O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 38
O Mais Forte


Notas iniciais do capítulo

Ei! Se você for o tipo de pessoa que gosta de ler enquanto ouve músicas, vocês podem querer ler a música Leave it All Behind da banda Cult to Follow! Segue o link!

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O JUGGERNAUT VOLTOU-SE PARA SEU OPONENTE com um sorriso animalesco no rosto. Seis dedos moviam-se constantemente e seus joelhos dobravam levemente a todo momento, mas apesar de sua postura, Jiazz não fez nenhum movimento que sugerisse uma verdadeira ofensiva. Ele ameaça, mas não cumpre, ponderou consigo mesmo Bokuto, analisando cautelosamente todos os movimentos de seu oponente, sem nunca perde-lo de vista. O que ele planeja com isso? Será que ele pensa que brincando assim ele vai mexer com meus nervos e me incitar a fazer alguma besteira? Se era esse o plano, então os resultados do Juggernaut estavam sendo... mistos, até agora. Ele não estava conseguindo deixar Bokuto nervoso ou ansioso como sem dúvida pretendia, mas todos aqueles movimentos estavam lhe deixando progressivamente mais irritado, fazendo com que o cavaleiro começasse a internamente ter de lutar contra sua vontade de investir direto contra Jiazz o Juggernaut.

E então, subitamente, Jiazz avançou contra ele.

Ele tinha mais de dois metros e deveria pesar facilmente mais de cem quilos, mas pela velocidade com a qual avançou, esse simplesmente não parecia ser o caso. Em menos de um segundo Jiazz havia cruzado a distância que os separava, seu punho já vindo em direção a Bokuto, a meros centímetros de distância do rosto do cavaleiro. Não teve nem chance de evitar aquilo; o golpe lhe atingiu diretamente, com força o bastante para que sentisse seu nariz se quebrar imediatamente com ele. Por um momento seu corpo ficou fixo aonde estava, absorvendo o impacto, para que no seguinte fosse isolado.

Foi arremessado pelos ares como se fosse completamente mole, desprovido de ossos. Chocou-se em cheio com um dos vários pilares do salão, reduzindo-o a escombros com seu corpo, quebrando-o e passando por ele como se o pilar fosse de vidro. Atingiu em cheio uma das paredes daquela sala em particular também, e ela não ofereceu mais resistência. Atravessou-a e bateu no chão, quicando com força por uma ou duas vezes antes de finalmente perder o momento do golpe e desacelerar o suficiente. Estava girando no ar e aproveitou-se disso para cravar sua mão no chão, prendendo-se ao solo com seus dedos, mantendo-se firme com uma mão enquanto com a outra segurava sua espada. Esse foi um golpe bem forte, pensou Bokuto, estalando seu pescoço. Tenho de tomar cuidado. Não posso me dar ao luxo de ficar sendo atingido por golpes desse ní...

Seus próprios pensamentos foram interrompidos quando sentiu aquela presença. Ergueu lentamente sua cabeça para vez Jiazz acima dele, tão grande quanto uma torre, com seu pé erguido, posicionado bem acima da cabeça de Bokuto.

– Deixe-me introduzi-lo ao que será um bom amigo – disse o Juggernaut, um sorriso repleto de dentes brancos e afiados em seu rosto, um brilho maléfico e perigoso reluzindo em seus olhos. – Bokuto? CONHEÇA O CHÃO!

O pé de Jiazz caiu de imediato contra ele, tão forte e pesado que parecia mais uma marreta. Conseguiu rolar pro lado e evitar a maior parte do golpe, mas nem mesmo isso lhe livrou da onda de impacto que o ataque gerou. A mera força da pressão do vento resultante daquele ataque foi o suficiente para lhe jogar com força contra uma das paredes da sala... embora, considerando a forma como o pé de Jiazz destruiu completamente absolutamente tudo que ele atingiu, supunha que devia estar contando suas bênçãos naquele momento. Olhou bem para seu oponente; metade da perna de Jiazz ainda estava enfiado no chão, cercada por pedra e poeira. Normalmente eu iria assumir que algo assim iria atrasar os movimentos dele o suficiente para me dar uma vantagem no que diz respeito a velocidade, mas francamente... considerando que estou enfrentando um monstro como esse, não acho que pedras vão ser algum obstáculo. Uma gota de suor frio escorreu pelo seu rosto, correndo até pingar de seu queixo ao chão. Tenho de admitir; estou um tanto quanto hesitante em avançar contra ele. Tinha confiança em sua velocidade e habilidades, mas não podia subestimar seu oponente; Jiazz já havia deixado mais que claro que sua velocidade era muito maior do que sua aparência sugeria, e com a força e resistência monstruosas que ele havia exibido, não podia correr riscos contra ele. Mas isso dito, eu não vou chegar a lugar algum se eu ficar com medo de atacar. Precisava fazer alguma coisa se quisesse obter a vitória naquela luta.

Fechou seus olhos por um momento, abaixou sua espada e respirou fundo. Deixou o ar encher seus pulmões, e então tomou sua decisão. Foda-se tudo.

Estilo Uma Espada... – murmurou Bokuto, tornando a erguer sua espada, segurando-a com ambas as suas mãos. Tomou um momento para fixar seu olhar sobre seu oponente e depois se moveu, tão rápido quanto um raio, partindo o chão em dois através da mera velocidade de seus movimentos. – GRANDE ONDA DO FALCÃO!

Moveu sua espada rapidamente, com uma velocidade ainda maior do que a de seus movimentos, tão rápido que o som desse movimento soou afiado aos ouvidos do mundo. Atingiu Jiazz em cheio na lateral do corpo... mas tudo o que conseguiu fazer com isso foi rasgar as roupas e armadura de seu oponente. No momento em que sua espada tocou a carne do Juggernaut, ela parou imediatamente. Apesar de toda a velocidade e força por trás de seu golpe, foi incapaz de fazer um único arranhão ao seu oponente. De novo?! Seus dentes rangeram um no outro com força, em um misto entre frustração e raiva. Simplesmente quão forte é esse homem, quão dura é sua pele?! Esse golpe deveria ser capaz de cortar uma parede de aço em pedaços sem problema algum!

– Você ainda não entendeu, cavaleiro? – questionou o Juggernaut, com um sorriso de orelha a orelha brilhando em seu rosto. – Você não vai ser capaz de me ferir com um golpe desse nível.

Sentiu o punho de Jiazz acertar a boca de seu estômago sem que pudesse expressar qualquer tipo de reação. O sangue subiu-lhe subitamente a garganta, e seu corpo foi arremessado sem misericórdia contra uma das paredes da sala, destruindo-a com o impacto e fazendo com que Bokuto caísse sobre os destroços dela. Já havia se preparado mentalmente para aquilo desde quando viu que seu golpe havia sido inefetivo – e foi isso que lhe possibilitou saltar prontamente pra trás, aterrissando novamente de pé, pronto pra batalha – mas a compreensão daquilo não tornava as coisas mais fáceis para ele. Droga, como eu devo ferir esse cara? A pele de Jiazz já havia se provado muito dura; por mais que não gostasse disso, era exatamente como o Juggernaut havia dito: ataques daquele nível não iriam feri-lo. A pergunta então é... como eu devo feri-lo? Não estava poupando energia; todos os seus ataques haviam sido desferidos com toda a sua força, e mesmo assim, nem um deles havia sido capaz de fazer um único arranhão ao Juggernaut. Eu preciso de um plano, algum tipo de estratégia de combate, algo que eu possa usar para virar o jogo. Mas o quê? Supunha que poderia tentar lançar alguns ataques de teste contra Jiazz, tentar sondá-lo em busca de um ponto fraco, mas francamente, o homem era como uma fortaleza – duvidava que ele fosse ter qualquer tipo de ponto fraco, e além do mais, fazer algo assim lhe colocaria sobre grandes riscos de receber outros golpes de Jiazz, e isso por si só já era o suficiente para lhe fazer descartar essa ideia. Mas sendo assim, que alternativas me restam? Supunha que podia usar a verdadeira forma de sua espada para aumentar seu poder ofensivo... mas não, preferia não ter de usar algo assim. A verdadeira forma da minha espada é a última carta na minha manga, uma alternativa perigosa demais para que eu possa considerar isso enquanto tenho outras opções. Não iria usar aquilo, ao menos não se tivesse outras opções. Tudo o que me resta é descobrir quais são essas opções...

Parou por um momento, pensou, e subitamente chegou a uma possível resposta. Isso... pode funcionar, eu acho. Provavelmente. Francamente, aquilo seria uma aposta, mas a essa altura, tudo que fizesse seria uma aposta.

