O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 42
A Vontade do Soberano


Notas iniciais do capítulo

Yo!

De agora em diante, irei tentar algo novo; postar capítulos no "padrão" de mais ou menos 10 mil palavras. A não ser quando eu tiver terminado as cenas de determinado capítulo ou caso a última cena dele ultrapasse esse limite, irei tentar manter os capítulos o mais dentro desse padrão quanto possível, para que a história não tenha muitos capítulos gigantes e para que vocês tenham atualizações mais frequentes, também.

Mas, bem, é isso. Espero que gostem! o/



– HOZAR, DUKE, parem com isso – advertiu Kastor, seu tom de voz sério e firme, um sorriso brilhando no rosto do cavaleiro azul enquanto ele encarava Shell com um olhar divertido e interessado. – Não há motivos para brigarmos entre nós?

Os olhos de Duke dispararam de uma vez para Kastor ao ouvir aquilo, olhando para Kastor de forma confusa, sem entender o que o cavaleiro queria dizer com aquilo, mas ele foi o único que não compreendeu. Hozar, Ex, Shell... todos eles também olharam para Kastor, mas cada um de uma forma diferente. Hozar parecia estar perguntando a Kastor “o que você pensa que está fazendo?!”, incerto sobre obedecer Kastor ou insistir com o confronto contra os irmãos. Ex parecia levemente interessado e surpreso, apesar de que ainda se mantinha cauteloso o suficiente para estar conscientemente em uma posição que lhe permitiria voltar a ofensiva quando bem quisesse caso isso se mostrasse necessário. De todos eles, no entanto, o que mais interessava a Kastor era Shell, e era exatamente ele que tinha a melhor reação. O queixo de Shell estava tão caído que ele quase tocava o chão, seus olhos arregalados em surpresa, sua sobrancelha direita erguida enquanto a esquerda se franzia. Ver aquela expressão era algo tremendamente satisfatório para Kastor, não só porquê a expressão em si era algo naturalmente divertido como também pelo fato de que, no rosto de Shell depois de tudo aquilo que havia acontecido, ela estabelecia um belo contraste com a expressão calma que o mago tinha antes, como se tudo estivesse ocorrendo da forma que ele esperava.

– Hah... hahaha, devo dizer, Kastor: você me surpreende constantemente – comentou Shell depois que ele conseguiu se recuperar. Inclinou seu corpo para frente e apoiou seus cotovelos em suas pernas, criando um suporte com suas mãos que usou como apoio para seu rosto. – Eu não esperava realmente que você fosse seguir por essa alternativa. Mas você tem certeza de que isso é o que você quer? Creio que não preciso dizer exatamente o porquê disso poder ser uma má-escolha, não é?

– “Poder ser”? Sim, concordo. Mas não é. – a declaração de Kastor foi feita com confiança, o cavaleiro cruzando seus braços ao dizer aquilo. – Você é alguém em quem posso confiar, Shell. Eu sei disso.

– Espera, espera, espera um pouco aí caralho! – protestou Duke, virando-se para Kastor com uma sobrancelha erguida, como se não pudesse acreditar no que estava ouvindo. – “Uma pessoa em quem posso confiar”, Kastor? Você tá falando sério com isso? Esse cara acabou de admitir aqui na cara dura que ele esteve enganando todo mundo por um bom tempo, fingindo ser alguém que não é, e ele também disse diretamente que ele pretende apenas juntar-se ao grupo para ficar de olho em você! Como raios isso parece confiável?!

– Eu nunca pensei que esse dia iria chegar, mas concordo com Duke nisso, Kastor – apontou Hozar. Ao contrário de Duke, o cavaleiro cinzento se mostrava muito mais calmo e parecia bem mais disposto a aceitar a decisão de Kastor, mas isso não mudava o fato de que o olhar dele parecia sugerir que Kastor perdeu a cabeça. – Não tem absolutamente nada nesse homem que sugere que ele possa ser alguém confiável, e muito que diz o contrário. E além do mais, ele já afirmou que vai contar ao Colégio Branco sobre você e sua situação. Não podemos deixar que uma informação dessas va-

– Ele já avisou o Colégio Branco, Hozar. Matá-lo não faria nada de bom quanto a isso – interrompeu Kastor, lançando um olhar inquisitivo a Shell ao fim da sua frase. – Estou errado, Shell?

Novamente, uma expressão de surpresa surgiu no rosto do mago de gelo, mas essa durou apenas um instante antes que fosse substituída por uma feição divertida e por um sorriso amarelo.

– O quê?! – o rosto de Hozar voltou-se violentamente para Shell ao ouvir aquilo, irritado, e por um momento Kastor temeu que aquilo havia irritado tanto seu amigo que ele iria avançar contra Shell, mas felizmente isso não aconteceu. – O que exatamente você quer dizer com isso?

– Você não prestou atenção no que ele disse, Hozar? – questionou calmamente Kastor, sem nunca tirar os olhos de Shell. – Lembre-se do que ele disse, e lembre-se da situação em que estamos. Que sentido faz para Shell vir me confrontar dessa forma, me contando tudo sobre ele e anunciando tão claramente suas intenções, intenções que são claramente contra os meus interesses? Permita-me responder: nenhum. Podemos até dizer que faz algum sentido o fato dele ter me contato sobre quem ele realmente é para evitar que eu descubra isso depois de alguma forma pior e crie suspeitas quanto a ele, mas o mesmo não vale para as intenções dele de revelar ao Grande Panda a minha situação. Isso parece ousado demais, tolo demais. E ainda mais considerando a reação dele quando você ameaçou-o. Ele não ficou nervoso ou temeroso. Ele apenas sorriu e permaneceu calmo, sem ser afetado por sua ameaça. Quase como se ele quisesse que o atacássemos. Era essa a sua intenção, não é, Shell Glace?

Os rostos de todos voltaram-se imediatamente para Shell ao ouvir aquilo, todos curiosos e surpresos pelas acusações que Kastor estava fazendo, ansiosos por uma resposta. De onde estava, o sorriso de Shell alargou-se ainda mais, e ele apenas continuou a observar Kastor com um interesse que parecia crescer mais e mais a cada minuto que passava.

– Quando você estava fazendo seu relato, você nos disse algo interessante. Você disse que, antes de confrontar Balak, você enviou uma mensagem ao Colégio Branco – lembrou Kastor, dando um passo em direção ao mago ao dizer aquilo. – Você fez isso também antes de vir falar comigo, não é? O Colégio Branco já sabe quem eu sou, ou melhor dizendo, o que eu sou.

– Sim, eles sabem – concordou Shell, movendo levemente suas mãos para bater palminhas a Kastor de uma forma que normalmente pareceria sarcástica ou irônica, mas vinda dele parecia verdadeiramente honesta. – Eu não sou tão descuidado assim, sabe? Eu não iria deixar o Colégio sem saber de informações tão cruciais assim, e já que eu ia correr riscos como esses... bom, você entende a minha lógica certo?

– Eu não entendo! – declarou Duke, confuso, seu olhar alternando sobre Shell e Kastor sem entender nada. – Nada disso faz sentido, raios partam! Afinal de contas, por que você iria fazer isso em primeiro lugar? Se você estava tão preocupado com o Colégio conseguir essas informações, então por que diabos você se arriscou em primeiro lugar ao vir nos confrontar?

– Contexto – respondeu Kastor por Shell. – Todas as informações precisam de contexto, afinal.

Pelo olhar que Duke lhe lançou ao ouvir aquilo, viu que o mago não entendeu o que queria dizer.

– Eu sei que Kastor possui um demônio dentro de si, e isso por si só já é uma informação importante que deve ser repassada ao Colégio Branco, mas nem de longe isso é o suficiente – explicou Shell calmamente, movendo seu olhar para Duke. – Quero dizer, me responda o seguinte: nós sabemos que Kastor possui um demônio lendário dentro de si. Isso é absolutamente tudo que sabemos sobre Kastor. É o suficiente para que possamos tomar uma decisão?

