O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 30
O Gigante de Pedra


Notas iniciais do capítulo

As coisas vão piorar muito antes de melhorar



O jovem cavaleiro à frente de Balak tinha um sorriso no rosto e parecia bem confiante, mas apesar disso, o líder do Olho Vermelho não tinha nenhum receio quanto a enfrenta-lo, apesar de nem por isso cometia o erro de subestimá-lo. O fato dele estar diante de pessoas tão poderosas como eu e Tristah e ainda manter esse ar confiante significa que ele deve ser bem capaz. Ao menos até agora o homem não havia exibido nenhum sinal de poder que pudesse categorizá-lo como uma ameaça ou até mesmo um oponente para Balak, mas não se permitia pensar pouco dele só por causa disso. O mundo é cheio de pessoas com habilidades estranhas e poderosas. Muitas não parecem ter tanto poder quanto tem. Outras escondem o seu poder para terem uma certa vantagem em suas lutas. Não sei qual é o caso dele, mas sei que devo ser cuidadoso.

E no entanto, isso também estabelecia certas... complicações. Não tinha tempo para perder ali, parado lutando contra um cavaleiro menor; o fato de não saber quem ele era significava que não se tratava de nenhum dos Ascendentes ou de um dos líderes, e isso por sua vez significava que não fazia jus que Balak desperdiçasse tempo com ele. E ao mesmo tempo, não queria ser descuidado ao ponto de deixar Tristah lidar com ele; a mulher era poderosa e esperta, mas haviam vários riscos envolvidos em algo assim, riscos que ele preferia evitar se possível.

Isso dito, o cavaleiro não parecia necessariamente disposto a dar tempo para que Balak pensasse.

– Oh... um mago, hum? Não... dois magos, eu acho. Você e a mulher. – o sorriso que aquele cavaleiro já trazia no rosto se alargou ainda mais, exibindo uma porção ainda maior dos afiados dentes brancos que ele tinha. Aqueles dentes perturbavam Balak um pouco, tinha de admitir; eles eram afiados demais, mais similares aos olhos de um tubarão do que os de um homem. – Considerando a postura de vocês, o fato de estarem tão relaxados e o óbvio poder que sinto vindo de vocês, chuto que um dos dois está associado a um dos líderes inimigos, certo?

Foi a vez de Balak sorrir ao ouvir aquilo. Associado a um dos líderes? Bem, creio que devo lhe dar pontos já que sua suposição não está tão longe assim da verdade, mas isso não deixa de ser irônico.

– Isso é certo de certa forma – apontou calmamente Balak, ajeitando seus óculos com a ponta de seus dedos enquanto falava. Enquanto fazia isso com sua mão direita, sua mão esquerda moveu-se para gesticular em direção à Tristah, como se ele estivesse a apresentando. – Essa bela mulher que está ao meu lado, Tristah, está realmente associada a um dos líderes inimigos... o líder, na verdade. Eu. – curvou a metade superior de seu corpo de forma respeitosa e educada, mantendo a todo momento um sorriso arrogante em sua face. Conhecia as pessoas e sabia como determinadas palavras e ações as afetavam; sabia que uma demonstração de arrogância era o suficiente para irritar a maioria das pessoas, e uma pessoa irritada era propensa a cometer erros. Metade da força de Balak provinha da sua habilidade de propositalmente irritar seus oponentes e induzi-los a cometer erros, o que lhe permitia ter vantagens constantemente e derrotar oponentes que, em situações normais, ele nunca derrotaria. – Prazer em lhe conhecer, cavaleiro. Meu nome é Balak Hauss, líder do Olho Vermelho e Tecelão do Colégio Branco. E você seria...?

– Zephyr – disse o homem, estufando o peito, cheio de si. – Zephyr Yvolheim, Primeiro Cavaleiro da Quinquagésima Sétima leva do Salão Cinzento. – e depois de apresentar-se, inclinou seu rosto, olhando para Balak com um olhar fascinado e divertindo enquanto corria os dedos por seu queixo, coçando-o levemente. – Interessante... muito interessante. Eu suponho que as relações do Salão e do Colégio nunca foram necessariamente boas, mas devo dizer que eu não consigo deixar de achar bem interessante o fato dos chefes de lá estarem dispostos a começar uma guerra conosco assim, abertamente.

– Uma guerra? Não, não. – abanou sua mão em resposta a isso, um gesto para demonstrar o quão fora da realidade se encontrava aquela hipótese. – Posso ser um Tecelão, mas não estou representando os interesses do Colégio Branco aqui, apenas os meus.

– Não creio que isso vai importar muito. Depois que eu te matar e apresentarmos sua cabeça, eles vão ter algumas explicações a dar – apontou Zephyr de forma arrogante.

– Isso só acontece se você me matar – retrucou Balak, sorridente. Dois podem jogar o jogo da arrogância. Você faria bem em não tentar me derrotar nele. – E além do mais... você não devia realmente se preocupar com uma possível guerra com o Colégio Branco. Quando eu terminar aqui, o Salão Cinzento não vai mais existir.

Pensou que essas palavras provocariam alguma reação do homem, mas aparentemente estava enganado quanto a isso. O sorriso no rosto dele cresceu, sim, mas além isso, tudo o que ele fez foi colocar as mãos nos bolsos da calça e esticar seu pescoço para cima, como se estivesse desafiando Balak a lhe atacar. Hum... esse é esperto. Ele não perde a cabeça tão facilmente. Não podia dizer que estava realmente satisfeito com aquilo. Esperto assim, confiante, apesar de não demonstrar muito poder... é, esse me parece um oponente perigoso. Aquilo decidia o curso de ação, pelo menos.

– Tristah – disse Balak, sem tirar os olhos de Zephyr por nem um único instante. Considerando o que já havia visto dele, suspeitava que não fazer isso seria um risco do qual Balak não viveria o suficiente para se arrepender. – Parece que vou ficar ocupado aqui por um tempo. Se importa em ir na frente? Eu lhe alcançarei em breve.

Não olhou para ela, mas sentiu o olhar que ela lançou em sua direção. Isso não durou muito. Logo ouviu os sons dos passos dela se afastando, e as palavras da mulher confirmaram suas suspeitas.

– Muito bem, se você diz... acho que posso reencontrar nosso velho amigo. – disse ela, se afastando. – Apenas prometa que não vai morrer ou perder membros aqui. Eu nunca te perdoaria se isso acontecesse.

– Eu nunca me perdoaria se um homem como esse me derrotasse – retrucou Balak, sorrindo. – Não se preocupe com isso.

Para sua sorte, Zephyr não se moveu enquanto ela estava por perto, aparentemente respeitando os desejos de Balak de não envolve-la na luta. Esperaram por alguns momentos em silêncio absoluto, antes que finalmente o homem se manifestasse: seus braços se descruzaram, e com sua mão direita ele começou a desembainhar sua espada. Aquela ação foi uma clara declaração do início da luta, mas apesar disso, não reagiu. Queria observar as coisas primeiro, ver do que seu oponente era capaz.

– Então, espero que essa garota não seja sua garota, Balak – comentou alegremente Zephyr, como se estivesse falando com um velho amigo. – Quero dizer, ela é jovem e bonita, o que é bom, e é exatamente por isso que seria uma pena transformar uma garota como ela em viúva.

A provocação entrou por um ouvido e saiu pelo outro. Estava ocupado demais em observar os movimentos do homem para distrair-se com aquilo. A espada foi enfim retirada por completo, uma lâmina de aço perfeitamente normal até onde Balak podia ver e sentir, aparentemente sem incrementos. Zephyr observou-a por um momento ou dois como se estivesse admirando-a, antes de voltar-se para Balak com um brilho malicioso no olhar. E então, subitamente, a mão que segurava sua espada moveu-se, fazendo um rápido corte no ar em direção à Balak.

No momento em que aquele gesto foi feito, Balak não perdeu tempo em saltar para o lado, esquivando-se de qualquer possível ataque que o homem tivesse lançado contra ele. E no entanto... não viu nem sentiu nada. Se ele tivesse feito algum tipo de corte aéreo, eu deveria poder ver o movimento do ar. Se algum tipo de onda de energia foi emitida por sua espada, eu deveria poder vê-la ou senti-la. Mas não sentia nada e via menos ainda, e isso lhe deixava confuso. O que foi isso, afinal? Um simples gesto? Uma provocação? Talvez Zephyr quisesse provocar Balak a partir para a ofensiva... ou talvez ele estivesse tentando brincar com os nervos de seu oponente, deixa-lo nervoso e ansioso antes da verdadeira luta. Tenho de tomar cuidado e ser menos paranoico. Ser cauteloso é bom, mas só até certo ponto. Preciso manter minha cabeça fr-

Seus pensamentos chegaram à um fim quando um corte longo surgiu sem aviso em seu peito, rasgando sua roupa e carne, deixando sangue jorrar da ferida.

