O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 40
A Terra do Céu de Sangue


Notas iniciais do capítulo

Yo!

Então, esse capítulo demorou um pouco a sair, hum?

Bom, tenho justificativas pra isso, até que simples para ser sincero. Esse é o último capítulo desse arco (ARCO, não saga), então eu tive de trabalhar algumas coisinhas nele que vocês devem notar ao ler. Além disso, eu fiquei gripado semana passada, e isso atrasou meu ritmo. Some a isso o fato de que quanto mais tempo gasto em um capítulo mais eu demoro para escrevê-lo, e vocês devem conseguir entender o porquê de toda essa demora.

Mas, bem, ai está! Aproveitem!



OS PUNHOS DO GIGANTE MOVIAM-SE COM FORÇA PRA DIREITA E ESQUERDA, mas por mais rápido que seus golpes fossem ou por maior que fosse o poder destrutivo que eles traziam, nenhum deles chegava sequer perto de atingi-la. Dançava para fora do seu alcance a todo instante, apesar divertindo-se com as ondas destrutivas que os ataques do Terror dos Dragões geravam, arrancando grandes pedaços de pedra como se não fossem nada e jogando-os facilmente ao ar. Ele é forte, tão forte quanto os rumores dizem... mas suponho que sou a pior oponente que ele podia esperar enfrentar. Ezequiel aparentemente se desempenhava muito bem contra oponentes mais focados no combate direto como Bertold, mas esse não era o caso de Tristah, e isso estava dando dificuldades a ele.

O punho do gigante ergueu-se alto, gerando uma sombra grande o suficiente para cobrir o rosto de Tristah. Oh, aí vem um golpe forte. Com um fino sorriso no rosto ela esperou por um instante que o golpe viesse para só então reagir, evitando-o ao tempo certo – no momento ideal para evitar tanto o golpe em si como a onda de impacto dele. O punho de Ezequiel quebrou a terra e cravou-se no chão, algo que certamente não iria segurar o grande cavaleiro, mas que ainda assim era o suficiente para lhe atrasar o bastante para que ela pudesse agir. Pisou sobre as costas do cavaleiro, apoiando-se por um momento nelas antes de tornar a saltar, e enquanto estava no ar, esticou o indicador e pai-de-todos de ambas as mãos; com um movimento rápido dessas, criou ondas de ar tão afiadas quanto navalhas que avançaram diretamente contra seu oponente. Ambas as lâminas que gerou atingiram o gigante em cheio... mas apesar disso, nenhuma delas fez nada. Apesar de acertarem em cheio, nenhuma de suas lâminas foi o suficiente para atravessar a armadura dele. Hum. Suponho que eu deveria esperar isso. Afinal de contas, a armadura dele é feita de um dos materiais mais duros do mundo. Seria decepcionante se fosse fácil assim passar por aquela defesa.

Aterrissou no chão de costas para ele, e imediatamente dançou um passo para o lado, afastando-se bem a tempo de evitar o ataque de seu oponente. Você é bem rápido, Ezequiel, mas também é muito previsível. O homem tinha uma força terrível e uma velocidade muito maior do que normalmente se esperaria de alguém como ele, mas seu estilo de luta era muito direto, muito fácil de se compreender e de se lidar com. Creio que a culpa disso não é totalmente dele, considerando que ele não possui Aloeiris. Esse era um dos grandes problemas de alguém que não contava com Aloeiris ou magia; sem alguma habilidade exótica para unirem aos seus ataques, o arsenal deles tornava-se consideravelmente menor do que o de alguém que possui um desses poderes disponíveis, e isso fazia com que as coisas fossem muito mais fáceis pra Tristah do que deveriam. Não importa o quão forte você seja, se seus movimentos são previsíveis, isso não faz diferença algu-

Foi interrompida enquanto pensava naquilo brutalmente no momento em que um puno colidiu em cheio com seu rosto, surpreendendo-a por completo. Não teve tempo de erguer qualquer tipo de resistência a isso, embora estivesse bem certa de que resistência alguma lhe ajudaria tamanha de uma força tão absurda. Foi lançada brutalmente para longe, e numa fração de segundos seu corpo atingiu uma das “paredes” da cratera na qual estavam, abrindo um buraco ali. Poeira subiu com o impacto, e em meio a ela Tristah caiu de joelhos, seus olhos arregalados, seus cabelos perdendo o penteado que ela demorava tanto a fazer para caírem sobre seu rosto. Da lateral de seus lábios escorria um filete de sangue, algo que não ocorria há muito, muito tempo. Como ele me atingiu? Ele não deveria ser capaz disso. Eu analisei todos os movimentos dele, conheço-os tão bem quanto a palma da minha mão. Eu deveria ter sido capaz de facilmente evitar aquele golpe. Então, por quê fui atingida em cheio assim? Aquilo não fazia sentido. Sentido nenhum. Será que eu errei em algum ponto? Será que minhas analises estavam erradas? Não... impossível... mas se for esse o caso... isso significa que ele planejou tudo isso! Ele propositalmente escondeu parte das suas habilidades para me surpreender com elas depois! Aquilo era engenhoso, muito engenhoso. Teria de tomar cuidado com aquele homem.

Logo a cortina de poeira que havia se erguido com sua colisão foi cortada, revelando a monstruosa figura do Terror dos Dragões, avançando com uma velocidade tão grande que seu movimento cortava o chão, movendo seu punho contra ela como se fosse um grande martelo. Ergueu sua mão em resposta a isso, e com uma palma aberta bloqueou o golpe de seu adversário sem dificuldades. Tinha boa noção do quão absurdo isso devia parecer – uma garota franzina como ela bloqueando o ataque de um homem com o dobro do seu tamanho – e isso só fez com que se sentisse ainda mais divertida por aquilo. Os olhos de Ezequiel se afiaram diante disso, como se ele suspeitasse de algum truque em meio a tudo isso, e rapidamente ele mudou seu plano, recuando o braço que lançou seu primeiro ataque para mover o segundo, desferindo um cruzado enquanto mirava direto no rosto dela. O resultado foi o mesmo. Bastou que Tristah erguesse seu outro braço, e com o antebraço bloqueou o golpe de seu oponente.

– Qual o problema, Terror dos Dragões? – provocou ela com uma voz de garotinha, maldosa, sabendo que isso iria ferir o orgulho de seu oponente. – Sou só uma garotinha. Não consegue me tocar?

Ele grunhiu ao ouvir isso, e seu punho tornou a se mover, indo direto contra ela, tentando esmagar a cabeça de Tristah contra a parede. Dessa vez ela não tentou bloquear; se abaixou rapidamente, evitando o golpe do monstruoso cavaleiro, e jogou ambos os seus braços para trás. Ao seu comando e sua vontade, vento rodou rapidamente ao redor desses braços, girando a uma velocidade tão grande que em um instante ele gerou o que pareciam ser dois pequenos tornados concentrados ali. Ao mesmo tempo em que o punho de Ezequiel atingiu a parede atrás dela, os dois punhos de Tristah dispararam para frente, acertando em cheio o estômago dos dragões com toda força e liberando simultaneamente todo o vento que haviam concentrado, resultando em um poder tão grande que até mesmo aquele cavaleiro foi jogado longe por aquilo.

Ezequiel podia ser conhecido pela sua força física, mas a resistência daquele homem também não era nada de se esnobar, como ela pode ver. Seu golpe havia sido poderoso, ela sabia bem disso, e havia atingido seu oponente em cheio, mas apesar disso Ezequiel parecia não ter sentido nada mais do que o impacto inicial daquele ataque; uma das suas mãos cravou-se no chão com força, parando a força seu movimento e travando-o no chão. Seu rosto se ergueu, seus olhos brancos brilhando em meio ao seu rosto negro e suado.

– Magos não deveriam ter tanta força bruta assim – foi tudo o que ele disse em um tom profundo, como se as palavras estivessem vindo do fundo dele.

– Verdade, verdade – concordou Tristah calmamente, acenando com a cabeça em acordo enquanto falava. – Magos não deveriam ser tanta força quanto eu. Mas eu sou uma maga-guerreira, não uma maga pura. – sorriu e ergueu uma de suas mãos, abrindo-a diante de seu rosto, e concentrando-se um pouco, fez com que um tornado em miniatura se formasse na palma dela, girando selvagemente o suficiente para que sua velocidade fizesse com que os cabelos dela balançassem. – Não se preocupe, Ezequiel. Não tenho magias exóticas ou estranhas, se isso lhe assusta. Apenas boa e velha magia de vento e ar. Magia de vento e braços fortes... essas são as únicas coisas que tenho, e mais do que o bastante para lhe derrotar.

– Me derrotar? – repetiu ele, dobrando levemente seus joelhos, algo que fez com que Tristah imediatamente levantasse sua guarda. Ele está se preparando para atacar de novo. – Não me subestime, mulher. Sou Ezequiel do Salão Cinzento. Criminosos como você... são formigas aos meus pés!

No momento em que disse aquilo, Ezequiel desapareceu. Seus olhos dispararam de imediato, olhando para a esquerda e direita, procurando por algum sinal do homem, apesar de que ela simultaneamente procurou manter-se no controle, manter-se calma e coesa. Não posso me dar ao luxo de me desesperar. Se eu cometer esse erro contra um oponente como esse, estarei morta. Foi só quando sentiu algo pairando sobre ela que descobriu aonde estava seu oponente, e sua reação foi imediata; nem sequer perdeu tempo em olhar para seu oponente, mas saltou prontamente para o lado afim de evitar seu ataque.

Fez isso bem a tempo, nos últimos segundos. Um instante depois de saltar Ezequiel aterrissou sobre o lugar aonde estava antes, a força da sua queda sendo tão grande que a onda de impacto que ele gerou foi forte o suficiente para fazer com que o chão em uma área de alguns metros ao redor dele simplesmente explodisse devido a grande pressão que sofreu. Respirou aliviada por um instante, vendo exatamente do quê havia escapado...

... Mas isso não durou muito, pois logo em seguida a mão de Ezequiel fechou-se ao redor de sua perna. Sem nenhuma sombra de misericórdia o homem moveu-a com força, elevando seu corpo alto por um momento para que no seguinte esmagasse-a com toda a força de cara no chão. Sangue veio dela de imediato, e a dor que sentiu com isso foi terrível, mas não teve tempo sequer para focar-se nela. Logo Ezequiel repetiu o processo, batendo Tristah novamente no chão com ainda mais força do que antes. Fez isso de novo, e de novo, e de novo. Por cinco vezes no total ele esmagou-a contra o chão, fazendo com que o corpo de Tristah ficasse rapidamente coberto em seu próprio sangue. Isso... não é bom. Apesar da situação em que se encontrava, sua mente estava calma – uma característica própria da mulher. Sou uma maga-guerreira... não uma guerreira por completo. Era capaz de aguentar mais do que sabia que imaginariam de seu estilo e aparência, mas isso não significava que era capaz de suportar coisas como aqueles golpes assim, um atrás do outro. Eu tenho que reagir. Se eu não reagir, eu irei morrer. Eu definitivamente irei morrer.

