O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 36
Borboleta Monarca


Notas iniciais do capítulo

Yay! Outro capítulo!

Em uma nota não tão "yay", no entanto, devo dizer que o próximo capítulo provavelmente vai demorar. Muito. Tipo, muito mesmo. Quero finalizar todas as lutas "menores" nele e organizar todas as pontas dessa guerra para depois termos os últimos três capítulos dela focados apenas nas lutas importantes. Então, prevejo que esse próximo capítulo terá quase 20 mil palavras. Ele vai demorar, tenham certeza disso.

Mas, enquanto ele não sai, curtam aqui esse capítulo! o/



– ESSA SUA DECLARAÇÃO FOI UM TANTO QUANTO PREPOTENTE, Ezequiel – comentou Bertold, mostrando em seu rosto um sorriso que aparentemente tentava parecer calmo, embora ele falhasse completamente nisso. Em uma situação normal, se não tivesse visto o medo e o desespero que cruzou o rosto do membro do Olho Vermelho antes, Soul poderia até acreditar que ele realmente estava tão confiante assim, mas uma vez tendo visto aquilo, era dolorosamente claro para ele que estava apenas colocando uma máscara ali, tentando parecer ser mais do que realmente era. – Mas você parece se esquecer... você primeiro vai ter de me derrotar para tentar fazer alguma coisa com o resto do Olho Vermelho, e você não pode me derrotar. Não sei se ouviu essa parte da conversa, mas permita-me repetir; minha Aloeiris é “Praga Negra”, e ela faz com qu-

Ezequiel nem sequer permitiu que o homem terminasse de falar. Antes que ele concluísse sua frase, o grande cavaleiro moveu um de seus punhos como se estivesse desferindo um soco no ar... o que na verdade, era exatamente o que ele estava fazendo. Haviam pessoas no mundo que, por algum motivo, pareciam serem incapazes despertar sua Aloeiris independente do quanto se esforçassem nisso, e Ezequiel era uma dessas pessoas. Naquele movimento, ele literalmente socou o ar, não fez absolutamente nada mais que isso. Mas nada mais era necessário, também. A força de Ezequiel era tão grande que com o seu movimento, mesmo com toda a distância que separava ele de Bertold, conseguiu atingir em cheio o membro do Olho Vermelho com um poderoso golpe que o arremessou novamente de encontro a parede, deixando pra trás um grande rastro na terra, como se uma bola de ferro gigante tivesse rolado em alta velocidade por ali até atingir o homem.

– Eu tenho boa noção das suas habilidades, membro do Olho Vermelho – disse friamente Ezequiel, recusando-se a usar o nome de seu oponente apesar de Soul ser mais do que capaz de apostar que ele sabia qual era esse. – Você é que está sendo extremamente arrogante se acha que elas apenas serão o suficiente para lhe dar a vitória. Eu não cairei em truques como esse. Você pode matar tudo que toca em você, mas um oponente do seu nível é alguém que posso derrotar facilmente apenas usando a pressão de ar que meus golpes exercem. – os braços do Terror dos Dragões se cruzaram e ele inclinou levemente sua cabeça para fitar Bertold, sua feição completamente neutra. – Você parece se orgulhar muito de sua habilidade, mas a verdade é que ela é muito falha. Sua sorte contra Soulcairn foi que ele não sabia sobre seus poderes antes de ser tarde demais, mas o mesmo não vai acontecer comigo.

É... eu não estaria assim tão certo sobre isso. Ezequiel falava como se o homem tivesse derrotado Soulcairn apenas devido àquilo, mas francamente, o próprio Soul não estava totalmente certo se isso era verdade ou não. Isso certamente ajudou, mas mesmo que eu soubesse da habilidade dele antes ou coisa do tipo, isso não significa que eu poderia fazer algo quanto a ela. Por mais que soubesse, o homem ainda era alguém perigoso com uma habilidade como aquela; sendo um guerreiro especializado no combate de curta distância, Soulcairn iria se ver com problemas independente de qual fosse sua rota de ataque escolhida, e além do mais, simplesmente não acreditava que o homem iria simplesmente ficar sentado esperando por seus ataques. Não gosto de admitir algo assim, mas é provável que eu tenha sido derrotado de qualquer forma mesmo que eu soubesse desde o início quais eram as habilidades desse cara. Ele é simplesmente o pior oponente que alguém como eu posso esperar enfrentar um dia. A não ser, claro, que esse “alguém” seja Ezequiel.

– Soulcairn – disse subitamente Ezequiel, chamando a atenção de Soul e fazendo com que o cavaleiro se assustasse, voltando toda a sua atenção imediatamente para seu companheiro. Ainda de braços cruzados, Ezequiel falou, sem olhar para ele. – Se bem me lembro, eu lhe disse para sair daqui e voltar ao Salão, não disse?

A pergunta foi feita de uma forma razoavelmente tranquila considerando que ela vinha de alguém tão sério e autoritário como Ezequiel, mas mesmo assim ela foi o suficiente para que sentisse um bolo se formar em sua garganta.

– S-sim, senhor – concedeu Soulcairn, dobrando levemente sua cabeça. Tecnicamente, não deveria ter de agir assim; Ezequiel era seu superior, mas ele ainda era mais velho do que o outro e mais experiente do que ele. Mas havia algo naquele homem que simplesmente fazia com que ele agisse assim, fazia com que as pessoas se sujeitassem a ele. Algo... venerável, autoritário, real. Alguns rumores corriam pelo Salão Cinzento de que Ezequiel era na verdade um membro da realeza, um antigo rei nortenho que, ao testemunhar o início da conquista de Ember, abandonou suas posses e fugiu para o sul como um simples cavaleiro. Não achava que Ember era a causa disso (Ezequiel estava no Salão Cinzento há tempo demais para que pudesse acreditar que ele havia sido afugentado pelo Angra Mainyu), mas diante do que via agora, tinha de concordar que certos pontos da teoria levantavam bons argumentos.

– Então o que você está fazendo aqui ainda? – o tom de voz de Ezequiel foi tão sério e autoritário como sempre, fazendo com que Soulcairn estremecesse um pouco diante disso, mas sentiu seus nervos acalmarem-se quando o gigante negro virou levemente seu rosto para olhar em sua direção. Quando falou de novo, seu tom foi muito mais gentil. – Você e Odin... vocês são dois motivos de orgulho para o Salão Cinzento. Os discípulos do Herói Cinzento, heróis de incontáveis histórias... os homens admiram vocês, vocês inspiram gerações e gerações de heróis. A lenda de vocês vai ser contata por muitos anos, enquanto a de pessoas como eu ou Gwynevere vai morrer em questão de meses. Eu não posso deixar que sua história acabe aqui, não posso deixar que alguém tão admirável como você morra em um lugar desses. Vá, Soulcairn. Trate-se no Salão. Eu vou cuidar das coisas por aqui.

Hesitou um pouco ao ouvir aquilo, não em medo, mas em preocupação. Eu... será que eu realmente devo fazer isso? Havia perdido um braço, sim, mas não era um completo inútil, mas Ezequiel era um dos líderes do Salão, lutando direto nas linhas de frente contra oponentes poderosos. Não sentia que era certo deixar-lhe ali, mesmo pelas ordens dele. Sentia que devia lutar ao seu lado.

Mas afastou esses pensamentos de sua mente. Não, não devo me intrometer. Perder seu braço havia tirado uma boa parte de sua capacidade de luta, e ainda sentia dor daquilo. Além de que, estava perdendo muito sangue. Podia desmaiar a qualquer momento se continuasse ali. Não, tinha de voltar ao Salão e dar um jeito no sangramento antes de qualquer coisa. Além do mais, Ezequiel pode se cuidar. Ele é um dos nossos líderes, afinal de contas.

