O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 37
Caos Total


Notas iniciais do capítulo

Quero deixar constado aqui para todos os senhores leitores que eu me esforcei bastante nesse capítulo.

Quanto, vocês perguntam?

Bem, digamos assim: a tinta acabou enquanto eu escrevia, então eu me cortei e retirei meu próprio sangue para escrever o resto.

Isso mesmo.

Eu sou tão foda que escrevi esse capítulo com sangue digital.

#Hardcore4life



SEUS OLHOS ABRIRAM-SE LENTAMENTE DE FORMA PREGUIÇOSA, e assim que o fizeram, foi recebida imediatamente por uma dor forte, mais forte do que qualquer coisa que já sentiu no passado. Precipitou-se devido a ela, erguendo seu corpo rápido demais, e isso só fez piorar ainda mais a sensação de dor, fazendo com que sentisse como se seu corpo estivesse se rasgando em pedaços com seus movimentos. Dessa vez o que fez diante da dor foi estremecer e envolver-se com seus próprios braços, mas até isso serviu para ampliar a dor. O que é isso? O que está acontecendo comigo? Sentiu uma lágrima pingar de seus olhos a medida que sentia a dor aumentar e desespero começar a tomar conta de seu ser, mas antes que a situação ficasse ainda pior, sentiu um par de mãos segurarem seus ombros com força e delicadeza ao mesmo tempo. Estremeceu mais ainda perante a isso, sentindo a dor aumentar ainda mais... só que não. Ao contrário do que imaginou, a dor não foi ampliada por aquilo. Ela não piorou, nem um pouco. Sentia as mãos segurá-las, mas não sentia mais nada do que isso, por exceção de uma leve sensação de que elas estavam molhadas ou coisa do tipo. Só então notou que, por todo esse tempo, seus olhos estavam fechados. Abriu-os, e o que viu foi o rosto preocupado e inocente de um garoto.

– Você está bem? – perguntou ele, olhando nos olhos de Cora, sua preocupação clara como o dia para ela. – Por favor, não se mova demais. Eu curei a maior parte de suas feridas, mas temo que minhas habilidades ainda não são boas o suficiente para que eu possa fazer muito mais do que curar as partes mais superficiais de seus ferimentos. Você não deve abrir suas feridas de novo com movimentos, mas... eu acho que isso lhe causaria muita dor.

– Ferimentos? – repetiu ela, confusa. Franziu um pouco o cenho, tentando concentrar-se para tentar entender do que ele estava alando, a que ele se referia, mas não teve muito sucesso nisso. – Eu... não me lembro de ter adquirido ferimentos.

– Eu francamente não me surpreendo com isso – afirmou o garoto, sacudindo a cabeça enquanto falava. – Quando te encontrei, você estava bem ferida. Seu tornozelo estava torcido e você tinha diversos cortes espalhados por todo o seu corpo. Não acho que você recebeu algum golpe na cabeça em específico, mas eu não me surpreenderia se todo o dano que você sofreu tiver afetado de alguma forma a sua mente.

– ... Tornozelo torcido? – aquelas palavras em específico soaram particularmente familiares aos ouvidos de Cora. Elas trouxeram-lhe memórias que correram por sua mente como se estivessem fugindo dela, memórias que ela teve que ativamente perseguir para conseguir recordar. E assim que recordou, sua reação foi instantânea. – Espere! Você... você disse que me encontrou, certo? Quando você me encontrou, havia alguém comigo? Um homem?

Próxima como estava do garoto, conseguiu ver os olhos dele se arregalarem, por mais que o garoto tivesse tentado reagir rapidamente, desviando o olhar. Aquilo não era resposta, e só fez com que ela ficasse mais agoniada. Não pode ser... será que aconteceu alguma coisa? Havia acabado de se lembrar de que estava lutando junto de War contra uma mulher estranha; havia torcido seu tornozelo bem antes, ao ser lançada para longe de uma taverna pelo golpe de um membro do Olho Vermelho, e por isso não havia confrontado a mulher diretamente, preferindo usar de sua agilidade, mobilidade e discrição, bem como de seus poderes. Lembro-me que me aproximei dela por trás e esfaqueei-a pelo pescoço, mas... não me lembro de nada além disso. O que aconteceu depois? Considerando que aparentemente havia saído bem ferida daquilo, supunha que havia caído em alguma espécie de armadilha ou coisa do tipo, mas não se importava realmente consigo naquele momento, mas sim com War. Será que foi ele que me levou a esse garoto? Não, improvável. O garoto disse que me encontrou, e além do mais, se War tivesse me levado até ele, ele não teria desviado os olhos como acabou de fazer. Será que War me abandonou então? Essa é certamente uma possibilidade, embora considerando o que me lembro de War, acho difícil acreditar nisso. Mas a outra opção seria...

– Sinto muito por seu amigo, garota – disse uma voz diferente, mais grossa, forte e madura do que a do garoto. Tanto ela quanto ele moveram seus rostos imediatamente na direção da qual essa voz vinha, e com isso puderam ver um homem sentado no canto do pequeno quarto aonde estavam. Um homem de porte guerreiro, com armadura e espada, tendo cabelos preto-azulados espetados na parte da testa, pele morena e olhos castanho-claro com sua pupila branca, quase chegando ao ponto de fazer com que ele parecesse cego. – Quando te encontramos, tinha o corpo de uma mulher com a garganta perfurada bem perto do seu e o corpo e cabeça de um homem por perto. Considerando a forma como você fala, acho que esse homem seria quem você procura.

... O corpo e a cabeça de um homem? Se ele está citando os dois separadamente então ele quer dizer... decapitação?! Não, não podia ser, não podia acreditar naquilo. Não era possível, War não podia estar morto de uma forma como aquela – ou de forma alguma, pelo que constava a ela. Sacudiu-se violentamente, afastando as mãos do garoto e sentindo a dor voltar, mas fez o seu melhor para ignorá-la. Estava deitada sobre uma cama um pouco dura, mas com dor o suficiente para que quisesse continuar deitada; não atendeu seus próprios desejos, entretanto, e forçou-se a se levantar. Vendo isso o garoto precipitou-se em direção a ela, embora um olhar da mulher fosse o suficiente para fazer com que ele recuasse um pouco, apesar de manter-se próximo.

– O que você está fazendo? – perguntou ele, mordendo o lábio inferior enquanto a via agir, certamente se perguntando se devia deixar a mulher fazer o que queria ou se devia tentar pará-la a força.

– War... não está morto. Tenho certeza disso. – não conhecia o homem a muito tempo, mas considerava-o já um bom amigo; afinal de contas, havia sido graças a War que ela não havia sofrido nas mãos de Nicholas. Havia sido ele que lhe ajudou a derrotar o estuprador, e ele que lhe acompanhou pela cidade em ruínas. Não o conhecia tão bem quanto podia querer conhecer, mas sabia o suficiente sobre ele para ser capaz de dizer que o homem tinha um bom coração e força nos braços. Ele não está morto. Não pode estar morto. – Eu vou encontra-lo. Ele deve estar por aí, perdido em algum lugar. Só preciso encontra-lo. Ele deve estar precisando da minha ajuda, e eu vou ajuda-lo.

– Você... você perdeu a cabeça? – exclamou o garoto, parecendo estar preocupado e frustrado em partes iguais. – Você ainda está sentindo dor demais para agir de forma coesa, e mesmo se não fosse esse o caso, a batalha ainda não terminou! É simplesmente arriscado demais para que você saia por aí!

Ignorou-o completamente. Sabia que o que ele falava era verdade, e sentia que ele não queria seu mal, mas simplesmente não podia se dar ao luxo de ouvi-lo. Por mais que ele pudesse ter boas intenções e estivesse lhe dando avisos honestos, ela não podia simplesmente abandonar War. Ele salvou minha vida. Que tipo de pessoa eu serei se eu desistir tão fácil assim dele? Não, tinha de seguir em frente.

Por um momento, vacilou quando tentou dar um passo à frente. O garoto precipitou-se em sua direção, mas antes que ela tivesse de recorrer a ajuda dele, apoiou uma de suas mãos na parede e conseguiu de alguma forma se equilibrar. A dor que sentia era absurda; sabia que o garoto havia dito que suas feridas provavelmente não iriam se abrir de novo, mas considerando o que sentia, não tinha certeza se ele estava realmente correto com aquilo. Mesmo assim, persistiu. Seguiu em frente, lentamente e apoiada na parede... até ficar de frente com o outro homem, o guerreiro, que barrava a porta.

– Saia do meu caminho – disse ela, sem olhar para o rosto dele. – Eu preciso passar.

A resposta dele a isso foi suspirar de forma pesada, cansada. O corpo dele se remexeu, como se estivesse desconfortável, e por um momento se perguntou se ele iria realmente sair do caminho, mas teve a resposta quanto viu o corpo dele se mover levemente.

Preparou-se para seguir em frente, mas antes que o fizesse, sentiu rapidamente algo acertar sua barriga, e isso fez com que todo o seu mundo ficasse escuro.

=====

O corpo da mulher caiu sobre o braço de Trevor, mole, ela estando totalmente inconsciente agora depois de ter recebido o ataque dele. Não gosto de fazer coisas assim, mas isso as vezes se prova necessário. Pela forma como ela havia falado, era claro que ela não tinha interesse algum em discutir sobre aquilo, e considerando a facilidade com a qual ela havia caído perante a ele, se deixassem-na sair ela só voltaria em pedaços, isso se voltasse.

– Ela certamente parecia bem focada em ajudar esse tal de War, quem quer que seja ele – comentou o líder do clã Potentia Aurae, colocando a mulher em seu ombro e começando a caminhar, levando-a de volta para sua cama.

– Sim – murmurou Skylar em resposta, parecendo perdido em seus pensamentos e um pouco mais triste agora que havia acontecido com a mulher. – Eu queria ter sido capaz de salvá-lo, também.

– Ei, você fez o melhor que pôde, e isso já foi por si só mais do que a maioria faria – contrapôs Trevor, erguendo uma de suas sobrancelhas. – Quando encontramos essa mulher, ela estava parecendo bem morta, e uma luta violenta ocorria bem ao lado. A maioria das pessoas simplesmente assumiria que ela morreu e a abandonaria ali, mas você foi ousado o bastante para ir até ali, verificar como ela estava e tratar dela depois de ver que ela podia ser salva. Você salvou a vida dela, garoto. Você deveria estar dando tapinhas nas próprias costas agora, não ficando assim, deprimido.

– Eu sei. Você tem razão – concordou Skylar, sem parecer nem um pouco mais alegre ou satisfeito apesar de suas palavras. – No entanto, a questão é que... bem, eu simplesmente não consigo controlar esse tipo de coisa, sabe? Eu sei que eu deveria ficar feliz por ter conseguido salvar ela, mas eu me lembro de todas as pessoas que morreram, que eu não pude salvar, e fico triste. Me sinto culpado.

– Pois não deveria. Isso é uma guerra: mortes são inevitáveis. Se você for ficar se culpando por cada uma delas, sua vida vai ser bem miserável. – sabia que aquelas palavras não eram necessariamente reconfortantes ou amigáveis, mas pelo que estava vendo até ali, aquele garoto precisava ouvir palavras assim, precisava aprender certas lições duras, do contrário ele teria problemas depois. Pousou a garota na cama de novo, e ao fazer isso sentiu dor, o suficiente fazer com que ele perdesse seu equilíbrio por um momento. Droga! É, parece que ele foi realmente sincero quando falou que só tratava superficialmente das feridas. Ainda conseguia sentir a dor dos golpes que Maverick lhe acertou antes, e embora não soubesse se ela estava exatamente no mesmo nível que uma garota que quase teve o corpo em pedaços como aquela deveria sentir, sabia com certeza que aquilo doía pacas. – Muito bem... garoto, agora que já verificamos que a garota está bem, acho que é hora de ir.

Skylar franziu a sobrancelha ao ouvir aquilo, uma reação que Trevor já havia antecipado desde o início.

– Você acabou de parar essa garota a força de fazer algo, apenas para que você vá fazer a mesma coisa na mesma situação? – questionou o rastreador em tom de desaprovação. Em resposta a isso, Trevor mostrou um sorriso amarelo e coçou levemente o rosto.

– O que posso dizer? Eu sou um pouco hipócrita, sabe? – murmurou o homem em tom apologético. – Além do mais, existe uma diferença. Eu e você sabemos que o homem que ela queria está morto. O mesmo não vale parabera os meus companheiros, no entanto. Eu conheço eles; eles ou devem estar me procurando, ou devem estar escondidos em algum lugar seguro. Essa é apenas uma questão de encontra-los.

O jovem apenas balançou a cabeça em resposta. Havia passado tempo o suficiente junto daquele garoto para saber que ele era bem esperto, e por isso não tentaria lhe parar; ele sabia que não conseguiria lhe convencer do contrário com palavras, e uma luta entre eles seria simplesmente todo tipo de infrutífero.

– Apenas me prometa que você vai tentar manter-se fora de encrenca – consentiu o garoto por fim, em tom derrotado. – Eu posso ter te curado, mas isso não significa que você está em condições de batalha. Se você voltar a lutar, nem os Deuses podem dizer o que vai acontecer com você.

– Pode deixar, garoto. Um líder como eu não pode se dar ao luxo de ser impulsivo, de qualquer forma – disse Trevor, mostrando um sorriso ao garoto antes de sair correndo dali antes que ele mudasse de ideia, lutando para conter a dor em seu corpo a cada passo. Mas apesar de suas palavras, seus pensamentos eram muito mais sombrios. Eu sinto muito, garoto, mas não sei se vou poder me manter fora de encrenca. A guerra ainda corria pela cidade, mas sentia que os confrontos estavam começando a chegar ao fim, que a batalha estava acabando... e ironicamente, isso parecia fazer com que as coisas ficassem ainda mais perigosas.

=====

O lobo gigante no qual Senjur havia se transformado avançou contra Reivjak com sua boca aberta, suas presas a mostra, cada uma delas facilmente tão grande quanto o próprio homem. Usou seus poderes sob suas correntes e fez com que elas corressem tão rápido quanto podiam, formando o que parecia ser uma teia de aranha de aço à sua frente, na esperança de que aquilo seria o bastante para deter seu oponente. Quando colidiu com elas, o avanço de Senjur teve uma parada súbita, e por um momento Reivjak pensou que aquilo realmente seria o bastante para pará-lo, mas logo sua fantasia quando viu que suas correntes estavam sendo puxadas para frente pela força do lobo gigante, algumas delas começando até mesmo a se quebrar. Oh, porcaria! Correu para o lado e saltou para um beco entre duas casas arruinadas, apenas bem a tempo de evitar o ataque de seu inimigo. Arriscou-se a olhar para trás apenas depois de ter a certeza de que Senjur já havia passado, e o que viu foi um grande rastro por onde o lobo gigante havia passado, um sinal da destruição que ele havia causado. Isso não é brincadeira, pensou Reivjak, olhando para aquilo em uma mistura de fascínio e medo. Se eu for pego por algo assim, mesmo que apenas uma vez, eu estou morto.

Jogou duas de suas correntes para os lados, fincando-as nas paredes das casas. Elas estavam parcialmente destruídas, sim, mas ainda havia o suficiente delas para que pudesse usá-las afim de propulsionar-se aos ares, o suficiente para que tivesse uma chance de ganhar o chão superior. Porque todos sabem que o chão superior é a chave para qualquer vitória, mesmo que seu oponente seja um raio dum lobo gigante que supostamente é forte o suficiente para devorar até mesmo os Deuses, pensou ele, sarcástico. Apesar de tudo, aquela era a sua melhor opção de longe.

Alcançou os céus com grande velocidade e recolheu novamente suas correntes. Tão alto quanto estava, sentia-se como se estivesse voando; uma sensação boa, gostosa, que quase fez com que um sorriso viesse ao seu rosto... até que o lobo gigante também o visse e, sem pensar duas vezes, saltasse contra ele em uma tentativa de devorá-lo em meio ao ar. Quase se desesperou ao ver aquilo, mas conseguiu conservar a calma e arremessou uma de suas correntes ao chão imediatamente; uma vez que ela cravou-se ali, segurou-a com todas as forças e forçou seu corpo para o lado, conseguindo mover-se o suficiente para evitar as presas do lobo, embora isso tenha sido muito mais arriscado do que se sentia confortável. Eu preciso ir em frente com o meu plano logo. Não acho que vou conseguir continuar evitar esse lobo por muito tempo. Enquanto o lobo aterrissava e tentava virar-se novamente em sua direção, concentrou-se em aterrissar seguramente no topo de uma casa em estado consideravelmente melhor, o suficiente para não quebrar imediatamente graças ao seu peso. Assim que o fez, não perdeu tempo; lançou tantas correntes quanto pode de imediato, sentindo-as correrem paralelas aos seus braços e vendo-as perfurarem facilmente o teto da casa e o chão abaixo dele, infiltrando-se no solo. Ótimo, isso está preparado, então tudo o que falta agora é lidar com meu oponente. Virou-se em direção a Senjur novamente, apenas para ver que agora o lobo gigante estava saltando contra ele, pronto para abocanhá-lo.

