O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 34
O Reinado Eterno do Demônio Negro


Notas iniciais do capítulo

Blá blá blá, blá blá blá blá blá, blá blá!



A ESPADA BASTARDA de Eldigan chocou-se com toda a força contra seu oponente, mas o braço revestido de aço de Steelex não teve dificuldades em parar o golpe de seu oponente. Com o elmo de aço branco cobrindo seu rosto, não conseguia realmente dizer o que deveria estar se passando pela cabeça de seu oponente, mas estava mais do que disposto a chutar que ele deveria estar verdadeiramente irritado com aquilo, lhe encarando com sede de sangue do outro lado. Mas quem se importa? Ele que faça o que quiser. Isso não muda nada. No fim das contas, independente de quão irritado ele estivesse, a raiva não lhe dava a força necessária para derrotar Steelex; na verdade, se alguma coisa, ela só estava tornando tudo mais fácil para o mercenário.

Fechou rapidamente seu punho livre e usou sua habilidade para revesti-lo de aço, algo que passou despercebido aos olhos de seu oponente, tamanho o foco dele em tentar lhe matar. Eventualmente ele notou os planos de Steelex, claro, mas quando o fez já era tarde demais. O punho do mercenário de aço acertou-lhe direto no estômago, armado de uma força e violência tão grandes que quase atravessou a camada de aço da armadura do seu oponente para abrir um buraco em sua barriga. Eldigan foi lançado dois metros para trás pela força do golpe, aterrissando no chão de forma vacilante, quase caindo de joelhos. Steelex não perdeu sua chance; avançou contra ele com um salto, ambos os seus braços revestidos de aço, e enquanto avançava alterou a forma do aço que lhe revestia para dar pontas e lâminas a ele, colocá-lo ainda mais ameaçador e violento. No momento em que seu pé tornou a tocar o chão, a primeira coisa que Steelex fez foi firmar-se ali e lançar um soco com toda a sua força contra seu oponente.

Eldigan conseguiu mostrar uma reação a isso, erguendo seu escudo a tempo para usá-lo para tentar parar o golpe de Steelex. Foi um esforço admirável, mas também inútil. O som do impacto ressoou por um único momento antes que o escudo fosse quebrado em pedaços e o braço de Eldigan fosse lançado para trás, o som de ossos quebrando-se ressoando pelo ambiente e a visão de sangue esguichando e maculando o aço branco de vermelho... e mais do que tudo, deixando a guarda de Eldigan aberta para os golpes que estavam por vir.

Seu punho subiu, acertando o queixo do cavaleiro em um gancho direto, forte o suficiente para quebrar parte do elmo que lhe protegia e fraturar visivelmente o queixo dele, deixando-o coberto em vermelho. O rosto, não, o corpo de Eldigan foi todo propulsionado para cima pela força por trás daquele ataque, e isso deu a Steelex a chance perfeita de finalizar a batalha. Lançou seu braço para trás, concentrou suas forças e energias ali, aplicando todo o poder de sua habilidade em seu braço.

LANÇA NEGRA! – seu braço disparou contra seu oponente como se fosse um dardo disparado por uma besta, acertando Eldigan direto no peito e imediatamente deixando que seu poder agisse. Da mesma forma que revestia seu corpo em aço, criou aço negro no momento do impacto, liberando por seu punho; uma ponta fria e escura atravessou o peito do cavaleiro, erguendo-se do outro lado manchada de sangue, e seguindo além e além. O corpo do cavaleiro foi arremessado pelos ares pela força daquilo, jogado pro alto acima de todos, antes que finalmente a lança negra de mais de três metros de aço criada por Steelex chegasse ao fim. Como um grande dardo ela primeiro arrastou seu oponente para cima, até perder sua força, virar-se e tornar a cair ao chão, ficando-se firmemente nele enquanto ainda trazia o corpo sem vida daquele que um dia foi um cavaleiro consigo.

Não pode deixar de olhar para aquilo e sentir-se decepcionado. De novo, um cavaleiro que cai fácil assim. Será que superestimei demais os cavaleiros? Havia pensado que teria boas lutas no Salão Cinzento, oponentes ao seu nível, guerreiros poderosos... mas pelo que havia visto até então, aquilo tudo havia sido um enorme desapontamento. Primeiro Alexander, agora Eldigan... Terceiro e Segundo Cavaleiros, todos facilmente derrotados.

– O Salão Cinzento é patético, indigno de sua reputação – desabafou o mercenário, fechando seus dedos em um punho.

– Um pedaço de merda como você não tem o menor direito de dizer algo assim – advertiu severamente uma voz estranha; experiente, madura... e forte, muito forte.

Por um momento, todos os seus movimentos pararam. Ficou completamente imóvel, fixo aonde estava como se fosse esculpido de pedra, apenas sentindo o poder que emanava de quem quer que fosse aquele que falava com ele. Forte. Realmente forte. Nem sequer havia olhado para essa pessoa, mas a mera presença dela era completamente diferente da dos demais cavaleiros. Abriu suas mãos e olhou para elas, compreendendo então que suor frio havia umedecido seus dedos e que ele agora tremia em partes iguais de medo e excitação. Essa sensação... sinto como se um monstro invencível estivesse diante de mim, como se eu estivesse enfrentando algum tipo de besta lendária, uma criatura de poder inimaginável.

Era isso que ele queria encontrar no Salão Cinzento. Essa sensação.

Nem desperdiçou tempo virando-se contra seu oponente; simplesmente saltou na direção da qual havia sentido a presença dele. Dessa vez, não apenas revestiu seu braço em aço; transformou seu braço direito em puro aço, e manipulou a forma deste para criar uma grande espada negra com inúmeras serras que, conforme a sua vontade, moviam-se e vibravam em uma velocidade sônico, fortes o suficiente para rasgar qualquer coisa que tocasse nelas em pedaços imediatamente.

Tudo que seu oponente precisou fazer para defender-se daquele ataque foi erguer o braço.

A espada-serra de Steelex não conseguiu nem sequer arranhar seu adversário; apesar das vibrações e velocidade de seus movimentos, tudo que ela conseguiu fazer foi liberar diversas fagulhas no ar, como se o encontro fosse de aço com aço, não aço com carne. Um rosto severo e duro de um velho homem grande com um moicano prateado em sua cabeça fitou duramente Steelex, como se estivesse lhe desafiando, lhe questionando silenciosamente se aquilo era tudo. Mordeu seus dentes com força, jogou seu punho para trás, mas antes que tivesse a chance de lançar um soco contra seu adversário, sentiu ele lhe acertar um poderoso soco no estômago que lhe tirou o ar.

Foi facilmente jogado longe por aquilo, arremessado alguns bons metros para trás, colidindo em cheio com uma casa parcialmente em ruinas e jogando-a de vez ao chão com a força do impacto. Escorregou por entre os destroços até em fim tocar o chão realmente, e foi quando isso aconteceu que notou algo. Dor... por que eu não sinto dor? Havia sentido o impacto do golpe, sim, mas não havia sentido dor ou dano nenhum dele sobre seu corpo. Levou até mesmo uma de suas mãos ao seu estômago para avaliar isso, certificar-se de que não estava apenas se enganando de alguma forma, e teve a confirmação de suas suspeitas com aquilo. Sem dor. Sem dano. Isso não fazia sentido. Impossível. Um ataque desse nível... eu deveria estar me debatendo de dor agora.