Curvou levemente sua cabeça novamente, e sem pensar duas vezes, correu para longe dali tão rápido quanto pôde, em direção ao Salão.

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Apoiou a lâmina de seu machado no chão, olhou bem para os dois que erguiam-se em seu caminho, e suspirou pesadamente. Eu devia saber que as coisas não seriam tão simples assim... Depois de sua luta com Florian, havia mantido a esperança de que não teria de lutar novamente até alcançarem um dos líderes do Salão, mas claro, os céus não iriam lhe agraciar com tanta sorte assim. Diante de Behemoth e Tristah se erguiam, naquele momento, Jack Branco e Jack Negro, os gêmeos mais diferentes que o mundo um dia viu, tanto em aparência quanto em personalidade. Enquanto Jack Branco era caucasiano, de cabelos loiros e olhos azuis, Jack Negro tinha pele escura como ônix, cabelo curto (quase inexistente), e olhos negros profundos. Enquanto Jack Branco estava sempre com um sorriso no rosto e constantemente brincava ou fazia piadas, Jack Negro era sério como se desconhecesse todo tipo de humor, sempre agindo de forma extremamente profissional. Mas no entanto, apesar de todas as suas diferenças, os dois eram gêmeos – por mais que seus corpos atuais não refletissem isso, suas almas haviam nascido ao mesmo tempo, ambas vindas da mesma origem, e isso estabelecia uma ligação entre os dois maior que qualquer coisa no mundo. A sincronia e a capacidade que eles têm de trabalhar em equipe é, por natureza, maior do que o que qualquer um de nós pode obter, mesmo treinando por anos e anos com apenas um parceiro. Individualmente, os dois eram fortes, apesar de nada particularmente extraordinário – mas juntos, por sua vez, eles eram capazes de derrotar oponentes muito mais fortes do que eles. A posição de ambos é apenas a de Segundo, mas juntos, eles são poderosos o suficiente para derrotarem até mesmo um cavaleiro que mantém a posição de Primeiro. Era necessário ter cautela quando lidando com eles.

– Tristah – disse calmamente Behemoth, tentando passar a impressão pelo seu tom de voz de que estava no controle total da situação, embora o próprio homem duvidasse disso. – Siga em frente. Eu lido com as coisas por aqui.

Os olhos de todos caíram sobre ele ao dizer aquelas palavras; os dos Jacks e os de Tristah, todos eles parecendo perguntar o que se passava em sua mente. Conservou a calma apesar disso. Muito bem, agora como justificar minhas palavras? Queria que Tristah seguisse em frente por um motivo muito simples; uma batalha entre duplas dependia em sintonia, sincronia e trabalho em equipe. Sabia que os Jacks tinham isso de sobra, mas não podia dizer o mesmo sobre ele e Tristah. Eram companheiros, sim, mas fazia literalmente anos desde a última vez em que viu a mulher, e mesmo antes disso, Behemoth nunca foi particularmente próximo dela. Os dois não tinham uma boa sincronia, e apesar de ambos serem individualmente mais fortes do que os Jacks, essa falta de sincronia iria torna-los mais fracos se tentassem enfrentar oponentes como aqueles. Talvez fracos o suficiente para que fossem derrotados. Para alcançar a vitória aqui, vou precisar lutar sozinho. Claro, não posso simplesmente dizer isso para Tristah... até porquê, apesar disso ser realmente parte do motivo pelo qual que ela vá, existem outras razões. Como o fato de que ele não sentia vontade nenhuma de matar aqueles que haviam sido seus companheiros no passado e que ele sabia serem pessoas de bom coração, mas ao mesmo tempo saber que não podia mostrar misericórdia a eles diante de Tristah.

– Já passamos tempo demais aqui. Desde o início da batalha até o nosso encontro já se passou muito tempo, e a luta contra Florian também demorou mais do que o esperado. Desperdiçamos tempo demais e precisamos achar uma forma de compensar por isso. Algum de nossos companheiros pode já ter alcançado um dos líderes do Salão, e se for esse o caso, precisamos ajuda-los. Você é a mais rápida e forte de nós; é natural que seja você a que segue em frente.

Não olhou para Tristah depois de dizer aquilo – sabia que fazer algo assim seria um erro terrível – mas mesmo assim, não pode deixar de ficar um pouco nervoso com aquilo. Isso foi arriscado. Bem arriscado. Não sabia se a mulher iria acreditar na desculpa que havia dado, e isso lhe incomodava mais do que deveria. Tentou permanecer simplesmente tão firme quanto possível e não fazer nada mais suspeito, torcendo para que isso fosse o suficiente.

– ... Entendo. Isso foi bem lembrado, Behemoth. Bom ver que, mesmo depois de todos esses anos, você é tão esperto e sensato quanto sempre. – foi um sacrifício não suspirar em alívio ao ouvir aquilo. Calma e elegante como sempre, Tristah passou por ele caminhando com tranquilidade, seguindo na direção dos dois cavaleiros sem nenhuma preocupação. – Muito bem, farei o que você pede. Apenas tenha certeza de sobreviver, sim? Você é um precioso amigo que eu acabei de recuperar; não quero perde-lo de novo, Behemoth.

Aquelas palavras lhe surpreenderam mais do que conseguia expressar. Eu... não esperava por isso. Não esperava exatamente que a mulher lhe odiasse ou coisa do tipo, mas desde que havia se reunido novamente com ela, havia tido a constante impressão de que Tristah estava julgando cada ação dele, avaliando, tentando decifrar se ele havia realmente se mantido leal a eles ou se suas lealdades estavam abaladas. Saber que ela se importava tanto assim com ele era... confuso, no mínimo.

Pensou em dizer algo em resposta àquilo, mas não teve tempo para se manifestar. Antes que uma única palavra viesse de seus lábios, Tristah desapareceu, diante dos olhos dele e de todos os outros ali. Achou-a novamente rapidamente, vendo-a em cima de um prédio parcialmente destruído por um rápido instante antes que ela voltasse a desaparecer, certamente se movendo em direção ao Salão. Ela se tornou mais rápida, pelo que posso ver. Aquilo era... intrigante. Tinha de admitir, estava um tanto quanto curioso com relação ao progresso que os outros haviam tido enquanto ele havia ficado longe.

Viu Jack Branco virar-se em direção a ela e manifestar-se como se planejasse lhe seguir, mas antes que o homem pudesse fazer algo, as palavras de Jack Negro lhe pararam.

– Deixe-a partir – advertiu o gêmeo dele, seus olhos fixos sobre Behemoth, sua mão pousada sobre a espada que trazia na cintura.

– Deixá-la partir?! – mais emotivo e precipitado do que seu gêmeo, Jack Branco pareceu quase ofendido com aquilo, não completamente sem razão. Para os cavaleiros do Salão Cinzento, a honra era algo extremamente importante, e havia muito pouca honra a se achar em deixar que um oponente avançasse para seu objetivo sem sequer tentar entrar no caminho deste. – Mas... ela está indo para o Salão, Jack! Você sabe disso! Como devemos simples-

– Não há nada que possamos fazer para detê-la – cortou o Jack Negro, sério, desviando seu olhar de Behemoth apenas por um momento para encarar seu companheiro. – A única forma de irmos atrás dela seria se um de nós a perseguisse sozinho enquanto o outro atrapalha Behemoth, já que tenho certeza de que o traidor não irá simplesmente deixar que atrapalhemos seus planos assim tão facilmente. Fazer algo assim seria uma estupidez. Sozinho, nenhum de nós pode derrota-lo; podemos ser Segundos Cavaleiros enquanto ele era um Quarto, mas a Quinquagésima-Nona leva foi cheia de cavaleiros no nível de um Primeiro Cavaleiro, e Behemoth era um deles. Logo, quem quer que ficasse para enfrenta-lo iria ser morto em uma questão de tempo. Além do mais, pelo que essa mulher acabou de demonstrar, ela é muito mais rápida do que nós. Não conseguiríamos alcança-la se tentássemos persegui-la. Por isso digo: deixe-a partir. Temos mais do que o suficiente com o que lidar aqui.