Viu o Juggernaut seguindo em sua direção calmamente, com suas mãos nos bolsos e um sorriso bem largo no rosto. Aí vem ele. Sua mão segurou sua espada com mais força, e mentalmente, preparou-se para o que tinha de fazer. No momento em que você pisar nessa sala, eu vou ter a chance perfeita de lhe derrotar, Jiazz o Juggernaut!

Saltou para trás até os limites da sala afim de atrair o Juggernaut, força-lo a entrar ainda mais nela. E enquanto o Juggernaut entrava, correu disfarçadamente seus olhos pela sala, avaliando a arquitetura e a estrutura dela. Isso deve ser o suficiente, eu acho. Era provável que o Juggernaut tivesse avariado a estrutura do Salão com todos os seus golpes, mas desde que fosse rápido o suficiente, isso não deveria ser um problema. Bom, vamos lá. Hora de começar essa merda.

Estilo Uma Espada... – dobrou rapidamente seus joelhos e saltou sem hesitação, alcançando o ponto superior direito da sala, parando com seus pés na parede. Viu os olhos do Juggernaut movendo-se, seguindo seus movimentos sem entender muito bem o que ele estava fazendo. Não fez o menor esforço para sanar suas dúvidas; ao invés de perder tempo com explicações, tornou a saltar, alcançando um dos pilares noutro canto da sala, bem ao lado do Juggernaut, mas antes que os olhos de Jiazz pudessem acompanha-lo ele tornou a saltar, indo para uma das paredes laterais. Não ficou nem um segundo nela; assim que seus atingiram a parede ele tornou a saltar, fazendo isso de novo e de novo, cada vez mais rápido, cada vez mais forte. Três segundos foi todo o necessário; em três segundos os movimentos de Bokuto tornaram-se tão rápidos que o cavaleiro virou um grande borrão em constante movimento, passando de um lado ao outro da sala com uma velocidade tão grande que nem mesmo Jiazz conseguia acompanhar seus movimentos. – DANÇA DA ESPADA LOUCA!

Enquanto movia-se em alta velocidade, segurou firmemente sua espada com ambas as mãos. Um golpe. Eu tenho de acabar com isso com um único golpe. Claro, não achava que algo assim seria fácil; Jiazz era um oponente tremendamente forte, e se já era tão difícil fazer algum dano a ele, seria ainda mais difícil fazer dano o suficiente para mata-lo em um golpe... mas era exatamente por isso que precisava se esforçar para fazer tal. Ferir Jiazz é algo difícil. Sendo assim, devo fazer o máximo das chances que se mostrarem pra mim. Duvidava que aquela técnica fosse funcionar novamente depois dessa vez, então tinha de fazer seu melhor com ela. Um golpe. Meu objetivo é decapitar Jiazz com um golpe. Qualquer coisa a menos é um fracasso pra mim.

Respirou fundo por uma última vez, e afiando seus olhos, avançou contra Jiazz o Juggernaut, usando toda a sua força e velocidade.

Mas não chegou nem perto de golpear o homem antes que ele fizesse isso.

Quando estava se aproximando, quando estava chegando perto de Jiazz, o Juggernaut moveu-se subitamente. Tinha antes certeza de que ele não conseguia acompanhar seus movimentos, não tinha a menor noção de onde ele estava. Descobriu o quanto estava errado em pensar assim quando Jiazz virou-se na sua direção sem aviso, lançando um poderoso soco direto ao estômago de Bokuto. Toda a sua velocidade, todo o seu plano, esses subitamente voltaram-se contra ele. Todas as suas preparações apenas serviram para ampliar ainda mais o dano que ele recebeu daquele ataque. Sentiu como se seu estômago estivesse sendo esmagado pelo punho de Jiazz, e por mais que tentasse resistir, simplesmente não pode deixar de vomitar sangue puro com a força do impacto. Por arremessado longe com violência, quicando por várias vezes no chão, rolando no ar, atravessando paredes de concreto puro como se fossem de papel – foi apenas através de muito esforço que se manteve consciente, e foi apenas sua determinação que fez com que não soltasse sua espada em momento algum. Quando enfim a força do golpe chegou ao fim, estava completamente ferrado; das suas roupas só restavam as suas calças, a parte superior de suas vestimentas tendo sido completamente destruída por tudo que ele havia passado, e seu próprio sangue banhava seu torso. Sentia uma dor intensa em sua barriga, tão forte que sentia dificuldades até para respirar, mas não deixou que isso lhe derrubasse. Usando sua espada como apoio, colocou-se de novo de pé, e ergueu sua cabeça para ver que Jiazz estava avançando novamente em direção a ele, calmamente, sem preocupação alguma. Miserável... mesmo com todo o meu esforço, não estou nem perto de representar uma ameaça para ele, e ele sabe disso. Ele sabe disso, e ele insiste em esfregar isso na minha cara a todo momento. Sentia-se furioso diante de Jiazz. Furioso por ele ser seu inimigo. Furioso pela arrogância dele. Furioso por ser tão impotente diante dele. Chega disso. Acho que não me restam muitas escolhas a essa altura, não é? Seus olhos caíram sobre a espada em suas mãos, ainda um pouco hesitantes. Três usos a mais. Acho que é isso que eu possuo, não é? Não gostava de estar caminhando assim em direção a sua própria morte... mas se isso iria lhe dar a vitória, então valia a pena. Fechou seus olhos e concentrou-se na espada amaldiçoada que trazia consigo.

Mostre sua verdadeira forma, MURAMASA! – disse em voz alta Bokuto. Com suas palavras, o poder da espada de madeira que ele usava foi liberto.

A madeira que antes constituía a espada caiu ao chão como uma casca podre, amontoando-se aos seus pés. Por baixo dela, revelou-se a verdadeira forma de Muramasa; uma espada longa e fina, com uma empunhadura de ouro maciço e uma lâmina negra como a noite, coberta de runas que pareciam arder com a força das chamas de uma forja. Ao longe viu Jiazz ergueu uma sobrancelha ao notar aquela espada, parecendo um pouco surpreso por ela, mas sabia que o homem não conhecia a lenda da espada amaldiçoada, e mesmo se conhecesse, ele provavelmente não se importava. O mais provável é que ele julgue imortal e invencível, graças as suas forças. Irei mostrar-lhe que as coisas não são assim.

Bokuto. Faz tempo desde a última vez que você me chamou. – a voz fantasmagórica ressoou em seus ouvidos, fazendo com que o cavaleiro franzisse o cenho em irritação. Sentiu a mão da fantasma da espada tocar-lhe gentilmente no ombro, fria como um cubo de gelo, e ouviu o sopro dela em seu ouvido. Sentia-se grato pelo fato de que apenas ele conseguia ver a fantasma; seria um incômodo se Jiazz pudesse vê-la agora. – Você se lembra das condições para me usar, não lembra?

– Você me mata depois de mais dois usos da sua verdadeira forma, correto? – respondeu ele, murmurando bem baixo para que Jiazz não lhe ouvisse, sem nunca tirar os olhos de seu oponente.

Matar é uma palavra feia demais – protestou a fantasma, no tom neutro que ela sempre usava. – Eu não irei lhe matar, necessariamente. Irei tomar sua alma como pagamento. Você não irá morrer, só perder sua individualidade em meio as outras almas que absorvi ao longo dos anos. Mas, vejo que você não esqueceu das condições. Bom.

– As condições não importam – cortou ele, impaciente. – Você vai me dar poder para derrotar meus inimigos, não? Isso é tudo que importa.

... Compreendo. Bom saber disso – disse ela, enquanto Bokuto sentia os “olhos” dela fitarem-no intensamente. A sensação era incômoda, para dizer o mínimo, mas felizmente não durou muito; logo sentiu o espírito da fantasma retornar para dentro de Muramasa. – Guie-me então agora, Bokuto. Deixe-me matar seus inimigos.

Não precisava ouvir aquilo duas vezes. Voltou sua atenção totalmente para Jiazz; o Juggernaut havia cruzado uma boa quantia da distância que os separava, mas ainda estava distante, bem distante. Mais do que o suficiente para que eu possa testar o poder de Muramasa com certa tranquilidade. Em primeiro lugar, o que fez foi usar a energia da espada para curar-se um pouco, deixando que ela fluísse por seu corpo, reconstituindo ossos quebrados, fechando feridas abertas. Não importa quantas vezes eu use isso, não consigo me acostumar com o fato de que estou usando uma espada amaldiçoada para me curar. Creio que a ironia nisso é forte demais. Depois disso passou a segurá-la com apenas uma mão, deixando sua outra livre. Com o poder de Muramasa, devo ser capaz de ultrapassar as defesas de Jiazz. O que significa que agora posso usar minha Aloeiris com minha outra mão... Tinha a impressão de que isso ainda iria ser muito útil naquela luta.

