O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 25
História Paralela 6 - O Titã


Notas iniciais do capítulo

Eu escrevi isso ontem e hoje. Sim, tudo isso.

Raios partam, sinto como se meus braços pudessem cair.

Bem, avisos. Esse capítulo é muito pesado. Provavelmente o mais pesado que eu escrevi. Então... mantenham isso em mente.

Por sinal, esse capítulo nos conta o passado de um personagem. Os que leram a primeira temporada já devem estar familiares com esse passado, mas mesmo assim, pode ser que vocês tenham interesse em lê-lo aqui, já que nessa história temos uma narração tradicional em primeira pessoal.

Mas, sem mais! Vamos lá agora, desvendar o passado de mais um personagem!



– Aonde vocês pensam que estão indo?! Parem aí, seus pequenos ladrões!

A voz do padeiro ecoou pelas ruas enquanto os passos pesados do homem ressoaram pelo chão. Aquilo apenas fez recordar Duke e os outros do que lhes aguardava se fossem apanhados.

– Merda, eles estão nos alcançando! – gritou Annie, dando uma rápida olhada para trás. – Pessoalmente, é melhor apertar o passo! Se continuarmos nesse ritmo, eles vão acabar nos pegando!

– Sabemos disso, Capitã Óbvio! – retrucou Duke, gritando, incapaz de controlar seu tom enquanto corria daquela forma, abraçando o saco de pães roubados com toda a sua força. – Mas também estamos todos no limite aqui! Eu preciso de dois pulmões pra correr mais rápidos que isso!

– Você tem dois pulmões, seu idiota! – retrucou prontamente ela. De alguma forma, Annie conseguia sempre encher o saco de Duke, mesmo enquanto corriam por suas vidas.

– Ei, pessoal, temos um problema! – gritou Tom, alto e magro como uma vareta, trazendo um saco em cada mão. – O gordinho não aguenta mais!

O gordinho era, como o apelido sugeria, um gordinho. Ele tinha um nome, claro, mas ninguém se dava ao trabalho de lembrar-se dele, por isso todos apenas o chamavam de gordinho.

– Foda-se ele! Ninguém mandou ele ser gordo! Eu nem sei como ele é gordo passando tanta fome quanto passamos! – disse Duke, sem parar nem pra olhar pra trás. – Se ele realmente não aguenta correr mais, então deixe-o pra trás e use a distração pra fugir!

– Isso é crueldade, Duke! – reclamou o gordinho, choramingando.

– Sobrevivência dos rápidos, não dos com forma de bola, meu chapa! – retrucou Duke. – Se vira aí!

=====

– Pão! Pão! Pão, pão, pão! Hahaha, pão! – sua felicidade era tanta que, se pudesse, colocaria um anel naquele pão e se casaria com ele. – Pão pra mim! E pra mim! E pra mim! E um pouco mais pra mim!

– Ora, calado! – rosnou Annie, rolando os olhos. – Pão é bom, sim, mas não é nada desse nível.

– Calada! Calada! Cale essa sua boca! – retrucou Duke, apontando para o rosto dela. – Não se atreva a insultar o pão, ouviu? Não se atreva!

– Continue me enchendo o saco com pão e eu irei lhe dar uma pãozada na cabeça, ouviu bem? – respondeu ela, apontando um dos pães pro rosto dele. Prontamente mordeu metade desse pão dos dedos dela, o que fez com que Annie ficasse surpresa... por alguns momentos, apenas o suficiente para que ela se recuperasse e arremessasse o resto do pão na cabeça de Duke. – Filho da puta, esse era o meu pão!

– Azar o seu – foi a resposta dele, comendo o resto do pão com um sorriso no rosto. – Eu gosto de pão.

Tudo que ela fez em resposta foi suspirar e balançar a cabeça, como se estivesse dizendo que desistia daquilo.

– Pão... tão bom... – lágrimas quase escorriam dos olhos de Tom, tão emocionado que ele estava em comer.

– Coma mais de três e eu te acerto – avisou antecipadamente Duke, apontando para o homem-vareta com seus olhos.

– Ei, Duke, vamos lá, não precisa ser mesquinho assim – comentou o gordinho de forma aborrecida... ao mesmo tempo em que entupia sua boca com três ou quatro pães. Ver aquilo quase fez com que Duke deixasse seu próprio pão escorregar por entre seus dedos, quase... apenas para a surpresa que tomou conta dele fosse substituída por uma raiva impossível de se conter e seu sangue fosse substituído por fogo líquido dos confins do inferno. Saltou sobre o gordinho como se fosse um tigre selvagem raivoso, sua vontade sendo parti-lo em pedaços devido à tamanha filha-da-putice.

– Filho da puta! Cospe esses pães, ò bola de carne! Cospe eles! Sério, cospe essa merda ou eu juro que a próxima coisa que você come é o meu punho, seu gordo maldito! Cospe!

=====

– Ei, Annie! – gritou Duke em alto e bom som, girando o sutiã que havia roubado em dois dedos de forma descontraída. A mulher iria provavelmente ficar extremamente puta caso o visse fazendo isso, mas, bem, isso era apenas mais um motivo para que ela aparecesse. – Apareça logo, mulher. Não sei se você sabe disso, mas sair por ai procurando pessoas não é necessariamente a coisa que eu mais gosto de fazer!

– Ei, fala baixo! – censurou uma voz ao seu lado. Tentou olhar na direção da qual ela veio, mas nem sequer teve a chance de fazer isso; em um momento uma mão tampou sua boca enquanto outra envolveu seu peito, e ambas juntas lhe puxaram para um beco paralelo. – O que você pensa que está fazendo, idiota?! Eu não quero que o mundo todo fique sabendo disso!

Libertou-se das mãos dela até que com facilidade, considerando que ela não parecia realmente estar tentando segurá-lo. Annie estava corada e ofegante no que ele supunha ser uma mistura de embaraço e irritação. Mais velha que ele, ela já tinha quatorze anos, e portando tinha um corpo mais desenvolvido do que Duke e os outros, sendo maior, tendo pernas mais longas e aparentemente os primeiros sinais de curvas surgindo em seu corpo. Muitos dos outros – incluindo Tom e o gordinho – olhavam para ela maravilhados e diziam que ela era uma mulher-feita. Apesar de usar o termo “Mulher” para se referir a ela metade do tempo, não concordava muito com isso. Ela pode ser um pouco mais velha do que o resto de nós e ter um corpo um pouco mais desenvolvido, mas isso não faz dela uma mulher. Ela era apenas uma garota. Uma garota extremamente bonita para alguém que vivia em meio ao lixo, mas uma garota ainda assim.

– Se você não quer que o mundo fique sabendo das coisas, você deveria me responder rapidamente, não ficar fazendo hora – retrucou Duke, inabalado. Em seguida, só pra provocar a mulher, enfiou seus dedos nas alças do sutiã e puxou, testando sua elasticidade. – De qualquer forma, pra que você precisa de algo assim?

– Pra que você acha? Meus garotos estão crescendo – disse ela, dando palmadinhas por cima da camisa no que deveriam ser seus seios. – Eles ficam balançando quando estou correndo, pra lá e pra cá, pra lá e pra cá... isso é um saco. Eu amarraria faixas neles, mas é difícil achar faixas limpas, e não quero amarrar algo coberto em sangue velho nos meus seios. Por isso o sutiã.

– E por que eu tenho de fazer isso? – perguntou Duke. – Por que você não pediu pro gordinho ou pro Tom?

– Porque se eu fizesse isso, eles ficariam imaginando como seria me ver de sutiã, e a última coisa que eu preciso é estar nas fantasias estúpidas de um pirralho. Eu não poderia fazer isso justamente pelo problema dos meus seios estar me incomodando e tirando minha concentração, e a maioria dos garotos teria uma dessas fantasias estúpidas... exceto você. Você era o único garoto que poderia fazer algo assim sem que tivesse o risco dessas fantasias, Duke, seu assexuado.