Mesmo depois de ouvir aquilo, Jack Branco não parecia realmente satisfeito com aquelas palavras. O sangue nas veias dele ainda era jovem, energético, selvagem. Jack Negro tinha a mesma idade que o outro, mas o sangue nas veias dele já era o de um homem mais velho; maduro, frio, racional. No fim, entretanto, Branco seguiu a liderança do Negro, e fechando seus olhos por um momento e liberando um suspiro para relaxar, ele voltou-se contra Behemoth junto de seu eterno companheiro.

– Jack Branco. Jack Negro. – o tom de Behemoth foi quase que triste enquanto falava com os dois. – Eu nunca pensei que teria de enfrentar vocês. Que pena.

– Silêncio, traidor – censurou Jack Negro, obviamente nem um pouco entusiasmado diante da possibilidade de ter de ouvir Behemoth. – Não vamos ouvir suas palavras imundas. Você é um traidor, alguém que se aliou aos inimigos do Salão apesar de todos os votos que fez.

– Sim, os votos de um cavaleiro. Lembro-me deles. – deixou que seu rosto assumisse uma figura mais séria, com linhas mais fortes. – Irônico, no entanto, que no fim das contas, eu estou seguindo esses votos mais do que vocês. Os votos de um cavaleiro incluem “proteger os inocentes”. É isso que eu e o Olho Vermelho estamos fazendo. E no entanto, o Salão protege aquele que trará morte aos inocentes. Por toda a lógica, vocês deveriam cortar a garganta da ameaça, mas ao invés disso, vocês a protegem e lutam por ela... e querem dizer que estão certos e que nós estamos errados. Mas existe realmente um certo ou errado aqui, Jacks?

– O que você quer dizer com isso? – a pergunta de Jack Branco veio súbita, sem sutileza, proveniente do momento. O olhar de Jack Negro caiu sobre ele, claramente lhe dizendo que ele não deveria dar trela a Behemoth, mas já era tarde demais.

– O Olho Vermelho tem seu modo de pensar. Do nosso ponto de vista, nós somos os “heróis”, enquanto vocês do Salão são os “vilões”. Mas da mesma forma, vocês do Salão acham serem os “heróis”, enquanto, na opinião de vocês, nós do Olho Vermelho somos os “vilões”. Consigo ver ambos os lados, essa é uma vantagem de ter feito parte de ambos, e vejo fortes argumentos para ambos. Mas as diferenças ainda assim não deixam de me surpreender. O Olho Vermelho faz o que faz movido pelo bem mundial, mas vocês do Salão agem movidos pelo ideal de protegerem uns aos outros. Consigo compreender a vontade de vocês, realmente consigo... mas ainda assim, é revoltante. Como vocês podem querer fazer algo assim, sabendo que isso coloca a vida de milhões em risco? Como vocês conseguem ser tão mesquinhos? Como conseguem ser tão hipócritas, ao ponto de fazerem isso mas ainda assim julgar o Olho como “mal” por agir com intenções mais nobres que as suas?

– Se você mata um homem para poupá-lo da dor da vida, você ainda cometeu um assassinato. Se você rouba um pão para não morrer de fome, você ainda cometeu um roubo. Se você mente a alguém para evitar uma briga, você ainda foi desonesto. – as palavras de Jack Negro pareciam ecoar em seus ouvidos à medida que ele as dizia. – Você tenta justificar suas ações com um propósito nobre, mas no fim, isso não é nada mais do que a atitude de um covarde. Lancelot e Titânia eram completamente inocentes, mas sua guilda arrancou as pernas de um e o olho da outra. Além do mais, nosso setor de inteligência conseguiu muito sobre vocês, Behemoth. Assassinatos, contrabando, mercado de escravos... suas mãos estão manchadas demais. Deve ser bom, não deve, poder usar a desculpa de que vocês estão fazendo isso pelo bem maior para tentar afastar a culpa e as consequências de suas ações de suas cabeças? Deve ser muito bom. Mas não esqueça, nunca esqueça, que isso é apenas um sinal da covardia de vocês. Um sinal de que, no fim das contas, vocês não possuem culhões para assumirem que vocês são um monte de merda no fim de tudo. – sentiu uma veia nervosa começar a saltar em sua testa ao ouvir aquilo, mal conseguindo conter sua própria raiva diante disso, e ao que parecia, Jack Negro também ficava mais e mais irritado a medida que discursava, considerando a forma como seu cenho franzia cada vez mais. – Talvez você tenha um ponto no que diz sobre sermos “mesquinhos” e “hipócritas”, Behemoth, mas deixe-me lhe dizer uma coisa: somos honestos quanto ao que somos, ao contrário de vocês. E além do mais, quando eventualmente chegar o dia em que a morte nos abraçar, iremos morrer sem arrependimentos e de consciência limpa. Diga-me: vocês podem dizer o mesmo?

Aquilo foi demais. Apertou suas mãos ao redor de seu machado com ainda mais força que antes, seus dedos se tornando negros e duros como os cascos de um touro. Por todo seu corpo, seus músculos se expandiram, chegando ao ponto de arrebentar sua armadura e lançar pedaços dessa longe. Dois longos e pontudos chifres brancos surgiram em sua testa, pouco acima de suas sobrancelhas, afiados o suficiente para perfurarem uma parede de aço caso quisesse. Seu maxilar se alongou, e os dentes brancos alinhados que ele tinha enquanto em sua forma humana deram lugar a uma fileira de milhares de dentes amarelados, cada um deles afiado como navalhas. Pelos negros se espalharam por seu corpo, cobrindo seus braços e pernas por completo como se fossem uma armadura nova, mas deixando o peito cheio de cicatrizes de Behemoth a mostra. Um rabo a partir do início de sua coluna dorsal, tão grande e forte como o de um crocodilo, algo que demonstrou com um único golpe dele, arrancando grossos pedaços de pedra do chão como se não fosse nada.

– Não, não podemos – anunciou Behemoth, sua voz alterada para a de uma besta monstruosa enquanto ele brandia seu machado em ambas as mãos, encarando os Jacks de forma enfurecida com os poços de completa escuridão que haviam tomado conta de seus olhos. – Quando eu terminar com você, por exemplo, irei me arrepender por não lhe ter feito sofrer o suficiente!

=====

Correu pelas ruas da cidade o tão rápido quanto pode; queria permanecer nelas o mínimo possível, preferia muito mais se esgueirar pelos becos ou pelos telhados do que correr pelas ruas e correr o risco de ser visto. Aparentemente, a população daquela parte da cidade havia sido evacuada também apesar da área em questão não ter sido atingida pelos ataques, provavelmente em uma medida preventiva para certificarem-se de que eles estariam em segurança. Ou ao menos esse é o meu melhor palpite. No entanto, supunha que, no fim das contas, o que realmente causou aquilo não importava; o que importava é que não haviam pessoas ali para lhe atrapalhar, e isso permitia com que trabalhasse com um pouco mais de tranquilidade.

