O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 23
Tempestade


Notas iniciais do capítulo

O começo e o fim são coisas interligadas, sabiam?

Quando algo termina, algo simultaneamente começa. Suponho que você pode dizer que isso é uma reação em cadeia; sempre que algo termina, algo de alguma forma ligado a isso começa.

Só que existem coisas maiores. Coisas tão grandes que variam coisas menores começam e terminam dentro delas. Como um livro - todo livro tem seu prólogo, seus capítulos, e seu epílogo.

E, claro, seu clímax.

Lhes apresento aqui o que estou trabalhando para ser o clímax dessa primeira parte da história "O Olho Vermelho". O meu melhor arco até agora.

Espero que gostem disso.



Por um longo momento Annie simplesmente ficou olhando para Hozar, fitando-o com olhos incrédulos como se ela simplesmente não conseguisse acreditar na pequena transformação pela qual ele havia passado. O que será que lhe assusta tanto? Minha aparência? Supunha que se fosse essa, aquilo seria justificável; não precisava ver a si mesmo para poder dizer que sua aparência agora era um tanto quanto bestial e completamente inumana, algo que colocaria medo no coração de seus inimigos facilmente. Mas ao mesmo tempo, não achava que era isso. Não, isso seria fácil demais. Alguém com a experiência e a malícia que aquela mulher possuía não se assustaria com algo tão simples quanto uma aparência. Para intimidar aquela mulher, seria necessário algo muito mais profundo, muito mais forte. O que ela ver provavelmente não é minha aparência. O que ela vê, provavelmente, é o meu poder.

Entretanto, em crédito a ela, tudo isso não durou muito. Logo os dedos de Annie voltaram a se mover, e no momento em que eles fizeram isso as criaturas se agitaram novamente. De uma única vez meia dúzia delas saltou contra Hozar, exibindo garras brancas afiadas no lugar aonde normalmente ficariam seus dedos.

– Vão! – gritou Annie, seus dedos se movendo cada vez mais, fazendo com que mais e mais criaturas avançassem contra Hozar. – Rasguem-no em pedaços antes que ele possa se mover!

Teve que se esforçar para não gargalhar ao ouvir aquilo, tão absurdo que aquelas palavras soaram aos seus ouvidos. “Rasguem-no em pedaços”, você diz? Talvez meus olhos me enganem. Pensei que você era uma velha mulher, Annie, mas pela forma que você fala, me parece mais que você é uma garotinha estúpida demais para compreender a diferença entre uma formiga e um leão. Se aquela mulher tinha qualquer tipo de noção sobre forças, ela deveria saber bem que nem mesmo um milhão daquelas criaturas seriam o suficiente para baterem de frente com Hozar.

A sua ordem, as chamas que lhe cercavam se fortaleceram de uma única vez, correndo contra as criaturas. Não teve luta, não teve sequer uma chance de fuga; as chamas engoliram as criaturas de uma única vez, envolvendo-as em um fogo tão forte quanto o do inferno. Havia imaginado que isso havia sido o suficiente para reduzir todas aquelas aberrações às cinzas instantaneamente, mas aparentemente as coisas não eram tão simples assim; apesar da força de suas chamas, algumas dessas criaturas conseguiram continuar a avançar contra ele, flamejantes, parecendo monstros saídos direto do inferno.

Patético, foi o pensamento de Hozar diante daquilo, nem um pouco impressionado por aquela demonstração estúpida. Acha que isso vai me surpreender, Annie? Acha que pode me assustar com algo assim? Aquelas chamas ainda não eram nada para ele, mal serviam para dizer “oi”. Mas aparentemente você não compreende isso, se ainda acha que essas criaturas possuem alguma chance de me derrotar. Muito bem, permita-me mostrar-lhe um pouco mais de poder então.

Ergueu seu braço direito, e imediatamente assim que fez isso a sua armadura escorreu por ele, derretida ao ponto de ficar líquida como água, pingando no chão quente ao ponto de queimar pequenos buracos nele. Não precisou nem sequer olhar para seu braço; o simples brilho que sentia sobre seu rosto era o suficiente para que soubesse que aquilo havia dado certo. Seu braço agora era incandescente, todas as chamas que deveriam ser liberadas por aquela parte de seu corpo estando concentradas dentro de seu braço, fazendo com que ele brilhasse como uma tocha e fosse tão quente quanto um sol em miniatura. Pra ser sincero, até mesmo eu mal consigo suportar isso. Sabia que sua nova habilidade não estava causando danos ao seu corpo, mas por mais que não sentisse nada em seu braço em si, a sensibilidade do resto de seu corpo ainda estava normal, e isso fazia com que ele sentisse como se estivesse em pé ao lado de um incêndio. Mas essa é uma sensação que posso suportar. Principalmente se isso for tão efetivo quanto acho que é.

E para sua agradável surpresa, logo teve a chance de testar isso quando um inimigo que havia passado por suas chamas ficou bem afrente do seu rosto.

Jogou seu braço para trás, em preparação para seu golpe, enquanto seus olhos se ocupavam em mirar o corpo de seu oponente. Em geral, um soco é mais efetivo se desferido em uma área mais sensível do corpo aonde ele possa causar mais danos e atordoar seu oponente, como o rosto. Mas o rosto é uma área pequena, e essa é uma regra que não se adequa ao meu braço. Um soco no torso iria servir. Um soco era tudo que Hozar precisava para matar qualquer oponente agora.

Braço Infernal... – entoou sua voz, seu punho movendo-se contra a criatura. No instante em que sua mão tocou o peito daquele ser, um cheiro forte de ferro queimado subiu as suas narinas e o torso do monstro simplesmente derreteu por completo, de forma tão rápida e tão forte que sua estrutura transitou instantaneamente de sólido pra gasoso. – Mão do Diabo!