Sorriu. Aquilo era exatamente o que ele queria.

Lança do Deus do Aço! – gritou ele, dando o comando para que suas correntes agissem. Elas emergiram do chão de uma única vez, inúmeras, assumindo a forma de uma gigantesca lança cinzenta enquanto avançavam direto contra Senjur. Tinha certeza de que o homem havia notado aquele ataque, mas em meio ao ar na forma de um lobo gigante, ele simplesmente não tinha muitos recursos para tentar defender-se ou desviar daquele ataque; foi atingido em cheio pela lança de correntes, e apesar de pra decepção de Reivjak as correntes não terem conseguido abrir uma verdadeira ferida, elas ainda foram fortes o suficiente para pararem o ataque de seu oponente e lança-lo para cima, e no fim das contas, era isso que importava.

Puxou suas correntes com força, fazendo com que toda a totalidade delas emergissem do chão, arrancando terra e concreto em linhas retas a partir de onde estava. Aquilo abalou um pouco a estrutura da casa aonde estava, mas não focou-se nisso; tinha coisas mais importantes a fazer. Com o uso de sua Aloeiris, controlou as correntes e fez com que elas avançassem contra Senjur enquanto o lobo gigante ainda estava no ar, mas ao invés de tentar feri-lo com um golpe direto como havia feito antes, tomou uma ação um pouco diferente dessa vez. Fez com que suas correntes cercassem o pescoço do lobo, amarrando-se ao redor do grande pescoço da besta, envolvendo-o por completo como que em um laço. Uma vez que estavam seguras assim, pode colocar o resto de seu plano em execução.

Volta ao Mundo... – começou ele, colocando toda a sua força em seus braços. Era necessário que Senjur estivesse no ar para que pudesse aplicar aquele golpe; não só sentia que o homem... lobo... coisa não iria deixa-lo prendê-lo em suas correntes caso pudesse se mover normalmente, tinha certeza de que não tinha força o suficiente para levantá-lo na base da força bruta. Mas estando no ar, a situação era completamente diferente. Estando no ar, Reivjak tinha a vantagem, e ele planejava usar e abusar dessa vantagem. Puxou-o com todas as suas forças, fazendo com que o lobo fosse arrastado pelo ar em sua direção, passando acima de sua cabeça de forma ameaçadora. Por um momento o mundo foi coberto pela sombra do lobo; as correntes apertavam seus braços graças ao esforço que estava colocando nelas, mas não deixou isso lhe deter. Moveu bruscamente seus braços, e de uma só vez jogou o lobo de volta ao solo, esmagando múltiplas casas com o peso dele, levantando uma absurda cortina de poeira e gerando uma onda de impacto tão forte que várias casas, incluindo a na qual ele estava, desabaram por completo graças a ela. – GRANDE IMPACTO!

Não teve muito tempo para saborear a vitória de ter conseguido acertar aquele golpe. Abaixo de si a casa cedia, e por isso teve de reagir bem rápido. Saltou antes que a casa desabasse por completo, cortando suas correntes para libertar-se e movendo seu corpo para aterrissar seguramente no chão. Espero que isso tenha sido efetivo. Aquele não era seu ataque mais forte, mas era provavelmente um dos mais fortes que podia lançar contra um oponente como aquele, e mesmo esse era um ataque muito mais cansativo e que exigia muito mais de Reivjak do que deveria. Se esse cara não tiver caído com isso, eu vou estar com alguns problemas aqui.

Infelizmente para ele, parecia que iria ter problemas.

O urro do lobo ressoou por toda aquela área com uma força terrífica, fazendo com que Reivjak se sentisse como se fosse um inseto diante dele, como se o mero peso da sua voz fosse o suficiente para esmaga-lo. Porcaria... por que esse cara simplesmente não cai de vez?! Imediatamente o lobo começou a remexer-se em uma tentativa a voltar a ficar de pé, seus movimentos arrancando pedaços do solo e destruindo ainda mais os destroços das casas, e enquanto isso acontecia, Reivjak pesava suas opções. Maldição, maldição... e agora, o que eu faço? Podia lançar novos ataques contra seu oponente, mas não sabia o quão útil aquilo podia ser; considerando que o Grande Impacto não havia feito nenhum dano visível, estava bem cínico quanto a quão útil seus outros golpes poderiam ser. No entanto, a minha outra opção é simplesmente fugir, e eu não sei o quão bom isso seria. Talvez conseguisse se afastar daquele lobo, mas considerando que ele era, bem, um lobo, não supunha que era pensar demais assumir que ele poderia simplesmente sentir seu cheiro no ar e lhe caçar... embora, por outro lado, isso não era garantido também. Considerando que a cidade está sobre ataque, existe uma boa chance de que ele simplesmente decida ir atrás de alguma outra pessoa ao invés de mim... o que, francamente, não me agrada muito: não quero enfrentar esse cara, mas certamente não quero também que Saber e Alcatraz tenham problemas com ele. Claro, haviam outras possibilidades também; considerando a fumaça e tudo mais, era possível que seu oponente simplesmente não conseguisse determinar os cheiros separadamente o suficiente para que pudesse caçar algum deles. Mas no fim das contas, todas essas coisas são apenas suposições. Por mais que todas elas fossem possíveis, nenhuma era uma certeza, e era isso que lhe deixava indeciso. Mordeu seu lábio em frustração, tentando chegar a uma decisão. Maldição, o que eu faço?!

“– Muito bem, agora que isso foi decidido, sintam-se livres para partir pra batalha! – disse o Juggernaut, estalando o pescoço. – Apenas cuidem-se e certifiquem-se de não morrerem! Sério, se algum de vocês ousar morrer aqui eu juro que arranco sua alma do inferno!”

... E subitamente, teve a resposta para seu impasse.

Virou-se imediatamente e começou a correr sem perder tempo. Não podia demorar ali; quanto mais tempo demorasse, maior seria a chance de que acabasse se arrependendo e mudando de ideia. Com sua habilidade criou novas correntes juntas aos seus braços, e sem pensar duas vezes lançou-as contra as sombras das casas que tinha à sua frente, usando o que restava das estruturas como suporte para propulsionar-se para frente mais e mais rápido, antes que o lobo pudesse voltar a batalha. Jiazz... eu vou seguir seu comando. Pelo que havia visto, podia dizer tranquilamente que não era forte o suficiente para enfrentar aquele lobo ainda, e não estava disposto a jogar sua vida fora por orgulho ou estupidez. Posso me tornar tão forte quanto eu quiser, mas só se eu continuar vivo. Se eu morrer, está tudo acabado. Não iria morrer, não ali.

E além do mais, por mais forte que Senjur pudesse ser, ele ainda não era nada diante de Jiazz.

=====

Moveu sua naginata contra seu oponente tão rápido quanto pode, o movimento tão veloz que conseguiu ouvir o som do movimento do ar, tão afiado que poderia facilmente cortar alguém ao meio, mas isso pareceu não ser simplesmente nada para seu oponente. Alcatraz saltou com a agilidade de um gato e evitou seu golpe por completo como se ele não fosse nada, sorrindo enquanto fazia aquilo como se estivesse brincando com ela, a energia em seus dedos deixando traços de luz no ar. Em resposta a isso, Chappa sorriu. Não vá se achando. Não estou sozinha aqui!

Havia imaginado desde o início que seu oponente iria ser mais do que capaz de evitar seu golpe sem grandes dificuldades. Isso nunca havia sido um problema para ela. O que intencionava não era feri-lo com aquele ataque, mas sim colocá-lo no ar, limitando suas habilidades defensivas, lhe deixando completamente vulnerável ao que via a seguir. Tal como o homem havia saltado para o ar, a sombra de Dayun também se erguia atrás dele, e por mais que o cavaleiro estivesse exausto agora depois de ter usado o Avatar por um considerável período de tempo, ele ainda estava longe de ser fraco. Segurando com ambas as mãos seu bastão, Dayun moveu-o em um golpe horizontal contra Alcatraz, colocando tanta força em seu ataque que as veias de seu braço se tornaram visíveis.

Tudo que Alcatraz teve de fazer para defender-se daquele ataque foi erguer seu braço, e tranquilamente ele bloqueou o golpe de Dayun.

O olhar de ambos os cavaleiros se arregalou diante daquilo, ambos simplesmente incapazes de acreditar que algo assim podia ter acontecido de forma tão simples, como se isso fosse brincadeira de criança. Isso fez com que tivessem uma reação mais lenta, e foi isso que lhes custou muito. Aproveitando-se da lentidão dos dois, Alcatraz agiu rapidamente, lançando sua mão livre em direção aos braços de Dayun. O homem ainda tentou reagir a isso, mas não teve chance; antes que pudesse se afastar por completo, Alcatraz tocou na altura do antebraço com a ponta de seus dedos cercada de energia, e foi o tempo desse toque ser estabelecido para que metade do braço de Dayun caísse ao chão. Não tinha sangue daquilo, muito provavelmente devido a estranhas barreiras púrpuras que surgiram tanto no coto quanto na parte decepada de seu braço, mas a expressão no rosto do cavaleiro e o simples grito de dor que veio da garganta dele foi o suficiente para deixar claro que aquele golpe havia sido muito mais brutal do que parecia.

– Eu lhes disse: meu nome é Alcatraz, e me chamam de “o Aprisionador” – disse o homem, sorridente. Ergueu seus braços, gesticulando com suas mãos, certificando-se de chamar bastante atenção à energia em seus dedos. – Meu poder é, literalmente, “Aprisionador”. Uma habilidade muito simples; posso aprisionar tudo e todos com minha energia. Isso pode ser com barras de energia, ou correntes, ou estacas, como também passar para formas mais... alternativas, como aprisionar alguém em outra dimensão ou aprisionar a consciência de alguém em um sonho. Tudo depende da minha criatividade. Nesse caso em questão eu decidi por usar meu poder de uma forma um pouco mais tradicional, apenas aprisionando o braço desse cavaleiro em uma barreira... embora tenha tomado a liberdade de ser um pouco criativo aqui e separar essa barreira em duas, o que meio que... separou o braço dele em dois. Foi mal por isso – desculpou-se ele com um sorriso amarelo em seu rosto, virando-se para Chappa. – Mas, muito bem. Creio que agora é sua vez, não é, garota? Venha! Não gosto de deixar mulheres esperando.

Por um momento sentiu-se tentada a tornar a avançar contra aquele homem com toda a sua força para vingar-se por Dayun, mas conseguiu controlar-se bem a tempo para evitar isso. Se eu me descuidar, vou ser derrotada num instante. Dayun era forte, mesmo sem o uso de Avatar, mas mesmo assim isso não havia lhe salvado de ser derrotado quase que instantaneamente pelo homem.

– O que foi? Não vai fazer nada? Amedrontada demais, garotinha? – questionou o homem, sorrindo cruelmente para ela enquanto abria os braços, como se estivesse oferecendo seu corpo para que fosse cortado. Rangeu seus dentes, irritada, mas manteve-se aonde estava, sua base firme, seu corpo e mente preparados para reagirem a qualquer movimento hostil de seu oponente. – Entendo... bom, isso é um desapontamento. Eu pensei que você tinha mais espírito, sabe? Pensei que você iria, sei lá, tentar vingar a derrota de seu aliado com a fúria de mil sóis! ... Mas, aparentemente, você é uma galinha covarde. Está tudo bem, tudo bem, suponho que não devo te julgar por isso, mas ei, sabe de uma coisa? Isso apenas significa que ao invés de você vir até mim, eu vou até você.

E dizendo aquilo, o homem abriu um largo sorriso bobão em seu rosto e começou a avançar em direção à Chappa, um passo após o outro, devagar, propositalmente vagaroso, como se ele estivesse fazendo aquilo mais para tentar arrancar uma reação dela do que qualquer coisa. E eu não duvido que seja esse o caso. Sentia que aquele homem estava brincando com ela, e isso era algo que lhe irritava muito, mas ao mesmo tempo ela sabia que tinha de manter uma certa cautela quanto a ele. Isso é complicado... mas que droga! Nunca havia sido conhecida por ser uma pessoa paciente. Queria cortar aquele homem em pedaços, tanto em vingança pelo que ele fez a Dayun quanto para poder se livrar dele e seguir para ajudar Vaen, e isso era algo com que fazia a necessidade que tinha de usar cautela ainda mais frustrante para ela. Mas cautela não adianta nada se ele está vindo contra mim; ficar apenas parada aqui vai me deixar morta! Tinha de fazer alguma coisa ali... mas o quê?

– ESSE HOMEM AINDA NÃO MORREU, PIRRALHO! – a voz familiar de Dayun trovejou poderosa, digna de um grande comandante de guerra. Alcatraz abaixou-se apenas bem a tempo de evitar o golpe do homem, um ataque com seu bastão que trouxe tanta força bruta que a mera pressão do golpe foi o suficiente para destruir por completo uma casa razoavelmente distante deles. Os olhos de Chappa se arregalaram ao ver aquilo, surpresa em ver que mesmo um Dayun sem um braço e em óbvia dor podia demonstrar, mas pelo que viu no rosto de Alcatraz, o homem não achava aquilo nem um pouco divertido.

– Você não deve ter ouvido, mas eu disse que você tinha sido derrotado – resmungou o Aprisionador, sua voz soando subitamente muito mais ameaçadora e profunda que o normal, fazendo parecer que ele havia se transformado em uma pessoa completamente diferente em um momento. De uma vez viu a energia dele mudar, parando de cercar apenas um de seus dedos para envolver suas mãos por completo. – Eu odeio quando as pessoas não me ouvem!

Tanto Dayun quanto Chappa eram bem rápidos. Os dois haviam obtido suas classificações como cavaleiros devido aos seus atributos físicos muito além dos limites humanos, e embora Chappa fosse a mais rápida dos dois, tendo um foco maior em agilidade e mobilidade enquanto Dayun prezava mais por pura força bruta, nem mesmo ela conseguiu acompanhar os movimentos de Alcatraz, muito menos fazer algo quanto a eles. As mãos do Aprisionador se uniram ainda abertas, como que simulando a boca de um animal selvagem, e ainda revestida pela energia dele elas avançaram, atingindo diretamente a boca do estômago de Dayun, brilhando ao fazer isso.

Correntes de Energia!

Quando viu o ataque – especialmente a forma como ele havia posicionado suas mãos para lança-lo – imaginou imediatamente o pior. Imaginou que ele iria usar sua energia para abrir um buraco na barriga de Dayun, ou talvez fazer algo similar ao que havia feito antes e cortar o cavaleiro ao meio com uma barreira. Mas por algum motivo, Alcatraz decidiu por ser... misericordioso? Pelas habilidades que o homem havia demonstrado antes, ele deveria ser capaz de matar Dayun sem muitas dificuldades com algo assim, mas ao invés disso, o que seu ataque fez foi criar verdadeiras correntes feitas de nada mais do que aquela energia púrpura. O golpe em si isolou Dayun, arremessando-o para trás, e enquanto o homem era jogado contra uma das várias casas arruinadas que lhes cercavam as correntes rapidamente envolveram todo o seu torso sem lhe dar chance de reagir, como se fossem algum tipo de camisa-de-força. Assim que o corpo de Dayun colidiu com a parede da casa na qual foi arremessado, essas mesmas correntes foram rápidas em ajustarem-se e cravaram-se a casa, prendendo o cavaleiro nela. Aquilo confundiu Chappa, não só por ser consideravelmente mais misericordioso do que o homem subitamente deveria ser capaz de fazer quanto também pelo fato de que, apesar das correntes possivelmente serem fortes o suficiente para segurar Dayun, mas uma parede? Uma simples parede, ainda mais uma de uma casa quase destruída como essa, não é nem de longe o bastante para detê-lo.

Tal como esperava, Dayun não ficou parado com aquilo; ele não perdeu tempo em debater-se contra as correntes de energia... e foi no momento em que ele fez isso que ela compreendeu o verdadeiro poder daquela técnica. No momento em que Dayun deu o menor sinal de resistência, um poderoso choque correu por todo o seu corpo, tão forte que a eletricidade foi visível a olho nu, ondas púrpuras de energia elétrica que brilhavam como vagalumes. De uma vez toda a força e vida em Dayun morreu, e o corpo do cavaleiro só não caiu desfalecido devido aquelas mesmas correntes que agora serviam para lhe sustentar.