A força por trás do golpe foi o suficiente para que as pernas de Balak bambeassem e o mago vacilasse um passo para trás, em dor e confusão. Como? Não havia sentido o ataque, e tinha certeza de que tinha se esquivado de qualquer tipo de golpe que o homem pudesse ter lançado contra ele antes... e no entanto, havia sido ferido, e por um golpe forte. Isso não faz sentido... que tipo de técnica ele usou?!

Sentindo uma irritação começar a surgir em seu ser, ergueu seu rosto para fitar Zephyr, apenas para ser recebido por um sorriso sarcástico e arrogante do homem.

– Lei de Dez – disse ele, girando sua espada na mão, a lâmina dela subitamente manchada de sangue. – Os primeiros dez ataques de Zephyr Yvolheim irão sempre acertar, independente da distância entre ele e seu oponente, e todos eles serão acertos críticos.

=====

Chamas arroxeadas avançaram contra Enderthorn da palma da mão de Octo Gall, enquanto o Obscuro se ocupava em recitar algum tipo de estranho encantamento do livro de magia negra. Esquivou-se delas com facilidade, saltando para cima de uma das casas próximas afim de criar uma certa distância entre ele e seu oponente... e no momento em que ergueu os olhos para fita-lo novamente, Octo Gall havia desaparecido. Hmm... não me lembro de ter ouvido passos dele se movendo. Supunha que talvez o som do ataque pudesse ter escondido os movimentos dele, mas era difícil acreditar nisso; normalmente tinha bons ouvidos, e depois que havia ingerido sangue, sua audição ficava ainda melhor. Isso significa que ou ele possui pés muito leves ou ele possui algum tipo de magia ou habilidade de movimentação. E se for esse o caso, então eu acho que posso prever seus movimentos.

Virou-se rapidamente para trás, bem a tempo de ver a figura de Octo parada em pé bem atrás dele, sua mão aberta, cercada por chamas arroxeadas, apontada em direção a cabeça de Enderthorn. Os olhos do Obscuro pareceram brilhar no momento em que ele viu que seu oponente havia lhe localizado, mas isso não foi o suficiente para que ele desistisse do seu plano. Sua mão brilhou por um momento, preparando o ataque, e no instante em que viu isso, Enderthorn também fez seu movimento.

O punho de seu oponente foi cortado, as chamas que o cercavam morrendo imediatamente enquanto ele caia ao chão. Octo vacilou diante daquilo, tentou recuar, e isso deu à Enderthorn a chance que precisava; moveu sua espada e seguiu para o ataque, movendo-a em direção ao pescoço dele. Ao contrário da maioria dos cavaleiros, não era alguém que tinha nenhum tipo de gosto particular pela luta. Para ele, a batalha era uma necessidade da humanidade; algo que devia e iria acontecer, querendo ou não, mas que ao mesmo tempo não era bom, e por isso devia ser terminada tão rápido quanto possível. E que forma melhor de terminar uma batalha rapidamente do que decapitando seu oponente?

Uma mão segurou a lâmina de sua arma antes que pudesse fazer isso, entretanto. Não uma das mãos de Octo, não; uma dessas ainda segurava o livro de magia negra enquanto a outra jazia caída no chão. Não, a mão que segurou sua espada era uma mão... decaída. A mão e o braço que a acompanhavam eram magérrimos, praticamente só carne e osso, e até mesmo a carne faltavam em vários pontos. Sua pele era acinzentada e as várias feridas que se espalhavam pelo braço não sangravam, mas possuíam vermes e insetos que rastejavam por ele. Aquilo tudo por si só já era mais do que o suficiente para dar uma boa dica do que era aquilo, mas como se não fosse evidente o suficiente, conseguia ver o braço vindo das costas de Octo... ou, mais especificamente, do caixão nas costas dele. Tal como eu pensei, refletiu Enderthorn, franzindo o cenho. Magia negra.

Com alguns movimentos bruscos e cheios de força ele libertou sua espada e decepou a mão que havia lhe segurado, mas já era tarde demais a esse tempo. No momento em que ele cortou a mão, Octo já estava saltando para trás, afastando-se de Enderthorn a uma distância segura. Encarou-o com olhos avaliativos e por um momento considerou avançar novamente atrás dele e tentar pôr fim a tudo aquilo de uma vez, mas decidiu contra isso. Antes ele estava despreparado para mim, mas o mesmo não vale agora. Ele possui magia negra a sua disposição – isso é algo que tenho de respeitar, querendo ou não. Não podia se dar ao luxo de cometer erros lutando contra um oponente contra aquele, e em geral, não havia erro maior que alguém pudesse cometer em uma batalha do que avançar de frente contra um oponente preparado.

– Impressionante – murmurou Gall, observando Ender com um olhar cauteloso. A postura do mago procurava parecer relaxada, mas aquilo não lhe enganava; apesar de tudo que ele procurava aparentar, conseguia ver certo nervosismo por trás daquela fachada, algo que deixava claro que as coisas não estavam ocorrendo da forma esperada por ele. – Eu sabia que você era poderoso, Enderthorn, mas devo admitir... eu não esperava que fosse tão forte assim. Eu não esperava lhe derrotar intocado, mas também não pensei que você iria cortar meu punho assim tão facilmente. Verdadeiramente impressionante.

– A próxima coisa que eu cortarei não vai ser seu punho – advertiu Ender, afiando seus olhos. Ergueu sua espada e apontou a ponta dela para o pescoço de seu oponente, girando-a em sua mão. – Da próxima que minha lâmina tocar sua carne, sua cabeça vai rolar, necromante.

Octo Gall mostrou um leve sorrisinho ao ouvir aquilo, um sorrisinho que Ender honestamente não soube classificar como nervoso ou irônico ou divertido. Os olhos do homem caíram sobre seu punho no chão, e no instante em que isso aconteceu, uma espécie de tentáculos negros saíram da área decepada dele. Ergueu uma sobrancelha perante a isso, mas não ficou muito surpreso. Mas é claro – ele usa magia negra. Eu devo esperar coisas bizarras e asquerosas vindas de um homem bizarro e asqueroso como ele. Os tentáculos se debateram por alguns momentos, debatendo-se como se fossem coisas vivas, antes que eles finalmente parecessem entender sua função. Eles subitamente se alongaram, e sem hesitação eles avançaram para o coto de Octo, que ainda sangrava bastante. Suas pontas perfuraram violentamente a carne no necromante, fazendo com que uma careta de dor cruzasse o rosto desse por um instante, antes que eles então parecessem se retrair, puxando o punho de volta. Em um piscar de olhos, o punho decepado de Octo Gall estava de volta ao seu lugar de origem, como se nada nunca tivesse acontecido.

– Esse processo é bem doloroso, Enderthorn – as páginas do livro negro de Octo Gall brilharam com seu brilho arroxeado e passaram-se sozinhas, como se uma ventania estivesse as movendo, tudo isso enquanto o punho recém-recuperado de Gall segurava e estalava seu pescoço. – Eu realmente esperava que você não me forçasse a passar por ele, mas... bom, creio que não há sentido em chorar pelo leite derramado, certo? – o brilho do livro se intensificou e os próprios olhos de Gall assumiram esse mesmo brilho simultaneamente. Com sua mão recuperada o necromante estalou os dedos, e no momento em que ele fez isso, oito braços decadentes emergiram caixão em suas costas. Finos e longos, quatro da direita e quatro da esquerda, os oito braços faziam com que ele parecesse algum tipo de aranha gigante ou coisa do tipo. Não demonstrou medo perante a isso, mas mentalmente preparou-se para uma luta dura. Isso não vai ser fácil. – Hora de retribuir o favor, não concorda?

Chamas arroxeadas envolveram novamente o braço de Gall, mas não teve tempo para se preocupar com algo assim. As oito mãos decadentes se abriram, e das palmas de cada uma delas vieram bolas de energia negra, disparadas contra Ender como se fossem flechas. Rangeu seus dentes, dobrou rapidamente seus joelhos e pôs-se a agir.