Mas não teve a chance de reagir. Brutalmente Ezequiel lhe jogou com todas as forças contra uma das paredes da cratera, fazendo com que suas costas explodissem contra ela, e no momento em que Tristah abriu a boca em dor o punho do cavaleiro veio, atingindo-lhe em cheio na barriga e esmagando-a contra a parede.

Seu corpo ficou mole, completamente molenga enquanto pressionado na parede. Isso... dói. Isso dói muito. A dor que sentia era tão grande que não conseguia nem sequer começar a coloca-la em palavras... mas de alguma forma, ainda tinha forças. Posso estar feridas, mas ainda respiro. Ainda tenho forças em mim. Isso não acabou. Imperceptivelmente, fechou suas mãos em punhos, e quando tornou a abri-las, uma leve brisa as cercava. Isso não acabou!

Levantou sua cabeça subitamente, surpreendendo um pouco Ezequiel com isso, o que era exatamente o que ela queria. A surpresa do cavaleiro enfraqueceu sua guarda por um momento, e isso fez com que ele não pudesse reagir ao que veio a seguir. Moveu rapidamente suas mãos, liberando ventos cortantes em formas de lâminas transparentes delas, e essas lâminas atingiram em cheio Ezequiel; ambas as orelhas do cavaleiro foram cortadas simultaneamente por aquele ataque, caindo ao chão, e a dor fez com que o cavaleiro gritasse e recuasse instintivamente para trás, abrindo espaço o suficiente para que Tristah escorregasse até o chão. Caiu de joelhos, e por mais que sua vontade fosse avançar direto contra ele e aproveitar-se do momento, seu corpo exigiu que ela tomasse um momento para recuperar-se de tudo aquilo.

Um momento foi exatamente tudo o que teve. Não teve mais do que alguns instantes para respirar com uma tranquilidade a mais antes que sentisse uma sombra se erguer sobre ela, e rolou para o lado apenas bem a tempo de evitar o pisão de Ezequiel, forte o suficiente para gerar uma onda de impacto tão forte que mesmo tendo evitado o golpe, sentiu como se essa simples onda fosse ser o suficiente para jogar-lhe pelos ares. No entanto, manteve-se firme, e aproveitando-se do fato de que seu oponente havia acabado de se mover e parecia um tanto irritado, concentrou vento na palma de sua mão direita e moveu-a contra ele, liberando tudo o que havia concentrado em uma rajada de ar que acertou Ezequiel em cheio no peito.

O Terror dos Dragões foi arrastado para trás alguns metros pela força de seu golpe, sua armadura sendo destruída mais e mais a cada segundo que passava... mas aquilo não era o suficiente. Com um grande urro de esforço, Ezequiel dobrou rapidamente suas pernas e saltou com tudo contra ela, erguendo seu punho tão alto quanto podia.

Tudo aquilo se passou em questão de um segundo. O punho de Ezequiel moveu-se horizontalmente em um golpe poderoso, mas que não encontrou seu alvo – antes que ele lhe atingisse, Tristah inclinou seu corpo o suficiente para que o braço do grande guerreiro passasse a frente dela, ameaçando-lhe, mas sem causar um ferimento. E com isso, ela viu-se com uma chance perfeita diante de seus olhos. Firmou seus pés, concentrou tanto poder quanto podia em um instante, e sem pensar duas avançou com ambas as mãos contra Ezequiel. Ambas as suas mãos tocaram o peito do cavaleiro, fazendo com que ele por um momento lhe olhasse, confuso, antes de enfim compreender exatamente o que ela estava fazendo.

Mas quando ele o fez, já era tarde demais.

A energia concentrada foi liberada em duas rajadas de vento extremamente poderosas que atingiram o peito do homem em cheio, a queima roupa. A poderosa armadura de Ezequiel havia sido danificada com o último ataque de Tristah, e a defesa daquele cavaleiro não era agora o que era normalmente pelo fato de ter conseguido surpreender-lhe com isso. Esses fatos – somados ao poder ampliado de seu golpe pela proximidade e o uso de ambas as mãos – foi o bastante para abrir um grande rombo no peito de um dos líderes do Salão Cinzento.

Em um momento suas mãos estavam no peito de Ezequiel, e no outro, elas já não tocavam nada. O corpo do homem subitamente perdeu toda a sua força – o que não era pra menos, já que havia destruído seus pulmões, coração, e vários outros órgãos dele com aquele ataque. Por um momento ele pendeu para trás, mas então pendeu pra frente, e Tristah teve de reagir rapidamente para afastar-se antes que ele caísse sobre ela. Ele cai no chão de olhos arregalados, sangue escorrendo de seus lábios, e só depois que viu isso foi que Tristah pode suspirar em alívio. Finalmente, acabou.

... Foi o que ela pensou, antes que uma mão se fechasse ao redor sua perna.

Não teve nem tempo de reagir; tal como havia acontecido da primeira vez, foi erguida alto antes de ser jogada com força no chão, e quando isso aconteceu dessa vez, sentiu um osso em suas costas quebrar-se devido a força do impacto. A figura de Ezequiel ergueu-se novamente diante dela, um grande cavaleiro com o rosto coberto em seu próprio sangue e um gigantesco buraco em seu peito, como se fosse algo saído de um conto de horror. Por mais autocontrole que tivesse e por mais frio que normalmente fosse o sangue de Tristah, aquilo foi o bastante para fazer com que até ela se desesperasse um pouco. Mal juntou energia em sua mão direita e não hesitou em lançar uma pequena rajada de vento contra o rosto dele, atingindo o cavaleiro em cheio enquanto ele erguia seu braço para desferir um novo ataque. Para a sorte dela, os danos que ele havia sofrido aparentemente haviam afetado a resistência de seu corpo, fazendo com que mesmo uma rajada enfraquecida como aquela fosse o bastante para abrir um rombo em seu rosto. A metade direita da sua face acima da altura do nariz simplesmente deixou de existir com o ataque, sendo completamente destroçada por seu golpe, lançando sua cabeça para trás... mas nem isso foi o bastante para pará-lo. Um rombo no peito, outro na cabeça, nada parecia importar. O monstro que era Ezequiel tornou a erguer seu punho e desceu-o como uma marreta contra Tristah; mesmo no chão, teve de mover-se para o lado afim de evitar esse ataque, e isso fez com que visse com seus próprios olhos como o punho de Ezequiel absolutamente esmagou o lugar que atingiu. Se ele me atingir com algo assim, eu estarei morta no mesmo instante! O punho do monstro tornou a se erguer, e novamente Tristah viu-se forçada a mover-se rapidamente para evitar o golpe dele, e de novo, e de novo, e de novo...

... Até que tudo finalmente parou.

Quando o punho de Ezequiel se ergueu pela sexta vez, o homem parou antes de concluir seu golpe, parecendo finalmente sentir os danos que havia sofrido. Seu corpo congelou por um momento, e mesmo com seus olhos nus ela conseguiu ver que ele estava se esforçando, se esforçando ao máximo para tentar concluir seu ataque. Não perdeu tempo com a chance que teve; concentrou um pouco de sua energia na ponta de seu dedo indicador, e apontando esse dedo contra Ezequiel, liberou um fino raio de energia azulado dele. Esse não é necessariamente o meu estilo de magia. Não sou uma especialista nisso, não sou tão boa nesse tipo de magia quando poderia. Mas no fim, isso não fez diferença. Habilidosa ou não naquele tipo de magia, o raio foi o suficiente; ele foi o golpe de graça, o ponto final na história de Ezequiel. Aquilo fez com que ele perdesse todas as suas forças, e de uma vez, o corpo do gigante caiu sobre ela, finalmente sem vida.

Teve dificuldades para tirar o corpo dele de cima dela, tanto pelo fato de estar tão ferida quanto estava quanto devido ao peso do homem. Demorou algum tempo para fazer isso, empurrando partes dele individualmente para fora de si, mas eventualmente se viu livre de Ezequiel, e então respirou aliviada. Finalmente. Isso foi bem, bem problemático. Aquela luta havia sido bem rápida, mas graças ao poder ofensivo de ambos, havia sido bem sangrenta e violenta também. Pra ser sincera, estou grata que essa luta só tenha durado um pouco. Se ela tivesse se estendido mais, eu francamente não sei dizer se estaria viva agora. E pensar que aquele era apenas um dos líderes do Salão Cinzento, e ainda por cima o que era supostamente o mais fraco deles... não queria nem sequer imaginar como seria enfrentar os três juntos. Talvez Balak tenha sido mais esperto do que pensei ao insistir para que lançássemos esse ataque nos aproveitando da ausência de Odin. Considerando o que ele fez com Presas e o que acabei de testemunhar, eu certamente não tenho vontade alguma de enfrentar ele ou alguém do seu nível. Os outros iriam ter de cuidar de Gwynevere sozinhos – simplesmente não estava bem o bastante para envolver-se em outra batalha.

No entanto, existe outra coisa importante que posso fazer, pensou ela, virando sua cabeça para o lado. Havia sido no mínimo trabalhoso levar Ezequiel para longe dele, e havia sido bem problemático lutar enquanto certificava-se de não ir praquela área ou permitir que seu oponente lançasse algum ataque que a afetasse, mas no fim das contas, isso havia valido a pena. Ferida mas com determinação, arrastou-se em direção ao lugar aonde Bertold repousava.

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Ainda sentia dor por todo o seu corpo dos golpes que havia recebido. Estava tentando voltar até o local aonde havia ficado seu primeiro oponente – ele não estava morto e tinha de aplicar o golpe de misericórdia sobre ele, do contrário corri sempre o risco de que o homem se recuperasse e voltasse ao combate – mas foi forçada a parar seu avanço logo no começo. Em um de seus passos, sentiu-se pisar em falso e seu corpo ficou por um momento trôpego, parecendo prestes a cair a qualquer instante. Teve de inclinar-se em direção a uma parede próxima e usá-la como apoio para que não caísse, mas isso não lhe ajudou muito. Sua visão estava embaçada, e respirar agora era difícil para ela, tanto devido ao fato de que tinha dificuldades em fazer isso quanto porquê cada respiração parecia lançar uma onda de dor por todo o seu corpo. Droga... eu sei que fui atingida muitas vezes, mas mesmo assim... não pensei que os danos haviam sido tão severos. Aparentemente havia subestimado o que a raiva e a adrenalina faziam a alguém durante uma luta... ou havia subestimado o poder de seu oponente. Desprezava o mago, mas tinha de admitir que ele havia sido um oponente mais do que digno. De certa forma, me sinto feliz por ter sido eu a enfrenta-lo. Não apenas porque isso me deu a chance de vingar Titânia, mas também por que ele era perigoso. Até mesmo alguém como Ezequiel provavelmente teria problemas caso enfrentasse Balak, graças ao estilo de luta do mago. Eu... acho que eu sou a única pessoa aqui que podia enfrenta-lo e ven-

Seus próprios pensamentos foram interrompidos no momento em que sentiu um ataque lhe atingir pelas costas, perfurando seu corpo e abrindo um rombo aonde antes ficava seu seio esquerdo, espalhando sangue por todo canto.