– É claro que sim! – respondeu imediatamente Duke... apenas para logo em seguida parecer confuso, como se só então tivesse notado exatamente qual era a pergunta e qual a resposta que havia dado a ela. Sem graça ele coçou a cabeça com uma de suas mãos, e quando tornou a falar, sua voz veio muito mais insegura. – Quero dizer... vocês pretendem mata-lo por isso, não é? É esse o plano, certo?

– ... Deixe-me colocar isso dessa forma, Duke. Se as coisas fossem realmente tão simples quanto você sugere, ou seja, se o simples conhecimento de que Kastor possui um demônio em seu interior fosse o suficiente para justificar que o matássemos, por que você não esmagou a cabeça dele ainda? – questionou Shell, arquejando uma de suas sobrancelhas. – A resposta é simples: só isso não é o suficiente. Saber que alguém possui um demônio lendário dentro de si faz com que essa pessoa se torne imediatamente potencialmente poderosa e potencialmente perigosa, mas isso não é o suficiente para fazer uma decisão drástica quanto a essa pessoa. Esse modo de pensar não é muito diferente de, por exemplo, um reino matar todos os cidadãos em seu território que são nativos de outro reino baseado na hipótese de esses podem ser perigosos. Para tomar uma decisão tão drástica quanto a de matar uma pessoa, são necessárias mais informações. E é exatamente por isso que eu confrontei Kastor. O que eu fiz foi algo arriscado, sim, mas necessário. Com um demônio em seu interior, Kastor pode ser um grande perigo para a humanidade... ou um grande trunfo. O que define qual é o caso é a índole de Kastor, o caráter dele, a sua força mental, seu próprio coração. E é por isso que eu vim confrontá-lo; eu vim testar o caráter do hospedeiro do Demônio Azul. “Será que ele vai me matar para se proteger, ou será que ele vai me deixar vivo?”, foi a pergunta que eu me fiz repetidamente enquanto estávamos vindo pra cá. Pelo que parece, tenho minha resposta.

Silêncio veio depois das palavras de Shell, um silêncio ainda inseguro pelo que Kastor pode entender. Seu grupo aparentemente não tinha mais dúvidas, mas ao mesmo tempo eles ainda não pareciam seguros de tudo que ouviam. Eles ainda suspeitam de Shell. Acham que tem alguma coisa que ele está escondendo de nós. Não podia culpa-los por isso. É verdade que Shell se mostrou uma pessoa sorrateira e perigosa agora. Com todas as revelações que ele fez sobre sua pessoa, é difícil confiar nele – no mínimo ele é um grande mentiroso, mas o mais provável é que ele seja um grande manipulador, alguém que está jogando um jogo político de proporções maiores do que podemos imaginar, manipulando cada um de nós como se fossemos peças de xadrez. Não compartilhava essa visão, mas mesmo assim podia compreendê-la bem facilmente.

– Ainda assim, o que você diz não faz completo sentido – apontou Hozar, olhando para Shell de braços cruzados e com uma feição séria no rosto. Apesar de sua postura rígida, no entanto, Kastor conhecia seu amigo bem o suficiente para dizer que boa parte da hostilidade dele já não estava mais ali... embora ele ainda não fosse descuidado o bastante para abaixar sua guarda ao redor do mago. – Você disse que queria ver qual era o caráter de Kastor, que foi por isso que o confrontou. Mas se Kastor tivesse decidido lhe atacar, você estaria morto agora, e não teria como informar o Colégio disso.

– Ah, sim, mas eu tomei precauções quanto a isso, você sabe. – respondeu Shell de forma despreocupada, girando seu pescoço em um arco e rolando seus ombros para relaxar seus músculos. – Em primeiro lugar, eu gosto de me valorizar o suficiente para achar que eu não seria derrotado assim tão fácil, sabe? Claro, eu sei que vocês são sete e eu estou sozinho aqui com a inesperada ajuda de meu bom irmão mais velho, o que me coloca em uma grande desvantagem numérica, mas acredito que sou inteligente o bastante para lidar com essa desvantagem de alguma forma, e além do mais, com todo respeito, eu provavelmente sou individualmente mais forte do que qualquer um de vocês. Mas, caso eu mesmo assim fosse derrotado e morto por vocês, eu me preparei para isso. Quando enviei minha mensagem ao Colégio Branco, eu enviei também uma nota nela que dizia que, a não ser que eu enviasse uma mensagem codificada dentre de vinte e quatro horas corrigindo isso, o Grande Panda deveria assumir que Kastor é um “ser perigoso classe A+”, ou seja, um indivíduo de grau de periculosidade mundial.

– Grau de periculosidade mundial?! – repetiu Teigra ao ouvir aquilo, afiando seus olhos e franzindo as sobrancelhas ao ouvir aquelas palavras. – Você... você está completamente insano?! Apenas oito seres em toda a história já foram categorizados dessa forma pelo Colégio Branco, e todos eles já não estavam nesse mundo quando isso foi feito.

– Sim. Considerando que o Coração Azul foi... ou é... um desses seres, apenas faz sentido que Kastor compartilhe a mesma posição que ele, não concorda? – contemplo o mago de gelo, olhando para Teigra com um olhar cansado, sua expressão sugerindo que ele não deveria estar tendo de falar aquilo para alguém como ela. – Um ser perigoso classe A+ é alguma criatura que possui poder o suficiente em suas mãos para destruir o mundo em si, e a mentalidade e índole necessárias para fazer algo assim. Uma criatura tão poderosa e terrível que ela não é só um perigo para a raça humana, mas sim para todas as criaturas que vivem nesse mundo e nos planos paralelos a ele. Considerando que Kastor possui Coração Azul no seu interior e possuiria, nesse caso, uma índole que deixa claro que ele mataria alguém sem muita hesitação caso essa pessoa se mostrasse um problema para ele, não creio que essa colocação seria um exagero... mas ela seria um problema, ah sim, isso com certeza. Como você disse, nunca tivemos alguém merecedor de uma classificação como essa no mundo desde o surgimento do Colégio; todos os que ganharam essa posição receberam-na devido ao que os registros históricos dizem sobre eles. Se Kastor recebesse essa classificação... bem, ninguém pode prever o que exatamente iria acontecer, mas eu apostaria que o Grande Panda iria mover as forças do Colégio contra ele em massa. Essa informação provavelmente não seria repassada para as grandes massas afim de evitar pânico, mas eu não duvido que ele iria investir cada recurso na caçada de Kastor. O mais provável é que antes da virada do ano Kastor estivesse completamente morto, tal como qualquer um que tentasse protegê-lo... o que provavelmente envolveria vocês e o Salão Cinzento em si. – com sua mão direita Shell coçou seu queixo, seus olhos azuis olhando preguiçosamente para o nada, parecendo um pouco pensativos. Kastor não precisava conhecer o homem muito bem para ser capaz de dizer que ele estava imaginando como seria esse cenário, e pelas caretas que Shell foi fazendo, não imaginava que aquilo seria lá muito bom. – É, acho que é uma coisa muito boa que Kastor não tenha me matado. Pra todo mundo.

– Em outras palavras – murmurou Bryen, cruzando os braços enquanto trazia uma carranca insatisfeita em seu rosto, lançando um olhar venenoso a Shell. De todos os seus companheiros, a mulher ruiva era a única que ainda expressava alguma clara hostilidade perante a Shell, embora Kastor não achava que isso era proveniente mais das ações do homem exatamente, mas sim do fato dela simplesmente não gostar daquele mago – o que você está dizendo é que você quase causou a nossa morte?