– Confuso, pirralho? – a voz de seu oponente tornou a ressoar, e em resposta a ela Steelex ergueu seus olhos para fita-lo. O Cavaleiro avançava contra ele calmamente, um passo após o outro, parecendo completamente despreocupado quanto a qualquer golpe que Steelex pudesse lançar contra ele, tendo sua guarda tão aberta assim. Uma de suas mãos se ergueu, o punho fechado, mas por algum motivo Steelex não viu aquilo como um gesto agressivo, mas apenas como uma espécie de demonstração. – Minha Aloeiris, garoto, se chama Carga. Ela funciona de forma muito simples. Em primeiro lugar, enquanto ativa, meus golpes não farão dano.

Subitamente, o homem desapareceu, e ao mesmo tempo Steelex sentiu algo colidindo com seu rosto, jogando-lhe ao chão. Caiu sem ter qualquer esperança de tentar lutar contra aquilo, sentindo o punho do homem ainda em seu rosto, lhe pressionando, lhe esmagando contra o solo... mas apesar de sentir o impacto e a força por trás do golpe, não sentiu dor ou dano algum.

– Minha Aloeiris não anula a força dos meus golpes ou coisa do tipo. Um soco meu com a Carga ou sem ela tem a mesma força. A diferença é que, quando ativa, a Carga retira todo o dano ou estrago que meu golpe iria causar. Dor e danos provenientes de terceiros como, por exemplo, uma árvore na qual você foi arremessado pela força de meu golpe, ainda correrá normalmente, mas meus golpes em si não irão causar dano. Ao invés disso, esse dano que deveria ter sido causado vai ser armazenado.

Outro punho colidiu com a lateral de seu rosto. Foi arremessado pelos ares, rodopiando como uma dançarina, mas de alguma forma conseguiu recuperar seu equilíbrio e senso a tempo o suficiente para que aterrissasse seguramente. Ele está falando a verdade. Agora, não podia tomar aquilo apenas como um erro ou coisa do tipo; os golpes de seu oponente estavam carregados com uma tremenda força, sem dúvida alguma, mas apesar disso eles simplesmente não causavam dano. E apesar do que uma pessoa normalmente pensaria de algo assim, não conseguia deixar de sentir-se nervoso com aquilo.

– Cada vez que acerto um golpe, o dano que esse golpe deveria causar é ampliado pelo dano já armazenado, e esse dano armazenado é dobrado ao ser armazenado. Por exemplo, o dano armazenado de um soco bem sucedido meu é duas vezes maior do que o desse soco em si, se eu o desferisse sem armazenar seu dano. Ao adicionar o dano de outro soco a isso, terei um total de dano armazenado quatro vezes maior do que o de um soco normal meu. Mais um soco somado a isso e o dano seria então oito vezes maior, e assim sucessivamente.

Virou seu rosto na direção daquele homem, apenas para ser recebido por um soco direto em seu rosto, que tal como os anteriores não lhe causou dano, mas veio com força o suficiente para jogar-lhe pra trás facilmente. Dessa vez, no entanto, ainda enquanto no ar, sentiu outro soco lhe acertar entre as costelas – um golpe que, se causasse algum dano, iria certamente destruir sua espinha dorsal – mas nem isso foi tudo; o soco lhe jogou para baixo, mas não chegou nem perto de acertar o chão antes que o outro punho de seu oponente subisse contra ele, acertando seu queixo e lançando o mercenário ao ar. Não havia sofrido dano algum com aqueles golpes, mas a sensação de ter seu corpo jogado para tantos lados assim em um período tão curto de tempo era por si só o suficiente para que ele se sentisse tremendamente zonzo... apesar de que essa se tornou a menor de suas preocupações no momento em que compreendeu algo. Ah, merda!

– Você recebeu seis golpes meus – disse lentamente seu oponente, a voz dele soando como tambores de guerra aos ouvidos de Steelex. – Isso significa que o dano do meu próximo golpe será ampliado em sessenta e quatro vezes. Mais do que o suficiente para que eu possa usar a técnica que me conquistou minha alcunha. – os joelhos do cavaleiro se dobraram, e seu braço direito foi jogado para trás em preparação para o que estava por vir. Pacientemente ele esperou, sem nunca tirar os olhos da aproximação constante de Steelex. Merda, merda, isso não vai ser bom! Revestiu seu corpo de aço tanto quanto pôde em preparação para o que estava por vir, mas em seu interior, sabia muito bem que aquilo era inútil: um escudo de papel diante de uma tempestade. O punho de seu oponente subiu contra ele, e mesmo antes dele lhe atingir, pode sentir a pressão monstruosa por trás do ataque. – DESTRUIDOR DE MUNDOS!

=====

Mesmo sendo aquele que desferiu o golpe, sentiu a onda de choque e a pressão do impacto correrem por seu corpo, passando por seus músculos e ossos com uma intensidade tão grande que seu corpo simplesmente se quebraria se não fosse tão duro quanto era. Abaixo de si, o chão sofreu; a maioria dos golpes com um poder destrutivo muito grande eram capazes de criarem ondas de choque capazes de quebrar o solo, afetar construções próximas ou até mesmo criarem uma pequena cratera.

Algo tão patético assim nem se comparava ao estrago que a onda gerada pelo seu golpe causou.

A um raio de cerca de quinhentos metros com Soulcairn como seu epicentro, o chão recuou. Ele não foi quebrado, ele não foi destroçado, ele simplesmente recuou, como se alguém houvesse selecionado aquela parte em especifico dele e empurrado-a para baixo com força. Haviam casas nos limites daquela área, claro, mas elas fizeram pouca ou nenhuma diferença; algumas delas foram partidas ao meio com o rebaixamento da área, mas a maioria delas entraram em colapso total com aquilo, seus destroços caindo para dentro da grande cratera criada pelo Ascendente. O corpo do mercenário que estava enfrentando antes agora voava nos céus, mole como se todos os ossos de seu corpo tivessem se quebrado... o que, francamente, não surpreenderia Soulcairn se fosse realmente esse o caso. Havia visto que o homem tinha tentado revestir seu corpo com aço pouco antes de seu golpe lhe atingir, mas isso havia sido completamente inútil; o aço quebrou-se diante de seu punho como se fosse vidro, e pelo que viu, ele não fez nada para diminuir o dano do golpe do cavaleiro. Não que ele possa ser culpado por isso. Proteger-se de alguma forma do Destruidor de Mundos é simplesmente impossível. Diante daquele golpe, a resistência ou as táticas defensivas de alguém não faziam diferença alguma – a força bruta por trás dele era tão grande que as suas únicas escolhas eram desviar... ou morrer.

Esperou calmamente de braços cruzados até que seu oponente voltasse a cair, chegando ao solo com tanta força e velocidade que seu impacto foi como o cair de um meteoro. O choque criou uma segunda cratera dentro da cratera que Soulcairn havia criado, e apesar de seu diâmetro e a destruição causada por ele não serem nada comparadas ao que o golpe de Soulcairn fez, elas foram impressionantes mesmo assim. Seus olhos caíram sobre o homem, avaliando o estrago que ele havia sofrido com aquilo. Sangue escorria de praticamente todos os cantos de seu corpo, e um simples olhar era tudo o que o cavaleiro necessitava para ser capaz de dizer que pelo menos metade dos ossos dele haviam sido quebrados com seu ataque. Uma forma bem brutal de morrer, essa, pensou ele... até ser surpreendido quando o homem subitamente tossiu, cuspindo sangue e revelando que, apesar de tudo aquilo, ainda havia vida em seu corpo.