Como... como... como?!... Caiu de joelhos no chão, mas nem sequer sentiu a sua queda. Mesmo antes daquilo seu corpo já estava extremamente danificado devido a todo o combate, e aquele golpe foi o ponto final até aonde sua determinação e força de vontade podia lhe levar; tentou suportar, tentou aguentar de alguma forma, mas não pôde, e acabou caindo completamente no chão, seu rosto batendo com força no solo frio.

– Eu tenho de lhe pedir para nunca mais fazer algo assim – disse a voz de um mago, arrogante e suave, tranquila, segura de si, segura da sua vitória. – Não sou nenhum tipo de especialista em etiquetas sociais ou coisa do tipo... mas até onde eu sei, decapitar pessoas é no mínimo rude, Filha do Sol.

A voz não lhe surpreendeu, exatamente. Desde o momento em que havia recebido aquele último golpe ela havia compreendido que aquele homem não estava morto, e por isso estava preparada para tal. No entanto, isso não fez com que ela deixasse de fazer com que uma sensação de perdição pairasse sobre ela – no momento em que aquela voz ressoou, Gwynevere compreendeu com a mais absoluta certeza que estava morta, por mais que ainda respirasse. Eu perdi. Eu perdi essa luta. Tossiu sangue e fechou sua mão restante em um punho com toda a força que ainda lhe restava, frustrada, furiosa tanto com seu oponente quanto consigo mesmo. Mas como? Como? Mal se aguentava, mas mesmo assim se esforçou; usando o que lhe restava de força ela virou seu rosto em direção a ele com dificuldades, até que seus olhos pudessem fitar a figura de Balak Hauss, o mago que caminhava calmamente em sua direção com olhos vermelhos e um sorriso arrogante no rosto.

– Como... como você ainda está vivo? – perguntou ela, o esforço que teve de fazer para cuspir as palavras provocando outra crise de tosse, mais violenta do a anterior. Isso não lhe impediu de continuar a falar, no entanto. – Eu lhe decapitei... eu cortei sua maldita cabeça! Como... como você ainda vive?

Ao ouvir aquelas palavras, os olhos de Balak piscaram por um momento, como se ele tivesse se lembrado de algo. O sorriso em seu rosto morreu, dando lugar a uma expressão mais séria e neutra, e o mago parou diante de Gwynevere. Com a ponta dos dedos ele apalpou o pescoço, bem no lugar que sua lança havia cortado.

– Hm... realmente, você me decapitou. Não se engane quanto a isso, e por favor, não faça menos de seu feito. Você não decapitou uma ilusão ou um clone, caso esteja pensando nisso. Aquele que você decapitou foi realmente eu... mas “decapitar” não é “matar”, por mais que geralmente leve a isso. – o mago caiu sobre um joelho, abaixando-se de forma a ficar mais próximo do nível de Gwynevere, fitando-a nos olhos. Quando ele fez isso a cavaleira compreendeu que, pouco a pouco, os olhos vermelhos do homem estavam perdendo essa coloração, tornando-se castanhos. – Sabe, Gwynevere, uma grande vantagem que tenho sobre a maioria das pessoas é que, ao contrário do que a maior parte dos guerreiros e magos fazem, meu maior trunfo não é minha carta principal. Por exemplo, o seu maior trunfo é a sua habilidade e domínio sobre a luz... e esse trunfo forma praticamente todo o seu estilo de batalha. Isso não é um erro, nem nada específico seu; praticamente todas as pessoas, quando descobrem algo que é a sua maior força, focam-se quase que unicamente nisso, e com isso elas negligenciam o resto. Um guerreiro rápido, por exemplo, é geralmente muito rápido, mas não tem quase força nenhuma. Um guerreiro muito resistente tem o corpo estupidamente forte, mas geralmente não é bom em esquivar. Um mago de fogo geralmente possui magias de fogo que podem causar grande destruição em massa, mas ele não possui muitos outros talentos além disso. As pessoas focam-se em uma única coisa, criam todo o seu estilo em cima de uma única coisa, tornam-se uma única coisa. No meu caso, eu fiz diferente. Quando eu era pequeno, apenas um moleque que foi enviado para o Colégio Branco, eu descobri rapidamente sobre o meu talento peculiar, meu dom sobre o domínio do tempo. Todos ficaram maravilhados com isso. Todos falaram que, se eu treinasse esse poder, eu poderia ser um dos melhores magos que o mundo já viu.

“O que eu fiz foi treinar outros.

Eu poderia ter me focado apenas no domínio do tempo. Mas por quê? Se você vai até um zoológico, é um desperdício que gaste todo o seu tempo olhando apenas um animal. Eu sou um mago, com acesso a poderes que mais da metade da população mundial não pode fazer nada mais do que sonhar com. Por que eu deveria limitar-me apenas a uma das artes deles? Meu talento específico estava ali, ele não iria embora nunca. Sendo assim, não faz sentido que eu me focasse nas áreas na qual não tenho talento?

Não sou um absoluto mestre na magia. Sou jovem e ainda há muita coisa que não sei, estilos conhecidos que não domino totalmente e estilos desconhecidos que nem sonho existir... mas eu sei o bastante. Conheço inúmeros estilos de magia, e sou um mestre em cada um deles. Magia de fogo, água, vento, trovão, terra, gelo, magia gravitacional, ilusões, manipulação de mentes, barreiras, curas, magia de dissipação, magia de reforço, magia de manipulação do clima, magia de manipulação de espaço... eu conheço esses e muitos outros estilos, e sou bom em todos eles. E ao contrário do que muitos dizem, isso não é porquê sou um gênio ou coisa do tipo. Agora acho que as marcas disso não são muito visíveis, mas quando eu era mais novo, eu constantemente tinha olheiras e palidez devido a minha mania de ficar horas e horas estudando os mais variados estilos de magia. E você sabe o que isso me garantiu, Gwynevere? Versatilidade. A maioria das pessoas, guerreiros ou magos, são na verdade escravos de seus próprios estilos. Eles se focam tanto em aprimorar aquilo no que possuem talento, se focam tanto em tornarem-se melhores e melhores nisso, que acabam se tornando dependentes disso, acabam tendo de usar isso para livrar-se de qualquer problema, o que significa que suas habilidades logo se tornam conhecidas, e portanto o inimigo tem mais facilidade em lidar com eles. Eu, no entanto, consegui evitar isso, e isso possibilita que eu possa usar vários estilos de forma efetiva em uma batalha... o que esconde a minha verdadeira habilidade, esconde o meu trunfo na manga.

Lembra do que eu te falei sobre decapitação não significar morte, Gwynevere? Disse isso por um motivo bem simples; ela realmente não significa. Alguém morre quando seu cérebro para de funcionar, e nem um momento antes. Explodir o coração de alguém ou fazer algo do tipo mata a pessoa pois isso para o bombeamento de sangue para o cérebro, o que significa que esse irá parar de funcionar, mas esse não é um processo imediato. O mesmo vale para decapitações; o suprimento de sangue ao cérebro é interrompido com isso, mas o cérebro não morre imediatamente; enquanto ainda tiver sangue nele, ele ainda funciona. Agora, uma curiosidade; sabia que magos não precisam de nada mais do que seus cérebros para conjurarem suas magias? Claro, alguns usam cânticos para auxiliarem em sua concentração e aumentar o poder de suas magias ou ajuda-lo a conjurarem uma magia particularmente difícil, enquanto que outros usam gestos corporais para condução e mira das magias, mas esses são processos opcionais. Um mago realmente talentoso não precisa de nada mais do que seu cérebro para conjurar a magia que quiser... e eu sou um mago talentoso, minha cara. Eu sou um mago muito talentoso.

Quando você me decapitou, você me parou, sim, mas meu cérebro continuou vivo, e eu continuei consciente. Eu ainda estava ciente do que acontecia, mesmo com minha cabeça rolando pelo chão, e isso significava que eu ainda podia conjurar magias. Foi exatamente isso que eu fiz. Enquanto você estava distraída se afastando, pensando que havia ganho, eu usei minha magia de tempo para retroceder o tempo de meu corpo. Em outras palavras, eu fiz com que meu corpo voltasse no tempo. Esse é um processo complicado, veja bem, e nem mesmo alguém como eu pode retroceder algo no tempo mais do que alguns segundos... mas isso foi o bastante. Alguns segundos foi o suficiente para que eu voltasse meu corpo até um ponto em que minha cabeça ainda estava conectada a ele. Entende o que quero dizer com isso? Eu nunca morri. Você chegou perto, mas nunca me matou. Apesar de que, não se sinta culpada por isso, Gwynevere. A não ser que eu fique sem mana ou que meu cérebro seja destruído, minha magia e meus poderes me tornam praticamente imortal.”

Ouviu atentamente tudo o que o mago disse, e à medida que ia ouvindo o monólogo dele e compreendendo o ponto ao qual ele queria chegar, sentia sua raiva e frustração darem lugar a outro sentimento, mais obscuro: decepção. Decepção consigo mesma. Eu... droga... como eu pude ser tão tola? Durante sua batalha com ela, Balak não havia exibido em momento algum sua magia de tempo, e isso havia feito com que acabasse se esquecendo da mesma. Se eu tivesse me mantido atenta quanto a isso, se eu tivesse prestado um pouco mais de atenção... então seria eu a vitoriosa aqui, não ele. Agora que ele dava suas explicações, várias coisas que foram inicialmente confusas ficaram mais claras, como a forma como ele havia voltado a luta sem ferimentos depois de ser atingido por dezenas de golpes dela. Um pouco de atenção, é tudo que eu precisava. Se eu tivesse prestado um pouco mais de atenção e feito algumas associações, eu teria lhe matado. Depois de decapitá-lo, tudo que tinha de fazer era esmagar o crânio de Balak e a vitória seria sua.

Mas não fez isso, e agora pagava o preço.