– Ei, ei, eu estaria morto na hipótese que causaria a morte de vocês. Isso transforma minhas ações em uma troca justa, não concorda? – respondeu Shell, erguendo as mãos em sinal à frente de seu corpo. Pela forma como Bryen continuou a encará-lo mesmo depois disso, Kastor se arriscaria a dizer que ela não pensava da mesma forma do mago. – De qualquer forma, esse não é o caso, então não há porque se preocupar tanto com isso. Eu irei logo mandar uma mensagem até o Grande Panda pedindo para que ele desconsidere aquela parte em questão da minha mensagem anterior.

– E ele vai simplesmente fazer isso assim? – questionou Anabeth, não parecendo muito segura disso. – Se você colocou uma nota como essa na sua mensagem, é apenas normal que ele interprete que isso significa que Kastor é alguém potencialmente perigoso, e isso pode muito bem ser o suficiente para que ele avance contra nós. Além do mais, mesmo que esse não seja o caso, ele pode assumir que descobrimos da sua mensagem através de magias ou tortura e enviamos uma segunda mensagem para impedir a caçada, nos passando por você.

– Essas são possibilidades, realmente – concordou Shell, acenando levemente com sua cabeça – mas, sem ofensas, isso é problema meu. Não se preocupe; eu não vou deixar que vocês sejam caçados agora que seu líder passou no meu... bem, eu suponho que podemos chamar isso de um pequeno teste, certo? Ninguém do Colégio Branco vai fazer mal a vocês, ao menos não por hora, tem minha palavra quanto a isso. – dizendo isso, Shell levantou-se. Girou mais uma vez seu pescoço e esticou-se antes de caminhar alguns passos em direção a Kastor, parando bem diante do cavaleiro azul. Colocou suas mãos nos bolsos e relaxou sua postura, apesar de que qualquer ar despreocupado que ele pudesse trazer era perdido pela forma como ele olhava nos olhos de Kastor. – Agora, apesar disso tudo... eu devo admitir, eu não esperava por essa reação sua, Kastor. Vou ser sincero; apesar do meu teste, eu sempre duvidei que você fosse realmente me atacar; isso simplesmente não parece ser o tipo de coisa que você faz, principalmente considerando o que eu vi de você durante o Torneio de Valhala. No entanto, a minha aposta era que você ia apenas me deixar seguir minha vida. Eu sei que a proposta foi minha, mas eu nunca esperei que você realmente me aceitasse em sua guilda. – uma das mãos do mago saiu de seu bolso, erguendo-se até que seus dedos coçassem levemente seu queixo enquanto ele olhava para Kastor, curioso. – Isso significa que você é mais descuidado do que eu imaginei?

Não falhava em ver as motivações por trás daquelas palavras. Aquele era outro “teste” de Shell, mesmo que o homem não dissesse isso. Ele estava julgando as reações de Kastor, seu modo de agir. Estava julgando a convicção que o cavaleiro tinha no que ele fazia, bem como estava julgando a reação que o azul tinha quando era questionado por alguém quanto as suas ações.

Sabia bem disso, e exatamente por isso tudo que Kastor fez foi virar a cabeça para o lado com um sorriso e falar com a voz mais inocente do mundo:

– Você realmente acha que esse sou eu sendo descuidado, Shell?

Aquelas poucas palavram trouxeram uma tempestade de reações divertidas a Shell. De imediato os olhos do mago de gelo se afiaram ao ouvir aquilo, instintos dizendo ao homem que aquilo podia ser uma ameaça disfarçada. Seu corpo ficou tenso por um instante, mas logo voltou a relaxar. Os olhos dele haviam se tornado violentos como uma nevasca, mas num segundo eles voltaram a ser calmos e pacíficos como um campo de neve. Não sabia dizer se Shell havia se acalmado rapidamente ou se ele estava simplesmente se controlando, e as palavras que ele disse não ajudaram Kastor nisso.

– O que você quer dizer?

– Vamos lá, Shell; você é um cara esperto, você sabe muito bem o que eu quero dizer – retrucou Kastor, confiante. – Como você mesmo disse, não existe muita diferença entre trazer você com o grupo e simplesmente te deixar livre por aí. Você só iria ficar nos seguindo por onde quer que fôssemos, nos espreitando das sombras e reportando tudo ao Colégio Branco. Fazer de você um membro do grupo não só facilita o seu trabalho e me ajuda com eventuais problemas que eu vou encontrar como também me garante outras duas coisas – disse Kastor, erguendo dois de seus dedos para demonstrar seu ponto. Aquilo fez com que uma das sobrancelhas de Shell se erguesse; o mago estava intrigado.

– Muito bem, você tem meu interesse – murmurou ele, olhando por alguns instantes para os dedos de Kastor antes de voltar sua atenção até o cavaleiro. – Quais são essas coisas.

– Primeiro! – anunciou Kastor em alto e bom som, recolhendo um de seus dedos de forma a deixar apenas o indicador a mostra. Sorriu para Shell novamente, não de uma forma amigável, divertida ou confiante como antes, mas sim de uma forma maldosa, malévola. – Você já ouviu aquele ditado, “mantenha seus amigos perto, e seus inimigos mais perto ainda”?

De imediato quando disse aquilo uma brisa fria soprou por ali. Ao lado deles, Ex mostrava-se novamente agitado, começando a caminhar em direção a Kastor, o poder do Tecelão Branco fazendo com que tudo ao redor de sua figura se congelasse quase que imediatamente. No entanto ele não pode avançar mais do que alguns poucos passos antes que tanto Hozar quanto Duke se colocassem em seu caminho. Nenhum dos dois disse nada, mas também, nenhum deles necessitava dizer algo. A postura deles já era o suficiente. “Se quiser chegar a Kastor, vai ter de passar por cima de nós”.

– Segundo! – continuou Kastor, sem se deixar afetar pelas ações de Ex, recolhendo seu último dedo e mostrando apenas seu punho fechado. – Uma vez que você se junte ao meu grupo, você vai parar de enviar relatórios ao Colégio Branco por conta própria!

Aquilo conseguiu surpreender Shell bastante. Não tanto quanto o surpreendeu quando havia aceitado o pedido dele para entrar no grupo, mas ainda o suficiente para que ele mostrasse algumas reações interessantes. Ele tentou não se mostrar muito curioso com aquilo, apenas erguendo levemente uma de suas sobrancelhas, mas isso não enganou Kastor; sabia que ele iria tentar algo assim, e por isso havia mantido seus olhos atentos, e com esses olhos atentos ele viu gestos corporais de Shell que transpareceram de forma mais honesta os pensamentos do mago do gelo.

– Como assim? – perguntou ele em fim, tentando parecer meio desinteressado mesmo enquanto fazia a pergunta. – Não me diga que você acha que assim que eu me juntar a sua guilda eu vou sentir culpa ou coisa do tipo em enviar relatórios ao Colégio Branco e pararei com isso, ou melhor ainda, não me diga que você imagina que a partir do momento em que eu me juntar a sua guilda eu terei um senso de dever por ela maior do que pelo Colégio e por isso pararei de passar informações a isso. Por que se for esse o caso, você vai me desculpar Kastor, mas eu terei de rir muito disso.

– Você não vai precisar rir. Não é nada disso – respondeu Kastor, sem que seu sorriso se abalasse. – A partir do momento em que você se juntar ao meu grupo, os relatórios vão parar, Shell. Isso não vai ser por um sentimento de culpa, nem por um sentimento de dever. Também não vamos ameaça-lo ou tentar silenciá-lo de alguma forma, se é isso que está pensando. Os relatórios vão parar porque você não vai querer mais enviá-los. E isso vai acontecer porque você vai nos conhecer.