Inicialmente tentou evita-las simplesmente saltando para cima, mas logo viu o quão inútil era aquilo. No momento em que saltou as bolas alteraram completamente sua trajetória, seguindo prontamente em direção a ele como se estivessem vivas e conscientes de seus deveres. Ataques guiados, hein? Nada mal. Mas longe de ser o suficiente! Quando a primeira delas tentou acertar-lhe, moveu sua espada contra ela; a lâmina de aço cortou facilmente a energia negra, fazendo com que ela se dissipasse como se fosse feita de fumaça. Vendo que seu plano havia dado certo, não perdeu tempo; girou no ar de forma que seu rosto apontasse na direção contrária – em direção ao seu oponente – e flexionou suas pernas com tanta força que, quando as liberou, exerceu uma pressão sobre o próprio ar tão grande que foi arremessado em direção ao seu adversário. Ainda haviam mais bolas de energia negra em seu caminho, mas agora que tinha a certeza de que sua espada podia lidar com elas, não teve nenhuma hesitação; uma a uma elas foram cortadas por Ender, abrindo caminho até seu oponente.

E no entanto, quando estava quase chegando a ele, Octo Gall sorriu. Seus olhos foram consumidos por energia negra e com sua mão ele apontou dois dedos em direção a Ender, dedos envoltos em chamas arroxeadas como se fossem feitos delas.

Magia da Morte: Podridão! – anunciou ele em voz alta, um momento antes que as chamas ao redor de seu dedo servissem como ponto de foco para uma explosão de chamas arroxeadas que se espalharam por todo o ambiente e brilharam forte, quase fazendo com que Ender tivesse de fechar seus olhos. Conseguia sentir o poder que emanava daquelas chamas de longe, e ele certamente era algo preocupante, mas não foi aquilo que lhe assustou. Não, o que assustou Enderthorn foram as caveiras formadas por chamas arroxeadas que saíram da explosão, avançando contra ele com suas bocas bem abertas, prontas para devorar sua alma.

Tch! – grunhiu ele, girando novamente seu corpo para que sua cabeça apontasse na direção contrária à das caveiras e flexionando novamente suas pernas para lançar seu corpo pra longe delas. Isso é problemático. Magia negra é realmente tão problemática quanto eu pensei. Arriscou um olhar em direção as caveiras enquanto se afastava, e o que viu não lhe deixou nem um pouco satisfeito; apesar da grande velocidade com a qual se movia, as caveiras lhe acompanhavam sem problema algum. Na verdade, por mais de uma vez ele teve a impressão de que elas estavam até mesmo sendo mais rápidas do que ele, e isso era algo que preocupava muito Ender. Tch, maldição! ... Não tenho escolha, eu vou ter de usar aquilo!

Girou seu corpo no ar por uma terceira vez, dessa vez não pra lançar-se em uma direção em específica. Girou seu corpo para que pudesse para com os dois pés firmes no chão por um momento, apenas o suficiente para que pudesse olhar bem para as caveiras e avaliar corretamente a velocidade dessas. Realmente, mais rápidas do que eu. Merda. Não queria usar aquela carta assim tão cedo, mas supunha que não tinha muitas opções ali.

Saltou novamente, dessa vez unicamente para cima. Concentrou-se em adquirir toda a altitude que pudesse, mas ao mesmo tempo em que fazia isso, também começava a concentrar energia em sua mão de espada. Quando sentiu que havia alcançado uma boa altura e que não iria muito além que isso arriscou um olhar para baixo. As caveiras vinham em sua direção, tal como havia imaginado, mas o que realmente importava era que Octo havia se mantido no mesmo lugar, apenas observando-o com um leve interesse. Perfeito. O idiota cometeu um erro. Iria pagar caro por aquilo.

Arte Proibida do Cavaleiro do Trovão... – murmurou Enderthorn, endireitando seu braço de espada de forma que sua arma ficasse parada reta bem a frente de seu corpo, enquanto que com sua outra mão segurava seu braço no antebraço, de forma a garantir um apoio a ele. Do céu vermelho coberto por nuvens de fumaça, um relâmpago caiu, acertando em cheio a lâmina da espada de Enderthorn. Sentiu a eletricidade correr por seu corpo e mordeu seus próprios dentes para que não gritasse em dor, mas ao mesmo tempo sentiu uma satisfação imensa ao olhar para Gall e ver que o homem havia compreendido o que ele estava fazendo. Tarde demais para tentar impedir isso, necromante. Você perdeu. Ergueu sua espada alto, acima de sua cabeça, mantendo o ângulo dela e de seu braço curvado, como se estivesse se preparando para um corte horizontal. Uma veia de esforço surgiu e explodiu quase que imediatamente em sua testa, mas isso não o impediu de seguir em frente com seu ataque e gritar o nome de seu golpe. – O Som do Trovão!

Quando aquelas palavras foram ditas, tudo aconteceu. A energia do relâmpago que havia sido retida por sua espada foi liberada com o movimento que ele fez, lançando uma onda de pura energia contra as caveiras que seguiam contra ele. Essas foram desintegradas por completo em questão de instantes depois de serem atingidas, mas isso não foi nem um terço do poder contido em seu ataque. A energia avançou direto em direção ao solo com a velocidade de um verdadeiro relâmpago, e Ender não teve nem sequer tempo para piscar seus olhos antes que um grande clarão lhe chegasse.

Cobriu seus olhos com o braço para tentar não ficar completamente cego, mas mesmo de olhos fechados e cobertos ele não deixou de se sentir como se estivesse com o sol em seu rosto. Forte! ... Esse ataque não é brincadeira. Tinha dois motivos agora para evitar usar uma técnica assim; não só ela era esgotante para ele, consumindo quase toda a sua energia, como também se tratava de uma técnica com um poder grande demais para ser manuseado corretamente. Se eu usar muito isso, posso acabar matando aliados ou pessoas inocentes... ou até a mim mesmo.

Foi só depois que o brilho parar de incomodar seus olhos que ele se arriscou a abri-los novamente, bem a tempo de aterrissar em terra fofa. Olhou ao seu redor, e o que viu não foi nada muito diferente do que ele havia imaginado; ao seu redor, o que via era destruição. A área de efeito do seu ataque não era particularmente maior – afinal, não havia afetado construções um pouco mais distantes como as casas do outro lado da rua – mas o que ele havia afetado havia sido completamente destruído. Metade da rua de ambos os, metade das construções que cercavam aquela na qual eles lutavam antes e essa própria construção em questão... elas simplesmente não existiam mais, e também não restava muito que pudesse dizer que elas alguma vez estiveram ali. Com exceção de alguns destroços ao seu redor, Ender não conseguia ver nada... o que fez com que ele ficasse um pouco surpreso. Eu não vejo restos de Gall. Ele morreu com esse ataque? Pensei que ele seria forte o suficiente para sobreviver a isso de alguma forma, mas talvez eu esteja enganado.

Não estava, e viu isso quando parte dos destroços à sua frente começaram a se mover. Afiou seus olhos e, usando de sua espada como apoio, colocou-se de pé. Os destroços foram lançados violentamente ao ar por uma força poderosa, e do lugar aonde eles antes estavam levantou-se Octo Gall. Ironicamente, o braço do mago que havia tido o punho decepado estava aparentemente ileso (ou tão ileso quanto algo podia estar depois de um ataque como o de Ender), mas em compensação seu outro braço simplesmente não existia mais, um coto sangrento sendo tudo que restou dele. O livro do homem também havia desaparecido, provavelmente se desintegrado em migalhas com “O Som do Trovão”, e podia dizer que isso era de longe o que mais irritava seu oponente. As roupas dele estavam rasgadas e ferradas depois daquilo, seu corpo estava coberto em sangue, mas mesmo assim os olhos de Octo fitavam intensamente Ender com uma agressividade que nunca antes havia visto nele, como se ele desejasse esmagar sua garganta com a mão que lhe restava.