– Eu provavelmente deveria ter lhe avisado de que essas correntes são feitas para transformarem parte de sua energia em energia elétrica e descarrega-la em seu alvo caso ele tente se libertar, hum? – contemplou Alcatraz em tom pensativo, embora o sorriso maldoso que ele trazia no rosto mostrasse o contrário do que suas palavras sugeriam. – Bem, não importa, eu acho. Agora que ele está fora do caminho, que tal nos focarmos na nossa lu-

O Aprisionador viu-se forçado a interromper bruscamente sua frase para jogar seu pescoço rapidamente para trás, desviando apenas por pouco do golpe de Chappa. Droga! Conseguia ver a mancha vermelha do sangue dele no fio de sua lâmina, tal como conseguia ver um pequeno corte no pescoço dele. Os olhos do homem haviam mudado com aquilo; ainda mostravam exteriormente o ar brincalhão e divertido que ele tanto exibia, mas por trás disso se escondia um ar muito mais sério e cauteloso, talvez até temeroso. Ele sabe tão bem quanto eu do que esse ataque foi capaz. Um único segundo de atraso e a garganta de Alcatraz estaria aberta, sangue jorrando como água de uma fonte.

Pensou em seguir com um segundo ataque, mas viu as mãos dele se erguerem, avançando contra ela, e desistiu prontamente dessa ideia. Saltou para trás, evitando o toque de seu inimigo enquanto mantinha-se com a guarda bem erguida, pronta para reagir. Não posso vacilar aqui. Podia ter acabado de pressionar ele, mas isso não era motivo para subestimar um oponente. Se fosse tola o suficiente para cometer um erro como esse, estaria morta num piscar de olhos.

Tal como pensou, Alcatraz não perdeu tempo em saltar contra ela, suas mãos estendidas em sua direção, tentando tocá-la para que pudesse fazer com ela o mesmo que fez com Dayun. Seus pés dançaram uma dança rápida e ela moveu-se para o lado, evitando a investida de seu oponente ao mesmo tempo em que já girava sua naginata contra ele, pronta para cortá-lo em dois. Rápido quanto um felino ele se abaixou, evitando seu golpe muito antes que sua lâmina realmente ameaçasse tocá-lo para sua grande frustração. Droga, ele é muito mais difícil de se atingir quando não está distraído! Aquilo deveria ser óbvio, mas mesmo assim... a pura diferença das situações era o bastante para lhe assustar. A velocidade com a qual ele reage, seus reflexos... é como se ele já soubesse o que eu vou fazer muito antes que eu o faça.

Não pode nem sequer ver ele fazendo aquilo; quando se deu conta, simplesmente sentiu como se tivesse uma massa de concreto ao redor de sua perna esquerda, prendendo-a ao chão. Olhou para baixo, temerosa, e seus temores se provaram realidade quando viu que sua perna estava dentro de uma espécie de caixa retangular transparente de coloração púrpura bem leve até o joelho. Uma prisão... ele aprisionou minha perna, compreendeu ela, vendo o sorriso arrogante que o homem mostrou-lhe.

Moveu sua arma contra ele e ele saltou para trás, gargalhando, zombando da situação em que ela se encontrava. Mas suas gargalhadas morreram em questão de minutos; ele não gargalhou mais depois que ela girou sua arma e cortou sua perna acima do joelho com um único movimento, libertando-se de sua prisão.

O idiota ficou embasbacado com aquilo, fitando-a como se não pudesse acreditar no que seus olhos viam, estes arregalados, incrédulos. Aproveitou-se disso. Tendo apenas uma perna agora, não tinha muita mobilidade, mas não deixou que isso lhe impedisse; dobrou sua única perna e saltou contra ele, movendo sua naginata com todas as forças. A lâmina cravou-se profundamente no homem, apenas um pouco abaixo de seu pescoço, mas ainda em uma posição mais do que boa o suficiente para fazer um bom estrago. Sangue espirrou em seu rosto, mas ela não se importou. Puxou novamente sua arma e preparou-se para o golpe final, mas antes que pudesse lança-lo a mão de Alcatraz subitamente disparou contra ela. Sem uma perna não tinha mais a agilidade necessária para evitar aquele ataque, e por isso a mão do homem facilmente envolveu seu rosto. Podia sentir o calor da energia que fluía por ela naquele momento, como se estivesse queimando-a.

– Vocês, cavaleiros do Salão... vocês são muito, muito loucos – murmurou a voz de Alcatraz, não soando zombeteira ou sequer divertida dessa vez, mas sim respeitosa, genuinamente respeitosa. – Eu não acho que teria as bolas de cortar um membro do meu corpo tão facilmente quanto você acabou de fazer agora para continuar lutando. Isso é louco, insano, estúpido... mas corajoso também, extremamente corajoso. É simplesmente impossível não respeitar algo assim. – enquanto ele falava ela debatia-se, tentando mover as cegas sua naginata para se libertar, mas até isso cegou ao fim quando o que presumivelmente era a outra mão de Alcatraz se fechou ao redor de sua arma, segurando-a no lugar. – Eu não posso lhe dar de volta seu braço, mulher... mas em reconhecimento a sua coragem, irei lhe derrotar de forma indolor.

Não mais que um segundo depois dele ter dito aquilo, sentiu-se estranho. Sentiu suas forças lhe faltarem, suas juntas ficarem mais duras. Sentiu seu corpo se tornar menos sensível, sentiu seus movimentos tornarem-se mais lentos, sentiu-se... sentiu-se... sentiu...

... Eu... estou virando... pedra...?...

=====

Moveu seu bardiche com toda a força que tinha nos braços, mas mesmo assim sua arma foi facilmente refletida por um simples golpe de espada da mulher, sem o mínimo de esforço por parte dela. Maldita seja...! Girou e moveu novamente sua arma contra ela, apenas para que dessa vez a mulher decidisse evitar seu ataque... ao saltar e simplesmente desaparecer de vista. Mas que inferno?! Seus olhos se arregalaram e correram imediatamente pelo ambiente em busca da maldita, mas não importava para onde olhasse, simplesmente não conseguia ver nenhum sinal dela em lugar algum. Como?! Não é possível que alguém seja tão insanamente rápido ao ponto de sumir de toda uma área como essa assim, em um piscar de olhos!

– Aqui, cavaleiro – chamou gentilmente uma fina e delicada voz feminina, fazendo com que Vaen estremecesse por um momento, apenas para logo em seguida sentir a fúria correr por suas veias. Não me diga que... voltou rapidamente sua cabeça em direção a ela, apenas para ver a mulher de pé tranquilamente em cima do cabo de seu bardiche, equilibrada perfeitamente enquanto mantinha seu sabre em mãos atrás das costas, quase como se estivesse escondendo-o, e um fino sorriso em seu rosto.

Uma veia saltitante surgiu em suas feições. Abriu a boca para gritar com ela, exigir que ela lutasse a sério contra ele, mas antes que uma palavra viesse de seus lábios, recebeu um chute no rosto por parte da amaldiçoada. Apenas um momento antes do impacto pode ver uma lâmina surgir no bico da bota dela, abrindo um corte um tanto quanto profundo em seu rosto, algo que apenas fez irritar Vaen mais ainda. Moveu seu bardiche, forçando a mulher a saltar desse e rolar no ar, tentando fazer algumas acrobacias para aterrissar em segurança. Essa é minha chance!, compreendeu ele, e não perdeu tempo em aproveitá-la.

Aloeiris; Arremetida! – anunciou Vaen em alto e bom som. Tal como sempre, mal viu os movimentos que executou enquanto naquele modo; tudo que viu foi o mundo correr diante de seus olhos rapidamente por um instante, para que no instante seguisse se visse bem diante do rosto surpreso da mulher, já movendo seu bardiche contra ela.

Frustrou-se um pouco ao ver que mesmo com o seu movimento inesperado e a grande velocidade que ele havia pegado com seu momento a mulher conseguiu de alguma forma erguer sua espada a tempo o suficiente para bloquear seu golpe, mas aliviou um pouco suas frustrações dando uma boa cabeçada nela, atingindo-lhe direto na testa. O sangue da mulher manchou sua própria testa, e quando voltou a se afastar pode ver pela primeira vez uma feição de leve irritação no rosto dela, o que lhe trouxe mais satisfação do que havia imaginado. Pensou em lançar algum outro ataque contra ela, mas não teve a chance de fazer nada; antes que fizesse qualquer coisa, sentiu um dos pés da mulher apoiar-se em barriga, usando seu próprio corpo como apoio para lançar-se para trás, separando-os novamente.

Ela aterrissou no chão com uma postura bem mais séria e guerreira do que antes, parecendo pronta pra lançar um ataque contra o cavaleiro, mas foi a vez dele não dar-lhe essa chance; dobrou seus joelhos, fixou seus olhos em sua oponente, e levemente murmurou as mesmas palavras que antes.

Arremetida!

Surgiu novamente bem diante da mulher, seu bardiche já descendo em direção a ela, mas devido ao que havia acontecido antes, Saber já estava preparada. A espada dela subiu, servindo para parar o bardiche de Vaen, e o encontro dos aços foi o suficiente para lançar faíscas no ar. Os olhos dos dois se encontraram e ambos se encaram, por um momento mortalmente sérios... antes que, lentamente, um sorriso surgisse no rosto de Saber.

– Você parece ter se esquecido, cavaleiro – comentou ela, tranquilamente. Como ela consegue agir de forma tão tranquila assim? Sabia que sua força bruta era muito grande, e aquela mulher tinha braços finos como gravetos, mas de alguma forma ela conseguia arranjar forças não apenas para pará-lo como também para fazer isso facilmente, considerando a forma como ela sorria e falava. – Diga-me, qual é a minha alcunha?

Sua sobrancelha se ergueu ao ouvir aquilo. A alcunha dela? O que ela quer dizer com isso? Parte de sua mente suspeitava que isso era apenas algum tipo de plano para fazer com que ele se distraísse e possibilitar que ela quebrasse sua guarda – e essa mesma parte era a que insistia em manter cuidado em tudo o que fazia – mas ao mesmo tempo, simplesmente não deveria afastar sua mente daquilo. Será que isso é apenas uma tentativa de me enganar? Será que ela não está realmente me dando algum tipo de dica ou coisa do tipo? Era difícil, não, impossível dizer. Puxou de sua memória, vasculhando por aquilo, e quando achou a lembrança...

– “A Amaldiçoada”... – disse ele, as palavras saindo de seus lábios por conta própria. Não entendeu bem o porquê, mas quando disse aquilo, sentiu um calafrio correr por todo o seu corpo, como se fosse um sinal de que algo ruim estava por vir. Mas afinal, o que está acontecendo aqui? – Essa é sua alcunha. “A Amaldiçoada”.

O fino sorriso que Saber tinha no rosto cresceu ainda mais ao ouvir aquilo. Os olhos dela olharam nos dele, um brilho malicioso e cruel neles.

– Exato, bem lembrado, cavaleiro – disse ela, sutilmente. Depois, abaixou seu tom de voz até que essa não soasse como nada mais do que um sussurro. – Agora, me diga... o que exatamente fez com que parecesse uma boa ideia pra você sujar-se no sangue da Amaldiçoada?

Seus olhos se arregalaram no momento em que compreendeu o que ela queria dizer com aquilo, mas já era tarde demais para que reagisse. Uma dor fulminante tomou conta de seu rosto, ou mais, precisamente, de sua testa. Nos locais manchados pelo sangue da mulher, conseguia sentir esse sangue ferver como se fosse óleo quente, queimando sua pele de forma insuportável. A mulher aproveitou-se disso, e movendo rapidamente sua espada ela quebrou a guarda de Vaen, lançando seu bardiche para longe como se não fosse nada. Mesmo se pudesse expressar algum tipo de reação a isso, não teve tempo; em um piscar de olhos a mulher girou, e antes que ele se desse conta exatamente do que havia acontecido sentiu o pé dela acertar a boca de seu estômago com força, fazendo com que o Primeiro Cavaleiro cuspisse sangue e fosse jogado para trás. Suas costas explodiram contra uma casa, destruindo-a por completo e fazendo com que os destroços dela caíssem sobre ele, mas por mais incrível que isso pudesse parecer, quase não sentiu a dor disso graças a nada mais a dor muito maior que sentia em sua testa.

– Isso que você sente agora, cavaleiro, se chama “Maldição da Dor”. – disse uma voz que ele imediatamente associou a mulher. Ergueu os olhos e viu que Saber estava caminhando calmamente em sua direção, sem pressa alguma, segurando firmemente a lâmina de seu sabre com uma mão e puxando-o com a outra, usando apenas força o suficiente para que o sangue corresse pela lâmina. – Você já deve ter entendido como isso funciona a essa altura, mas permita-me lhe dar a explicação oficial. Minha Aloeiris se chama “Maldição”, e ela funciona de uma forma bem simples; posso amaldiçoar todos aqueles que entram em contato com meu sangue, e sou capaz de criar livremente a maldição que desejo que eles carreguem. Claro, existem algumas limitações até o quê isso pode fazer, mas em geral, sou capaz de criar as maldições que eu quiser, conforme minha vontade e criatividade. – ainda enquanto se aproximava, a mulher apontou seu sabre coberto em sangue para o rosto de Vaen, embora o homem soubesse que ela não apontava exatamente para o seu rosto, mas sim para o sangue dela sobre ele. – Você deve estar sentindo nesse momento a dor focada apenas em seu rosto, não é? Isso é algo normal que deve-se ao fato de que apenas o seu rosto foi manchado pelo meu sangue, o que significa que apenas ele é afetado pelo meu poder. Mas, será que você consegue imaginar o que aconteceria então se uma parte maior de seu corpo entrasse em contato com o meu sangue? O que aconteceria se, por exemplo... o meu sangue se infiltrasse na sua corrente sanguínea?

Um sorriso malévolo brilhou no rosto dela por um instante, e sem perder tempo Saber rapidamente disparou-se contra Vaen, movendo-se absurdamente rápido. Droga, isso é perigoso! Seus olhos correram pelo ambiente, procurando alguma coisa algum alvo. Achou um que servia bem o bastante; o topo de um prédio mais distante, aparentemente ainda intocado pela batalha. Ótimo! Só preciso ir pra lá, sair da mira dessa puta; depois dou um jeito nela! Travou bem seus olhos naquele lugar, dobrou seus joelhos, se preparou.

Arreme-

Antes que pudesse terminar de falar, a dor voltou com tudo, parecendo queimar seu crânio. A puta! Foi ela! Por um momento compreendeu que era Saber a responsável por aquilo, mas já era tarde demais a essa altura. Ela estava bem diante dele.

A espada dela caiu sobre ele, e sentiu seu peito ser aberto por seu golpe.

Inicialmente, não sentiu nada além da dor normal de um golpe de espada. Não entendeu isso. Ela... ela não falou dessas tais de maldições? Eu pensei que ela fosse usar uma. Pensei que-

E foi então que aquilo veio. Sentiu uma dor mais forte do que qualquer coisa que já sentiu em sua vida subitamente assolar o meio de seu peito, e caiu de joelhos perante a força dela. Mas... que merda? Sentiu toda a sua força lhe abandonar de uma vez, ao mesmo tempo em que sentia aquela dor se espalhar para seu braço esquerdo; suava frio, e quando tentou se esforçar um pouco a levantar, foi mandado de volta aos seus joelhos por um súbito ataque de náuseas. Vomitou tudo o que havia comido naquele dia e quase caiu de cara em seu próprio vômito, tamanha a fraqueza que caiu sobre ele, e foi só então que notou que havia subitamente tornando-se pálido, muito pálido. Mas o que aconteceu? Que merda ela fez comigo?

– Essa, meu caro cavaleiro, é uma maldição que gosto de chamar de “Maldição do Coração” – sussurrou a voz da mulher, soando clara aos ouvidos de Vaen por mais que ele não soubesse aonde ela estava agora e estivesse fraco demais para tentar acha-la. – Embora, acho que “Maldição do Sangue” também lhe cai bem... bom, de qualquer forma, ela funciona de forma bem simples; com minha maldição, eu bloqueei algumas das artérias que levam oxigênio a seu coração com coágulos de sangue... ou seja, em outras palavras, eu lhe fiz sofrer um infarto. Uma das limitações de meu poder é que não posso usar uma maldição que cause morte instantânea em meus oponentes... mas considerando os efeitos dessa maldição de agora, isso meio que não importa, não concorda? Vê, cavaleiro, como um pouco de criatividade pode permitir que você contorne problemas e limitações?

Rangeu os dentes ao ouvir aquilo. Com a dor, a tontura e a fraqueza que sentia, mal conseguia sequer concentrar-se o suficiente para focar-se direito na mulher, mas esforçou-se naquele momento em especial para lhe responder.

