente os olhos, o brilho ainda estava ali, mas muito mais fraco que antes. Ele vinha de um único ponto, do que parecia ser uma estranha gema que brilhava no teto, no centro de toda aquela sala, da qual exalava aquela luz vermelha.

E sob essa luz vermelha, embaixo daquela gema, um homem dançava.

– Sim, sim, sim, SIM! – Gritou a figura que movia-se de forma bizarra; um grande homem de mais de um e noventa de altura, usando uma camisa preta colada ao seu corpo e calças longas pretas surradas. Seu corpo era obviamente bem trabalhado, extremamente musculoso, e seus cabelos espetados para cima eram tão vermelhos que se confundiam com o brilho emitido pela gema. A dança daquela figura era, no mínimo, extremamente estranha; ele fazia diversos movimentos sem conexão um com o outro, parecendo hora estar querendo mostrar seu corpo, hora estar querendo mostrar habilidades de dança, hora encarnar o espírito de uma estúpida bailarina. – Eu cheguei, eu estou aqui, e a glória vem pra ti! O mais forte, o mais bravo, o mais selvagem! Com punhos como se fossem feitos de pedra e músculos duros como aço! Sim, sim, sim, SIM! Esse sou eu, o Glorioso Cometa Vermelho, ULROCK GRANH!

Piscou ao ver aquilo, em nada mais do que confusão. Mas... que diabos? Abriu sua boca para perguntar o que tudo aquilo deveria significar, mas não teve a chance de fazer isso antes que o som do que parecia ser uma dúzia de tambores tomasse conta do ambiente. Ulrock continuou com sua estranha dança, mas logo a luz vermelha parou de brilhar para ser substituída por uma luz prateada, e como que por mágica uma mulher surgiu não muito distante dele, dançando também.

– Sim, sim, sim, SIM! – Gritou ela, embora o timbre meio rouco e de certa forma sensual de sua voz fosse bem mais agradável aos ouvidos de Balak do que o timbre forte de Ulrock. Ela era bela, muito bela; sua pele tinha um tom mais escuro e dourado, como se ela fosse bem bronzeada, e ela deixava boa parte dessa a mostra com suas vestimentas. Uma camiseta leve era tudo que ela usava para cobrir a parte superior de seu corpo, sendo que essa parecia se adequar ao seu corpo, delineando cada curva e forma dela e deixando seus braços completamente a mostra. Similarmente, o que ela usava como calças eram longas, mas igualmente coladas, e com várias partes aonde o tecido parecia ter sido simplesmente cortado para mostrar parte de suas pernas. Os olhos dela eram dourados, e seus cabelos prateados eram selvagens e longos, chegando até a parte de trás de seus joelhos, e eles dançavam selvagemente com os movimentos dela. – Eu cheguei, eu estou aqui, e a minha beleza vai trazer todos aos seus joelhos! A mais bela, a mais elegante, a mais... sensual! Com a graça de uma dançarina e um corpo de fazer inveja as Deusas! Sim, sim, sim, SIM! Essa sou eu, a Sensual Imperatriz Prateada, FLAVENT MELLOW!

Nem tentou começar a falar depois da apresentação da mulher pois já sabia que ela iria ser prontamente seguida por algo similar. E foi exatamente isso que aconteceu. No momento em que a mulher terminou de se apresentar, a cor do brilho emitido pela gema mudou de prateado para rosa. E tal como antes, isso fez com que magicamente uma outra figura surgisse ali... apesar de que dessa vez, ao invés de ser um homem ou uma mulher, aquilo parecia mais tratar-se de uma garota.