– Maldito seja o seu nome, Enderthorn! – gritou o mago negro, vacilando um passo em direção à Ender. Apesar de poder ainda ficar de pé e ter o fogo da batalha ainda brilhando em seus olhos, era óbvio que Octo Gall não tinha mais condições de continuar lutando ali; estava ferido demais, cansado demais. – Como ousa... você tem ideia de que livro era aquele?! Uma das três relíquias de Zeth da Meia-Noite, o mais poderoso necromante que o mundo já viu! Esses livros são raros, peças valiosas que poderiam ser vendidas por dinheiro o suficiente para alimentar uma grande cidade por dez anos, e era meu, mas você o destruiu! Não me importo mais com meu braço, não me importo mais com a missão! – chamas arroxeadas surgiram na mão que restava de Octo Gall, e imediatamente o seu olho correspondente foi consumido por uma energia arroxeada. Graças ao péssimo estado das roupas dele naquele momento, Ender pode ver claramente as veias dele tornarem-se arroxeadas por baixo de sua pele, deixando claro que o poder naquilo era muito grande. – Eu juro por tudo que há no mundo, com essa mão, eu irei lhe matar!

– Vamos, vamos, se acalme, se acalme – disse uma voz amistosa, ao mesmo tempo em que o som de passos calmos começou a ser ouvido, vindo em direção à Enderthorn e Octo Gall. – Não faz sentido que você jogue sua vida fora aqui, Octo. Deixe isso comigo.

Mais um?! Poucas coisas no mundo conseguiam deixar Ender realmente preocupado, mas aquela era definitivamente uma delas. Maldição, isso não é nada bom. Depois do Som do Trovão, havia esgotado boa parte de sua energia; já seria difícil o suficiente para ele ter de pôr um fim a Octo naquela situação, mas um segundo oponente... ele honestamente não sabia como deveria lidar com aquilo.

Virou seu rosto para o lado, e o que teve foi uma visão... estranha, no mínimo. Um homem de pele extremamente bronzeada metido em um terno rosa com gravata verde e camisa cor de vinho. O homem tinha cabelos rubros espetados uniformemente em três posições – direita, esquerda, ambas as diagonais superiores e para cima – e em seu rosto um eterno sorriso que lhe lembrava o de uma hiena brilhava. Em suas mãos ele trazia navalhas vermelhas, com ambas as lâminas a mostra, e pelo número de cicatrizes que podia ver, imaginava que ele havia se cortado bastante no manuseio delas.

– Vamos, vamos, vá embora, Gall, vá embora – disse ele, rindo aparentemente de suas próprias palavras enquanto fitava Enderthorn com olhos arregalados, insanos. Mas quem é esse?! – Vá embora, vá embora. Você já brincou. Agora é hora do papai Raptor aqui punir o garoto malvado!

=====

– Então... – perguntou tentativamente Coralina, olhando para o homem que havia lhe ajudado antes enquanto andava. – Como você está, War? Tudo bem mesmo?

War sorriu gentilmente para ela e acenou levemente com sua cabeça em resposta. Não estou tão bem assim, pra ser sincero. Nicholas havia apenas conseguido lhe acertar alguns poucos golpes, mas eles haviam sido bem fortes. Não havia sofrido nenhum tipo de dano crítico ou coisa do tipo, mas não estava realmente bem. No entanto, não há motivos para preocupa-la. Coralina tinha um tornozelo torcido e havia recebido em cheio um soco bem forte do estuprador – pelo que lhe dizia respeito, o estado dela deveria ser bem pior que o dele... e francamente, ela demonstrava isso. Ela estava constantemente mancando por ali, e vez ou outra ele conseguia flagrar uma expressão de dor cruzando seu rosto, embora ela tentasse esconder essas expressões assim que notasse o olhar dele. Não tenho o direito de reclamar de tão pouco quando ela está mais ferida do que eu e mantém silêncio.

– Não se preocupe com isso, Coralina. – disse ele, colocando suas mãos nos bolsos enquanto seguiam em frente. – Mais importante, mantenha os olhos bem abertos, está bem? Precisamos achar um bom lugar para nos refugiarmos e darmos uma olhada nesse seu pé. Se você achar uma casa inteira e que não esteja ardendo, me avise.

– Eu estou bem – respondeu ela, cruzando os braços enquanto lhe lançava um olhar confiante. – Não precisa se preocupar comigo. O que deveríamos realmente fazer é achar uma forma de sair daqui assim que possível. Com toda essa batalha e o caos que tomou conta da cidade, não acho que o Salão Cinzento tenha um lugar seguro para ficar.

Esse é um ponto com o qual não posso discordar muito, temo eu, refletiu War, olhando ao redor. Conseguia ver destruição em praticamente todos os cantos, e algo lhe dizia que a batalha ainda estava apenas começando. Tinha ouvido muitos rumores sobre a força dos cavaleiros do Salão Cinzento, mas havia visto um bom número de guerreiros poderosos no acampamento de Dokurei, e não conseguia deixar de imaginar que deveriam ter outras pessoas igualmente fortes nos acampamentos de Jiazz e Balak. Essa vai ser uma batalha dura, um confronto que ninguém vai ganhar sem sangrar bastante antes. O que Coralina dizia fazia sentido, de certa forma. Talvez eu realmente deva me preocupar mais em sair daqui do que com qualquer outra coisa.

– Achei! – gritou subitamente uma voz feminina, fazendo com que tanto War quanto Coralina imediatamente olhassem ao redor. Mas o quê?! Não sabia dizer de onde exatamente havia vindo a voz, mas tinha certeza de que ela vinha de algum lugar próximo. – Ei, Ibur! Achei alguns aqui! Um deles estava conosco no acampamento, mas a mulher que está com ele... tenho quase certeza de que ela está do lado do Salão Cinzento!

– Muito bem, Agnes – murmurou a voz de um homem, mais séria e controlada do que a da mulher. – Mas você bem que poderia ser mais silenciosa.

Foi nesse momento que conseguiu encontrar a mulher com seus olhos. Sobre uma casa, em meio as chamas, uma de cabelos roxos se encontrava. Seu corpo era pouco desenvolvido, e se não fosse pelas roupas de freira e o fato de sua voz ser obviamente feminina, poderia até ter a confundido com um homem afeminado. Em suas costas ela carregava uma enorme cruz de madeira, e o sorriso que ela tinha em seu rosto pareceu crescer um pouco mais quando ela viu que War a observava. Saltou da casa aonde estava sem medo, confiante.... e sem nem notar que parte de suas roupas havia pegado fogo enquanto estava em cima da casa. Só notou isso enquanto caia, e o desespero foi imediato. Remexeu-se no ar de todas as formas possíveis, tentando apagar de alguma forma as chamas, e isso acabou fazendo com que ela caísse de mal jeito no chão. E mesmo assim ela não parou, começando imediatamente a rolar de um lado para o outro em uma tentativa de pôr fim ao fogo, a essa altura já liberando gritos desesperados pedindo socorro. Lentamente War sentiu uma gota de suor escorrer por sua testa, não por calor ou nervosismo, mas simplesmente por estar embaraçado pela mulher. Ela... não é muito esperta, é?

– Ah! Quente! Quente! Queima, queima, queima! – gritava ela, rolando de um lado para o outro cada vez mais rápido. Por algum motivo, isso lembrou War de alguém rolando massa em uma mesa para enrolá-la. – Ibur! Ajuda! Socorro, socorro, socorro! Estou queimando! Ahhh!

– Ajude-se você mesma – retrucou a voz do homem, este surgindo subitamente ao lado dela, caminhando calmamente em direção à War e Coralina. Um homem alto em uma roupa de padre, moreno, alto, com ombros largos e um corpo musculoso. Seus cabelos eram longos, cor de prata, e em seu rosto ele possuía uma cicatriz em forma de “x”, e essa cicatriz somada à feição séria e compenetrada que ele trazia em seu rosto fazia com que ele parecesse ainda mais intimidador. Em cada uma de suas mãos ele segurava uma espada bastarda, manuseando-as com facilidade, parecendo não se incomodar pelo peso ou tamanho de suas armas. – Você realmente deveria aprender a ser um pouco menos desastrada, Agnes.