– Ei, eu não sou ass– o que raios significa assexuado?

– Assexuado é alguém que não tem interesse em sexo, seja com homens ou mulheres.

– Ah. Bem, eu não sou assexuado! – protestou Duke. – Acontece que meu interesse é por mulheres, não por garotas. Não tenho interesse em coisinhas jovens e imaturas que nem você.

O semblante de fúria foi rápido em tomar conta do rosto de Annie. Por um momento ele pensou que ela iria lhe xingar, e já tinha uma resposta pronta caso fosse realmente isso que acontecesse, mas não foi. Ao invés disso, a fúria do semblante dela rapidamente desapareceu para dar lugar a uma expressão maliciosa, e enquanto Duke ergueu uma sobrancelha ao ver aquilo, tentando compreender o que exatamente isso significava, ela se aproximou de uma forma surpreendente.

Se lhe perguntassem sobre isso depois, ele não saberia dizer o que aconteceu. Quando se deu conta da situação, Annie não estava mais à frente dele, mas sim literalmente diante dele, seus lábios pressionados nos de Duke no que ele supunha ser o que que alguns se referiam a como “beijo casto”. – Por um momento aquilo tudo lhe surpreendeu tanto que ele simplesmente ficou parado sem saber como reagir a isso, dando tempo o suficiente a Annie para que ela se afastasse pra trás e olhasse para ele com um fino sorriso no rosto, suas bochechas levemente vermelhas.

– Mm, creio que isso confirma o que você disse – contemplou ela em tom pensativo. – Você não expressou muita reação a isso, é verdade, mas essas suas bochechas vermelhas me dizem que você não ficou realmente indiferente em relação a isso.

Foi só ouvir aquilo que ele se deu conta de que suas bochechas haviam começado a corar também. Esfregou-as tão rápido e forte quanto pôde, para depois voltar-se enfurecido para a mulher a sua frente.

– Você! – rugiu ele, enfurecido e embaraçado pelo que havia acabado de acontecer. – O que... o que raios você pensa que acabou de fazer, sua mulher maldita?!

– Ah, agora sou uma mulher, não sou? – comentou ela, alargando um pouco mais seu sorriso ao ouvir aquilo. – Eu estava lhe pagando, Duke. Você foi buscar algo pra mim, creio que um pequeno beijo de uma linda mulher é um pagamento até melhor do que o que você podia esperar, não concorda? – não concordava, o que fez com que rosnasse, e isso por sua vez fez com que ela tentasse e falhasse em reprimir uma pequena gargalhada. – Vamos, Duke, não fique tão irritado. Você deveria ficar feliz, até mesmo lisonjeado pelo que acabou de acontecer. – e se dizer mais ela subitamente se virou, seguindo para longe dali enquanto acenava pra Duke de costas. – Até depois, Duke. Não pense demais nisso, tudo bem?

Ela disse aquilo e foi embora, deixando um Duke ainda frustrado e irritado pra trás. Raios de mulher estúpida! Tudo que aquela estava fazendo lhe irritava, desde aquilo do beijo até as palavras que havia dito. Maldição, tudo isso me dá nos nervos!

Apesar de que... não sabia bem o que lhe irritava mais; o que ela havia feito, ou o fato de ter gostado um pouco disso.

=====

– Ei, vocês ouviram a notícia? – perguntou Tom, correndo os olhos por todos ali. Raramente os quatro se reuniam quando não estavam trabalhando ou planejando algo, mas aquela era uma exceção pra isso; pela primeira vez no que havia sido pelo menos uma quinzena eles haviam se reunido pra comer. – Pelo que parece, os sangue-azul elegeram um novo governador.

– Um novo governador? – repetiu Duke, franzindo uma de suas sobrancelhas. – Eles sequer estão na época de fazer isso?

– Não existe bem uma época certa para que eles façam isso, pelo que eu sei – comentou Annie, virando o rosto em sua direção. Nem bem ela começou a fazer isso ele virou seu rosto quase que instantaneamente, suas bochechas avermelhando-se rapidamente. Maldição, maldição! Maldita mulher irritante! Desde o dia em que ela havia lhe beijado Duke simplesmente não podia olhar pra ela sem corar, e o fato disso aparentemente divertir aquela mulher maldita apenas lhe deixava ainda mais irritado. Ela riu um pouco vendo seu embaraço antes de voltar a falar. – Pelo que sei, os sangue-azul apenas escolhem um líder e o mantém enquanto ele lhes agradar, para lhe substituir quando se cansam dele.

– E que tipo de homem é esse novo governador, Tom? – perguntou o gordinho, fazendo com que o rosto de seu amigo praticamente se iluminasse, como se isso fosse tudo que ele queria ouvir.

– Eu não seu ao certo – sussurrou o magrelo, como se temesse que suas palavras pudessem chegar aos ouvidos errados. Olhou ressabiado pra um lado e pro outro antes de finalmente inclinar seu rosto em direção aos outros. – Mas pelo que os rumores dizem, parece que ele tem gostos.... estranhos, bizarros até. Dizem que garotas vivem indo para a mansão dele pra nunca mais sair, e dizem que nenhuma dessas garotas era uma mulher.

– Então... ele gosta desses caras estranhos que falam com voz fina e se vestem que nem mulheres? – franziu uma sobrancelha diante daquilo. – Bom, concordo que isso é realmente estranho e bizarro, mas não vejo algo realmente preocupante no meio disso tudo.

– Não, não, você entendeu tudo errado! – protestou Tom, balançando sua cabeça de um lado para o outro enquanto falava. – Quando eu disse que nenhuma das garotas da qual ele gosta é uma mulher eu não quis dizer que elas eram na verdade um homem ou coisa do tipo, mas sim que elas são literalmente garotas. Pelo que eu sei, as garotas das quais ele gosta são todas da idade da Annie, ou ainda mais novas.

Fechou sua boca ao ouvir aquilo. Um comentário irônico veio a sua mente, mas a seriedade nos rostos de seus três companheiros deixava bem claro que aquele não era um assunto com o qual devia brincar. É mesmo... agora que me lembro, relacionamentos entre homens tão velhos e garotas tão jovens constituem um crime grave, certo? “Pedofilia” ou coisa do tipo, se eu não me engano. Era estranho imaginar que alguém que praticava algo assim – principalmente alguém que era tão descuidado ao ponto que rumores sobre ele corressem pelo lixo – fosse ser o novo governador, mas de certa forma Duke já estava até acostumado com coisas assim. Regra principal da coexistência mundial: se você tem dinheiro o bastante, você pode fazer o que bem quiser e ninguém vai se importar. Esse princípio era, na verdade, uma das bases do sonho de Duke. Um dia vou ser rico; rico o suficiente para sair por ai dando uma porrada em cada nobre que cruzar o meu caminho sem que ninguém me encha o saco.

– Não gosto disso – resmungou Annie, subitamente mal humorada, fitando sua comida como se ela fosse algum tipo de animal estranho. – Como os sangue-azul podem colocar alguém assim como governador? Isso é absurdo. Isso é estúpido e absurdo.

As palavras duras daquelas mulher-menina chamaram sua atenção. Ela... parece realmente irritada. E isso é mais do que um pouco surpreendente. Annie nunca foi famosa por ser alguém que se importava muito com coisas distantes; foram muitas as vezes em que eles ouviram diversas notícias sobre o lixo e os sangue-azul, e não lembrava-se daquela garota ter tido um pingo de reação em relação àquilo, ao menos não se isso não lhes envolvesse diretamente. O fato dela não só ter expressado uma reação a isso como também o fato de ter exibido uma reação tão forte assim eram fatos que atiçavam a curiosidade de Duke tanto quanto o preocupavam.