– Bom, acho que é hora de fazer o que vim fazer aqui, não concorda? – com um pequeno ruído de esforço Balak tornou a se erguer, voltando a pairar acima de Gwynevere. Energia concentrou-se visivelmente na mão direita do mago, e erguendo-a, esse deixou que ela pairasse sobre a cavaleira, pronto para desferir o golpe de misericórdia. – Não sei se você vai acreditar nisso, considerando a situação atual... mas não vou tirar prazer nenhum de lhe matar, Gwynevere. Não tiro satisfação desse ataque; não tenho nada contra o Salão Cinzento... mas infelizmente, a queda de vocês é necessária. Pelo bem do mundo, os cavaleiros devem cair. Eu não espero que isso faça com que você me perdoe ou coisa do tipo... mas talvez você possa eventualmente tirar alguma paz em saber que todas essas mortes, todo o sangue que foi derramado... essas coisas, no fim, serviram para um bem maior.

Um... bem maior? Não entendia o que o mago queria dizer com aquilo... mas ele não parecia disposto a lhe explicar mais do que isso, e de qualquer forma, isso dificilmente importava. Eu sou uma mulher morta a esse ponto. Todo o conhecimento do mundo não faz diferença pra mim. Não podia usar conhecimento algum, nem tinha alguma forma de repassá-lo aos outros. A única que posso fazer agora é esperar. A mão de Balak brilhava agora com a energia que ele havia concentrado nela, não iria demorar muito.

“Nunca desistam.”

As palavras ressoaram em sua mente, lembranças das quais ela havia há muito se esquecido. Suas memórias levaram-na até um lugar diferente – um corredor negro, com paredes feitas do que parecia ser carne e órgãos que pulsavam constantemente, como se a própria estrutura daquele lugar estivesse viva. Estava ferida, sua armadura em pedaços, e junto dela estavam Soulcairn, Ezequiel, Azel e Odin. Nenhum deles estava num estado melhor que o dela.

– Não adianta... – resmungou Azel. O cavaleiro de cabelos castanhos tinha perdido um olho na batalha, e seu braço direito sangrava bastante graças a um golpe de lança, fazendo com que uma careta de dor reinasse sobre seu rosto. Seus dentes rangiam com força um no outro, e a única coisa que se equiparava a raiva que ele demonstrava era seu desespero. – Isso não tem fim! Não importa o quanto lutamos ou o quanto nos esforçamos, eles simplesmente não param! Essas... abominações! Não há fim delas!

Esse lugar... Lembrava-se de onde estavam. Aquele era o covil de Hashmaul, um mago negro praticante de artes obscuras, similares a necromancia, mas ainda piores. Enquanto a necromancia se focava na manipulação dos mortos – em brincar com os corpos e espíritos dos que se foram – as artes de Hashmaul focavam-se em transformar pessoas vivas em aberrações, criaturas que estavam na linha entre a vida e a morte, em um estado de sofrimento constante e eterno. A única maneira de libertar aquelas almas pelo que se lembrava era matando o que havia lhes aprisionado naquela situação, mas isso não era tão fácil assim. Pelo que me recordo, Hashmaul era um mago tremendamente poderoso, forte o bastante para dar trabalho a nós cinco juntos... e antes dele, tivemos de lidar com suas vítimas. Aquela não havia sido uma batalha fácil, definitivamente não.

– Então é assim que as coisas acabam? – aparentemente Soulcairn tentou disfarçar de certa forma sua voz ao dar um certo tom de divertimento a ela, mas ele havia falhado nisso. Apesar de sua tentativa, era fácil notar o medo do homem em sua voz, sua decepção, sua... perda de determinação. – Eu sempre esperei morrer de forma honrada em um campo de batalha, uma morte gloriosa e triunfal, que deixarei meu nome na história, minha marca no mundo. Mas acaba sendo isso que eu ganho. Uma morte nas mãos de abominações, em um lugar que parece ter saído direto de uma história de terror, para ter meu corpo usado como experimento do filho-da-puta responsável por tudo isso depois. – uma gargalhada seca veio de sua garganta, rouca, forçada. Sombras negras cercavam seus olhos, deixando claro que ele se encontrava em seus limites. – Que piada. Os Deuses devem realmente me odiar.

A cada segundo que passava, as memórias de Gwynevere se tornavam cada vez mais nítidas. Estava se lembrando daquilo melhor a cada instante, recordando o que havia acontecido... ou, mais importante, como se sentiram naquele momento. Eu me lembro... me lembro da dor, do desespero. Me lembro do que passava em minha mente naquela situação. Em sua memória, via tudo como se fosse uma espectadora de fora, e isso permitia-lhe reparar em várias coisas. Havia vistos as manchas negras ao redor dos olhos de Soulcairn, assim como havia reparado na dor de Azel. Similarmente, via como Ezequiel estava de cabeça baixa: o cavaleiro sempre foi muito silencioso, por isso não era nenhuma surpresa que ele não estivesse expressando o que sentia em palavras, mas seu corpo não mentia, e ele deixava o desespero do guerreiro tão claro quanto o dia. Conseguiu ver até mesmo a si mesma, e viu que tremia; naquela época, ainda era muito jovem. Naquela época, nem ela nem Ezequiel eram líderes do Salão Cinzento, mas apenas cavaleiros promissores ainda, tal como os Ascendentes dos dias de hoje. Com dezessete anos na época, era apenas uma garota, uma jovem que nunca havia corrido riscos tão grandes quanto os que corria agora. Sabia bem disso, mas mesmo assim, tinha de admitir... sentia-se um pouco envergonhada ao se ver tremendo. Eu sempre tentei mostrar-me como forte e poderosa, inabalável. Desde o início, o meu plano foi fazer da minha força um pilar para as mulheres do continente, mostrar a elas que podiam alcançar a grandeza se tentassem. Até o dia de hoje, as amazonas de Valenford eram em muito criticadas por seus valores e modo de agir, mas lembrava-se que na época em que Odin e Soulcairn a trouxeram para o continente, as coisas eram muito piores. Haviam algumas heroínas na história do mundo, mas a mais recente delas tinha morrido há mais de oitenta anos. As mulheres não tinham um símbolo que mostrasse seu poder ao mundo, não tinham um ídolo, alguém na qual pudessem se inspirar. Foi Gwynevere que estabeleceu-se como um ídolo para essas mulheres, ela que motivou a grande onda que fez com que cavaleiras e mercenárias e magas e guerreiras começassem a surgir em maio número, nivelando um pouco as coisas e dando mais chão e liberdade as mulheres. E era exatamente por isso que ver-se tremendo fazia com que se sentisse envergonhada. Isso não é o que sou. Não é o que devo ser.

– Nunca desistam.

Lembrava-se daquelas palavras, também. De onde estava, viu sua versão mais jovem virando sua cabeça em direção a Odin, acompanhada pelos outros. Naquela época, Odin era ainda mais formidável do que era nos dias de hoje; tinha cabelos negros, costas largas, e por mais que o velho cavaleiro mantivesse-se forte e vigoroso até os dias de hoje, naquela época aquilo era muito mais notável. Sangue cobria o seu corpo, muito mais do que cobria os outros, graças em grande parte a fragilidade natural do corpo de Odin, mas ele parecia simplesmente não se importar com isso. Erguia-se com muito mais coragem e bravura do que qualquer um dos outros quatro cavaleiros. A armadura que ele havia usado quando chegou ali havia sido feita em pedaços pelos ataques incessantes das abominações de Hashmaul, deixando-o ainda mais vulnerável a ataques, mas da forma como ele agia, parecia até que isso não fazia diferença alguma.

– O que... o que raios você está dizendo, Odin?! – a voz de Azel saiu misturada a dor que o homem sentia, mas mesmo assim era bem clara a raiva contida nela também. O cavaleiro encarou o líder deles com seus olhos apertados e uma veia saltitante de irritação na testa, mas tudo que Odin fez em resposta foi virar levemente seus olhos, olhando primeiro pra ele e depois para todos os outros.

– Você desistiu. – disse o Cavaleiro Negro. Aquilo não foi um questionamento, mas sim uma declaração, nada mais do que o apontar de um fato. Azel compreendeu isso rapidamente, e isso fez com que o Cavaleiro do Caos rangesse os dentes em irritação. Frustrado ele socou com força o chão abaixo deles, e o simples impacto foi forte o bastante para fazer com que todo aquele lugar parecesse tremer. Mesmo naquela época, Azel era muito forte. Lembrava-se bem isso. Faz mais de vinte anos desde a última vez que o vi, no entanto. Se ele ainda estiver vivo, me pergunto quão forte ele está. Azel Royes sempre foi alguém tremendamente forte, talvez até mais do que Odin, mas ele também sempre foi caótico, arrogante e irresponsável. O título que ele trazia de “Cavaleiro do Caos” era definitivamente merecido.

Como ousa?! – grunhiu ele, sua ira tão poderosa que ela era quase palpável. Mesmo agora que via tudo aquilo como apenas uma lembrança, sua mente trazia a ela a mesma sensação que havia sentido naquele momento, a sensação como se um grande peso estivesse sobre cada fibra de seu corpo, pressionando-a, tentando jogá-la ao chão, tentando esmaga-la, reduzi-la ao nada. – Eu sou Azel Royes, o Cavaleiro do Caos! Eu não conheço a palavra “desistir”, algo assim não faz parte do meu vocabulário! Como você tem a ousadia de dizer que eu desisti, Odin?! Não me subestime, seu merda! Só porque te apontaram como líder, não significa que aceitarei esse tipo de coisa! Persista com isso e eu juro que irei lhe rasgar em pedaços com minhas próprias mãos.

– Faça o que quiser. Não muda o fato de que você desistiu. Todos vocês desistiram. – sem ser intimidado pelas palavras de Azel, Odin virou-se de uma vez, fitando todos os seus companheiros com severidade e seriedade. – Olhem só pra vocês mesmos. Estão aqui, parados e encolhidos, lamentando-se e reclamando como se tudo estivesse perdido. Vocês podem admitir isso ou não, mas vocês já desistiram, querendo ou não. Vocês não têm esperança nenhuma de conseguirmos ter sucesso aqui, vocês acham que estamos mortos independente do que façamos. Isso significa que vocês desistiram, e essa desistência é a pior coisa que vocês podem fazer. A partir do momento em que vocês desistem, vocês param de se importar, param de se esforçar, e isso faz com que vocês se tornem fracos e frágeis. A partir do momento em que vocês desistem, vocês já são derrotados.

– Nós já fomos derrotados, Odin. Todos nós! – a voz de Soulcairn veio como um grunhido, como se doesse ao cavaleiro dizer aquelas palavras... o que, considerando o quanto Gwynevere o conhecia e o quão famoso era o seu orgulho, podia muito bem ser realmente o caso. – Olhe ao redor. Estamos todos feridos e exaustos, e não estamos nem sequer perto de alcançar o nosso objetivo. Não sabemos ainda aonde está o mago que viemos caçar, e as criaturas dele já estão sendo mais do que o suficiente para nos dar problemas, e pelo que eu sei, ele possui quantias ilimitadas dessas coisas! Você consegue imaginar uma forma de ganhar aqui? Por que eu certamente não vejo saída. Nós já fomos derrotados. Por mais que eu odeie admitir isso, já fomos derrotados.