A mulher não respondeu a isso, preocupada demais em continuar rolando em uma tentativa de apagar as chamas. Eventualmente ela teve sucesso nisso, e quando isso aconteceu ela colocou-se novamente em pé com um salto e um sorriso confiante em seu rosto, embora a pose dela (que em uma situação normal provavelmente faria com que War a considerasse uma oponente digna) fosse ridicularizada pelo que havia acabado de ocorrer e pelo fato de que sua roupa de freira agora estava manchada com poeira e cinzas e tinha uma grande parte dela visivelmente faltando, consumida pelo fogo. Não prestou atenção nela, no entanto. Estava ocupado demais em manter-se focado no homem. Ele... ele é perigoso. Ainda não havia o visto fazer um único movimento ofensivo, mas conseguia sentir um poder absurdo vindo dele, comparável ao poder que havia sentido de alguns dos mais poderosos guerreiros que estavam sob o comando de Dokurei. Ele está em um nível completamente diferente. Eu, Coralina... mesmo se estivéssemos em nosso melhor, não teríamos chance alguma contra ele. Aquele não era um oponente que deviam enfrentar.

– Coralina, fuja – sussurrou o guerreiro, suando frio. Ela é mais rápida, deve ser capaz de escapar. Conseguia dizer só com o olhar que era mais lento do que aquele homem, o que significava que aquilo era um caso perdido para ele, mas talvez pudesse ao menos distrai-lo por tempo o suficiente para que a mulher conseguisse fugir. O tornozelo deve atrapalhá-la, mas acho que ela é rápida o bastante para fu-

– Ela não vai fugir, War – disse subitamente o homem, chamando a atenção de War para ele. Sua cabeça estava levemente inclinada para o lado, seus olhos verdes encarando os dois de forma dura. – Ou, melhor dizendo... se ela tentar fugir, eu irei matá-la imediatamente. E, por favor, não me subestime ao ponto de pensar que você seria capaz de me deter ou sequer me atrasar.

Aquelas palavras lhe irritaram e War sentiu-se grunhindo em resposta a elas, mas o homem apenas afiou um pouco seus olhos e ele recordou-se de que não deveria lutar com ele. Mas de qualquer forma... merda, isso não é bom. Precisava pensar em alguma forma de sair daquela situação, em alguma forma de evitar uma luta contra aqueles dois, mas se não podiam fugir, então como deveriam fazer isso?

– Ei, Ibur! Veja isso! – gritou a garota, Agnes, do nada. O homem parou seus movimentos, parecendo ligeiramente irritado pela interrupção, e olhou para ela, que por sua vez lhe apresentou um colar com o desenho do Yin e Yang encravado nele que ela trazia em seu pescoço. – O colar... ele não toma apenas uma cor perto deles! Eles não são Invertidos!

Uma das sobrancelhas do homem ergueu-se ao ouvir aquilo, e a forma como os lábios dele se comprimiram disse a War que aquilo não era necessariamente o que ele esperava. Mas o que são esses Invertidos que ela fala, afinal de contas? Não sabia se devia sentir-se feliz ou não por não ser algo que ele não sabia o que era, e além do mais, a situação ali era bem estranha de qualquer forma. Um padre e uma freira estranhos e aparentemente armados, falando que não somos Invertidos, seja isso o que for... é, acho que isso realmente não estava nos meus planos de hoje. Nos de quarta talvez, mas não nos de hoje.

– É, aparentemente eles não são Invertidos – murmurou o homem, voltando a repousar seus olhos sobre os dois. – Nosso trabalho não muda, entretanto. Invertidos ou não, eles morrem.

Seu corpo instintivamente assumiu uma posição de batalha, e olhando para o lado ele pode ver que o mesmo também valia para Coralina; com sua adaga segurada por ambas as suas mãos, a mulher parecia pronta para luta, apesar da feição no rosto dela deixar claro que ela sentia o mesmo que War. Isso é estúpido, pensou o mago-guerreiro, irritado. Existe sentido em uma batalha por um objetivo maior ou que você pode ganhar, mas não nisso! Não temos chance nenhuma contra esse oponente, e sabemos bem disso! Fugir ainda lhe parecia a melhor opção, mas o aviso de Ibur ainda estava em sua cabeça. Se tentarmos fugir, ele vai nos matar. Se ficarmos aqui, ele vai nos matar. Afinal de contas, o que é que devemos fazer?!

– Mas... Ibur, eles não são Invertidos, e eles estão feridos! – objetou a mulher ao lado dele, e naquele momento War sentiu-se terrivelmente grato. Eu nunca pensei que estaria dizendo isso de um inimigo, mas estou feliz que ela está aqui. Pelo que estava vendo, talvez essa mulher fosse a única chance que tinham de saírem vivos dali. – Não podemos enfrentar pessoas assim. Isso não é certo. Não é honrado.

– Eu não lhe forçarei a lutar, Agnes, se é isso que lhe preocupa – retrucou imediatamente o homem, sem parecer afetado pelas palavras dela. – Sei da sua honra e de seus princípios, e não irei tentar convencê-la a quebra-los. Mas seus princípios não são os meus princípios, e tenho uma missão a cumprir. Irei mata-los, e isso é o fim disso.

A mulher não pareceu satisfeita por aquela resposta, mas ao mesmo tempo, ela não pareceu completamente insatisfeita por isso também. E no fim das contas, sentia que ela não importava muito. Parece que, nessa dupla, é ele quem dá as cartas. Sentia que, no fim das contas, seria ele que decidiria o que fariam. E isso não era nada bom para War.

E então, subitamente, o homem avançou contra eles. Seu salto foi rápido e ele se moveu como se estivesse deslizando sobre o chão. Rangeu seus dentes e tentou apressadamente preparar-se para tentar bloquear o golpe dele quando viu as espadas bastardas começarem a se mover, mas sabia que isso era inútil. Ele é rápido demais... eu não vou conseguir detê-lo!

– Nem vai precisar.

A voz veio do nada, um momento antes que a investida de Ibur fosse impedida... por um tentáculo negro. Não compreendeu o que estava acontecendo, mas aparentemente algum tipo de longo tentáculo negro havia surgido ali, e o avanço que esse fez contra Ibur foi rápido e forte o suficiente para que o homem parasse seu ataque e saltasse para trás. Espere um pouco... Voltou sua cabeça para trás e teve a confirmação; ao contrário do que havia imaginado antes, aquele tentáculo não havia se manifestado do nada, mas sim havia saído da sombra de War. Um tentáculo de sombras... Aquilo definitivamente não era uma habilidade dele, e por algum motivo não conseguia imaginar que era uma habilidade de Coralina também. Mas se isso era verdade... então quem era o responsável por aquilo?

Não teve tempo para pensar em uma resposta pra isso. Grunhindo e rangendo os dentes, Ibur pareceu se preparar para uma nova investida, mas ele nem sequer teve tempo para começar com isso. Um rugido bestial foi tudo que War ouviu antes que uma figura parecesse se materializar do puro ar, avançando contra Ibur. Um... homem, era o que ele queria dizer, mas francamente, não sabia se poderia realmente classificar a criatura como aquilo. Ela era um ser de forma humanoide, definitivamente, com mais de dois metros de altura e braços tão grossos quanto os de um gorila... porém, era o corpo dela que lhe incomodava. O corpo do ser era repleto de cicatrizes e marcas de costura, e certas partes da sua constituição simplesmente não pareciam combinar entre si. As marcas de costura estavam por todos os cantos, nos braços, no peito, até mesmo no rosto, e elas faziam com que aquilo parecesse mais uma criatura formada através da junção de partes de dezenas de cadáveres do que um verdadeiro homem. E o cabelo prateado, olhos vermelhos e dentes como os de um tubarão que flagrou por um momento não tornavam sua aparência mais amigável.

A criatura moveu seu punho contra Ibur, mas o homem esquivou-se saltando para trás... ou, ao menos, pareceu esquivar-se. O soco da criatura foi forte, muito forte, forte o suficiente para criar uma pressão tão forte no ar com seu simples movimento que Ibur, Agnes e até mesmo algumas casas que estavam no lado deles da rua foram arremessadas pelo ar como se não fossem nada. Isso... mas o que é isso?! Aquilo era absurdo, completamente absurdo. A parte que cobria o braço que a criatura usou de seu casaco roxo foi rasgada em pedaços, e fumaça saiu do braço como se ele estivesse incrivelmente quente, mas nada disso pareceu incomodar a criatura. Ela apenas continuou parada aonde estava, seu corpo e seu rosto fazendo com que ela lembrasse mais uma besta violenta do que qualquer coisa.