– Ei, Annie! – chamou ele, enquanto mentalmente ainda debatia se essa era uma boa ideia. Ela voltou-se para ele, inquerindo com seus olhos o que ele tinha a dizer, e apesar da seriedade da situação, simplesmente não foi capaz de deixar de corar. Averteu seus olhos dos dela, sentindo-se constantemente estúpido por isso, e de alguma forma conseguiu resmungar umas palavras. – Ei... bem... você sabe, você não precisa se preocupar com coisas assim, sabe? Quero dizer... é bem improvável que alguém tente fazer algo com você, mas... mesmo que tentem... sabe que vamos te ajudar, certo? Você não... precisa ter medo ou coisa do tipo.

Havia imaginado que após ouvir algo assim a mulher iria sorrir e responder com alguma de suas provocações, mas isso não aconteceu; ela até tentou sorrir, mas seu sorriso não foi nada mais do que grotesco considerando o quão sério e sombrio estava o rosto dela, e isso só fez com que ele ficasse ainda mais preocupado.

– Eu sei, eu sei – respondeu ela, quase que em um sussurro. – Mas mesmo assim... eu tenho um mal pressentimento.

=====

– Ei, Duke! DUKE! Temos problemas, problemas graves! Precisamos da sua ajuda aqui, Duke!

Virou-se na direção daquelas vozes com um resmungo, apenas para ver Tom e o gordinho correndo em sua direção com expressões desesperadas em seus rostos. Ei, esses dois parecem sérios. Até agora havia mantido uma postura relaxada, pensando que aquilo devia se tratar de pouco mais do que alguma das coisas estúpidas que eles faziam de tempos em tempos, mas seus rostos contavam uma história diferente, e isso foi o suficiente para que ele ficasse sério.

– Acalmem-se, vocês dois! – gritou ele para ambos à medida que eles se aproximavam. – Afinal, o que foi que aconteceu para deixar vocês tão desesperados assim?

– Annie! – disse o gordinho, caindo de joelhos ao parar, exausto demais devido a todo o esforço que ele havia feito. Aquilo fez com que uma das sobrancelhas de Duke se erguesse, fez com que o homem ficasse um tanto quanto confuso devido a isso. Annie?, pensou ele, sem entender. Pensando bem, não vi Annie hoje o dia todo. Isso não era normal. Não moravam juntos um do outro, mas viviam na mesma área, por isso se viam frequentemente. Será que... será que isso significa que aconteceu alguma coisa com ela?

– O que tem a Annie? – questionou Duke, começando a ver aonde exatamente eles estavam querendo chegar com aquilo. – Ei, respondam! O que raios aconteceu com a Annie?!

– Ela... a Annie foi... – Tom tentava falar, mas as palavras pareciam travadas em sua garganta. Puxou-o pelo colarinho e sacudiu-o violentamente, e isso de alguma forma fez com que as palavras viessem. – A Annie foi sequestrada pelos soldados do governador!

=====

– Socorro! – o grito do gordinho foi como o de um porco sendo abatido, estridente, apavorado, desesperado. Ele fez com que Duke sentisse uma pontada no fundo de seu coração. – Por favor... não me deixem aqui!

A mão do gordinho estava aberta, seus dedos esticados ao máximo em direção a ele, implorando por ajuda enquanto a ponta vermelha do darda protundia-se de sua barriga. Ele, Duke e Tom haviam infiltrado-se na mansão do governador para resgatar Annie, mas eles foram vistos, e logo o que era para ser uma missão furtiva tornou-se numa corrida pela própria vida. Com bons pulmões e boas pernas, Duke e Tom haviam conseguido manter uma boa distância dos guardas e de alguma forma haviam evitado os dardos das bestas, mas o mesmo não valia para o gordinho. Maldição, eu sei que isso é algo que eu deveria esperar, eu sempre soube que a gordura desse cara iria lhe custar caro um dia, mas maldição... por que agora?!

Grunhiu entre dentes e moveu-se para ajuda-lo, mas antes que pudesse dar um passo em sua direção sentiu a mão de Tom lhe segurar.

– Espera, Duke! – disse seu amigo. Sua resposta a isso foi debater-se, o que fez com que Tom se esforçasse ainda mais em lhe segurar. – Ei, pare com isso! Abandone-o! Não temos tempo para salvá-lo!

– Não temos tempo para salvá-lo?! Você está de sacanagem comigo?! – fitou seu companheiro de forma irada, sem conseguir entender o que estava acontecendo com ele, por que ele estava agindo assim. – Ele é seu amigo também, Tom! Como você pode dizer algo assim?!

– Vendo a verdade, é assim que digo algo assim! – retrucou ele, aparentemente tão irritado com Duke quanto Duke estava com ele. – Olhe bem pra isso! Você realmente acha que tem alguma chance de salvar Dalton?! Esse dardo perfurou a barriga dele e espalhou uma quantia muito grande de sangue, e eu lhe garanto que tirar o dardo ou tentar movê-lo não vai deixar as coisas melhores! E mesmo se a questão da perda de sangue não fosse um problema, temos que considerar que estamos sendo caçados aqui, e ele deve pesar quase cem quilos!

Seus dentes rangeram uns nos outros ao ouvir aquilo com tanta força que eles podiam muito bem terem sido reduzidos a pó naquele instante. Merda... merda! Tinha razão no que Tom havia falado, por mais que odiasse ter de admitir isso. Mas que importa, afinal de contas? Nada! Nem um pouco! Era verdade que o gordinho era, bem, gordo, mas isso não mudava nada. Gordo ou não, com todas aquelas dificuldades ou não, ele ainda era amigos deles – não podiam simplesmente lhe abandonar.

– Por aqui! – gritou uma voz grossa, masculina, ao mesmo tempo em que passos foram ouvidos, cada vez mais alto. – Aqueles moleques correram por aqui! Temos de pará-los antes que eles possam causar algum dano à propriedade do governador! Apressem-se!

Oh, merda! Precipitou-se novamente em direção ao gordinho, mas uma vez mais Tom lhe deteve. Grunhiu em irritação, e sem hesitar tornou a debater-se, dessa vez sem nem se preocupar em evitar ferir seu amigo.

– Me solte, Tom! – exclamou Duke, furioso. – Se você não quer ajudar ele, então tudo bem! Eu cuido disso! Mas se não for pra me ajudar, então não me atrapalhe também, caralho!

Esperava uma resposta a isso, talvez um retruque irritado ou coisa do tipo, mas o que veio foi muito mais do que esperava.

– Você pretende deixar que Annie seja estuprada simplesmente porque você não consegue parar de agir como uma criança mimada, Duke Graham?!

Aquelas palavras lhe afetaram. Em um momento todos os seus movimentos pararam, e Duke não pode fazer nada além de tentar compreender o que se passava ali.

– Eu sei que você não gosta nem um pouco disso, mas vivendo com tão pouco quanto temos você já deve saber que o mundo não dá a mínima para o que gostamos ou não! Nem sempre as cosias correm da forma que queremos, e você hora ou outra é colocado em situação que lhe forçam a fazer escolhas difíceis, e essa é uma delas! Às vezes pessoas tem de morrer para que outras possam viver, Duke; essa situação é ainda mais simples, pois não existe forma de salvar Dalton, mas o sacrifício dele pode salvar Annie! Isso depende, no entanto, da sua habilidade de ter alguma maturidade e fazer o sacrifício necessário pelo bem maior!