Enfiou-se em um beco, e nem bem fez isso saltou para uma das paredes dele, usando-a como apoio. Apoiou seu pé na parede em questão por um instante, usando-a como um artifício para tornar a saltar, passando para outra e saltando desta para a primeira. Com saltos múltiplos entre as paredes, não demorou muito para que subisse mais e mais, alcançando o topo de um dos prédios sem dificuldades. Caiu sobre a beirada dele de joelhos para diminuir o impacto disso sobre suas pernas e logo ergueu sua cabeça. Seus olhos caíram sobre seu alvo. O Salão Cinzento ainda estava um tanto longe, mas Retalhador já podia vê-lo, o que já era algo muito bom. Era uma construção de formato circular, redonda como um disco, feita inteiramente de pedra e aço cinzento, materiais que supostamente foram imbuídos com magias antigas na fundação do Salão para que fossem ainda mais resistentes e eficazes do que o normal. Grande como era, supunha que seu tamanho deveria facilmente ocupar dois ou três quarteirões, talvez até mais. A única coisa que me impediu de ver isso antes é a dimensão dessa maldita cidade. Com todos os cavaleiros e a família deles aqui, além do fato de que ela está localizada no centro do continente e os comerciantes tem uma boa segurança devido as muralhas e os cavaleiros, essa cidade cresceu demais. Mesmo agora que conseguia vê-lo, sabia que devia ter uma boa distância que o separava de seu alvo, mas mesmo assim... conseguia sentir seu sangue ferver em suas veias, excitado e animado perante ao que estava por vir. Matar os dois líderes do Salão Cinzento presentes aqui no momento. Ezequiel, Gwynevere... Essa é uma tarefa e tanta. Em geral, não era alguém que tirava prazer algum em matar pessoas ou enfrentar oponentes poderosos... mas diante de desafios tão grandes quanto aqueles eram, até mesmo ele era capaz de se animar.

Chuva das Estrelas Cadentes!

As palavras fizeram com que ele reagisse imediatamente, mas nem mesmo isso foi o suficiente. Saltou para fora do prédio aonde estava, tentando se esquivar do golpe, mas foi atingido mesmo assim. Feixes dourados do que parecia ser luz solidificada lhe atingiram em cheio, perfurando e rasgando sua carne por onde quer que passavam sem encontrar nenhuma resistência. Maldição! Sangue subiu a sua boca, escorrendo pelos cantos de seus lábios, mas não tinha tempo para aquilo. Estava caindo, e não podia simplesmente deixar-se cair de uma altura como essa. Droga. Droga! Estava longe demais da parede do prédio para tentar usá-la para parar ou controlar sua queda, e francamente, mesmo se não fosse o caso, fazer isso provavelmente iria acabar lhe custando um braço; não valia a pena, simplesmente não valia a pena. Por isso o que fez foi concentrar sua energia ao redor de seus braços, revestindo-os com seu poder, com o poder de sua Aloeiris. Aloeiris – Amolecer. Isso vai me ajudar.

Mas antes que pudesse fazer algo, sua atenção foi chamada por algo muito mais preocupante. Ergueu seus olhos para olhar para cima, e o que viu lhe deixou simplesmente assombrado; no ar, caindo em direção a ele com olhos sérios e perigosos, estava uma bela mulher de cabelos dourados usando uma armadura de cavaleiro e trazendo uma lança em sua mão direita. Ela... não pode ser. Seus olhos se arregalaram, suor frio correu por seu rosto. Engoliu em seco, surpreso, abismado... com medo. Gwynevere?!

Como se a mulher estivesse apenas esperando que ele lhe visse para começar, ela imediatamente começou a agir naquele instante. Sua postura mudou; antes ela caia contra ele de braços e pernas abertos, mas logo ela virou seu corpo de lado, deixando-o mais reto, mais aerodinâmico, enquanto simultaneamente mantinha uma de suas pernas erguida no espaço que seu corpo antes ocupava, como se estivesse preparada para lançar um golpe contra Retalhador. Por um momento não compreendeu bem o que ela queria com aquilo – estavam muito distantes um do outro para que ela realmente pudesse fazer algo contra ele com um golpe daqueles – mas logo viu luz começar a se concentrar ao redor dessa perna com uma intensidade absurda, dando uma coloração dourada para ela, e isso respondeu todas as dúvidas que ele podia ter.

Meteoro Dourado! – gritou ela por um momento, e disparou. Cruzou a distância que os separava tão rápido que Retalhador nem sequer pode ver seus movimentos, e quando se deu conta, sentia um pé atingindo-lhe com força na boca do estômago, praticamente empurrando todos os seus órgãos para fora de seu corpo, sua perna tão quente que podia sentir como se seus ossos estivessem derretendo graças ao calor dela... e isso fez com que ele demorasse um instante para compreender o verdadeiro perigo daquele ataque. Ela está me empurrando! Com o golpe de Gwynevere e a pressão que ela exercia sobre ele, estava indo contra o chão com uma velocidade absurda, e nada segura.

A impacto da colisão deles criou uma verdadeira cratera no chão, levantando poeira e abalando tudo ao seu redor. Parte do prédio no qual ambos estavam antes havia se quebrado imediatamente devido a força do impacto, e isso fez com que o resto do prédio desabasse logo em seguida, mas nem prestou atenção a isso. Estava preocupado demais, sua mente ocupada demais pela dor que sentia para focar-se em algo assim. Acima dele, os olhos de Gwynevere lhe olhavam fixamente, afiados, com nada mais do que desprezo presente neles. Tentou encarar a mulher em retorno mas logo compreendeu que essa era uma péssima ideia; ao ver o menor sinal de resistência por parte dele, ela não hesitou em aumentar a pressão que exercia sobre ele, fazendo com que Retalhador gemesse e grunhisse em dor, cuspindo sangue, sentindo o gosto metálico do líquido viscoso em sua língua. Maldição... como eu pude me deixar ficar em uma situação como essa?

– Você deve ser um membro do Olho Vermelho. Posso dizer isso simplesmente devido a força que sinto emanando de você... apesar de que, para um membro de uma guilda ilegal tão poderosa e ousada ao ponto de nos atacar, você foi bem fácil de se derrotar. – grunhiu novamente em resposta a isso, e ela por sua vez aumentou ainda mais a pressão sobre ele, fazendo com que seu grunhido cessasse quase que imediatamente. – Muito bem, membro do Olho Vermelho... agora que tenho você em mãos, tenho a chance de adquirir as informações das quais tanto preciso. – a lança girou nas mãos da mulher, e em um instante a ponta dela estava tocando a garganta de Retalhador, exercendo uma leve pressão ali, ameaçando perfurar-lhe a qualquer momento. – O que motivou o ataque de vocês? Qual a verdadeira intenção do seu grupo? Quantos são? Quantos mais fortes que você? Como foi coordenado o ataque, aonde estão os cabeças por trás dele? Tenho várias perguntas que precisam de respostas, então, faça-me um favor e não demore com elas.

Rangeu os dentes. Mulher maldita... não só ela age como se já tivesse me derrotado, ela também age como se eu fosse ser um traidor. Será que ela realmente acreditava que só porquê integrava uma guilda ilegal ele não tinha noção alguma de conceitos como “lealdade”? Ou será que ela não se importava com nada disso, apenas querendo as informações? Ou pior ainda: será que ela sabia que ele tinha lealdade ao seu grupo, mas mesmo assim escolhia lhe questionar daquela forma apenas para humilhar-lhe? Não saiba qual era o caso, mas no fim das contas, supunha que isso também não fazia diferença. Seja o que for que ela imagina, a verdade não muda. Não era um traidor... e não havia sido derrotado.

