O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 28
Lei de Dez


Notas iniciais do capítulo

Digam-me, meus caros; o que vocês fariam se vocês tivessem a habilidade de criar uma lei - qualquer lei - e as pessoas tivessem de se sujeitar a essa lei? O que vocês criariam?

E se não só as pessoas fossem forçadas a se sujeitar a essa lei, mas o mundo em si?



Coçou sua orelha com o dedo indicador, tentando parecer não se importar com nada ali, mas a verdade era que o olhar insistente daquela figura sobre ele estava lhe incomodando. Vamos lá, seu idiota, faça um movimento e morra logo. Tinha mais coisas a fazer, um exército de inimigos a derrotar, mas não podia fazer nada disso antes daquele idiota matar-se. Apresse-se com isso. Um só passo, é tudo que você precisa fazer. Pra frente, pra trás, pra direita ou pra direita, não importa. Dê mais um passo e você morre e eu estarei finalmente livre para fazer coisas mais importantes.

Ao invés de dar o passo que Zephyr queria, o que a irritante figura fez foi algo diferente.

– Você antes havia dito algo sobre uma tal “Lei de Dez” – disse ela, fazendo com que uma das sobrancelhas do cavaleiro se erguesse. Isso é sério? Verdadeiramente sério? Ele realmente pretende perguntar a mim qual a minha habilidade? Riria da ironia daquilo, não fosse o fato de que na verdade isso era até que bem esperto. Tenho de me lembrar que existe um monte de idiotas por aí que tem a mania de ficar dizendo cada poder que tinham em mãos para seus oponentes. Até que não é incomum que alguém pense que eu sou um desses idiotas também. Apesar de que isso nunca deixa de me irritar. – O que você quis dizer com isso? Esse é seu poder, certo? O que ele faz?

Teve de segurar uma gargalhada em sua garganta ali ao ouvir aquilo. Pelos Deuses, o idiota realmente foi em frente com essa maldita pergunta! Estava prestes a abrir a boca e mandar a figura tentar adivinhar, mas deteve-se no último momento. Espere aí, espere aí, talvez eu possa fazer algo melhor aqui. As pessoas tinham uma tendência a contar seus poderes pros outros. Isso significava que, quando alguém contava seu poder, a pessoa que a ouvia assumia que o que havia sido dito era toda a verdade. E eu acho que posso usar isso ao meu favor.

– Sabe – começou ele, ajeitando-se no lugar aonde estava sentado enquanto simultaneamente se inclinava para frente afim de falar melhor – eu geralmente não sou o tipo de cara que gosta de deixar suas cartas a mostra, mas saber ou não as minhas habilidades não muda absolutamente nada pra você, então vou ser gentil o suficiente para lhe explicar as coisas, sim? – um sorriso travesso brincou em seu rosto, e em tom condescendente ele começou a explicação. – Primeira coisa, compreenda algo; “Lei de Dez” não é uma Aloeiris normal, como a maioria da que você vê por aí. Ela não me dá controle sobre elementos, não amplia as habilidades de meu corpo, não altera a realidade, nada do tipo. O poder dela é muito mais diferente; simples, de certa forma, mas muito mais diferente. O poder de estabelecer, bem, Leis de Dez.

– ... E o que seriam essas “Leis de Dez”? – questionou a figura, sua voz deixando claro que ela não havia ficado nem um pouco satisfeita com a resposta vaga que havia lhe dado.

– Literalmente o que o nome sugere; Leis de Dez. Leis baseadas em dez, pra explicar melhor – ofereceu Zephyr, solícito. – A minha habilidade é única pois o que ela me permite é estabelecer leis em ação ao redor de uma determinada área. Contanto que essas leis sejam baseadas de alguma forma em “dez”, eu posso fazer virtualmente a lei que eu bem quiser, e ela vale para todos os envolvidos, independente de seus poderes ou habilidades... o que me inclui, logicamente.

– Eu não entendo – resmungou a figura. – Você está me dizendo que você cria “leis”? Elas seriam como o quê, regras de um jogo que não podem ser quebradas?

– Não, elas são leis, no sentido literal da palavra. Coisas que devem ser seguidas, querendo ou não, sem levar em conta a sua opinião sobre o assunto. Por exemplo... se eu me recordo bem, a última lei que eu estabeleci aqui foi “as dez primeiras pessoas a darem dez passos, em qualquer direção, cobrindo qualquer distância, sofreram um infarto fulminante que lhes dará uma morte instantânea”. – com suas mãos gesticulou para os corpos espalhados no chão afim de demonstrar seu ponto, os corpos das nove outras figuras que haviam caído. – Seus companheiros deram dez passos enquanto sob o efeito da minha lei, e por tal, eles morreram. Você também está bem perto de morrer, se me recordo bem. Você deu o quê, oito, nove passos? Um pouco mais e você morre. Só um pouco mais.

Viu a figura estremecer ao ouvir aquelas palavras, e dessa vez ele não esforço para conter sua gargalhada. Riu à vontade, satisfeito, enquanto de canto de olho observava as ações da figura. Vamos lá. Desespere-se agora e dê um passo.

Isso não aconteceu. Normalmente, esperaria que uma pessoa surpreendida tão subitamente assim iria acabar recuando acidentalmente ou cometendo algum outro erro que lhe custaria caro, mas não foi isso que aconteceu com a figura. Apesar de todo o seu medo e a sua surpresa, ela permaneceu dura e fixa aonde estava, demonstrando um controle surpreendentemente sobre o seu próprio corpo. Droga. Um plano falhou. Odeio quando planos falham. Rangeu os dentes ao ver aquilo, mas não se desesperou. Bom, fazer o quê? No fim das contas, o sucesso ou não desse plano influi muito pouco no grande esquema das coisas. Se aquele não havia sido bem sucedido, então tudo que ele tinha de fazer era usar algum de seus planos secundários.