Por uma vez Duke não tinha resposta para dar a isso. Ficou em silêncio, as palavras de se amigo pesando em sua mente. Um sacrifício pelo bem maior... Seus olhos tornaram a cair sobre o gordinho, dessa vez não focados no que dizia respeito a ajuda-lo como antes, mas mais duros, mais pragmáticos. Tudo o que Tom disse sobre ele... tudo é verdade. Olhando para ele, Duke sabia que ele não tinha esperanças de salvá-lo; verdade seja dita, Dalton era simplesmente pesado demais para que ele pudesse esperar levá-lo consigo enquanto fugia dos guardas e buscava por Annie, e mesmo se não fosse esse o caso, haviam outros problemas. Aquele dardo havia feito grandes estragos em sua barriga, deixando o sangue escorrer como uma cascata vermelha, deixando as tripas do garoto caírem ao chão. Mesmo se eu pudesse carrega-lo pra fora daqui, os ferimentos dele são graves demais para que ele sobreviva depois disso. É como o que Tom disse: independente do que eu faça aqui, ele já está morto. E no entanto... mesmo assim, era difícil pra Duke simplesmente abandoná-lo.

Mas... eu acho que esse é um sacrifício necessário.

Virou-se de uma só vez e começou a correr imediatamente, sabendo que se ficasse muito tempo ali ou olhasse para trás ele iria começar a se arrepender. Os gritos de Dalton ficaram mais altos e desesperados ao ver seus companheiros lhe abandonando, mas Duke fechou seus ouvidos a isso e seguiu em frente. Eu não posso parar. Eu não vou parar! O que Tom havia dito era verdade, e se não podia salvar todos, iria salvar todos que pudesse. Se eu não posso salvar Dalton, então eu irei me certificar de salvar ela! ANNIE! ESPERE POR MIM!

=====

Quando a encontrou, seu corpo jazia sobre uma cama de sangue.

Viu incensos queimando no canto do quarto, aparentemente exóticos e estranhos, mas eles falharam miseravelmente em ocultar o cheiro que impregnava aquele quarto, enojante, quase fazendo com que Duke vomitasse. Sangue e suor.

O corpo de Annie estava jogado sobre a cama de forma desengonçada, como se ela fosse uma boneca quebrada. Suas pernas estavam abertas e distorcidas em ângulos inumanos, como se alguém tivesse puxado-as com tanta força que elas haviam quebrado. A garota estava nua, e isso deixava à mostra as marcas no seu corpo; cortes, arranhões e inchaços cobriam-na de uma forma tão brutal que era difícil até mesmo imaginar como o seu corpo deveria ser antes daquilo. Abaixo dela uma poça de sangue manchava os lençóis e molhava suas costas, enquanto o rosto da garota que Duke um dia amou olhava para a janela do quarto com olhos mortos.

– Mas... o quê? – uma das mãos de Tom ergueu-se até seu rosto, cobrindo seu nariz para tentar afastar o cheiro horrível que impregnava o quarto dele. – Esse cheiro... – nem conseguiu terminar sua frase antes que fosse forçado a se curvar, afastando sua mão apenas a tempo o suficiente para que o vômito viesse, sujando o chão com um amarelo-esverdeado doentio.

Duke não deu a mínima pra nada disso.

Nem sequer viu seus próprios movimentos. Antes que se desse conta ele estava subitamente sobre a cama também, balançando o corpo dela com ambas as mãos. Não... não! Não pode ser! Eu não aceito isso! Haviam sofrido muito, passado por muitos apertos para chegar até ali – diabos, Dalton havia até mesmo chegado a morrer como um porco nas mãos dos guardas, tudo para que pudessem chegar tão longe! Não podia aceitar aquilo! Não podia aceitar que todos os seus esforços haviam sido em vão, tal como não podia aceitar que Annie havia sofrido uma morte tão cruel e humilhante quanto aquela. Ela não morreu! Ela não pode ter morrido!

– Duke! Ei, Duke! – sentiu mãos seguraram seus braços e tentarem puxar-lhe dali, e por um instante sua mente se atinou para o fato de que aquele deveria ser Tom, mas isso não importava no momento. – O que você está fazendo? Venha! Vamos embora! Se ficarmos aqui, vamos ser pegos!

Aquelas palavras lhe enfureceram, lhe deixaram mais furioso do que qualquer coisa que ele já havia ouvido antes em sua vida. Uma de suas mãos soltou o corpo de Annie, e quase que imediatamente ela foi para o pescoço de Tom, apertando-lhe com tanta força que a cor do homem passou para um roxo sem ar num piscar de olhos.

– “Ir embora”, você diz? “Vamos ser pegos”, você diz?! De que importa?! Que importa toda essa merda?! – puxou bruscamente o rosto de Tom, forçando-lhe para baixo, forçando-lhe a fitar o corpo de Annie. – Olhe para ela! Olhe isso! Você vê o estado em que ela está?! Você vê o que fizeram com ela?! Ela está morta! Nós fizemos tudo isso por ela, nos esforçamos tanto para salvá-la, e foi tudo em vão! Dalton morreu para que pudéssemos salvá-la, e ela está morta! De que adianta fugir agora, Tom?! De que adianta escapar?! – não sabia exatamente quando as lágrimas haviam se formado, mas o fato é que, quando sentiu essas lágrimas descerem pelo seu rosto, teve a certeza de que aquilo era definitivamente real, e não apenas um pesadelo. – Annie está morta. Isso é tudo que importa.

=====

– Duke? – perguntou a voz de Tom, cuidadosa, cautelosa, como se estivesse temendo que aquilo se tratasse de uma armadilha. – Pra que você me cha– ah, meu Deus!

Sorriu ao ouvir aquilo. Bem, essa é mais ou menos a resposta que eu esperava. Afinal de contas, não era todo dia que alguém tinha uma visão como aquela, não era todo dia que alguém via seu amigo com o braço revestido por terra e pedras.

– Pode me chamar de “Deus”, se quiser, mas eu prefiro “Duke” – declarou o homem, sorrindo de forma brincalhona. Estava bem humorado, mais bem humorado do que havia se sentido em muito, muito tempo, e isso fazia com que ele recuperasse seu gosto por humor. Olhou para as suas mãos, ele mesmo um pouco fascinado com aquilo, e quando falou Duke não pode evitar que sua voz soasse um pouco como a de uma criança fascinada. – De qualquer forma... isso é realmente incrível, não é? Quero dizer, você só pode me ver, não pode sentir o mesmo que eu sinto, mas pelos Deuses, você deveria poder, Tom! Se você pudesse sentir ao menos metade do que eu sinto agora, você saberia que eu me sinto absolutamente fantástico! A força em meus braços, o poder em minhas veias... eu juro, sinto-me como se eu pudesse derrotar um exército sozinho!

Tom apenas ficou lhe observando enquanto ele dizia aquilo, fitando-lhe como se ele fosse louco. Não culpava-o por isso – ele não compreendia o que acontecia com Duke como o próprio, afinal – mas havia ao menos esperado que ele lhe mostrasse um pouco mais de confiança.

– Mas afinal, o que raios é isso, Duke? – questionou ele por fim, em um tom que sugeria que mesmo agora ele não conseguia acreditar realmente em tudo aquilo. – Isso é... algum tipo de magia, ou feitiçaria, ou alquimia, ou...

– Quem porra se importa? – interrompeu Duke, sem perder o bom humor. – Eu francamente não sei, e não dou a mínima. Pelo que me diz respeito, isso pode até vir dos demônios antigos. Não faz diferença, não importa. O que importa é que, agora, eu tenho poder pra me vingar!

=====

– Então, você é o que as pessoas têm apelidado de “Titã”... Duke Graham, não é? – perguntou uma voz fina, pomposa e arrogante.