– Cale a boca, sua maldita puta... – resmungou Vaen, cuspindo as palavras como se fossem veneno, despejando todo o ódio que sentia dela nelas. A mulher apenas continuou fitando-o enquanto fazia isso, o sorriso sempre presente em seu rosto. – Você acha que vou morrer? Aqui? Pra uma mulher que nem parece mulher como você? – em geral Saber havia se mostrado até então impermeável a qualquer palavra, simplesmente ignorando tudo o que Vaen falava como se isso não fosse nada, mas ela não teve a mesma reação a essas últimas. Seu sorriso morreu e ódio reinou em seu rosto, e frente a isso, foi a vez de Vaen sorrir. – Eu sou Vaen Hoves, Primeiro Cavaleiro da Quinquagésima-Quarta leva. Eu não vou morrer assim, tão facilmente. Alguém como você nã-

Suas palavras foram interrompidas quando ele vomitou de novo e sentiu seu corpo fraquejar, sentiu-se prestes a cair em seu próprio vômito. Tudo o que conseguiu fazer foi forçar-se um pouco para o lado, o suficiente para que caísse apenas no chão duro, mas isso não lhe ajudou tanto assim. Mesmo nele, sentia-se fraco, sentia-se tonto, sentia a dor em seu peito. Eu vou morrer, compreendeu Vaen. Eu vou morrer aqui, assim.

E então, a dor subitamente desapareceu.

Não entendeu como isso aconteceu. Não entendeu o porquê. Ergueu lentamente uma de suas mãos, hesitante, temendo que tudo aquilo pudesse ser um sonho ou alguma armadilha, mas não era. Conseguiu focar-se em sua mão muito mais do que havia sido capaz de fazer com qualquer coisa antes, e isso lhe trouxe mais alegria do que podia imaginar.

– Agradeça ao meu líder por isso, cavaleiro – murmurou a voz da mulher, desprezo e ódio pingando dela como se fossem veneno. – Jiazz é um guerreiro, um homem grande e forte com poderes inimagináveis, mas por maior que seja a força dele, seu coração é muito maior. Foi o Juggernaut que ordenou que não matássemos ninguém aqui se possível, e é exatamente isso que salvará a vida de seus companheiros... e a sua.

Virou sua cabeça em direção a ela, uma pergunta na ponta de sua língua, mas não teve tempo de dizer nada. Antes que uma palavra viesse de seus lábios, uma bota atingiu em cheio seu rosto, e tudo ficou escuro.

=====

O corpo de seu inimigo foi jogado novamente contra uma das “paredes” da cratera pela força por trás de seu golpe, afundando o peito dele como se houvesse lhe acertado diretamente com seu punho. Esse é o poder do Olho Vermelho? Não posso dizer que não me decepciono com isso. Considerando a força e a fama do grupo, havia imaginado que cada membro dele seria um desafio até mesmo para pessoas do nível de Ezequiel ou Gwynevere, mas pelo que estava vendo até então, havia os superestimado demais. A habilidade desse homem é realmente poderosa e perigosa, de fato, mas só uma habilidade não faz com que alguém seja verdadeiramente forte. Ele me parece ser o tipo de idiota que acha que uma habilidade poderosa faz com que ele seja invencível, e se ele está pensando assim, então ele está morto pelo que me importa. Podia não ter um poder como a maioria dos guerreiros de alto nível do mundo, mas era mais do que capaz de destruir qualquer um que fosse tolo o suficiente para tentar lhe enfrentar.

O membro do Olho Vermelho caiu ao chão, ferido, cuspindo sangue. Em meio a sua dor e agonia os olhos dele fitaram Ezequiel como se estivessem amaldiçoando o cavaleiro; não podia se importar menos com isso. Caminhou até seu oponente um passo após o outro, sem pressa; ele não iria a lugar algum. Graças a habilidade dele, não posso tocá-lo, o que reduz de certa forma o dano que meus ataques fazem. Isso dito, quanto mais próximo estivesse de seu oponente, mais forte seria a onda de ar provocada por seus golpes quando esta atingisse seu adversário, o que significava mais dano. O risco em meio a isso é a possibilidade de que ele tente se aproveitar disso para me tocar, mas irei tomar o cuidado de manter sempre uma distância segura dele, e de qualquer forma, sei que posso detê-lo antes que ele encoste um dedo em mim.

Não demorou para que aquilo se tornasse verdade. Por um bom tempo o homem ficou simplesmente caído aonde estava, sangue escorrendo de seus lábios, encarando Ezequiel com olhos cheios de ódio... e então, ele disparou. Saltou de uma vez do chão, aproveitando-se do próprio impulso de seu salto para já começar a correr contra o Terror dos Dragões. Um ataque frontal? Estupidez. Lançou seu punho para trás e moveu-o em um soco em menos de uma fração de segundo, emitindo tamanha pressão sobre o ar que uma trilha se abriu na direção de seu soco, sua força bruta sendo forte o bastante para destruir pedras por completo como se não fossem nada. O homem, entretanto, estava atento; muito antes que seu golpe conseguisse alcança-lo ele saltou para o lado, evitando seu ataque... e curiosamente, ele não parou com isso. Continuou saltando mais e mais para o lado sem parar, sempre mantendo seu olhar fixo sobre Ezequiel. Não tirou os olhos dele também, mas embora não demonstrasse nada em seu rosto, estava confuso por aquilo. O que ele está fazendo? Pelo que parecia, o homem estava tentando circulá-lo; não entendia o porquê disso, mas manteve sua guarda erguida mesmo assim. Aonde há fogo, há fumaça. Ele não está fazendo isso à toa.

Não demorou muito para que o homem revelasse seu plano. Quando ele estava atrás de Ezequiel, viu-o saltar contra o grande cavaleiro com todas as suas forças, aparentemente tentando aproveitar-se do seu posicionamento para alcança-lo antes que pudesse expressar uma reação a isso. Esse é seu plano? Seu grande trunfo. Patético. Cruzou os braços, suspirou, e quando o homem estava prestes a alcança-lo, se moveu. Seu adversário aterrissou no lugar aonde antes estava, claramente confuso e frustrado, sem saber aonde o Terror dos Dragões estava, tudo isso enquanto Ezequiel planava no ar, cerca de cinco ou seis metros acima de seu oponente. Hora de acabar com isso, pensou o cavaleiro, jogando seu braço pra trás e preparando-se para seu ataque.

Grande Martelo! – gritou ele com todas as suas forças, fazendo com que o rosto de seu oponente se erguesse para lhe fitar apenas quando era tarde demais para que reagisse. A onda de ar emitido pelo soco que lançou em sua direção atingiu em cheio o membro do Olho Vermelho, esmagando-o contra o chão com força o suficiente para criar uma cratera abaixo dele, decididamente menor do que a que Soulcairn havia criado com seu ataque, mas mais do que o suficiente para lidar com um oponente com aquele. Sangue era tudo o que se via do corpo de seu oponente depois daquilo, o que antes havia sido um guerreiro agora jazendo no chão como uma ruína vermelha. Por um momento pensou que ele havia sido morto por aquele ataque, apenas para ter esse pensamento afastado de sua mente ao ouvi-lo tossir. Ainda vivo? Quanta teimosia. Tinha de saudá-lo por aquilo, embora não soubesse dizer se isso era algo bom ou ruim. Teimosia é uma qualidade valiosa em algumas situações, mas em outras ela pode servir apenas para ampliar o seu fracasso e prolongar a sua dor. Aquela era uma dessas situações.

Caminhou até ele lentamente, tal como antes, só que ainda menos preocupado dessa vez. Não há nada que ele pode fazer contra mim agora. Quando ainda tinha algum espírito dentro de si, aquele homem já não era um oponente a sua altura. Agora que estava quebrado, ele não era preocupação nenhuma.

Parou diante dele e lentamente ergueu seu braço, preparando-se para o golpe de misericórdia. Adeus, membro do Olho Vermelho.

Moveu-se para o ataque, mas muito antes que chegasse sequer perto de concluir seu golpe, sentiu ventos violentos concentrados acertarem em cheio seu peito, dilacerando sua armadura e forçando-o a ser arrastado pelo chão, criando uma boa distância entre o ponto em que estava e aonde foi parar.

Manteve seus pés bem firmes no chão, seu rosto abaixado. Ventos? Isso não... isso não é parte dos poderes desse homem. Disso ele tinha certeza. Ergueu levemente seu rosto, e imediatamente viu uma mulher afrente de seu oponente; uma mulher pequena, de aparência frágil e elegante, parecendo extremamente tranquila e calma diante de tudo aquilo, observando os movimentos de Ezequiel de forma serena, enquanto ventos selvagens sopravam ao redor dela, levantando levemente suas roupas e cabelos.

– Me desculpe, líder do Salão Cinzento, Ezequiel – sussurrou ela, olhando direto para os olhos de Ezequiel à distância. – Bertold é um companheiro meu, e não vou deixar que você o mate. Eu, Tristah do Olho Vermelho, serei sua oponente no lugar dele.

=====

As espadas de ambos os Jacks caíram contra ele com força, mas por mais fortes que pudessem ser, os dois juntos ainda não chegavam nem perto de se comparar a força de Behemoth. Com o cabo de seu machado bloqueou facilmente o golpe de seus oponentes, e um simples movimento dele foi o bastante para que ambos se vissem forçados a saltar pra trás e criar distância. Os olhos de ambos caíram sobre ele imediatamente, sérios, mas não retribuiu a isso; ao invés de desperdiçar tempo encarando-os, o que fez foi avançar contra seus oponentes, brandindo seu machado com toda a sua força. Seu machado desceu com força contra os dois, mas antes que pudesse atingi-los os gêmeos se separaram, saltando cada um em uma direção. Nem isso foi o suficiente para lhes livrar totalmente de seu golpe, entretanto; no momento em que a lâmina de seu machado cravou-se no chão, toda a força que havia concentrado em seu ataque foi liberada, emitindo uma onda de choque tão forte que mesmo tendo evitado o golpe principal, Jack Branco e Jack Negro foram afetados por sua força, ambos sendo arremessados violentamente nas direções nas quais haviam saltado, abrindo buracos em casas com seus corpos, destruindo construções inteiras de uma só vez com seus impactos. A força dos Jacks consiste na habilidade que eles possuem de lutar bem em conjunto. O poder desses dois é o de superar inimigos mais poderosos do que eles com sincronia e trabalho em equipe. Se conseguisse tirar isso dos dois, então a vitória já estava em suas mãos.

Sem pensar duas vezes, seguiu prontamente para a direita. Foi naquela direção que viu Jack Negro ser arremessado, e pelo que lhe dizia respeito, Jack Negro era de longe o mais problemático dos dois. As forças do Branco e do Negro são equiparadas, mas não suas mentes. Jack Branco era um homem de ação; ele agia antes de pensar, muitas vezes de formas claramente tola. Ele tem sangue quente e não tem paciência o suficiente para bolar um plano. Enquanto isso, Jack Negro é muito mais calmo e focado. Ele é capaz de pensar em um plano para me enfrentar. Talvez até mesmo para me derrotar. Derrotar o Negro era uma necessidade ali; depois disso, poderia respirar tranquilamente.

Encontrou Jack Negro caído em cima dos escombros do que parecia ter antes sido um balcão de cozinha, suas costas em vermelho puro, cheias de pedaços de madeira, cacos de vidro e restos de louça quebrada. Naquele mesmo momento ele estava tentando se erguer para voltar a luta, mas ao ver Behemoth diante de si, seus movimentos congelaram por um momento. Um brilho de medo resplandeceu em seus olhos e subitamente o homem voltou a remexer-se, tentando se colocar de pé antes que fosse tarde demais. Não lhe deu a chance de fazer isso. Antes que ele pudesse reagir, Behemoth saltou contra ele, erguendo seu machado alto no ar para tornar a descê-lo com todas as forças contra seu oponente.

Com o canto dos olhos flagrou o momento em que o corpo de Jack Negro foi trocado pelo de Jack Branco, que ao contrário de seu irmão parecia bem mais preparado para aquilo, sua espada erguida, pronta para bloquear o golpe de Behemoth.

Agir impensadamente de forma tola. Esse é o seu pior hábito, Jack Branco. Foi esse hábito que manifestou-se ali. Embora trocar de lugar com seu irmão tivesse sido uma boa ideia considerando as situações de ambos, tentar bloquear o golpe de alguém como Behemoth foi de uma estupidez fenomenal.

Seu machado quebrou facilmente a espada de Jack, passando por ela como se fosse feita de manteiga e seguindo para o corpo do cavaleiro. Atingiu-o na altura do homem e decepou seu braço a partir dali sem dificuldade alguma, deixando que esse caísse ao chão. Quanta tolice... talvez tivesse sido mais inteligente ter deixado Jack Negro receber meu golpe, Branco. Os olhos do cavaleiro se esbugalharam, e por um momento ele abriu sua boca para gritar em dor, mas então pareceu lembrar-se de que Behemoth estava ali, e imediatamente mordeu seus próprios dentes com força para segurar seu grito. A dor era visível no homem, na forma como seus músculos ficaram rígidos e tensos, nas caretas que passaram pelo seu rosto, mas ainda assim ele se negou a dar voz a sua dor, presumivelmente para negar esse prazer ao seu oponente. Não conseguia deixar de admirar um pouco isso, apesar dele ser seu inimigo e um tolo. A disciplina do Salão Cinzento é realmente muito boa, não é? Havia vivido com ela, então conhecia-a bem. Ao contrário do que alguns pensam, não há doutrinação ou lavagem cerebral ou nada desse tipo no Salão. Tudo que há é lealdade e disciplina. Cada cavaleiro treinado pelo Salão era disciplinado para exibir controle sobre seus sentimentos e vontades em batalha. Eles não estupravam, não matavam mais do que o necessário, e eram rápidos para descartar algo que iria lhes atrasar se isso viesse a ser realmente necessário. E essa é metade da razão pela qual o Salão Cinzento é tão temido e respeitado no meio militar.

Tornou a erguer seu machado sem pressa; o oponente a sua frente era provavelmente mais rápido que Behemoth, sim, mas nada – nem mesmo a disciplina do Salão Cinzento – era capaz de fazer com que um homem ignorasse a dor. Por mais rápido que ele possa ser, essa dor não vai deixar que ele se mova... ao menos não antes que seja tarde demais.

Mas antes que pudesse descer seu machado e matar seu oponente, foi interrompido.

Não viu o movimento; apenas sentiu algo colidindo com força com a lateral de seu pescoço, algo frio e afiado. Uma espada... Jack Negro! O movimento havia sido claramente feito com a intenção de cortar limpamente sua cabeça com um único golpe, mas falhou pateticamente nisso; por mais que aquele tivesse sido um ataque inteligente e bem executado, havia uma falha muito importante no plano de Jack Negro. Para decapitar alguém, você precisa ter força o suficiente para cortar através de carne e osso. Não existe ninguém no Salão abaixo do nível de um Ascendente capaz de fazer isso à mim.

Sentiu as faíscas que vieram do confronto entre o aço puro e sua pele dura, mas não se importou com isso. Segurava seu machado apenas com uma mão, o que deixava sua outra mão livre para uso em situações como aquela. Moveu-a contra seu oponente com toda a sua força, atingindo o estômago de Jack Negro em cheio com seu punho. O estrondo do impacto ressoou por aquela área como o trovão que antecede uma grande tempestade, e a simples força por trás do golpe foi o suficiente para fazer com que o chão abaixo de Behemoth afundasse. Jack Negro foi isolado por seu golpe sem ter chance de sequer erguer algum tipo de resistência perante àquilo. Seu corpo acertou vários escombros próximos e destruí-los quase que ao completo pó de imediato, seguindo através deles até finalmente quicar no chão da rua antes de parar, seus braços e costas cheios de escoriações, praticamente transformados em sangue puro.

Voltou-se para ele. Mudança de planos. Tinha a chance de matar Jack Branco bem diante de seus olhos, mas Jack Negro era o verdadeiramente preocupante dentre os dois, e além do mais, Branco já havia perdido um de seus braços – ele não era mais ameaça para Behemoth. Jack Negro, no entanto... tenho de acabar com ele o tanto quanto antes. Quanto mais rápido colocasse um fim àquele oponente, mais rápido poderia respirar em paz.

– Você me decepcionou, Jack Negro – disse calmamente o falso cavaleiro enquanto aproximava-se de seu oponente. Segurava seu machado de forma relaxada, deixando que a lâmina deste se arrastasse lentamente pelo som, fazendo um som de raspar que servia a seu oponente como um aviso que a morte estava se aproximando. – Você sempre foi inteligente, então pensei que você faria algum tipo de bom planejamento para me derrotar. Algo como, não sei, procurar algum ponto fraco em minha defesa e ataca-lo, ou talvez que você fosse bolar uma forma de ganhar força e velocidade o suficiente para me atacar com um golpe tão forte que até mesmo minhas defesas cederiam perante a ele. Mas você escolheu o caminho dos tolos, um caminho que você não tinha força o bastante para trilhar. Isso foi estúpido, Jack Negro. Muito estúpido.

– Fazer o quê, não se pode evitar algo assim...

O som daquela voz fez com que seus olhos se arregalassem, com que seu rosto se virasse subitamente na direção da qual ela vinha, mas já era tarde demais. Sentiu uma lâmina quebrada golpear-lhe com força na axila direita, quebrando suas defesas e perfurando seu corpo, arrancando sangue de Behemoth. Desgraçado... maldito desgraçado...! Seus olhos animalescos se apertaram, fitando o rosto sorridente de Jack Branco com puro ódio.