Levantou-se com calma, sempre mantendo o sorriso em seu rosto, certificando-se agora que esse parecesse tão arrogante quanto possível. Sem demonstrar preocupação alguma, caminhou em direção ao seu oponente. Um. Dois. Três. Quatro passos. A figura estava fitando-o intensamente, claramente surpresa por aquilo – o que não era para menos, considerando tudo que havia lhe dito. Não podia se importar menos com isso. Cinco. Seis. Sete. Oito. Parou à frente da figura, alargou ainda mais seu sorriso e deu mais um passo pra frente. Nove passos.

Parou novamente por um instante naquele momento, suas pernas já preparadas para o próximo passo.

– Ei, por sinal, não lembro se te disse isso ou não – disse ele, coçando a cabeça de forma encabulada enquanto mostrava um sorriso sarcástico ao seu adversário. – As leis de dez valem pra mim tanto quanto para qualquer outra pessoa, mas sendo o criador delas, eu posso cancela-las a qualquer momento, sabe?

Os olhos da figura se arregalaram ao ouvir isso, a compreensão do que ele queria dizer com aquilo sendo imediata, mas mesmo assim já era tarde demais. Com um salto Zephyr cruzou a pequena distância que ainda os separavam, e antes que o homem pudesse sequer pensar em se afastar uma de suas mãos já haviam envolvido o rosto dele, apertando com força. Um grunhido de dor veio da figura enquanto suas mãos se erguiam para tentar puxar a de Zephyr pra longe dali, mas tudo que precisou fazer foi aumentar um pouco mais a força que empregava ali e empurrar o homem pra baixo para que ele caísse de joelhos no chão, tentando mas falhando em esboçar qualquer ideia de reação.

Lei de Dez – disse lentamente Zephyr, sorrindo de forma maliciosa enquanto saboreava cada palavra que dizia e erguia sua mão livre. – A primeira coisa que for envolvida por dez de meus dedos irá imediatamente explodir em pedaços.

As suas palavras serviram para avisar a figura, e ela pareceu recuperar um pouco de fogo em seu interior para reagir a isso, mas não lhe deu a chance de fazer nada. Sua segunda mão juntou-se a primeira e fechou-se também ao redor do rosto de seu oponente, e imediatamente essa explodiu. O sangue e os órgãos no interior de seu crânio derreteram e desfizeram quase que de imediato, fazendo com que eles nem sequer respingassem sobre Zephyr, enquanto que a cabeça daquele homem se explodiu em milhares de pedaços, afastando as mãos de Zephyr enquanto esses se espalhavam pelo ambiente. O corpo do homem caiu para trás no chão, morto por completo uma vez que seu cérebro já não existia mais, e Zephyr contemplou-o por um momento antes de se afastar.

– Muito bem, muito bem, isso está pronto agora – disse ele, batendo suas mãos para retirar os pedaços de crânio que haviam ficados presos a ela. – Hora de ir fazer coisas mais importantes. Algo como... matar o líder inimigo.

=====

O chute da mulher veio em sua direção com uma força tão grande que mesmo distante dele Skylar sentiu-se como se ela já tivesse lhe acertado. Moveu seu bastão com rapidez e colocou-o no caminho daquele ataque, bloqueando-o com sucesso apesar de por pouco; sentiu a pressão da força que aquela estranha mulher tinha nas pernas bambear seus braços, e teve de firmar bem as pernas no chão para não ser arremessado longe por aquilo. Forte! Como ela pode ser tão forte assim?! Vendo que ele havia conseguido se defender de seu ataque, o sorriso da mulher só fez crescer ainda mais; o corpo dela girou, tão rápido quanto um peão, e antes que Skylar pudesse acompanhar seus movimentos ele sentiu um segundo chute atingir-lhe em cheio no rosto, jogando-o para longe.

Sentiu por um instante a área atingida de seu rosto dormente, antes que a dor viesse com toda a força para tomar conta dela, fazendo com que ele se sentisse como se o chute daquela mulher tivesse estraçalhado sua mandíbula em pedaços. Isso é insano, pensou ele enquanto tentava apalpar seu rosto, sentido dor extrema mesmo com o mais gentil dos toques. Como ela consegue ser tão forte? Essa força está muito além de qualquer nível humano! Não conseguia compreender tudo aquilo, mas aparentemente também não tinha tempo para tentar compreender nada; virou seu rosto, e no momento em que o fez, viu a mulher em questão avançando em alta velocidade contra ele, jogando seu punho para trás enquanto se preparava para soca-lo.

Teve uma reação rápida. Rolou para o lado no último momento, deixando que o punho dela acertasse e quebrasse o chão, e aproveitando-se do fato do ataque dela ter lhe deixado de guarda baixa, moveu seu bastão e atingiu um golpe em cheio com todas as suas forças direto na região do umbigo. O estrondo de seu bastão atingindo carne fresca ressoou pelo ambiente, e por um momento ele pensou que ela havia sofrido com isso... até erguer seus olhos e ver o rosto da mulher, ver a feição insana que ela trazia nele.

A mão dela disparou em sua direção, e embora ele tentasse se afastar, não teve a chance de realmente fazer isso; os dedos dela se fecharam ao redor de seu ombro, e com uma força anormal ela lhe lançou com violência para longe. Suas costas bateram em cheio com a parede de uma das casas próximas, despedaçando-a em pedaços quase que imediatamente, fazendo com que os escombros dela caíssem sobre ele, cobrindo seu corpo com pedaços de pedra quebrada. Isso... dói... Tentou levantar-se, mas aquilo não era nada fácil; sentia cada osso do seu corpo doendo, e sem que pudesse controlar-se, cuspiu sangue, sentindo o viscoso líquido vermelho escorrendo pelos cantos de sua boca. Droga... se as coisas continuarem assim, eu irei morrer. Eu irei realmente morrer.