Virou-se com um sorriso no rosto ao ouvir aquilo, enquanto sua mão direita esmagava o crânio de seu oponente em pedaços. No entanto, no momento em que seus olhos viram exatamente quem havia falado, seu sorriso morreu quase que que imediatamente.

Filho da puta..., pensou Duke, enraivecido, olhando para o governador com nada mais do que puro ódio.

Toda uma comitiva de guarda havia sido reunida para proteger o governador, mas não se importou com isso. Avançou contra seus oponentes sem pensar duas vezes, e mesmo quando eles se colocaram em seu caminho ele não hesitou; seu punho direito foi contra um dos guardas, chegando quase ao ponto de gargalhar em voz alta quando viu o idiota tentar bloquear seu golpe com sua espada. Seu punho quebrou o aço como se fosse vidro, estraçalhando a arma do outro em pedaços e seguindo para acertar-lhe em cheio no peito com tanta força que o homem perdeu o ar por um momento e seus pés deixaram o chão. O corpo do guarda foi arremessado pelo ar, jogado direto contra a parede de uma casa próxima, e sem dar a mínima para isso Duke simplesmente insistiu em seguir em frente. Outro dos guardas tentou atravessar seu pescoço com a ponta de uma lança, mas isso foi inútil. Todo o corpo de Duke estava revestido por pedras, cada uma delas mais dura do que placas de aço; ao chocar-se com elas, a ponta da lança quebrou-se como se fosse um fino graveto, e com um brusco movimento de seu braço Duke afastou seu oponente. Um terceiro guarda tentou ficar em seu caminho, um machado de duas mãos e lâmina dupla sendo empunhado ele, mas antes que este tivesse tempo de fazer qualquer coisa uma das mãos de Duke fechou-se ao redor de sua cabeça, e com um só movimento o Titã arremessou-o ao chão.

E depois que aquilo foi feito, viu-se cara a cara com o governador.

O maldito sangue-azul gordo pareceu ficar assustado por um momento, virando-se como que se preparando para fugir. Duke não lhe deixou fazer isso, não perdeu sua oportunidade. Sua mão fechou-se ao redor do pescoço de seu oponente rapidamente, e em um momento empurrou-o ao chão, fazendo triunfante sobre ele. Finalmente, pensou Duke, um sorriso achando seu caminho de volta ao seu rosto. Eu esperei por isso tão ansiosamente por tanto tempo, mas finalmente, finalmente, a vingança está em minhas mãos! Sua mão de pedra fechou-se em um punho, e sem perder tempo Duke moveu este em direção ao rosto de seu alvo.

– Mate-me e Tom morre!

Seu golpe parou instantaneamente ao ouvir aquelas palavras, em parte devido a surpresa que elas lhe trouxeram, em parte devido ao que elas significavam. Tom morre? Você quer dizer... meu amigo Tom?! Não entendia como o governador podia saber que ele tinha um amigo chamado Tom, isso não fazia o menor sentido. Tanto Tom quanto eu, somos ambos “lixo”. O governador e sua laia não se importa com um “lixo”. Por que raios ele saberia o nome de Tom, e por que raios ele saberia que ele possui algum tipo de relação comigo? Não conseguia ver sentido naquilo... e pelo sorriso que o governador lhe mostrou, este aparentemente sentia satisfação naquilo.

– O que foi, Duke Graham? Surpreso pelo fato de que sei um pouco sobre você? Não deveria! – disse aquilo e gargalhou com vontade, profundamente satisfeito e aparentemente sem ter preocupação alguma quanto ao fato de Duke estar acima dele e ter poder e chance o suficiente para mata-lo quando bem quiser. – Seu lixo idiota, acha que você poderia mesmo sair andando por ai da forma que você faz, causando caos por toda a cidade, e não saberíamos quem você é? Não o investigaríamos? Seu burro! Bem feito pra você!

Podia não saber ao certo o que o governador queria dizer com aquilo, mas não gostava dele, e definitivamente não estava gostando da forma como ele estava falando. Apertou um pouco seus olhos em irritação, e sem pensar duas vezes aumentou a força de seu aperto, apertando a garganta do governador com ainda mais força e fazendo com que o sorriso desse sumisse. Ouviu o som de aço se movendo ao seu redor, e nem bem ergueu os olhos foi recebido por dezenas de espadas, machados e lanças, armas seguradas pelos vários guardas do governador. Sério? Eles realmente acham que me intimidam com isso?, pensou Duke, rangendo os dentes e olhando ao redor, não mais do que irritado aquilo. Isso é uma grande piada sem graça. Com o que havia feito com os que tentaram lhe atacar antes, havia imaginado que os outros não iriam lhe incomodar, mas aparentemente havia superestimado a inteligência deles. Bom, não importa, eu acho. Ignorou os outros e voltou todo o seu foco para seu alvo.

– O que exatamente você quer dizer com isso, seu pedaço de merda? – questionou Graham, apertando um pouco mais a garganta do porco em um aviso. – Fale claramente, e sem gracinhas ou arrogância. Você não quer me ver irritado.

Se olhares pudessem matar, Duke definitivamente teria morrido com o que o governador lhe lançou. Esse não era o caso, no entanto, e por isso ele apenas sorriu; isso podia ser um pouco infantil, mas tirava uma satisfação em simplesmente irritar aquele filho da puta.

– Falar claramente? Muito bem – disse o governador a contragosto. – Sabemos quem você é, Duke Graham, e sabemos quem é o seu amiguinho, Tom. Nesse mesmo momento, meus homens estão observando seu amiguinho, vigiando cada movimento dele. Se eu der a ordem ou se eu morrer, eles irão todos atacar esse seu amiguinho, cortá-lo em tantos pedaços que você vai precisar de um mapa e uma luneta para acha-los! Você sabe o que isso significa, não sabe? Vamos, continue me irritando, apenas lembre-se que eu posso matar seu amiguinho quando bem quiser!

Aquelas palavras fizeram com que Duke ficasse em completo silêncio por um momento. Tom? Ele está ameaçando Tom? Ele OUSA ameaçar Tom?! Era impossível dizer exatamente o quanto aquilo lhe incomodava, principalmente considerando que ele havia sido o responsável pelas mortes de Annie e Dalton – a vontade que tinha ali era de esmagar o crânio daquele merda com um soco, mas ao mesmo tempo... ao mesmo tempo, não podia fazer aquilo. Maldição... Nada lhe garantia que o que o governador havia lhe dito fosse algum tipo de verdade absoluta, mas também não tinha realmente nenhum motivo para acreditar que ele estava mentindo ou coisa do tipo.

– Você se esquece, governador, que você não pode fazer mal a Tom – disse Duke, decidindo que o melhor curso que podia tomar ali era responder às ameaças do homem com avisos e ameaças próprias. – Afinal de contas, se você matar Tom, o que é que restará para lhe proteger de mim?

No início, dizer aquelas palavras lhe pareceu uma boa ideia, uma resposta mais do que digna. Foi só quando viu o sorriso que começou a surgir no rosto do homem que compreendeu o quão enganado estava.

– Você faz um bom ponto, Duke – disse ele, no mesmo tom em que poderia dizer “você é um grande retardado”. – Diga... sendo assim... por que não chegamos a um acordo, você e eu?

=====

Não bateu na porta da casa; esmurrou-a. Bater sugeriria que ele tinha algum semblante de paciência, e esse definitivamente não era o caso. Não demorou muito para que a porta se entreabrisse, revelando parte do corpo franzino e magricela de um sujeito miúdo com cara de rato.

– Ela está pronta? – a pergunta de Duke foi simples e direta. Provavelmente poderia ter sido mais suave com ela se quisesse, mas a verdade é que ele simplesmente não se importava o suficiente pra algo assim.

