O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 22
Cerberus


Notas iniciais do capítulo

Yo!

Quem aí gosta de cachorrinhos?



– O que isso significa pra mim? Isso é óbvio. Isso significa que você é uma inimiga – respondeu ele, simplesmente, apontando para a velha com um de seus dedos. – E o que eu vou fazer é igualmente simples. Farei o que faço com todos os meus inimigos. Quebrarei seus ossos e queimarei você às cinzas.

A reação foi imediata. Assim que ouviu aquelas palavras, Aurum subitamente surgiu acima de Hozar, seu tridente em mãos, as pontas desse apontadas diretamente para o crânio do cavaleiro cinzento.

– “Queimará até as cinzas, você diz”? – perguntou o Recipiente, uma aura mortífera e sinistra cercando seu corpo. – Você pensa que eu deixarei que faça isso, pedaço de merda?

Abriu a boca para gritar um aviso à Hozar sobre aquilo, mas era tarde demais. Antes que uma única palavra saísse de seus lábios Aurum partiu para o ataque, e o tridente desceu sobre a cabeça de Hozar.

... E no momento em que as pontas desse tridente atingiram o cavaleiro cinzento, elas imediatamente se quebraram.

– Calado. – foi a única palavra que veio dos lábios de Hozar.

Uma expressão de surpresa começou a surgir no rosto de Aurum, mas ela nem sequer teve tempo de terminar. O punho de Hozar moveu-se rapidamente e repleto de força, atingindo seu oponente direto no rosto, e no momento do impacto, o mundo congelou por um instante. Foi como se tudo perdesse momentaneamente a cor, ficasse tudo preto-e-branco, e tudo que existisse fosse os dois... e uma rachadura. O mundo preto-e-branco e rachou e estilhaçou-se em milhares de pedaços, e quando isso enfim aconteceu, Aurum foi arremessado violentamente para longe, atravessando facilmente paredes e paredes, abrindo rombos gigantescos na mansão até por fim ser mandado para fora dela, atravessando literalmente toda a estrutura sem sequer parecer perder força. Mesmo distante como estava e no sentido contrário ao golpe, sentiu a grande força do impacto em seus ossos e teve de firmar os pés no chão para não ser arremessada pelos ares. Tão... monstruoso! Aquele cavaleiro era forte, forte demais.

– Eu sou Hozar Royes, segundo em comando da Era Dourada – murmurou o cavaleiro cinzento, olhando na direção na qual Aurum foi arremessado com olhos frios e intimidadores que pareciam pertencer a um verdadeiro assassino. – Não tenho tempo a perder com formigas como você.

Os olhos de Blair estavam esbugalhados. Mal conseguia acreditar no que havia acabado de ver. Aurum... ele derrotou um Ogro, um monstro poderoso. E ainda assim... um único soco foi capaz de fazer isso? Havia sido advertida sobre algumas coisas; sabia, por exemplo, que “Hozar Royes” era o nome do filho adotivo de Odin, um dos dois discípulos do Cavaleiro Negro, e sabia também que ele e um outro discípulo de Odin – um jovem chamado Kastor – haviam fundado a guilda que chamavam de “Era Dourada”. Sendo discípulos de um dos líderes do Salão Cinzento, era fácil imaginar que aqueles dois deveriam ser muito poderosos, mas o que Hozar havia demonstrado ali estava muito além do nível esperado por ela.

– Ei. Mulher da adaga. – as palavras do homem tiraram-lhe de seus pensamentos, fazendo com que sua atenção voltasse ao mundo real... bem a tempo de ver Hozar olhando para ela, lhe encarando com os mesmos olhos com os quais havia encarado Aurum antes. Opa, opa, ele não pretende voltar-se contra mim agora, não é? Levantou sua guarda, apesar de que considerando a força que ele havia exibido agora há pouco, não achava que havia guarda no mundo que resistiria a um ataque dele. Isso é mal. Duplamente mal. Não só não tenho como me defender desse cara sem usar uma invocação que me deixaria completamente esgotada como também ele é meu aliado! Não podia ataca-lo, mas também não podia simplesmente deixar que ele lhe atingisse. – Não se intrometa na minha batalha. Não gosto desse tipo de coisa. Um outro inimigo deve estar vindo aí, e esse que mandei longe vai voltar assim que se recuperar o suficiente. Mantenha esses dois longe de mim, entendido?