A cabeça da criatura caiu ao chão com um baque, assim como seus braços. Com um torso já inexistente, não havia nada que mantivesse a estrutura daquele monstro intacta, e isso fez com que seu corpo se desmontasse e caísse ao chão como um brinquedo quebrado. Esmagou rapidamente a cabeça dela com um de seus pés mas não lhe deu muita atenção; tinha muitos oponentes nos quais se focar ali, e nenhum tempo para desperdiçar olhando pra um cadáver destruído.

Outras criaturas avançaram contra ele, sem medo, apesar de que considerando o que havia visto até então, nem sequer imaginava que elas sentiam coisas como medo. Esses monstros parecem ser pouco mais do que marionetes, bonecos movidos pela vontade dessa velha. Se fosse esse o caso, assumia que a anã pensava que conseguiria lhe ferir se mandasse múltiplos oponentes contra ele simultaneamente. E isso era uma piada. Existe uma regra em todos os combates: o mais forte sempre vence. Se você tira força extra de habilidades exóticas, números ou pura força bruta é outra conversa, mas a lei é sempre a mesma, e um milhão de criaturas como essas ainda seriam inferiores a mim. No entanto, havia algo de bom naquilo; ele tinha em mãos uma chance perfeita de tentar outra de suas técnicas novas.

Seu braço se esticou para frente, e a força das chamas contidas dentro dele aumentou ainda mais, fazendo com que ele brilhasse de uma forma tão intensa que Hozar quase não conseguia manter seus olhos abertos. Lentamente sentiu essas mesmas chamas começarem a correr por dentro de seu braço como se fossem seu próprio sangue, fluindo para fora pelas pontas de seus dedos, formando uma pequena esfera de fogo na palma dela, reluzente o suficiente para iluminar toda aquela sala. Por um instante fechou seus olhos para se concentrar naquilo. As chamas do inferno que queimam meus inimigos até o pó... vou testá-las agora. Sentiu o brilho em seu braço se extinguir e todas as chamas que antes estavam concentradas nele agora contidas naquela esfera, e soube então que aquele era o seu momento.

Braço Infernal... – murmurou Hozar, abrindo novamente seus olhos. – Sol Vermelho!

No momento em que as palavras vieram de seus lábios, todas as chamas que ele havia concentrado ali foram liberadas de uma única vez, e algo assim não poderia ser nada menos do que destrutivo. Um mar vermelho ardente engoliu toda aquela chama, reduzindo tudo que ele tocava ao pó quase que imediatamente. As criaturas nunca tiveram qualquer chance contra aquilo. Annie nunca teve qualquer chance contra aquilo. Até tentaram lutar, tentaram resistir àquilo, mas seus esforços foram em vão, e parado aonde estava, Hozar só fez observar tudo aquilo por entre as chamas.

Depois que seus inimigos haviam sido derrotados por seu ataque, não viu porquê manter ativas as chamas, sabendo bem que isso não faria nada mais do que consumir inutilmente sua energia. A sala estava completamente irreconhecível. Antes já não havia muito ali pelo que ele podia se lembrar, mas depois dos efeitos de sua técnica, qualquer coisa que aquela sala antes tinha havia sido destruída por completo. Boa parte das paredes, teto e chão da sala havia sido derretida e explodida pelo calor das suas chamas, fazendo com que parecesse aos seus olhos que ele estava dentro de uma sala de carvão, mas mesmo assim, algo chamou sua atenção:

Havia imaginado que todos os seus oponentes haviam sido reduzidos a cinzas pelo Sol Vermelho, mas em desafio a isso, um corpo ainda apenas parcialmente carbonizado praticamente brilhava ali. Um corpo de formas femininas.

Não disse nada ao ver aquilo. Apenas começou a caminhar em direção a essa mulher, decidido a dar um fim a isso. O fato do corpo dela não estar completamente carbonizado não significa que ela está viva. Ela é velha e com essas feridas, não seria realmente surpreendente se ela estivesse morta de qualquer forma. O fato de seu corpo ainda estar aqui pode ser justificado de forma relativamente fácil devido aos poderes dela, fruto de uma tentativa de se proteger que foi apenas parcialmente sucedida. Mas o fato era que não havia nenhuma forma de confirmar isso enquanto o corpo dela estivesse ali, e Hozar não era descuidado o suficiente para dar sequer uma chance de sobrevivência aos seus oponentes. Se ela está morta ou viva... isso será decidido agora!

Sem hesitar ou pensar duas vezes, ergueu seu pé direito alto no ar, e de uma vez esmagou o crânio da mulher em pedacinhos com uma forte pisada.

Aquilo foi simples. Colocou suas mãos nos bolsos de sua calça, retirando dali seu maço de cigarro novamente, e colocando mais um desses em seus lábios, acendeu-o com uma chama fraca e aspirou a fumaça para relaxar um pouco.

E então, por nada mais do que acaso, pousou seus olhos sobre o corpo de Annie abaixo dele, apenas para ver que esse havia sido substituído pelo corpo de uma daquelas criaturas.

Sentiu uma presença subitamente atrás dele e virou-se bem a tempo de defender-se daquele ataque. Sua mão esquerda segurou a de Annie que seguia em direção ao seu rosto, reta e afiada como uma faca, parecendo pronta para rasgar seu crânio em dois. Então, cá está você, não é? Bem que pensei que isso foi fácil demais! Metade do corpo de Annie estava queimada com queimaduras extremamente graves, deixando que até mesmo o osso atrás de sua carne se mostrasse, mas ainda assim a velha parecia simplesmente sentir isso; ela cheirava a toucinho e carne estragada queimada, mas ainda assim ela não exibia dor ou medo em suas ações, mas apenas determinação em atacar e matar Hozar com sua mão restante. Corajoso, e uma boa tentativa... mas longe de ser o suficiente!