– Sim... sim, ela está pronta – os olhos do homem estavam estranhos enquanto falava aquilo olhando para Duke ao mesmo tempo em que parecia olhar através de Duke. Isso foi mais do que apenas um pouco assustador. – Eu vou busca-la, vou... só... só me dê um minuto, está bem? ... Um segundo...

Fechou a porta em seguida, ainda com os olhos perdidos. Normalmente Duke se sentiria incomodado com aquilo e daria uma lição em qualquer um que fosse ousado o suficiente para lhe desrespeitar assim, mas naquele caso em particular ele não fez isso, tanto devido ao fato daquele homem já ter perdido muito quanto devido ao fato de que ele simplesmente lhe dava medo. E de qualquer forma, não teve de esperar muito; logo a porta tornou a se abrir – dessa vez por completo – e com isso ela revelou o mesmo homem de antes, junto de uma garotinha de cabelos encaracolados e vestido vermelho.

– Esse... esse é o homem, querida – murmurou o adulto, olhando para Duke com aqueles mesmos olhos perdidos de antes. – Vá com ele, vá, docinho? Vá com ele...

A garota ergueu sua cabeça para fita-lo ao ouvir aquilo, aparentemente confusa, mas ela era jovem e ingênua demais. Logo ela foi para o lado de Duke, sem questionar nada.

Garota ingênua.

=====

Estava encostado na parede dos aposentos do governador já há algum tempo. Os gritos e gemidos haviam parado alguns instantes atrás, e isso significava que logo a porta iria se abrir e o trabalho dele iria continuar.

Então, foi a isso que eu fui reduzido, não é? Aquele era o acordo que ele teve de fazer com o governador. Para que os homens dele não fizessem mal a Tom, Duke tinha de se tornar seu cachorrinho. Tinha de servir como guarda-costas do governador, e além disso tinha também de buscar as garotas que aquele filho-da-puta escolhia, bem como livrar-se do corpo delas no fim de tudo. Isso era mais nojento do que ele podia descrever em palavras, e participar de tudo aquilo fazia com que ele se sentisse o pior pedaço de merda que já andou pelo mundo... mas apesar disso, não se arrependia. Isso é algo desagradável, mas é algo que eu tenho de fazer. Suas escolhas ali eram simples, muito, muito simples, podia obedecer ao governador e odiar a si mesmo por estar contribuindo com tudo aquilo, ou podia matar o governador viver o resto da vida com o conhecimento de seu último amigo havia morrido devido a ele. Sinto pela morte dessas garotas e por tudo que elas sofrem, mas me importo muito menos com garotas sem rosto do que com meu último amigo.

A porta finalmente se abriu ao seu lado, e dela saiu a baleia branca que era o governador, saindo dali enquanto metido em um roupão escuro. Quando viu Duke ali, esperando, o rosto oleoso daquele gordo velho abriu-se em um sorriso asqueroso.

– Ah, Duke o Titã! – saldou ele de braços abertos, sarcasmo pingando de sua voz. – Já terminei ali. Essa garota foi muito, muito boa, embora um pouco chorona demais pro meu gosto. É uma pena que eu tenha quebrado ela assim. Mas, bem, acho que não há nada que eu possa fazer quanto a isso. Seja um bom servo e livre-se do corpo dela pra mim, sim?

Lançou um olhar enojado ao miserável, mas não retrucou nada a isso. Considerando tudo que acontece aqui, não tenho realmente argumentos com os quais contra-atacar. Entrou dentro do quarto com as mãos no bolso e viu logo o corpo da garota em cima da cama. De pernas quebradas abertas e com olhos mortos fitando o nada, a visão daquele corpo irritava Duke profundamente. Tacou uma coberta sobre ela, e tomando-a nos braços, começou a carrega-la.

A caminhada foi longa, demorada e cansativa. Dede que havia começado a trabalhar para o governador há alguns anos atrás, Duke havia começado a morar no lado dos sangue-azul da cidade, e isso havia permitido-lhe ter um certo conhecimento sobre como funcionava a sociedade deles. As coisas que viu ali basicamente tratavam-se de um poço sem fim de vaidade, egoísmo, hipocrisia, arrogância e falsidade.

Pelo que podia ver, os nobres eram bem educados e simpáticos quando tratavam uns aos outros, mas essa educação logo desaparecia quando iam se dirigir a alguém em uma posição inferior a eles. No momento em que isso acontecia eles se tornavam arrogantes, prepotentes, vãos demais, procurando qualquer chance de esfregar o quão ricos ou superiores aos “reles servos” eles eram. Algo bem estúpido na minha opinião. Ninguém é melhor do que ninguém, esse é um dos princípios básicos do mundo. No entanto, não sentia falta alguma de um tratamento mais educado por parte deles. Pelo que sabia, a educação dos nobres entre si era tão falsa quanto lágrimas de crocodilo. Eles frequentemente tramavam entre si, participando de intrigas que visavam derrubar outros nobres, cada um apunhalando as costas do outro. E, apesar disso, eles quase que universalmente odeiam deslealdade. Irônico, não?

Finalmente chegou ao local, o velho córrego. Muito tempo atrás – muito mesmo, bem antes daquela cidade sequer ter suas primeiras fundações firmadas – um grande rio corria por aquele lugar, fonte de vida para várias tribos e animais que viviam por sua extensão. Mas pelo que os rumores diziam, esse rio foi mais uma das vítimas da Guerra dos Grandes – no confronto entre homens, Deuses e demônios, ele havia sofrido muito, ao ponto de perder sua força e transformar-se em um córrego. Isso foi duzentos anos atrás. Com o tempo e o progresso, a cidade surgiu nasceu, e isso não fez bem ao córrego. Foi uma questão de tempo para que ele secasse, deixando apenas um grande vão de terra que agora era conhecido como “lixão”, o lugar aonde todos descartavam o que não queriam mais. Havia de tudo ali; roupas velhas, coisas quebradas, comida podre... e corpos humanos, sim, isso mais do que tudo.

Jogou o corpo da garota ali, em cima de uma pilha com mais de três metros formada por outros corpos no mesmo estado. Fazia anos que estava trabalhando para o governador, e nesses anos entregou e levou inúmeras garotas. Nas primeiras, ele se sentiu terrível; chorava enquanto as levava, vomitava durante o caminho, e quando voltava tinha de passar horas debaixo d’água esfregando seu corpo com força o bastante para machucar sua pele para que conseguisse ao menos aliviar a sensação de imundice que sentia. Agora, no entanto, já estava acostumado. O tempo era estranho – ele permitia que você se acostumasse com praticamente qualquer coisa, não importa o quão desprezível ou deprimente essa coisa fosse. O que é, de certa forma, algo bom. Eu precisava mesmo me acostumar com isso.

Afinal, querendo ou não, aquele era o seu trabalho, pelo resto dos seus dias.

=====

Pensou em esmurrar a porta daquela casa como fazia com todas as outras, mas decidiu contra isso no último momento; aquela casa mal era uma maldita casa, mesmo quando comparada as outras casas que havia visitado. Um pequeno barraco desengonçado feito do que parecia ser lixo retirado do lixão, parecendo tão frágil que Duke não duvidava que uma brisa um pouco mais forte poderia jogá-lo pelo ar. Por isso apenas bateu na porta, e fez isso até com certa gentileza. Seria uma grande filha da putice da minha parte derrubar a casa deles, principalmente considerando a merda pela qual estão passando no momento.

Colocou suas mãos nos bolsos enquanto esperava que lhe atendessem – o que demorou um bom tempo. Havia simpatizado um pouco inicialmente com aquela família pela casa, mas rapidamente começou a perder sua paciência com eles diante dessa demora, e em questão de momentos Duke começou a considerar esmurrar a casa de qualquer forma simplesmente para ensinar-lhes a não lhe deixar esperando.