Piscou sem entender aquilo. Hein? Havia pensado que ele iria lhe atacar, ou que ele ao menos iria questioná-la, mas o que ele estava fazendo era lhe dando ordens e orientações? Isso não faz muito sentido... e espere um minuto, eu não sou subordinada dele!

– Você tem certeza do que está falando, cavaleiro? – perguntou ela, apontando pra si mesma com seu polegar. – Você nem sabe quem sou eu, pra começo de conversa.

– Saber quem você é? Desnecessário. Teremos tempo para introduções mais tarde. O que sei que é importante é que você antes estava enfrentando esses dois. Isso faz de você uma aliada, estou errado? – os dedos de Hozar se estalaram ao dizer aquelas palavras, como se estivessem se preparando para um novo ataque. – Claro, se eu estiver enganado, basta dizer. Prometo-lhe que não farei discriminação. Homem, mulher... não importa o que você seja, se você é meu inimigo, vou destruí-lo da mesma forma que destruí o de antes.

Desejou que tivesse simplesmente ficado calada ao ouvir isso. Boa, Blair, irrite o cara forte. Mas, no fim das contas, aquilo não era tão ruim. Aurum deve realmente retornar devido as suas capacidades de regeneração. Não sei qual é o outro inimigo do qual ele falou, mas considerando que são cinco Recipientes pelo que eu sei, deve realmente ter um sobrando, se considerarmos que Syd e os companheiros dele estão cada um lidando com um. Isso dito, algo ainda lhe incomodava ali. Annie está... Apesar da demonstração assombrosa de força por parte de Hozar, Annie não parecia minimamente incomodada. O olhar da velha ainda estava sobre Hozar, inflexível, sem demonstrar medo ou hesitação alguma. A maioria das pessoas ficaria ao menos receosa depois de uma demonstração como aquela. Se isso não aconteceu com ela, Annie deve ou ter nervos de aço ou possuir alguma cartada na manga que a mantém confiante. E nenhuma das duas eram boas opções para eles.

– Royes – começou Annie, de forma incrivelmente serena para uma velha que estava lidando com um inimigo assim tão forte. – Essa sala não é um bom local para lutarmos. Cheia demais, não concorda? Vamos mudar de lugar.

Ela tem uma armadilha planejada. Aquilo estava bem óbvio ali; a velha não havia necessariamente tentado esconder isso, ao menos não muito bem. Eu não sei pra onde exatamente ela quer levar Hozar, mas sou capaz de apostar um braço que esse lugar possui algum tipo de armadilha que dará a vantagem a ela.

– De acordo – concordou surpreendentemente Hozar, aparentemente sem nem sequer parar para pensar no assunto antes de falar. – Guie o caminho.

O quê?! – a exclamação não pode ser contida, tal como Blair não pode deter-se. Seu olhar caiu sobre Hozar, olhando para o grande cavaleiro como se ele fosse o maior dos idiotas que um dia já pisou na terra... o que, francamente, não parecia muito distante da verdade pelo que via até então. – O que você pensa que está fazendo? Isso é obviamente uma armadilha! Não dê ao inimigo o que ele quer, seu idiota!

Isso fez com que os olhos de Hozar imediatamente caíssem sobre ela, duros e inflexíveis, transmitindo-lhe a sensação de que ele queria quebrar seu pescoço entre os dedos. Engoliu em seco com essa sensação, mas mesmo assim, não fraquejou. Por mil diabos, se ele vai me matar, que mate! Não queria morrer, lógico, mas se o homem iria lhe matar, então que ele fizesse isso logo e acabasse de uma vez com aquilo. Eu não sei o que ele vai fazer, mas o que eu sei que eu vou fazer é não recuar! Eu não disse nenhuma mentira, e por isso não irei me desculpar.

O que Hozar fez... foi rir.

Uma risada curta e refreada foi o que veio primeiro de sua garganta, sendo seguida prontamente por uma risada divertida e descontrolada, jovial e alegre de uma forma que parecia no mínimo estranha vinda de um homem com a aparência rígida dele. No entanto, isso ainda lhe surpreendeu pouco comparado as palavras que vieram dos lábios dele.