A força da mulher impedia-lhe de mover torso de qualquer forma, e não tinha realmente movimentos o suficiente disponível com suas pernas para fazer algo contra ela, mas o mesmo não contava para seus braços e mãos. Esticou ambos os seus braços, abriu bem suas mãos e tocou o chão ao seu redor com as palmas de ambas. A mulher aumentou a pressão sobre ele perante aquilo enquanto olhava ao redor, tentando entender o que ele estava fazendo, mas conseguiu ignorar a dor que aquela pressão lhe causou, e sorriu em satisfação diante do resto. Mesmo que você descubra o que eu planejo agora, isso não muda nada, mulher. Eu já consegui o que queria.

Sua Aloeiris era o tipo de poder que pareceria estúpido ou inútil pra maioria das pessoas. Mal sabiam essas pessoas que elas eram as estupidas; Aloeiris eram poderes secretos, todos tremendamente poderosos e uteis. Desde que você tivesse um pouco de inteligência para usá-las corretamente, podia fazer grandes coisas com ela. Amolecer me permite amolecer qualquer coisa que eu toque. Isso significa que, por exemplo, se eu tocar uma barra de aço, posso torna-la extremamente mole, o que significa que ela se tornaria também extremamente frágil. Quando algo amolece, esse algo perde resistência e consistência. Quando algo amolece, esse algo se torna fraco e frágil. Podia não parecer, mas Amolecer era uma das melhores Aloeiris que um assassino podia ter; com sua habilidade, podia amolecer tudo, incluindo os golpes e corpos de seus oponentes. Desde que eu possa tocá-lo, nada pra mim tem força ou resistência. Desde que eu possa tocá-lo, nada é ameaça alguma pra mim. Com seu poder, podia cortar o mais duro dos metais com um dedo sem dificuldade alguma, porquê uma vez amolecido, nada tinha resistência alguma.

O chão não era exceção a isso.

Ao ser amolecido por seu poder, o chão perdeu por completo qualquer resistência que possuía antes, e isso fez com que ele cedesse muito mais diante da pressão dela do que deveria. Afundaram para dentro dele como se estivesse mergulhando em areia movediça, e a forma súbita como aquilo ocorreu fez com que Gwynevere vacilasse e perdesse seu equilíbrio, dando a Retalhador a chance que ele tanto precisava. Aproveitou-se daquilo para rolar para fora das garras dela, saindo de seu alcance, e usando a agilidade que havia adquirido depois de anos de treinamento, afastou-se de sua oponente com saltos rápidos. Aterrissou novamente já com uma leve aura azul rodeando seus braços, pronto para partir pro ataque, mas viu-se forçado a adiar isso. Jogou toda a parte superior de seu corpo para trás, inclinando-a tanto quanto possível, bem a tempo de deixar que a ponta da lança de Gwynevere passasse bem diante de seu rosto, tão próxima que quase podia sentir o toque do metal. Essa mulher é perigosa demais... não posso me descuidar perto dela. Mas ao mesmo tempo em que aquela era uma oponente que ele não deveria subestimar, ele também era um oponente que ela não podia subestimar.

Sua mão direita subiu, movendo-se contra ela, indo em direção ao queixo da sua oponente. Um toque, é tudo que eu preciso. Um toque e essa oponente cai. No entanto, Gwynevere era uma guerreira experiente e atenta; ela notou seu movimento bem rapidamente, e antes que ele pudesse chegar a alcança-la a guerreira loira já havia saltado para trás. Tudo que conseguiu alcançar foi tocar levemente a armadura dela com a ponta de seus dedos, e mesmo isso já foi o suficiente para arremessar aço aos ares, tendo amolecido a armadura dela o suficiente com seu toque para que a área na qual tocou fosse como lama perante a ele. Hostis e agressivos os olhos de Gwynevere caíram sobre ele, deixando bem claro que a mulher não queria nada mais do que fazê-lo em pedaços, mas ao mesmo tempo ela demonstrou bom senso o suficiente para não tentar avançar novamente contra o assassino. Ambos se encararam com olhos frios, e lentamente eles começaram a se mover. Andaram em círculos ao redor um do outro, seus passos lentos e cautelosos, seus músculos movendo-se apenas um pouco como que em preparação para a investida que nenhum dava. Ambos queriam a vantagem, ambos queriam primeiro ver o que seu oponente iria fazer para poderem reagir, mas nenhum fazia nada, e com isso não chegavam a lugar.

Mordeu seus dentes com força. Foda-se isso, pensou, dobrando suas pernas rapidamente e saltando contra sua oponente sem pensar duas vezes.

E por pura coincidência, ela resolveu fazer o mesmo ao mesmo tempo.

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O punho daquela aberração colidiu em cheio com o queixo de Ibur, fazendo com que sangue viesse de seus lábios e arremessando o padre pra trás com violência. Foi lançando contra uma casa há metros de distância dele, e por um momento esteve prestes a colidir com ela, mas nos últimos instantes conseguiu recuperar controle de seu corpo. Girou no ar e conseguiu apoiar seus pés na parede da casa, usando a força com a qual foi arremessado como uma espécie de impulso para o que estava por vir. Dobrou suas pernas em preparação; cruzou seus braços e usou sua magia para fazer com duas cimitarras surgissem, uma em cada mão, e de uma só vez lançou-se contra seu oponente com toda a sua força e velocidade, girando suas armas contra a abominação que enfrentava.

Tudo o que Ogre teve de fazer foi colocar seu braço direito no caminho, e as espadas de Ibur quebraram-se nele como se fossem feitas de vidro.

Os olhos do padre se arregalaram, fitando os vários pedaços de aço que brilhavam e reluziam no ar. Por um momento, o mundo pareceu correr mais lento, justamente no momento em que ele estava mais indefeso.

O punho de Ogre atingiu-o diretamente na boca do estômago com um poderoso gancho. Vomitou sangue sobre o monstro, mas ele não pareceu se importar com isso. Um grunhido bestial veio de sua garganta enquanto ele colocava mais e mais força em seu punho, forçando Ibur para o ar cada vez. Eventualmente, a força que a besta exercia era tão grande que o próprio chão se quebrou graças a nada mais do que a pressão que ele emitia, e foi nesse momento que Ibur foi lançado longe. Foi jogado violentamente para o ar, girando e rodopiando descontroladamente sem poder fazer nada sobre isso, sentindo como se todos os seus ossos tivessem sido quebrados por aquele ataque, como se tivesse perdido todo o controle que seu corpo um dia teve. Droga... droga! Em uma batalha, gostava de manter certa calma, gostava de manter-se no controle de suas emoções, de evitar que fosse cegado por emoções como a raiva e a fúria, mas isso estava mostrando-se cada vez mais difícil. Não importa o que eu tente, não importa o quanto me esforço, pareço ser simplesmente incapaz de derrotar esse monstro. Sabia que era forte, não tinha dúvida alguma quanto a isso, mas por mais forte que fosse, todos os seus ataques só faziam quebrar suas espadas perante ao corpo de seu oponente. Isso é mal, realmente mal. Eu preciso reagir de alguma forma. Preciso descobrir uma maneira de passar pelas defesas dele e causar dano a essa aberração.

E foi então que a solução para isso passou por sua mente.

Girou em meio ao ar, lutando para reaver algum controle de seu corpo que lhe permitisse aterrissar com alguma segurança. Até mesmo isso é difícil agora, notou ele, aterrissando com tamanho mal jeito que quase chegou a cair no chão mesmo assim. Isso é apenas uma prova de que realmente devo fazer isso. Pelo que lhe constava, preferia mil vezes mais recorrer a algum tipo de meio alternativo do que aquela habilidade; ela era poderosa e tremendamente útil, mas também era a última cartada de Ibur, algo que drenava muita energia dele e que o homem não podia simplesmente ficar usando descuidadamente em combate. Mas algumas vezes ela também é minha única alternativa.