– Meu irmão precisava te distrair para que eu pudesse executar nosso plano, Behemoth – murmurou o cavaleiro de um braço, girando a espada em suas mãos, fazendo com que o rosto de Behemoth se contorcesse de dor. – Se você pensar, isso faz sentido. Normalmente as axilas são regiões de juntas do nosso corpo, a responsável por ligar nosso torso a nossos braços. Por sua forma irregular, é impossível se forjar uma armadura que protejam-nas adequadamente, o que é a razão pela qual elas são geralmente pontos fracos nas armaduras de cavaleiros. Apenas faz sentido que elas também sejam o seu ponto fraco, né?

Em resposta a isso, rugiu. Tinha uma mão livre, e não perdeu tempo em erguê-la, preparado para esmagar Jack Branco com ela. Foi só tarde demais que compreendeu o erro que isso foi. Erguer seu braço da forma que fez exibiu sua axila ao seu oponente, e diante daquela chance, Jack Negro não perdeu tempo. Segurou sua espada com ambas as mãos e avançou correndo, e antes que Behemoth pudesse sua postura, a espada dele também lhe perfurou pela axila, emergindo, vermelha, de seu ombro.

Rugiu novamente dessa vez, como uma besta ferida. Sua cauda debateu-se em dor, acertando Jack Branco com um de seus movimentos com força, arremessando-o longe como se ele não fosse nada. Não dignou nem mesmo um olhar a ele; naquele momento, toda a sua ira tinha olhos apenas para Jack Negro. Desceu a mão que havia erguido para atacar Jack Branco contra Jack Negro, envolvendo o crânio de seu oponente com sua mão e esmagando-o contra o chão com toda a sua força. Os miolos de Jack se espalharam pelo solo, seu crânio explodindo com uma melancia contra o chão duro. Tudo aconteceu em um piscar de olhos; num minuto o homem estava vivo e era uma ameaça, e no outro os restos jaziam espalhados pelo chão.

Olhou para a ruína na qual ele havia sido transformado, e sentiu arrependimento começar a surgir em seu coração. ... O que foi que eu fiz? Não sentia-se necessariamente mal por matar o homem; ele podia ser um bom homem de bom coração, um cavaleiro melhor que muitos, mas isso não mudava o fato de que no fim das contas ele era seu inimigo e Behemoth teria de mata-lo de qualquer forma, mais cedo ou mais tarde. No entanto, a forma como havia lhe matado... aquilo lhe perturbava. Ele não merecia essa morte. Não uma morte assim. Ele era um cavaleiro, um guerreiro corajoso e honesto. Ele merecia uma morte mais digna, não simplesmente ser esmagado no chão assim, como se fosse um inseto.

– O que você fez...? BEHEMOTH! O QUE DIABOS VOCÊ FEZ?! – não se virou, mas apenas porque isso não era necessário; não precisava olhar na direção da qual vinha a voz para ser capaz de dizer quem é que falava. – Você está morto, me ouviu?! EU VOU TE CORTAR EM PEDAÇOS, BEHEMOTH!

Suspirou pesadamente. Então é assim que as coisas terminam? Quando virou-se dessa vez, fez isso ao mesmo tempo em que movia seu machado. Jack Branco havia saltado contra ele, segurando sua espada quebrada com todas as suas forças, movendo-a contra Behemoth como se planejasse lhe decapitar com ela. Como se ele pensasse que poderia me decapitar com uma espada quebrada. Se seu irmão falhou em fazer isso quando me atingiu de surpresa com uma espada de verdade, ele não tem esperança nenhuma. E nem sequer teve chance, também.

Muito antes que Branco pudesse realmente tentar lhe atingir, seu machado partiu o corpo dele ao meio.

As duas metades do Branco caíram aos lados de Behemoth, o sangue de seu corpo molhando o falso cavaleiro, ainda quente. Permaneceu parado como uma estátua, banhado de vermelho, pelo que pareceu ser uma eternidade. Com ele são três. Florian. Jack Negro. Jack Branco. Já eram três os cavaleiros que haviam sido mortos por suas mãos, e nenhum deles havia tido a morte que merecia. Eu não deveria sentir nada com isso, lembrou-se Behemoth, olhando ao redor, para os corpos dos Jacks. Eles são inimigos, e eu nunca fui nem sequer parte deles de verdade em momento algum. Eu não deveria sentir nada por mata-los, mas então... por que eu sinto tanto arrependimento? Por que sinto como se eu estivesse matando meus irmãos?

Girou seu machado em suas mãos, movendo-o até que ele repousasse sobre seus ombros largos, e enxugando uma lágrima de sangue que escorria de seu olho direito, pôs-se a caminhar pelas ruínas do Salão Cinzento.

=====

Caiu sobre um joelho, suor e sangue escorrendo por todo o seu corpo. Seus cabelos que ele normalmente mantinha arrumados e fora de seu caminho prendiam-se a seu corpo graças aos líquidos que lhe cobriam, parte deles colados até mesmo ao seu rosto, atrapalhando sua visão. Seus dentes rangiam com força e raiva uns nos outros, como se ele pudesse reduzi-los a pó a qualquer momento, tamanha a raiva que sentia. Maldição... maldição! Essa mulher... que tipo de monstro é ela?! Sendo um assassino – quanto mais um tão experiente como ele – Retalhador havia encontrado muitas pessoas tremendamente poderosas em sua vida, mas era a primeira vez que encontrava alguém com um poder no nível do daquela mulher. Havia tentando o seu melhor contra ela, usado mil e uma táticas diferentes, mas ela parecia ler através de seus movimentos como se eles fossem um livro aberto, reagindo a todos os ataques que ele lançava com agilidade e destreza de níveis simplesmente sobre-humanos, usando as aberturas de seus movimentos para acertar golpes poderosos nele. Por mais que se esforçasse ou tentasse, nunca parecia chegar nem perto de conseguir fazer algo contra ela, e isso só fazia com que o caminhar lento de Gwynevere com aquela feição de superioridade em seu rosto fizesse com que o sangue dele fervesse ainda mais.

– Isso é tudo do que você é capaz, membro do Olho Vermelho? – questionou ela em um tom nada divertido, mantendo sempre os olhos afiados sobre Retalhador, atenta a qualquer movimento que o homem tentasse fazer. – Você realmente achou que poderia me derrotar com tão pouco?

Não respondeu a isso. Você está ficando arrogante demais, mulher. A forma como ela falava e agia, o jeito arrogante como ela caminhava em sua direção, como se ele não fosse ameaça para ela... tudo aquilo era um grande erro. Não importa quanto tempo passe, eu simplesmente não consigo deixar de me surpreender com o quanto até os mais poderosos guerreiros cedem a arrogância e encontram mortes precoces graças a isso. Tocou o chão com ambas as suas mãos, concentrou-se e deixou que energia fluísse de suas palmas, atuando sobre o solo diante dele, o solo sobre o qual aquela mulher pisava.

Chão Mole! – exclamou ele, um mísero segundo antes que o chão abaixo diante dele perdesse toda a consistência que tinha. Com sua habilidade, podia amolecer tudo tanto quanto quisesse, e isso significava que ele podia tornar virtualmente tudo no mundo inútil com um único toque. O efeito de sua habilidade sobre o chão foi visível; ele tornou-se como areia movediça, cedendo a qualquer coisa, qualquer pressão, por menos que fosse ela. Viu um dos pés da mulher afundar para dentro desse chão, viu a feição de irritação que cruzou o rosto dela diante disso e viu a mulher tentar saltar para fora dele. Essa foi uma decisão estúpida, mulher. Para que alguém pudesse saltar, primeiro era necessário que essa pessoa dobrasse seus joelhos, o que significava que alguém necessitava exercer primeiro uma certa pressão tanto sobre os seus próprios músculo quanto sobre o chão para ser capaz de saltar. Com o chão mole como estava, a mulher não só falhou em pegar impulso como também acabou apressando seu destino, fazendo com que ela afundasse ainda mais rápido. Você acabou de se condenar, tola. Em outra situação, iria aproveitar-se daquilo para tentar finalizar de uma vez sua oponente, mas necessitava de contato físico para fazer danos sobre ela, e se investisse ali poderia muito bem cair na mesma situação em que ela estava. Tendo isso em mente, tudo que fez foi ficar na beirada segura aonde estava de braços cruzados, tentando recuperar tanto fôlego quanto possível enquanto observava a mulher afundar, pronto para reagir a qualquer momento se ela demonstrasse algum indício de parecer prestes a sair dali.

Isso não aconteceu. Mas o que aconteceu foi ela subitamente fechar os olhos, segurar firmemente sua lança e posicioná-la à frente de seu corpo, murmurando sutilmente palavras com uma calma absurda, como se ela estivesse meditando.

Aloeiris; Gwyn, Deus do Sol e da Luz.

Um forte brilho dourado foi emitido da mulher imediatamente assim que aquelas palavras, tão forte que Retalhador quase teve de fechar os olhos diante daquilo. Tanto poder... o que ela está fazendo? Apesar da luz que vinha de Gwynevere, não sentia nada além de irritação e algum calor, nem tão pouco via como aquilo podia ajuda-la com sua situação atual.

E foi então que o brilho dourado da mulher subitamente ganhou ainda mais força, força o suficiente para que sua energia subisse aos céus como uma espécie de grande pilar dourado. Durante toda a batalha do Salão Cinzento, todas as chamas que consumiram inúmeras casas haviam liberado muita, muita fumaça, fazendo com que grandes nuvens negras cobrissem os céus; quando alcançou-as, o pilar de energia de Gwynevere abriu o céu, afastando parte das nuvens e destruindo outras para abrir seu caminho. O céu vermelho tradicional das Terras Velhas mostrou-se por trás delas, mas até mesmo ele se abriu perante a luz da cavaleira, liberando enfim um céu azul bem no topo do mundo, uma visão do paraíso em meio ao inferno no qual havia se transformado o Salão Cinzento. E no meio desse céu, um sol dourado e forte brilhava, seus raios caindo diretamente sobre Gwynevere. A cavaleira jogou sua cabeça para trás, um sorriso de satisfação surgindo no rosto dela, e por um momento ela pareceu ignorar tudo que acontecia ali. Ignorou o solo no qual ela afundava, ignorou a presença de Retalhador, ignorou todo o caos da cidade. Apenas ficou ali, sorrindo de olhos fechados, relaxada, como se não existisse nada mais do que ela e o sol no mundo.

E então, diante dos olhos do Retalhador, o corpo dela se transformou em partículas de luz.

Seus olhos se arregalaram ao ver aquilo, sem poder acreditar nisso. Isso... isso não é possível! Ela literalmente pode se transformar em luz pura?! Já havia ouvido rumores antes sobre pessoas tão poderosas que suas Aloeiris permitiam que elas mudassem seu próprio corpo, transformando-se em um elemento ou substância totalmente diferente. Havia até mesmo chegado a conhecer algumas pessoas com habilidades assim, como Zaniark que podia se transformar em um raio ou Byron, que podia se transformar em fumaça, mas o que a mulher havia acabado de demonstrar estava anos nus acima de qualquer coisa que aqueles dois podiam fazer. Ela se transforma em luz. Ela se transforma em maldita luz! Existe algum elemento nesse raio de mundo mais poderoso que a luz?!

Em um piscar de olhos o corpo dela se dissipou totalmente em milhões de feixes de luz, que como que tendo vida própria, espalharam-se para todas as direções, livrando-se facilmente do chão mole que antes era uma ameaça tão grande. Não perdeu tempo ao ver aquilo, e tão rápido quanto pode, saltou para trás e procurou se afastar tanto quanto possível. Eu tenho de sair daqui. Isso é muito ruim, não tenho muitas chances de derrotar alguém que pode se transformar em luz em um confronto frontal. A única chance que imaginava que poderia ter agora seria esperar que Gwynevere voltasse a sua forma humana e aproveitar-se de seus talentos e experiência como assassino para cortar a garganta da mulher antes que ela pudesse reagir. Pra isso, tenho de me afastar. Me afastar, me esconder e então-

Seus pensamentos foram subitamente interrompidos quando viu os milhares de feixes de luz em que Gwynevere havia se transformado antes avançarem contra ele, cegando-o por um momento. Quando voltou a abrir seus olhos e pode enxergar novamente, foi recebido pela imagem de Gwynevere ao seu lado, seu corpo reformado, e logo em seguida sentiu a absurda do de um chute com a velocidade da luz acertando a lateral de seu corpo com toda a força da cavaleira.

Foi arremessado por uma casa, atravessando-a, destruindo as paredes dela com seu corpo como se não fosse nada, apenas para atingir outra casa e ter o mesmo acontecendo novamente. Depois dela quicou no chão, sentindo parte dos ossos de suas costas quebrarem-se com o impacto, mas nem isso pareceu diminuir a velocidade na qual havia sido jogado. Atravessou uma terceira casa com violência também, quicando dentro dela, batendo o rosto no chão com tanta força que seus lábios se racharam e parte de seus dentes se quebraram. Com sua boca cheia de sangue, terminou de atravessar a terceira casa e tornou a quicar no chão da rua, e finalmente perdeu a velocidade. Quicou mais duas vezes, mais lentamente e de leve agora, antes que por fim parasse com suas costas na parede de uma casa, sentindo-se completamente quebrado. Todo seu corpo parecia estar completamente destruído, e a dor era constante para ele agora; até mesmo respirar era doloroso para Retalhador, fazendo com que ele se sentisse como se quebrasse uma costela sempre que puxava ar. Absurdo. Isso é... completamente absurdo. Era inacreditável que alguém pudesse ser tão forte assim. Eu tenho de avisar Balak sobre isso. Tenho de avisar... ele não pode derrotar essa mulher, nem ele. Sabia que seu líder era um gênio e um homem tremendamente forte, mas até mesmo o poder de Balak tinha um limite, e aquela mulher estava muito acima desse limite. Não importa o quão forte ele seja... ninguém pode vencer a luz.

Com muita dificuldade ergueu uma de suas mãos, apalpando a parede da casa com ela para buscar algum apoio... mas nem bem começou a fazer isso, sentiu uma lâmina atravessar sua mão, cravando-a à parede atrás dele.

Um gemido de dor veio de sua garganta, fraco como Retalhador se sentia agora. Virou sua cabeça pro lado, o suficiente para ver que uma lança havia atravessado a palma de sua mão, cravando-a à parede e inutilizando-a por completo. Não teve nem sequer tempo de fazer a associação antes que sentisse algo subitamente puxar bruscamente seu outro braço, e virou seu rosto bem a tempo de ver um relance do rosto de Gwynevere antes que ela quebrasse brutalmente seu braço sem piscar. O grito de dor que veio de sua garganta com isso foi bem mais forte que o de antes.

A mulher puxou sua lança quase que com raiva, deixando que o outro braço do Retalhador caísse prontamente no chão, sem força alguma para lhe sustentar. Depois ela se afastou um passo para trás, girou sua lança e olhou bem para Retalhador; na situação em que estava, simplesmente olhar de volta para ela era um custo pra ele.

– Isso deve inutilizar suas mãos, ou ao menos eu assim espero – murmurou a mulher, parecendo não estar completamente certa daquilo mesmo depois do que havia acabado de fazer, sua postura sempre cautelosa e atenta. – Eu planejava lhe interrogar por informações do seu grupo, membro do Olho Vermelho, mas mudei de ideia. Você é perigoso demais pra isso. Pessoas perigosas como você... devem ser executadas sem demora!

A lança dela parou em uma posição como de arremesso, e sem hesitação alguma a mulher moveu-a contra seu rosto. Então é assim, não é? É assim que morro, aqui nesse lugar. Apenas fechou seus olhos, resignado. Que pena. Eu queria viver... um pouco mais.

GEAS!

O som da palavra ecoou pelo ambiente, fazendo com que os olhos de Retalhador se abrissem de imediato, bem no momento em que a ponta da lança estava prestes a atingi-lo. Por um momento sentiu medo, mas esse logo se dissipou; a lança da mulher havia lhe acertado, via isso claramente, mas não sentia dor, não sentiu o impacto... e não havia tido perfuração. A lança de Gwynevere havia lhe atingido em cheio, mas ela havia sido incapaz de perfurar-lhe... e era para o motivo disso que Gwynevere olhava agora, sua cabeça voltada para trás. Olhou na mesma direção que ela.

Ele estava um pouco distante, sob o teto da última casa que havia atravessado. Suas roupas estavam um pouco mal tratadas, com cortes visíveis e um pouco tingidas de sangue, o que deixava claro que ele havia se metido em uma luta antes de chegar ali, mas pelo sorriso que tinha em seu rosto, não parecia que ele estava realmente ferido. Com sua mão direita erguida e meio aberta em direção a Retalhador, sua mão esquerda erguida ao lado de seu rosto segurando seus óculos e seus olhos completamente dominados por um brilho verde, Balak Hauss mantinha uma expressão imponente e até um tanto quanto arrogante perante aquela cena.