– Sim, sim, sim, SIM! – Gritou a garota em uma voz muito mais fina do que a de qualquer outro ali, bem como muito mais animada também. Ela era pequena, com pouco mais do que um metro e cinquenta de altura, mas compensava sua falta de tamanho com uma empolgação medonha e uma habilidade excelente... ao menos no que dizia respeito a danças, pelo menos. A dela era a melhor de todos ali, fazendo com que seus cabelos castanhos balançassem de um lado para o outro enquanto um largo sorriso estendia-se de orelha a orelha em seu rosto. A garota vestia-se com um robe clássico de magos cuja cor era um roxo bem escuro, quase preto, com um capuz que no momento estava abaixado nas costas. – Eu cheguei, eu estou aqui, e com os fios em meus dedos eu manipularei o mundo! A mais inteligente, a mais astuta, a mais legal de todos! Com um cérebro afiado como uma espada e fios fortes como aço! Sim, sim, sim, SIM! Essa sou eu, a Fantástica Rainha dos Fantoches, NESHKA TINKERBELL!

E seguindo o fim da “apresentação” daquela garota, a gema voltou a mudar de cor, dessa vez para emitir uma tonalidade muito mais escura. Uma estranha espécie de luz negra foi emitida por ela, fazendo com que aquele lugar ficasse ainda mais escuro, mas, de alguma forma, mesmo em meio a essa escuridão Balak foi capaz de ver as figuras dançando... bem como foi capaz de ver o momento em que uma quarta pessoa juntou-se a elas.

– Sim, sim, sim, SIM! – Gritou ele, um homem de porte mediano que Balak reconhecia. A aparência dele não havia mudado muito desde a última vez que o viu; ainda tinha os cabelos curtos negros e a rala barba que vinha das suas costeletas até seu queixo e subia para misturar-se ao seu bigode. Suas vestes eram as mesmas também; calças longas e pretas de luxo, uma camisa social branca com o botão superior aberto e um paletó preto que parecia ser vestido de qualquer forma, sem estar sequer abotoado, dando um ar desleixado ao homem. Dentre todos ali, seus movimentos eram os mais coesos e precisos, algo que deixava bem claro que ele era o que mais praticava aquela dança... o que francamente não era surpreendente, considerando que ele provavelmente era o que havia inventado tudo aquilo em primeiro lugar. – Eu cheguei, eu estou aqui, e com minhas garras eu vou rasgar meus inimigos! O mais esperto, o mais bonito, o mais magnífico: eu! Com a força de um dragão e a elegância de um príncipe! Sim, sim, sim, SIM! Esse sou eu, o Magnífico Dragão das Sombras, ROBERT STEINS!

É, eu estava certo, realmente são eles, pensou Balak enquanto se ajeitava em seu cadeirão, ajustando sua postura para assistir a última apresentação. O brilho da gema tornou-se dourado, mas não prestou muita atenção a isso, preferindo focar-se nos seus pensamentos. Eles demoraram bastante para responder. Havia contratado aquele grupo já há um bom tempo, uma vez que esperava poder contar com eles para o ataque ao Salão Cinzento, mas quando eles não se mostraram, foi forçado a prosseguir sozinho com seus planos. Talvez J e T.I.T.A.N. ainda estivessem vivos hoje caso eles tivessem participado dessa batalha como deveriam. Talvez o nosso número de feridos seria menor, nossa situação geral seria melhor. Pensar naquilo fazia com que sentisse raiva, mas forçou-se a não deixar seu julgamento ser ofuscado por seu ressentimento. Não adianta agora ficar com raiva por algo assim. O que aconteceu, aconteceu, e não há nada que eu ou ninguém possa fazer para mudar isso. Pelo menos eles haviam surgido, enfim; mesmo nesse ponto, talvez eles ainda pudessem ser úteis.

Sua atenção foi novamente chamada ao que eles faziam quando viu os quatro subitamente mudarem sua postura. A dança de cada um era desconexa da dos outros, fazendo parecer que cada um estava simplesmente fazendo sua própria coisa, mas isso foi provado errado naquele momento, quando todos os quatro pararam o que faziam para assumir a mesma postura; uma posição ereta, com ombros erguidos, peito estufado e mãos nas costas. Inicialmente eles também estavam sérios ao fazer isso, mas logo um sorriso voltou a surgir em seus rostos, e de forma sincronizada os quatro gesticularam na mesma direção.