Fechou os olhos. Relaxou seu corpo. Respirou fundo. Ouvia os sons da batalha ao seu redor e sabia que o simples fato de que estava de olhos fechados não iria parar o caos ao seu redor, mas aquilo era o que podia fazer para se distanciar daquilo. Para usar aquela habilidade, precisava primeiro relaxar, depois se concentrar, e por fim deixar o poder fluir.

Borboleta Monarca. – disse ele, leve e suavemente como se a palavra fosse um sussurro que escorria para fora de seus lábios, e no momento em que essas palavras foram ditas sentiu um pulso de energia vir de dentro dele, originando-se em seu coração, passando por seus membros para expandir-se, passando para fora de seu corpo e estendendo-se até o horizonte. Só depois disso foi que estalou seu pescoço e abriu os olhos.

Ogre estava bem diante dele, seu punho no ar, sua boca aberta, baba saindo dela e espalhando-se pelo ar como você esperaria vindo de um cão ou coisa do tipo. Não ficou minimamente preocupado com a ameaça da aberração. Deixou que ele lançasse seu golpe, e apenas observou a reação.

O punho de Ogre foi contra seu peito com uma velocidade assombrosa, carregado de uma força que estava claramente muito além de qualquer limite humano. Mas quando esse punho estava prestes a atingir o corpo de Ibur, o peito deste simplesmente se desfez em dezenas de borboletas. O punho de Ogre atravessou por ele, fazendo pouco mais que espalhar todas aquelas borboletas, e por um instante pareceu que o monstro ia ficar surpreso com aquilo, mas não deu tempo nem pra isso. Sua mão fechou-se ao redor do rosto de Ogre, e com força empurrou e jogou a abominação que ele era para longe, fazendo com que o corpo dele fosse arrastado pelo chão por alguns bons metros antes de colidir em cheio com uma casa próxima, acertando-a com tanta força que ela imediatamente colapsou sobre sua cabeça. De onde estava, Ibur apenas ficou observando aquilo tranquilamente, sem a menor preocupação. Esperou por um momento, apenas o suficiente para que as borboletas voltassem para ele, juntando-se em seu peito e tornando a assumir a forma natural de seu corpo. Esse é o meu poder, monstro. A benção de meu Deus, Caelum. Com aquele poder em mãos, Ibur faria muitas coisas... a começar por fazer a morte de Agnes valer a pena ao matar aquela aberração e o demônio de antes.

Voltou sua atenção totalmente a seu oponente. A poeira erguida pelo colapso da casa ainda não havia descido por completo, mas já conseguia ver a figura de Ogre em meio a ela, e isso era o suficiente para ele. Dobrou suas pernas em preparação, e em cada uma de suas mãos fez com que uma espada longa surgisse. E agora, você morre. Saltou com tanta força que a pressão que suas pernas exerceram arrancou pedaços de pedra pura do chão, e em um piscar de olhos ele estava diante da figura de seu oponente. Não hesitou; sua espada moveu-se com força, cortando a cortina de poeira como se ela não fosse nada, apenas para ser detida por um dos braços de Ogre. O rosto do monstro finalmente se mostrou por detrás da poeira, as feições naturalmente monstruosas e animalescas que ele possuía agora ainda mais distorcidas pelo que parecia ser uma careta de irritação. O punho livre dele se ergueu e moveu-se contra Ibur, mas isso não foi mais efetivo do que o golpe anterior. Nem sequer se deu ao trabalho de tentar esquivar; apenas deixou que todo o seu corpo se transformasse em borboletas, fazendo com que o punho de Ogre passasse inofensivamente por elas. As borboletas eram dezenas, talvez centenas, e Ogre olhava para todas, como se estivesse se perguntando qual delas deveria destruir para acabar com seu oponente. No fim das contas, no entanto, essa pergunta pareceu simplesmente não importar; aparentemente irritado demais para pensar, o monstro simplesmente moveu seus braços aleatoriamente, tentando atingir Ibur com movimentos tolos. E enquanto ele gastava seu tempo e energia com aquilo, parte das borboletas concentraram-se atrás dele para darem forma ao corpo de Ibur novamente, as espadas ainda em suas mãos. Aparentemente o monstro conseguiu sentir a presença dele de alguma forma, pois prontamente ele virou-se em sua direção, mas já era tarde demais a essa altura; no momento em que Ogre terminava de se virar, as duas espadas de Ibur alcançavam seu pescoço de ambos os lados.

Ambas quebraram-se com o contato na pele dele, para frustração do padre. Maldição, pensou ele, rangendo os dentes, começando a sentir fúria correr em suas veias. Do que eu preciso para dar um fim a essa aberração?

Ao ver Ibur ali, Ogre por algum motivo decidiu por agir de forma diferente. Ao invés de tentar socar o homem ou golpeá-lo de alguma outra forma como ele havia feito antes, o que Ogre fez foi... abrir sua boca tanto quanto pode, muito mais do que um homem normal, de forma que haviam ao menos trinta centímetros separando seus lábios inferiores dos superiores, como se seu maxilar tivesse literalmente se esticado para permitir aquilo. Diante daquilo Ibur ficou tão surpreso quanto confuso, sem saber o que Ogre queria fazer com algo assim... até que viu uma esfera de pura energia púrpura nas profundezas da boca de Ogre, e compreendeu imediatamente o que ele queria fazer. Não, isso não é possível.

Mas era. Uma rajada de energia pura veio da boca de Ogre, gerando uma poderosa explosão que engoliu tudo em uma área de cinquenta metros ao redor dele, incluindo o próprio Ogre.

– Isso foi bem destrutivo... – murmurou Ibur há uma distância segura da explosão, enquanto as borboletas nas quais havia transformado seu corpo terminavam de retornar-lhe a sua forma original. – Nunca pensei que veria algo assim. Canhão Avassalador, é como chamam isso. Uma criação de Tiamat pelo que me lembro; o Rei de Carcino parece gostar muito de brincar de Deus, e por isso ele criou várias criaturas artificiais. Dizem que muitas delas foram feitas para combate, e que essas contam com um pequeno canhão de energia em suas bocas que lhes permite atirar projeteis de pura energia com poderes absurdos. – apoiou seu queixo em uma de suas mãos enquanto fitava aquilo, agora intrigado. – Isso significa que Ogre é uma das criações de Tiamat? Não pensei nisso antes, mas considerando o que vi dele, essa é uma hipótese bem real.

A poeira e a fumaça resultantes da explosão eram densas, mas pouco a pouco elas foram cedendo, permitindo que Ibur visse além delas. A primeira coisa que viu foi o contorno do corpo de Ogre, pouco antes que o monstro emergisse por completo. Apesar de ter aparentemente sofrido a explosão diretamente, Ogre mantinha-se completamente firme aonde estava, sem nenhum sinal de ferimentos em seu corpo, com apenas um pouco de fumaça vindo dele, principalmente de sua boca. Desde o início não mantinha esperanças de que o monstro tivesse sofrido algum ferimento considerável com aquilo, mas ver que ele havia literalmente saído ileso depois de uma explosão como aquela foi o suficiente para fazer com que Ibur rangesse os dentes. Droga... não vou conseguir derrotar ele nesse nível. Mesmo com a Borboleta Monarca ativa, tudo o que tinha a seu favor era o fato de que agora evitava por completo todos os golpes do monstro, mas isso não lhe ajudava muito se não pudesse ferir seu oponente. Eu vou precisar de mais poder bruto se pretendo fazer realmente algo contra ele. Sabia como obter esse poder, mas mesmo assim, isso não era necessariamente algo que queria fazer se tivesse a opção de escolher... o que não parecia ser o caso.