– Você tem espírito. A última mulher que teve a coragem de falar assim comigo foi Titânia, e ela tem força o suficiente para justificar isso. Você... você é fraca. Bem mais fraca que ela, bem mais fraca que eu. Mas tem coragem, e isso é bom. Gosto disso numa mulher. – Ele acabou de flertar comigo?, perguntou-se imediatamente Blair em sua mente ao ouvir aquilo, seus olhos lentamente se arregalando. Ah, raios partam, ele acabou de flertar comigo. Normalmente não tinha problemas com isso, lidava bem com flertes e não dava muita importância a eles, mas era uma coisa que um bebum qualquer flertasse com ela e que um cavaleiro poderoso fizesse o mesmo. Maldição, isso é chato. Ele realmente não é o meu tipo. Como eu corto a graça dele sem conquistar um soco na cara? Aquilo era... problemático. – No entanto, não fique empolgada com isso. Sua coragem foi divertida agora, mas isso facilmente se torna irritante. Volte a fazer isso e eu quebro seu pescoço.

... Bom, acho que isso significa que ele não estava flertando comigo no fim das contas! Yay! Problema resolvido!

– De qualquer forma, sobre o que você tinha questionado antes... eu sei muito bem que ela tem uma armadilha planejada, e eu sei muito bem que estou lhe dando o que ela quer ao fazer isso, mas esse simplesmente não é o ponto – disse ele, voltando sua atenção à Annie novamente. – Eu sei que essa mulher é mais fraca do que os membros do Olho Vermelho, mesmo com todas as vantagens que ela pode ter. O guerreiro que enfrentamos no Torneio de Valhala, Dwyn, era um grande imbecil, mas ele era forte. Imortal e com uma força física tão grande quanto ele tinha, ele seria capaz de derrotar todo o grupo dessa mulher sozinho. Bryen, Tsui, Kyanna, Shell, Anabeth, Duke... todos caíram diante a ele por um motivo. E o líder do Olho Vermelho... ele foi capaz de derrotar e aleijar tanto Titânia quanto Lancelot, simultaneamente. O poder dessa mulher não se compara ao do Olho Vermelho, ao do nosso verdadeiro inimigo. Por isso quero caminhar para a armadilha dela. Esse vai ser meu teste. Se eu conseguir derrota-la, então eu tenho uma chance contra o Olho Vermelho. Se eu perder, no entanto, isso apenas significa que eu iria ser derrotado de qualquer forma, mais cedo ou mais tarde. Não faz diferença.

Ergueu uma sobrancelha ao ouvir aquilo. Ele está realmente falando sério com isso? Aquela ao menos era uma explicação consideravelmente lógica para o que ele estava fazendo, algo que ela podia compreender de alguma forma, mas ainda assim... era no mínimo desconcertante ver alguém que se importava tão pouco com sua própria vida. É de se esperar que uma pessoa tenha ao menos algum tipo de instinto de autopreservação, mas ele... ele não parece ter nenhum.

Foi retirada de seus pensamentos quando um som estridente ressoou por seus ouvidos, alto como se alguém estivesse apitando bem do seu lado. Sabia que isso era muito arriscado considerando que estavam em uma luta ali, mas simplesmente não pode conter-se; deixou sua adaga cair no chão e tampou seus ouvidos com ambas as mãos, tentando de alguma forma abafar aquele maldito som. Maldição! Mas o que nos malditos infernos é isso?!

Teve sua resposta quando olhou para frente e viu Annie, levemente curvada, seus dedos na boca, suas bochechas inchadas, soprando com força. Ela está... assobiando? Aparentemente sim, mas não entendia o motivo daquilo. Por que ela está assobiando? O que ela planeja com isso? Aquilo não fazia sentido nenhum, a não ser que...

VENHA ATÉ MIM! – gritou subitamente a velha, colocando suas mãos ao redor da boca como que para ampliar sua voz. – VENHA A MIM, MISTER PIG!

... Mister... Pig? Isso não significa algo como... Senhor Porco? Estava prestes a perguntar a velha o que exatamente ela queria dizer com aquilo quando teve essa pergunta respondida.

Ouviu a parede lateral da sala se quebrar e seus instintos fizeram com que reagisse rapidamente; chutou sua adaga para o ar e apanhou-a enquanto girava naquela direção... apenas para deixa-la escorrer novamente por entre seus dedos ao ver aquilo. O que havia quebrado a parede era um porco, mas não somente um porco normal. Um porco com duas vezes o tamanho de um porco normal foi o que quebrou a parede, vestido de alguma forma em um terno negro e mantendo um grande charuto acesso na boca... assim como tendo lentes escuras cobrindo seus olhos. Eu... eu... eu estou bêbada? Não se lembrava de ter bebido, mas essa era a única explicação que podia imaginar para algo como aquilo, e até mesmo isso não fazia com que fosse uma boa explicação.