– Diga-me, Jiazz o Juggernaut – disse Bokuto em voz alta, certificando-se de estar falando alto o suficiente para que Jiazz pudesse ouvi-lo claramente apesar da distância que os separava. – O que lhe motivou a nos atacar? Se bem me lembro, o Salão Cinzento enviou um mensageiro até você, oferecendo-lhe ouro e prata para lutar ao nosso lado. O que lhe fez preferir o Olho Vermelho ao invés de nós?

– Oh, uma pergunta de motivações? Interessante. A maioria das pessoas não faz coisas assim; é mais prático pra elas simplesmente assumir que sou um filho da puta mau desde o início – comentou o Juggernaut, sorrindo de uma forma que sugeria que ele estava tão divertido quanto satisfeito por aquilo. – Sabe, essa é uma boa questão. Vou assumir, eu estive tentado a lutar com vocês ao invés de contra vocês, quase fiz isso pra ser sincero, mas as tentações de lutar ao lado do Olho Vermelho eram simplesmente muito maiores. Lutando com vocês, eu teria a chance de enfrentar o quê? Dez oponentes de alto nível? Provavelmente menos já que chuto que vocês acabariam com alguns deles bem antes que eu tivesse a chance de fazer isso. Mas lutando ao lado do Olho Vermelho, eu enfrento vocês, o Salão Cinzento! Vocês são lendários, sabe? A força de seus cavaleiros é o tipo de coisa que forja lendas. Não vou mentir; eu estava bem ansioso por enfrentar vocês.

– Sua motivação então foi apenas “ter a chance de nos enfrentar”? – mal conseguia acreditar nisso, mas Jiazz parecia bem sério (ou ao menos, tão sério quanto ele podia parecer) ao dizer aquilo. – Essa é realmente sua única motivação? Você não tem nenhum compasso moral para tomar uma decisão tão drástica assim baseado apenas em suas vontades mesquinhas?

– Ah, compasso moral. E lá vamos nós para essa discussão de moralidade – os olhos de Jiazz visivelmente rolaram enquanto ele andava, e o rosto do Juggernaut perdeu um pouco de divertimento para trazer mais tédio e aborrecimento. – Vou te dar uma dica: nunca apele pro meu compasso moral. Eu não tenho, ao menos não mais do que o mínimo. Eu não estupro, não saio por aí cometendo crimes aleatoriamente e não sou gratuitamente cruel a ninguém, mas também não um cara bonzinho e altruísta. Se eu estiver passando fome e estiver sem dinheiro, eu vou roubar comida de alguém na cara de pau sem pensar duas vezes. Se eu estiver comendo num bar e o dono dele ficar me enchendo o saco, eu não vou pagar e sou bem propenso a dar um soco direto na cara dele. Se uma mulher começar a querer me dar uma lição de moral ou coisa do tipo, eu sou mais capaz de dar uma cabeçada nela do que ouvi-la. Se uma criança chata ficar correndo ao redor de mim, eu vou chutar o raio do pirralho, e foda-se o resto. Se um panaca ficar me irritando, eu vou bater nele, talvez até mata-lo. A maioria dessas “normas morais” que guiam a maioria das pessoas não existem pra mim, então não apele pra elas. Não vou ser um filho da puta ou um otário gratuitamente, mas no fim do dia, eu faço o que quero, e sou mais do que forte o suficiente para fazer minha vontade reinar a força se isso for necessário. Além do mais, você fala como se você tivesse o chão superior moral, mas francamente, quem me garante que esse é realmente o caso? Uma guerra como essa não é que nem um livrinho aonde os vilões e os heróis são coloridos pra sua conveniência. Muitas vezes, não existem vilões ou heróis, caras maus ou caras bons. Apenas pessoas de pontos de vista diferentes. Sei que você deve ser capaz de me dizer trezentos motivos pelos quais supostamente o Salão seria o certo aqui, mas se eu fosse falar com um membro do Olho Vermelho, ele seria capaz de fazer exatamente o mesmo. A não ser que você esteja envolvido nisso desde o início em uma posição neutra, você simplesmente não pode dizer quem está certo ou errado... então eu não tento. Quando me oferecem trabalho, eu escolho o que fazer de acordo com preferências pessoais minhas, não fico tentando adivinhar quem está certo ou errado. Então, faça-me um favor, sim? Se você estava planejando me dar uma lição de moral, peço-lhe com toda a educação que você vá tomar no meio do cu. – e para ilustrar seu ponto, Jiazz ergueu uma de suas mãos, mostrando o dedo do meio com fervor à Bokuto.

Afiou seus olhos ao ouvir aquilo, mas não disse mais nada. As palavras de Jiazz faziam algum sentido, mas elas não estavam nem perto de serem o suficiente para convencer ou satisfazer Bokuto. Pelo que ele falou, o modo de agir e pensar dele não é muito diferente do de uma criança; ele faz o que quer, sem se importar com as consequências, e depois não quer que lhe responsabilizem ou censurem por seus atos. Quão arrogante ele pode ser? Aparentemente, Jiazz não queria ouvir questionamentos sobre suas ações, mas Bokuto havia visto o resultado daquele ataque. Corpos de companheiros dilacerados, casas destruídas. Um restaurante no qual ele gostava de almoçar havia sido completamente queimado pelas chamas da guerra, e achou o corpo da velha que cozinhava ali carbonizado num canto dele. Não foram apenas cavaleiros que morreram nessa batalha. Vidas inocentes também foram perdidas, Jiazz, e você é parcialmente responsável por isso. Não importa o quanto você não queira assumir isso, a culpa das mortes dessas pessoas cai sobre você também, não apenas sobre aqueles que balançaram suas espadas. Mas, já havia ficado mais do que claro que palavras e argumentos não significavam nada para Jiazz, não é? Foi ele quem disse que ele fazia o que queria, e que tinha força o suficiente para fazer com que sua vontade reinasse quando quisesse, certo? Você só se esquece de uma coisa muito importante, Juggernaut; você não é o único com força aqui.

Muramasa brilhou em sua mão por um momento, um instante antes que Bokuto a movesse. Fez um rápido corte no ar a sua frente, e com esse movimento e seus desejos, parte da energia da espada foi liberada em uma lâmina gigante de energia vermelha que avançou contra Jiazz, cortando chão e teto com a mesma facilidade com a qual uma faca quente corta através de manteiga. Viu o sorriso de Jiazz se alargar ainda mais ao ver aquele ataque, e rapidamente o homem modificou a postura de sua mão para tentar segurar seu golpe com a mão nua.

O sorriso dele logo morreu quando percebeu que as coisas não eram tão simples assim.

A lâmina de energia que Bokuto arremessou pressionava o Juggernaut, arrastando-o para trás apesar de seus pés estarem tão firmes no chão que ele levava pedra consigo a cada centímetro que era arrastado. Compreendendo a ameaça que aquilo representava, o Juggernaut apressou-se a erguer também sua outra mão e juntá-la a sua resistência. Com ela ele conseguiu um desempenho um pouco melhor; parou de ser arrastado, e de alguma forma, pareceu que ele estava conseguindo pouco a pouco conter a energia da lâmina de Bokuto, fazendo com que o brilho dessa parecesse ficar cada vez mais fraco, concentrando a força a energia do ataque em uma esfera vermelha entre suas mãos. Ele concentrou parte da energia assim, apenas o suficiente para que pudesse redirecionar todo o ataque a partir disso, lançando várias lâminas menores em todas as direções, dispersando com sucesso o ataque. Por onde aquelas lâminas passaram elas causaram destruição, cortando tudo que se colocava em seu caminho como se não fosse nada, abrindo buracos nas paredes, no teto e no chão, espalhando destruição incontável por toda aquela seção do salão. Fumaça vinha das partes afetadas por elas e das palmas das mãos de Jiazz, e pela primeira vez o Juggernaut demonstrou alguma quantia de esforço. Com um misto de admiração, diversão e aborrecimento, Jiazz ergueu os olhos para voltar sua atenção ao seu oponente...

... E foi então que ele descobriu que Bokuto não estava mais no lugar aonde havia o visto pela última vez.

Não deu ao Juggernaut nem mesmo tempo para ficar confuso com aquilo antes que começasse a agir. Os instintos e reflexos do homem deveriam ser muito bons, porque ele não demorou tempo nenhum para virar-se em cento e oitenta graus e erguer seus olhos a Bokuto, mas mesmo assim, já era tarde demais. Muramasa moveu-se com violência o suficiente para cortar o próprio vento, e surpreendentemente, Jiazz conseguiu reagir a isso. Jogando sua cabeça para trás, o Juggernaut conseguiu evitar a maior parte do golpe... embora não todo ele. A ponta de Muramasa ainda o alcançou, arranhando seu rosto, fazendo um corte bem abaixo de seu olho direito... fino, mas ainda assim, profundo o bastante para tirar sangue.