Seu punho direito ergueu-se aos ares, e pesado como um martelo ele caiu sobre o de Annie, quebrando e decepando o braço dela de uma vez sem dificuldade alguma.

O único olho que restava a Annie fitou tudo aquilo de forma muda, sem expressar nada nem mesmo quando o punho de Hozar foi em sua direção. Um único soco atingiu aquela mulher de cima para baixo, arremessando a velha senhora para o chão com mais do que força o suficiente para quebrar o piso destruído no qual estavam.

Caíram do terceiro para o segundo andar ainda com o punho de Hozar conectado ao rosto da velha, e ao atingirem o chão ele ainda investiu mais força ainda em seu ataque, pressionando-a contra o solo abaixo de si com uma força que ameaçava quebrar uma passagem por aquele andar também. A intenção que tinha com aquele ataque era esmagar a cabeça da velha tal como havia feito com o que havia aparentado ser ela alguns momentos atrás, mas para a sua surpresa ela estava mostrando uma resistência muito maior do que ele havia esperado. Eu pensei que, considerando o estilo de luta dela e a forma como ela age, ela seria frágil, mas aparentemente eu fui precipitado nisso. Apesar de que, no fim das contas, isso não parecia importar; pelo que podia ver do rosto daquela velha, ela já estava praticamente morta. Esmagar a cabeça dela ou não pouco importa agora. O que quer que eu faça, ela morre até o fim do dia.

Por isso afastou-se dela, recuou e lançou um olhar sobre ela. No entanto, existe algo do qual preciso antes que ela morra. Sim, afinal, sua missão não havia sido algo tão simples ou estúpido quanto simplesmente ir até uma mansão-fantasma para matar uma velha. Estou aqui para conseguir informações sobre o Olho Vermelho, e é exatamente isso o que farei.

Estalou seus dedos, preparando-se para o trabalho duro que teria de fazer, mas antes que ele sequer se aproximasse dela ou tentasse começar a tortura-la, uma fraca gargalhada veio da garganta de Annie. Seus olhos caíram sobre ela sem achar graça nenhuma naquilo, duros como rochas, encarando-a com uma intensidade que era tão grande que a carne daquela mulher poderia simplesmente derreter com aquilo.

– O que é tão engraçado assim? – questionou ele, em um tom de voz que deixava claro que responder aquilo não era uma escolha que aquela mulher tinha. E no entanto, apesar de toda a situação que lhes cercava e o estado dela, ela não pareceu lhe responder por medo ou algo do tipo. Quando sua resposta veio, ela falou porquê quis.

– Isso é tão irônico, Hozar Royes. Irônico demais – murmurou ela em resposta, mostrando-lhe um sorriso grotesco e ensanguentado. – Apesar de todos os seus esforços, no fim das contas, você perdeu.

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Os corpos de ambos os seus oponentes despencaram no chão de uma vez subitamente, e assim que bateram no solo eles quase que imediatamente começaram a se desfazer; poças brancas surgiram abaixo de ambos, como se os corpos deles estivessem derretendo, fazendo a mesma transformação que o gelo faz para se tornar água.

Ergueu uma sobrancelha perante aquilo, sem entender, e esperou por um longo período de tempo para certificar-se de que aquilo era seguro antes de desativar tanto o seu modo Titã de Diamante quanto parar a produção de analgésicos de seu corpo; desde o momento em que seu oponente havia caído, havia deixado de sentir a dor que a habilidade dele havia lhe causado. Mas que merda é tudo isso?, questionou mentalmente Duke Graham, estalando o pescoço enquanto olhava aquilo, sem entender. Esperou mais um ou dois minutos para ter certeza de tudo, temendo que aquilo pudesse no fim das contas ser apenas algum tipo de armadilha elaborada e complicada daqueles dois, e foi só depois disso que começou a comemorar.

AÊ, PORRA! – gritou ele, em alto e bom som, jogando seus braços pro alto e usando todo o ar de seus pulmões para rir e gritar. – Dá-lhe, seus filhos da puta! Chupem essa! Hahaha, isso é bem feito pra vocês! Aprendam com isso, seus merdas! APRENDAM QUE VOCÊS NÃO MEXEM COM DUKE GRAHAM, O MAIS MACHO DOS MACHOS, HAHAHA! – e sem medo agora, prontamente deixou-se cair de costas no chão ao fim de seu discurso. Fechou os olhos, virou-se para o lado, e sem nenhuma preocupação, começou a dormir.

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Observou com curiosidade o momento em que o corpo de sua oponente atingiu o chão, começando quase que imediatamente a derreter, formando uma poça branca no chão à sua frente. Mas... o que é isso? Não entendia bem o que estava acontecendo ali, e isso incentivou-a a manter sua guarda erguida. Cuidado, Teigra, cuidado. Isso pode muito bem ser algum tipo de armadilha do inimigo.

E, no entanto, isso não parecia ser uma armadilha. Havia visto mais do que o suficiente para ter certeza de que seu inimigo contava com habilidades de regeneração extremamente elevadas, mas ao mesmo tempo, tinha dificuldade em acreditar que até mesmo aquela mulher pudesse se recuperar daquilo. Não lhe resta nada. Braços, pernas, torso... até mesmo partes como olhos e orelhas e cabelo se derreteram. Mesmo se sua oponente pudesse se regenerar de algo assim, era difícil imaginar que ela faria algo assim a si mesma, ainda mais tão subitamente.

Hesitou ainda por mais alguns momentos antes de, por fim, decidir correr o risco. Concentrou-se um pouco, e em poucos minutos as chamas da Gema do Fogo simplesmente deixaram de existir, e as feições monstruosas e inumanas que Teigra havia assumido com sua transformação desapareceram para deixar sua aparência normal voltar a brilhar.