Vendo a invasão daquele porco, Annie saltou. Apesar do ferimento em sua perna ela não parecia ter dificuldade alguma em fazer aquilo, considerando o tão alto ela saltou. Nem bem o porco havia acabado de aterrissar e Annie aterrissou em cima dele, já sentada nele, montada como se ele fosse um cavalo. O porco se ergueu, jogando suas patas dianteiras para cima enquanto apoiava-se nas traseiras, algo que parecia uma estranha cópia do empino que garanhões faziam antes de partir em corrida. Só que muito mais gordo. E rosa.

SIGA-ME, HOZAR ROYES! – declarou a velha, parecendo mil vezes mais energética agora do que antes, como se montar naquele porco lhe enchesse de forças. – SIGA-ME, E HAVEREMOS ENTÃO DE TER NOSSA LUTA!

E ao dizer aquelas palavras o porco disparou, correndo com uma velocidade absurda em relação a outra parede, atravessando-a com facilidade e deixando nela as figuras tanto do porco quanto de Annie perfeitamente. Blair só pode ficar observando aquilo sem acreditar no que seus olhos viam, um sorriso amarelo em seu rosto enquanto ambas as suas sobrancelhas mantinham-se erguidas e ela tentava desesperadamente fazer algum sentido daquilo com seu cérebro. Hozar também ficou olhando aquilo, ao menos por um tempo, antes que ele parecesse decidir simplesmente ignorar tudo e começasse a andar calmamente atrás deles.

– Se eu fosse você, pegava minha adaga de novo – avisou ele, sem se virar. – Não vai demorar para que o inimigo chegue a essa sala, e tenho certeza de que ele vai estar bem irritado com tudo que aconteceu aqui. Confio em você para segurá-los aqui.

Confiar algo assim tão importante a alguém que você acabou de conhecer como eu não me parece necessariamente uma coisa esperta, cavaleiro, pensou ela nos confins de sua mente, mas não deu voz aos seus pensamentos. Isso dito, estou do seu lado, então confiar em mim não é algo tão ruim assim. Abaixou-se para pegar sua adaga... e no momento em que fez isso, sentiu uma presença além da dela surgir naquela sala, e uma voz ressoou com força em seus ouvidos.

INVASORA! – rugiu ela, uma voz masculina bestial, soando como algum tipo de mistura estranha entre homem e monstro. – O que você fez com a senhora Annie? Diga-me! Se não me responder por bem, irei quebrar membro por membro de seu corpo até que me diga!

Não deu resposta para aquilo, nem sequer ergueu o rosto para fitar seu oponente. Sua perna foi a única coisa que se ergueu, e mesmo sem ver, simplesmente sentiu o suficiente para saber que havia atingido em cheio o rosto de seu oponente. Combate corpo-a-corpo não é o meu forte... mas estou longe de ser incompetente nisso. Ouviu os sons de seu oponente sendo forçado a recuar, e imediatamente apoiou sua perna no chão e endireitou sua postura para então erguer-se, fitando seu adversário.

Tinha razão em uma coisa. Aquilo era uma mistura entre homem e monstro.

Sua forma era humanoide, além de qualquer dúvida. Mas claramente não era humana. Lâminas ocupavam o que pareciam ser algum tipo de suportes espalhados por todo o corpo daquele homem, e em suas mãos, garras brilhavam, como se fossem as garras de um animal selvagem. Tinha um rabo, também, longo e cheio de lâmina, com uma ponta de ferro que lembrava-lhe a ponta do rabo de um escorpião. Isso está errado. Não me lembro de nenhum Recipiente com uma aparência assim. E no entanto, a pele extremamente branca daquele monstro e a forma como havia se referido a Annie deixava claro que ele era um Recipiente. Mas se ele é realmente é um Recipiente... então quem é ele?

Obteve sua resposta rapidamente, embora de uma forma que fazia com que ela desejasse simplesmente não ter lhe obtido. Aurum voltou para aquela sala caminhando, trazendo em sua mão direita o tridente da ponta quebrada, mas apesar do que alguém normalmente pensaria daquela forma de agir, o que ele trazia no rosto era algo muito longe de calma. A fúria daquele homem não estava descontrolada, mas ela estava a mostra em seu rosto, e isso só fazia com que ela parecesse ainda mais assustadora.