Não teve nem um segundo para saborear o gosto de ter finalmente conseguido arrancar sangue de seu oponente antes que a perna de Jiazz se movesse subitamente, acertando-o lateralmente e arremessando-o para o lado.

A essa altura, depois de ter sofrido isso tantas vezes, estava acostumado a ser arremessado, e agora que tinha seu corpo curado, podia finalmente reagir de forma apropriada a isso. Quebrou algumas paredes com seu corpo, sim, mas isso não foi nem de longe o suficiente para lhe afetar de verdade. Girou no ar, endireitou seu corpo e aterrissou de joelhos no chão, já preparado para avançar novamente quando bem quisesse, o que foi exatamente o que fez. Saltou contra o Juggernaut sem pensar duas vezes, brandindo Muramasa com força, e em resposta a isso, o Juggernaut retirou uma das espadas das suas costas e contra-atacou com um golpe próprio.

O impacto gerado pela força de ambos foi muito maior do que qualquer coisa que um humano deveria ser capaz de fazer. No momento em que as espadas se chocaram, toda a seção do Salão Cinzento na qual eles estavam simplesmente desapareceu. O teto, as paredes, tudo foi arrancado brutalmente pera mera onda de impacto que eles emitiram e jogado longe, e abaixo dos dois o chão cedeu, formando uma cratera tão grande quanto a que um pequeno meteoro criaria. O céu se abriu acima dele, partindo-se em dois devido a pura força que os guerreiros emanavam, mas apesar de tudo isso, nenhum deles cedeu.

Seus olhos confrontaram os do Juggernaut em meio aquilo, cheios de fúria e determinação. Mesmo com Muramasa, a diferença ainda é grande, não é? Ambos estavam usando apenas uma de suas mãos para sustentar suas armas, mas enquanto Bokuto estava visivelmente se esforçando em seu ataque, o Juggernaut parecia muito mais relaxado. Ele não sorria de forma arrogante ou divertida como ele fazia antes, aparentemente tendo trocado seus sorrisos por uma expressão mais séria e focada no combate, mas era óbvio que ele não estava fazendo metade do esforço de Bokuto. Bom, não importa. Eu agora posso feri-lo, e isso é o suficiente. Só preciso usar de inteligência para acertar alguns bons golpes nele, e então a vitória será min-

Seus pensamentos foram interrompidos quando subitamente sentiu algo quente passando por seu peito, abrindo-o diagonalmente com um único corte poderoso.

Vacilou um passo para trás depois daquilo, e foi então que pode ver o que havia feito isso. Enquanto segurava Bokuto com uma de suas espadas de aço, o Juggernaut aparentemente havia usado o tempo que tinha tido e a distração de seu oponente para criar chamas douradas ao redor de sua outra mão e dar forma a essas, fazendo com que elas assumissem uma forma de chamas sólidas douradas... a forma de uma espada bastarda dourada, com sua lâmina agora tingida do vermelho do sangue de Bokuto. Ele pode fazer esse tipo de coisa com sua Aloeiris? Maldição... ele é mais versátil do que imaginei.

O Juggernaut tentou voltar a avançar contra ele, mas dessa vez não estava de guarda baixa, e isso possibilitou que reagisse bem a tempo. Assim que ele saltou contra o cavaleiro, Bokuto saltou para trás, bem mais do que ele, criando uma boa distância entre os dois. Os olhos de Jiazz brilharam, aborrecidos, e ele nem completou o ataque que iria fazer. Ao invés disso, apenas ficou parado aonde estava, suas espadas abaixadas, embora sua linguagem corporal deixasse bem claro que ele não estava de guarda baixa e seu rosto permanecesse tão sério quanto antes.

– O que planeja fazer agora, cavaleiro? Correr e se esconder? – questionou ele em um tom mais aborrecido do que provocador, como se ele estivesse honestamente chateado com a fuga de Bokuto. – Você planeja me derrotar, não é? Se é realmente esse o seu plano, então você não vai poder ficar fugindo de mim.

Caiu de joelhos, ainda segurando Muramasa. Apalpou o chão com sua mão livre, testando sua consistência. Hmm. Ele está um pouco mole – o que francamente é de se esperar considerando que estamos na cratera que acabamos de criar – mas não o suficiente para me prejudicar. Além do mais, parece que ainda existe uma boa camada de pedras abaixo disso. Perfeito, exatamente aquilo do que preciso.

– Sabe, Juggernaut, meu último oponente antes de você foi bem chato – comentou Bokuto sem olhar para Jiazz, ainda apalpando o chão. – Uma mulher de pedra estranha. Ela não foi chata apenas pelo seu modo de lutar, mas também por suas habilidades. Elas não eram extremamente poderosas ou problemáticas, mas eram habilidades que me limitavam, justamente porque elas me impediam de usar minhas habilidades. Não gosto de enfrentar alguém que limita o meu próprio poder, sabe?

Um rápido olhar para Jiazz foi mais do que o suficiente para lhe dizer que ele não entendia o ponto que queria fazer. Bom, sem problemas, pensou Bokuto, um sorriso querendo abrir seu caminho até seu rosto. Eu apenas tenho de demonstrar, então.

Punho da Terra! – gritou ele, no momento em que ergueu sua mão, fechou-a num punho e subitamente golpeou o chão diante dele. Jiazz pareceu ficar ainda mais confuso ao ver aquilo, principalmente pelo fato de nem o chão nem Bokuto terem aparentado sofrer algum tipo de dano com isso, mas a resposta as perguntas que deviam reinar em sua mente foram lhe dadas prontamente no momento em que um grande punho de terra e pedra surgiu abaixo dele, emergindo dentre as pernas do Juggernaut, atingindo-lhe em cheio no queixo, levando o corpo dele ao ar, uma expressão de pura incredulidade presente em seu rosto. Não sei se consegui fazer algum verdadeiro dano a ele com isso ou se apenas consegui fazer tanto graças ao elemento da surpresa, mas francamente, não importa. Aquilo lhe dava uma chance perfeita de ganhar a ofensiva, e não iria desperdiça-la.

Levantou-se quase que com um salto, e não desperdiçou tempo em mover novamente Muramasa. Uma segunda lâmina de energia foi arremessada de sua espada, seguindo em alta velocidade contra Jiazz, mas dessa vez ele já tinha tido experiência com aquilo, e agora o Juggernaut estava sério. Seus olhos haviam se fechado quando ele foi atingido, mas eles abriram-se novamente de uma vez, e num piscar de olhos ele girou as espadas em suas mãos. As armas de aço e fogo se moveram como se tivessem vida própria, e com um golpe ele cortou a lâmina de energia de Bokuto, dispersando todo o ataque em fagulhas tão pequenas que isso pareceu até mesmo não ser nada mais do que um brilho de luz. A força dele aumentou bastante agora que ele está sério, observou Bokuto. Antes ele havia tido alguma dificuldade para dispersar esse ataque e havia feito um trabalho meia-boca nisso, mas agora ele conseguiu reduzir essa lâmina de energia a nada com muito mais facilidade. Isso dito, queria ver exatamente como Jiazz iria lidar com aquilo.

Enquanto havia lançado seu ataque, Bokuto não havia simplesmente ficado parado esperando pela reação de seu oponente. Aproveitou-se da distração que seu golpe representou para mover-se, contornando Jiazz até chegar às costas do guerreiro, e então saltou. Em meio ao ar, concentrou energia em Muramasa, a mesma energia que ele normalmente lançava contra seu oponente, mas ao invés de lança-la como havia feito antes, o que fez agora foi mantê-la ali, usando essa energia para fortalecer sua espada e aumentar o poder destrutivo dela. Caiu sobre Jiazz deixando um rastro de energia vermelha por onde passava, e quando o Juggernaut voltou-se em direção a ele também, pôde jurar ver faíscas douradas saírem de seus olhos. A espada de chamas douradas de Jiazz chocou-se contra a espada amaldiçoada de Bokuto, e o encontro das duas gerou outra onda de choque, tão ou mais forte do que a primeira. Chamas douradas e energia vermelha dançaram ao redor dos combatentes, e tudo o que elas tocavam era completamente destruído de imediato. O som que reinava pelo ambiente era tão alto que Bokuto sentia como se seus tímpanos pudessem estourar a qualquer momento, e o brilho que veio do confronto era tão claro que quase lhe cegava, mas nem isso lhe fez recuar. Essa é minha chance! EU NÃO VOU DESPERDIÇÁ-LA! Um grito de fúria e determinação veio e sua garganta, e levando sua outra mão a Muramasa, empurrou a espada contra Jiazz com ainda mais força.