– ... Você fala e fala, mas não faz muito sentido – resmungou Shell, pendendo seu corpo pra esquerda. Apesar das palavras do mago, no entanto, era claro para qualquer um que ele estava cada vez mais intrigado com o que ouvia. Seus olhos estavam fixos em Kastor e seus ouvidos estavam bem abertos, atentos a qualquer palavra que fosse dita pelo cavaleiro azul. – Por que eu pararia os relatórios depois de conhecer vocês? Isso não muda nada.

– Errado! – gritou Kastor no mesmo instante em que Shell terminou de falar, assustando o mago do gelo. Caminhou dois passos em direção a ele, aproximando-se ainda mais do Inquisidor, e olhou firmemente nos olhos dele enquanto trazia um sorriso divertido no rosto. – No momento, nós somos estranhos. Você não nos conhece, assim como nós não te conhecemos. Mas isso vai mudar quando começarmos a viajar juntos. Vamos ir nos conhecendo, vamos passar por aventuras juntos, e essas coisas vão ir estabelecendo laços entre nós, vão ir fazendo com que nos tornemos amigos uns dos outros. A partir do momento em que nos conhecermos, você vai se tornar um amigo nosso, Shell. Você se tornará um de nós, e por isso você vai parar com os relatórios.

E essas foram as palavras que quebraram as defesas de Shell. Por um momento depois de ouvi-las os olhos do mago se arregalaram, surpresos por aquilo. Logo, no entanto, a compreensão do que aquilo significava foi caindo sobre Shell, e lentamente um sorriso começou a surgir em seu rosto. E nem bem esse sorriso surgiu, um segundo depois o mago já estava gargalhando abertamente a plenos pulmões, jogando sua cabeça para trás enquanto ria com gosto. Vários pares de olhos pousaram sobre ele, sérios e inquisitivos, mas Shell não deu atenção a nenhum deles; riu tanto quanto queria, e apenas quando terminou com isso foi que ele voltou novamente sua atenção para Kastor.

– Em outras palavras, você diz que eu vou gostar tanto de todos vocês que irei abandonar minha missão original em prol de você e de sua guilda, hein? Hahaha, eu devo dizer, isso é certamente interessante! – com um sorriso no rosto, Shell retirou uma de suas mãos do bolso e a estendeu em direção a Kastor. – Muito bem, muito bem. Veremos se você está correto nessa sua afirmação ou se essas são palavras vazias. Posso me juntar então a Era Dourada, Kastor Strauss?

– Com minha benção, sim – respondeu Kastor, apertando a mão do mago do gelo enquanto também sorria. – Bem-vindo ao grupo, Shell Glace.

=====

Depois de toda a questão de Shell ter sido resolvida, havia decidido que o melhor que podiam fazer era retornar até o armazém no qual estavam antes. Foi Hozar quem deu a sugestão disso, dizendo que deveriam voltar pra lá para tentarem se encontrar novamente com Odin e ver o que havia sido decidido na reunião. Foi aí que Kastor já começou a se ver satisfeito de ter aceitado Shell em sua guilda; definitivamente não havia sido capaz de memorizar nada do caminho durante sua ida, mas Shell lembrava-se bem dele, tal como ele demonstrou ao guiar-lhes de volta sem problemas.

Foi só quando voltaram que se deram conta do quanto haviam demorado com tudo aquilo. Assim que se aproximaram novamente do armazém, uma das primeiras coisas que viram foi a figura de Odin, apoiado na entrada do local de braços cruzados enquanto conversava com Soulcairn e Syd. Não demorou para que ele notasse a aproximação do grupo, e assim que o fez ele tratou prontamente de avisar aos seus companheiros disso. A conversa parou de imediato no momento em que viram a aproximação de Kastor e dos outros, e o azul foi perceptivo o suficiente para notar que os três homens direcionavam a maior parte de seu foco à Shell, cada um de uma forma diferente; Soulcairn parecia irritado e insatisfeito, enquanto Sydwel parecia levemente intrigado e curioso, e Odin por sua vez demonstrava meramente estar um pouco interessado.

– Presumo que você seja aquele do qual me avisaram – disse o Cavaleiro Negro em alto e bom tom enquanto eles ainda se aproximavam. – Shell Glace... um dos Inquisidores do Colégio Branco, não é? – Ah, sim. Por sinal, gostaria de gritar isso um pouco mais alto, cavaleiro? Não acho que as pessoas do outro lado do continente te ouviram tão bem assim – resmungou sarcasticamente Shell, parecendo pela primeira vez realmente incomodado com alguma coisa. – Sim, sim, eu sou o Inquisidor... apesar de que eu preferiria que você não me chamasse por esse título, Odin.

– Ah, perdão. – desculpou-se apressadamente Odin, balançando a cabeça. – É só que... devo dizer, eu estou surpreso – você não me parece nada surpreso, pensou Kastor. – Eu já havia ouvido rumores sobre os Inquisidores, mas eles nunca haviam sido confirmados. Mesmo para alguém na minha posição, a existência de vocês era uma grande incógnita. Conhecer um de vocês e ainda por cima ter esse como aliado... bom, você deve imaginar que eu não esperava por essa.

– É, eu sei, nós somos fodões, sim, é normal que você esteja maravilhado – disse Shell, balançando afirmativamente a cabeça. – Só que, se possível, você poderia parar de falar dos Inquisidores? Sabe, eu entendo que o princípio pode meio que ter se perdido uma vez que eu informei a algumas pessoas a minha intensidade, mas isso supostamente deveria ser um segredo! Se essa informação vazar, eu vou ter um destino bem desagradável?

– Ei, que mal você pode sofrer? – comentou Duke de forma desdenhosa, um sorriso travesso em seu rosto. – Você mesmo disse, o seu líder é um Panda. Pandas são inofensivos!

– Realmente, Pandas dificilmente batem em alguém ou coisa do tipo, mas o Grande Panda é terrível! – afirmou Shell, aparentemente levando a sério o comentário de Duke. – Eu ainda me lembro... da última vez que alguém fez algo assim, o Grande Panda encarou firmemente essa pessoa. Ele não disse nada, apenas a encarou com uma cara feia sem desviar o olhar em momento algum. E diante de seus olhos essa pessoa pegou uma corda e um banquinho, e sem hesitação a pessoa cometeu suicídio na frente dele!

– Suicídio?! – exclamou Kyanna, seus olhos arregalando-se ao ouvir aquilo. – Mas... por que?!

– Por influências externas, obviamente – declarou Hozar, cruzando seus braços. O maxilar do cavaleiro estava rígido, seus olhos duros, olhando diretamente para Shell. – Ele usou alguma magia, Glace?

– Não. – respondeu Shell, meneando sua cabeça negativamente. – Ele não necessitou usar de magia para algo assim. O Grande Panda é alguém forte, alguém extremamente forte. Ele é provavelmente o mago mais forte do mundo no momento, talvez tão poderoso quanto figuras lendárias como a Rainha dos Espinhos, o Imperador do Norte ou o Juggernaut. E sendo tão forte assim, ele possui o que alguns chamam de “Vontade do Soberano”.

– Vontade do Soberano? – repetiu Bryen, franzindo o cenho. – Que raios é isso?

– Essa eu sei responder – disse Syd, manifestando-se. Pelo que havia visto do homem mais cedo, Syd parecia ser alguém que estava quase sempre sorrindo ou brincando, mas naquele momento ele estava completamente sério e compenetrado. – A Vontade do Soberano é... dominação, basicamente. O maior tipo de dominação já criado. Ela se manifesta naturalmente em certas pessoas depois que elas atingem um determinado nível; segundo os rumores, quando um humano supera os limites de sua raça e tem seu poder avançando no território dos Deuses, ele ganha acesso a isso. A Vontade do Soberano é uma força de espírito tão grande e terrível que ela é capaz de subjugar outros espíritos. Em outras palavras, ela é uma vontade tão poderosa que faz com que os outros a obedeçam. Pelo que textos antigos dizem, quando uma pessoa manifesta a Vontade do Soberano sobre outra, essa segunda é forçada a fazer o que quer que a primeira queira, mesmo que seja contra sua vontade. Um homem que ama sua família pode ser forçado a matar sua esposa e filha com as próprias mãos, por exemplo, e ele será incapaz de parar enquanto a Vontade estiver se manifestando sobre ele. E o pior: aquele que está sobre o efeito dessa vontade está ciente de tudo que ele faz, ao mesmo tempo em que ele simplesmente não tem forma alguma de parar isso.