– Eu fiz um contrato – afirmou ele, de forma esnobe. O brilho verde que tomava seus olhos desapareceu, e para a surpresa de Retalhador, o que viu por trás desse não foi o verde tradicional dos olhos de seu líder, mas sim um vermelho-sangue. Os Olhos do Deus Furioso. Aquela era uma marca tradicional de Balak, uma herança que trazia no sangue, algo que só se manifestava quando o mago estava realmente irritado. Quando eles se mostravam, o poder de Balak simplesmente duplicava, sem tirar nem pó, fazendo com que alguém que já era normalmente extremamente formidável se tornasse um adversário absolutamente brutal. E mais do que isso... aqueles olhos mudavam toda a fisionomia de Balak. Foi só ao ver aqueles olhos que compreendeu que, por mais que o rosto de Balak sorrisse, seus olhos não sorriam também; eles estavam sérios, fixos sobre Gwynevere, parecendo trazer em si uma fúria impossível de se conter, fazendo com que o mago parecesse não querer nada mais do que partir a mulher em pedaços... o que, francamente, Retalhador não duvidava estar muito longe da verdade. – Pelo dia de hoje, nenhuma lâmina irá perfurar o corpo dele mais.

Lentamente, todo o corpo de Gwynevere virou-se totalmente em direção a Balak, fitando seriamente o líder do Olho Vermelho. Por um momento ocorreu a Retalhador que, na posição que ela tinha, ela deveria conhecer Balak e estar fazendo as associações referentes a ele em sua mente naquele exato momento, mas esses pensamentos logo foram afastados quando ela se colocou a agir. O corpo dela se transformou novamente em feixes de luz, e em uma mera fração de segundos depois ela havia se movido, reformando-se no ar acima de Balak, segurando sua lança com ambas as mãos. Sem hesitação, ela investiu com sua lança contra o Tecelão do Tempo.

A lança nunca chegou a atingi-lo, no entanto. De alguma forma Balak aparentemente havia visto os movimentos da mulher, e com uma velocidade absurda ele reagiu a isso. A mão que antes apontava para Retalhador moveu-se para a direção da mulher, no caminho da lança, e foi essa mão que parou o ataque da mulher. Não... a lança não. Parecia que a lança havia se chocado com a mão de Balak e então parado, mas uma observação mais cuidadosa revelava que ela simplesmente não havia chegado a sequer tocar o corpo de Balak, parando há alguns centímetros da pele do mago. Por um instante os dois ficaram assim, como se estivessem congelados no ar, antes que o que parecia ser um ataque atingisse Gwynevere na altura do ombro direito, lançando a cavaleira para trás, forçando-a a recuar. Ela aterrissou sobre o telhado de outra casa, sangue fluindo de seu ombro. O que quer que havia sido o golpe, ele havia sido bem poderoso; o aço da armadura e o tecido da túnica de Gwynevere haviam sido completamente destruídos por aquilo, deixando seu ombro direito desnudo, mostrando um buraco de cerca de cinco centímetros de diâmetro a mostra nele... um buraco que parecia até ser feito pela própria lança da mulher algo que ganhou ainda mais força quando viu que a ponta da lança dela estava molhada de sangue.

– Parede-Espelho – disse Balak em tom divertido, embora seus olhos continuassem tão duros e cheios de ódio que aquele seu tom só fazia fazer com que ele parecesse ainda mais assustador, como se fosse algum tipo de louco ou tivesse algum tipo de distúrbio mental. – Eu não sei se você conhece essa magia, Gwynevere. Ela não é muito usada, afinal. Requer muita precisão, uma habilidade e poder mágico muito grande, e não é algo constante, então é necessário um bom timing para usa-la corretamente... mas quando você consegue fazer isso, ela é simplesmente a defesa perfeita. Não importa qual seja o ataque, não importa o quão forte esse ataque seja; a Parede-Espelho vai absorvê-lo, e depois ela vai devolvê-lo contra meu oponente com a mesma força com a qual ele foi lançado. – o corpo de Balak inclinou-se levemente para frente, seus braços se abrindo. O fluir da mana pelo corpo do mago era tão forte que distante e a olho nu, Retalhador conseguia ver uma leve aura azulada cerca-lo. – Isso dito, creio que você merece meus parabéns. Acho que você é a primeira pessoa em todo o mundo que conseguiu evitar o contra-ataque da Parede-Espelho, ainda que apenas parcialmente.

A mulher não respondeu a isso, nem pareceu minimamente divertida ou lisonjeada por suas palavras. Os olhos dela estavam fixos sobre Balak, afiados, deixando claro que toda a vontade dela era matar o mago, embora ela não parecia disposta a avançar direto contra ele novamente e correr o risco de cair em uma armadilha como aquela. Similarmente, apesar do sorriso em seu rosto e do ódio em seus olhos, Balak também parecia tomar cuidado; sua postura era convidativa a um ataque, mas sendo um mago tão habilidoso como ele era, isso simplesmente não fazia diferença para ele. No entanto, mesmo assim ele não disposto a atacar, e Retalhador sabia bem o motivo disso. Parede-Espelho é uma técnica que pode lidar com praticamente qualquer ataque que ela tente jogar contra ele, mas ela requer boa precisão e timing, como ele disse. Provavelmente foi difícil para ele usá-la para bloquear o primeiro ataque dela, apesar de que ele provou não ser impossível. Mas atacar e logo em seguida ter de usar uma técnica defensiva assim... isso deve ser muito, muito mais difícil.

Tentou se levantar. Tinha de ajudar Balak na luta, não podia deixar que seu líder enfrentasse uma oponente daquele nível sozinho. Balak é teimoso, e ele está irritado demais agora. Mesmo que eu lhe dissesse que ela é poderosa e lhe advertisse para recuar, ele iria apenas me ignorar e continuar a lutar. Se não podia impedi-lo de correr aqueles riscos, então devia ajuda-lo... só que não conseguiu fazer isso. Com muito esforço ele conseguiu se colocar de pé, só que bambo e fraco, quase incapaz de sentir suas pernas. Tentou dar um passo em direção a eles, e então sentiu seu corpo ceder e caiu pesadamente no chão, batendo o queixo e sentindo ainda mais sangue inundar sua boca.

– Fique calmo, Scar. Não se mova. – advertiu seu líder em um tom severo. Ergueu sua cabeça e viu que, apesar dele ter acabado de falar com ele, os olhos de Balak não haviam se movido em momento algum para o Retalhador. Eles mantinham-se sempre fixos sobre Gwynevere, sempre cautelosos, preparados para reagir a qualquer coisa que a mulher tentasse a qualquer momento. – Logo iremos te levar de volta para a base e cuidaremos de suas feridas. Tudo ficará bem; não deixarei que um velho amigo meu como você morra assim. Mas primeiro... primeiro eu mato essa mulher.

=====

Com suas habilidades criou chamas ao redor de suas pernas, fazendo com que elas queimassem com força e lhe propulsionassem, lhe dessem a velocidade necessária para evitar o golpe de seu oponente. Não havia entendido ainda completamente o que aquele tal de “Goa” usava em combate – não sabia nem dizer se aquilo era proveniente de uma Aloeiris ou magia pura – mas pelo pouco que compreendia, o poder do cavaleiro funcionava na forma de uma estranha rajada invisível de energia que podia distorcer e afetar o que tocava de formas bem drásticas e brutais; havia visto um golpe de Goa que almejava lhe atingir acertar a parede de uma casa por uma vez, e apesar da casa não ter necessariamente sofrido dano como você esperaria com aquilo, ela se contorceu e distorceu de forma bizarra, como se sua massa estivesse se redistribuindo de forma completamente aleatória. Tenho de me manter atento quanto aos golpes desse homem. Mesmo com uma habilidade como a minha, não quero correr riscos e ficar sendo atingido por ataques como esse. Já havia tido o suficiente das habilidades de Goa quando havia sido atingido pela primeira vez; sentir seu peito afundando para dentro de seu corpo não era uma sensação nada boa, e não tinha vontade nenhuma de senti-la novamente.

Correu seus olhos rapidamente pelo ambiente, e não demorou nada para que visse a tal de “Valery” vindo correndo em sua direção, um sorriso nos lábios e a espada nas mãos. Afiou seus olhos ao ver a postura dela, e não demorou mais que um momento para compreender do que aquilo deveria se tratar. Uma miragem. De novo. Aquela cavaleira parecia estar sempre usando a mesma coisa, de novo e de novo, e isso já estava fazendo mais do que simplesmente dar nos nervos de Cleus.

– Se você é covarde demais para mostrar seu verdadeiro “eu” contra mim, mulher, então desapareça do campo de batalha! – exclamou Cleus, dando vazão a sua ira ao mesmo tempo em que tornava as chamas em suas pernas ainda mais fortes, fazendo com que elas lhe impulsionassem contra a mulher com ainda mais velocidade. Se ela é uma miragem, não irei perder tempo ou força tentando lhe cortar. Vou apenas passar direto por essa mulher, e pro inferno com o resto.

Estava certo de que aquela mulher que via diante de seus olhos era uma miragem, tanto pela postura dela quanto pelo modo inconsequente como ela agia. E foi por isso que se surpreendeu tanto quando se chocou com um corpo físico, com seus pés bem firmados ao chão. Meros momento antes da colisão, a mulher havia jogado sua espada de lado, e agora ela usava ambos os seus braços para tentar segurá-lo de alguma forma. Graças a sua velocidade, havia colidido com força contra ela, sua cabeça acertando em cheio o estômago da mulher, quebrando sua armadura e forçando-a para trás com força, mas ela demonstrava uma força surpreendente, conseguindo de alguma segurar Cleus ali, para grande incredulidade do guerreiro.

– Existe uma importante lição que você ainda há de aprender, cavaleiro – disse ela, divertida, um sorriso de orelha a orelha presente em seu rosto. – Existe uma diferença enorme entre “covardia” e “esperteza”. – e dizendo isso, ela travou seus braços ao redor de Cleus para impedir seus movimentos e jogou a cabeça para trás, gritando com todas as suas forças. – Goa! Agora!

Goa? ... Merda, esse é um ataque em conjunto! Remexeu-se de imediato ao ouvir aquilo, tentando escapulir das garras de sua oponente, mas não importava o quanto tentasse, o quanto se remexesse, não conseguia escapar; ela lhe segurava muito bem, e não parecia nada disposta a deixa-lo fugir. Droga, isso é mal, verdadeiramente mal! Em uma tentativa de libertar-se dela, fez com que as chamas ardessem por todo o seu corpo, ao invés de apenas em suas pernas; isso conquistou alguma reação dela, pelo menos, fazendo com que ela gemesse em dor no momento em que as chamas começaram a lamber seu corpo, mas mesmo assim ela teimou e permaneceu firme aonde estava, segurando firmemente Cleus aonde estava e mantendo-o tão imóvel quanto podia.

A primeira coisa que sentia foi uma grande concentração de energia atingindo seu corpo, ou, mais especificamente, suas costas, forçando-lhe em direção ao chão, fazendo com que seu corpo criasse uma cratera no solo abaixo dele. Depois sentiu essa concentração de energia parar de afetar apenas seu exterior, agir como se estivesse infiltrando-se de seu corpo e afetando diretamente seus órgãos e ossos, pressionando-os como se tivessem colocado pesos de toneladas sobre cada um deles. A dor que sentiu com aquilo foi simplesmente, absolutamente, indescritível. Maldição, meus órgãos! Eles estão... sendo esmagados! Não podia permanecer ali; sua habilidade permitia que ele renascesse das chamas como uma fênix, mas para isso ele de estar vivo em primeiro lugar, ou ao menos consciente por tempo o suficiente para que pudesse manifestar suas próprias chamas e cobrir seu corpo com elas, mas seria impossível fazer algo assim se seus órgãos fossem esmagados pela pressão do ataque de Goa. Maldito mago... acha que eu irei cair assim tão facilmente?!

Usou tanto a sua necessidade quanto a sua raiva como combustível para fazer com que suas chamas queimassem ainda mais forte, envolvendo todo o seu corpo. Deixou que elas simplesmente queimassem ao redor dele por alguns momentos, tanto para que elas ganhassem poder quanto para que ele pudesse se concentrar; em meio a dor que sentia, iria ter de se focar bastante para conseguir fazer o que queria. Não há espaço pra falhas aqui. Se eu tentar e falhar nisso, Goa dificilmente vai me dar outra chance de reagir.

Estrela do Amanhecer... – entoou o guerreiro, emergindo subitamente do meio das chamas que lhe consumiam com todas as suas forças. Um par de asas de fogo haviam se formado em suas costas, e usando-as para voar ao topo do céu como fazia, cercado por suas chamas como estava, Cleus fazia jus a sua alcunha de “Pássaro de Fogo”. Parou apenas quando estava bem alto, muito acima de todos ali, tão alto que via Goa e Valery como se eles fossem pequenas formigas abaixo dele. Ergueu seu braço que segurava Flamberge, erguendo sua espada de fogo bem acima de sua cabeça, e não hesitou em concentrar suas chamas nela. Apenas manteve as chamas de suas asas intactas para sustentar-se bem no céu, mas todas as outras chamas que havia criado foram absorvidas por Flamberge, dando cada vez mais força a sua espada. Vamos ver como vocês lidam com isso, cavaleiros. Moveu de uma vez sua espada em direção, apontando para seus oponentes com ela, e por um momento o brilho que reluziu de sua arma foi tão vermelho quanto as chamas do inferno. – Purgação das Chamas!

Todas as chamas que havia concentrado e absorvido em Flamberge foram liberadas de uma vez contra aquilo, avançando contra o chão como uma torrente, um mar vermelho e ardente. As chamas se espalharam, cobrindo toda a área daquele quarteirão quase que de imediato, queimando absolutamente tudo que entrava em contato com elas até as cinzas quase que imediatamente ao primeiro toque. Do alto, observou toda aquela parte do Salão Cinzento arder violentamente, tudo queimar e desaparecer diante da sua força. Esse ataque é poderoso, poderoso o bastante para aniquilar um pequeno exército imediatamente, refletiu Cleus, calmo e atento. Mas não o bastante para matar cavaleiros como vocês, não é? Vamos. Apareçam!

Como que ouvindo e obedecendo ao seu chamado, das chamas emergiu uma figura, revestida no que parecia ser uma barreira transparente que mantinha as chamas longe dele, voando diretamente contra Cleus. Goa, hum? Aquilo era bom; preferia de longe enfrentar o mago do que a ilusionistas. Bateu suas asas por uma vez em preparação, para logo em seguida avançar sem hesitação a toda velocidade contra seu oponente.

A colisão entre ambos no meio do ar foi tão forte que pareceu até que todo o mundo estremeceu perante a isso. Foram afastados pela força dessa mesma colisão, jogados para trás, criando novamente distância entre eles. Moveu Flamberge e rangeu os dentes, pronto para investir de novo, quando viu algo curioso acontecer em Goa; antes, o homem sustentava-se no ar e lutava apenas com o que parecia ser rajadas invisíveis de energia, mas isso mudou naquele instante. Asas espectrais surgiram em suas costas, similares as de Cleus, embora essas fossem feitas de uma estranha energia roxa, e em suas mãos surgiram espadas espectrais feitas dessa mesma energia. Na verdade, de todo o corpo de Goa conseguiu ver aquela energia; para onde quer que olhasse no homem, conseguia ver traços dela, seja por marcas roxas em sua pele, como se fossem desenhos rúnicos, seja por uma fumaça levemente arroxeada que saia do corpo do cavaleiro, como se fosse uma espécie estranha de vapor. Ergueu levemente uma sobrancelha ao ver aquilo, e teve de se controlar um pouco para que não deixasse um pequeno sorriso surgir em seu rosto. Então, finalmente deixou de lado seu lado mago para focar-se no seu lado cavaleiro, não é? Muito bem, venha! Mago ou cavaleiro, você vai cair perante a mim!

Avançaram novamente um contra o outro ao mesmo tempo, deixando rastros vermelhos e roxos no ar. Moveu Flamberge em um golpe lateral contra seu oponente, almejando cortar o pescoço de Goa com aquilo, mas a espada espectral do cavaleiro se ergueu, entrando no caminho e bloqueando seu ataque, sendo quase que prontamente seguida pela segunda espada espectral dele, que avançou em uma estocada direto contra um dos olhos de Cleus. Para proteger-se dessa ergueu sua mão livre, as chamas que a rodeavam tendo tomada uma forma mais ou menos sólida que fazia com que ela parecesse mais a garra de uma grande ave do que a mão de um homem, e com essa segurou facilmente o golpe de seu oponente, mantendo-o longe o suficiente para que não fosse uma ameaça. Encararam-se, ambos sérios e determinados a poder, e simultaneamente aumentaram ainda mais a força que dedicavam aos seus ataques. O súbito aumento de força lhes separou novamente, mas não perderam tempo; avançaram prontamente um contra o outro novamente, movendo suas armas com toda a força. Os encontros entre as lâminas geraram sons que reinaram sobre todo o ambiente; tanto Cleus quanto Goa passaram pelo outro, Goa deixando um corte na altura do abdômen que havia passado pela armadura e cortado diretamente a carne de Cleus, enquanto que o Pássaro de Fogo havia deixado um corte ardente no ombro do cavaleiro. Parece que a nossa batalha se transformou em uma dança nos céus, não é? Tudo bem por mim. Deu a volta assim que pode, e sem hesitação tornou a avançar contra Goa, enquanto o cavaleiro fazia o mesmo.