A resposta do Juggernaut a isso foi simples. Os olhos dele brilharam, por um momento completamente consumidos pelo dourado, e ainda movendo sua espada dourada com apenas uma mão, ele liberou uma onda de chamas douradas que consumiram tudo em seu caminho.

O ataque lhe isolou, lhe lançou muito longe. Estava bem no alto – sabia disso porque conseguia ver boa parte da imensa cidade que era o Salão Cinzento abaixo dele – mas não foi nem com isso com que se preocupou, mas sim com a força que Jiazz havia exibido. Amaldiçoado seja ele... o filho-da-puta ainda tem tanto poder assim escondido? Estava usando absolutamente tudo o que tinha a seu favor – não só suas próprias habilidades como também os poderes de Muramasa – mas mesmo assim tudo o que havia conseguido era dar uma luta ao Juggernaut. Todos os meus esforços, toda a minha força... até agora, tudo o que eu consegui fazer foi um arranhão no rosto dele. E pelo que ele acabou de demonstrar com esse seu ataque, ele tem muito mais poder disponível do que o que está exibindo. Aquilo era certamente desencorajador. Francamente, não sabia se conseguiria derrotar Jiazz, por mais que tentasse.

Mas ainda há vida em meus ossos, e ainda há uma espada em minhas mãos. Eu ainda posso e vou lutar!

Girou em meio e esperou pacientemente para que chegasse próximo ao chão. Quando isso aconteceu, não hesitou em cravar Muramasa no solo com todas as suas forças, prendendo-a ao chão. Tão afiada como era, continuou a ser arrastado mesmo assim por algum tempo, a espada abrindo facilmente o solo em dois, mas estava perdendo velocidade muito mais rápido com isso, e era isso que importava. Tomou dois segundos para respirar fundo antes que voltasse a erguer sua cabeça, sabendo bem que assim que fizesse isso seria forçado a voltar pra batalha. E tal como imaginou, foi isso que aconteceu; quando ergueu sua cabeça, viu Jiazz avançando em sua direção em um salto, paralelo ao chão, brandindo sua espada de aço em uma mão e a de chamas na outra.

Rangeu os dentes e arrancou Muramasa do chão com um movimento, para em seguida avançar contra Jiazz também.

Assim que esteve próximo o suficiente de seu oponente para atacar, moveu Muramasa contra Jiazz com todas as suas forças, e em resposta o Juggernaut ergueu sua espada de chamas douradas. As duas se encontraram e emitiram espelharam chamas e energia pelo ambiente ao redor deles, mas aquilo não foi tudo. As espadas se chocaram, sim, mas uma não deteve a outra, e isso possibilitou que os ataques continuassem. Muramasa dançou em suas mãos, guiada tanto por sua vontade e suas ordens quanto pelo espírito amaldiçoado dela, e em contrapartida Jiazz moveu suas próprias armas contra Bokuto. Moveu horizontalmente Muramasa, tentando cortar o homem na altura do peito, mas a espada dourada de Jiazz entrou novamente no caminho, e seu golpe acabou apenas afastando essa. Aproveitando-se da chance que se mostrou com isso Jiazz moveu sua espada de aço contra Bokuto, com tanta força que o cavaleiro podia dizer que ele planejava cortá-lo em dois com aquele golpe. Abaixou-se bem a tempo e sentiu a pressão do ar que aquele golpe emitiu passando acima de sua cabeça, fazendo um corte que deveria ser bem violento atrás dele, mas não prestou atenção nisso. Utilizou o movimento de Jiazz e o tamanho elevado demais do homem para esgueirar-se para trás dele, e sem pensar duas vezes realizou uma estocada às costas do Juggernaut, mirando direto no coração do miserável.

Com a postura que ele tinha naquele momento e o seu tamanho, Jiazz não podia virar-se rápido o suficiente para defender de seu ataque. Talvez ele tivesse alguma chance se usasse suas espadas, mas com os movimentos que havia acabado de fazer, elas também não estavam disponíveis para defender-lhe. Mas isso parecia simplesmente não fazer diferença, pois quando a ponta de sua espada estava prestes a atingir a pele de Jiazz, ela chocou-se com uma barreira. Jiazz podia não estar em uma situação que lhe permitisse reagir fisicamente ao ataque de Bokuto, mas ele ainda estava ciente deste, e isso era o bastante. As chamas douradas do Juggernaut haviam se concentrado e solidificado em suas costas, formando uma espécie de escudo dourado, tão duro que ele conseguiu parar a lendária lâmina da espada amaldiçoada, Muramasa.

Rangeu novamente os dentes em frustração que foi milagroso que não acabasse quebrando-os com isso, mas nem mesmo teve tempo para fazer isso. A espada de aço de Jiazz moveu-se com uma velocidade estrondosa em direção a ele, forçando Bokuto a jogar sua cabeça para trás. Quase falhou em desviar-se daquele golpe, e isso fez com que um profundo corte surgisse em sua testa. Merda, ele quase cortou meu crânio em dois com isso! Preparou-se para lançar um contra-ataque, mas antes que tivesse a chance disso, a perna de Jiazz se ergueu. Sentiu o pé do homem chutar-lhe com toda força na boca do estômago, e uma vez mais, foi jogado longe cuspindo sangue.

Dessa vez foi arremessado muito mais longe já que não tinham paredes para entrarem em seu caminho e quebrarem o momento. Cem, duzentos, trezentos metros... não sabia. O que sabia é que só parou enfim quando estourou contra a parede de uma casa bem distante do Salão, quebrando-a em pedaços com seu impacto. Merda, merda, merda! Sentia dor, mas isso é de menos – podia curar-se facilmente com Muramasa. O que realmente lhe incomodava ali era a frustração, o sentimento de impotência. Parece que tudo que tenho feito aqui é ser arremessado de um lado pro outro, como um saco de batatas! Maldição, eu tenho de ser capaz de fazer algo mais que isso! Jiazz era definitivamente forte, mas nenhum homem no mundo era invencível; ele devia ter uma fraqueza, um ponto fraco do qual Bokuto pudesse se aproveitar, ou então Bokuto deveria ao menos ser capaz de gerar uma situação que criasse essa fraqueza. Podem chamar-lhe de Juggernaut, de “O Mais Forte”, mas isso não importa. Todo homem, não importa quão forte ou grande, se torna ossos no fim das contas! Todo homem, independente de quem ele seja, um dia vai cair. E eu juro por tudo que é mais sagrado, Jiazz o Juggernaut, EU VOU TE DERRUBAR!

Ergueu-se furioso, sangue ainda escorrendo de seus lábios, e viu Jiazz caminhando em sua direção, já de forma mais relaxada e arrogante, trazendo uma espada em cada mão. Miserável... acha que a luta já está ganha, não é? Mesmo se ele vencesse no fim das contas, a vitória dele não seria tão fácil assim. Bokuto iria se certificar disso.

Abriu sua mão, as costas dela virada para baixo, seus dedos bem abertos e espaçados um do outro, todos erguidos e apontados para o céu. Deixou que sua energia fluísse pelo ambiente e usou sua mão como uma espécie de controle, para controlar essa energia a distância.

Grande Mandamento do Imperador da Pedra... – exclamou Bokuto, fazendo com que sua energia agisse sobre a terra e pedra do solo abaixo dele. Por um momento Jiazz parou seu avanço para olhar ao redor, confuso e intrigado por aquilo, e o que ele viu foram duas mãos de pedra e terra emergirem do chão, absorvendo escombros e casas em meio a sua massa. Cada uma delas era gigantesca, do tamanho de cinco casas juntas, ou até mais. As duas ergueram, deixando grandes buracos aonde estavam antes devido ao desfalque de massa, até ficarem completamente erguidas, duas mãos gigantes bem estendidas e unidas, parecendo mais duas gigantescas paredes de pura pedra. – Mãos de Deus!

Ao contrário do que alguns pensariam tanto pela aparência dele quanto pelo seu modo de agir, Jiazz não era nenhum idiota. Quando viu aquilo, ele imediatamente compreendeu o que Bokuto pretendia fazer com aquilo, e isso fez com que ele reagisse. Saltou com todas as suas forças bem alto no ar, acima das mãos para ver-se livre delas... e isso só fez com que Bokuto sorrisse. Acha que vai ser tão fácil assim escapar desse ataque, Juggernaut? Da mesma forma que as mãos haviam surgido, os braços delas também surgiram, igualmente feitos de pedra. Eles não eram muito longos, mas não precisavam ser também. Eles ergueram-nas o suficiente para ficassem ao nível de Jiazz, mantendo o Juggernaut no meio delas. Os olhos dele se arregalaram por um instante, compreendendo o que estava prestes a acontecer, mas dessa vez ele não teve tempo pra reagir; antes que pudesse tentar escapar delas novamente, ambas as mãos avançaram uma contra a outra com uma velocidade absolutamente estrondosa para algo do seu tamanho, colidindo e fechando-se uma na outra, esmagando Jiazz entre elas.