Ouvir aquelas palavras foi o suficiente para fazer com que um calafrio corresse pela espinha de Kastor. Subjugar a vontade dos outros... isso significa tirar o livre-arbítrio de alguém, reduzir uma pessoa a pouco mais do que uma marionete de carne. Era no mínimo perturbador considerar que haviam pessoas no mundo que tinham um poder como esse, e o pensamento de que havia mais de um na posse de uma habilidade como essa só fazia piorar as coisas. Pelo que Shell disse, existem quatro pessoas com essa habilidade: esse tal de “Grande Panda”, Xelia Sunfyre, Ember Vyhler e Jiazz “o Juggernaut”. Desses quatro, apenas Jiazz não está envolto em alguma posição de liderança, ao menos não que eu saiba. Se essas pessoas possuem a habilidade de fazer com que as pessoas se sujeitem a sua vontade assim, eu tenho de me perguntar... será que aqueles sobre o seu comando não estão sendo controlados por algo assim? Na verdade, agora que penso nisso, Shell disse que pessoas excepcionalmente poderosas possuem essa habilidade, certo? Considerando que a maior parte dos impérios que o nosso mundo já viu foram criados por pessoas extremamente poderosas... isso significa que a maior parte dos impérios da nossa história foram criados por uma habilidade como essa?

– Muito bem, como queira – disse Odin, interrompendo os pensamentos de Kastor. – Não irei me referir mais a você pelo seu... título, por assim dizer. Isso dito, creio que você deve saber que irei ter uma conversa em particular com você mais tarde em relação a isso e o que isso significa, certo? Esse não é o tipo de coisa que eu posso ignorar, e as informações que você passou até agora não são estão nem perto de serem o suficiente.

– É, eu imaginei que algo desse tipo iria acontecer – suspirou Shell, resignado, afundando sua cabeça entre os ombros. – Me chame quando quiser começar o interrogatório.

– Não seja exagerado. Não é esse o caso e você sabe bem disso – censurou Odin, voltando sua atenção para Kastor e Hozar. – Quanto a vocês... bom, suponho que vocês já devem imaginar que tenho notícias para os dois, não é?

– Mas é claro! – concordou Kastor. – É por isso que viemos atrás de você, afinal.

– Quando você e os outros se afastaram, foi dito que vocês iriam se reunir, certo? – perguntou Hozar, mais sério do que Kastor. – Vocês criaram um plano de ação, um plano para lidarmos com o Olho Vermelho, não criaram, Odin? Conte-nos sobre ele. Essa é nossa luta, afinal de contas; temos uma obrigação de participar dela. E não podemos deixar que o Olho Vermelho saia ileso depois do que fez.

Odin ouviu em silêncio as palavras de ambos, sem dizer nada. Foi só depois que tanto o azul quanto o cinzento terminaram de falar foi que ele se manifestou, movendo seus olhos para Shell em um sinal bem claro. O que? Ele não confia nele? Supunha que esse podia ser o caso considerando que ele havia descoberto há não muito tempo que Shell fazia parte dos Inquisidores, mas ao mesmo tempo não via como aquilo deveria importar ali. Afinal de contas, a lealdade de Shell jaz com o Colégio Branco, não com o Olho Vermelho. Não há o que te-

Foi só então que se deu conta do verdadeiro problema naquela situação. Balak... ele é um dos membros do Colégio Branco. Mais especificamente falando, Balak era um dos Seis Tecelões, um dos seis magos mais poderosos do Colégio, um dos homens que reinava supremo na hierarquia deste. Pelo que Shell disse, o Colégio é contra Balak, chegando ao ponto em que Shell e ele lutaram... mas isso é o que ele diz. Pode ser justamente o contrário. Pode ser que os dois estejam cooperando entre si. Além do mais, segundo as próprias palavras de Shell, ele esteve por algum tempo sobre o controle de Balak. Segundo ele, esse já não é mais o caso, mas novamente, é apenas a palavra dele que afirma isso; a possibilidade de que Balak ainda tenha algum tipo de controle sobre ele ou que se mantenha ciente das ações de Shell é bem real, e não podemos contar muito com a sorte no que diz respeito a isso. Tendo aquilo em mente, o olhar de Odin fazia mais sentido.

– Sim, nós fizemos planos, Hozar... apesar de que não nos aprofundamos muito neles. Existem muitas variáveis que ainda temos de levar em consideração e muita coisa que deve ser planejada que ainda não tivemos tempo pra planejar. Vamos gastar algum tempo com isso ainda. – disse o velho cavaleiro, voltando a olhar para Kastor e Hozar. – Isso dito, já temos alguma base de um plano em mente, apesar de que não poderemos trabalhar muito em relação até que uma determinada pessoa seja contratada para a nossa causa.

– Contratar mais alguma pessoa? Você quer dizer, mais mercenários? – pela forma como Teigra ergueu uma sobrancelha ao ouvir aquilo, era claro o que ele pensava disso. – Isso é realmente necessário, Odin? Com todos os estragos que o Salão sofreu durante a batalha, vamos gastar muito dinheiro com reparos, e além do mais, já temos muito mercenários. Breath, Blair, Zetsuko, Syd, Denis... e além disso, imagino que boa parte das pessoas que vi hoje são também mercenários e mercenárias contratados pelo Salão. De que diferença faz um a mais ou um a menos? Deveríamos estar poupando nossos recursos, não procurando outras formas de gastá-los.

– Sim, esse seria um princípio a se seguir – concordou Odin – mas ao mesmo tempo, esse é um princípio que não podemos seguir no momento, Teigra. Antes de nos preocuparmos com os reparos, temos de nos preocupar em vencer essa guerra. E para conseguirmos a vitória, vamos precisar dessa determinada pessoa do nosso lado.

– Odin irá partir em breve em busca dessa pessoa – complementou Soulcairn, olhando para os outros enquanto falava. – Temos uma ideia de onde ela pode estar, então isso não deve demorar mais do que o necessário, mas mesmo assim será pelo menos cerca de uma semana; tempo demais para simplesmente desperdiça-lo. Sendo assim, enquanto Odin vai contratar essa pessoa, eu irei implementar um regime de treinamento especial no qual trabalhei junto com um aliado nosso, Ek-

– Ekhart do Coração Negro – completou Kastor, gesticulando com a mão que já sabia disso. – Sim, sim, eu me encontrei com ele algum tempo atrás. Cara gente boa. Pelo que ele disse, eu vou treinar sobre a tutela dele, Hozar sobre a tutela de um dos companheiros dele chamado Mefisto, Duke treinará sob a sua supervisão e assim sucessivamente, certo?

– ... Humpf. Se você já sabe, isso apenas facilita as coisas pra mim. Sim, vocês serão treinados por tutores particulares durante esse tempo... e cada um será treinado em um local diferente. Com exceção de Teigra, que permanecerá aqui na cidade junta de Syd, vocês e seus respectivos tutores irão para um local específico fora da cidade afim de treinar. As Terras Velhas possuem uma história carregada e uma grande concentração e poder no ar, uma aura própria especial; em determinados pontos essa aura pode ser utilizada ao nosso favor, e é isso que iremos fazer. Com a ajuda dessas auras, uma hora de treino irá evoluir seu corpo pelo equivalente a vinte e quatro horas de treinamento contínuo. Sendo assim, mantendo um regime de doze horas diárias de treinamento, com tempo para refeições, descanso e relaxamento necessário, essa semana de treino deverá equivaler a cerca de três meses de treinamentos ininterruptos. Com alguma sorte, isso vai ser o suficiente para colocar você e sua guilda no nível necessário para que enfrentem o Olho Vermelho, Strauss.