Olhou ao redor. Até onde seus olhos chegavam, conseguia ver os efeitos da Borboleta Monarca; de onde estava, o céu era azul-arroxeado, e ao invés do sol, uma grande borboleta se erguia. A Borboleta Monarca. Ela era a chave do seu poder, a sua maior força de batalha. Com o poder da Borboleta Monarca, não era exagero dizer que Ibur se tornava de longe o mais poderoso dos servos de Caelum. E não é pra menos, também. Com o poder total da Borboleta Monarca, ele pegava emprestado parte do poder da esposa de Caelum, a antiga Deusa-Guerreira.

Energia fluiu por seu corpo, com tanto poder que sua própria pele começou a brilhar. Abriu suas mãos, suspirou fundo e tentou relaxar tanto quanto pôde, tentou deixar sua mente tão limpa e pura quanto possível. Borboleta Monarca, por favor, ouça o meu pedido. Eu sou seu humilde servo, um reles instrumento nas mãos do glorioso Deus Caelum. Sei que sou indigno de sua ajuda, seu que sou impuro e não mereço sua atenção, mas mesmo assim eu lhe imploro: por favor, me ajude agora nesse momento se necessidade. Meus inimigos se aproximam para me destruir; por favor, Borboleta Monarca, eu lhe ofereço meu corpo, e em troca peço que destrua meus inimigos.

O resultado foi quase que imediato. De uma só vez, sentiu a energia que fluir por seu corpo dobrar de intensidade, sentiu uma presença – um espírito – se aproximar de seu corpo, tentar infiltrar-se nele e tomar conta de seu corpo. Instintivamente começou a reagir a tal, mas logo sua racionalidade reinou sobre seus instintos e fez com que ele relaxasse. Deixou o espírito da Deusa entrar dentro dele, tomar posse de seu ser. Era desagradável, em geral, ter seu corpo tomado por qualquer coisa, mas isso não era nada se comparado a honra que sentia em abrigar o espírito de sua Deusa... tal como não é nada se isso significa que meus oponentes caíram.

Lentamente, sentiu sua mente afundar as profundezas de seu ser, ao mesmo tempo em que sentia seu corpo mudar.

=====

Os olhos de Ogre correram por todos os lados, buscando seu oponente em meio a toda a destruição do Salão Cinzento. Quando não teve sucesso nisso, grunhiu e rosnou em frustração. Havia esperado que seu oponente tivesse ao menos honra o suficiente para não correr e se esconder de uma luta, mas aparentemente havia lhe dado crédito que não merecia. De certa forma, ter alguma consideração de que ele poderia ter algo similar a honra, por si só, era tremendamente estúpido; aquele havia sido o oponente que havia se aproveitado de uma chance na batalha para matar alguém muito mais fraco do que ele sem hesitação alguma. O que devia esperar de um verme tão desprezível?

Foi então que sentiu a energia. Uma energia forte, perigosa... diferente. Não só ela era muito mais intensa do que havia sentido antes de seu oponente, os próprios traços daquela energia eram diferentes do que havia detectado nele antes... ou do que havia detectado em qualquer humano, pelo que constava. A tecnologia de Carcino em seu corpo fazia com que ele fosse capaz de identificar alguém pelo simples padrão que a energia dessa pessoa mantinha, e pelo que sentia, podia afirmar com toda certeza; aquilo não era humano.

Não demorou para que tivesse a confirmação disso também.

Ouviu o som de algo sendo esmagado e virou-se imediatamente na direção disso. O que viu foi o que parecia ser o corpo de uma fêmea humana, com formas tradicionalmente femininas, apesar de uma notável falta de genitais. Tinha seios – ou ao menos o que pareciam ser seios – mas esses também não tinham mamilos, e isso fazia com que as formas dela parecessem similares de alguma forma ao que se via em manequins. Seus cabelos eram negros como a noite, estupidamente longos ao ponto de alcançarem seus joelhos, e eles pareciam flutuar, como se tivessem vida própria que os sustentava no ar. No entanto, o que mais chamava atenção naquela mulher eram seus olhos... ou mais exatamente, a falta deles, pois pelo que podia ver, alguma espécie estranha de borboletas azuis juntava-se em seus olhos, e considerando pelo sangue que escorria deles em quantias absurdas, aquelas deveriam ser borboletas carnívoras.

Ainda estava tentando entender o que inferno deveria ser aquela mulher quando ela subitamente desapareceu. Nem sequer teve tempo de procurar por ela; apenas sentiu algo atingir-lhe subitamente na boca do estômago, com tanta força que vomitou sangue de imediato, e de relance viu que essa mulher estava agora bem diante dele. Foi arremessado longe pela força do golpe, jogado violentamente contra os escombros de uma casa parcialmente destruída um tanto quanto distante. Atingiu-a em cheio, quebrando-a por completo com o impacto, sentindo todo o seu corpo doer. Grunhiu e mostrou os dentes, irritado, mas quando tentou se levantar, sentiu uma presença acima de sua cabeça, e ergueu os olhos bem a tempo de ver a perna da mulher caindo contra seu rosto.

Qualquer coisa que pudesse ter restado daquela casa foi destruída completamente pela cratera criada pela pressão do ataque da mulher. De alguma forma, no último momento conseguiu mover seus braços o suficiente para que usasse suas duas mãos para segurar o golpe da mulher, mas isso estava longe de ser o suficiente para que não sentisse a força por trás do golpe dela. Era mil vezes mais forte do que qualquer humano normal, mas mesmo assim sentia a força daquela mulher sendo tão grande que necessitava de ambas as suas mãos para parar uma perna dela, e mesmo assim sentia que não poderia aguentar aquilo por muito tempo.

Sendo assim, não hesitou em abrir sua boca e disparar o Canhão Avassalador.

O disparo de energia púrpura passou perto. Tão próxima quanto estava, a mulher mal teve tempo de reagir; foi sorte, instintos e um bom corpo que possibilitou que ela se movesse pro lado a tempo o suficiente para evitar o bruto do golpe, mas isso não havia impedido o disparo de afetá-la parcialmente. Metade de seu rosto havia sido completamente aniquilada por seu canhão, não deixando nada mais do que a parte inferior do que queixo dela do lado direito... e mesmo assim, a mulher parecia não se importar. Virou-se para Ogre de forma desafiante, sem demonstrar medo ou dor, e sem um pingo de hesitação ela aumentou a força sobre sua perna e chutou Ogre direto no queixo, fazendo com que ele sentisse sua mandíbula se estraçalhar perante a força do golpe e arremessando-o para mais longe ainda.

Seu corpo quicou na terra violentamente, deixando para trás pedaços de carne e um rastro de sangue, mas eventualmente ele conseguiu reaver controle sobre si mesmo o bastante para erguer seu rosto e fitar sua oponente de novo. Ela aproximava-se dele um passo após o outro, completamente séria, ignorando sua ferida. A aproximação dela era calma, incessante, mas lenta, como se estivesse desafiando-o a pará-la se pudesse.

Aquele era um desafio que aceitou com prazer.

Firmou suas pernas no chão com todas as suas forças. Cruzou seus braços e puxou toda a energia que pode, tanto do ambiente quanto de si mesmo.

CANHÃO AVASSALADOR: RAJADA INFERNAL! – gritou as palavras com todas as suas forças, e abrindo sua boca tanto quanto ela podia se abrir, disparou o Canhão Avassalador várias vezes consecutivamente, sentindo cada disparo dele arrastá-lo um pouquinho mais pra trás.