– Ufa, essa foi por pouco – tornou a dizer a voz que havia ouvido antes. Por um momento pensou que essa poderia ser a voz da criatura, mas logo desprezou essa ideia; a voz que falava era calma, amistosa, amigável e educada, e pensar que poderia ser aquela criatura bestial que falava aquilo era no mínimo ridículo. – Quase que eu me atraso demais e vocês acabam passando por um sufoco. Mil perdões. Isso não vai voltar a acontecer.

Seus olhos começaram a correr ao seu redor ao ouvir aquilo, procurando pelo dono daquela voz. Aonde ele está? Aparentemente, essa voz e a criatura haviam sido responsáveis por lhe ajudar, mas considerando a situação na qual se encontrava, não conseguia se sentir confortável em ter alguém que não via observando seus movimentos.

Felizmente, não teve de suportar isso por muito tempo.

Sentiu Coralina subitamente acertar seu ombro, fazendo com que seu olhar fosse direto para ela, apenas para ver a jovem mulher apontando para frente. Olhou naquela direção, e então viu aquilo; emergindo do meio da sombra que o enorme corpo da criatura projetava, um homem surgia. Um homem de pele escura e cabelos prateados lisos, bem arrumados, voltados para trás. Vestia-se em roupas leves de cor arroxeada, em um estilo bem refinado, digno da nobreza. Em seu rosto jazia um sorriso fino e educado, e em sua mão direita estava uma taça de vinho tinto que ele segurava delicadamente. Quem é esse? A postura e o modo de agir daquele homem eram completamente amistosos, mas mesmo assim, simplesmente não conseguia deixar de sentir medo sempre olhava para ele, como se não estivesse diante de um homem, mas sim de algum tipo de monstro ou besta gigantesca; um dragão... ou pior.

O homem surgido das sombras pareceu ver isso. Tomou brevemente um gole de seu vinho e sorriu amavelmente para War. Suas pernas ainda estavam dentro das sombras das quais ele havia emergido, mas esse contato foi cortado por completo no momento em que ele deu seu primeiro passo. Retirou-se por completo da sombra da criatura, mas nem por isso deixou de estar envolto por sombras; a partir dos pés desse homem, a área ao seu redor estava completamente escura, como se ele estivesse envolvido por trevas e noite. Por vezes, conseguia ver até mesmo pequenos tentáculos feitos de puras trevas emergindo da poça negra que cercava o homem, movendo-se como se estivessem vivos. Aquilo era mais do que apenas um pouco perturbador.

– Eu lhe assusto, senhor? – perguntou delicadamente o homem a distância de forma leviana. Apesar de seus pensamentos serem “sim”, War não perdeu tempo em balançar negativamente sua cabeça. Se ele estava lhe ajudando ali, não queria lhe irritar. – Está tudo bem se lhe assusto. Sério, você não tem ideia do quão acostumado estou com isso. Ou talvez tenha. – riu um pouco, parecendo achar aquilo divertido de alguma forma irônica. Tomou um pouco mais de vinho ao mesmo tempo em que abria sua mão que lhe restava, observando a palma dela calmamente enquanto trevas e escuridão pareciam rodeá-la. – Meus poderes são um tanto quanto... obscuros, eu reconheço. Não são necessariamente os poderes que você esperaria de um paladino ou de um cavaleiro de coração puro. Isso dito, não se preocupe. Poderes ruins, pessoas boas; pode não parecer, mas sou uma pessoa bem agradável depois que você fala comigo por um tempo, ou ao menos isso é o que me dizem. E Ogre – murmurou ele, apontando para a criatura mais atrás – é uma boa pessoa também, apesar de sua aparência ser um tanto quanto... hostil. Não se preocupe, War; somos seus aliados.

... Eu não sei o que é mais triste aqui; o fato que eu sinto-me tentado a acreditar nele, ou o fato de que provavelmente não tenho muita escolha se não acreditar nele. Não podia fazer ainda mais inimigos na situação em que estava, e mesmo que pudesse, duvidava que aquele homem fosse alguém que ele iria querer como inimigo. Pelo que ele disse, ele deve estar junto com aquela coisa – a tal que ele chamou de “Ogre”. E se ele está junto com ela, acho que faz sentido então eu assumir que eles devem ter mais ou menos o mesmo nível. Se estivesse realmente certo quanto a isso, então realmente não podia se dar ao luxo de ter pessoas como eles como inimigos.

Foi então que sentiu algo; uma força súbita, uma energia hostil e irritada. Aparentemente Coralina, Ogre e o homem das sombras sentiram a mesma coisa, mas nenhum deles teve tempo de fazer nada antes que Ibur surgisse subitamente no ar acima do homem, ambas as suas espadas bastardas movendo-se contra este, prontas para decapitá-lo. Por um momento pareceu que isso iria realmente acontecer, mas no último instante dois grandes tentáculos feitos de sombra surgiram das trevas que cercavam o homem, ambos ficando retos e duros como lanças, parando as espadas do padre com facilidade. Um olhar irritado de Ibur e um olhar relaxado do homem foram trocados por um momento, antes que o padre flexionasse os músculos de seu corpo e forçasse seu corpo, fazendo com que ele se movesse e acertasse um chute em cheio no queixo de seu oponente. O homem das sombras foi arremessado ao ar pela força do golpe, porém ele não parecia preocupado com aquilo. Na verdade, pelo relance que War teve de seu rosto... ele estava sorrindo.

Subitamente, sentiu uma poderosa energia fluir desse homem, como se ele tivesse finalmente acordado para a batalha. Seu corpo girou rapidamente, apoiando seus pés no chão, e no instante em que isso aconteceu as trevas que o cercavam voltaram a surgir ao redor dele. A força e a energia daquele homem estava fluindo em níveis absurdos agora, a um ponto que mesmo distante War conseguia ver um contorno de energia negra cercando cada membro de seu corpo, e logo essa mesma energia começou a atuar ainda mais, chegando ao ponto de fazer com que o ar que os cercava parecesse se tornar mais denso. As roupas e o cabelo daquele homem se ergueram como se um vento forte estivesse soprando sobre ele, e a medida que as mãos deste iam se erguendo, a “ventania” parecia ganhar ainda mais força.

Canção Impura do Rei da Noite... – disse o homem, cruzando de uma só vez suas mãos no ar. Dezenas, não, centenas de pequenos projéteis similares a flechas saíram das trevas que lhe cercavam com aquele movimento, avançando com contra Ibur com uma velocidade tão grande que War mal pode acompanhar seus movimentos. – ARTILHARIA PESADA!

Viu os olhos de Ibur se arregalarem por um momento diante daquilo, mas apesar disso o homem demonstrou reflexos formidáveis. Não sabia nem começar a dizer como ele fez algo assim, mas de alguma forma Ibur conseguiu mover-se em pleno ar, e com seus movimentos ele esquivou-se de cada uma das flechas negras. Como?! Como isso é possível?! Dizer que estava abismado com aquilo seria pouco; eram centenas de flechas, cada uma delas tremendamente rápida. Não importa o quão rápido alguém seja, deveria ser impossível evitar todos esses ataques assim! E no entanto, Ibur havia acabado de o fazer, e aparentemente sem dificuldades.

Mas pelo sorriso que brilhava no rosto do homem, aquilo não parecia ser um problema.

Canção Impura do Rei da Noite... – começou ele, abrindo novamente seus braços, erguendo-os ao nível de sua cabeça. Os olhos de Ibur e de War caíram imediatamente sobre ele, ansiosos por verem o que ele planejava fazer a seguir, mas surpreendentemente, nada parecia estar acontecendo. Mas qual o problema? O que ele está fazendo?! Não entendia tudo aquilo, e isso lhe deixava nervoso.

– Ibur! – gritou uma voz feminina vinda do nada, uma voz que War associou quase que imediatamente à Agnes, a garota que havia aparecido antes. – Atrás de você!

Aquelas palavras motivaram tanto War quanto Ibur a olharem para trás, mas a essa altura, já era tarde demais. Tentáculos negros atingiram o homem com força por trás, rasgando suas roupas e projetando-lhe para frente, vindos de algo formado pelas flechas que o homem havia disparado antes; uma massa negra de forma humanoide, um... clone de sombras do homem.