– Nossas cabeças estão ainda juntas aos nossos corpos. Nossos corações ainda batem em nossos peitos. E você diz que fomos derrotados? – questionou Odin em tom repreendedor, erguendo uma sobrancelha enquanto olhava para Soulcairn como se seu rival fosse uma criança tola. – Você se esqueceu dos valores dos cavaleiros? Todos vocês se esqueceram? Enquanto podem lutar, os cavaleiros lutam. Se temos de descartar um braço ou uma perna para continuarmos a lutar, então que assim seja. O sacrifício vale a pena. Nós nunca desistimos, nunca nos rendemos; para nós, a luta só chega ao fim quando estamos mortos ou nosso inimigo jaz derrotado. Ademais, você compreende a tolice que está dizendo, Soul? E daí que estamos feridos ou cansados, o que importa? Ainda podemos continuar, não podemos? A humanidade nunca teria avançado mais do que três passos se ela se encolhesse e desistisse sempre que as coisas parecessem correr um pouco mal. Você fala que nós já fomos derrotados devido aos nossos corpos, devido a nossa força e o nosso cansaço, mas você não compreende que a verdadeira e mais importante derrota vem de sua própria mente. Quando você acredita que não há nada que você pode fazer, quando você se convence de que resistir é inútil... é aí que você morre. Sangue derramado, ossos quebrados, membros perdidos... todos esses podem ser resolvido depois, e você pode ser vitorioso mesmo que sofra todos eles. Mas se você se convencer do seu fracasso, você pode ser facilmente derrotado mesmo que não tenha sofrido nada mais do que um arranhão.

As palavras de Odin ecoaram pelos cavaleiros, e no momento em que ouviu-as novamente em seus pensamentos, Gwynevere compreendeu o porquê daquela memória ter lhe ocorrido. Nunca desista. Nunca desista. Um cavaleiro nunca desiste, pois na desistência só se encontra derrota. Enquanto pudesse lutar, ela tinha de lutar, tinha que se esforçar. Eu não posso apenas me render. Por pior que seja a situação... se meu coração ainda bate, se há vida em meu corpo, então eu ainda posso lutar! Com esse pensamento em mente, sua mão se fechou com força ao redor do cabo de sua lança, e com toda a sua força de vontade ela fez um grande esforço para lançar-se em direção a Balak com sua lança erguida, pronta para atravessar o crânio de Balak com sua ponta.

Mas antes que pudesse fazer isso, seu corpo foi atravessado por dezenas de raios. O primeiro deles lhe atingiu entre os olhos, e ele foi a última coisa que a Filha do Sol sentiu.

=====

– Bom, vamos lá... huuuuahhh!... você é certamente mais pesado do que parece, meu amigo – resmungou Balak entre dentes enquanto se esforçava para colocar o corpo desacordado de Scar sobre seu ombro direito. Aparentemente, os danos que havia sofrido e a falta de sangue haviam feito com que seu companheiro acabasse desmaiando durante sua luta contra Gwynevere, mas já havia o checado e confirmado que aquilo não era nada muito grave. Ele deve ficar assim por algumas horas, mas nada demais. O verdadeiro problema jazia em como deveria se locomover pelo Salão enquanto trazia-o consigo. Ele me atrasa, esse eu for encontrado por inimigos enquanto estou o trazendo, estaremos com sérios problemas. Isso dito, não é como se eu pudesse simplesmente deixa-lo por aí; se não me engano, é uma regra dos exércitos enfiar uma lâmina no coração de qualquer um que parecer estar morto para certificar-se de que ele realmente está morto, e não estou disposto a deixar isso acontecer com um dos meus. Ainda assim, nada de bom viria de simplesmente sair andando por aí com Scar nos ombros, principalmente se ainda tivessem inimigos por aí. O que por sinal, me lembra de algo importante... Já deveria ter checado nos outros àquela altura; sua luta contra Gwynevere havia lhe atrasado nisso, mas agora que tinha algum tempo, devia aproveitar-se da chance que o destino lhe dava.

Grunhiu novamente enquanto voltava a colocar o corpo de seu amigo no chão, encostando-o nos escombros de uma casa destruída. Havia usado um pouco de magia de cura para parar o sangramento dele e aplicar os primeiros socorros sobre os ferimentos mais graves de seu amigo, então sabia que ele não iria sofrer com alguma demora. Desde que eu mantenha um olho sobre ele, Scar deve ficar bem. Com esse pensamento em mente, enfiou sua mão direita no bolso da calça e, de lá, retirou cinco pequenas gemas, segurando quatro delas entre seus dedos e uma na palma de sua mão. Cristais de Comunicação eram tremendamente uteis, embora extremamente caros também. Para comprar tantos quanto tinha, havia tido de recorrer a muitas coisas desagradáveis. Contrabando, assassinatos, tráfico de escravos... todas essas eram atividades nada agradáveis foram coisas nas quais acabou tendo que se envolver para conquistar os lucros necessários para sua cruzada pessoal. Essas não eram coisas das quais ele se orgulhava, eram coisas que ele preferia muito mais nunca ter feito se possível, mas não podia negar que isso havia lhe possibilitado adquirir muitos itens necessários. Ativou os cinco cristais simultaneamente... mas apenas dois deles mostraram imagens. Um, localizado entre o mindinho e o anelar, exibiu a imagem de Tristah – que parecia bem ferida pelo que podia ver – enquanto o outro, na palma da sua mão, exibiu a imagem de Cleus; aparentemente, o homem estava voando enquanto seu cristal lhe transmitia.

– Só vocês? – aquilo incomodou Balak, mais do que ele queria assumir. Scar está desacordado, então não tenho como me comunicar com ele de qualquer forma, por isso nem me dei ao trabalho de tirar seu cristal, mas os outros... Bertold, J e T.I.T.A.N. deveriam ter me respondido.

– Balak. – disse Cleus de forma calma, embora algo na forma como ele falou aquilo sugeriu que ele estava incomodado ou impaciente, sem vontade de estar tendo de ligar com algo assim. – Precisa de algo?

– Várias coisas – resmungou inicialmente o mago, para só elaborar depois de uma das sobrancelhas de Cleus erguer-se de forma inquisitiva. – Preciso de relatórios de combate e conclusão de objetivos, preciso de atualizações da situação atual... mas mais do que isso, eu preciso saber o porquê de três de vocês não estarem me respondendo.

– Com “três”, suspeito que você está falando de Bertold e os outros, certo? – questionou Tristah, seguindo sem esperar resposta. – Se é esse o caso, lhe digo que Bertold está comigo. Ele foi derrotado em uma batalha, mas está vivo, então não se preocupe. Isso dito, não sei o que aconteceu com os outros.

– O mesmo vale pra mim – comentou Cleus. – Estive ocupado na Área Sul enfrentando dois cavaleiros, então não tive chances de ficar com T.I.T.A.N.. Apesar de que... essa cidade é grande e tudo mais, eu sei disso, mas é estranho que eu não esteja vendo nenhum sinal dela. Aquela mulher não é necessariamente sutil em batalha.

– Ela pode não estar lutando – interpôs Tristah, fazendo um estalo com a língua enquanto falava. – T.I.T.A.N. é forte, mas ela não é tola também. Ela só assume sua forma de golem quando tem uma luta em mãos; em geral, ela prefere muito mais se misturar ao ambiente e simplesmente se esgueirar por aí. Nessa forma você não a veria.

– Esse pode ser o caso – concordou Cleus, embora a forma como ele fez isso deixou as palavras “mas não é” pairando no ar.

– Não adianta discutir sobre essas coisas – interveio rapidamente Balak, pressentindo problemas. Apesar de, em geral, sua guilda ser bem unida entre si, algumas desavenças internas eram impossíveis de se evitar. Uma das maiores delas eram as de Cleus e Tristah. Os dois não gostavam um do outro, eles meramente se toleravam, e Balak sabia bem disso. Pior ainda, eram ambos incrivelmente fortes, e uma possível briga entre os dois tinha todo o potencial de ser incrivelmente destrutiva. Evitar essa possível briga era uma das suas obrigações como líder, e uma das mais importantes delas. – Mais importante que isso... algum de vocês encontrou Behemoth em meio a essa batalha?

– Eu não – respondeu de imediato Cleus. – Como eu disse, eu estava ocupado lutando contra dois cavaleiros durante a maior parte do tempo. Não tive realmente a chance de encontrar com ninguém... embora, pra ser sincero, eu duvido que ele esteja na Área Sul. Estive enfrentando cavaleiros aqui, sim, mas pelo que vi quando comecei a invasão, a maior parte das pessoas aqui eram mercenários contratados pelo Salão Cinzento.

– Isso não impede que ele esteja ali... apesar de que, você está certo, ele não estava na área sul – acrescentou Tristah, cruzando os braços afrente de seu corpo. – Eu encontrei ele na Área Leste, Balak, na Área em que estávamos. Não estou com ele no momento pois, da última vez que o vi, ele ficou pra trás enfrentando dois cavaleiros para que eu seguisse em frente, mas acredito que ele está bem. Behemoth se tornou mais forte nesse tempo que passou longe de nós, e os cavaleiros não me pareceram tão fortes.

– Não subestime os cavaleiros do Salão Cinzento – censurou prontamente Cleus, parecendo um pouco incomodado pela forma casual com a qual Tristah falou aquilo. – Acabei de enfrentar dois deles, e eles se provaram oponentes excepcionais. Eles são mais poderosos do que você imagina, tenha certeza disso.

– Eles são mais poderosos do que eu imagino... ou você é mais fraco do que imagina – contrapôs Tristah tranquilamente, em um tom levemente provocativo e arrogante, embora não menos educado do que o que ela sempre usava. Cleus visivelmente rangeu os dentes ao ouvir aquilo. – Pelo que eu vi dos cavaleiros, eles não são tão poderosos quanto dizem. Falam como se todos eles fossem monstros imensamente poderosos, capazes de subjugar uma nação, mas francamente, acho que eles falham um bocado em cobrir as expectativas.

– Palavras bravas vindas de alguém coberta em sangue – apontou com desdém o Pássaro-de-Fogo.

Tristah sorriu docemente ao ouvir aquilo, e ver esse sorriso foi tudo que Balak precisou para compreender que Cleus havia ido direto pra armadilha dela.

– Ora, você me deve um certo desconto quanto aos meus ferimentos, caro Cleus. Afinal de contas, enquanto você esteve lutando contra dois cavaleiros e possui a habilidade de curar-se por completo quando bem entender, eu não conto com vantagens como essa, e meu oponente era um dos líderes do Salão, não apenas um soldado raso.