Aquilo não durou muito. Por alguns momentos pareceu que Jiazz realmente havia sido esmagado por aquilo e que ele não ia escapar daquilo, mas então ambas as mãos tremeram no meio do ar, juntamente com seus braços. Um segundo depois, uma rachadura surgiu nelas, e no instante seguinte, chamas douradas vieram do meio das mãos, destruindo-as em pedaços e espalhando-as por todos os cantos. Isso não me surpreende. Desde o início sabia que aquilo não seria o suficiente para deter o Juggernaut, e tal como havia imaginado, ele havia escapado das mãos de pedra sem um único arranhão, apesar de que sua espada de aço estava visivelmente quebrada pelo esmagamento e a espada de chamas douradas dele não estar mais visível, provavelmente sendo aquela que forneceu as chamas que ele havia acabado de usar.. Mas isso não importava. Seu ataque não havia sido feito para fazer algum verdadeiro dano à Jiazz, mas sim para atrasá-lo e ocupa-lo por algum tempo, para dar a Bokuto a chance de agir. Assim que suas mãos atacaram Jiazz, aproveitou-se da chance para avançar até acima das mãos de pedra, e naquele exato momento, ele estava no ar, preparado para atacar. Assim que Jiazz se libertou de seu ataque e uma chance se mostrou, não perdeu tempo em mover suas pernas com toda a sua força, chutando o ar e lançando-se a toda velocidade contra o Juggernaut, Muramasa segurada firmemente em suas mãos.

Mas nem isso conseguiu surpreender Jiazz. O Juggernaut virou-se na direção de Bokuto muito mais rápido do que alguém do seu tamanho deveria ser capaz, e sem hesitar nem por um instante ele segurou Muramasa com sua mão nua quando o cavaleiro tentou lançar uma estocada contra ele. Sangue fluiu da mão de Jiazz, cortada pela lâmina afiada da espada afiada, mas isso não afetou em nada o Juggernaut; com um movimento brusco ele afastou a espada para o lado, e de uma só vez ele fechou sua mão ao redor da espada com ainda mais força.

Muramasa até expressou alguma resistência, mas isso não mudou o fato de que, no fim das contas, a espada quebrou-se em pedaços nas mãos de Jiazz.

No momento em que ela foi quebrada, mil gritos desumanos dominaram todo o ambiente, gritos de sofrimento, gritos agoniados, gritos de almas perdidas há muito torturadas. Elas foram tantas, tão alto e ao mesmo tempo, que Bokuto sentiu-se como se aquilo estivesse deixando-o momentaneamente surdo. Depois veio mais um, solitário, mas muito mais alto e agudo do que os outros – o grito da própria “alma” de Muramasa, do espírito amaldiçoado que havia sido aprisionado naquela espada para dar força a ela.

E depois disso, veio o punho de Jiazz.

O soco do Juggernaut acertou-lhe em cheio no rosto, lançando-lhe direto para a rua, fazendo com que ele explodisse contra ela com tanta força que uma profunda cratera formou-se abaixo dele. Mesmo depois daquele golpe, sentia as marcas dos dedos de Jiazz em seu rosto, como se o homem tivesse literalmente amassado sua cara com aquele golpe... algo que ele, francamente, não duvidava que fosse verdade. Maldi... ção... Seu corpo estava completamente quebrado depois daquilo. Sentia uma dor imensa cada vez que tentava mover alguma parte dele, qualquer que fosse ela. Merda... e Muramasa foi quebrada agora. Eu... não tenho como me curar. Com alguma dificuldade ele moveu seu rosto e viu a empunhadura de Muramasa com ainda uma pequena parte da lâmina, alguns metros a sua frente. Talvez... talvez se eu conseguir alcança-la, ainda consigo acessar parte de seus poderes? Não colocava muita esperança nisso, mas essa era a sua melhor esperança, e por isso tentou se esforçar para arrastar-se até ela... apenas para que Jiazz surgisse em sua frente bem naquele momento, aterrissando em cima de sua arma, esmagando-a sob seu pé.

– Pelo que me parece, foi essa arma que lhe deu todo esse poder, não é? – observou o Juggernaut de forma casual, levantando seu pé apenas o suficiente para olhar os destroços da espada. – Você era forte antes de usá-la, mas a diferença do seu poder normal para o poder que você ganhou ao liberar a verdadeira forma dela é absurda.

Não deu resposta a isso. Ainda estava abismado demais por aquilo, pelo que havia acabado de acontecer diante de seus olhos. Lentamente, entretanto, a sua surpresa e incredulidade foi dando lugar a pura raiva; sua mão se fechou em um punho, arrancando pedra e terra com isso em sua fúria. Miserável... acha que as coisas vão ser fáceis assim?! Havia forçado Jiazz a lutar seriamente por algum tempo, mas agora a arrogância do homem voltava, e ele tornava a tratar Bokuto como algum tipo de derrotado. Ainda não acabou! Mesmo que meu corpo esteja quebrado... mesmo que minha espada esteja em pedaços... isso ainda não acabou! Eu não cai ainda, Jiazz o Juggernaut!

Lançou-se para cima com toda a sua força e fúria, pronto para desferir um soco no rosto do Juggernaut, mas antes que chegasse sequer perto de alcançar seu objetivo sentiu um pé atingir seu rosto com força, pisando em cima de sua cabeça e forçando-a de volta ao chão.

– É, eu estava certo. O seu poder realmente cai bastante sem essa espada – o tom de voz casual de Jiazz era jogar sal na ferida. Sabia que o homem estava lidando com ele sem nenhum problema, mas com a forma como ele falava, a sensação que tinha era como se ele estivesse esfregando a sua superioridade em seu rosto a qualquer momento. – Só uma pergunta. Essa espada, pelo que eu entendi, era amaldiçoada, certo? Não sou nenhum especialista em espadas e maldições, mas sei o suficiente para dizer que uma pessoa paga um preço caro por usar uma arma dessas, principalmente se essa arma for tão poderosa quanto a sua. Sendo assim... por que raios você estava usando ela?

A pressão exercida pelo pé de Jiazz relaxou um pouco assim que as palavras foram ditas, o suficiente para que Bokuto pudesse se mover de alguma forma. Não perdeu tempo em tentar aproveitar-se disso para levantar-se de vez, mas falhou nisso; embora tivesse relaxado, Jiazz ainda mantinha-se atento, e apesar da pressão agora permitir que ele levantasse um pouco sua cabeça para falar corretamente, ela ainda era mais do que forte o bastante para impedir que ele fizesse algo a mais. Rangendo os dentes e a contragosto, Bokuto quase cuspiu sua resposta.

– O que é isso pra você?!

A pressão voltou quase que instantaneamente, mais forte até que antes. Seu impacto de volta com o chão doeu, mas um sorriso veio ao seu rosto ao compreender que havia conseguido enfurecer Jiazz com aquilo, ao menos um pouco.

– Com a espada ou sem a espada, você não tem chance contra mim. Até você, tive de usar até 10% do meu poder total nessa guerra. Com a espada, você me forçou a usar 20% do meu poder. Um aumento bem substancial, mas insuficiente, e você sabia disso, ou acha que sou estúpido ao ponto de não perceber algo assim? – de uma só vez a pressão desapareceu, e sentiu a presença de Jiazz se mover. Ergueu apressadamente sua cabeça e viu Jiazz, um pouco a frente dele, caminhando calmamente de costas para Bokuto como se estivesse indo embora, para tornar a virar-se depois de alguns metros em direção ao cavaleiro. – Você é um alguém com potencial, alguém que pode ficar muito mais forte do que já é. Você também sabia que sua espada era amaldiçoada, e pela madeira que a cercava antes, posso dizer que você também conhecia uma forma de conter a maldição. E no entanto, você a libertou por vontade própria para me enfrentar, mesmo sabendo que isso não seria o suficiente. Por que?

Cuspiu sangue no chão ao invés de responder. Por que eu deveria dar uma resposta a ele? Não devia satisfações nem aos líderes do Salão Cinzento sobre como usava sua arma, muito menos a um mercenário qualquer como ele. No entanto, toda a sua determinação em não responder foi quebrada quando ergueu seus olhos e fitou Jiazz. Não sabia explicar exatamente o quê, mas a força como o Juggernaut estava lhe encarando de braços cruzados e cenho franzido... ela fez com que sentisse medo de não lhe responder. Tch... maldição, eu agora estou me deixando ser intimidado por ele assim?! Sua vontade era manter silêncio, mas por mais que essa fosse a sua vontade, o seu bom-senso lhe dizia para lhe dar a resposta que queria ouvir.