Seu olhar permaneceu sobre a poça branca, mas nada veio dela. Nenhum movimento, nenhum sinal de que ainda existia qualquer coisa que alguém pudesse chamar de vida ali. Estranho... o que será que aconteceu? Seus pensamentos acabaram caindo sobre Duke e Hozar, lembrando-lhe que os dois haviam avançado para dentro da mansão. Será que eles conseguiram? Alcançaram nosso objetivo?

E então, de repente, um vento frio soprou por ali, arrancando Teigra de seus pensamentos e fazendo com que ela instantaneamente envolvesse seu próprio corpo com suas mãos.

– Muito bem, muito bem, eu me preocupo com isso depois! – resmungou ela, rangendo os dentes com frio enquanto olhava ao redor. – Maldição, por mais poderosa que essa gema seja, o fato dela acabar com minhas roupas é realmente inconveniente!

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O joelho do Recipiente atingiu o chão com um grande estranho, ao mesmo tempo em que Aurum pareceu perder toda a força de seu corpo subitamente no meio do salto, caindo bruscamente no chão. Cerberus pouco se importou com isso; cada uma das três cabeças do cão do inferno era do dobro do tamanho de um homem adulto, cada um de seus dentes tão grandes e afiados como espadas, e por isso não foi difícil para ele abocanhar todo o corpo do que antes era Aurum, mastigando-o com seus dentes, esmagando cada membro de seu corpo ao mesmo tempo em que causava um som enojante e repugnante; mesmo sabendo que aquele ser estava muito longe de um humano ou algo do gênero, simplesmente não conseguia deixar de sentir-se incomodada por aquilo... embora a curiosidade que sentia pelo que havia feito isso era muito maior.

– Nós... falhamos... – murmurou a voz de alguém que Blair demorou um tempo para compreender que era Zenon, tão diferente que ela soava. Voltou sua atenção para o recipiente, e quando o fez, simplesmente não pode acreditar no que viu diante de seus olhos; a postura antes hostil e orgulhosa de Zenon havia sido totalmente quebrada, mostrando pouco mais do que um derrotado. Os suportes e as lâminas que jaziam neles estavam caídos no chão, espalhados, tal como estava o rabo de Zenon, largado de qualquer forma no chão como se ele tivesse sido violentamente decepado. Mas nem isso era o que mais lhe surpreendia ali. O que realmente lhe surpreendia ali era o fato do corpo de Zenon estar derretendo diante de seus olhos, pedaços de seus dedos, braços, torso, pernas e cabeça pingando ao chão, formando poças brancas abaixo dele. – A Dama de Ferro... como pudemos deixar que isso acontecesse?

– Acontecesse o quê? – questionou Blair, erguendo uma sobrancelha. A Dama de Ferro... ele está se referindo à Annie com isso, não é? Pelo que ele falou, alguma coisa aconteceu com ela, e ao mesmo tempo eu estou vendo o corpo dele se desfazendo diante dos meus olhos. Nesse caso, será que...

– Você não sabe, invasora? – o olhar que Zenon lhe lançou foi um tanto quanto estranho. Por um lado, a raiva e a frustração estavam bem claras nele, mas ao mesmo tempo, Blair conseguia ver um extremo cansaço ali. Era como se o olhar do homem dissesse que ele mataria a maga sem pensar duas vezes se tivesse a chance, e ao mesmo tempo dissesse que ele simplesmente estava cansado demais para se importar com algo assim. – Nós... nós, os recipientes, somos as criações de Annie. Foi ela que moldou nossos corpos e nosso ser, e é ela que seguimos fielmente. No entanto, ela não é algum tipo de mãe para nós, muito menos alguma espécie de Deus físico. Fomos criados por ela, mas não somos independentes dela. É a magia e os poderes de Annie que nos sustentam, que mantém nossos corpos unidos. Sem a ajuda dela, seriamos incapazes de continuar vivos. De muitas formas, nossa vida está interligada a ela... ou, melhor dizendo, nossa vida é a vida dela.

– ... O que significa que, quando ela morre, vocês morrem – concluiu Blair, tendo a certeza de sua hipótese ao ouvir aquilo. Lentamente, quase que imperceptivelmente, Zenon acenou com sua cabeça em concordância.

– Exatamente – murmurou ele, sua voz ficando mais fraca a cada minuto que se passava. – Enquanto a Dama de Ferro permanecesse viva, éramos imortais. Você poderia quebrar nossos corpos da forma que bem desejasse, usando de força e brutalidade, e mesmo assim continuaríamos vivos, iriamos nos reconstruir como se nada tivesse acontecido. Mas isso é uma faca de dois gumes; da mesma forma que somos imortais enquanto Annie permanecer viva, morremos no momento em que ela morre. – com o que parecia ser um esforço fenomenal o recipiente jogou sua cabeça para trás, olhando para o teto de pedra acima de si. A poça branca formada pelo seu próprio corpo que derretia já estava enorme abaixo dele, e a impressão que Blair tinha olhando para aquilo era que ele estava continuamente afundando mais e mais pra dentro dela, mas ao mesmo tempo, o recipiente simplesmente parecia não se importar com isso. – Nós, recipientes, e Annie... nós não somos seres diferentes, não. Nós... nós somos partes de um todo.

E sussurrando aquelas palavras ele caiu para trás, entregando-se por vez ao seu destino. Seu corpo afundou por completo na poça branca que havia formado, ao mesmo tempo em que Blair pode ver um líquido branco escorrendo por entre os dentes da cabeça de Cerberus que havia devorado Aurum. Então, esse é o fim? Com um rápido movimento de seus dedos ela enviou Cerberus de volta ao lugar de onde veio, livrando-se do monstro antes que perdesse seu controle sobre ele. Aurum... Zenon... eles estão mortos. Isso deve significar que os outros recipientes sofreram o mesmo destino, assim como também deve significar que Annie também deve estar morta. Virou seu rosto em direção ao buraco que a velha havia feito antes na parede com seu porco. Isso significa que vencemos, não é? Deveria ser esse o caso, mas apesar disso, Blair simplesmente não pode deixar de apertar o cabo da adaga em suas mãos com ainda mais força. Mas se é esse o caso... por que sinto um pressentimento tão ruim?