Ele ainda está vivo?! Isso é impossível! O dano foi ampliado em sessenta e quatro vezes, e aquele foi um golpe direto no rosto! Já era um milagre que a cabeça dele não tivesse sido esmagada ou arrancada de seu corpo, mas que ele sobrevivesse a um ataque daquela magnitude... isso era simplesmente absurdo. Mas apesar disso e do quanto aquilo lhe surpreendia, não conseguia sentir-se irritado por tal. Pelo contrário; o que sentia era um tipo estranho de admiração e respeito por aquele feito. Isso não é algo fácil. Para que ele tenha sido capaz de sobreviver a algo assim... esse homem tem um poder tremendo. Aquele era o primeiro homem em todos os seus anos de vida que havia sobrevivido a um ataque seu com uma carga suficiente para ampliar seu dano em mais de oito vezes, e isso merecia certo respeito, mesmo que, no fim das contas, fosse ser inútil. Ele pode ter sobrevivido ao meu golpe, mas não vai sobreviver a essa batalha. Em seu estado atual, ele simplesmente vai morrer mais cedo ou mais tarde, e mesmo que isso não acontecesse, eu não posso deixar que alguém tão forte e perigoso quanto ele continue vivo. Resignado a acabar com aquilo, começou lentamente a caminhar em direção ao mercenário.

– Soulcairn do Salão Cinzento – disse uma voz amigável, alegre e bem-humorada. – Não intenciono nenhum desrespeito, mas creio que tenho de pedir para que você pare aonde está. Steelex é um mercenário valioso; ele é útil, e você não tem ideia do quão difícil é achar mercenários decentes hoje em dia. A maioria deles são um bando de idiotas peludos como gorilas que só sabem gritar, falar grosso e serem decapitados por alguém com metade do seu tamanho. Além disso, o líder vê potencial o suficiente nele para estar considerando torna-lo um de nós depois. É meu trabalho manter ele vivo até que a avaliação seja concluída.

Virou lentamente seu corpo na direção da qual ouviu aquelas palavras, desistindo imediatamente de qualquer plano que tivesse com relação ao mercenário ao menos por enquanto. Essa pressão, essa energia... quem quer que seja esse que falou, ele é bem forte. O mais estranho, no entanto, era que não havia sentido sua aproximação. Quando se lidava com alguém que tinha seu poder em um nível como o que aquele ser parecia ter, um guerreiro mais experiente conseguia sentir a aproximação desse oponente graças a aura de poder que ele emitia, mas isso não havia acontecido com aquela figura. A energia dela não existia em um momento, para subitamente surgir no outro como se estivesse ali o tempo todo.

Quando finalmente chegou a ver o homem que havia falado, surpreendeu-se um pouco com o que viu. Considerando o que havia visto até então, imaginava que os membros do Olho Vermelho e seus aliados deveriam ser bem violentos para causarem tamanha destruição, mas o que aquele homem demonstrava era justamente o contrário. Era um jovem de cabelos negros lisos e bem arrumados, partidos para os lados, caindo sobre as laterais de seu rosto de forma a cobrir suas orelhas. Sua testa era alta e seu nariz fino, e havia qualquer coisa em seu rosto que dava a ele um ar um tanto quanto simplório, como se ele fosse completamente inocente. Vestia-se com roupas grossas, usando uma jaqueta negra de couro que cobria quase toda a parte superior de seu corpo, bem como luvas negras em suas mãos, e as calças dele também eram igualmente escuras e grossas, parecendo até calças militares; isso tudo somado às botas de couro e pelo que ele usava fazia com que pouco mais do que o rosto desse homem ficasse a mostra, e por algum motivo isso deixava Soulcairn um tanto quanto apreensivo. A postura daquele homem era bem relaxada; ele estava sentado tranquilamente sobre alguns escombros de forma despreocupada, como se a presença de Soulcairn ali não fosse nenhum motivo de preocupação, e enquanto ele jazia sentado, diversos como negros como a noite com olhos vermelhos como sangue usavam-no como uma espécie de poleiro supercrescidos, amontoando-se em seus ombros, pernas e braços.

– Quem deveria ser você? – questionou Soulcairn, embora já tivesse uma teoria de que aquele homem fosse uma pessoa mais importante naquela pequena invasão; um membro do Olho Vermelho em si, não apenas um mercenário a serviço deles. – Como sabe o meu nome?

O homem sorriu de forma gentil ao ouvir aquilo, e apesar de seu sorriso aparentemente não carregar hostilidade alguma, Soulcairn simplesmente não pode ignorar o arrepio que correu por sua espinha ao ver aquilo. Lentamente o homem se levantou e todos os corvos que jaziam sobre ele levantaram voo, indo alto no céu vermelho das Terras Velhas sem nunca realmente se afastarem, como um bando de abutres que sentem o cheiro de sangue.

– Muitos conhecem o seu nome; você é famoso, afinal de contas. O lendário Soulcairn, rival de Odin, conhecido como o “Destruidor de Mundos”. Sei muito sobre você. Sei que, em sua juventude, os duelos que você e Odin travaram afundavam ilhas e cortavam os mares. Conheço as lendas sobre como vocês juntos destruíram o Império Ascendente do Rei dos Bandidos do Oeste, bem como conheço os rumores sobre como vocês supostamente “sequestraram” uma amazona que eventualmente viria a se tornar Gwynevere, uma das líderes do Salão Cinzento. Ah, sim, conhecer você é fácil, muito fácil, meu bom amigo. O difícil é pará-lo... mas difícil não é impossível, foi o que sempre me disseram. – removeu as luvas de suas mãos, jogando-as sobre o ombro, e seguiu para puxar as mangas de suas jaquetas, e no momento em que ele fez isso Soulcairn notou algo; apesar da pele de seu rosto ser branca, a pele de suas mãos e braços eram completamente escuras. – Quanto a mim... meu nome é Bertold, Soulcairn. Bertold Bogger. Um dos membros orgulhosos da guilda que chamam de “Olho Vermelho”.

=====

– Que tédio! – as feições de Lilybell geralmente eram belas, impecáveis a qualquer momento, e isso era algo que em parte se devia a capacidade que a mulher tinha de estar sempre sorrindo, qualquer que fosse a situação... exceto naquela situação atual. Naquele momento, o que reinava no rosto dela era uma expressão de puro tédio e irritação. Seus olhos correram ao seu redor, observando todos os que lhe cercavam; legiões de guerreiros, tanto mercenários e membros de guildas menores aliadas ao Olho Vermelho, quanto cavaleiros do Salão Cinzento... agora, liderados por sua mais recente adição ao seu pequeno exército particular: Vaen Hoves, chamado de “Olho de Falcão”. Em geral, tirava uma grande satisfação em olhar para aquele pequeno exército, ver o que havia criado com o uso de seus poderes, mas naquele momento em particular, isso não fez nada mais do quê que ela se arrependesse. Em retrospectiva, talvez não tenha sido a melhor das minhas ideias escravizar tantos inimigos assim. Havia sido posicionada para invadir a Área Oeste, que também estava sendo invadida por Jiazz e seu maldito grupo. Considerando o que sabia sobre o Juggernaut e o fato de que já havia visto demonstrações do poder dele em ação quando o céu se tornou dourado por um momento, não duvidava que ele e os seus subordinados haviam dado conta da maior parte das tropas do Salão localizadas naquela área. O que me deixa sem inimigos, e consequentemente, em um poço sem fim de tédio.