Tiveram mais três encontros como o último, sempre deixando feridas uns nos outros para marcar suas colisões, antes que Cleus decidisse se afastar para avaliar melhor a situação. Não posso continuar com isso. Não só estavam perdendo tempo demais sem chegar a um ponto realmente decisivo, ele estava acumulando muitas feridas com tudo aquilo; além do primeiro golpe de Goa que havia deixado uma ferida em seu ombro, havia adquirido um corte em seu braço, um corte em sua bochecha esquerda e outro corte sobre sua sobrancelha direita, forçando-o a manter seu olho constantemente fechado para que sangue não entrasse nele. Eu posso sempre usar minha habilidade para me curar, mas não acho que eles vão me deixar fazer isso de novo... e além do mais, Valery não se mostrou até agora, e isso me preocupa bastante. A mulher era bem chata e perigosa com sua habilidade das miragens, e Cleus simplesmente não conseguia acreditar que ela tinha morrido com seu ataque. Tenho de acabar logo com isso... e só vejo uma solução pra tal. Gostaria de evitar isso, se possível, mas não iria hesitar em usá-la agora que isso se mostrava necessário.

Goa estava prestes a avançar contra ele, pronto para tornar a atacar Cleus, mas a súbita onda de chamas que vieram do Pássaro de Fogo forçou o cavaleiro a pensar duas vezes e se afastar. Em meio ao ar, acima do Salão Cinzento, Cleus queimou com a força de mil sóis, tão envolto pelas chamas que não era possível ver nada mais do que a sombra de sua figura. Por um momento pareceu que ele iria avançar contra Goa com aquelas chamas, ou até mesmo que ele iria tentar renascer de novo, mas o que ele fez foi bem diferente disso; sem pensar duas vezes, Cleus voou com todas as forças para cima.

Sua velocidade era absurda, um ponto vermelho deslocando-se como um flash pelos céus. Alcançou as nuvens e passou por elas sem hesitar, seguindo mais além, para mais alto. A medida que avançava, sentia o ar ficar mais e mais rarefeito; respirar já não era algo fácil quando cercado por suas chamas, e com os efeitos do ar, isso ficava quase que impossível. Não deixou que isso lhe detivesse. Segurou sua respiração e continuou a seguir em frente, um Pássaro de Fogo que buscava alcançar o céu.

Quando enfim parou e olhou para baixo, o que viu não foi apenas Goa ou os prédios do Salão, mas sim todo o Salão, pequeno como uma formiga. Conseguia vê-lo, e as montanhas que lhe cercavam, e boa das Terras Velhas e até mesmo parte do mar que cercava o continente. Raios, conseguia ver até mesmo a camada de mudança, o ponto em que o céu azul se tornava vermelho sobre as Terras Velhas. Afiou bem seus olhos, concentrou-se, e travou sua mira. Meus olhos não são os mais rápidos, e não possuo habilidades especiais relacionadas a eles como muitos tem; não posso distinguir ilusões, não posso ver o interior das pessoas, não posso ver através de paredes ou ler pensamentos... mas não existe ninguém no mundo que pode ver mais longe do que eu. Naquele momento, seus olhos não eram mais os de um humano normal, mas sim olhos monstruosos, como os de um falcão.

Assim que sua mira travou-se sobre Goa, não perdeu tempo e avançou com toda a sua velocidade contra ele, mergulhando com tudo, sua velocidade ampliada em várias vezes pela força da gravidade e a sua capacidade de aceleração. Diante de seus olhos o mundo corria com a velocidade da luz, sua visão parecendo afunilar-se, coisas que antes pareciam pequenas ganhando novamente seu tamanho normal. Mal notava tudo isso. Seus olhos viam apenas uma coisa, estavam fixos apenas em uma coisa; na figura de Goa, parado em meio ao ar, olhando para cima, tentando entender o que Cleus havia feito. Sentiu seu próprio corpo entrar em combustão, tanto devido a sua velocidade absurda quanto devido as suas chamas, mas não se importou com isso. O rastro de chamas que deixava dava a ele uma forma similar à de um cometa vermelho, mas não se importou com isso também. Tudo que importava ali era derrotar seu oponente.

METEORO VERMELHO!

... A força por trás de seu golpe era muito grande. Cleus, felizmente, havia aprendido a controla-la e focá-la, minimizando sua destruição. Isso era algo útil; diminuindo a área afetada por seu golpe, ele ampliava o dano dele sobre sua área de atuação. E também era algo necessário; se seu ataque atingisse com toda aquela força e agisse sobre toda a área que ele normalmente afetaria, toda a cidade do Salão Cinzento iria ser transformada em ruínas.

Seu punho revestido de chamas colidiu em cheio com a barriga de Goa ainda no ar, mas não permaneceram muito tempo ali. Estavam há pelo menos cem metros acima do nível do solo, mas a velocidade dele era tão grande que alcançaram o chão em um piscar de olhos. O impacto por si só foi forte o bastante para criar uma cratera do tamanho de um quarteirão, mas isso não foi nada se considerado o que veio a seguir; todas as chamas que queimavam ao redor de Cleus, incluindo até mesmo as de suas asas, foram liberadas de uma vez. Todas as chamas que ele havia juntado e usado em seu ataque, todo o poder de seu fogo somado ao peso da gravidade, velocidade de voo e força bruta de Cleus, foi o suficiente para fazer uma grande explosão de chamas ardentes que consumiram todo o quarteirão, queimando completamente tudo o que tocavam, em algo que não podia ser descrito como nada menos do que “uma prova do inferno”.

Quando as chamas enfim chegaram ao seu fim, Cleus estava triunfante sobre o corpo de Goa, seu punho ainda plantado firmemente na barriga do mago-guerreiro. Seus olhos correram rapidamente ao redor, e o que viu não lhe surpreendeu; casas, pedras, o próprio chão – tudo havia sido carbonizado por suas chamas, queimado ao ponto de apenas restar cinzas e uma substância preta que lembrava carvão. Rachaduras estavam visíveis por todos os cantos; boa parte de toda a área ao seu redor havia sido destruída pelo seu golpe, e o que havia de alguma forma resistido ao seu impacto ainda trazia traços do golpe. A própria estrutura de tudo aqui parece tão frágil que eu poderia jurar que esse quarteirão iria pelos ares se alguém simplesmente soprasse-o. Por um instante, perguntou-se se isso significava que agora Valery estava morta; duvidava que ela fosse morrer para a Purgação das Chamas, mas a diferença entre as forças de seus golpes era maior que a da água pro vinho. Talvez agora ela esteja morta. Talvez não. Vou descobrir isso em breve.

No meio tempo, voltou seus olhos para Goa, abaixo dele. Todo o ambiente havia sido carbonizado e derretido pelo calor de suas chamas, e o próprio Goa não era exceção a isso. A barriga do cavaleiro havia afundado para dentro de seu corpo graças a pura força do golpe, e a sua pele, naturalmente de uma coloração mais escura, havia se tornado completamente preta, carbonizada pelas chamas. Sua armadura havia derretido e se fundido ao corpo do cavaleiro, fazendo com que ele parecesse algum tipo de monstro bizarro feito de carne e aço, e isso não era ajudado em nada pelo fato dos próprios olhos de Goa terem derretido; no lugar deles, as órbitas do cavaleiro estavam preenchidas com o que era pouco mais que pus semilíquido. Não era alguém fresco ou fácil de se enojar, mas até mesmo Cleus não conseguia deixar de sentir um pouco de náuseas ao olhar aquilo.

E foi exatamente por isso que se surpreendeu tanto quando ouviu o súbito som de algo arranhando, como se estivessem tentando puxar água através de um canal fechado, seguido pelo abrir da boca de Goa, liberando ar e um gemido de dor.

Fitou o homem com um misto de genuína admiração e profundo terror. Por um lado, admirava a força dele, a vontade de viver que ele tinha, a energia que o motivava a sobreviver mesmo depois de ter sofrido tanto dano assim, mas por outro... por outro aquilo simplesmente lhe assustava. O corpo dele está completamente arruinado. Ele não deveria ser capaz de sobreviver a algo assim. Isso simplesmente não devia ser possível. Mas aparentemente, Goa de alguma forma havia feito o impossível... e era isso que enchia Cleus de terror. Não tinha medo do que o homem poderia fazer contra ele agora, nem temia qualquer que fosse o poder que fez com que Goa sobrevivesse a algo assim... mas temia pelo futuro do homem. Temia imaginar o que seria da vida dele agora. Seu corpo está completamente arruinado. Eu devo ter destruído boa parte dos órgãos localizados em sua barriga e ao redor dela com meu golpe. O aço está fundido demais ao seu corpo para que ele possa simplesmente retirar os restos da armadura. Seus olhos não existem mais. Que tipo de vida esse homem pode esperar levar de agora em diante? Em seu estado atual, a morte provavelmente seria uma alternativa mais bondosa para ele. Pelos Deuses, o que eu fiz?

Estava tão absorto em seus pensamentos, tão focado em tentar compreender exatamente a verdadeira dimensão de suas ações, que não notou o perigo que se aproximava até que a espada atingiu-lhe na altura do pescoço.

Com o fio da arma e a força do golpe, ela penetrou mais que três palmos através de sua carne, tirando mais do que um pouco de sangue, mas mesmo assim, mal sentiu o golpe. Sem sentir dor, virou lentamente sua cabeça para fitar Valery. A cavaleira estava bem atrás dele, olhando para Cleus com um misto de medo e surpresa, tentando colocar ainda mais força em seu golpe na esperança de ampliar os danos causados. De onde estava ela pode ver o momento em que a mão de Cleus começou a se erguer em direção a dela, e em crédito a ela, a mulher tentou se afastar, mas ele foi mais rápido e segurou-a pelo pulso antes que pudesse escapar.

Os olhos dele se encontraram, os dele inexpressivos, os dela irritados e conturbados. A mulher debateu-se e remexeu-se tanto quanto pode em uma tentativa de se soltar, mas não teve sucesso nisso; ela era muito mais forte do que alguém imaginaria com um olhar, mas mesmo assim, Cleus era mais forte do que ela. Isso é um tanto quanto irônico. Enquanto ela não conseguia me acertar, ela era provavelmente o meu maior obstáculo e o oponente mais complicado entre os dois. Agora que ela finalmente conseguiu me acertar, ela também acabou com todo o perigo que representava para mim. Fechou sua mão que segurava Flamberge com um pouco mais de força, e em um instante invocou sua espada de fogo e moveu-a em um golpe. O peito de Valery abriu-se sem resistência perante ao seu golpe, e assim que isso aconteceu, toda a resistência dela chegou ao fim.

Soltou a cavaleira, e seu corpo caiu de imediato. Seu golpe não havia sido fatal; havia deliberadamente atacado a mulher com poder o suficiente para que as mesmas chamas que tornavam fácil cortar através do aço e da carne queimassem a ferida, forçando uma cicatrização quase que instantânea. Valery iria ficar com uma cicatriz nada bonita daquilo, mas ela iria viver, e supunha que era isso que importava.

Alternou seus olhos entre ela e Goa por um momento, depois ergueu-os para olhar o ambiente que havia reduzido a uma ruína carbonizada com suas próprias mãos. Só então suspirou. Eu... suponho que não faz sentido manter arrependimentos agora. Não podia mentir; uma grande parte do seu ser se sentia mal pelo que havia acabado de fazer, sentia-se mal por ter atacado uma organização como o Salão Cinzento, sentia-se mal por ter feito aquilo com cavaleiros que pareciam pessoas completamente decentes pelo que havia visto, mas supunha que isso era apenas parte da guerra, um preço que tinham de pagar pelo bem maior. Se nós alcançarmos nosso objetivo, iremos salvar o mundo dos demônios. Em prol desse objetivo, isso vale a pena... não vale?

Com seus poderes, criou duas novas asas de fogo em suas costas, e batendo-as com força, alçou voo sobre as ruínas do Salão Cinzento.

=====

Uma das flechas de Sara foi a primeira coisa que cruzou a sala, uma flecha com uma ponta de metal tingida de verde, certamente banhada em alguma das poções que a Herbalista Demoníaca fazia. Ela não chegou a sequer preocupar Jiazz; o Juggernaut não fez nenhum movimento para tentar evitar o projétil ou defender-se; ele simplesmente deixou que a flecha lhe atingisse, e quando isso aconteceu Marco compreendeu o porquê dele não se preocupar com aquilo. A flecha atingiu-lhe em cheio no ombro, mas simplesmente não fez nada; ela bateu em seu ombro e caiu no chão, sem ter sequer feito um arranhão a ele. Jiazz olhou para aquilo e ergueu uma sobrancelha, como se estivesse confuso; de onde estava, Marco pode ver os olhos de Sara se arregalarem em surpresa e descrença, para logo depois ver um pouco de medo e preocupação brilharem neles quando o olhar de Jiazz caiu sobre ela. O Juggernaut esmagou sua flecha com seus pés sem se preocupar, e sorrindo ele caminhou em direção a Sara, como se estivesse brincando com ela.

– Ei, ei, não me decepcione assim, Arqueira Verde – disse ele de forma divertida, quase gargalhando enquanto falava. – Eu tenho grandes expectativas pra você e seu grupo, e não gostaria que elas fossem quebradas, ao menos não assim tão rapidamente. – seus ombros se abaixaram, relaxando, mas embora isso fosse em geral algo que poderia tranquilizar a todos ali, seu efeito foi justamente o contrário quando os olhos de Jiazz se afiaram para cima de Sara, os dentes brancos do homem parecendo subitamente tornarem-se maiores e mais afiados, como os de um animal selvagem. – Na verdade... agora que penso nisso, você me parece um tanto quanto ansiosa pra começarmos a brincar, não? Perfeito.

As pernas de Jiazz se dobraram, e isso foi o suficiente para que soubessem que ele estava prestes a agir. Ao redor de seu punho direito, o que pareciam ser chamas douradas surgiram, queimando de forma estranhamente controlada, como se seu calor, seu poder, seus próprios movimentos dependessem inteiramente da vontade de Jiazz. Apertou suas mãos ao redor de seus bastões ainda mais, preparado para usá-los a qualquer momento se isso se provasse necessário... até que sua mente atentou-se ao fato de que enquanto fazia todas aquelas preparações, os olhos de Jiazz não haviam deixado Sara por um momento. Ele... droga, ela é o alvo dele!

– Sara! – gritou Marco, virando-se urgentemente para a Herbalista. – Desvie!

A Herbalista não precisava de seu aviso. Ela também havia notado as intenções de Jiazz, e já estava movendo-se para evitar o ataque que estava por vir... mas mesmo assim, ela simplesmente não teve a chance de fazer isso.

Quando ele avançou, Jiazz foi monstruosamente rápido. Não puderam nem sequer ver seus movimentos; apenas sentiram uma onda de força cair sobre eles, uma ventania forte causada por nada mais do que a absurda velocidade do movimento de Jiazz. Pedaços de concreto foram arrancados do chão pelo simples avanço de Jiazz, jogados para todos os cantos, deixando uma trilha pelo local pelo qual Jiazz avançou.

Quando compreendeu tudo aquilo, os olhos de Marco se arregalaram em preocupação, e quase que instantaneamente o que chamavam de Faz-Tudo virou seu rosto em direção a Sara... para ver a mulher salva, e ver que, de alguma forma, haviam bloqueado o golpe de Jiazz.

O homem estava bem diante de Sara, apenas há alguns poucos metros de distância dela. Seu braço estava estendido, tendo se movido em seu último ataque, mas seu punho estava bem parado, distante da Herbalista. Entre ele e seu alvo estava Leona Myers, a que chamavam de “Aríete Negro”, segurando firmemente seu escudo triangular de aço vulcânico com o que parecia ser todas as suas forças. A mulher suava e estava claramente fazendo muito esforço ali, e seu rosto estava confuso também, demonstrando que ela não tinha muita noção do que havia acabado de acontecer, mas bastou alguns segundos para que compreendesse o que havia feito, para que um sorriso surgisse em seu rosto.

E isso, em contrapartida, fez com que o sorriso do próprio Jiazz se alargasse um pouco mais.