– Zenon – disse ele, aparentemente referindo-se ao outro Recipiente. Zenon? Esse é Zenon? Arriscou uma rápida olhadela a ele, como para se certificar de que ele realmente estava falando com quem ela pensava. Ele certamente não parece Zenon. O que aconteceu com ele? E por que ele está aqui? – Você deixou o inimigo passar. Aprenda a fazer seu trabalho decentemente, mordomo maldito.

– Não quero ouvir algo assim vindo de alguém como você, Aurum – murmurou Zenon em retorno, parecendo irritado. – Você deveria proteger Annie. Pois bem, aonde está ela? Nunca ouvi falar de um guarda-costas que protege alguém a distância.

– Calado. Sua falha trouxe complicações a mim – retrucou Aurum, mal-humorado. – Se ela não está aqui, ela então deve estar com o cavaleiro que veio aqui em algum outro lugar. E se essa mulher está aqui, ela deve saber aonde eles estão.

– Ah, deve? – Zenon pareceu contemplar a ideia por alguns momentos, movendo seus olhos para Blair, observando-a de forma cuidadosa. – Sabe o que isso significa, não é?

– Claro que sei – respondeu Aurum, dobrando seus joelhos. – Vamos fazer isso.

Ajeitou novamente sua postura. Sua mão suava, mas mesmo assim ela continuou a segurar sua arma, usando de ainda mais força para mantê-la segura. Essa não é uma boa situação. Não, não, com certeza não. Mas não ia correr. Se aqueles eram realmente seus últimos oponentes ali, então supunha que podia mostra-los a carta que escondia nas mãos. Bateu a palma de sua mão livre com força no chão, e as palavras entoaram de seus lábios como uma prece.

Abram-se, portões do Tártaros! Cão demoníaco que guarda as portas do inferno, ouça meu chamado! De ossos e cinzas você é feito, e em ossos e cinzas você fará meus inimigos! – quando seus oponentes avançaram contra ela, não conseguiram tocá-la. Duas grandes cabeças lhes pararam, uma dando uma cabeçada em Aurum enquanto a outra ameaçava engolir Zenon por inteiro, tudo isso enquanto a primeira uivava e rugia. – Invocação de nível três: Cerberus!

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20 minutos atrás...

Esse homem é certamente rápido em correr, tenho de dar-lhe isso! Já tinha um bom tempo que estava correndo atrás de Syd, mas simplesmente nunca parecia ser capaz de alcança-lo, ou até mesmo de sequer chegar perto dele. Pelo menos conseguia não deixar que o homem se afastasse mais, mas estava longe de ficar satisfeito com aquilo. Maldição, não vamos chegar a lugar nenhum com isso. Tenho de detê-lo de alguma forma.

Foi então que lembrou-se de sua habilidade.

Geralmente, quando usava seus poderes para manipular a forma da mansão, fazia isso concentrando-se totalmente nessa tarefa, com parcimônia e tranquilidade. Nunca tentei fazer algo assim em uma situação como essa, mas bem, creio que há sempre uma primeira vez para tudo, e essa é uma ocasião tão boa quanto qualquer outra para tentar algo assim. Sem nunca parar de correr atrás de Syd, concentrou-se tanto quanto pode para manipular a estrutura da mansão a seu favor. Aquilo não foi fácil; teve de concentrar-se bastante e fazer um esforço inumano para ter sucesso naquilo, mas quando sentiu o chão tremer abaixo de seus pés em significado que seu poder estava ativo, sentiu-se muito satisfeito consigo mesmo.

A rota de fuga de Syd foi subitamente fechada quando o caminho pelo qual ela seguia simplesmente deixou de existir, as paredes do corredor comprimindo-se e fechando-se como em uma muralha de concreto. Aquilo fez com que o lanceiro recuasse, saltasse para trás e voltasse seu rosto para aquilo, e mesmo que Zenon não pudesse vê-lo, simplesmente sabia que a feição que reinava no rosto dele deveria ser uma de desespero. Quando o homem virou-se e pode ver o rosto dele, pode ver que esse não era realmente o caso, mas isso não o fez ficar desapontado; não era exatamente desespero o que o homem expressava em rosto, mas era algo perto o suficiente, com uma mistura de surpresa e medo.

E tão rápido quanto essa expressão surgiu em seu rosto, ela também desapareceu, dando lugar a um pequeno sorriso confiante e arrogante.