Mas perdeu qualquer vontade que tinha de fazer isso no momento em que a porta foi aberta e viu quem estava do outro lado.

– Oi, desculpe a demora! – exclamou uma voz alegre e feminina, vinda de uma garota jovem de cabelos negros longos e olhos verdes cheios de vida. Devia ter cerca de treze ou quatorze anos pelo que conseguia ver, seu corpo aparentemente estando agora começando a se desenvolver. Ver aquela garota instantaneamente trouxe um fantasma a mente de Duke. Annie...

Não teve ideia de quanto tempo ficou parado ali, fitando aquela garota de forma incrédula, sem poder acreditar naquilo. O tamanho dela, sua aparência, até mesmo a forma que ela sorria... tudo isso lembrava-lhe de Annie, lembrava-lhe demais de Annie. Isso não é possível. Não, não, não, não é possível! Depois de tantos anos fazendo os trabalhos que fazia, depois de tantos anos desde que aquilo aconteceu e depois de ter se sujeitado a coisas tão terríveis, chegou a pensar que havia criado nervos de aço, impossíveis de se abalar independente do que acontecesse com ele. Aquilo lhe mostrou que estava terrivelmente enganado com isso. Tremeu como uma criança medrosa diante daquela visão, diante daquela garota. E isso fez com que ela lhe olhasse de forma curiosa, suas mãos nas costas, seus olhos inocentes.

– Ei, senhor, você está bem? – perguntou gentilmente ela. – O senhor não me parece bem. Se quiser, você pode entrar! Não temos muito, e eu não deveria deixar ninguém entrar quando meus pais estiverem fora, mas acho que não faz mal deixar você entrar e sentar um pouco.

As palavras entraram por um ouvido e saíram pelo outro como se nunca tivessem sido ditas. Isso é uma brincadeira. Só pode ser! Até agora, não conseguia acreditar em todas as semelhanças. A personalidade da garota aparentemente era diferente da de Annie, sim, mas isso praticamente não fazia diferença considerando o quão próximas eram suas aparências. Maldição, o governador sabia disso? Será que aquele pedaço de merda armou tudo isso pra mim?! Não sabia o que deveria fazer. Normalmente, era fácil para ele lidar com as garotas. Eram garotas, sim, mas nenhuma delas era alguém que ele conhecia, e por isso elas não importavam. Esse não era o caso com aquela. O simples fato dela lhe lembrar tanto de Annie fazia com que ela não fosse apenas uma garota sem rosto pra ele, e mesmo não tendo a mesma personalidade de Annie, aquela garota aparentava ter uma personalidade alegre e gentil que fazia com que Duke simpatize com ela. Merda, merda, eu não quero levar essa garota para o governador, mas se eu não fizer isso, Tom morre! Merda, o que eu faço?

– Ei, senhor! – mãozinhas pequenas seguraram seus braços subitamente, fazendo com que Duke quase saltasse pra trás de susto. Ergueu seus olhos para ver que havia sido a garota a responsável por aquilo, segurando-o firmemente enquanto olhava seu rosto com uma feição preocupada. – Você está bem? Você está tremendo demais! Isso não é bom, não é? Vem comigo! Eu te ajudo, só vem!

E dizendo aquilo, a pequena garota inocente tentou puxar-lhe para dentro de sua casa.

Não vai dar. Eu não posso fazer isso. Sabia bem que era um ser humano desprezível depois de tudo que havia feito em sua vida, depois de todas as garotas que havia condenado a morte, mas raios partam, não podia fazer mal aquela garota em particular! Merda, como eu devo fazer mal a uma garota tão boa que me lembra Annie? Aquilo significaria que Tom iria morrer, mas... merda!

– Ei, garota! – exclamou subitamente ele, afastando as mãos dela rapidamente e caindo sobre um joelho quase que instantaneamente. Ela obviamente se assustou com aquilo e tentou recuar para trás, mas Duke foi rápido e segurou-lhe pelos ombros, olhando-a direto nos olhos. – Ei, me escute garota. Você tem que sumir daqui. Vazar. Desaparecer, entendeu?

– O quê? – supunha que a confusão da garota não deveria ser estranha pra ele, considerando tudo que estava acontecendo tão rapidamente, mas não pode deixar de sentir-se frustrado por aquilo. – O que você quer dizer com isso, senhor? Você... você está me assustando!

– Eu sei que estou, mas puta merda, isso é pra e assustar! – declarou ele, fazendo com que a pobre criança tremesse em suas mãos. – Escute bem, você está em perigo aqui, entende? Se você ficar nessa cidade, você vai acabar morta, e eu não estou exagerando! Comece a arrumar suas coisas agora e avise pros seus pais que um dos homens do governador veio aqui lhe procurar, e saia dessa cidade tanto quanto antes!

– Homens do governador? Você é um homem do governador? – a garota parecia cada vez mais confusa, de uma forma que era tanto adorável quanto preocupante. – De qualquer forma... como eu deveria sair daqui? Não temos dinheiro. Não podemos sair!

Rangeu os dentes e grunhiu em irritação diante daquilo por um momento antes de lembrar-se que tinha uma resposta para isso ali. Desde que havia começado a trabalhar pra ele, o governador havia insistido em lhe pagar bem – provavelmente mais para humilhá-lo do que tudo. Inicialmente havia tentado enviar esse dinheiro para Tom afim de dar uma vida melhor pra ele, mas não demorou muito pra que descobrisse que estavam roubando tudo o que enviava sem deixarem que uma moeda sequer chegasse ao seu amigo, e por isso começou a guardar o dinheiro consigo. Aquela era uma chance ideal para usá-lo. Colocou a mão no bolso e puxou dele um pequeno saquinho de pano recheado por moedas de ouro. Tomou uma das mãos da garota e colocou sobre ela, fazendo com que os olhos da criança se arregalassem ao sentir o peso, e disse o que tinha de dizer com toda a calma que lhe restava.

– Tome isso – disse um Duke desesperado. – Aqui tem dinheiro. Muito dinheiro. Isso deve ser o suficiente para que vocês vão até uma cidade bem longe daqui e vivam bem lá, então façam isso, certo? Vão pra cidade, comprem uma casa, comprem roupas e comida e tenham uma vida saudável, tá? Façam isso. Por favor, façam isso. Só não voltem aqui. Não importa quantos anos passem, não importa o que aconteça, não volte aqui, entendeu? – sacudiu a garota com ambas as mãos, sentindo lágrimas descerem pelo canto de seus olhos enquanto falava. Foi só quando a garota, mesmo assustada e confusa com tudo aquilo, acenou afirmativamente com a cabeça que Duke suspirou aliviado, envolvendo-a em um abraço forte e apertado. – Ah, graças aos Deuses! Graças aos Deuses!

Permaneceu assim por tanto tempo que nem mesmo ele sabia a quantia exata. A garota inicialmente ficou lá, simplesmente parada, deixando-se ser abraçada, mas logo ela começou a retribuir o gesto, envolvendo as costas de Duke da melhor forma que podia com suas mãozinhas pequenas. Em sua vida, o Titã havia tido vários tipos de prazeres. Prazeres simples da alegria, como os que teve nos dias de sua infância junto com seus amigos. Prazeres da carne como os que teve na sua vida adulta, em dias que comeu e bebeu do melhor com seu salário ou visitou bordéis e deitou-se com lindas prostitutas.

Nenhum desses prazeres sequer se comparava ao que sentia naquele momento, entretanto. Ali, parado, abraçado com uma garota tão boa e inocente... Duke Graham sentia-se em paz, pela primeira vez desde que nasceu.