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– Eu perdi? – repetiu Hozar, cuspindo as palavras com desprezo. Não estava gostando de tudo aquilo, nem um pouco. A mulher jazia quebrada e destruída diante dele, mas apesar disso tinha a sensação de que era ela que estava no controle de toda a situação, e isso lhe incomodava mais do que podia expressar em palavras. – Explique-se, mulher. De forma coesa. E faça isso rápido, ou arranco um de seus braços. – a bem da verdade, a ameaça era inútil. Sentia que a mulher iria se explicar sem problemas, mas com a forma que ela havia agido até então, o que ele queria era estabelecer um pouco de dominância e controle, mostrar que era ele quem dava as cartas ali. Infelizmente, por algum motivo eu não acho que obterei muito sucesso nisso tentando usar de força bruta.

– Você não veio aqui para me matar, Hozar. Isso, pra você, é um bônus. Você veio aqui para conseguir informações, não é? Provavelmente para descobrir alguma coisa sobre o Olho Vermelho, hum? – as acusações dela foram diretas e seguras de forma que Hozar não podia negá-las, por mais que quisesse fazer isso. Sua única resposta a elas foi silêncio, algo que só fez com que ela sorrisse em satisfação. – Como eu imaginei. Bom, nesse caso, aí está sua resposta, Hozar. Você perdeu toda e qualquer chance que tinha de conseguir alguma informação de mim com seu último ataque. Oh, ele não me matou instantaneamente, mas isso não importa, importa? Ele me feriu mortalmente; irei morrer em questão de minutos. Claro, você poderia tentar me questionar antes que isso acontecesse, mas nenhum bem viria disso, também. Posso lhe adiantar que não vou falar nada assim tão fácil, e estou ferida demais para que você possa me torturar em busca dessas informações; qualquer coisa que você faça comigo tem grandes chances de acelerar minha morte. A única forma de conseguir alguma coisa de mim seria lendo minha mente, e eu e você sabemos que você não tem nenhuma habilidade desse tipo ao seu alcance, e mesmo caso você tenha algum companheiro com você com acesso à uma habilidade dessas, eu estarei morta muito antes de você voltar com ele.

A medida que aquela mulher ia falando, sentiu sua mão fechar-se em um punho com cada vez mais força, seus dedos comprimindo-se com tanta força que sangue chegou a escorrer por entre eles, pingando ao chão em gotas gordas. Velha miserável... ela pensou em tudo isso assim tão rápido? Aquilo lhe incomodava, porém nem de longe tanto quanto lhe incomodava o fato de que as acusações dela estavam certas. Maldita seja essa mulher. Maldita seja ela.

– Mas não é só por isso que disse que você perdeu, Hozar – disse ela, sorrindo daquela forma grotesca dele. Só tinha um olho, e os danos que ela havia sofrido faziam parecer que meramente movê-lo fosse um esforço, mas mesmo assim a mulher olhou para ele de forma condescendente. – O verdadeiro motivo de você ter perdido não é o fato de não ter alcançado o seu objetivo, mas sim o fato de ter perdido seu apoio.

– Meu apoio? – ergueu levemente uma de suas sobrancelhas em dúvida perante aquilo, apenas um momento antes de compreender o que ela queria dizer com aquilo. Seus olhos se arregalaram, e em um piscar de olhos a mão de Hozar disparou para o pescoço dela, apertando-lhe com força e erguendo-a ao ar com facilidade e violência. – Miserável... esclareça-se!

– Arg.. gah! – seu aperto era forte e brutal, apertando a já gravemente garganta de Annie com tanta força que era podia facilmente se estraçalhar em suas mãos, mas não vacilou no aperto em momento algum. Eventualmente, por entre toda a dor e a falta de ar, a velha ainda conseguiu de alguma forma dizer algumas palavras. Suas últimas palavras. – O Olho Vermelho... ele está pronto para atacar seus amigos...! Essa noite, a lenda do Salão Cinzento caí! Hozar Royes... diga adeus aos seus amigos!

Já havia imaginado que era aquilo ou algo do tipo ao qual aquela mulher havia se referido, mas ouvir a confirmação dos lábios dela daquela forma fez com que ele se sentisse muito mais irritado. Aproximou-a de seu rosto para questioná-la sobre aquilo, mas não teve sequer a chance de tentar isso; quando a trouxe pra frente de si, o corpo dela estava mole e seus olhos estavam fechados, e todo o calor que aquela mulher um dia possuía havia há muito desaparecido.

Dessa vez ele não pode conter sua raiva, nem tentou. Rosnou em fúria e frustração, apertando o pescoço da velha com seus dedos com tanta força que esses perfuraram a carne e ele pode ouvir o som dos ossos daquela parte sendo quebrados, mas nem mesmo isso lhe acalmou. Com a mesma facilidade com a qual havia antes erguido aquela mulher ele esmagou o corpo dela no chão, e dizer que isso foi brutal seria pouco. A força, velocidade e violência do ataque fez com que o que antes era o corpo de Annie se quebrasse e explodisse, espalhando sangue sobre Hozar e todo o ambiente ao seu redor, bem como deformando o cadáver dela ao cravá-lo no chão. Nem isso acalmou o cinzento, e por um momento ele chegou a considerar pisar sobre o rosto dela e esmaga-lo também, mas acabou decidindo contra isso. Não. Não, não, não. Isso não é honrado, nada disso é honrado. Retirou apressadamente um de seus cigarros do maço e colocou nos lábios, acendendo-o quase que imediatamente. Se acalme, Hozar. Não deixe a raiva tomar conta de você. Ficar com raiva não iria ajudar em nada, não iria mudar nada se não, talvez, transformá-lo em um monstro tão grande quanto os que aquela mulher tinha sobre seu controle.