– Você não entenderia – tentou ele ainda, para tentar evitar ter de responder. Não queria falar da sua determinação para alguém como Jiazz, mas simultaneamente, o Juggernaut não parecia disposto a deixar que aquilo passasse em branco.

– Talvez não. Eu não faço parte do seu grupinho de cavaleiros, afinal, então talvez eu não entenda bem como vocês agem – concordou o Juggernaut, balançando sua cabeça enquanto falava. – Mas eu não lhe disse para me fazer compreender suas ações, eu apenas perguntei o que as motiva. Preocupe-se menos em eu entender e mais em explicar, cavaleiro.

Tch. Cuspiu novamente em desprezo, mas tentou também convencer-se de que aquilo seria o melhor que podia fazer. Não tenho muitas alternativas aqui se não contar pra ele minhas motivações... e talvez isso possa provar-se vantajoso de alguma forma. Com seu relato, ele iria comprar tempo, tempo que pessoas como aqueles mercenários de antes podiam usar pra escapar, e além do mais, isso lhe dava preciosos momentos para recuperar o fôlego, pensar bem no que fazer e bolar uma estratégia para contra-atacar. Uma luta não termina até que um não possa mais se levantar. Eu ainda não cai, Juggernaut.

– Você tem razão; Muramasa aumentava bastante o meu poder, mas não o suficiente para lhe derrotar. Mesmo com ela, tudo que eu podia esperar era te dar uma luta melhor. Mas isso foi o suficiente pra mim. – sentia-se estranho, revelando suas razões pessoais para um inimigo assim, mas fez seu melhor para deixar essa sensação de lado e simplesmente continuar a falar. –Te derrotar seria, obviamente, o ideal, mas se não posso alcançar isso, então o meu objetivo passa a ser te manter ocupado por tanto tempo quanto possível.

– Me manter ocupado? – repetiu Jiazz, erguendo uma sobrancelha. – Como assim? Por que?

– Por que? Essa pergunta é realmente necessária? – franziu seu próprio cenho ao ouvir aquilo; a resposta deveria ser mais do que óbvia. – Porque você é uma ameaça. Quando eu te encontrei, você estava prestes a matar aqueles mercenários. Só os Deuses sabem quantas pessoas você matou durante essa guerra. Acha que eu iria simplesmente deixar você continuar com isso? A verdadeira razão da existência dos cavaleiros foi se perdendo com os anos desde a criação do Salão Cinzento, mas eu ainda me lembro dela. Cavaleiros não existem para serem armas, pra serem algum tipo de exército de elite. Nem tão pouco existem pela glória ou honra. Muitos pensam que o respeito, a honra e o orgulho são as coisas mais importantes para um cavaleiro, mas os que pensam assim são tolos. Nós, cavaleiros, não existimos para as batalhas, mas para evita-las. Não somos a espada que muitos pensam, mas sim o escudo. Os cavaleiros não existem para serem soldados de elite, mas sim para protegerem os que precisam de ajuda. Para um cavaleiro, não existe honra maior do que morrer protegendo outras pessoas.

– Morrer protegendo pessoas? – por algum motivo, Jiazz pareceu ficar um pouco irritado com aquilo. O corpo do Juggernaut se remexeu, e por um instante temeu que ele fosse avançar novamente e preparou-se para reagir, mas felizmente isso não aconteceu. – Isso é estúpido. Quem você vai proteger morrendo?

– Muitas pessoas – apontou Bokuto. – Os mercenários que você estava enfrentando são um exemplo. Ao lhe enfrentar, eu afastei você deles e dei a eles a chance de escaparem e salvarem-se de você. E se não estivéssemos lutando nesse exato momento, você poderia estar atacando diversas pessoas por todo o Salão. É impossível contabilizar exatamente o número de pessoas que morreria em suas mãos. Cada momento que passamos aqui, cada segundo em que eu te ocupo, está servindo para proteger pessoas de você.

– Você nem conhece metade dessas pessoas – resmungou Jiazz, parecendo incapaz de crer naquilo enquanto falava. – Que motivos você tem para morrer por elas?

– Você não conhece nenhuma dessas pessoas – retrucou Bokuto, sem perder a linha. – Que motivos você tem para mata-las? – suspirou, cansado, dando vazão a parte do estresse que havia tomado conta. – Eu não preciso conhece-las, não quero ser amigo delas. Apenas preciso protege-las. Essa é a coisa certa a se fazer, é o meu trabalho, aquilo em que acredito. Se eu simplesmente deixasse-me cair depois de alguns golpes e abandonasse o meu dever apenas porquê posso morrer fazendo o que devo, eu nunca poderia encarar os que vieram antes de mim no Mundo dos Mortos. Eu não me importo em morrer, Jiazz, desde que minha morte conte pra alguma coisa.

O Juggernaut ficou lhe olhando depois disso. Não falou nada, apenas ficou parado aonde estava, olhando para Bokuto com um olhar que parecia confuso, intrigado, incrédulo e admirado ao mesmo tempo. Por alguns instantes os dois ficaram assim, sem que ninguém fizesse nada, e Bokuto já estava começando a se sentir incomodado com isso quando Jiazz finalmente quebrou o silêncio... ao gargalhar.

– Hahaha... Hahahahahaha! – a gargalhada dele ressoou pelo ambiente, forte, proveniente de grandes pulmões. – Isso é interessante, interessante demais! É a primeira vez que ouço algo assim! Parabéns, garo-

Aí está ela! Enquanto Jiazz falava, Bokuto mantinha-se atento, esperando por uma chance, e naquele momento ela a viu. Naquele momento, viu uma falha na guarda de Jiazz, e estava decidido a não deixar essa chance passar. Levou suas mãos ao chão tão rápido quanto pôde, usando sua habilidade para forjar uma espada longa de pedra pra ele, e sem pensar duas vezes avançou contra Jiazz com toda a sua velocidade. Apesar do estado deplorável de seu corpo, havia conseguido cruzar a distância que o separava de seu oponente num piscar de olhos, e moveu sua espada com todas as forças contra Jiazz assim que pôde.

A lâmina acertou em cheio o Juggernaut, mas o golpe foi infrutífero. A espada quebrou-se em pedaços assim que colidiu contra o corpo de Jiazz, e isso foi prontamente seguido por um movimento do punho dele, acertando Bokuto diretamente no rosto e lançando-o contra uma casa próxima, fazendo com que ele destruísse boa parte dela.

Droga... Devia ter previsto que aquilo não iria funcionar, seria fácil demais se só precisasse fazer algo assim. Tentou se erguer do meio dos escombros, mas não teve nem a chance de fazer isso; assim que começou a se mover, sentiu o pé de Jiazz empurrá-lo de volta ao chão, pisando com força em seu ombro. Fez uma careta em dor com aquilo, mas aquela dor era minúscula se comparada ao resto do que havia sentido naquele dia, e por isso conseguiu aguentá-la em silêncio.

– Ei, relaxa aí, Tampinha – advertiu Jiazz, fazendo com que os olhos de Bokuto se afiassem. Tampinha?! Aquilo não só era desrespeitoso como também era ridículo; sua altura estava perfeitamente dentro dos padrões. Embora... suponho que considerando que ele é anormalmente alto, todo mundo é um “Tampinha” pra ele. – Não precisa ficar tão nervosinho assim e tentar tão desesperadamente. Você ganhou.

Seus movimentos todos pararam ao ouvir aquelas palavras. Por um momento, todo o seu corpo congelou, ficou completamente imóvel, e seus olhos arregalados não fizeram nada mais do que fitar Bokuto, tentando entender se o homem estava zombando dele de alguma forma com aquilo. Quando viu que não, sua surpresa foi ainda maior.

“Ganhou”?! – exclamou ele, irritado e incrédulo. – O que diabos você quer dizer com isso?!

– Exatamente o que eu disse. Você ganhou. Você venceu. Sua determinação é grande demais. – as mãos do Juggernaut se ergueram, palmas abertas, como se ele estivesse sinalizando que desistia, o que apenas fez com que Bokuto ficasse ainda mais irritado. – Pra sua informação, quero deixar bem claro aqui que não matei ninguém nessa guerra, e ordenei aos que estavam sob meu comando que fizessem o mesmo. Nossas mãos estão limpas de sangue, ao menos nesse sentido. Isso dito, consigo entender as suas motivações e seus medos, e francamente? Eu respeito seu modo de agir. Acho ele um tanto quanto estúpido e suicida, mas não existem regras que dizem que coisas assim não podem ser respeitáveis. Você venceu, Bokuto. Eu perdi. Posso ser mais forte que você, mas minha determinação em lutar é muito menor do que a sua determinação em proteger os outros. Não irei terminar meu contrato com o Olho Vermelho ainda, mas você tem a minha palavra de que me retirarei da guerra nesse instante e não irei ferir mais ninguém.