Foi necessário muito esforço de sua parte para isso, mas eventualmente ele de alguma forma conseguiu voltar a se erguer, jogando os destroços que cobriam seu corpo pros lados enquanto se colocava em pé, e nem bem havia terminado de fazer isso, sentiu a aproximação da sua inimiga. Ergueu seus olhos e viu a mulher acima de sua cabeça, parecendo até mesmo planar em meio ao ar, um sorriso louco em seu rosto, seu punho direito erguido, pronto para esmaga-lo.

A intenção dela com aquilo era claramente dar um ponto final ao confronto, mas por sua vez, não planejava morrer assim tão facilmente.

No momento em que o punho dela desceu, o bastão dele também moveu-se contra ela. O punho fechado da mulher e a ponta do bastão de Skylar colidiram em meio ao ar, e a onda de choque que resultou daquilo foi tão forte que ele sentiu como se seus pés estivessem se afundando no chão. Concentrou toda a sua força em seus dois braços para combater a força que a mulher exercia com apenas um dos dela, mas mesmo isso parecia não ser o suficiente; estava tendo uma disputa de poder ali, mas a cada minuto que passava ficava mais claro para Skylar que ele iria perder se as coisas continuassem assim.

Não! Rangeu seus dentes, investindo-se ainda mais em seu ataque. Não, eu não vou perder! Eu não vou morrer! Não aqui! Não pra ela! Havia vindo longe demais para simplesmente morrer numa batalha como um mercenário sem nome nas mãos de uma louca psicopata. Eu não sei de onde vou tirar forças, mas não me importo também! Nem que seja a última coisa que eu faça, eu vou vencer!

E foi então que teve uma sensação estranha, a sensação de que algo molhado estava em seus braços. Inicialmente pensou que isso se tratava de seu suor ou coisa do tipo, mas logo percebeu que não era algo tão simples assim. Percebeu isso no exato momento em que um turbilhão de água formou-se aparentemente do puro ar, avançando e acertado em cheio a barriga da mulher. Por um instante os olhos dela se arregalaram, quase saltando para fora de suas órbitas, e um instante depois ela arremessada para cima, girando no ar enquanto de alguma forma ela tentava controlar seu corpo.

Ficou abismado com aquilo. Olhou para as gotas de ar que haviam caído no chão depois daquele turbilhão. Isso... isso foi feito por mim? Fui eu que fiz aquilo? Ergueu uma de suas mãos a frente de seu rosto e tentou concentrar-se, usá-la como ponto de foco, e com algum esforço de sua parte viu água surgir na palma de sua mão, como se ele tivesse a enchida d’água numa poça ou fonte ou coisa do tipo. Isso é... isso é magia. Havia se esforçado muito, por anos e anos afio, tentando aprender magia por conta própria. Havia se encontrado com alguns magos durante suas viagens, e o contato que havia tido com eles havia tirado qualquer dúvida que ele antes podia ter sobre ter a capacidade de usar magia, mas apesar disso, todos os treinamentos que ele havia tentado tinham se mostrado infrutíferos. Até agora. Já havia ouvido sobre aquilo, apesar de nunca ter pensado que isso aconteceria consigo. Dizem que grandes emoções e situações em que sua mente e corpo estão esforçadas ao máximo podem fazer com que pessoas superem seus limites, façam coisas que elas normalmente não conseguiriam fazer. E uma vez que limites eram quebrados, era muito mais fácil fazer essas coisas.

Ergueu seus olhos para o céu, vendo o momento em que a mulher veio despencando em sua direção. Talvez... talvez eu possa fazer algo aqui. No pequeno período pelo qual aquela luta já havia se estendido, ele havia sofrido golpes fortes que haviam lhe causado muitos danos; provavelmente não conseguiria sustentar uma luta como aquela por muito tempo, mas se agora podia usar magia para criar e manipular água, então ele tinha uma chance de vencer. Um golpe. Só preciso de golpe. Um bom acerto limpo e ela morre!

Dobrou suas pernas enquanto segurava firmemente o bastão em suas mãos, lentamente entrando em uma posição de batalha. Seus olhos fitaram bem a mulher – que gritava e rosnava pra ele enquanto vinha em sua direção – e mentalmente calculou aproximadamente a distância que os separava. Ela é extremamente agressiva e nada cuidadosa. O mais provável aqui é de ela tente me atacar de alguma forma, provavelmente com um soco ou chute. Se fosse esse o caso, então a vantagem reinava com Skylar; não tinha tanta força bruta quanto aquela mulher tinha, mas o uso de seu bastão lhe dava uma área de alcance muito maior do que a dela. Muito bem, eu sou vou ter uma chance nisso. Sucesso significava vitória e vida, fracasso significava derrota e morte. Mas eu não preciso pensar nisso. Eu não vou fracassar.

De uma só vez, concentrou-se e liberou poderosos jatos de água a partir da sola de seus pés ao mesmo tempo em que saltava. Aquilo lhe deu uma grande propulsão, impulsionando-o para cima com grande velocidade... direto em direção a mulher.