Os olhos de Cleus se arregalaram ao ouvir aquilo, e o mesmo aconteceu com Balak, embora tenha tentado não demonstrar tanto isso. Ela matou um dos líderes do Salão? Sozinha?! Sabia que Tristah era muito forte, mas considerando o que havia visto do poder de um dos três líderes e o estado ao qual Presas havia sido reduzido depois de sua luta contra Odin, havia imaginado que seus subordinados precisariam lutar em duplas ou trios para conseguirem comparar-se aos líderes do Salão. Embora... se não me engano, ela disse que Bertold está com ela e está ferido, certo? Talvez os dois tenham lutado juntos para derrotar Ezequiel... bom, não importa. Se Ezequiel também havia sido derrotado, então o trabalho deles ali estava acabado.

– Isso é bom. Bom trabalho, Tristah – parabenizou-a Balak, um sorriso achando seu caminho ao seu rosto. – Diga, você me disse que se encontrou com Behemoth, então.... você lembrou-se de marca-lo?

A marca da qual falava naquele momento não era uma verdadeira marca física, não era uma tatuagem ou um desenho ou coisa do tipo. Era algo invisível, algo que entrava no corpo da pessoa e se alojava lá até ser usada. Depois dos riscos que haviam sofrido recentemente – a derrota de Cleus nas mãos de Ekhart, a morte de Dwyn e a derrota de Presas – Balak havia decidido por colocar uma marca em cada um dos membros do Olho Vermelho, bem como uma em si mesmo, que servia com a marca principal. Uma vez que sua marca fosse ativada, todas as outras seriam ativadas a força, usando forçosamente parte da mana no interior de seus portadores para ativar um feitiço de transportação que levaria essas pessoas de volta ao Pandemonium, a fortaleza voadora e base do Olho Vermelho. Graças ao ataque ao Salão Cinzento, havia se dado ao trabalho de colocar uma marca também em cada mercenário e aliado seu, e havia dado instruções específicas aos magos da sua guilda – como J e Tristah – para que colocassem uma marca também em Behemoth quando o encontrassem. Com a marca, podemos retornar rapidamente para nossa base para nos recuperar... e também iremos saber quais foram as nossas perdas. A marca funcionava a base de mana, o que significa que apenas seres vivos eram afetados por ela; uma vez que uma pessoa morria, a mana desaparecia de seu corpo, e ao não encontrar mana, a marca ativava seu efeito secundário – o de queimar o corpo até o pó, sem deixar nenhuma evidência dele. Bertold tem uma justificativa para responder, e Behemoth não possui um Cristal de Comunicação, mas o mesmo não vale para T.I.T.A.N. e J. Caso eles estejam apenas inconscientes, a marca ainda vai funcionar e os levará conosco ao Pandemonium, mas caso não seja esse o caso...

– Sim, Balak – respondeu Tristah, tirando-lhe de seus pensamentos. – Eu coloquei a marca em Behemoth. Ele não entendeu bem o que eu estava fazendo, mas não discutiu muito também. Por quê? Você...

– Eu acabei de matar Gwynevere, a Filha do Sol – completou Balak, acenando quase que imperceptivelmente com a cabeça em afirmação, como que para convencer a si mesmo que sim, aquilo havia acontecido. – Pelo que falou, imagino que você matou Ezequiel, o Terror dos Dragões, certo? Se for esse o caso, então isso significa que nosso objetivo aqui foi alcançado.

Foi a vez de tanto Tristah quanto Cleus expressarem surpresa. Sabia bem o porquê disso; estava com suas roupas em ruinas, mas não exibia nenhum ferimento em seu corpo, e já que havia se dado ao trabalho de limpar o sangue das feridas que havia sofrido em sua luta contra Gwynevere, era completamente possível que pensassem que ele havia saído da batalha ileso. Hm. Isso provavelmente vai dar a eles uma noção errada e exagerada da minha força... mas francamente, eu não vou me dar ao trabalho de corrigir isso. Tinha dois motivos para isso; o primeiro, bem prático, era que isso faria bem a moral deles, fazendo com que eles pensassem que seu líder era ainda mais poderoso do que imaginavam, o que aumentaria a confiança deles tanto nele quanto no fato de que podem realmente alcançar seu objetivo final.

E a segunda, bem mais simples, era devido ao fato de que lhe agradava ser considerado tão forte assim. Isso é apenas natural, presumo eu. Afinal de contas, eu sou alguém magnífico. É apenas natural que eu seja admirado.

– Sim, eu acabei de matar Ezequiel – confirmou Tristah depois de se recuperar da surpresa, apesar de que ela ainda olhava Balak de forma estranha, como se suspeitasse de que havia alguma coisa que o mago não havia lhe dito ainda... o que era bem verdade. – Muito bem então, se nossos objetivos aqui foram alcançados, apresse-se e ative logo a marca Balak. Bertold precisa de cuidados, algo que imagino que vale para muitos de nós, e esse não é realmente o lugar certo pra fazer algo assim.

Assentiu com a cabeça ao ouvir aquelas palavras. Sabia bem do que ela estava falando, havia pensado o mesmo que Tristah há não mais do que alguns momentos atrás. Ainda assim... hesitava um pouco. A marca apenas irá levar para Pandemonium os que ainda estão vivos. Os que estiverem mortos serão completamente queimados até o pó afim de não deixarem rastros e não revelarem nada sobre nós. Pensando naquilo de forma pragmática, o certo seria que ativasse a marca tão rápido quanto possível para que pudessem cuidar dos feridos e terminar a missão... mas ao mesmo tempo em que queria fazer isso, sentia-se hesitante, sentia que fazer algo assim seria abandonar seus companheiros. T.I.T.A.N. e J não responderam. O que aconteceu com eles? Será que eles estão mortos? E se eles estão... é realmente certo fazer isso? Abandoná-los aqui e deixar que seus corpos sejam destruídos? Eles merecem algo melhor do que isso. Certamente merecem. Era... estranho, de muitas formas. Havia feito coisas ruins em sua vida, não tinha ilusões quanto a isso. Seu envolvimento no escravismo, por exemplo, não foi nenhum arco-íris, não era algo que ele apreciava, e tinha certeza de que, quando morresse, isso iria pesar muito para decidir o destino final de sua alma... mas ainda assim, havia sido muito mais fácil fazer aquelas coisas do que fazer aquilo, mesmo sabendo que tinha de fazer isso.

Fechou os olhos e respirou fundo, tão calmamente quanto pode, tentando relaxar o suficiente para fazer o que tinha de fazer. T.I.T.A.N., J... eu não quero que vocês estejam mortos, e eu não quero assumir que vocês morreram a não ser que essa seja a última alternativa... mas por favor, caso isso realmente tenha acontecido, saibam que suas mortes não foram em vão, saibam que seus sacrifícios nos deixaram mais e mais perto do nosso objetivo. Isso era algo que havia decidido com a morte de Dwyn, e algo que havia se tornado ainda mais forte com a experiência de quase-morte de Presas. Suponho que mortes em uma cruzada como a que estamos travando são inevitáveis... mas eu certamente vou fazer o meu melhor para evitar as mortes de meus companheiros o máximo possível, e se um deles acabar morrendo, irei me esforçar ainda mais para fazer jus ao seu sacrifício. Eu juro, não deixarei que tudo o que fizemos seja em vão.

Lentamente, abriu seus olhos novamente, e as palavras vieram de seus lábios como um sussurro.

Marca, ativar.

=====

No Salão Cinzento, o céu estava negro. A fumaça das casas queimadas e das inúmeras explosões que haviam ocorrido durante a batalha havia subido, cobrindo todo o céu com uma grossa cortina negra. Para todos os sobreviventes da batalha que olhassem pra cima, aquela parecia a mais terrível e completa escuridão, um presságio obscuro em um dia negro.

Mas de alguma forma, essa escuridão que parecia completa e absoluta tornou-se ainda mais obscura em um momento. No céu a fumaça cobriam as nuvens, mas essa fumaça foi facilmente soprada pra longe dali, deixando a vista nuvens negras, gigantescas e densas, unidas de tal forma que não era possível se ver nada além delas. O som de um trovão ressoou por toda a cidade, parecendo mais com o ronco do estômago de uma besta gigantesca. Oito segundos depois desse primeiro, outro trovão o seguiu, e seis segundos depois deste veio um terceiro. Continuou assim, um trovão vindo após o outro depois de um período de tempo cada vez menor, até chegar ao ponto em que um trovão era prontamente seguido por outro e outro, como se estivessem servindo como um anúncio de algo. Sim, um anúncio.

Mas não de algo. De alguém.

De repente, o clarão. Toda a cidade brilhou, inteiramente branca por um momento, e foi isso que permitiu que os atentos vissem o que aconteceu. Em um instante, um único relâmpago negro veio das nuvens ao céu, percorrendo seu caminho até o topo do próprio Salão Cinzento – a estrutura, não a cidade – em um momento tão rápido que aquilo podia muito bem ser instantâneo. E aonde ele caiu, no exato ponto que ele atingiu, a coisa mais incrível aconteceu. O relâmpago assumiu forma consistente, humanoide, e logo o que era algum tipo de raio corrompido se transformou em um homem ajoelhado sobre o topo do Salão.

Esse lentamente esse ergueu. Era alguém alto, com um metro e noventa e um de altura e um corpo bem definido, clássico de um guerreiro. Suas feições eram duras; seu queixo era quadrado, coberto por um rala barba aparentemente recém-aparada, com uma cicatriz de corte no lado esquerdo-inferior do queixo. Seu nariz era reto, e seus olhos, duros e de cores diferentes; enquanto o esquerdo era azul e puro como o mar, o direito era vermelho e violento como a guerra. Os cabelos do homem eram negros, volumosos e espessos, parecendo mais uma juba-de-leão do que tudo, cobrindo o topo da cabeça do homem tão bem quanto cobriam as laterais, deixando seu rosto centralizado entre eles. Suas vestes eram simples, mas carregavam ao mesmo tempo força e arrogância; a primeira delas era uma jaqueta preta com pelos na gola, aberta, deixando à mostra uma camiseta preta por baixo dela. Uma coisa curiosa, no entanto, era que a jaqueta não tinha mangas – essas aparentemente haviam sido arrancadas a força dela, deixando à mostra os braços daquele homem; fortes, grossos... e cobertos por tatuagens de raios negros. Na verdade, não somente os braços como todo o corpo daquele homem era coberto por raios negros; braços, peito, pernas, costas, ombros... até mesmo o seu rosto trazia uma tatuagem assim, tendo um raio negro sobre seu olho esquerdo. Completando suas vestimentas, o homem usava calças longas de couro, bem como botas grossas de aço negro em seus pés.