Foi relutantemente que ele se separou dela, recuando um pouco e se levantando. A garota fitou-lhe com confusão novamente, mas ele não disse nada – apenas virou-se e começou a silenciosamente seguir pra fora dali. Mas ela não lhe deixou partir em silêncio.

– Ei, senhor? Senhor! O que o senhor está fazendo? Pra onde o senhor está indo?!

– Estou indo cuidar de alguns assuntos – respondeu Duke, sem se virar. – Existem algumas coisas que eu devo resolver.

=====

Teve sorte. Quando chegou, o lugar estava surpreendentemente deserto. Normalmente as câmaras do governador tinham vários guardas próximos ou dentro delas para manter a segurança dele, mas por algum motivo, todos eles tinham desaparecido, deixando com que a baleia branca fosse a única pessoa ali, sentado em cima da cama com uma expressão abobada em seu rosto, como se estivesse esperando ansiosamente por algo. Duke sabia o que era esse algo. Está esperando seu novo brinquedinho, não é, seu doente de merda?

Fechou a porta sem se importar com o barulho, e isso atraiu imediatamente o olhar do velho sobre ele, apenas para que ele parecesse surpreso ao notar que Duke estava sozinho.

– Titã? – perguntou ele, sem entender. – O que está fazendo? Aonde está a gar-

Não lhe deu tempo para terminar sua frase. Avançou contra ele com grande velocidade, alcançando-o antes que o velho conseguisse dizer qualquer coisa, fechando sua mão com força ao redor da garganta do maldito e erguendo-o alto com tanta facilidade que ele poderia facilmente ser um simples pedaço de carne. Na verdade, é isso que ele é. Um pedaço de carne gorda e podre.

– Seu bastardo obeso da porra, você não sabe por quanto tempo eu quis fazer isso – os olhos do governador estavam esbugalhados, fitando Duke completamente surpresos enquanto ele tentava de alguma forma buscar ar, parecendo um peixe em terra fresca. – Você tem alguma ideia do mal que você já fez, seu filho da puta infernal? Tem ideia da vida de quantas pessoas você arruinou? Ideia de quantas pessoas morreram pelo seu prazer? Acho que não, não é? E você também não se importa, não, seu pedaço de merda? Você não dá a mínima que o mundo queime desde que você esteja e divertindo, não é, SEU PEDAÇO ESTÚPIDO DE MERDA PODRE?!

O governador não pode fazer nada além de gemer de forma medíocre em resposta a isso, e um momento depois Duke ouviu algo fluindo. Olhou para baixo, já sabendo do que isso deveria se tratar, e não se surpreendeu quando viu que o grande e poderoso líder da cidade havia mijado nas calças. Patético. Como alguém tão patético conseguiu fazer tanto mal? Ver tudo aquilo fazia com que Duke sentisse-se progressivamente mais irritado... irritado demais. Pretendia prolongar aquilo mais, pretendia aproveitar-se da sua chance... mas francamente, não tinha paciência pra isso. Jogou violentamente o corpo do gordo no chão, e as palavras vieram de imediato.

Não, por favor! – gemeu o governador, tentando imediatamente recuar da melhor forma possível com suas mãos. – Por favor, Duke! Lembre-se, eu tenho Tom em minhas mãos! Se você me matar, ele mor-

Não lhe deixou concluir a frase. Seu punho – revestido por pedras – desceu com uma força imensa, esmagando de uma só vez o crânio dele com facilidade, como se ele fosse uma melancia. Miolos se espalharam por toda a sala e sangue manchou o chão e o punho de Duke, tudo enquanto o Titã fitava o corpo do homem que atormentou sua vida por anos.

Foda-se – declarou ele, pra ninguém mais do que si mesmo. Chega dessa merda toda.

=====

Quando voltou a si, estava sendo carregado para uma arena estranha pelas duas prostitutas que passaram a noite com ele, enquanto dezenas de estranhos lhe fitavam como se fosse um animal bizarro. Mas que merda aconteceu? Aonde estou? ... Ah, é. O Torneio. O Torneio de Valhala, se não se enganava. Havia vindo para a cidade a algum tempo, buscando participar do torneio dela. Considerando que era um homem procurado em Fredora desde que havia matado o governador daquela cidade alguns anos atrás, essa provavelmente não era a melhor decisão que poderia fazer, mas francamente? Foda-se. Não dava a mínima pra isso.

Foi colocado no ringue pelas duas e acenou para elas enquanto iam embora. Na verdade, ficou acenando pra elas por um bom tempo mesmo depois delas terem ido embora. Boas prostitutas, essas, pensou ele. Elas poderiam ter uma higiene um pouco melhor e o bafo delas tem cheiro de merda, mas ei, ao menos elas não me roubaram. Lucro! Normalmente, tinha uma sorte muito pior com as putas. Fez seu caminho até o centro da arena meio cambaleante, ainda tonto pelos efeitos da bebida, fitando o seu oponente aparente – um gigante com uma estrela d’alva gigante – e um cara de afro com uma bela cara de cu.

– Você está bêbado – disse o cara-de-cu, mal contendo o misto de fúria e descrença em suas palavras. – Que tipo de homem vem bêbado para lutar em uma arena?!

– O tipo de homem que passou a noite fazendo sexo selvagem com sua mãe e sua irmã – retrucou Duke com uma gargalhada. – Agora, pare de me questionar e comece logo a luta, sim? Não tenho o dia todo.

O rosto do cara-de-cu contorceu-se em uma expressão de pura fúria reprimida, mas ao menos ele não desperdiçou mais tempo. Rapidamente seu braço desceu e ele deu início a luta, e quase que imediatamente Duke caiu de joelhos. Provavelmente, aos olhos dos outros ele parecia bêbado ali, e realmente estava um pouco bêbado, mas nem de longe o suficiente para não lutar de forma eficaz. Quando caiu de joelhos, suas mãos tocaram as telhas de pedra da arena, usando-as para revestir seu corpo em pedra, mas aparentemente ninguém viu isso, considerando a forma como a arma de seu oponente caiu sobre ele... e prontamente quebrou-se em duas

– Surpresa – disse sarcasticamente o Titã, erguendo seus olhos.

Suas mãos seguraram rapidamente uma das metades da arma quebrada, e sem perder tempo Duke moveu-a, atingindo em cheio o rosto de seu oponente e transformando seu crânio em uma polpa vermelha. Desativou seu revestimento e olhou ao redor para todos aqueles que seriam seus próximos oponentes: viu uma arqueira ruiva, uma espadachim ruiva, um mago de cabelos azuis, uma garota loira com feixes negros em seu cabelo, um gigante de armadura e três cavaleiros – uma mulher de feições sérias e ar intelectual, um cavaleiro aparentemente forte metido uma rude armadura cinzenta e um cavaleiro jovem metido numa armadura azul que olhava para ele com estranho fascínio. Ignorou todos, e ao invés de focar-se neles, focou-se em seu discurso.

– Vocês, otários, tem que aprender algumas lições sobre algo que se chama “estupidez proposital”! – disse Duke, sorrindo, enquanto pisava sobre o corpo de seu inimigo morto. – Eu só preciso aparecer aqui com o rosto vermelho, fingir cambalear e tropeçar algumas vezes, e subitamente todo mundo aqui pensa que sou algum tipo de bêbado estúpido, não é? Bom, uma novidade. Vocês são todos um bando de idiotas! O que alguém é e o que alguém demonstra ser são coisas diferentes, lembrem-se disso! – bateu em seu próprio peito, uivando alegremente. – Eu sou Duke! E ao fim desse torneio, eu serei o vencedor! Lembrem-se disso, meus bons panacas! O Grande Duke vai ganhar!



Notas finais do capítulo

Sério, meu braço tá doendo pacas.

Coitado do meu braço.

Ai.



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