Tal como sempre, ela sorriu selvagemente ao ver aquilo, jogando ambos os seus braços para trás, preparada para lhe golpear. Mas antes que ela tivesse a chance de fazer isso, ele agiu. Jogou seus próprios para trás, recuando seu bastão com isso, e com um grito de guerra disparou-os de frente para frente. Sua área de alcance, sua força física, a propulsão que ele tinha, o descuido da mulher, a velocidade dela... todos esses fatores colaboraram, agindo com um. No momento em que a ponta de seu bastão colidiu com a testa dela, o sorriso no rosto da fera desapareceu, e o som de algo se quebrando ressoou em seus ouvidos. Seu bastão atingiu e atravessou diretamente a testa dela, passando por seu crânio e saindo do outro lado de sua cabeça, banhado em sangue. Quando seu corpo chegou a colidir com o dela, já não havia vida mais na mulher que antes mostrava-se tão poderosa.

Seu corpo caiu ao chão junto com o dela, meio que abraçados de alguma forma, algo muito mais do que irônico no que lhe dizia respeito, mas ao mesmo tempo algo no qual ele simplesmente não podia realmente apreciar qualquer humor. Empurrou o cadáver da mulher para o lado e puxou seu bastão pra fora dela, vendo em primeira mão o momento em que ele saiu e a cabeça dela caiu sem vida no chão, sangue e o que pareciam ser pequenos pedaços de ossos quebrados escorrendo para fora dele depois disso. Eu nunca consigo me acostumar com isso. Ela não era a primeira pessoa que Skylar já viu morrer – outras já tiveram o mesmo destino no passado, algumas até mesmo diante de seus olhos – mas simplesmente não conseguia acostumar-se com a morte, e não sabia dizer se isso era algo bom ou ruim. É por isso que não entendo as pessoas. Esse mundo está cheio de psicopatas e pessoas extremamente sanguinárias, pessoas que parecem viver apenas para fazer mal aos outros. Essa mulher era um exemplo disso. E se a morte é algo tão ruim assim, então como as pessoas conseguem gostar tanto dessas coisas...? Isso era algo que ele não entendia, e de alguma forma, sabia que ele nunca iria entender. Existem coisas que é melhor que você não entenda, eu acho.

– Impressionante – disse uma voz, atrás de Skylar. Uma voz que o jovem reconhecia. – Fera era uma criminosa de alto nível quando a tiramos da prisão. Eu sabia que ela iria morrer aqui devido à tendência que ela tinha a lutar de forma despreocupada, só não pensei que isso seria tão cedo assim na batalha, ou nas mãos de um garoto como você.

Uma gota de suor frio correu por seu rosto, passando por seu pescoço e seu ombro antes de pingar ao chão. Essa voz... por que ele? Voltou lentamente seu rosto na direção daquela voz, e o que viu confirmou qualquer dúvida que ele antes pudesse ter.

– Não posso dizer que sinto por isso – disse Cleus, calmamente, mantendo seus olhos fixos sobre Skylar, as asas de fogo queimando atrás dele enquanto a grande lâmina que ele havia usado antes em seu ataque inicial ardia ao seu lado. – Fera... ela sabia lutar, mas nada além disso. É difícil até mesmo dizer que ela era uma mulher. Tudo o que ela fazia, sabia fazer ou queria fazer se resumia a simplesmente sair por aí matando todos que encontrasse em seu caminho. Pra ser sincero, eu me sinto até um pouco aliviado com a morte dela; ela era perigosa, perigosa demais para ficar viva. Nunca deveríamos ter lhe libertado. – e no que disse isso, Cleus deu um passo em direção a Skylar. No momento em que seu pé tocou o chão novamente, chamas surgiram dele, fluindo e espalhando-se a partir dele para todo o ambiente ao redor dos dois. Num piscar de olhos Skylar se viu subitamente no meio do que parecia ser um grande círculo de fogo, todas as suas saídas bloqueadas. – Isso dito, o fato de ter sido o responsável por derrota-la não faz com que você deixe de ser meu inimigo, garoto. Não pense que vou lhe mostrar misericórdia.

Compreendeu o que ele ia fazer no momento em que ouviu aquelas palavras. Aí vem ele! Ergueu seu bastão tão rápido quanto pôde para tentar bloquear o golpe do Pássaro de Fogo, mas mal foi capaz de movê-lo antes que seu inimigo lhe atingisse. Em um piscar de olhos Cleus estava diante dele, e a lâmina flamejante do homem moveu-se como um grande borro vermelho no ar; a sensação que teve foi como se uma faca quente tivesse rapidamente cortado seu corpo. Instintivamente sua cabeça se abaixou, fitando o ferimento que ele havia acabado de receber, um grande corte diagonal aberto em seu peito.

E então, esse corte ardeu em chamas, e Skylar gritou.

=====

Cortou seu inimigo ao meio com um único golpe de seu bardiche, partindo-o de forma limpa, deixando que as metades do que havia se julgado um oponente pra ele caíssem, cada uma pra um lado diferente. Grunhiu em frustração com aquilo e moveu sua arma bruscamente, jogando parte do sangue que impregnava sua lâmina longe com isso. Ainda fracotes! AINDA FRACOTES! Sério, quanto tempo vai demorar até que os inimigos entendam que jogar pessoas tão fracas assim é apenas desperdiçar nosso tempo?! Mandem alguém mais forte! Se as coisas continuassem assim, acabaria partindo por si só contra o inimigo; considerando que eles haviam lançado um ataque como aquele contra o Salão, era de se esperar que eles tivessem algum tipo de campo por perto, e um campo era um ótimo alvo para um ataque. A chefia provavelmente ficaria bem irritada se eu fizesse isso, mas ei, não há nada que eu possa fazer quanto a isso. Alguém tão forte como eu não pode simplesmente ficar parado aqui matando fracotes enquanto os outros estão sobre ataque.

– Excelente, tudo que eu queria encontrar – disse uma voz feminina, arrogante e refinada como a que alguém esperaria vindo de uma donzela ou alguma outra mulher de bom nascimento. – Um homem, jovem e forte e bonito. Um brinquedinho perfeito pra mim.