Não compreendeu isso de imediato, mas quando viu as mãos daquele homem alcançarem o escudo em suas costas, teve uma ideia do que estava acontecendo ali. Esse escudo... ele é algum tipo de arma secreta desse homem? Não sabia, mas se fosse esse o caso, então isso explicava de alguma forma a confiança que seu oponente havia começado a exibir. No entanto, isso só significa que tenho de agir rapidamente. Apressou seu passo e moveu seus braços, deixando-os a frente de seu corpo, as lâminas que havia criado nos suportes deles brilhando. Se esse escudo é a arma secreta dele, então tudo que tenho de fazer é acabar com ele antes que tenha tempo de usá-la.

Mas foi tarde demais para isso.

– Contemple, Zenon, e maravilhe-se com isso! – disse Syd, gritando a declaração com todas as suas forças. – Essa é minha arma suprema, minha saída de emergência!

E quando aquelas palavras foram ditas, o homem cravou seu escudo no chão afrente de si com força, deixando que o grande escudo cobrisse todo o seu corpo enquanto Zenon saltava para trás, afastando-se daquilo em preparo para o que estava por vir.

Imaginou que aquele escudo realizaria algum tipo de grande ataque contra ele. Pensou que talvez seria atingido por um raio de energia, ou que talvez aquele escudo fosse afetar o ambiente. Nada disso era pensar demais, afinal, considerando que o mais provável era que aquele lanceiro fosse também um mago, bem como um guerreiro. Tinha de estar preparado para absolutamente qualquer possibilidade... mas apesar disso, nada aconteceu.

Franziu o cenho quando aquilo aconteceu, em parte irritado com aquilo, em parte decepcionado por tal, mas não deixou que as aparências lhe enganassem. Tenho de tomar cuidado aqui. Se bem me lembro, Syd chamou isso de “minha arma suprema”. Isso pode significar muita coisa. E considerando o que ele já demonstrou, não posso subestimá-lo. Talvez aquele escudo não fosse puramente agressivo por si só, mas sim funcionasse como uma espécie de armadilha. Quando ele usou esse escudo, eu estava prestes a ataca-lo. Talvez essa seja a chave dessa habilidade. Sim, isso fazia sentido. Uma habilidade que usa a minha própria força para me atacar. Algo que faz com que, quando eu ataque esse escudo, eu acabe recebendo a própria força do meu ataque de volta contra mim, pura ou ampliada. Essa lhe parecia uma possibilidade bem real ali, bem como uma habilidade poderosa o suficiente para que merecesse aquele título. Mas se for esse o caso, como eu devo ataca-lo? Supunha que podia usar sua habilidade para manipular a forma da mansão de uma maneira que lhe permitisse atacar Syd por trás, evitando completamente aquele escudo, mas isso lhe deixaria exposto, exposto demais. Se eu fizesse algo assim, seria muito fácil para ele me atacar. Não acredito que ele seja estúpido o suficiente ao ponto de não usar de uma chance como essa. Mas então, o que deveria fazer...?

Esperou, foi o que fez.

Mesmo para ele essa ideia parecia um tanto quanto estúpida, mas isso não mudava o fato de que era a melhor ideia que havia tido ali. Se ele está com alguma habilidade que pode refletir a força de meus ataques contra mim, então ele deve estar constantemente gastando mana para mantê-la ativa. Se esperasse um pouco o homem deveria ficar sem mana e ser forçado a partir para a ofensiva, e além do mais, esperar lhe dava a chance de manter sua guarda erguida. Sim... esperar é uma boa ideia. Vou esperar. Esperar e ver o que ele vai fazer.

E assim, esperou.

E esperou.

E esperou.

Eventualmente, sentiu até mesmo a sua paciência começar a se esvair. Por mais que esperasse, nada acontecia. Não via nenhuma reação daquele homem, nem sinal algum de que ele estava sendo afetado pela espera. Afinal, o que está acontecendo aqui?! Não era possível que ele estivesse resistindo a tanto tempo assim, não quando ele também era um guerreiro. Para desenvolver seu e suas habilidades assim, ele teria de sacrificar tempo de treinamento que lhe impediria de ter um domínio sobre a mana bom o suficiente para que pudesse resistir tanto tempo assim enquanto sofre um gasto contínuo. Aquilo não fazia sentido algum, e isso lhe irritava, lhe irritava muito.