– E também, apresentando nosso quinto companheiro! – Disseram os quatro simultaneamente, ao mesmo tempo em que o brilho dourado da gema parecia se concentrar em um único ponto. Uma luz dourada correu pelo ambiente, de um ponto ao outro, até focar-se num lugar, no lugar em que deveria estar o quinto membro do grupo...

Mas só que não tinha ninguém lá.

Silêncio reinou naquela sala. Os olhos dos quatro se arregalaram a medida que a gema ia parando de brilhar, perdendo seus efeitos, até cair no chão como se fosse uma pedrinha qualquer. Sem entender nada os quatro olharam um para o outro, em busca de informações, sem obter muito sucesso... até que a atenção de todas foi chamada pelo som do raspar de uma garganta.

Moveu levemente seus olhos para ver um homem ajoelhado a cerca de um metro e meio do seu cadeirão, tendo de alguma forma se esgueirado até ali sem ser notado enquanto estava com sua atenção focada nos quatro. O homem era loiro, de cabelos lisos e brilhantes razoavelmente longos, presos num rabo de cavalo que caia sobre suas costas, com algumas mechas também caindo sobre sua testa. Sua pele era muito branca, quase pálida, e seu rosto era fino, parecendo quase que feminino, não fosse pelas cicatrizes que trazia no queixo, embaixo do olho direito, e uma estranha cicatriz de queimadura que parecia ter a forma de algum tipo de réptil alado na testa dele. Trajava uma armadura de corpo inteiro de um metal bem cinzento em bom estado, e a sua cintura repousava uma espada curta, bem como às suas costas repousava uma espada bastarda. Suas feições eram – ao contrário dos outros quatro – completamente sérias e profissionais.

– Balak Hauss, perdoe-nos pelo atraso – murmurou o homem, num tom de educação impecável. – Meu nome é Hadvar Lodbrook, e estou aqui para anunciar a nossa chegada. De agora em diante, o S.O.M.B.R.A. está ao seu dispor.

Hmm... algo me diz que esse é o segundo em comando que Steins tinha mencionado quando tratou de negócios comigo. Hadvar Lodbrook parecia um guerreiro experiente e completamente sério, o que – nas palavras de Steins – “estabelecia um maravilhoso contraste entre ele e a natureza artística dos demais membros do S.O.M.B.R.A.

Não teve muito tempo para pensar nisso antes que os sons dos protestos começassem a martelar seus ouvidos. As vozes de Flavent, Neshka e Ulrock se misturavam de forma que era impossível compreender o que qualquer um dos três falava, mas infelizmente para seus ouvidos, eles não precisavam compreender o que era dito para sentirem dor com isso. Hadvar, por sua vez, fez um admirável trabalho em ignorar todas elas... isso é, até aquilo acontecer.

– Tsc, tsc, eu já te avisei sobre isso, Hadvar. Você não pode simplesmente nos apresentar como “S.O.M.B.R.A.”. Os outros não vão entender nossa grandiosidade se você resumir as coisas assim. – Pode visivelmente ver uma veia de frustração e irritação surgir na testa de Hadvar ao ouvir aquilo, à medida que Robert ia emergindo próximo aos dois, saindo da sombra de Hadvar tranquilamente como se estivesse saindo da água. – Permita-me apresentar meu grupo corretamente, sim, Balak? – Disse o líder dos mercenários, gesticulando de forma relaxada, apenas para que de uma vez todas as suas feições se afiassem com uma seriedade mortal. Por um momento chegou até a pensar que ele ia fazer alguma coisa realmente séria... mas tudo que ele fez foi simplesmente começar a fazer estranhas poses bizarras que Balak não conseguia nem começar a entender, tudo isso enquanto trazia no rosto a feição mais séria que um dia já viu. – Nós somos o Lendário Super Esquadrão Especial de Elite: S.O.M.B.R.A., sendo que S.O.M.B.R.A. significa Seleta Organização de Manobras Beneméritas com Renomados Associados! A partir de agora, conforme pagamentos previamente combinados, o melhor grupo mercenário que esse mundo já viu estará ao seu dispor! Não precisa nos agradecer, Hauss!