Virou-se prontamente na direção daquela voz, um sorriso em seu rosto; algo lhe dizia que aquela mulher seria um bom oponente. E no entanto, esse sorriso morreu no momento em que a viu e viu o que a cercava. Mas que diabos?!

A mulher em questão realmente parecia descender da nobreza, tal como sua voz sugeria. Era uma mulher bela, de longos cabelos loiros ondulados e brilhantes que caiam até sua cintura. As vestes dela eram um robe azul-celeste extremamente decotado, com decote nos seios, braços, pernas e quadris. A pele dela era branca, porém não branca demais, tendo tons suaves que lembravam ao mesmo tempo o inverno e o verão. Seus olhos eram verdes como esmeraldas, cheios de astúcia e malícia, brilhando enquanto ela olhava para Vaen. E no entanto, a beleza dela era arruinada pelo que lhe cercava.

Uma das primeiras coisas que ele notou foi a... montaria que ela usava. Um homem anormalmente grande, com qualquer coisa entre três a quatro metros de altura, braços fortes e grossos, claramente um grande guerreiro, com um grande rosto gordo e cheio sem orelhas. Ele andava no chão apoiado tanto em suas pernas quanto em seus punhos, de uma forma que lembrava o modo de andar de um gorila, e aquela mulher estava calmamente sentada em suas costas, usando-o como meio de transporte sem que ele reclamasse um pio. Ao lado dela, várias figuras se reuniam como se fossem seus guardas costas; alguns eram homens de vestes e estilos diversas, outras era figuras encapuzadas como as que o Olho de Falcão havia matado recentemente, mas o terceiro e mais preocupante dos grupos era constituído de homens em armaduras, alguns deles até conhecidos por Vaen; cavaleiros do Salão Cinzento.

O que eles estão fazendo do lado dela?, pensou ele por um momento, antes de olhar para os olhos deles. Aí compreendeu tudo. Os olhos daqueles homens eram mortos, sem nenhum sinal de vida, como se eles fossem escravos ou como se seus espíritos tivessem sido quebrados. Quando percebeu isso, seu rosto se tornou negro; seus dentes rangeram uns nos outros, seus olhos se afiaram, e de sua garganta veio algum tipo de grunhido que mais parecia um rosnado do que qualquer outra coisa.

– O que você fez com eles, puta loira? – rugiu Vaen, irritado. Um de seus pés avançou, colocando seu corpo em posição de batalha, deixando-o pronto para avançar contra aquela mulher a qualquer momento. – Responda! O que você fez com meus companheiros?!

A única reação dela a isso foi sorrir de forma sarcástica e maliciosa, erguendo levemente um de seus dedos e balançando-o à frente de si.

– Não, não, não. – disse ela, no tom de voz de alguém que corrige uma criança estúpida sobre alguma coisa, sem fazer esforço algum em esconder em seu rosto o divertimento que tirava de tudo aquilo, algo que só fez com que Vaen sentisse-se cada vez mais irritado. – Você não fala assim com a sua senhora. Parece que você vai ter que ser disciplinado por mim antes que se torne um brinquedinho decente. – e dizendo isso o sorriso dela se alargou um pouco mais, enquanto a ponta de seu dedo indicador bateu levemente no queixo dela, como se ela tivesse acabado de ter uma ideia ou pensado em algo. – Mas isso não importa, eu acho. Um pouco da minha atenção e você logo se tornará um bom brinquedinho. – e depois, subitamente, ela esticou sua mão para frente, gesticulando com seus dedos como que para que Olho de Falcão se aproximasse. – Venha, brinquedo. Dê um beijo em sua dona.

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Destroços cobriam seu corpo, pedaços do que havia um dia sido uma casa antes que ele caísse sobre ela, lançado pela explosão de chamas que o tal de Pássaro de Fogo havia feito antes. Isso é problemático. Problemático demais. Eu não gosto de coisas problemáticas. Pelo pouco que havia visto das habilidades daquele homem, ele era forte, muito forte. Tão forte quanto eu... talvez até mais. Não tinha ideia de como poderia derrotar alguém tão forte assim, mas supunha que teria de tentar. Quero dizer, eu posso deixar os cavaleiros do Salão Cinzento cuidarem disso, mas se fosse assim, então eu seria um péssimo mercenário, forçando seu contratante a cuidar de seus problemas por si mesmo. Além do mais, não via nenhum sinal de nenhum de seus companheiros ao seu redor; eles provavelmente haviam sido jogados em outras direções com o ataque de Cleus, e se isso era verdade, então existia a possibilidade de que eles estivessem enfrentando aquele homem naquele exato momento. E eu não posso deixar que meus amigos lutem sem mim.

Fechou seus olhos por um momento e concentrou-se, e quando voltou a abri-los, uma onda de luz irradiou de todo o seu corpo, arremessando todos os destroços que lhe envolviam antes longe como se não fossem nada.

Colocou-se em pé com um salto, e assim que o fez não perdeu tempo em esticar seu corpo e checar suas armas. Por sorte sua arma e armadura aparentemente não haviam sofrido muito com o ataque de Cleus, mantendo-lhe em uma boa condição para uma batalha. O que é algo bom, eu creio, pensou ele, enquanto seus olhos se afiavam e ele virava-se para um lado. Afinal de contas, parece que minhas lutas já vão começar.