Espreguiçou-se nas costas de Gorila, tentando pensar no que deveria fazer agora. Pelo que parece, não vou conseguir mais nada se eu simplesmente ficar parada aqui. O mais provável é que Jiazz já limpou a área, e isso significaria que o melhor pra mim caso eu queira lutar mais um pouco seria seguir pra alguma das outras áreas.... mas não sei se essa realmente seria uma boa ideia. Quando falou com eles, Balak havia sido bem claro ao dizer que cada um deveria permanecer na sua área designada independente do que acontecesse – segundo ele, o sucesso do plano consistia em forçar o Salão Cinzento a dividir suas forças em três partes iguais para lidarem com a ameaça, tornando a batalha mais fácil. Mesmo caso conseguissem limpar toda uma área de tropas do Salão Cinzento, supostamente deveriam permanecer nessa e espalhar tanto caos quanto possível pra chamar a atenção da liderança e força-los a tomarem decisões difíceis. Isso dito, não tinha a menor ideia do que essas “decisões difíceis” deveriam ser. Os líderes partiriam para o combate? Eles redirecionariam forças dirigidas a outras áreas para a nossa? Eles abandonariam a área para as nossas forças? Não sabia exatamente qual seria o caso, e isso a deixava um tanto quanto hesitante. Não quero ficar aqui parada sem fazer nada, mas também não quero enfrentar um oponente muito além do meu nível. Aquilo era problemático, definitivamente.

BASTÃO DO DRAGÃO! – o grito ecoou subitamente ao redor dela, e nem sequer teve tempo para compreender de onde exatamente ele vinha antes que sentisse aquilo começar a acontecer. O corpo de Gorila moveu-se abaixo dela, pendendo para o lado de uma forma que ameaçava fazer com que ela caísse, e diante disso a donzela não perdeu tempo em saltar, aterrissando sobre o telhado de uma das poucas casas que jazia em pé mesmo com toda a batalha que ocorria pela cidade. De onde estava, teve uma excelente visão do que aconteceu; viu um homem musculoso sem camisa segurando a ponta de um bastão com uma de suas mãos, empurrando-a com força, enquanto que a outra ponta desse bastão atingia em cheio a lateral do corpo do Gorila, exercendo uma pressão tão grande sobre ele e fazendo com que a carne do homem afundasse com tanta violência para o interior dele que ela poderia muito bem atravessá-lo diretamente. Gorila era um homem grande e forte, muito além do nível de qualquer humano normal, e foi apenas por isso que ele conseguiu resistir e manter-se firme por alguns momentos, antes de ser violentamente arremessado longe, atravessando uma casa e arrancando concreto do chão com o impacto de seu corpo.

A legião de escravos que havia reunido para servi-la imediatamente voltou-se em direção ao responsável por aquilo; ela nem sequer precisou dar a ordem para que seus homens avançassem contra o que viam como uma ameaça à sua senhora. O homem girou seu bastão em sua mão ao ver aquilo, suspirou, e subitamente lançou-o ao ar. Suas mãos bateram uma na outra, unidas como que em uma oração. Seus braços haviam se dobrado para fazer isso, formado espaço losangular, e foi nesse espaço que o bastão aterrissou, caindo horizontalmente nele, completamente reto, ao mesmo tempo em que os olhos do homem se fecharam.

Para logo em seguida tornarem a se abrir, completamente azuis e brilhantes.

ALOEIRIS: AVATAR! – foram as palavras que vieram de seus lábios, apenas um instante antes que ele começasse a agir. Sua mão apanhou o bastão com uma rapidez sobre-humana, atingindo o queixo de um dos cavaleiros dominados com tanta força que o som dessa se quebrando pôde ser ouvido prontamente, sangue e dentes escapando da boca do guerreiro. Depois, sem hesitação, ele tornou a mover seu bastão, movendo-o horizontalmente e atingindo um par de guerreiros com um poderoso golpe na cintura, arremessando-os longe sem dificuldade alguma. Um dos homens de Lilybell havia conseguido se aproximar o suficiente graças aqueles ataques, e isso lhe permitiu tentar acertar seu oponente, mas ele não chegou nem perto de alcançar seu objetivo. Mal havia ele erguido sua espada, o homem moveu seu bastão de forma a apoiar uma das pontas dele no chão enquanto a outra ponta ia pra cima, levando ele junto, mantendo-o acima de todos de ponta-cabeça. Por um instante ele ficou parado naquela posição, equilibrado em seu bastão através apenas de uma das palmas de sua mão, fitando todos os seus oponentes com aqueles seus olhos azuis. Logo, no entanto, ele escorregou pelo bastão e atingiu o chão ainda de ponta cabeça, apoiando-se em seus braços fortes. Com um chute ele lançou seu bastão para o ar, e logo em seguida ele girou, desferindo chutes para todos os lados de forma indiscriminada, suas pernas parecendo alongarem-se para que ele atingisse seus oponentes. Os homens de Lilybell tentaram avançar contra ele, mas isso era inútil; muito antes que qualquer um deles chegasse sequer perto de tocá-lo, o homem já havia lhes atingido, e um único chute dele era o bastante para jogar qualquer um daqueles ao chão, muitos até mesmo com fraturas expostas em seus crânios, tamanha era a força que ele exercia.

O giro do homem apenas parou quando ele decidiu saltar, dobrando rapidamente seus braços para arremessar-se ao alto, girando. Alguns dos servos de Lilybell tentaram lançar suas armas contra ele em uma tentativa de continuarem com o ataque, mas falharam completamente nisso; a maioria delas nem passou perto de atingi-lo, e as que por algum milagre seguiram realmente em direção a ele foram quebradas em pedaços por chutes rápidos e fortes. O homem aterrissou com uma de suas pernas sobre a cabeça de um dos cavaleiros dominados por Lilybell, equilibrando-se ali perfeitamente sem problema algum enquanto levemente erguia sua outra perna. Diante daquilo, os escravos da donzela não hesitaram em avançar contra ele, erguendo suas armas e liberando gritos de guerra.

Mas no momento em que ela viu a perna do homem no ar subitamente ver-se cercada por chamas azuis estranhas, quase fantasmagóricas, e os olhos azuis dele brilharam com ainda mais intensidade, compreendeu que aquela era uma péssima ideia.

FOGO FANTASMA: FÚRIA DOS DRAGÕES FANTASMAS!

O homem girou ao dizer aquilo, sua perna ainda erguida, e o que se seguiu ali foi simplesmente incrível. A perna rodeada por chamas azuis dele atingiu em cheio todos os que se aproximavam, mas não se limitou a eles – as chamas que cercavam sua perna pareceram se estender conforme a sua necessidade, avançando na forma de dragões azuis contra os inimigos mais distantes, engolindo-os com suas presas abertas, cobrindo-os nas chamas que lhes formavam. Foram três dragões feitos daquelas “chamas fantasmas” que avançaram das chamas ao redor das pernas, e ataque deles apenas durou dois ou três minutos, mas isso foi mais do que o suficiente. Naqueles três minutos, todos os homens que Lilybell havia escravizado foram atingidos pelos dragões, e os corpos de todos queimaram até as cinzas em questão de instantes. Ainda em cima de um dos guerreiros dela, o homem saltou novamente para o ar, apenas verticalmente, apenas para criar uma distância grande o suficiente para que pudesse atacar. O guerreiro da donzela tentou lançar um contra-ataque, mas não teve chance; o brilho do sol acima do homem deixou-o meio cego, e mesmo se não tivesse isso, ele simplesmente não conseguiria fazer nada; o homem veio ao chão com a força e a velocidade de um projétil de catapulta, avançando com um chute reto da sua perna cercada pelo fogo fantasma que quebrou facilmente a espada e armadura do cavaleiro, atingindo-o diretamente no peito e fazendo com que o cheiro de carne queimada reinasse pelo ambiente ao mesmo tempo que este era jogado ao chão.