Por mais que eu não goste disso, se o que ela disse é verdade, a única coisa que posso fazer é torcer e rezar e acreditar em meus companheiros. O Olho Vermelho era uma guilda poderosa... mas o Salão Cinzento também era uma organização poderosa.

=====

Uma hora depois da morte de Annie...

– Bom, isso certamente foi interessante – contemplou Balak Hauss, falando consigo mesmo enquanto lentamente coçava seu queixo com seu dedo indicador. Seus olhos ainda estavam fixos na esfera de cristal que havia acabado de usar, a esfera que havia usado para falar com Kastor Strauss. Ou, melhor dizendo, Coração Azul. A bem da verdade, tinha um pressentimento de que alguma coisa teria acontecido com Apollo quando tentou entrar em contato com ele, mas não esperava ter a chance de falar diretamente com o seu alvo.

– Interessante? Talvez – concordou de forma um pouco hesitante uma voz feminina. Não fez nada mais do que mover seus olhos, já sabendo quem era a dona dela sem nem olhar pra ela. Metade do seu grupo havia sido dividida entre o seu campo e o de Dokurei, e isso fazia com que apenas outros três membros do Olho Vermelho estivessem ali. Mesmo entre todos os seus aliados, existia apenas uma mulher que ousaria se aproximar dele em um momento tão privado como aquele, e essa mulher era Tristah. – Isso dito, considerando que estamos falando de você, acho que você achou isso divertido, na verdade... e isso já é um pouco mais estranho.

– Tenho um humor negro e estranho, que posso fazer? – disse ele, dando de ombros, sorrindo levemente enquanto falava. – É um tanto quanto irônico, pra ser sincero. Kastor é um bom garoto, pelo que posso ver. Se tivéssemos nos conhecido em uma situação diferente, consigo ver-nos criando uma boa amizade, talvez ele até mesmo se tornasse um dos membros da nossa guilda.

– E no entanto, ele é o hospedeiro do Coração Azul – concluiu ela por ele, já sabendo perfeitamente quais seriam as palavras que iriam deixar seus lábios. – Um fato pelo qual ele não tem culpa ou controle é o que o condena a morte.

Acenou com a cabeça em acordo, suspirando.

– Exatamente. – murmurou ele, correndo uma mão por seus cabelos, sentido os fios escorrerem por seus dedos e serem de certa forma jogados para trás pelo suor em sua mão. – Francamente, a melhor coisa que podemos fazer por aquele garoto é mata-lo tão rápido quanto possível. Simpatizei com ele, sim, mas isso não muda o fato de que no fim das contas ele é apenas um garoto enquanto Coração Azul é um dos demônios lendários. Estou honestamente surpreso que Kastor ainda mantenha sua mente, mas não apostaria que isso duraria muito. Em pouco tempo o demônio dentro de Kastor deve dominar o corpo e alma do cavaleiro, e se isso acontecer Kastor não só se tornará um prisioneiro dentro de si mesmo como a situação ficará muito mais complicada. Matar Kastor antes que isso ocorra... isso não é apenas uma solução mais efetiva como também uma misericórdia.

– Isso também é algo com o qual devemos nos preocupar depois, Balak – advertiu-lhe a mulher de forma gentil. Sentiu a aproximação dela e virou seu rosto no mesmo momento em que ela estendia a palma aberta de sua mão com três esferas de cristal nela. – Kastor é um problema e nós vamos lidar com ele, mas não é o problema principal agora. Temos coisas mais preocupantes agora. Mantenha seu foco.

Não pode deixar de erguer uma sobrancelha ao ouvir aquilo, e lentamente sentiu um sorriso ir se formando em seus lábios. Normalmente Balak não lidava bem com reprimendas como aquela, mas Tristah era uma exceção para essa regra; sempre quando ela lhe censurava de uma forma como aquela, apesar da seriedade com a qual a mulher falava, ele simplesmente não conseguia deixar de achar isso divertido.

– Não precisa se preocupar com isso, Tristah – disse ele, tomando as esferas da mão da mulher. Misturou-as por um momento em sua mão de forma despreocupada antes de jogá-las para o chão a sua frente. – Eu sempre mantenho o foco.

As esferas quicaram por duas vezes no chão e rolaram um pouco antes de enfim perderem o impulso que ele havia investido sobre elas. As três brilharam simultaneamente, e no momento em que esse brilho começou a ser emitido por elas foram todas subitamente atraídas umas às outras, ficando tão unidas que poderiam muito bem serem uma. Aquelas eram esferas de comunicação, mas de um modelo diferente da que havia acabado de usar para falar com Kastor. A que havia usado era feita com a intenção de manter uma conversa entre alguém de um ponto para alguém que estivesse em um segundo ponto; aquelas, no entanto, ativavam diversas esferas em múltiplos pontos diferentes, fazendo uma verdadeira conferência com aquilo. Algo que cai muito bem nas minhas intenções.

Três imagens vieram das esferas, unidas em uma única tela maior que cobria quase que toda aquela parte da tenda de Balak, dando ao Tecelão do Tempo uma visão perfeita dos três homens que iriam comandar o ataque junto dele.

Seus olhos caíram primeiramente sobre Scar, logicamente, analisando mentalmente a expressão de seu braço direito. O rosto do antigo assassino estava sério como sempre, seus olhos finos e perigosos como os de uma cobra observando sua presa. Vestido com um sobretudo negro por cima de roupas também escuras, com sua gola erguida e luvas pretas em suas mãos, a postura e aparência em geral daquele homem fazia com que ele mais parecesse uma espécie de Anjo da Morte ou Ceifador do que tudo. Ele parece confiante. Isso é algo normal vindo dele, mas mesmo assim, é algo muito bom. Considerando a estratégia que tinha em mente, a capacidade de Scar de manter um pensamento racional e o controle de seus nervos era importante para o sucesso de todos.