– Eu sabia – o homem que disse aquelas palavras parecia tremendamente satisfeito à medida que as falava, um sorriso selvagem brilhando em seu rosto enquanto ele trazia seu grande escudo e lança. Maverick Gravos era um oponente que Trevor já havia enfrentado algumas vezes no passado, seja por estarem em lados opostos em um determinado confronto ou pelo fato dele simplesmente ter saído de seu caminho para comprar briga com o Branco. Nenhuma dessas lutas havia tido um resultado definitivo; por vezes Trevor havia saído na melhor, por vezes Maverick havia tido mais sorte, mas eles nunca chegaram a realmente derrotar um ao outro em batalha. E isso provavelmente era um dos fatores que contribuía para que Maverick gostasse tanto de lutar com ele. – Eu sabia que você não iria ficar de fora de uma batalha como essa, Trevor! – rugiu Maverick, gritando em alto e bom som, sem se dar ao trabalho de tentar esconder a felicidade que ele tinha com a situação atual. – Diga-me, você trouxe seu grupinho com você? O clã ou qualquer merda desse tipo. Lembro-me que haviam alguns até que consideravelmente fortes nele. Posso me divertir um pouco matando eles depois que espalhar suas tripas pelo chão.

Geralmente reagia mal a ameaças direcionadas aos seus companheiros, mas considerando que aquela vinha de Maverick, manteve-se calmo. Não podia se dar ao luxo de ficar irritado ali e arriscar perder a luta. Maverick é um oponente impaciente e intuitivo. Tentar agir da mesma forma que ele só vai fazer com que eu seja completamente derrotado. Se queria ter alguma esperança de derrotar aquele homem, o que tinha de fazer era manter a calma e o controle da sua racionalidade; manter sua mente no lugar e pensar em cada movimento, em formas de lidar com cada ataque dele.

– Os outros estão aqui também – admitiu Trevor com um múrmuro, erguendo levemente sua espada bastarda para apontá-la contra Maverick. – Isso dito, você não vai ter a chance de fazer nada contra eles, Maverick, considerando que eu irei te matar aqui.

– Me matar?! Há! – Maverick zombou daquilo em desafio, abrindo seus braços e deixando seu peito à mostra como se estivesse desafiando Trevor a ataca-la. Não caiu nessa. Se eu partir para o ataque agora, receberei uma lança cercada de força gravitacional direto na cara quase que imediatamente. – Você nunca conseguiu isso antes, Branco! Se bem me lembro, da última vez que lutamos você teve que sair se rastejando por aí, com suas pernas quebradas e o corpo banhado em sangue!

– E se eu não me engano, aconteceu o mesmo com você na vez antes dessa – lembrou Trevor, permitindo que um leve sorriso provocante surgisse em seu rosto. – Nós já lutamos várias vezes, Maverick, e a vitória já pendeu pra ambos. Hora de pôr um fim nisso. Na verdade, devo dizer... parte do motivo de eu ter aceitado esse trabalho é justamente por um fim nisso. Por um fim em você.

A reação de seu oponente deixou mais do que claro que aquelas palavras haviam lhe deixado bem satisfeito. Ele nem disso mais nada. Suas pernas dobraram-se por um instante, e esse foi todo o aviso que Trevor teve do ataque que estava por vir. Colocou seu corpo rapidamente em uma posição defensiva para preparar-se para aquilo, bem no momento em que Maverick saltou, cruzando a distância que os separavam e movendo a ponta de sua grande lança direto contra a cabeça de Trevor, a magia gravitacional do mercenário sendo tão poderosa e densa que com o olho nu conseguiu ver o contorno arroxeado da magia ao redor dela. Sua resposta a isso foi apenas uma; concentrou sua magia de luz ao redor de sua espada bastarda e moveu-a contra a arma de seu oponente, e no momento em que as pontas de ambas colidiram, o encontro das energias fez com que luzes brancas e arroxeadas brilhassem por todo aquele ambiente, ao mesmo tempo em que uma cratera formava abaixo deles e a força por trás de seus ataques criava uma esfera de pura destruição que os envolveu.

=====

O punho de Goliath moveu-se em direção a Alexander com lentidão, mas trazendo uma força tão grande que o cavaleiro pode sentir essa força agir sobre seus ossos, mesmo à distância. Entendo. Isso explica o porquê dos outros parecerem tão temerosos quanto a esse cara. Ele não era particularmente rápido, mas aquela sensação era enervante e perigosa, e isso somado ao fato de que o punho dele era grande o suficiente para fazer uma sombra que envolvia por completo até mesmo alguém tão grande quanto Alexander fazia com que aquilo fosse tremendamente intimidante. No entanto, ser intimidante não faz com que isso seja mais efetivo, e sua força não é nada comparada a minha.

Jogou seu braço direito para trás, e sem hesitação moveu-o contra o de seu oponente.

O encontro de seus punhos gerou uma poderosa onda de impacto. Sentiu o chão rachar-se e quebrar-se embaixo de seus pés, viu a poeira, o pó e as cinzas que cercavam toda aquela área serem erguidas ao ar, e até mesmo as janelas das casas próximas explodiram devido à pressão exercida sobre elas. Isso não durou muito, entretanto; o impacto ativou a habilidade de Alexander, e em um piscar de olhos ele viu seu braço sendo lançado para trás pela explosão que os dispositivos de sua armadura causaram, ao mesmo tempo em que o braço de Goliath também era lançado para longe, só que em pedaços por sua vez. Alquimia é realmente algo genial, pensou ele, sorrindo, enquanto observava aquilo. Ao contrário da maioria dos cavaleiros de alto nível, Alexander não contava com alguma arma mística, uma magia estranha para usar junto de suas habilidades físicas ou um talento tão oculto e poderoso quanto Aloeiris. Diria que era um humano normal, com suas únicas vantagens sendo a força, resistência e agilidades fora do normal que ele possuía. Mas era um nativo das Ilhas de Carcino, alguém esperto que havia passado sua infância junto dos desenvolvimentos tecnológicos sempre crescentes ali. Tiamat é um filho da puta e um péssimo governante, mas ninguém pode negar que ele é um gênio fenomenal ou que ele é o responsável por mais da metade do progresso tecnológico do nosso mundo. O princípio por trás de sua habilidade era simples, mas prático e extremamente útil. Quando ele realizava um golpe, a pressão de seu ataque fazia com que dispositivos ocultos na área braçal de suas armaduras começassem a trabalhar, e esses dispositivos provocavam uma explosão de intensidade variante, dependendo da pressão exercida. Sua armadura em si havia sido projetada pelo próprio Alexander de forma a proteger-lhe contra o fogo, então tudo que ele sofria com seus golpes era um “coice” resultado da explosão, algo com o qual ele já estava acostumado e que ele podia simplesmente ignorar em várias situações. O mesmo não valia pros seus oponentes, no entanto. E mais do que isso, eu tenho força e experiência o suficiente para causar pressão sobre os dispositivos com meros movimentos dos meus braços, o que me permite criar explosões praticamente quando eu bem entender. Era por isso que, dentre os cavaleiros do Salão Cinzento, ele era chamado de “O Grande Estouro”. O Grande Estouro, Alexander Malkov.