Foi só depois disso que o homem parou por mais de um instante. Triunfante, ele jazeu sobre o corpo de seu oponente derrotado, cercado pelos corpos de homens que morreram perante seus chutes e pelas cinzas de outros que foram queimados por seu dragão. Suado, com uma de suas pernas ainda ardendo em fogo fantasma que parecia não fazer nada contra ele, o homem tomou um momento para juntar ar antes que um rugido bestial viesse de sua garganta, ressoando por todo o ambiente.

E logo em seguida ele virou-se rapidamente, movendo sua perna cercada por chamas para bloquear o golpe do último servo que restava a Lilybell.

Vaen e o homem se encararam por um momento, e quando fizeram isso, Lilybell compreendeu que eles se conheciam. Por um instante – apenas um misero e rápido instante, como um piscar de olhos – a expressão do homem se anuviou um pouco, se contorceu, e ele pareceu hesitante em lutar com o cavaleiro. Mas logo ele se recuperou, e com sua perna chutou a arma de Vaen com um pouco mais de força, forçando o cavaleiro a se afastar. O cavaleiro era esperto e experiente, no entanto, e usou daquilo como um artifício para preparar um novo ataque... mas o homem estava preparado para ele, também. O tempo que ele obteve ao forçar Vaen a se afastar foi usado para que ele apanhasse seu bastão que caia novamente do céu naquele momento. Segurou-o firmemente e depois lançou seu corpo para trás, pegando impulso o suficiente para lançar um golpe contra Olho de Falcão ao mesmo tempo em que o golpe deste vinha em direção a ele. Os ataques de encontraram com força, gerando um som como o que você esperaria da colisão de dois rinocerontes selvagens, e a mera onda de impacto gerada por eles foi tão forte que Lilybell conseguiu senti-la em sua própria pele, como se ela tivesse sido atingida diretamente por aqueles golpes. Isso é... absolutamente incrível. Estava estupefata, honestamente surpresa. Nunca antes havia visto algo assim, uma demonstração tão grande de força e habilidade quanto a que aqueles homens estavam lhe dando.

– Pelo visto, Dayun conseguiu uma boa alma dessa vez – disse subitamente um tom de voz feminino que parecia trazer ao mesmo tempo bom humor e fúria pura. Virou rapidamente seu rosto na direção da qual havia ouvido aquela voz, e o que lhe recebeu foi a figura de uma mulher de cabelos castanhos, pele clara, segurando em suas mãos uma grande naginata enquanto mantinha em seu rosto um sorriso de orelha a orelha que não era nada natural; olhando para ele, Lilybell tinha a impressão de que os dentes dela estavam manchados de vermelho, por mais que soubesse que esse não era o caso. – Isso é bom. Avatar é uma aposta, mas uma que por vezes se prova muito boa. Pena que não é mais confiável, do contrário Dayun poderia ser até mesmo um Ascendente. Apesar de que, com ou sem Avatar, ele não é nada quando comparado ao meu amado.

Saltou para trás prontamente, criando uma distância que julgasse razoavelmente segura daquela mulher. Não havia visto, ouvido ou sentido a aproximação dela, mas duvidava que ela fosse sua amiga. Até porquê, esse sorriso, esses olhos... essa mulher me perturba, me dá calafrios direto nos ossos. Só de olhar pra ela sentia que a mulher era um problema, e de certa forma, o fato de que ela pareceu não se importa em Lilybell se afastar apenas serviu para deixar-lhe ainda mais desconfortável.

– Quem é você? – perguntou a Baronesa, rangendo os dentes. Droga, droga, droga! Não era uma boa guerreira. Agia normalmente controlando as pessoas e fazendo com que elas fizessem seu trabalho, deixando que elas lutassem suas batalhas. Sendo assim, suas habilidades de combate não eram necessariamente as melhores. E no entanto, não tenho mais escravo nenhum disponível depois do ataque desse tal de Dayun além de Vaen, e ele está ocupado enfrentando esse idiota do “Avatar”. Mesmo que forçasse Vaen a lutar contra ambos, ele apenas seria derrotado e ela estaria com grandes problemas. Devo ganhar tempo. Distrair e ocupar essa mulher o suficiente para que ele acabe com seu oponente e possa realmente me ajudar.

– Meu nome, minha cara senhorita VADIA-MOR, é Chappa, prazer em lhe conhecer! – aquilo foi a confirmação (se é que precisava de uma) de que aquela mulher definitivamente não gostava dela. Quando ela começou a falar, o rosto de Chappa estava perturbador como antes, mas quando ela chegou no “vadia”, seu rosto contorceu-se em uma imagem que Lilybell não conseguia definir como nada menos que demoníaca, seus dentes se tornando presas, seus olhos ardendo em chamas e sua língua se tornando momentaneamente uma cobra de nove cabeças, apenas para que o rosto dela se tornasse completamente calmo e amigável logo depois, ainda melhor do que inicialmente. – Eu, caso você não saiba, sou a noiva do meu amado e magnífico Vaen! ... QUE VOCÊ ROUBOU DE MIM, SUA VACA TETUDA! COMO VOCÊ OUSA ROUBÁ-LO DE MIM?! ELE É MEU! MEU! – os próprios cabelos de Chappa se arrepiaram ao dizer aquelas palavras, e por um instante Lilybell pode jurar que viu o rosto do Deus da Fúria atrás dela, fitando-lhe com olhos cor-de-sangue e cabelos cinzentos. Mas tão rápido quanto Chappa se transformou, ela voltou ao normal. Suspirou, como que para se acalmar, e depois voltou a olhar para Lilybell com o melhor dos sorrisos do mundo... o que só fez com que tudo fosse ainda mais perturbador! – Bom, como você pode ver, eu estou COMPLETAMENTE POSSESSA em relação a tudo isso, então, creio que devo pedir desculpas por TODO O MEU DESEJO SER ARRANCAR SUAS ENTRANHAS COM MINHAS MÃOS E FORÇÁ-LAS PELA SUA GARGANTA!

... Sabe, eu sou Ateísta. Mesmo se não fosse, eu não vejo que bem viria de louvar algum Deus considerando que todos eles estão mortos. Mas, se algum de vocês Deuses estiver vivo por aí e quiser me ajudar agora com essa mulher, sinta-se livre. Geralmente tinha confiança de que era mais do que capaz de derrotar qualquer inimigo que surgisse em seu caminho, mas a situação atual não era necessariamente a melhor que poderia esperar, e por mais que aquela mulher fosse espalhafatosa e exagerada, tinha a ligeira impressão de que ela não seria uma oponente fácil de se derrotar.

– Mas, chega de falar de mim, não é? Vamos falar de você! – disse Chappa, sorridente, assobiando ao fim de sua frase, o que apenas serviu para tornar-lhe ainda mais assustadora. A naginata dela desceu subitamente, e por um momento Lilybell pensou que ela iria tentar lhe atacar com sua arma, mas não foi isso que aconteceu, ao menos não no momento. A lâmina da junção entre uma espada e uma lança brilhou em frente ao seu rosto, reluzindo a imagem de uma bela mulher que parecia temerosa e assustada, fazendo com que Lilybell vacilasse um passo para trás, querendo fazer anda mais do que correr para longe dali tão rápido quando podia. – Diga-me, senhorita vadia... em quantos pedaços devo lhe cortar?!