– Essas auras parecem bem interessantes – murmurou Shell, aproximando-se um pouco. O olhar de Soulcairn caiu imediatamente sobre o mago do gelo, fulminante, nem um pouco amigável. – Poderia me informar de um local com essas auras no qual eu poderia treinar? Tenho interesse em me preparar também.

– O treinamento é para os membros da Era Dourada, Inquisidor, e apenas para os membros da Era Dourada – declarou Soulcairn, frisando bem o título de Shell ao cuspi-lo como se fosse uma praga.

– Eu sei. É exatamente por isso que estou te perguntando: eu tenho a ligeira impressão que você esqueceu de me colocar entre os outros, Destruidor de Mundos – gracejou o mago, sorrindo de uma forma que passaria por inocente normalmente, mas que em uma situação como aquela apenas deixava claro o grande sarcasmo dele. – Você pode não saber, mas eu sou um membro da Era Dourada agora. É apenas natural que eu tenha o mesmo tipo de treino dos outros, não?

Os olhos de Soulcairn se arregalaram de uma forma que seria hilariante ao ouvir aquilo, não fosse pelo fato de que logo em seguida o Destruidor de Mundos voltou seu olhar para Kastor de forma fulminante, encarando o cavaleiro com um ódio que parecia sugerir que ele iria bater no azul se Odin não estivesse ali. Mostrou-lhe um sorriso amarelo e acenou lentamente de forma positiva com sua cabeça, o que apenas fez que ele se irritasse ainda mais. Com um grunhido de repugnância Soulcairn jogou sua cabeça para trás e balançou-a negativamente, negando-se a dar qualquer resposta a isso, deixando esse dever cair sobre Odin.

– Ao sudoeste daqui há uma determinada área da floresta que está sobre os efeitos dessa aura, se eu não me engano – disse o Cavaleiro Negro, coçando levemente seu queixo enquanto falava. – Eu não sei se esse é necessariamente o seu tipo de lugar favorito para treinar, mas a aura pode lhe ajudar o suficiente para compensar por qualquer problema que você possa ter com o lugar em si. Só que não temos nenhum tutor preparado para você, Shell. Algum problema quanto a isso?

– Absolutamente nenhum – respondeu Shell. – Eu estava planejando treinar junto do meu irmão, de qualquer forma. Acho que esse tipo de treino pode ser mais benéfico já que temos estilos similares e conhecemos nossas táticas, o que permite que trabalhemos para fortalecer nossas habilidades.

– Como você preferir. – concordou Odin rapidamente, de uma forma que deixou bem claro que ele não se importava muito com quem ou o quê treinasse Shell. – O local é um pouco longe e sua localização não é simples o bastante para que eu possa simplesmente lhe dizer aonde ele fica, então vou depois lhe passar um mapa da área com sua localização marcada, certo? O ideal seria que eu enviasse um guia com você, mas sendo franco, temos poucos cavaleiros do Salão ainda em condições de fazer alguma coisa, e os que conhecem o local já estarão ocupados com alguma outra coisa. Ainda assim, confio que você vai ser capaz de chegar ao local sozinho – declarou o Cavaleiro Negro, acenando rapidamente com sua cabeça. Sem nem um momento para esperar alguma resposta de Shell ele tornou a se virar, agora focando sua atenção sobre Kastor e o resto de seu grupo. – Por sinal, um aviso a vocês que vão treinar; durante o seu treinamento, existe a possibilidade de que em algum momento ocorra alguma coisa aqui que chame a atenção de vocês. A possibilidade de que o Olho Vermelho lance algum ataque contra a cidade novamente para tentar eliminar quaisquer sobreviventes é real, afinal. Caso isso aconteça, não interrompam seu treinamento, não tentem se envolver nisso. Lembrem-se; esse treinamento está sendo feito exatamente porque vocês ainda não estão em condições de enfrentar o Olho Vermelho corretamente. Não sejam impulsivos e façam alguma besteira. E sim, eu estou me referindo a você quando digo isso, Kastor.

– Ei! – protestou o cavaleiro azul, apesar de que não foi muito longe em seus protestos. Gostava de pensar que depois da lição de Hozar havia se tornado um pouco mais sério e responsável no que dizia respeito a... bem, tudo, mas compreendia que ainda não havia tido a chance de realmente provar se estava certo, e por isso iria ter de aguentar ser tratado de formas como aquela, pelo menos por enquanto.

– Se o Olho Vermelho atacar, deixem que os outros lidem com isso. Temos mercenários na cidade para nossa defesa, e cavaleiros como Enderthorn e Senjur permanecerão aqui, o que significa que a cidade estará longe de estar indefesa enquanto estivermos fora. Teigra, já que você irá permanecer aqui, quero que busque abrigo ou evacue a cidade no caso de um ataque, entendido? – o olhar de Odin caiu sobre Teigra de forma séria e dura ao dizer aquilo, e ele não moveu seu olho até que a mulher acenasse lentamente de forma afirmativa com a cabeça, meio a contragosto. – Entendam bem isso; considerando o nosso poder militar atual e poder militar que o Olho Vermelho possui a sua disposição, nós precisamos de vocês sete... ou oito... como reforços. Essa é a única forma de termos poder o suficiente para revidarmos contra o Olho Vermelho. Então... não façam besteira, nenhum de vocês. Não quero voltar para encontrar os corpos de meus discípulos. Quero voltar para que possamos buscar vingança.

=====

– Hmm... sabe, Ekhart, eu devo dizer. Sei que você e eu possuímos demônios dentro de nós, mas isso é realmente... desconfortável, para mim.

Haviam acompanhado Odin até os portões destruídos da cidade, seguido seu pai adotivo até onde podiam. Foi ali que se encontraram com seus respectivos tutores em seus treinamentos. Não tinha muito que podia dizer sobre eles; sua opinião sobre Mefisto e Ekhart ainda não estava totalmente formada depois de tudo que eles fizeram e de tudo o que disseram, e os outros simplesmente não exibiam nada que merecesse maiores comentários. Havia visto Maoh, Soulcairn e Syd antes, e todos os três mantinham-se tal como antes, a única diferença sendo que agora Maoh se cobria com um casaco branco e uma camisa preta. Valery parecia estar ferida, demonstrando alguns sinais de dor em certos momentos, mas não parecia muito ruim; apenas acenou pra ela quando a viu, e sua ex-namorada retribuiu o aceno. A única que realmente parecia de alguma forma mais diferente do normal era Titânia... mas mesmo ela apenas parecia mais irritada, e a Caçadora de Corações nunca foi exatamente uma mulher calma. Aquilo não era tão diferente assim... e francamente, não era algo no qual Kastor planejava se envolver; já havia apanhado o suficiente nas mãos dela para saber que não deveria irritar aquela mulher.

Depois de se encontrarem com seus respectivos tutores, cada um dos membros da Era Dourada foi guiado por estes até o seu local de treinamento. Não tinha a menor ideia de onde os outros estavam treinando – não lhe informaram disso, algo que julgava ser proposital para impedir que um perdesse tempo visitando o outro – mas esperava que eles tivessem tido mais sorte do que ele. Ekhart havia lhe guiado pela floresta ao oeste do Salão Cinzento, seguindo por trilhas dela a muito não usadas, quase desaparecendo em meio a mata. Passaram um bom tempo se aventurando por ela – bem mais do que Kastor gostaria de passar – até que por fim emergissem no local de seu treinamento... uma gloriosa cabana com tamanho suficiente para ter apenas um cômodo que parecia tão velha que o cavaleiro azul não ficaria surpreso se descobrisse que ela estava ali desde o início dos tempos. Vinhas cresciam ao redor dela e até mesmo dentro da cabana, e de tão podre que ela parecia, Kastor estava honestamente surpreso que ela não fosse derrubada por uma brisa qualquer que soprasse ali por perto. Desnecessário dizer, ele estava menos do que entusiasmado com aquilo, mas não parecia que Ekhart se importava muito com a opinião dele; sem dizer uma palavra o Coração Negro avançou para dentro da cabana, deixando a Kastor pouca alternativa além de acompanha-lo.