Balak teve de piscar ao ouvir isso. Ele... ele está falando sério? Em primeiro lugar, por que eu deveria agradecer se estou pagando eles por seus serviços? Em segundo lugar, eles estão bem atrasados para seu trabalho, e essa simplesmente não é a forma como alguém que está atrasado pro trabalho deveria agir! E em terceiro lugar, como raios alguém deve lembrar-se desse nome completo?! E em quarto lugar, que raios é “beneméritas”?!

– E também Hadvar, por que você não fez sua parte na apresentação? – Questionou Robert, virando-se para seu segundo em comando, que se erguia naquele momento e virava-se para fitar seu líder com um olhar aborrecido. – Estávamos todos contando com você, mas você estragou tudo!

– Eu não vou fazer aquela dança estúpida de vocês – respondeu Hadvar de forma simples, sem dar muito papo para isso. Robert não foi muito afetado por suas palavras, mas em compensação, Balak pode ver os outros três reagirem de forma extravagante ao longe, agindo como se o guerreiro tivesse quebrado seus corações com suas palavras.

– Escuta, eu achei que tínhamos falado sobre isso antes... – murmurou o líder do S.O.M.B.R.A., massageando sua testa como se tudo aquilo estivesse começando a lhe dar uma dor de cabeça.

– Não. Você falou. Eu ignorei tudo para não lhe bater. – Retrucou Hadvar, azedo.

– Ah, qual é, Hadvar?! – Gritou a menina que chamavam de Neshka, jogando seus braços ao ar de forma petulante enquanto gritava, frustrada. – Faça a sua parte! Nós precisamos de você. O espetáculo fica tão maneiro com todos nós juntos!

– Você é a única pessoa que acha isso “maneiro”, Neshka, e isso é porquê você tem quatorze anos – apontou o guerreiro, cruzando os braços.

– Tecnicamente, isso não é verdade – contrapôs Ulrock, de forma surpreendentemente gentil para alguém com o seu tamanho e porte físico. – Eu e Flavent também achamos o espetáculo maneiro, e nós temos bem mais do que quatorze anos.

– É, mas em compensação, vocês são retardados. Vocês não contam.

– Tsc, tsc... – fez Flavent, balançando sua cabeça de um lado pro outro enquanto trazia um sorriso malicioso no rosto. – Insultando uma dama tão bela quanto eu assim... isso é uma grande grosseria, Hadvar. Mas, tudo bem. Você é bonitinho, então vou te perdoar por isso, ok?

– Por favor, não perdoe – respondeu Hadvar, com uma expressão que deixava claro que ele não se divertia nem um pouco com tudo aquilo. – Vá em frente e fique com raiva de mil. Tome nojo da minha cara e nunca mais fale comigo. Os Deuses sabem bem que isso me livraria de uma grande dor de cabeça.

A mulher reagiu de forma dramática a isso, fazendo uma expressão que sugeria que ela estava horrorizada com aquelas palavras, apenas para logo em seguida voltar ao normal e piscar para Hadvar, conquistando pouco mais do que um grunhido de irritação do guerreiro com aquilo. Por sua vez, Balak não pode deixar de erguer uma sobrancelha. Essas... essas são as pessoas que eu contratei. As pessoas que chegaram bem atrasadas... e estão cobrando os dois olhos da minha cara pelos seus serviços. .... Por algum motivo, sinto-me um gigantesco otário nesse momento.

– Bem, resolveremos isso depois, Hadvar. No momento estamos a trabalho, pessoa, então, ajam profissionalmente! – Censurou Robert. A ironia de um homem como aquele estar cobrando profissionalismo de alguém era algo que Balak não podia ignorar, mas ao mesmo tempo também simplesmente não conseguia tirar vontade o suficiente de si mesmo para responder a algo assim. – Balak Hauss. Qual o trabalho que reserva para nós? Conforme os termos do nosso contrato, você pode nos conceder uma missão, que será executada sem falhas. Depois disso, caso queira que façamos alguma outra coisa, deverá tornar a nos contratar.