=====

Ajoelhado no chão frio, Ekhart suava e respirava com dificuldade, cansado devido a tudo que havia sido forçado a fazer em um espaço tão pequeno de tempo. Bom, isso certamente não correu da forma planejada. Havia planejado ajudar de alguma forma o Salão Cinzento naquela batalha, derrotar alguns inimigos, talvez até mesmo derrotar o próprio Balak e dar um fim rápido aquela estúpida caça-aos-demônios... mas Dokurei estava se provando um grande obstáculo. Eu provavelmente poderia lidar com ele se eu me transformasse em um demônio... mas não, não devo fazer isso. Em sua forma de demônio, Ekhart era destrutivo demais, e não faria bem nenhum se acabasse acidentalmente destruindo todo o Salão Cinzento. Além do mais, essa forma atrairia atenção. Não só o Olho Vermelho ia cair em cima de mim, existe uma chance de que até mesmo os cavaleiros tentassem me matar. Por mais forte que ele pudesse ser nesse estado, nem mesmo ele podia esperar ter sozinho força o bastante para derrotar dois exércitos como aqueles.

Balançou sua cabeça para afastar aqueles pensamentos, sabendo muito bem que eles seriam infrutíferos. Não tenho tempo para gastar pensando em planos que não vão funcionar. Tinha de bolar alguma estratégia que pudesse usar, não só para lidar com Dokurei como também para lidar com Glace.

... Aquela marca na testa dele... Havia notado a marca em Glace desde a primeira vez que seus olhos haviam caído sobre ele, mas simplesmente não tivera tempo antes para pensar naquilo. Agora tinha a chance da qual precisava, e não demorou a compreender o que exatamente aquilo significava. Aquela marca... ela é um símbolo de escravidão. Uma magia de controle mental, para ser mais exato. Em um longínquo passado, Ekhart havia sido um mago, muito antes de aprender a dominar os poderes do Coração Negro e usá-los em batalha. Tal como Kastor Strauss havia se formado como um cavaleiro no Salão Cinzento, ele havia se formado como mago no Colégio Branco, um especialista nas artes negras. Raramente usava magia nos dias de hoje, mas ainda tinha conhecimento sobre ela, o suficiente para saber reconhecer marcas como aquela. Pensar que algo assim havia sido feito foi o suficiente para que Ekhart rangesse os dentes, tão irritado quanto enojado por aquilo. Como você foi capaz de descer tão baixo assim, Balak? Usar magias de controle mental? Isso não é só ilegal, mas imoral. Aquela era uma grande ironia do mundo; quando mais jovem, no Salão, Balak era o ídolo de Ekhart, o herói da infância dele, o “genial mago lendário” que ele sonhava em se tornar... era agora o homem que queria a morte de Ekhart por motivos muito além do controle dele.

Foi afastado de seus pensamentos no momento em que seus ouvidos captaram algum tipo de som, por um curto instante. Um som... estranho, um som que ele tinha dificuldades em definir exatamente. Isso foi... o quê? Algo se arrastando? Não... algo... diferente. Como se algo estivesse se quebrando em pedaços. Vidro? Não, não há vidro por perto, não pode ser isso... mas... pode ser outra coisa. Existem outras coisas que podem fazer sons que se assemelham ao de vidro... como... gelo!

Saltou bem a tempo de evitar o que veio a seguir; subitamente, a lateral da casa na qual havia se escondido em busca de um momento de descanso quebrou, destruída facilmente como se não fosse nada. Por ela passou uma mão azulada gigante, tão fria e gélida que tudo que a tocava congelava instantaneamente antes de se quebrar por completo. Shell, de novo?! Aquilo estava se tornando bem preocupante. Pelo que seu serviço de inteligência havia lhe dito, a força que o mago havia demonstrado durante o Torneio de Valhala estava em um nível muito inferior ao que ele estava exibindo. Se a força dele fosse aquilo que me foi reportado, ele não deveria ser nada mais do que um pequeno incômodo, talvez menos mesmo que isso. Mas pelo que estou vendo, ele é um verdadeiro perigo. Se eu não lutar a sério com ele, posso acabar morto em suas mãos.

De qualquer forma, decidiu Ekhart, abrindo seus braços, movendo suas mãos e concentrando seu poder. Não adianta ficar pensando em coisas assim. Tenho de agir.

Canção Impura do Rei da Noite: Terra das Sombras! – anunciou ele, tocando o chão abaixo de seus pés com ambas as suas mãos e deixando que seu poder agisse sobre esse. Em um piscar de olhos o chão de madeira e pedra foi consumido por nada mais do que escuridão, sombras mais escuras do que a própria noite que dominaram tudo em seu caminho e se estenderam. Antes que qualquer um pudesse manifestar qualquer reação a isso, as sombras engoliram toda a casa na qual Ekhart estava, avançando até mais além do que ela. Deu exatamente três segundos a essas sombras, permitindo que elas se estendessem tanto quanto pudessem naquele tempo. E só depois disso prosseguiu com seu ataque: bateu ambas as suas mãos, unindo-as como que em uma oração ou prece. Fechou seus olhos por um momento, e quando tornou a abri-los, eles estavam completamente negros, poços de escuridão sem fundo. – Canção Impura do Rei da Noite: Bestas da Noite!

Foi dizer aquelas palavras e o caos completo reinou. Das sombras que haviam consumido o chão vieram centenas de tentáculos negros, erguendo-se como se fosse partes do corpo de uma besta gigante, destruindo tudo em seu caminho sem problema algum. Destroçando até mesmo o braço gigante de Shell em pedaços quase que instantaneamente, eles fizeram em pedaços a casa que servia até então como abrigo para Ekhart, e depois que isso aconteceu, depois que se viram com espaço, eles assumiram sua verdadeira forma. Os tentáculos negros se contorceram como se estivessem sofrendo espasmos, sua forma se alterou, seus “corpos” ganharam mais massa; tentáculos de sombras se transformaram em verdadeiras bestas de sombras, suas formas lembrando a de lobos, tigres, ursos, dragões, tubarões, todo tipo de predadores. Todas as inúmeras bestas formadas pelas sombras que ele comandava rugiram, o som que veio de suas “gargantas” sendo alto o suficiente para ensurdecer qualquer um e forte o bastante para fazer com que os joelhos do mais duro e corajoso guerreiro tremessem. Elas gastaram não mais do que um instante farejando o ar, cheirando por sua presa, e logo depois, avançaram.

Logo viu Shell saltando ao ar, desviando da investida de algumas de bestas. Duas delas – um tigre e um lobo – avançaram contra o homem enquanto ele estava no ar, abrindo suas presas como se planejassem engoli-lo inteiro de uma única vez, mas as coisas não seriam tão simples assim. Em meio ao ar, Shell esticou suas mãos, rodeadas por um ar gélido, e fechando os olhos ele começou a murmurar qualquer coisa que Ekhart simplesmente não conseguiu ouvir. Por longos momentos não soube o que estava acontecendo ali ou o que ele tentava fazer, mas logo teve sua resposta; quando as bestas das sombras estavam prestes a atingi-lo, preste a engoli-lo, duas palavras vieram dos lábios do homem.

ERA GLACIAL! – foi o que ele disse, e mesmo de onde estava, sentiu o frio e o poder que Shell emitiu com aquelas palavras. Em um piscar de olhos, uma plataforma de gelo surgiu abaixo dos pés do homem, dando-lhe um bom e firme apoio, ao mesmo tempo em que as bestas que haviam tentado atingi-lo brilhavam, congeladas completamente de forma instantânea. Uma de suas sobrancelhas não pode deixar de se erguer diante daquilo, tão surpresa quanto intrigada. Ele é capaz de congelar até mesmo sombras? Interessante. Era verdade que suas bestas das sombras eram um tanto mais sólidas do que uma sombra normal para que pudessem causar dano aos seus inimigos, mas isso não fazia com que aquilo deixasse de ser impressionante.

Veneno Ácido... – as palavras serviram como um lembrete de que aquela era uma luta de dois contra um, não que Ekhart necessitasse de algo assim. Virou-se em centro e oitenta graus, bem a tempo de ver Dokurei no ar, sorrindo, seu braço direito jogado para trás, revestido por veneno escarlate. – DRAGÃO DA MORTE!