O rosto desse homem moveu-se, seus olhos correndo por toda a imensidão do Salão Cinzento, procurando por algo, procurando identificar alguma coisa dentre toda aquela cidade. Não demorou muito para que ele compreendesse que tentar algo assim era como tentar achar uma agulha em um paliteiro, e por isso sua tática logo mudou. Ao invés de usar sua visão, ele usou seu olfato. Cheirou bem o ar, captando cada um dos milhares de cheiros que impregnavam aquela cidade. Fechou seus olhos para se concentrar melhor, e mentalmente identificou um por um todos esses cheiros, separando-os individualmente em sua mente até achar o que queria.

– Ele esteve aqui, o arrombado filho-da-puta... – murmurou o homem consigo mesmo, fazendo uma careta. Seu lábio superior se ergueu um pouco, mostrando os dentes daquele homem. Eram fileiras brancas e limpas, nada muito diferente do normal de qualquer outro homem... se não pelo fato de que os caninos daquele homem eram muito mais avantajados e tinham uma aparência muito mais selvagem do que deveriam ter, parecendo mais serem o tipo de dente que você esperaria de um animal selvagem como um tigre ou um leão. – O cheiro dele enfraqueceu um pouco, então ele deve se afastado há pouco tempo, mas considerando o tamanho dessa cidade, ele não pode estar longe. Só tenho de encontra-lo agora...

Concentrou-se novamente, dessa vez seu foco não sendo em decifrar cheiros, mas sim em sentir energia. A energia do seu alvo era impossível de se confundir; ele era forte, então ela era muito maior do que a de qualquer outro guerreiro, e também havia qualquer coisa de estranho nela, qualquer coisa de... divino, como se ele fosse um Deus ou um anjo ou qualquer coisa desse tipo. Sabia que não era esse o caso, mas mesmo assim não conseguia deixar de ter sempre essa impressão.

Nisso, foi muito menos bem-sucedido do que antes, e isso lhe deixou puto.

Seus dentes rangeram uns nos outros com força. De sua garganta, grunhidos semelhantes a rosnados vieram. Seu corpo tremeu em pura ira, e furioso ele fechou ambas as suas mãos em punhos. A energia era palpável ao redor dele – era como se a simples fúria daquele homem fosse o bastante para fazer com que todo o ambiente se tornasse tenso e instável.

– Maldição... MALDIÇÃO! – gritou em uma fúria cega, e no momento em que fez isso, dois raios negros vieram imediatamente das nuvens, atingindo duas estruturas próximas do Salão. Ambas sofreram o mesmo destino; diante de uma descarga elétrica tão poderosa e furiosa, elas foram instantaneamente reduzidas ao mais puro pó. – JUGGERNAUT! VOCÊ ME TEME TANTO ASSIM QUE CORRE DE MIM COMO UM COVARDE, MISERÁVEL? VOCÊ É UM HOMEM, NÃO É?! ENTÃO HONRE SUAS MALDITAS BOLAS E ME ENFRENTE!

Nada. Nenhuma resposta. O silêncio reinava pelo Salão Cinzento, e isso só fazia com que a raiva do homem ficasse ainda maior, ainda mais fora de controle. Seu braço direito se ergueu, seu punho fechado, e imediatamente raios negros sugiram ao redor dele, circulando-o, protegendo-o como se fossem uma espécie de armadura, cada um deles tão poderoso que o próprio ar ao seu redor parecia se distorcer com seus movimentos. Furioso, o homem virou de uma vez sua cabeça e braço para o lado, em direção a uma formação montanhosa que ficava ao norte dali, além do horizonte, tão distante que tudo que podia se ver dela era a um pedaço do seu cume.

Movido por sua ira, o homem atacou. Sua mão se abriu, e todos os raios negros concentrados ao redor de seu braço foram disparados de uma vez como se aquilo fosse o tiro de um canhão, avançando contra a montanha com a velocidade de um trovão.

Um instante. Foi apenas um instante que se passou, mas isso foi mais do que o suficiente. A rua, as casas, a Muralha Norte, a floresta além dessa e a própria montanha em questão... tudo que estava no caminho do disparo negro daquele homem foi completamente obliterado sem deixar rastros algum, nem mesmo pó. As faíscas negras ainda brilhavam ao redor do braço do homem, mas pouco a pouco elas foram se apagando à medida que ele ia se acalmando. Ainda estava irritado – ainda estava muito irritado – mas aquele ataque havia servido pra jogar fora boa parte da frustração.

– ... Não importa. – murmurou ele, como que pra si mesmo, erguendo seus olhos para o céu escuro. – Não importa o quanto você corra, Juggernaut, você não pode fugir de mim! Eu vou lhe caçar até as profundezas do inferno... e quando eu te encontrar, você vai se arrepender de um dia ter cometido o erro de me irritar!

E assim que essa promessa foi feita, o corpo do homem se desfez novamente. Transformando-se uma vez mais em raios negros ele se dissipou em todas as direções, os raios seguindo para norte e sul, leste e oeste. Em um piscar de olhos, eles já não eram mais presentes em ponto nenhum do grande Salão.

E assim que o homem se foi, as nuvens negras desapareceram, deixando que o céu vermelho das Terras Velhas se mostrasse novamente, bem como permitindo que o sol voltasse a brilhar sobre o que agora eram as ruínas do que um dia havia sido a maior demonstração de força e glória dos cavaleiros; o Salão Cinzento.

=====

– Já acabou?

Na Muralha Norte do Salão Cinzento – a única que havia permanecido completamente intacta depois do ataque – uma figura se encontrava. Sentado despreocupadamente na beirada dessa muralha, olhando dela para toda a cidade abaixo dele, estava um homem de pele pálida e fria como um cadáver, lábios tão desprovidos de sangue que sua coloração era um pouco azulada... e olhos com a íris incrivelmente vermelha, tão vermelha que simplesmente olhar para eles era o suficiente para fazer com que uma pessoa normal sentisse uma forte dor de cabeça, tão brilhantes que eles pareciam servir como lanternas em meio a escuridão. Estava vestido em um terno inteiramente branco de luxo, bem arrumado e impecável, completo por luvas e sapatos também brancos. A única coisa que não era branca em meio a as vestes dele era por uma única rosa vermelha bem aberta que estava enfiada no bolso esquerdo de seu paletó, incrivelmente bela, em contraste com o ser assustador que a portava. Os cabelos do homem eram grisalhos, mas volumosos, chegando até sua nuca; em contraste com a aparência em geral bem arrumada dele, os cabelos do homem visivelmente não eram penteados, sendo selvagens, com várias partes pontudas espetadas para todos os cantos.

Lentamente, uma das mãos desse homem achou seu caminho até o bolso direito da calça dele, retirando lá um maço de cigarros enquanto a outra ia até o bolso esquerdo e trazia de volta uma caixa de fósforos. Com delicadeza, como se fosse uma donzela, Mefistófeles, um dos Primeiros Demônios, levou um cigarro até seus lábios, e com um fósforo acendeu a droga. Aproveitou um longo trago, puxando tudo que a droga tinha para dentro de seu peito; para humanos, cigarros e drogas em geral eram coisas terríveis, que causavam a longo prazo mortes agonizantes e dolorosas, mas para demônios como Mefisto eles não eram nada mais do que docinhos, pequenos aperitivos tremendamente saborosos, incapazes de fazer mal algum. Nunca havia provado dos outros, mas havia experimentado o cigarro na época em que os humanos o inventaram, e o vício se formou rapidamente. Isso prova que os macacos não são apenas inúteis. Verdade, a maior parte do que eles fazem são coisas estúpidas sem pé nem cabeça, mas dê-lhes tempo e chances e por vezes eles se mostram capazes de criar alguma coisa interessante. Cigarros eram uma dessas coisas. Guerras eram outras.

A que havia acabado de assistir havia sido bem interessante.

Então, o famoso Salão Cinzento foi derrotado, hum? Supunha que não podia se surpreender muito com aquilo. Em seu primor, o Salão Cinzento havia sido algo verdadeiramente admirável, um dos mais fortes exércitos que os humanos já formaram, formidável o bastante para bater de frente com forças divinas e demoníacas se assim fosse o caso. Nos dias de hoje, ele ainda era bem poderoso, mas havia decaído muito. Odin. Gwynevere. Ezequiel. Todos os três são vistos como forças absolutas dentro do Salão Cinzento, guerreiros quase que perfeitos, tremendamente poderosos. A verdade é que eles são pirralhos brincando de guerra se comparados aos fundadores do Salão. Por mais poderoso que o Salão ainda se mantivesse nos dias de hoje, ele não era um terço do que havia sido um dia. E essa derrota é prova disso. O verdadeiro Salão nunca teria sido derrotado por um inimigo como esse.

Afastou brevemente o cigarro de seus lábios, apenas por tempo o suficiente para que soprasse a fumaça dentro de sua boca para o ar. Depois tornou a devolvê-lo ao seu local de origem, e pensativo ergueu um pouco seus olhos. Muito bem, o que eu deveria fazer agora? Pelas ordens do líder, eu deveria continuar a observar o Olho Vermelho... mas em contrapartida, eu poderia me reencontrar com ele agora. Não havia recebido nenhuma ordem para isso, mas sentia a presença de seu líder próxima, e depois de algo como aquilo, supunha que isso poderia ser a coisa certa a se fazer.

No entanto, enquanto pensava nisso, foi subitamente surpreendido quando por um momento todo o mundo ficou claro, branco, e em meio a essa branquidão, um raio negro foi visto, atingindo o topo do Salão Cinzento em si.

Arquejou uma sobrancelha e inclinou-se para frente ao ver aquilo, seu interesse cativado pelo estranho fenômeno. Um raio negro... eu só ouvi falar disso uma vez. A única figura que eu conheço que conseguia manifestar raios negros era Raijin, o Terror dos Deuses. Mas não podia ser ele, não. Raijin havia morrido há muito tempo, durante a Grande Guerra. Por mais poderoso que o lendário guerreiro fosse, nem mesmo ele podia tapear a morte.

Afiou um pouco seus olhos, focando um pouco mais sua vista sobre o ponto atingido, e então pode ver algo que serviu para esclarecer um pouco mais as coisas. Sobre o Salão Cinzento, no exato local que o raio havia atingido, estava um homem... um homem que não era Raijin, certamente, mas que era rodeado pela mesma energia dele, e trazia os mesmos olhos. Lentamente, sentiu um sorriso tocar-lhe os lábios à medida que ia compreendendo aquilo. Ora, ora, ora. Eu nunca pensei que iria vê-lo aqui ou em lugar algum, pra ser sincero.

– Ishir Daemon, o “Deus Demoníaco do Raio Negro” – não pode conter-se; teve de dar voz as palavras. Estava sorrindo como uma criança com doce, sabia disso, mas não podia parar, e francamente, não queria. – A cria da relação proibida entre um homem que se tornou demônio e uma Deusa que se tornou humana... é um prazer finalmente lhe conhecer.