... Se eu der a ele a missão de cortar sua própria cabeça, será que ele faria isso? Francamente, sentia-se bem tentado a fazer algo assim, mas isso seria desperdiçar seus recursos, e por isso se conteve. Vejamos... acho que consigo achar alguma coisa de útil que eles possam fazer, mesmo agora. E talvez... talvez pudesse se vingar um pouco de Robert com isso também.

– Trabalho... bem tenho um bom trabalho para vocês, embora eu deva advertir que, pela demora de vocês em surgirem para receberem seu trabalho, estarei estabelecendo uma condição nele – disse Balak, erguendo um de seus dedos. Robert não pareceu muito satisfeito com isso, olhando o dedo do mago com certa cautela, mas também não se opôs com palavras, e por isso o Tecelão foi em frente. – Antes de receberem o pagamento, irei exigir que vocês cumpram a missão primeiro, que me tragam aquele que quero que capturem.

A cautela de Robert desapareceu ao ouvir isso, sendo substituída por um sorriso.

– Ah, só isso? – Questionou ele, parecendo divertido. – Sem problemas, Balak, sem problema algum. Nós somos mercenários de elite, lembra-se? Capturar pessoas é parte da nossa especialização. Não se preocupe, cumpriremos a missão de forma eficaz e eficiente. Apesar de que, saber qual é a missão em primeiro lugar nos ajudaria bastante.

– Capturar Kastor Strauss – disse Balak, erguendo seus olhos para olhar dentro dos de Robert. – Apenas captura-lo, veja bem. Não me importo que ele esteja ferido, mas não tenho uso para ele morto, então traga-o vivo. Claro, não vai ser tão fácil chegar até ele em primeiro lugar. Ele é um dos cavaleiros do Salão Cinzento, e devem ter algumas pessoas de alto nível lhe protegendo. Isso pode ser... problemático.

– Não existe no mundo alguém que tenha um nível maior do que o de um dos mercenários do S.O.M.B.R.A. – retrucou Steins, sorrindo enquanto falava. – Aonde podemos encontrar esse “Kastor Strauss”?

– Com alguma sorte? No Salão Cinzento. A essa hora, ele deve estar lá. Se não estiver por lá, vocês certamente devem achar alguma coisa que lhes indique o traço dele por lá. – Se seu planejamento estava certo, Kastor deveria estar no Salão Cinzento junto de Odin e Hozar. Não sabia se ele permaneceria ali, pra ser sincero, mas confiava que o S.O.M.B.R.A. fosse capaz de encontra-lo caso fosse necessário.

– Muito bem. Capturar Strauss, procurando-o no Salão Cinzento. Parece simples o bastante. – sorrindo de forma arrogante, Steins deu meia volta, começando a se dirigir para a saída daquela sala enquanto gesticulava para seus companheiros. – Todo mundo, comigo! Temos um trabalho a cumprir agora!

De onde estava sentado, Balak apenas observou enquanto todo o S.O.M.B.R.A. começava a ir embora, passando pela porta um de cada vez, sem pressa alguma. Foi só depois de todos eles irem embora que ele se permitiu suspirar, cansado. Bom, essa é uma boa aposta que eu fiz. Queria vingar-se do S.O.M.B.R.A. pelas práticas profissionais questionáveis do grupo, e aquela era uma boa forma de fazer isso. A essa altura, Kastor deveria estar sendo bem protegido tanto por seu grupo quanto por Odin. Fazer qualquer coisa com ele não seria fácil. Eles podem passar por apuros ali. Mas também...

Quando havia falado com Robert – tanto agora quanto da primeira vez – sentiu algo no homem. Uma força oculta, poderosa e terrível, muito mais aterrorizadora do que a aparência e personalidade do homem sugeriam. E também havia sentido poder no grupo dele, por mais bobos que eles pudessem parecer. Eles são fortes. Todos eles, formidavelmente fortes. A chance de que eles fossem derrotados era real, claro... mas não era uma certeza.

Talvez, apenas talvez... eles possam muito bem vencer. Qualquer que fosse o caso, qualquer que fosse o resultado... o lucro seria todo de Balak no fim das contas.



Notas finais do capítulo

Fala galera, belezinha?



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