Todo o veneno concentrado em seu braço foi lançado de uma vez com um único movimento, liberando-se na monstruosa forma de um grande dragão escarlate feito de puro veneno ácido, abrindo suas presas de forma ameaçadora ao mesmo tempo em que parecia estar derretendo ele mesmo. Uma visão assustadora, pensou Ekhart por um momento. Mas um ataque desses não vai funcionar contra mim enquanto eu estiver alerta, Dokurei.

Canção Impura do Rei da Noite: Buraco Negro. – estalou seus dedos, e imediatamente sua sombra se moveu. Como se tivesse obtido vida própria por um momento, ela se esticou, movendo para a frente de Ekhart e depois para cima, espalhando-se no ar como que para formar um espelho ou uma parede na frente do Coração Negro. Não era nenhum dos dois, no entanto. Se eu tivesse de definir isso, eu o definiria como... um vazio. Um buraco no ar. Isso é literalmente um buraco negro. Um buraco negro do qual você não pode escapar.

Foi exatamente esse buraco negro que engoliu o “dragão da morte” de Dokurei como se esse não fosse nada.

Teve de admitir; foi engraçado (muito engraçado) ver a expressão no rosto de Dokurei ao ver aquilo, sem poder acreditar que seu ataque havia sido detido de forma tão fácil e simples. No entanto, Ekhart havia aprendido com seus erros, e estava mais do que determinado a não perder o foco do que era realmente importante de novo. Ergueu e apontou na direção de Dokurei com dois de seus dedos, e prontamente o homem adotou uma posição defensiva. Ele provavelmente que estou apontando para ele em preparação para um ataque, e por isso busca se defender. Isso também era engraçado, de certa forma; estava realmente preparando um ataque, mas não estava apontando para Dokurei; estava apontando pra trás de Dokurei.

Retorno! – uma expressão de confusão brilhou no rosto de Dokurei por um momento ao ouvir aquilo, mas era mais do que tarde demais para que ele expressasse algum tipo de reação a isso. Um novo buraco negro surgiu atrás dele, mas ao contrário do primeiro buraco que sugava as coisas, aquele as liberava. “Buraco Negro” é uma técnica que requer concentração e uma ligação forte para que ela possa sugar as coisas, então sou forçado a usá-la apenas perto de mim, o que limita muito o potencial ofensivo dela. “Retorno”, no entanto, consiste em apenas soltar o que foi engolido pelo Buraco Negro, e por ser tão mais simples eu sou capaz de usar essa técnica em qualquer ponto que meu campo de visão alcance.

O dragão feito de veneno que havia absorvido antes emergiu do “Retorno” com a mesma agressividade que ele tinha no momento em que foi engolido pelo Buraco Negro, só que ao invés de atingir Ekhart, ele atingiu seu próprio mestre e criador. A expressão no rosto de Dokurei quando este foi atingido por seu próprio ataque e erguido alto no ar por ele foi impagável, mas infelizmente ela não durou muito. O dragão acendeu com Dokurei preso entre suas presas, como se planejasse devorá-lo no céu, mas antes que pudesse o fazer, todo o veneno que formavam seu corpo perdeu toda sua consistência, escorrendo e caindo no chão como água de imediato, trazendo Dokurei junto consigo. Apesar de líquido, o veneno ainda era tão ácido quanto antes, e Ekhart pode verificar isso com seus próprios olhos, tendo uma visão privilegiada de onde estava de como o veneno corroía tudo que tocava até os mínimos detalhes, mas nem mesmo todo esse poder pareceu fazer alguma coisa contra o Demônio Escarlate; Dokurei se ergueu, banhado no líquido cinzento de seu veneno, mas ao mesmo tempo parecendo não ter sofrido nada por aquilo se não ficado tremendamente irritado.

– Seu... desgraçado das sombras! – as palavras de Dokurei vieram acompanhadas de respirações profundas, aparentemente não por uma questão como falta de ar ou coisa do tipo, mas sim porquê o homem estava tentando usá-las para se acalmar. – Você... achou que algo assim fosse me deter?!

– Francamente? Sim. – foi bem franco em sua resposta, observando a forma como o homem havia emergido ileso depois de receber um ataque como aquele sem fazer esforços para conter sua surpresa.

Um leve sorriso surgiu no rosto de seu oponente ao ouvir aquelas palavras, como se aquilo lhe divertisse.

– Isso apenas mostra o quanto você é estúpido, bastardo das sombras – zombou Dokurei, mostrando mais um de seus sorrisos animalescos enquanto falava. – Eu sou o Demônio Escarlate, o Senhor do Veneno. Qualquer idiota saberia que veneno seria inútil contra mim.

– Poderia parar de me chamar de coisas como “idiota” ou “estúpido”, por favor? – perguntou Ekhart, mantendo uma feição aborrecida em seu rosto enquanto sorria internamente, satisfeito desde já com o que iria fazer. – Eu normalmente consigo ignorar ofensas tão infantis assim sem problemas, mas elas são particularmente ofensivas quando vem de alguém que acabou de ser atingido por seu próprio ataque.

Aquilo visivelmente irritou Dokurei. Bastante. O suficiente para fazer com que Ekhart se arrependesse quase que imediatamente de sua decisão. A feição do Demônio Escarlate se tornou uma máscara de pura fúria e ele ergueu uma de suas mãos, apontando com seu indicador e o pai de todos para cima. Como que se isso fosse uma ordem, o veneno líquido que ele havia criado antes reagiu a isso, parecendo criar vida própria e seguindo como uma estranha geleia para o ponto que ele apontava. Não sabia se aquilo era magia, Aloeiris ou algum outro tipo de habilidade estranha, mas o veneno parou em meio ao ar, flutuando tranquilamente ali, mantendo a forma de uma estranha esfera escarlate. Isso... não me parece bom. Sentiu uma gota de suor correr por seu rosto, principalmente no momento em que mais veneno surgiu ao redor do corpo de Dokurei e seguiu também para juntar-se ao resto, fazendo com que a esfera crescesse cada vez mais. Enquanto via aquilo, Ekhart sabia que ele não devia simplesmente ficar parado como estava – sabia que ele devia lançar algum ataque contra seu oponente, pará-lo, interrompê-lo de alguma forma, sabia que não devia dar a chance de Dokurei fazer o que queria, mas não pode fazer isso. Apesar de saber que aquilo era tremendamente perigoso e que devia interromper, sentia um estranho fascínio pelo que o homem estava fazendo, uma curiosidade em ver o que ele faria exatamente.

Se arrependeu rapidamente disso.

GRANDE GUARDIÃO DOS PORTÕES DA MORTE, ESPÍRITO DO DESESPERO E DA PERDIÇÃO... VENENO ÁCIDO: GHOUL!