Um grito de dor veio da garganta do gigante, a maior parte do braço dele destruída pela explosão, deixando pouco mais do que seu ombro restante. Com todo o tamanho que ele tinha, o som que vinha de sua garganta era absurdo, como se viesse de uma besta gigantesca como um dragão ou coisa do tipo. Ai meus ouvidos. Aquilo era no mínimo incômodo, mas também era uma grande chance para ele, e não estava disposto a perde-la. Saltou sem pensar duas vezes, jogou ambos os seus braços para trás, e vendo o peito do gigante aberto à sua frente, não pensou duas vezes antes de lançar dois socos diretos contra ele. Ambos os seus punhos acertaram o oponente em cheio, e tal como antes, explosões resultaram de cada um dos seus ataques, essas sendo fortes o suficiente para arremessa-lo para trás, jogando-o longe.

Acabou destruindo uma casa com seu corpo graças a força com a qual foi arremessado, quebrando direto o telhado dela e caindo sobre uma mesa de madeira, quebrando-a com suas costas e levantando poeira. Oh, merda. Aquilo não havia doido de verdade nem nada do tipo, mas ainda assim era algo bem incômodo de se acontecer.

Levantou suas pernas, inclinou-as levemente para trás e colocou-se em pé com um salto. Olhou ao redor, e para sua surpresa viu um homem abraçado com duas meninas embaixo de uma mesinha no canto da sala, todos os três olhando para Alexander de uma forma que era ao mesmo tempo espantada e temerosa. Coçou a cabeça ao ver aquilo. Ei, ei, isso é bem problemático. O que é que esse cara está fazendo aqui ainda?

– Ei, senhor – disse ele, chamando a atenção do homem e fazendo com que este visivelmente respirasse em seco, temeroso quanto ao que ele poderia dizer. – Você sabe, esse lugar não é seguro. A maior parte da cidade é uma frente de guerra agora. É melhor você correr para o Salão Cinzento enquanto pode.

– Co-correr? – o simples pensamento daquilo pareceu assustar tanto o homem quanto as garotas, fazendo com que ele as envolvesse em seus braços com ainda mais força. – Mas... estamos sob ataque, senhor.

– E vamos continuar assim por um bom tempo – concordou Alexander, fazendo um meneio da cabeça. Compreendia o medo e a hesitação do homem, mas aquilo não mudava nada, e não tinha realmente tempo disponível para ficar tentando reconforta-lo. – Essa área está consideravelmente profunda na cidade, o que significa que não devem ter muitos inimigos por aí, e eu devo ter dado conta do que estava aqui fora com meu último ataque. Eu lhe acompanharia se pudesse, mas em uma situação como essa, cada cavaleiro é importante para proteger todos nós. Apenas mantenha a cabeça baixa e corra entre as casas e vocês devem ficar bem.

Viu no rosto do homem que ele ainda não estava totalmente certo sobre aquilo – e verdade seja dita, o próprio Alexander também não estava – mas endureceu seu rosto de forma a não demonstrar nenhum semblante de piedade, e isso convenceu o homem a fazer o que ele queria. Observou pessoalmente o homem sair de baixo da mesa, levando as meninas consigo, e caminhando e pulando a janela como se estivesse marchando em direção a própria morte. Só depois disso foi que se permitiu suspirar. Ele deve me odiar agora, pensou Alexander, e a bem da verdade, não podia culpa-los se fosse realmente esse o caso. Devo ter parecido um grande otário agora, mandando eles saírem de um lugar aparentemente seguro para irem para outro lugar assim tão distante, mas isso foi necessário. Se eles continuassem ali, iriam acabar morrendo durante a batalha.

Caminhou calmamente para fora da casa, deixando-a pela porta da frente, e seus olhos logo correram pelo ambiente. A primeira coisa que notou – bem como a mais visível ali era o corpo imenso e explodido do gigante, seus pedaços espalhados por todos os lados, parcialmente carbonizados pela explosão. Ver aquilo lhe trouxe uma sensação até que boa, uma sensação de que havia feito seu trabalho, mas não foi isso no qual ele se focou. Sua verdadeira atenção foi para o homem que estava parado do outro lado da rua, com suas mãos nos bolsos, esperando pela vinda de Alexander. Um homem estranho, de cabelos negros de tamanho mediano, com uma parte deles arrumada e penteada para trás, mas ao mesmo tempo a parte da frente de seus cabelos sendo desarrumada e bagunçada, espalhada pelos lados de forma bem aleatória. Algo que logo lhe chamou a atenção nesse homem foi o fato de que seu corpo, aparentemente, era coberto de pinos de aço; a ponte do seu nariz era coberta por duas fileiras de pinos de aço que entravam direto em sua carne como se pertencessem ali, de forma semelhante à de pregos bem martelados ou coisa do tipo, e da mesma forma ele também trazia pinos de aço em fileiras retas descendo por seus braços, nas juntas de seus dedos e até mesmo sobre seus ombros, servindo como se fossem algum tipo de ombreira. Suas vestimentas eram bem simples; uma camiseta preta colada ao corpo, deixando delineada a musculatura por baixo dela, e calças longas largas, somadas a botas de aço. Pelo que a aparência daquele homem passava, podia facilmente pensar que aquele homem tratava-se de nada mais do que um vagabundo, mas sentia a força que emanava dele, e isso era mais do que o suficiente para que tivesse a certeza de que não deveria subestimá-lo. Se eu subestimar um oponente como ele, terei um fim nada feliz. Isso era algo do qual Alexander tinha certeza.