Ainda estava abismado com aquilo, tentando compreender exatamente as ações do Juggernaut quando Jiazz se afastou, recuando seu pé e virando-se, caminhando para longe dali sem hesitação alguma. Ainda ficou por alguns momentos ali, observando-lhe como um paspalho, antes que a fúria lhe motivasse a agir. Por que estou furioso?, foi o pensamento que passou por sua mente enquanto seu corpo movia-se, como que por conta própria, levantando-se com esforço. Ele disse que não vai ferir ninguém, e eu... eu acredito nele. Mas se é assim, por que estou tão furioso? Por que sinto tanta raiva? Correu sem nem perceber, passando pelo buraco que havia criado na casa e virando sua cabeça para o lado, vendo Jiazz se afastando cada vez mais. Rangeu os dentes, franziu o cenho e gritou com todas as suas forças.

ESPERE AÍ! – seu grito ressoou pela cidade em chamas, alcançando os ouvidos do Juggernaut. Ele parou por um momento e virou-se no seguinte, uma feição de confusão em seu rosto enquanto olhava para Bokuto. – O que você pensa que está fazendo?! Você pensa que pode simplesmente sair andando assim?

– E por que não? – perguntou Jiazz, confuso, franzindo uma sobrancelha. – Você quer proteger as pessoas daqui, não quer? Se eu ir embora, elas estarão protegidas. Você terá alcançado seu objetivo, e tanto eu quanto você ficaremos felizes. Por que você está tão irritado?

Mordeu seus próprios dentes com força. Ele faz uma boa pergunta: por que? Deveria estar feliz com aquilo. Deveria estar feliz por ter alcançado seu objetivo de alguma forma. Mas não se sentia. Sentia-se irritado, frustrado, humilhado. Eu...

Eu sei disso! – exclamou Bokuto com toda a sua força. – Eu sei que alcançarei meu objetivo com isso, eu sei que as pessoas ficarão seguras assim! Como um cavaleiro, isso é tudo que eu quero! Mas como um guerreiro... como um guerreiro, eu não posso aceitar uma vitória assim! – deu um passo adiante, seu punho cerrado, veias nervosas a mostra em seu punho e rosto. – Você tem noção do quão humilhante é isso, Jiazz? Tem noção do quão humilhante é ter uma vitória “dada” a você assim, como se fosse caridade?! Não me menospreze! Eu sou um guerreiro! Por anos e anos, eu treinei para ficar forte! Eu lutei com tudo que tinha, coloquei todo o meu esforço em cada ação minha! Por isso, não venha me dizer que eu ganhei pela minha determinação, pois eu não quero uma vitória dessas! Como um guerreiro, eu quero uma vitória ou derrota em batalha, não por caridade!

Jiazz fitou-lhe em confusão ao ouvir aquilo. Sua cabeça virou de lado, como se ele pensasse que um ângulo diferente podia ajudá-lo a compreender melhor aquilo... e então, subitamente, ele começou a gargalhar.

– Hahahahahahaha! Hahahaha, HAHAHAHAHAHA! É ISSO, TAMPINHA! É ISSO QUE QUERO OUVIR! – as mesmas feições animalescas que havia visto em Jiazz no início de sua luta voltaram, o sorriso afiado, os olhos como os de um animal selvagem. – Eu sabia! Eu sabia que você tinha isso! Pode até ser que parte do que lhe motivou a lutar tanto assim foi o que você falou Bokuto, sua vontade de proteger os outros, seu dever como um cavaleiro! Mas outra parte da sua determinação veio do seu eu guerreiro, e não tente negar isso! Parte dela pode ter sido altruísta, mas outra parte dela veio de algo muito mais profundo e primitivo de você... veio da sua vontade de lutar, de ser o melhor! Você viu um oponente poderoso, e seu sangue ferveu com o desejo de confrontá-lo com tudo, com o desejo de derrota-lo, o desejo de sagrar-se como o melhor! ADMITA! Não há vergonha nisso, cavaleiro! Esse é apenas parte do ser humano! O desejo de ser o melhor é algo que está dentro de todos nós, um fogo que queima forte e não pode ser nunca apagado! Qualquer homem ou mulher que um dia dizer que não possui essa chama em seu peito, ou é um morto, ou um grande mentiroso!

Rangeu os dentes, mas não disse nada em resposta a isso. Ele... traz verdade em suas palavras, admitiu relutantemente Bokuto para si mesmo. Ainda assim... a forma como ele fala isso... ela me perturba um pouco.

– Mas você ainda não está forte o suficiente para isso – declarou Jiazz, sorrindo de orelha a orelha. – Você ainda é fraco demais.

Abriu sua boca para reclamar quanto a isso, mas antes que tivesse tempo para que uma única palavra saísse de seus lábios, a voz de Jiazz tornou a trovoar, afogando qualquer reclamação dele.

– Por hora, você vai trazer a vergonha dessa sua vitória, Bokuto! Isso é o melhor que você terá, e é melhor que você se acostume com isso! – os dentes e olhos de Jiazz brilharam ao dizer aquilo, e os braços do Juggernaut se abriram. – Se você quiser odiar isso, então odeie! Se você quiser mudar isso, então faça-o! Você ainda não é forte o bastante... mas tem esse potencial, eu vejo isso dentro de você! Você ainda é muito fraco, mas eventualmente, eventualmente você vai se tornar tão forte quanto eu... ou até mais! E eu anseio por esse dia! E por isso... por isso eu lhe digo o seguinte! – o Juggernaut jogou sua cabeça para trás, gargalhou, e com uma voz tão alta quanto tambores de guerra ele gritou as suas próximas palavras. – Quando tudo isso terminar, venha até mim, não como um oponente, mas como um discípulo! Eu irei lhe treinar com minhas próprias mãos, Bokuto! Irei ajudar-lhe a alcançar seu verdadeiro potencial! E depois que você alcançar esse poder, lutaremos novamente, e então veremos quem é o mais forte!



Notas finais do capítulo

ÁREA OESTE:

Enderthorn VS Octo Gall (Vencedor: Enderthorn)
Enderthorn VS Raptor (Vencedor: Enderthorn)
Vaen VS Lilybell (Vencedora: Lilybell)
Jiazz VS Maoh (Vencedor: Jiazz)
Senjur VS Reivjak (Vencedor: Senjur)
Chappa e Dayun VS Lilybell e Vaen (Vencedores: Chappa e Dayun)
Vaen, Chappa e Dayun VS Saber e Alcatraz (Fragmentada)
Chappa e Dayun VS Alcatraz (Vencedor: Alcatraz)
Vaen VS Saber (Vencedora: Saber)

ÁREA SUL

Kuman VS Fera (Vencedor: Fera)
Skylar VS Fera (Vencedor: Skylar)
Skylar VS Cleus (Vencedor: Cleus)
War e Coralina VS Nicholas (Vencedores: War e Coralina)
Trevor VS Maverick (Vencedor: Trevor)
War, Coralina, Ogre, Ekhart e Clone das Sombras VS Agnes, Ibur e Dokurei (Fragmentada)
War e Coralina VS Agnes (Vencedor: War)
War VS Ibur (Vencedor: Ibur)
Ogre VS Ibur (Empate)
Ekhart VS Dokurei e Shell (Interrompida)
Bokuto VS Zodwik (Vencedor: Bokuto)
Bokuto VS T.I.T.A.N. (Vencedor: Bokuto)
Valery e Goa VS Cleus (Vencedor: Cleus)

ÁREA LESTE

Alexander VS Goliath (Vencedor: Alexander)
Alexander VS Steelex (Vencedor: Steelex)
Eldigan VS Steelex (Vencedor: Steelex)
Soulcairn VS Steelex (Vencedor: Soulcairn)
Soulcairn VS Bertold (Vencedor: Bertold)
Ezequiel VS Bertold (Vencedor: Ezequiel)
Ezequiel VS Tristah (Em andamento)
Zephyr VS Balak (Vencedor: Balak)
Kazegami VS J (Empate)
Florian VS Tristah e Behemoth (Vencedores: Tristah e Behemoth)
Jack Branco e Jack Negro VS Behemoth (Vencedor: Behemoth)

SALÃO CINZENTO

Marco, Scarlet, Sara, Leona e Darla VS Jiazz (Vencedor: Jiazz)
Bokuto VS Jiazz (Vencedor: Bokuto)

ÁREA NORTE

Gwynevere VS Retalhador (Vencedora: Gwynevere)
Gwynevere VS Balak (Em andamento)



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