Do lado de dentro a cabana não era muito melhor do que parecia por fora... o que era uma forma delicada de dizer que ela era uma merda decaída. De imediato o cheiro de madeira podre assaltou as narinas de Kastor com agressividade, fazendo com que o azul ficasse até um pouco tonto por um instante e forçando-o a balançar a cabeça para recobrar alguma noção de onde estava. O ambiente era desconfortavelmente escuro, ao ponto que Kastor mal podia ver sua própria mão quando a erguia em frente ao rosto. Sem janelas ou buracos por onde a luz pudesse entrar, aquela cabana não era muito diferente de uma caverna profunda; a única coisa que ainda provia algum tipo de iluminação provinha das velas acessas ali... e mesmo isso fazia mais perturbar Kastor do que ajudar-lhe de alguma forma. As velhas estavam posicionadas bem no centro da pequena cabana, colocadas cuidadosamente sobre as bordas de um estranho círculo desenhado com giz branco, grande o suficiente pra que coubesse um homem dentro dele, repleto de desenhos e formas que faziam com que ele parecesse um tanto quanto... demoníaco.

E era exatamente para esse círculo que Kastor estava olhando enquanto falava, questionando as intenções do Coração Negro.

– Esse não é um símbolo satânico ou demoníaco, se é isso que você está imaginando – murmurou Ekhart da escuridão na qual se encontrava. O homem estava apoiado em uma das paredes laterais da cabana (que por algum milagre divino não caia sobre a pressão de seu peso), um tanto quanto distante das velas, o que fazia com que ver ele fosse uma tarefa no mínimo difícil. A maior parte de seu corpo estava oculta pela escuridão daquele ambiente; a única parte dele que Kastor realmente conseguia ver era metade de seu rosto, e nada mais. De resto, o máximo que conseguia captar era o contorno do corpo do corpo do portador do Coração Negro. – Essa é uma runa. Uma temporária, mas uma runa. Infelizmente não sou abençoado com o dom da magia, mas passei algum tempo em Carcino, o suficiente para aprender um pouco sobre artes como a alquimia e sobre as runas. – com um de seus dedos ele apontou para um pedaço em particular dos desenhos dentro do círculo, uma parte que, ao menos para Kastor, parecia tratar-se de um cachorro correndo atrás de um gato. – Vê essa parte, por exemplo? Esse é um desenho de “amplificação”, algo que usamos quando queremos fazer uma runa amplificadora. Ele é vital, mas, claro, sozinho ele não faz nada. Afinal, de que adianta você dizer que quer amplificar algo se você não específica exatamente o que você quer amplificar? É por isso que acrescentamos desenhos para desenvolver uma runa. – moveu seu dedo para outro ponto, dessa vez apontando para um desenho que parecia se tratar de... um homem... de terno... dando socos num tubarão. – Essa é a parte do desenho da runa que remete a “mente”. Não preciso explicar muito o que isso significa, certo? Esse tipo de desenho é o que usamos para envolver a mente no efeito de alguma outra runa. Mas que parte da mente em específico? A criatividade? O pensamento? A concentração? A memória? Isso é algo que também devemos especificar com o auxílio de outra runa. – mais uma vez ele moveu seu dedo, e dessa vez ele o deixou pairar sobre o que certamente era o desenho de um poodle. Com uma bengala. E um monóculo. E uma cartola. Raios, essa cartola parece fabulosa. Eu preciso de uma cartola. – Esse desenho significa “concentração”. Por si só, ele não faz nada, mas como você deve ter percebido, todos os desenhos que compõem uma runa não fazem nada sozinhos. É por isso que eles existem em uma runa. Para juntar os poderes deles uns aos outros e fazer com que... bem, com que eles façam alguma coisa. Isso dito, só colocar os três desenhos no mesmo lugar não é o suficiente; você precisa liga-los entre si, e para isso você precisa de desenhos de ligação. – e ao dizer aquilo Ekhart moveu novamente seu dedo, apontando para um desenho acima dos outros três; esse ao menos era um tanto mais normal, sendo uma mera cruzinha de adição, e isso era tanto um alívio quanto uma decepção para Kastor. – Com esse sinal eu mesclo as utilidades de todos os desenhos em uma única forma, uma runa, e posso utilizá-los de forma eficaz. Um processo um tanto quanto interessante, não concorda?

– ... Pergunta. – murmurou Kastor, sentindo uma de suas sobrancelhas contorcendo-se enquanto falava, pulsar como se tivesse criado vida própria. – Por que você me explicou tudo isso?

– Conhecimento útil. – respondeu Ekhart, simplesmente. Tão simplesmente que Kastor por um longo momento imaginou que o homem iria dizer mais alguma coisa para acrescentar a isso, e quando ficou claro que isso não iria acontecer, Kastor se irritou ainda mais.

– Muito bem, então, próxima pergunta. – resmungou o cavaleiro, como se estivesse cuspindo uma praga. – Eu vou ter que sentar no meio desse círculo de merda, certo?

– Na verdade, esse círculo é feito de giz, não mer-

Só responde a porra da pergunta.

– Sim.

– Ótimo! – exclamou o cavaleiro num tom que deixava claro que aquilo não era ótimo. – Então, me responda só mais essa pergunta, sim? Se eu vou sentar na droga do círculo, a minha bunda não vai apagar esses malditos desenhos?

– Sim, provavelmente – concordou Ekhart, acenando com sua cabeça. – Foi por isso que fui cuidadoso. Estabeleci as runas no teto e fiz uma interligação entre a parte superior e a inferior da cabana. Desde que o círculo permaneça intacto, isso deve funcionar.

Sua ira ao ouvir aquilo só não foi maior do que sua surpresa. Mal acreditava no que o Coração Negro havia acabado de dizer, mas mesmo assim ergueu sua cabeça... e ao fazer isso, viu que ele estava dizendo a verdade. No teto, bem acima do círculo do chão de forma sincronizada, jazia um outro círculo de proporções iguais, apesar de que os desenhos em seu interior eram bem diferentes, símbolos místicos que Kastor não conseguia nem começar a tentar entender. Olhou para aquilo por um momento, tentando fazer sentido disso tudo em sua mente, e depois voltou um olhar aborrecido para Ekhart.

– Se o maldito círculo está no teto, por que me mostrou o do chão? E por que os desenhos são diferentes?

Ekhart sorriu de uma forma quase apologética.

– O círculo do chão é apenas interligado. Ele recebe os poderes do círculo do teto, desde que mantenha a mesma forma e proporção deste. Seu interior pode ser preenchido da forma como eu bem entender que isso não fará diferença alguma, contanto que eu não modifique o formato básico do círculo com isso. – afastou-se da parede na qual se apoiava e aproximou-se de Kastor ainda sorrindo, seus passos lentos, um atrás do outro, deixando que pouco a pouco a luz da vela reluzisse sobre ele. – Os desenhos no círculo do chão são apenas... coisas aleatórias, imagens sem importância que vieram à minha mente. Uma pequena distração que eu me arranjei enquanto esperava por essa hora. Devo dizer, valeu a pena; isso foi bem trabalhoso, mas para ver a sua cara enquanto você olhava essas figuras bizarras, eu faria isso de novo e de novo sem perder tempo.