– Então, você ficou me esperando esse tempo todo, hum? – questionou Alexander, dando dois passos para frente, aparentando estar descontraído de propósito para não demonstrar o quanto aquele homem lhe preocupava. – Isso é bom da sua parte. A maioria das pessoas geralmente não tem essa paciência, nem se preocupam com as vidas de terceiros. Se elas têm uma chance de ganharem alguma vantagem na luta, fazem isso, e foda-se o resto.

– Não gosto de ataques surpresas. São coisas de covardes, e covardes pertencem às covas dos cemitérios – disse simplesmente o homem, erguendo um pouco o rosto e cruzando os braços. – Além do mais, não vá assumindo que eu me importo com essas pessoas. Eu não me importo. No entanto, não tenho nenhuma razão ou interesse em mata-las, e se você quer manda-las pra longe antes de lutarmos, então não vejo porque não esperar fazer isso.

– Oh, entendo, entendo. – lentamente ergueu seus punhos, com parcimônia, tendo certeza de que seus movimentos não pareciam agressivos aos olhos de seu adversário. Não queria começar a luta antes de estar pronto. Entrou em uma posição de batalha, seus punhos parados protegendo seu rosto, preparados para lançar um ataque quando ele bem desejasse, enquanto uma de suas pernas mantinha-se parcialmente erguida, pronta para que ele usasse-a para lançar uma investida rápida. A posição de seu oponente não mudou com aquilo, apesar de que os olhos dele ficaram um pouco mais sérios, e por mais que ele tentasse não demonstrar isso, Alexander viu que ele estava observando cada movimento seu com cautela. – Meu nome é Alexander Malkov, chamado de “O Grande Estouro”. Sou o Terceiro Cavaleiro da quinquagésima oitava leva do Salão Cinzento – anunciou Alexander, fazendo com que uma das sobrancelhas do homem se erguesse ao ouvir aquilo. – E você, qual seu nome? É uma tradição entre guerreiros apresentarem-se uns pros outros antes e partirem pra batalha.

Isso apenas fez com que o homem parecesse ainda mais confuso ali, franzindo o cenho como se suspeitasse que estavam zombando da cara dele. Foi só quando teve a certeza de que não era esse o caso que ele assumiu uma feição mais neutra, apesar de que, quando falou, sua voz veio com escárnio.

– Eu não me lembro de já ter ouvido algo sobre uma tradição tão estúpida quanto essa, mas se você fala, quem sou eu pra negar? – ao dizer aquelas palavras, toda a postura de seu oponente mudou. Em um instante ele assumiu uma posição de batalha, a parte superior de seu corpo inclinada para frente, seus braços esticados, retilíneos ao seu corpo. Não, essa não é uma posição de batalha. Aquela posição não era para que ele lançasse nenhum ataque, mas sim uma posição de investida. – Meu nome é Harclay Steelex. Mantenha-o em mente. Lembre-se dele... no inferno!

Desde que havia compreendido que aquela era uma posição de investida, a guarda de Alexander havia se mantido erguida. O homem estava atento, pronto para reagir a qualquer sinal de aproximação de seu oponente... mas isso não adiantou.

Porque em um instante Steelex desapareceu, e nesse mesmo instante um punho de aço desceu em direção ao seu rosto.



Notas finais do capítulo

ÁREA OESTE:

Enderthorn VS Octo Gall (Em andamento)
Vaen VS Mulher Desconhecida (Em andamento)

ÁREA SUL

Kuman VS Fera (Vencedor: Fera)
Skylar VS Fera (Vencedor: Skylar)
Skylar VS Cleus (Vencedor: Cleus)
War e Coralina VS Nicholas (Em andamento)
Trevor VS Maverick (Em andamento)

ÁREA LESTE

Alexander VS Goliath (Vencedor: Alexander)
Alexander VS Steelex (Em andamento)

Em uma nota paralela, devo dizer. O meu plano, inicialmente, era apenas continuar postando um capítulo por semana e manter uma certa folga pra mim... mas francamente, considerando que eu já fiz o pequeno livrinho com todos esses capítulos do Olho Vermelho, estarei fazendo algo bem inconsequente e estúpido, mas que estou afim de fazer.

Postarei todos os outros cinco capítulos que eu tinha guardados aqui de uma vez, hoje.

Só um pedido, certo? Leiam com calma. Leiam ao seu tempo. Leiam sem pressa.

Ah, e... francamente, vou parar com isso de "um capítulo por semana". É uma boa meta, eu acho, mas enche o saco também as vezes. E isso é uma história amadora, de qualquer forma. Acho que vou meio que postar capítulos a medida que eu ir os terminando e tudo mais.

É, acho que sim.

... Acabei de ficar bem mais relaxado e "fuck it", certo?

Meh, que posso fazer: sou bem relaxado por natureza.

...
..
.

Sério, eu só estou falando merda aqui, por que você ainda lê isso?!



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