À ordem de Dokurei, todo o veneno concentrado no ar por ele começou a agir. A grande esfera escarlate que ele havia reunido pulsou por uma, duas, três vezes, como se fosse o grande coração de uma besta que havia acabado de ganhar vida... e então ela se expandiu. Tomando a esfera como um ponto de centro, um grande braço feio de puro veneno veio da direita dela, seguido por um braço idêntico que veio da esquerda. A massa venenosa se estendeu ainda mais, expandindo-se de forma tão grande que ela difícil de acreditar que isso provinha apenas daquela esfera, formando um grande torso de um lado e pernas do outro, formando um corpo gigante de veneno. A cabeça foi a última coisa a se mostrar do meio de tudo isso, e essa foi de longe a mais assustadora. Quando aquela figura estava concluída, o que se mostrou foi um corpo gigantesco de veneno, como um grande homem morto corrompido e desesperado. Um grito forte veio de sua garganta, parecendo ao mesmo tempo aterrorizador e agonizado, e a simples força da onda sonora dele foi o suficiente para fazer com que tudo estremecesse e que pedaços de concreto se quebrassem. Isso é... problemático. Franziu o cenho, dobrando as suas pernas em preparação, sabendo que podia ser forçado a esquivar de algum grande ataque a qualquer momento e que definitivamente não queria ser acertado por aquilo. Mesmo desconsiderando a aparência disso, o poder que sinto vindo dessa coisa é grande demais para que eu possa esperar lidar com isso em minha forma humana. Precisaria usar de seus poderes demoníacos para ter uma chance contra aquilo, e infelizmente, isso já não era mais uma questão de escolha. Querendo ou não, eu vou ter de fazer isso.

– Agora você morre, seu bastardo das sombras! – rugiu Dokurei, sorrindo em satisfação. Sua mão que apontava para cima moveu-se, passando a apontar diretamente para Ekhart. – GHOUL! Ouça meu comando, obedeça as ordens de seu mestre! Esmague esse idiota até o pó!

A abominação de veneno que ele havia criado reagiu prontamente ao comando de Dokurei. Um novo grito veio dela, apenas um momento antes que ela se movesse. Um de seus braços se ergueu apenas para tornar a descer, caindo contra Ekhart, encobrindo todo o sol e o céu com puro veneno escarlate. Manteve nervos frios diante disso. Ao invés de se desesperar, o que fez foi ficar parado aonde estava, firme, e concentrar energia. As sombras ao seu redor começaram a obedecer sua vontade, dançado a sua volta, entrando dentro de seu corpo, tornando-se um com Ekhart. Sua pele se tornou completamente negra, tal como seus olhos; a única coisa branca que restou em seu corpo foram seus cabelos, mas nem mesmo isso iria durar muito. Gallashkulah, você está pronto, não está?

Eu estou sempre pronto para lhe ajudar, Ekhart, disse a voz do demônio em seu interior, seu melhor amigo. Coração Negro.

Canção Impura do Rei da Noite: Reinado Eterno do Demônio Negro.

O monstro de veneno criado por Dokurei estava prestes a esmagar Ekhart com sua mão àquele ponto, mais o poder que fluiu do corpo do Coração Negro foi o suficiente para jogar sua mão para longe, refleti-la como se houvesse batido de frente com uma parede. As trevas que sempre cercavam Ekhart se propagaram de uma vez muito mais do que antes, e em um segundo todo o chão foi consumido por uma escuridão profunda e absoluta, reinando sobre tudo que os olhos podiam ver. Dokurei olhou ao redor, medo e surpresa claros em seu rosto, mas não deu atenção a ele. Grunhidos e gritos de dor escaparam de seus lábios, a dor causada pelo que a transformação causava a ele. Uma dor doce, uma dor que fez com que um sorriso viesse aos seus lábios.

A escuridão que havia consumido todo o chão voltou ao seu dono. De todos os cantos, se todos os lugares, elas retornaram a Ekhart, achando seu caminho até o Coração Negro e adentrando dele por todos os pontos possíveis. Por suas narinas, por sua boca, por seus ouvidos, por sua pele... as trevas e a escuridão se misturaram a ele, e a medida que iam fazendo isso, as próprias trevas assumiram por si só uma constituição mais sólida. Enquanto parte delas agiram dentro do corpo de Ekhart, fazendo com que ele se expandisse, fazendo com que dois buracos se abrissem em suas costas para que a estrutura óssea de suas asas se mostrasse, outra parte das trevas agiram do lado de fora, formando uma espécie de armadura negra ao redor dele... não, não uma armadura, mas uma segunda pela, fazendo com que a massa de seu corpo se ampliasse e que sua figura se transformasse.

Um grito final de dor veio da garganta de Ekhart, ecoando por toda a cidade dos cavaleiros, e ele jogou sua cabeça para trás. As trevas não perderam tempo em envolve-la, e uma máscara negra surgiu ali, cobrindo seu crânio, com dois olhos que mostravam nada mais do que poças de completa escuridão. Bateu suas asas como as de um grande morcego e moveu seus olhos para fitar sua mão, agora transformada em garras negras de uma besta, capazes de cortar qualquer coisa que ele quisesse. Depois ergueu seu rosto e fitou seu oponente, viu a expressão de pânico no rosto de Dokurei. Forte e experiente, o homem já havia visto muito em sua vida... mas Ekhart era capaz de apostar que nunca havia visto algo exatamente como aquilo.

– Mas... que merda... que porra é essa?! – exclamou ele, tão confuso quanto aterrorizado. – O que porra é você, seu merda?!

Eu? – a voz de Ekhart ecoou, não sendo mais apenas a voz dele, mas sim uma mistura entre a voz do hospedeiro e do demônio em seu interior, ambas soando simultaneamente como uma e ao mesmo tempo separadas. – Eu sou o Demônio Negro, moleque. E este... – abriu suas asas e olhou ao redor para mostrar exatamente ao que se referia. Apesar de todas as trevas que haviam voltado ao seu corpo para a transformação, ainda havia muita escuridão que dominava toda a área, e as trevas ainda dançavam e se divertiam ao redor deles. – Este é o meu reino. – deu um passo em direção ao homem, e o simples peso do poder que ele manejava naquele momento foi o suficiente para fazer com que uma pequena cratera surgisse abaixo de seu pé. – Ajoelhe-se perante a mim, humano, e talvez eu lhe agracie com misericórdia.



Notas finais do capítulo

ÁREA OESTE:

Enderthorn VS Octo Gall (Vencedor: Enderthorn)
Enderthorn VS Raptor (Em andamento)
Vaen VS Lilybell (Vencedora: Lilybell)
Jiazz VS Maoh (Vencedor: Jiazz)
Senjur VS Reivjak (Em andamento)
Chappa e Dayun VS Lilybell e Vaen (Em andamento)

ÁREA SUL

Kuman VS Fera (Vencedor: Fera)
Skylar VS Fera (Vencedor: Skylar)
Skylar VS Cleus (Vencedor: Cleus)
War e Coralina VS Nicholas (Vencedores: War e Coralina)
Trevor VS Maverick (Vencedor: Trevor)
War, Coralina, Ogre, Ekhart e Clone das Sombras VS Agnes, Ibur e Dokurei (Fragmentada)
War e Coralina VS Agnes (Vencedor: War)
War VS Ibur (Vencedor: Ibur)
Ogre VS Ibur (Em andamento)
Ekhart VS Dokurei e Shell (Em andamento)
Bokuto VS Zodwik (Vencedor: Bokuto)
Bokuto VS T.I.T.A.N. (Vencedor: Bokuto)
Valery e Goa VS Cleus (Em andamento)

ÁREA LESTE

Alexander VS Goliath (Vencedor: Alexander)
Alexander VS Steelex (Vencedor: Steelex)
Eldigan VS Steelex (Vencedor: Steelex)
Soulcairn VS Steelex (Vencedor: Soulcairn)
Soulcairn VS Bertold (Em andamento)
Zephyr VS Balak (Vencedor: Balak)
Kazegami VS J (Empate)
Florian VS Tristah e Behemoth (Em andamento)



Hey! Que tal deixar um comentário na história?
Por não receberem novos comentários em suas histórias, muitos autores desanimam e param de postar. Não deixe a história "O Olho Vermelho" morrer!
Para comentar e incentivar o autor, cadastre-se ou entre em sua conta.