Marionete das Sombras! – concluiu o homem das sombras, um sorriso arrogante dançando em seu rosto. Ibur havia sido jogado em sua direção, e ele não deixou a chance passar. Dois dedos da mão direita dele se ergueram, fazendo com que dois tentáculos negros surgissem bem abaixo de Ibur, da sombra do próprio homem, acertando-lhe em cheio e lançando-lhe violentamente para cima. Sangue do padre caiu ao chão, o corpo dele jogado no ar como um saco vazio, até que em certo momento ele pareceu reagir. Ele girou no ar, e alguns instantes depois ele tornou a aterrissar no chão parecendo pronto para voltar a luta, apesar de que basicamente toda a parte superior da sua roupa havia sido destruída pelos últimos golpes e sangue cobria parte de seu corpo, principalmente o peito.

O homem apenas fez sorrir quando viu Ibur lançando-lhe um olhar vingativo, claramente despreocupado quanto a isso. Ele, Ogre e o clone de sombras se voltaram prontamente contra Ibur, e quando viu aquilo, War sentiu que sua sorte havia dado voltas. Podemos vencer, compreendeu ele. Agora sim, podemos vencer! O homem desconhecido já havia se mostrado forte o suficiente para ao menos bater de frente contra Ibur, e contando o clone, eram cinco contra dois ali, e isso considerando que a tal de Agnes se juntasse a luta também. Podemos vencer, temos uma chance! Uma boa chance!

– Ibur, você está bem?! – a voz e as palavras deixaram claro quem era bem antes que Agnes enfim se mostrasse; aparentemente, metade do corpo da mulher havia ficado oculta por destroços da destruição que o soco de Ogre havia causado. Como eu não notei ela antes? Supunha que havia ficado distraído demais com tudo que havia acontecido naqueles últimos momentos, mas mesmo assim... ela realmente não devia ter tanta presença assim para ser tão facilmente ignorada. – Ibur, olhe só! O colar... ele está completamente preto! Isso significa que...

– Que esses dois que surgiram agora são Invertidos – concluiu Ibur, sem paciência. – Ou, mais precisamente... isso significa que as almas deles são completamente negras, mal puro.

– Mal puro? – o conceito pareceu divertir o homem, quase fazendo com que ele caísse em gargalhadas. – Bom, vocês são membros da Igreja de Caelum, não é? Nesse caso, faz sentido que seus colares acusem minha alma como “mal puro”. Afinal de contas, sou o hospedeiro daquele que matou o seu Deus.

Pelo brilho que viu nos olhos de ambos, soube dizer de imediato que aquilo havia irritado bem ambos. Uma das mãos de Agnes foi rapidamente para as suas costas, tocando a cruz de madeira em suas costas, e no momento em que isso aconteceu, a cruz se abriu, e dela vieram inúmeros chakrans. Dez... vinte... cinquenta... oitenta... cento e cinquenta... quantos?! Não sabia ao certo quantos chakrans haviam ali, mas sabia que eram muitos. As armas planavam no ar, levitando ao que parecia ser o bel prazer da mulher, e pelo que podia ver no rosto dela, ela provavelmente estaria mais do que satisfeita em lançar todos contra eles a qualquer momento... mas antes que ela pudesse fazer isso, uma das mãos de Ibur se colocou à frente dela, em um sinal para que ela mantivesse a calma e não fizesse besteira.

– ... O que exatamente você quer dizer com isso? – perguntou o padre, seus olhos duros, fixos sobre o homem.

– Você não sabia? – perguntou o homem, sorrindo inocentemente enquanto lentamente se curvava de uma forma tão irônica que chegava a ser ofensiva. – Meu nome, Padre de Caelum, é Ekhart Grimm, líder da guilda “Coração Negro”... e da mesma forma, hospedeiro de “Coração Negro”, um dos Cinco Corações, os cinco grandes demônios que mataram os Deuses.

... Eu não vou nem fingir que entendo o que está acontecendo aqui mais. As coisas haviam tomado um rumo que ele nunca teria imaginado, com todos aqueles que se mostravam. Conhecia o nome “Ekhart” e conhecia o nome “Coração Negro” – tanto da guilda quanto do demônio lendário – mas simplesmente não via a associação que estes poderiam ter com tudo aquilo... nem se importava, pra ser sincero. Lançou um rápido olhar para Coralina, procurando ver o que ela pensava daquilo, e para sua surpresa, a garota não estava ali, ao menos não em qualquer lugar aonde ele pudesse vê-la. Desapareceu... será que fugiu? Supunha que essa era uma possibilidade, embora ela lhe parecesse orgulhosa demais para fazer algo assim. O mais provável é que ela esteja apenas escondida aqui, preparada para lançar um ataque surpresa a qualquer momento. Bem, pelo que lhe dizia respeito, seria bom se ela tivesse fugido. Na verdade, eu mesmo deveria fazer isso agora. Considerando tudo que estava acontecendo, ele devia aproveitar-se daquilo para escapar.

E foi isso que tentou fazer. Mas não conseguiu dar nem um passo para fora dali antes que uma sensação de mal-estar súbito lhe afetasse, fazendo com que ele perdesse seu equilíbrio por um momento e caísse sobre um joelho. Sua respiração estava descompassada, sentiu seu corpo suar muito mais do que devia, sentiu-se exausto... sentiu como se uma mão estivesse envolvendo seu coração, apertando-lhe um pouco ver ou outra conforme sua vontade.

– Líder do Coração Negro, hein? Não digo que sei muito sobre essa guilda considerando que estive preso até recentemente, mas eu realmente não esperava encontrar nenhum líder de guilda como oponente aqui.

Aquela voz lhe disse bem quem era o responsável por aquilo, apesar de já ter imaginado isso desde o momento em que teve aquela sensação. Eram poucas as pessoas no mundo que tinham poder o suficiente para manifestá-lo daquela forma, poder o suficiente para fazer com que pessoas mais fracas se sentissem mal apenas ao liberarem-no. Ergueu seu rosto com alguma dificuldade e moveu-o na direção da qual a voz tinha vindo, e foi ali que viu-o; em cima de uma casa em chamas, com ambas as mãos nos bolsos, fitando todos ali com seu único olho e um sorriso confiante no rosto.

– Mas não vou reclamar – disse Dokurei Deux, o Demônio Escarlate, sorrindo de orelha a orelha enquanto fitava seus oponentes como se fossem formigas diante dele. – Eu queria mesmo ter uma boa luta. Não sei sobre essa merda de demônios e nem tenho interesse nisso, mas eu te digo algo, Ekhart... – uma de suas mãos saiu do bolso, erguendo-se, e a partir dela Dokurei criou veneno líquido, e quando uma gota desse veneno caiu, ela derreteu e corroeu imediatamente o que tocou. – Você não vai sobreviver a mim.

=====

Sangue borrifou dos buracos que ficaram depois dos cortes limpos que havia feito, ao mesmo tempo em que as cabeças deles rolaram pelo chão. Um, dois, três. Mais três corpos se juntam a montanha de carne. Retalhar pessoas assim era algo bem divertido, Zodwik nunca iria negar isso, mas tinha de admitir... aquilo não era necessariamente o que ele esperava. Quando concordei em pegar esse trabalho, pensei que eu encontraria oponentes dignos aqui no Salão Cinzento. Mas tudo que tenho visto até agora são fracotes. Será que os mais fortes haviam sido eliminados por alguns dos outros? Ou talvez ele estivesse sendo simplesmente azarado?

Quando sentiu uma pressão agir sobre seu corpo, quando sentiu a sensação de poder no ar, soube qual era a resposta, e sorriu com isso.

– Então, um oponente digno, não é? – comentou ele, sorrindo, virando-se na direção do homem que se aproximava. Um espadachim de cabelos castanhos, trazendo uma espada de madeira apoiada no ombro. Seu sorriso se alargou ainda mais quando o viu. A maioria das pessoas não reconheceria aquele homem, mas Zodwik era um caso especial; sendo um espadachim, ele tinha um particular em espadachins, e aquele... aquele era alguém bem famoso entre espadachins, embora não tão famoso em um quesito global. – Interessante... muito interessante! Eu estava torcendo por isso! Torcendo por ter a chance de lhe enfrentar aqui! Bokuto da Espada de Madeira, Ascendente do Salão Cinzento!

Bokuto não expressou praticamente reação alguma diante daquelas palavras. Tudo que ele se limitou a fazer foi olhar Zodwik por alguns momentos de uma forma que parecia mais entediada do que interessada, antes de seguir para mover seus olhos para os cavaleiros que havia matado. Está me ignorando? Hmm... não... ele deve estar tentando me provocar. Tentando ver se tenho um bom domínio das minhas emoções. Bom, felizmente, não era alguém fácil de se irritar.