Depois deixou seus olhos caírem sobre Dokurei Deux. O antigo prisioneiro estava sentado de forma desleixada sobre uma cadeira, segurando uma pequena barra de ferro em sua mão direita, jogando-a para cima e lhe apanhando no ar como se estivesse brincando com ela. Antes havia tido alguma hesitação no que dizia respeito a ele – temeroso diante tanto a possibilidade de que ele tivesse perdido suas lendárias habilidades depois de passar tanto tempo preso quanto preocupado com a possibilidade de que ele se recusasse a colaborar com eles ou até mesmo se voltasse contra o seu grupo. Felizmente seus temores se revelaram falsos no fim das contas, e apesar de toda a natureza selvagem e indomável que ele tinha, Dokurei até agora havia se mostrado um aliado fiel e útil.

E então seus olhos foram para a terceira pessoa ali. Inegavelmente o mais poderoso dentre os quatro que comandariam o ataque... ou melhor dizendo, o mais poderoso dentre todas as pessoas num raio de ao menos mil quilômetros a partir de onde estavam. Os rumores falavam que ele era monstruosamente poderoso, alguém forte o suficiente para competir até mesmo com o Angra Mainyu, Ember Vyhler... e sua aparência fazia jus a esses rumores. Ele era alto, com o que parecia ser quase dois metros e vinte de altura, e apesar disso o seu corpo era proporcionado normalmente e definido, sua musculatura sendo evidente mesmo com as roupas que usava. As calças que aquele homem usava eram longas, sujas e surradas, com vários pequenos rasgados e cortes aqui e ali. A camisa branca que o homem usava também era igualmente simples, manchada de barro e terra, o que apenas fazia com que ela entrasse em um grande contraste com o casaco dele; um casaco longo preto, fino e de luxo, que de alguma forma conseguia ir quase até os pés daquele pequeno gigante, com detalhes em branco e dourado espalhados por ele e a gola erguida. Três bainhas de três grandes espadas bastardas pressionavam aquele casaco ao peito do homem, cada uma das armas com pouco mais do que o tamanho usual delas – um metro e quarenta ao invés de um e vinte – para adequarem-se ao tamanho daquele homem. Os curtos cabelos dele estavam espetados como sempre, e com um sorriso como o que ele trazia no rosto, Jiazz o Juggernaut parecia muito mais jovial do que se esperaria de uma pessoa com a reputação dele.

– Ei, maguinho de merda! – chamou ele ao ver Balak, acenando alegremente com uma de suas mãos. Apesar da forma rude com a qual ele se referia ao líder do Olho Vermelho, o fato de que aquele homem aparentemente fazia isso sem malícia e era estupidamente forte fazia com que Balak não tivesse realmente problemas com isso, preferindo encarar aquilo como um cumprimento amistoso do que por um lado mais sério. – Yo! Como vai tu?

– Eu... vou bem, Jiazz, obrigado por perguntar – respondeu Balak, inclinando levemente sua cabeça em um sinal respeitoso enquanto sentia uma gota de suor escorrer por seu rosto. Isso é... diferente do que eu esperava, devo assumir. Jiazz era uma pessoa perigosa pelo que ele sabia. Nunca havia lutado com o homem, claro, mas havia visto e ouvido o suficiente dele para saber que ele era alguém poderoso, possivelmente até mesmo mais poderoso do que Balak. Esperava ver uma arrogância tremenda, uma grande seriedade ou coisa do tipo, mas apesar de seus poderes, Jiazz aparentava ser alguém bem relaxado e informal, que simplesmente não parecia se importar com coisas como aquelas, e esse modo de agir do homem lhe desconcertava bastante. – Espero que você esteja se saindo bem por aí – acrescentou Balak, em um esforço para estender um pouco a pequena conversa entre os dois de uma forma que fizesse com que ele conseguisse algumas boas informações. – Creio que você não é um estranho completo a convivência em conjunto considerando o pequeno grupo com o qual você se apresentou à mim, mas mesmo assim... os aliados da minha guilda dificilmente são o mesmo tipo de pessoas que os seus companheiros, e certamente são mais numerosos que eles. Espero que eles não estejam lhe incomodando.

– Meh, não muito, eu acho, tudo considerado – respondeu o outro, coçando o queixo enquanto olhava para cima. Se fosse alguma outra pessoa, Balak diria que ele estava pensando naquilo, mas considerando o que já havia visto daquele homem, duvidava muito que fosse esse o caso. – A maioria das pessoas prefere manter uma certa distância de mim, sabe? Acho que por medo. Pelo que eu ouvi... ou, mais especificamente, o que Reivjak ouviu e me disse, muitos rumores correm sobre mim entre eles, rumores que dizem coisas ruins sobre mim; que torturo pessoas por prazer, que sou um estuprador, um pedófilo, um ladrão, manipulador, conciliado sobre demônios e que tenho cheiro ruim. Isso dito, alguns deles tentaram arranjar problemas comigo, talvez até mesmo devido a esses rumores. – os olhos deles voltaram a se focarem em Balak ao mesmo tempo em que o homem cruzava os braços e dava de ombros. – Eu suponho que devia dizer que sinto muito por mata-los, mas não sinto não. Eles provocaram a briga e eram fracotes; eles praticamente pediram pra morrer. Claro, a Princesa do Decote deu um pequeno chilique e uns gritinhos irritantes, mas ei, culpa dela por ser fresca.

– “Princesa do Decote”? – repetiu Balak, sentindo as feições de seu rosto endurecerem lentamente à medida que ia tendo noção do que Jiazz estava falando. – Por favor, Jiazz, me diga que você não matou Lilybell. – a mulher podia ser irritante, mas era forte e tinha um poder bem útil. Era do interesse de Balak mantê-la viva, pelo menos durante aquela batalha.