– Você não pensou realmente que isso seria tão fácil assim, pensou? – questionou ele em um tom de voz ameaçador. Leona demonstrou confusão novamente ao ouvir isso, e Marco também ficou confuso por um momento... até notar que as chamas douradas que antes estavam ao redor do punho de Jiazz haviam agora desaparecido por completo. Leona pareceu notar o mesmo ao mesmo tempo pela forma como seus olhos se arregalaram e ela foi pra trás, como que pra tentar se afastar... mas era tarde demais. – Lanças Douradas!

O escudo de Leona brilhou por apenas um instante em dourado, o único aviso que tiveram antes que aquilo ocorresse. Da parte de trás desse escudo emergiram seis lanças douradas, aparentemente feitas do que parecia ser as mesmas chamas douradas que Jiazz havia mostrado antes, só que agora concentradas em uma forma. Tão próximas como estavam e com a alta velocidade com a qual avançaram, Leona simplesmente não teve a chance de expressar algum tipo de reação a isso; as lanças a atingiram em cheio, perfurando seu corpo com facilidade, atravessando aço e carne até emergirem do outro lado, todas as suas pontas vermelhas. A mulher tossiu sangue e vacilou um e dois passos trôpegos para trás, movendo sua cabeça para olhar para baixo, para as lanças que a perfuravam.

No momento em que ela fez isso, o punho de Jiazz avançou direto contra ela, e sem um pingo de dó o Juggernaut atingiu um soco extremamente potente no rosto dela, arremessando-a pro lado com tanta força que ela atravessou a parede da sala facilmente, e a outra além dessa, e mais incontáveis outras pelo que Marco podia ouvir. Um momento de silêncio reinou na sala depois daquela demonstração de poder, todos ali simplesmente surpresos e aterrorizados demais pelo ocorrido para manifestarem-se de alguma forma. Esse silêncio apenas foi quebrado quando Jiazz estalou seu punho coberto de sangue, ainda sorrindo.

– Sabem, eu já ouvi alguns rumores sobre como alguns homens tem algum tipo de código quando lutam com mulheres, algo que faz com que eles peguem leves com elas – seus olhos correram pelos quatro oponentes que lhe restavam. Darla, Sara, Scarlet e Marco. – Eu vou lhes avisar desde agora; eu não tenho nenhuma frescura como essa. Todos os que eu enfrento acabam do mesmo jeito; com seus rostos entre o chão e a sola da minha bota.

Aquelas palavras pareceram servir como uma espécie de gatilho. No momento em que elas foram ditas, Darla Hatfield avançou. De onde estava, Marco pode ver bem os movimentos dela; usando de sua alta velocidade ela correu contra Jiazz pelas costas, segurando com ambas as mãos sua espada de mithril, o glifo que ela havia colocado em sua arma agindo quase que imediatamente, fazendo com que sua espada entrasse em combustão como se fosse feita de puro fogo. Com um grito de guerra, Darla moveu-a com todas as forças, mirando direto no pescoço de Jiazz.

Sem nem sequer se virar, o Juggernaut segurou facilmente a espada dela com uma de suas mãos. As chamas vermelhas que ardiam na espada foram quase que imediatamente engolidas por chamas douradas, e um momento depois, a lâmina simplesmente explodiu. Em meio as faíscas das chamas douradas e os estilhaços de aço, Jiazz moveu levemente sua cabeça o suficiente para lançar um olhar direto nos olhos de Darla.

– Essa não foi uma ideia muito esperta, mulher.

O movimento dele foi quase instantâneo. Em um instante ele estava olhando para ela, e no outro uma cratera surgiu subitamente no chão, formada pelo corpo de Darla. O punho de Jiazz havia caído sobre ela como se fosse uma marreta, acertando-a em cheio bem no centro do rosto e jogando-a ao chão de imediato. Em questão de segundos, a Escrivã de Aço havia sido facilmente derrotada como se não fosse nada.

Franziu seu cenho. Droga, o que eu estou fazendo? Não tenho tempo para ficar aqui parado feito um idiota! Lançou um rápido olhar para Scarlet e acenou com a cabeça, e pelo sinal que ela lhe deu soube que a mulher foi rápida em compreender o que ele queria dizer com aquilo. Bateu seus bastões um no outro por uma vez para atrair a atenção de Jiazz, e no momento em que o Juggernaut olhou em sua direção, Scarlet não perdeu tempo em lançar uma de suas adagas de arremesso contra ele. Jiazz desviou do ataque sem grandes dificuldades, apenas afastando sua cabeça para trás e olhando na direção da mulher, afiando seus olhos ao ver o que ela estava fazendo como se estivesse se perguntando aonde ela queria chegar com aquilo. Começou a correr contra ele ao ver aquilo, e logo os olhos de Jiazz voltaram a voltar-se para Marco, mas Scarlet não parava também de arremessar adagas, e essas estavam fazendo um bom trabalho em ocupar a atenção do Juggernaut. Rangendo os dentes, Jiazz voltou-se para ela já irritado, bem a tempo de ver outra adaga vindo em sua direção... e passando direto ao lado de seu rosto, há cerca de trinta centímetros de realmente tocá-lo. Ele olhou para a adaga por alguns instantes, curioso, antes de tornar a voltar seu rosto para Scarlet e afiar os olhos; esse foi o sinal para Marco de que ele, no mínimo, já estava começando a compreender o que estavam fazendo.

E isso significava que o segundo em comando do clã Potentia Aurae tinha de se apressar.

Saltou sem hesitação contra Jiazz, chamando a atenção do Juggernaut com o som de seu salto, e ainda no ar, brandiu corajosamente seus bastões. O Juggernaut olhou para ele e sorriu, e ao ver aquele sorriso, Marco compreendeu que ele havia ao menos temporariamente se esquecido do que Scarlet estava fazendo. Perfeito. O punho de Jiazz se fechou e ele tentou lança-lo contra Marco em um ataque... mas foi detido antes que pudesse completar isso. Surpreso, os olhos de Jiazz foram para seu punho, e só então o homem pareceu compreender realmente o que Scarlet estava fazendo antes. As adagas nunca tiveram você como alvo, Jiazz. Ela não planejava lhe ferir com elas, mas sim imobilizá-lo. Em cada adaga haviam fios de aço, finos, quase imperceptíveis ao olho nu, o tipo de coisa que você nunca acharia a não ser que você estivesse procurando por tal. Com as adagas que Scarlet havia lançado, esses fios haviam cercado o corpo de Jiazz por completo, envolvendo-o em uma verdadeira teia de aço. O que me dá a chance perfeita de lhe atacar! Girou seus bastões em suas mãos, e sem hesitar, golpeou a cabeça de Jiazz simultaneamente com ambos.

O Juggernaut não sofreu um arranhão sequer com aquilo, mas os bastões de Marco quebraram de imediato em suas mãos, estilhaçando-se em migalhas.

Seus olhos se arregalaram diante daquilo. Não pode ser... como?! Esse foi um golpe direto! Ele deveria ter sofrido algum dano com isso, por menor que fosse! E no entanto, nada parecia ter acontecido; era como se Marco não tivesse sequer acertado Jiazz, apesar de todos os seus esforços.

Não teve tempo para focar-se nisso. Com um puxão com um pouco mais de força, Jiazz arrebentou os fios de aço que envolviam um de seus braços, e antes que Marco pudesse aterrissar ou reagir de qualquer forma, a mão do homem fechou-se ao redor de sua garganta, segurando-o em meio ao ar, apertando com tanta força que mal conseguia respirar.

– Essa foi uma boa ideia, meu chapa – parabenizou o Juggernaut, embora o sorriso e o tom divertido com os quais ele falava faziam com que o elogio parecesse mais um insulto. – Bloquear meus movimentos com fios e lançar um ataque direto contra minha cabeça... essa foi uma boa estratégia, tenho de admitir. Se a situação fosse diferente, eu estaria gravemente ferido depois dessa, se não morto de vez. Mas, sabe... você está se esquecendo de um detalhe muito importante – a outra mão de Jiazz se moveu, pousando contra a barriga de Marco, diretamente sobre seu umbigo. Estranhou isso de imediato, mas no momento em que sentiu calor emanar da palma da mão de Jiazz, compreendeu o que ele planejava, e isso fez com que seu sangue gelasse em suas veias. – Você não vai conseguir me ferir com um ataque desse nível.

As chamas douradas do Juggernaut explodiram direto em sua barriga, fazendo com que Marco berrasse em dor enquanto era arremessado ao outro lado da sala. Suas mãos foram de imediato para sua barriga, para a área afetada por aquilo, arranhando sua própria carne com as unhas em uma tentativa de afastar a dor. Isso queima! Isso queima, queima muito! Sinto como se meus próprios ossos estivessem derretendo! A dor era absurda, absolutamente absurda.

Mas nem mesmo essa dor absurda fez com que ele deixasse de ver o que aconteceu a seguir.

Jiazz avançou contra Scarlet com uma velocidade completamente inumana. A mulher tentou reagir de alguma forma, mas não teve nem chance. Em um piscar de olhos a mão de Jiazz havia se fechado ao redor de sua cabeça, envolvendo-a completamente, e em um pingo de misericórdia Jiazz esmagou a cabeça dela no chão, sua mão abafando um grito de dor da mulher. Sara tentou disparar mais três de suas flechas contra ele, mas com um movimento rápido de sua mão que Marco nem sequer pode acompanhar, Jiazz apanhou as três e esmagou-as entre seus dedos. Ele sorriu para Sara, como que zombando de seus esforços, e sem dar tempo para ela reagisse, arremesso o corpo de Scarlet contra ela. A Herbalista ainda tentou reagir, mas Scarlet foi lançada com tanta força, a uma velocidade tão absurda, que ela não pode fazer nada. Foi atingida em cheio pelo corpo de sua companheira, e ambas colidiram com força contra a parede antes que tornassem a cair, completamente desacordadas e derrotadas.

Os olhos de Jiazz correram pelo ambiente depois daquilo. Pouco a pouco, as feições do homem foram retornando ao normal, uma vez que sua animação ia morrendo, e elas revelaram uma feição... decepcionada. Jiazz olhou ao redor, para todos os que havia derrotado, e suspirou, como se subitamente se sentisse cansado.

– Droga, nem isso foi realmente interessante – murmurou ele em uma voz emburrada, como a que você esperaria de uma criança que não conseguiu o que queria. – Eu pensei que cinco contra um pudesse fazer as coisas ficarem um pouco mais interessantes, mas pelo visto eu superestimei a vantagem que números garantem. Ah, bem, fazer o quê. – seus olhos moveram-se novamente, de forma preguiçosa, e pousaram prontamente sobre Marco, fazendo com que o guerreiro sentisse um arrepio correr por sua espinha. – Ei, você. Você ainda está consciente. Ótimo! Tenho algumas perguntas aqui, e acho que você é a pessoa ideal para responde-las.

A passos lentos mais largos o Juggernaut moveu-se, avançando em direção a Marco. Sentiu medo e terror ao ver aquilo, mas apesar disso, manteve sua mente sã e sobre controle. Calma. Calma. Se desesperar não vai ajudar em nada. Tinha de pensar em algum plano, e rápido. Tentou ergueu-se de alguma forma, mas falhou nisso. Com o tempo, a dor que sentia do golpe de Jiazz foi desaparecendo – ou melhor dizendo, foi se acostumando a ela – mas no instante em que tentou mover-se ela voltou com tudo, fazendo com que gemesse em dor e caísse novamente no chão. Não dá. Droga, eu não vou conseguir fazer muito assim. Aquilo era mal, muito m-

Uma ventania súbita foi sentida naquela sala, seguida pelo som de aço chocando-se com aço. Ergueu sua cabeça, e para sua surpresa, viu que parte da roupa e da armadura de Jiazz havia sido cortada por alguma coisa. Pelo que podia ver no rosto dele, nem mesmo o Juggernaut parecia ser capaz de acreditar nisso, tendo em seu rosto a maior feição de surpresa e incredulidade que Marco já viu.

– Tch... – resmungou uma voz, um pouco rude, um pouco irritada, consideravelmente rouca, mas com uma rouquidão que mais fazia a deixar mais grave do que realmente atrapalhar a comunicação. – Parece que sua pele é mais dura do que eu imaginei. Isso vai ser um porre.

Atrás de Jiazz, há alguns bons metros de distância dele, um homem estava de pé. Pelo que podia ver de sua aparência, ele era jovem, embora sua postura, voz e modo de falar fizessem com que ele parecesse mais velho. Seus olhos estavam fixos sobre Jiazz, afiados, sérios, trazendo ao mesmo tempo cautela e determinação, e uma força como a que esperaria encontrar em um grande rei. Com uma de suas mãos o homem segurava uma espada de madeira, a qual apoiava sobre um ombro. Logo parou de fazer isso, entretanto, para apontar pra Jiazz.

– Jiazz, o Juggernaut. Ouvi rumores sobre você, sobre sua força, e pelo que vejo, sei que eles são reais... mas francamente, eu não poderia me importar menos – a carranca do homem tornou-se ainda mais agressiva, e mesmo de onde estava, Marco conseguiu ver ódio em seu olhar. – Como um dos cavaleiros do Salão Cinzento, eu, Bokuto “da Espada de Madeira”, não irei deixar que você faça mais mal a ninguém. Juggernaut ou não, homem mais forte do sul ou do norte, isso não importa. Você morre pela minha espada, aqui, agora.

A declaração foi feita de forma ousada, sem um pingo de hesitação, sem que Bokuto fraquejasse em momento algum, em um tom que deixava claro que aquilo era uma promessa. Por longos momentos, Jiazz não reagiu a isso. Não mostrou reação alguma.

E então, subitamente, ele começou a rir.

Sua gargalhada foi insana, descontrolada. Todo o seu corpo tremeu com ela. O homem parecia uma hiena, parecia ter enlouquecido. E foi então que Marco viu; em seu rosto haviam ressurgido todos os sinais que ele havia demonstrado antes. Seu sorriso de dentes afiados, seus olhos sedentos de sangue, suas feições animalescas. Todos esses haviam ressurgido, e um simples ao rosto de Jiazz foi o suficiente para deixar claro que o Juggernaut estava bem satisfeito com aquilo.

– Ora, ora, vejam só! – disse ele, virando seu rosto para trás, o suficiente para olhar direto para Bokuto com aquele seu sorriso afiado. – Um desafio, enfim!



Notas finais do capítulo

ÁREA OESTE:

Enderthorn VS Octo Gall (Vencedor: Enderthorn)
Enderthorn VS Raptor (Vencedor: Enderthorn)
Vaen VS Lilybell (Vencedora: Lilybell)
Jiazz VS Maoh (Vencedor: Jiazz)
Senjur VS Reivjak (Vencedor: Senjur)
Chappa e Dayun VS Lilybell e Vaen (Vencedores: Chappa e Dayun)
Vaen, Chappa e Dayun VS Saber e Alcatraz (Fragmentada)
Chappa e Dayun VS Alcatraz (Vencedor: Alcatraz)
Vaen VS Saber (Vencedora: Saber)

ÁREA SUL

Kuman VS Fera (Vencedor: Fera)
Skylar VS Fera (Vencedor: Skylar)
Skylar VS Cleus (Vencedor: Cleus)
War e Coralina VS Nicholas (Vencedores: War e Coralina)
Trevor VS Maverick (Vencedor: Trevor)
War, Coralina, Ogre, Ekhart e Clone das Sombras VS Agnes, Ibur e Dokurei (Fragmentada)
War e Coralina VS Agnes (Vencedor: War)
War VS Ibur (Vencedor: Ibur)
Ogre VS Ibur (Empate)
Ekhart VS Dokurei e Shell (Interrompida)
Bokuto VS Zodwik (Vencedor: Bokuto)
Bokuto VS T.I.T.A.N. (Vencedor: Bokuto)
Valery e Goa VS Cleus (Vencedor: Cleus)

ÁREA LESTE

Alexander VS Goliath (Vencedor: Alexander)
Alexander VS Steelex (Vencedor: Steelex)
Eldigan VS Steelex (Vencedor: Steelex)
Soulcairn VS Steelex (Vencedor: Soulcairn)
Soulcairn VS Bertold (Vencedor: Bertold)
Ezequiel VS Bertold (Vencedor: Ezequiel)
Ezequiel VS Tristah (Em andamento)
Zephyr VS Balak (Vencedor: Balak)
Kazegami VS J (Empate)
Florian VS Tristah e Behemoth (Vencedores: Tristah e Behemoth)
Jack Branco e Jack Negro VS Behemoth (Vencedor: Behemoth)

SALÃO CINZENTO

Marco, Scarlet, Sara, Leona e Darla VS Jiazz (Vencedor: Jiazz)
Bokuto VS Jiazz (Em andamento)

ÁREA NORTE

Gwynevere VS Retalhador (Vencedora: Gwynevere)
Gwynevere VS Balak (Em andamento)

(Sério, o sangramento virtual tá realmente grave aqui. Alguém sabe o número do resgate virtual?)



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