– Eu ouvi muito sobre você, Bokuto – disse Zodwik, satisfeito. – Ouvi sobre como você é frio e sobre como você é forte. Ouvi sobre como você possui em um braço mais força do que todo um exército, ouvi sobre como você matou bestas lendárias e monstros muito além dos limites humanos com pouco mais do que uma espada de madeira. Ouvi até sobre o seu poder, sobre como você supera todos os limites e expectativas humanas. Ouvi como você, na opinião de muitos, está mais próximo de um Deus do que de um ho-

– Pare de babar no meu saco – cortou bruscamente Bokuto, voltando seus olhos em direção a Zodwik, deixando que um olhar irritado caísse sobre o espadachim. – Isso é irritante demais. E pare também de falar como se você estivesse feliz em ter um oponente como eu. Um pedaço de merda como você deveria estar chorando de medo agora, não tentando se passar por um guerreiro confiante.

Por um momento ficou simplesmente pasmo com aquilo, de olhos arregalados, sem poder acreditar nas palavras que foram ditas. Logo em seguida veio a fúria; apertou seus dentes com tanta força que temeu que eles se quebrassem, e sentiu tantas veias surgirem em sua testa que foi um milagre o fato de nenhuma delas estourar. Quase avançou contra Bokuto ao ouvir aquilo, mas no último momento relembrou-se do que ele mesmo havia pensado. Calma. Calma. Isso é tudo uma provação. Bokuto estava lhe julgando, julgando se ele era um oponente a altura por sua mente. Precisava passar naquela provação, precisava manter a calma.

– Eu lhe mostrarei que não sou um “pedaço de merda”, Bokuto – disse o espadachim, erguendo seu braço e apontando sua espada em direção ao seu oponente. – Eu, Zodwik o Cortador de Cabeças, lhe desafio para uma bata-

Não chegou nem a terminar de falar; antes que pudesse concluir seus pensamentos, uma dor cortante cruzou seu corpo, e num piscar de olhos, sua espada e ambos os seus braços voavam no ar, retalhados, cortados em pedaços, sangue escorrendo deles, respingando no rosto de Zodwik. Abriu sua boca para gritar, mas nem isso pode fazer; no momento em que sua boca se abriu, sentiu algo acertando-lhe com força na parte de trás da cabeça, perfurando-lhe e passando por sua boca, arrancando seus dentes e protundindo-se do outro lado, coberto de sangue, bem diante dos seus olhos.

– Quantas vezes eu vou ter de falar com você para que compreenda isso? – a voz de Bokuto veio detrás dele, ligeiramente irritada, embora ela parecesse ao mesmo tempo estar mais incomodada com tudo aquilo do que propriamente irritada. – Não me incomode, pedaço de merda. Não tenho tempo para gastar com pessoas com você. Existem oponentes de verdade que eu devo derrotar.

=====

Puxou sua espada para cima, e a lâmina de madeira obedeceu seus movimentos, cortando ao meio a cabeça do espadachim e deixando que o corpo do homem morto caísse ao chão, um cadáver sem braços ou cabeça. Que desperdício de tempo. Não via graça em geral em uma batalha, muito menos em uma batalha com alguém tão fraco assim. Mas pelo menos isso limpa o campo de batalha agora. Aquele idiota era um fracote, mas seu próximo oponente não parecia ser nada fraco.

– Por quanto tempo você planeja ficar parado aí? – perguntou Bokuto, sério, olhando para a direita da rua, o ponto do qual sentia a presença de seu oponente. – Acha que eu não sei que você está aí? Não perda o meu tempo. Mostre-se logo, ou permaneça escondido como o covarde que você é. Eu não vou continuar perdendo tempo aqui.

Disse aquilo e esperou por um momento para ver o que seu oponente faria. Nada aconteceu, não teve reação alguma, e isso apenas deixou o espadachim ainda mais irritado. Muito bem. Se ele é covarde demais para se mostrar, então estive apenas desperdiçando o meu tempo aqui. Virou-se de costas pra direção da qual sentia a presença dele, e sem nem um único olhar para trás, começou a caminhar para longe dali.

Não foi muito longe antes que aquela coisa finalmente decidisse começar a agir.

O primeiro sinal que teve daquilo foi a sensação do chão tremendo atrás de seus pés, chacoalhando como se um terremoto estive acontecendo. Voltou sua cabeça novamente na direção dele ao sentir aquilo, bem a tempo de ver o que exatamente ele estava fazendo. A geografia daquela seção do Salão Cinzento começou a mudar diante dos olhos de Bokuto, casas e ruas se erguendo de forma instável como se fossem ondas no mar, subindo e descendo e curvando-se e se misturando entre si, transformando-se em uma gigantesca massa de terra e pedra e escombros. Tch! Saltou pra trás para simplesmente conseguir manter seu equilíbrio; mesmo alguém como Bokuto não conseguia manter-se de pé enquanto o chão abaixo dele se movia como uma dançarina bêbada. Ergueu seu rosto novamente depois e aterrissar, e no momento em que fez isso, viu uma montanha marrom que se erguia muito acima dele, formada pela terra abaixo do solo, a pedra que formava as ruas e os escombros dos restos das casas.

E logo em seguida, essa montanha começou a tomar forma.

Mudanças começaram a acontecer, dessa vez concentradas apenas na montanha. Viu-a tremer de forma tão violenta que a olho nu conseguiu acompanhar seus movimentos, chacoalhando como se parecesse que ela poderia explodir a qualquer momento. Um gigantesco braço direito de pedra emergiu subitamente daquela montanha, vindo de dentro dela como se estivesse sendo expulso de seu corpo, e não tardou para que o mesmo acontecesse do lado esquerdo. O formato da montanha começou a se alterar, assumindo uma forma de certa forma humanoide, similar ao que você esperaria de um torso humano, e tudo o que restou de “anormal” ali foi um estranho bloco de pedra que servia como uma “cabeça” para ao ser, com uma boca cheia de dentes, cada um desses tão grandes quanto um elefante.

Observou tudo aquilo sem dizer uma palavra, apenas erguendo levemente sua sobrancelha, só um pouco surpreso por aquilo. Um gigante de pedra... essa é a habilidade do meu inimigo? Devia dizer, aquilo lhe desapontava bastante; um gigante de pedra era algo intimidador, com certeza, mas não conseguia ver muitos usos que isso podia ter em batalha além de transformar o usuário em um alvo ainda mais e tornar seus movimentos mais lentos. Mesmo assim, não deixou-se subestimá-lo. Cada oponente é perigoso, cada batalha é um desafio. Subestimar seu oponente é a forma mais rápida de conseguir que sua cabeça acabe na ponta de uma lança. Quando ainda era um jovem arrogante e encrenqueiro, essa foi uma das lições que seus tutores lhe deram, uma das mais sábias e uteis palavras que já ouviu. Não pretendia ir contra ela.

Dobrou seus joelhos e posicionou sua espada a frente de seu corpo, colocando-se em uma posição de ataque, pronto para o que quer que seu oponente jogasse contra ele.

– Venha, Montanha Ambulante – chamou Bokuto, fazendo gestos com sua mão livre para que seu oponente viesse contra ele. – Meu nome é Bokuto do Salão Cinzento, um dos Ascendentes. Venha me enfrentar, e prepare-se para ser lapidado.



Notas finais do capítulo

ÁREA OESTE:

Enderthorn VS Octo Gall (Vencedor: Enderthorn)
Enderthorn VS Raptor (Em andamento)
Vaen VS Lilybell (Vencedora: Lilybell)
Jiazz VS Maoh (Em andamento)

ÁREA SUL

Kuman VS Fera (Vencedor: Fera)
Skylar VS Fera (Vencedor: Skylar)
Skylar VS Cleus (Vencedor: Cleus)
War e Coralina VS Nicholas (Vencedores: War e Coralina)
Trevor VS Maverick (Em andamento)
War, Coralina, Ogre, Ekhart e Clone das Sombras VS Agnes, Ibur e Dokurei (Em andamento)
Bokuto VS Zodwik (Vencedor: Bokuto)
Bokuto VS T.I.T.A.N. (Em andamento)

ÁREA LESTE

Alexander VS Goliath (Vencedor: Alexander)
Alexander VS Steelex (Vencedor: Steelex)
Zephyr VS Balak (Em andamento)



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