– Não, não, não matei ela, relaxa – assegurou-lhe Jiazz, sorrindo e jogando sua cabeça para trás. – Isso dito, tenho de admitir que eu quase fiz isso. A mulher é um verdadeiro porre. Só que, quando eu tentei matá-la, Reivjak e Saber me disseram que isso seria uma péssima ideia e que eu não devia fazer isso.

– Bom... – suspirou Balak, sentindo seu corpo voltar a relaxar. Fechou seus olhos e respirou fundo para que se acalmasse melhor. Às vezes me arrependo do fato de ter envolvido ele no meio de tudo isso. Jiazz certamente seria uma grande ajuda ali, mas o gigante também era um grande problema, uma bomba ambulante prestes a explodir e arrasar tudo ao seu redor. A única coisa que me consola e me dá a certeza de que essa foi a escolha certa é o fato de que, se eu não tivesse trago ele pro meu lado, tenho certeza de que o Salão Cinzento o traria para o lado deles. Voltou a abrir seus olhos e correu-os mais uma vez pelos três comandantes do ataque, avaliando cada um deles. – Vocês sabem o que tem de fazer, não sabem?

– Sim, sim, você já disse isso umas mil vezes – resmungou Dokurei, dando de ombros sem se importar. – Eu vou derreter aquele portão depois de três minutos, certo?

– Depois de três minutos a partir do ataque de Jiazz, sim – completou Balak, gesticulando enquanto falava. – Jiazz irá começar com os ataques. Assim que essa transmissão for terminada, ele deve seguir para o portão do oeste e destruí-lo de uma forma bem barulhenta, fazer realmente um estardalhaço. Isso vai obviamente chamar a atenção dos cavaleiros, e isso significa que eles irão todos começar a ir pra lá. Três minutos depois disso, você começará sua invasão, Dokurei, atacando pelo portão do sul, de forma que nossos oponentes irão ficar ainda mais confusos e dividir ainda mais suas forças. Cinco minutos depois de seu ataque, Dokurei, eu mesmo começarei o meu ataque. A essa altura, o inimigo já vai ter compreendido que isso se trata de uma sessão de ataques coordenados, mas isso não muda o fato de que teremos espalhado a confusão por entre suas fileiras. Eles terão de dividir suas forças ainda mais quando isso acontecer, e essa será nossa grande vantagem. E depois disso, trinta minutos depois, a tarefa cai sobre Retalhador.

– Você pode confiar que a executarei com perfeição, Balak – disse o Retalhador em um tom de voz baixo e mortalmente sério como o que ele geralmente usava, olhando para Balak com determinação em seus olhos. – Fui originalmente um assassino. Pessoas como Gwynevere e Ezequiel são oponentes difíceis de se derrotar em uma batalha frontal, mas eles morrem como qualquer outro quando vocês os apanha de surpresa.

Acenou com a cabeça em acordo a isso, mas na verdade, em sua mente, não estava tão certo daquilo. Apesar de todo o nosso planejamento, não posso dizer que estou realmente seguro quanto a isso. Se seu plano desse certo, as forças do Salão Cinzento estariam concentradas no sul, oeste e leste demais para que o norte fosse protegido, dando ao seu braço direito a chance perfeita de se esgueirar pela passagem norte e alcançar a quartel-general inimigo, aonde certamente estariam os líderes deles. Mas nada garante que ele realmente vai conseguir passar despercebido. E mesmo que ele passe despercebido, nada garante que matar Gwynevere e Ezequiel vai ser tão fácil assim. Não gostava do pensamento de ter de arriscar tanto assim seu companheiro, mas ele era a melhor opção que tinha ali. Jiazz e Dokurei eram poderosos o suficiente para que pudessem ter uma chance contra pessoas do nível deles, mas não queria ter de usá-los ali. Por mais que ambos estivessem lhe ajudando até então, eles eram pessoas de fora que ele havia recrutado para lhe ajudarem na guerra, e não confiava totalmente neles. Se possível, quero evitar que eles sequer encontrem os líderes inimigos. Se isso acontecer, existe uma boa possibilidade de que esses líderes tentem convertê-los à sua causa, e eu definitivamente não quero correr um risco como esse. O melhor que podia imaginar ali era que, enquanto os demais espalhavam o caos pelo Salão Cinzento, o próprio Balak avançasse por entre as linhas inimigas diretamente contra o coração dos seus oponentes, pronto para agir caso isso se mostrasse necessário.

– Quero deixar bem claro uma coisa para vocês, antes de tudo – disse ele, olhando para os três, embora soubesse que Scar já sabia o que ele ia dizer. – Nosso objetivo principal aqui é matar os dois líderes do Salão Cinzento presentes: Gwynevere, a Filha do Sol, e Ezequiel, o Terror dos Dragões. Isso dito, as coisas não terminam aí. Independentemente do que façamos aqui, Odin, o Cavaleiro Negro, escapou por entre nossos dedos, o que permite que ele carregue o Salão Cinzento nas costas mesmo com a morte dos outros líderes. Por isso, nosso objetivo vai além das simples mortes dos dois. Quando estiverem naquela cidade, destruam tudo. Destruam cada prédio, cada muralha, matem cada cavaleiro e mercenário que encontrarem. Queimem tudo até só sobrarem cinzas, e depois queimem essas cinzas. Entendem o que quero dizer com isso, não é? – olhou fixamente para os três, completamente sério. – O nosso objetivo aqui, o nosso real objetivo, é a destruição completa e absoluta do Salão Cinzento. Nada menos que isso será aceito.



Notas finais do capítulo

E agora a guerra começa, e pessoas vão morrer. Chega de ser bonzinho - agora, meus bons leitores, vou lhes mostrar sangue.



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