Uma careta de irritação dominou o rosto de Kastor ao ouvir aquilo. Por um momento ele considerou se não seria uma boa ideia socar o rosto de Ekhart, apenas para dar vazão à parte de sua raiva e frustração, mas acabou decidindo contra isso. Isso não é sério o suficiente para merecer algo assim, pensou o azul, e além do mais, considerando o que ele já demonstrou, eu provavelmente seria o que sairia perdendo de algo assim. Por fim, acabou por apenas suspirar e murmurar, ainda meio irritado.

– Cara, eu estou rapidamente começando a te odiar.

– Que pena. E eu pensei que nos tornaríamos grandes amigos – gracejou Ekhart, gesticulando com a mão direita. – Agora, vamos para o que importa, sim? Tire todas as suas vestimentas da cintura pra cima e sente-se de pernas cruzadas no centro do círculo. E tome cuidado com as bordas; por mais que eu possa refazer tudo caso você estrague algo, isso é um grande porre.

Ouvir aquilo quase fez com que Kastor ferrasse as bordas daquilo apenas para irritá-lo, como uma espécie de revanche pelo de antes, mas acabou decidindo contra isso, e em silêncio começou a remover sua armadura. Sabe, isso é bem estranho, refletiu ele enquanto se despia. Eu estou aqui. No meio de uma floresta. Numa cabana abandonada. Tirando a roupa enquanto um homem me observa.

... Isso parece o tipo de cena que você veria em um livro romântico homossexual bem ruinzinho. O que é mais do que um pouco perturbador.

Empilhou as peças de sua armadura em um canto qualquer da cabana, esticou um pouco seu corpo e seguiu para o círculo. Tomou cuidado para não danificar a estrutura desse e ficou satisfeito ao notar que esse era grande o suficiente para que seu corpo coubesse bem ali. Sentou-se de pernas cruzadas tal como havia sido orientado, e só depois voltou seu olhar para Ekhart.

– Muito bem – disse o Coração Negro – agora, feche os olhos. – fez como foi pedido, e meros momentos depois disso, ouviu os sons de movimento. Pelo que podia dizer de olhos fechados, Ekhart estava caminhando ao redor dele, dando a volta para trás de Kastor, e isso foi confirmado quando sentiu uma mão pousar em sua cabeça por trás, forçando-a levemente para baixo, como se estivesse tentando fazer com que Kastor olhasse dentro de si mesmo. – Concentre-se, Kastor. Agora, preciso que você se concentre em si mesmo, em seu interior. Mergulhe dentro do seu ser, vasculhe os seus próprios confins. Busque por Coração Azul; quando você encontra-lo, será a minha vez de agir.

Tentou fazer o que ele dizia, mas isso não era assim tão fácil. Dizer para você “procurar dentro de si mesmo” é bem fácil e bonito, mas como raios eu devo fazer isso? Pensou que isso poderia ser através de suas memórias, mas vasculhando-as não sentiu nada surtir efeito algum. Depois, tentou limpar completamente sua mente, mas isso também não foi efetivo. Frustrado com aquilo, estava prestes a pedir mais orientações para Ekhart... quando então finalmente compreendeu o que ele queria dizer. Mergulhe dentro de si mesmo... vasculhe os seus próprios confins... Aloeiris. De certa forma, Coração Azul não era nada mais do que uma alma aprisionada dentro dele. Que forma melhor de encontrar uma alma como essa do que procurando-a perto de sua alma?

Assim que tentou fazer isso algo estranho aconteceu. Um brilho intenso surgiu a sua frente. Um brilho como o do sol da manhã, capaz de cegar qualquer um que ouse olhar para ele, mas muito mais intenso, vindo da própria mente de Kastor. Grunhiu em frustração diante daquilo, tentou se afastar desse brilho de alguma forma, mas tal como imaginava, não teve sucesso. A frustração e a sensação terrível que tinha fizeram com que se descontrolasse, e antes que se desse conta disso, estava abrindo seus olhos.

E quando eles se abriram, deu de cara com algo extraordinário.

Diante de seus olhos, uma paisagem verde e azul se estendia. Uma grande floresta se estendia até o horizonte, com rios de um azul limpo correndo pelo meio dela, cortando-a de forma maravilhosa. Não estava sentado vendo isso, mas sim em pé, cima do que parecia ser um grande desfiladeiro. Devia estar a centenas de metros do chão, mas mesmo assim conseguia ouvir os sons da floresta perfeitamente, como se ressoassem do lado de seu ouvido. Uma leve brisa soprou, balançando os cabelos do cavaleiro enquanto ele ainda tentava compreender o que era tudo aquilo.

– Mas... tudo isso... como é... como isso é...

– Nada disso é real, antes que você pergunte – disse uma voz já conhecida por Kastor. Seu rosto virou-se na direção dela de imediato, e logo viu Ekhart há cerca de cinco metros dele, de braços cruzados enquanto observava o azul. – Estamos dentro de você nesse momento, Kastor. Literalmente. Sua mente está em transe, mergulhada dentro das suas próprias profundezas, e eu também movi minha própria consciência pra cá para que pudesse lhe ajudar.

– Me ajudar? – repetiu Kastor, confuso. – Com o quê?

– Com ele – respondeu Ekhart, apontando com o polegar por cima do ombro para trás.

Ainda não havia entendido o que Ekhart queria dizer com aquilo, e por isso virou-se na direção para a qual ele apontava com uma sobrancelha erguida, ainda confuso.

A compreensão veio a ele bem rápido assim que virou seu rosto naquela direção.

Ao longe de onde Kastor e Ekhart estavam, erguia-se de gigantesco pico de pedra, como se fosse um espinho gigante que tentava arranhar os céus. Aquilo por si só já era admirável, mas não era nada se comparado ao que estava nele. Um par de pernas cobertas por rudes escamas azuis se agarravam ao pico, servindo de suporte ao monstruoso ser que se apoiava ali; uma aberração, um dragão gigantesco de forma humanoide, com seu corpo cobertos por escamas azuis, cada uma dessas escamas sendo tão grandes quanto uma casa. Das costas dele vinha uma cauda gigantescamente longa, parecendo ser uma cobra monstruosa, a rainha das serpentes. Suas asas estavam abertas, e a mera sombra que cada uma delas fazia era grande o bastante para envolver toda uma cidade na escuridão. Sua boca estava aberta, deixando à mostra dentes brancos afiados, cada um deles do tamanho de um mamute, enfileirados aos milhares. Não tinha ouvidos; no lugar deles ou de algo similar, tudo o que aquela criatura tinha eram buracos que pareciam servir de alguma forma para que o dragão captasse sons, e mesmo de onde estava, a sensação que Kastor tinha ao olhar para eles é que se tratavam de buracos sem fundo. Seus olhos – completamente azuis e brilhantes como se fossem feitos de pura energia – estavam fitando diretamente Kastor com algum interesse, e isso só fez com que o cavaleiro engolisse em seco. O quê... o quê é essa coisa?! Recuou instintivamente um passo para trás, e isso pareceu motivar o monstro a se aproximar; inclinando seu corpo em direção ao cavaleiro, Kastor pode logo dar de cara com ele muito mais próximo de si do que gostaria, sua mera cabeça sendo tão grande que praticamente toda a sua visão era obstruída apenas por ela.

Por alguns momentos o monstro não falou nada, apenas ficou em silêncio observando Kastor de forma curiosa e até um pouco cuidadosa. Foi só quando ele pareceu se dar por satisfeito que ele falou, e sua voz veio com a força de mil trovões.

Então... finalmente nos encontramos, hein? Pirralho maldito. – murmurou o dragão, com uma voz que Kastor conhecia muito bem. A voz do que chamavam de “Coração Azul”.





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