Estava animado em conhecer aquele homem. Sim, estava muito animado com isso, quase tanto quanto esteve quando finalmente reencontrou seu senhor anos atrás. Ishir era, no mínimo, curioso. Parte demônio, parte Deus, parte humano... ele era uma mistura dentre todas as três maiores raças, alguém de poderes absurdos e potencial sem limite. Pelo que podia ver, ele aparentemente não havia alcançado o nível de poder de um Deus ainda, mas considerando quem ele era, era mais do que possível que ele o fizesse, ou até superasse o poder dos Deuses em seu primor. Ele é uma arma, sim. Uma boa e rara arma. Alguém que será muito útil para nossos propósitos. Tinha de admitir, sentia-se tentado a ir contra ele e tentar captura-lo, mas o fato de que aquilo certamente não seria fácil e que seu líder poderia desaprovar de algo assim lhe seguravam.

E foi então que se surpreendeu uma segunda vez. Ainda estava concentrado em Ishir, admirado por ter finalmente testemunhado a existência de tal criatura, quando subitamente viu dois raios negros caírem sobre dois prédios próximos do homem, destruindo-os por completo instantaneamente. Isso foi o bastante para que ficasse um pouco mais cauteloso, embora não menos ansioso. Não há dúvida alguma. Esse definitivamente é o filho de Raijin... embora seu pavio seja ainda pior que o de seu pai. Pelo que podia entender da distância que estava, aquele homem estava irritado, e essa irritação estava fazendo com que ele perdesse o controle de si mesmo e destruísse as coisas ao seu redor. Seus olhos eram bons e por isso conseguia ver que o homem estava gritando alguma coisa, mas era simplesmente impossível ouvir o que ele dizia daquela distância. Por sinal... agora que penso nisso, o que ele está fazendo aqui? Havia ficado tão interessado com a aparição de Ishir antes que nem havia se lembrado disso, mas agora que estava um pouco mais calmo a pergunta vinha a sua mente, inquietante. Que interesse tem Ishir em uma batalha como essa? Ele estava atrás do Olho Vermelho? Poderia ser o caso... mas não, improvável. Por mais que Ishir fosse em parte demônio, o foco do Olho Vermelho parecia estar sobre os hospedeiros dos Corações – eles dificilmente seriam burros o bastante para provocar alguém como Ishir enquanto ocupados com oponentes de nível tão alto, o que tornava a fazer com que suas motivações ficassem confusas. Talvez ele esteja aqui com interesse em proteger os Corações de alguma forma e por isso ele veio para tentar matar o Olho Vermelho... mas isso também não faz muito sentido. O pai dele foi um dos principais inimigos dos Corações – não faz sentido que seu filho fosse protege-los. E mesmo se fosse esse o caso, como ele saberia que o Olho Vermelho estaria aqui? A única forma de prever os movimentos dessa guilda seria acompanhando-a de perto, e considerando o que ele demonstrou de seu pavio, ele simplesmente não teria paciência o suficiente para fazer algo assim... além do mais, considerando quem ele é, isso seria desnecessário; sozinho, Ishir deve ser mais do que o suficiente para aniquilar o Olho Vermelho, pelo que eu vi das habilidades deles.

Ainda estava pensando nisso, tentando tirar razão de tudo aquilo quando viu o que vinha em sua direção. Sentiu calor aproximando-se de seu rosto em uma velocidade muito grande, e por instinto reagiu antes de voltar-se para ver o que era. Quando o fez já estava em meio ao ar, e então pode verificar exatamente o que era aquilo; os raios negros de Ishir aparentemente haviam sido reunidos pelo Raio Negro, e logo em seguida foram disparados como um projétil em direção ao norte, erradicando tudo em seu caminho com facilidade extrema. Perigoso, perigoso. Eu sofreria muitos danos se fosse atingido por um ataque assim. Demorou algum tempo para aterrissar novamente devido à altura em que estava no ar, e quando enfim o fez, sua primeira reação foi observar exatamente o estrago que o ataque de Ishir havia feito.

Impressionante, pensou ele, vendo a destruição que o homem havia causado com um único golpe; a trilha de destruição de seu ataque havia sido tão forte e grande que ela se estendia por todo o caminho que ele percorreu, obliterando ruas, casas, a muralha e até mesmo parte da floresta e as montanhas ao longe. Esse foi um ataque bem poderoso. E não imagino que seja o mais forte de Ishir. Pelo que via, o homem tinha, no mínimo, poder o suficiente em suas mãos para destruir um pequeno país sozinho. Não é muito se comparado ao seu pai, mas é um bom começo.

Olhou novamente para o Salão Cinzento aonde Ishir antes estava, mas já era tarde demais. O Raio Negro não estava mais ali, e isso fez com que suspirasse, desapontado. Coçou a parte de trás de sua cabeça com a mão direita e olhou para o sul, pensativo. Bom, eu devo ir encontrar com meu líder... mas acho que talvez eu deva cuidar disso antes. Conhecia bem seu líder – ele iria lhe mandar concertar o estrago de Ishir de qualquer forma. Melhor fazer isso tanto quanto antes, então.

Estalou seus dedos e a magia começou. Tudo o que foi destruído se reconstruiu; não havia sobrado nem pó daquelas estruturas graças ao poder incrível do disparo de Ishir, mas isso não importava. Seu poder não era algo tão patético ao ponto de ser detido por coisas assim, e num piscar de olhos as montanhas, a floresta, a muralha, as casas e as ruas... todos estavam de volta ao seu estado original antes do disparo de raios negros, como se nada tivesse acontecido.

Tragou mais uma vez de seu cigarro e afastou a droga de seus lábios o suficiente para que soltasse a fumaça novamente. Muito bem, agora para encontrar-me com Gallashkulah. Voltou o cigarro aos seus lábios de novo, e calmamente começou a caminhar.



Notas finais do capítulo

ÁREA OESTE:

Enderthorn VS Octo Gall (Vencedor: Enderthorn)
Enderthorn VS Raptor (Vencedor: Enderthorn)
Vaen VS Lilybell (Vencedora: Lilybell)
Jiazz VS Maoh (Vencedor: Jiazz)
Senjur VS Reivjak (Vencedor: Senjur)
Chappa e Dayun VS Lilybell e Vaen (Vencedores: Chappa e Dayun)
Vaen, Chappa e Dayun VS Saber e Alcatraz (Fragmentada)
Chappa e Dayun VS Alcatraz (Vencedor: Alcatraz)
Vaen VS Saber (Vencedora: Saber)

ÁREA SUL

Kuman VS Fera (Vencedor: Fera)
Skylar VS Fera (Vencedor: Skylar)
Skylar VS Cleus (Vencedor: Cleus)
War e Coralina VS Nicholas (Vencedores: War e Coralina)
Trevor VS Maverick (Vencedor: Trevor)
War, Coralina, Ogre, Ekhart e Clone das Sombras VS Agnes, Ibur e Dokurei (Fragmentada)
War e Coralina VS Agnes (Vencedor: War)
War VS Ibur (Vencedor: Ibur)
Ogre VS Ibur (Empate)
Ekhart VS Dokurei e Shell (Interrompida)
Bokuto VS Zodwik (Vencedor: Bokuto)
Bokuto VS T.I.T.A.N. (Vencedor: Bokuto)
Valery e Goa VS Cleus (Vencedor: Cleus)

ÁREA LESTE

Alexander VS Goliath (Vencedor: Alexander)
Alexander VS Steelex (Vencedor: Steelex)
Eldigan VS Steelex (Vencedor: Steelex)
Soulcairn VS Steelex (Vencedor: Soulcairn)
Soulcairn VS Bertold (Vencedor: Bertold)
Ezequiel VS Bertold (Vencedor: Ezequiel)
Ezequiel VS Tristah (Vencedora: Tristah)
Zephyr VS Balak (Vencedor: Balak)
Kazegami VS J (Empate)
Florian VS Tristah e Behemoth (Vencedores: Tristah e Behemoth)
Jack Branco e Jack Negro VS Behemoth (Vencedor: Behemoth)

SALÃO CINZENTO

Marco, Scarlet, Sara, Leona e Darla VS Jiazz (Vencedor: Jiazz)
Bokuto VS Jiazz (Vencedor: Bokuto)

ÁREA NORTE

Gwynevere VS Retalhador (Vencedora: Gwynevere)
Gwynevere VS Balak (Vencedor: Balak)

Ok, várias coisas pra dizer aqui!

Primeiramente, aos que não notaram que Balak não havia sido derrotado no capítulo anterior, devo lhes informar que vocês tiveram duas dicas! Primeira dica; durante a luta contra Gwynevere, depois de ser atingido por todos aqueles golpes, Balak volta completamente ileso, sem nenhum sinal de ferimentos. Essa é uma dica referente as habilidades de cura dele. A segunda dica, talvez a que vocês mais tenham notado, era bem mais simples; podem checar se quiserem, mas no fim do capítulo 39, eu não atualizei a luta dele contra Gwynevere declarando-a como vencedora, sendo que sempre fiz isso em todas as outras lutas. Hehehe.

No próximo capítulo, iremos começar o último arco dessa saga. Ele deve ser bem grande. Esse arco teve 15 capítulos, mas o próximo deve ter 20, talvez até mais. Se preparem para ele. Ah, e mantenham em mente que o próximo capítulo terá uma votação importante que decidirá o destino de um personagem! Se vocês querem rever alguma parte da história ou tem algum amigo que lê ela que querem que participe da votação, é melhor se apressarem!

E por fim, uma coisa. Já que terminei esse arco, quero perguntar a vocês o que acharam dele, qual sua opinião. Para isso, estabeleci um pequeno questionário. Não é obrigatório respondê-lo, e se vocês quiserem podem me enviar ele respondido tanto nos comentários quanto via mensagem privada. A escolha é de vocês. Desde já, agradeço a todos que o responderem! o/

Melhor Personagem do Arco: (Qual dos personagens vocês acham que foi melhor nesse arco?)

Pior Personagem do Arco: (Qual personagem mais lhes irritou, incomodou, ou foi simplesmente "meh" nesse arco?)

Personagem Mais Importante do Arco: (Qual foi o personagem mais importante nesse arco, o que mais influenciou o plot na opinião de vocês?)

Melhor Batalha do Arco: (Qual foi a melhor luta do arco?)

Pior Batalha do Arco: (Qual foi a pior luta do arco?)

Evento do Arco: (Qual foi o acontecimento que mais marcou o arco na sua opinião?)

Nota do Arco: (De 0 a 10, qual nota dariam para avaliar esse arco?)

Comentários Adicionais: (Qualquer outra coisa que queiram dizer sobre o arco em geral, digam aqui.)



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