A mulher não mostrou preocupação alguma com aquilo. Os disparos eram rápidos, cada um tão poderoso quanto o que arrancou metade de seu rosto, mas ela não os temeu. Moveu-se com fluidez, desviando de cada disparo com passos simples como se estivesse dançando, quase como se ela já soubesse a trajetória de cada disparo antes mesmo que ele fosse feito. E ao mesmo tempo, ela também acelerou seus passos; cada vez mais ela se aproximava mais e mais rápido de Ogre, e a cada segundo que passava, podia vê-la chegar cada vez mais perto, uma ameaça cada vez maior.

Diante disso, não hesitou. Quando ela estava prestes a lhe alcançar, abaixou sua cabeça, concentrou tudo o que lhe restava de energia e disparou um último disparo contra o chão.

A explosão resultante não engoliu apenas ele ou ela, mas sim todo o quarteirão no qual estavam.

=====

A força da explosão foi sentida até mesmo aonde estava. Por um momento, o mundo brilhou todo em púrpura graças ao golpe de Ogre, e deu-se ao trabalho de voltar seu rosto ligeiramente para trás, o suficiente para fez a grande esfera púrpura de destruição resultante disso. Um ataque suicida, Ogre? Estranho. Eu não pensei que você iria recorrer a algo assim. À sua frente, Dokurei cruzava os braços e tentava firmar-se no chão da melhor forma possível, tentava resistir àquilo, mas isso era inútil. Por mais poderoso que ele fosse, Dokurei era apenas humano, e por tal ele estava sujeito a limitações que alguém com acesso a poderes demoníacos como Ekhart não enfrentava. O corpo dele foi eventualmente lançado ao ar, jogado longe sem que ele tivesse o menor controle dele ou pudesse erguer qualquer tipo de resistência. Por um momento, considerou persegui-lo para dar fim a seu oponente; apesar da força da explosão, era forte o suficiente para não sofrer com isso, algo demonstrado pela força como ficava tranquilamente em pé diante de algo assim. Se quisesse, podia facilmente voar atrás de Dokurei... mas não, não tinha interesse nisso. Se possível, eu gostaria de evitar mortes desnecessárias, e não vejo como a morte de Dokurei vai parar o Olho Vermelho. Além do mais... tenho coisas mais importantes com as quais lidar.

Ergueu uma de suas mãos bem a tempo, apanhando Shell Glace pelo braço quando o homem passou voando ao seu lado. Os olhos do mago de gelo olharam para o Demônio Negro surpresos, sem entender o porquê dele estar fazendo aquilo, mas considerando a situação atual, ele não lutou para se soltar... ao menos não imediatamente. Foi só depois que o pior se foi que ele começou a remexer-se, tentando afastar-se de Ekhart, tentando libertar-se das garras do Demônio Negro enquanto em sua outra mão começava a juntar energia para lançar um ataque contra ele. Sua resposta a isso foi olhar bem nos olhos azuis do mago.

– Pare com isso – advertiu o homem-demônio. – Eu já saquei esse seu pequeno teatro. Pode parar com isso. O inimigo não está mais aqui... e de qualquer forma, não acho que há mais necessidade de você seguir o inimigo.

Novamente, Shell olhou para ele surpreso ao ouvir aquilo, como se não soubesse do que estava falando... mas isso só durou um momento. Logo a surpresa morreu, e um fino sorriso surgiu no rosto do mago de gelo. A energia que ele concentrava antes desapareceu de sua mão, e sem hesitar ele levou-a a sua cabeça, coçando-a desajeitadamente ao mesmo tempo em que a marca na sua testa desaparecia por completo, como se simplesmente nunca tivesse existido.

– Opa, opa, você me descobriu – disse ele, mostrando um sorriso amarelo. De uma só vez, toda a feição hostil e perigosa que o mago tinha antes desapareceu para dar lugar a feições relaxadas, descontraídas e preguiçosas. – Bom, isso é mal pra mim. Creio que isso significa que não sou um espião muito bom, hum? Droga.

=====

Do topo da muralha, virou sua cabeça e olhou para o Salão. Com exceção da área norte, pra onde quer que olhasse ela conseguia ver fumaça e fogo, sinais da destruição. Mesmo agora, mesmo tão alto quanto estava, conseguia ouvir os sons da batalha, e eles apenas faziam deixa-la ainda mais revoltada. Eu devia estar lá, pensou ela. Eu devia estar lutando. Eu poderia fazer uma diferença.

Mas não podia lutar. Não queria lutar. Tinha coisas mais importantes a fazer no momento. Trazia Gáe Bolg em suas costas, pronta para ser usada a qualquer momento caso fosse forçada a lutar, o que torcia para que não ocorresse. Por mais que soubesse que ela capaz de lidar com praticamente qualquer inimigo que fosse contra ela, temia pela segurança de seu amado. Olhou para o rosto de Lancelot, o homem que jazia em seus braços. Normalmente ele sempre parecia alegre e bondoso, mas agora ele parecia tão... triste. Como se soubesse do que estava acontecendo. Será que ele me culpa por não estar ajudando os outros? Supunha que sim. Lancelot era um bom homem, um dos melhores. Ele alegremente morreria se isso pudesse salvar a vida de outros. Mas ela não podia deixa-lo morrer.

– Me desculpe por ser tão egoísta, mas você é importante pra mim. Mais do que todos os outros... – sussurrou levemente Titânia, com uma gentileza que sabia não ser característica dela. Beijou levemente a testa dele, e depois, decidida, saltou da muralha, para fora da cidade sob ataque.



Notas finais do capítulo

ÁREA OESTE:

Enderthorn VS Octo Gall (Vencedor: Enderthorn)
Enderthorn VS Raptor (Vencedor: Enderthorn)
Vaen VS Lilybell (Vencedora: Lilybell)
Jiazz VS Maoh (Vencedor: Jiazz)
Senjur VS Reivjak (Em andamento)
Chappa e Dayun VS Lilybell e Vaen (Vencedores: Chappa e Dayun)
Vaen, Chappa e Dayun VS Saber e Alcatraz (Em andamento)

ÁREA SUL

Kuman VS Fera (Vencedor: Fera)
Skylar VS Fera (Vencedor: Skylar)
Skylar VS Cleus (Vencedor: Cleus)
War e Coralina VS Nicholas (Vencedores: War e Coralina)
Trevor VS Maverick (Vencedor: Trevor)
War, Coralina, Ogre, Ekhart e Clone das Sombras VS Agnes, Ibur e Dokurei (Fragmentada)
War e Coralina VS Agnes (Vencedor: War)
War VS Ibur (Vencedor: Ibur)
Ogre VS Ibur (Empate)
Ekhart VS Dokurei e Shell (Interrompida)
Bokuto VS Zodwik (Vencedor: Bokuto)
Bokuto VS T.I.T.A.N. (Vencedor: Bokuto)
Valery e Goa VS Cleus (Em andamento)

ÁREA LESTE

Alexander VS Goliath (Vencedor: Alexander)
Alexander VS Steelex (Vencedor: Steelex)
Eldigan VS Steelex (Vencedor: Steelex)
Soulcairn VS Steelex (Vencedor: Soulcairn)
Soulcairn VS Bertold (Vencedor: Bertold)
Ezequiel VS Bertold (Em andamento)
Zephyr VS Balak (Vencedor: Balak)
Kazegami VS J (Empate)
Florian VS Tristah e Behemoth (Vencedores: Tristah e Behemoth)
Jack Branco e Jack Negro VS Behemoth (Em andamento)

SALÃO CINZENTO

Marco, Scarlet, Sara, Leona e Darla VS Jiazz (Em andamento)

ÁREA NORTE

Gwynevere VS Retalhador (Em andamento)



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