Talvez eu devesse simplesmente lançar um ataque contra esse maldito escudo e me ver livre de tudo. Aquilo era algo no mínimo arriscado, considerando que isso podia lhe lançar diretamente contra uma armadilha, mas ao menos isso lhe daria uma resposta, e de qualquer forma, tinha a certeza de não morrer graças à sua senhora Annie. Existem outras formas de me deter que contornam isso, mas não sei se ele tem algo preparado para elas... e de qualquer forma, isso vale a pena.

Decidido, seu rabo moveu-se rapidamente, a ponta de ferro dele reluzindo por um momento antes de avançar contra o escudo. Um único ataque foi o necessário para destruir esse por completo, estraçalha-lo em mil pedaços...

... E no momento em que isso aconteceu, pode ver que não havia nada atrás daquele escudo.

Demorou alguns instantes para que processasse aquilo. E a medida que isso acontecia, algo também acontecia com ele. Desgraçado... Havia perdido seu tempo ali, perdido tempo demais, mas não era só isso. Em geral, Zenon era alguém calmo, controlado; alguém que não se deixava levar por suas emoções. Desgraçado...! Nunca deixou que o emocional dominasse o racional, nunca deixou que o que sentisse entrasse no caminho de sua mente, nunca permitiu que suas emoções dominassem o seu modo de agir. Mas, ali, ali... ali a primeira e única exceção a isso se mostrava.

DESGRAÇADO SEJA O SEU NOME, SYD OSTROWER! – amaldiçoou ele com todas as forças de seu ser, rugindo aos céus, liberando toda a sua fúria. O corredor respondeu a raiva que sentia, e quase que imediatamente vários espinhos surgiram ali, espinhos rubros como que manchados de sangue. Nem deu importância a eles. Tudo que fez foi começar a correr, correr tão rápido quanto podia pra longe dali. Maldição, Annie! Eu perdi tempos demais aqui! Tempo demais! Se ele ou algum dos outros invasores fez algo contra Annie, eu juro, juro que irei destroça-los!

=====

Sua casa era modesta, mas confortável, e isolada também. Havia tido sorte em acha-la quando a construiu. Encontrou uma ilha deserta, intocada pelas mãos do homem, e ali estabeleceu sua modesta residência. Modesta, bem modesta, mas mais do que boa o suficiente.

Tirou a tampa da caixa de gelo e dela retirou uma garrafa de água fresca, justamente o que precisava depois de seus esforços. Caminhou até sua cadeira de sol, fincou sua lança no chão ao lado dela e, sem pensar duas vezes, jogou-se sobre ela para relaxar.

E foi só depois de fazer isso que Syd Ostrower se deu ao trabalho de pensar em como deveriam estar as coisas.

Hm... Zenon provavelmente vai ficar bem irritado depois de compreender o que aconteceu. E ele provavelmente vai querer descontar essa raiva nos outros. Torcia para que ele demorasse algum tempo a descobrir aquilo, pelo bem deles. Apesar de que, eles devem ser capazes de cuidarem de si mesmos. Blair pelo menos deve ser mais do que forte o bastante para dar uma boa luta a ele.

Provou um pouco de sua água, e logo em seguida parou. É engraçado como nunca me acostumo com isso. Não é a primeira vez que fujo – e provavelmente não será a última – mas mesmo assim... não consigo deixar de me sentir um pouco culpado por isso. Como se eu estivesse traindo a confiança dos outros. Não... isso era errado. Ele já havia traído a confiança dos outros há muito tempo. Sydwel não faria isso, no entanto. Ah, não. Sydwel lutaria bravamente até o fim. Mas, infelizmente, Sydwel morreu no dia em que ele fugiu do exército de Ember, deixando que sua nação fosse destruída pelo punho do Imperador do Norte. Agora eu sou apenas Syd. Syd, o Covarde. Mas mais valia um covarde vivo do que um corajoso morto, disso tinha certeza.

Esticou-se na cabeça e balançou a cabeça para livrar-se daqueles pensamentos. Não adianta pensar sobre isso, de qualquer forma. O que estava feito estava feito, e não podia ser mudado. O que devo fazer agora é relaxar. Sim, relaxar... relaxar e, depois, ir até o Salão Cinzento.

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Descrever a sala na qual tinha acabado de entrar como “bizarra” não era o suficiente para nem sequer começar a realmente falar a verdade sobre ela. Era uma sala escura e aparentemente isolada do resto dos cômodos da mansão, mas não era isso que a tornava tão... estranha, mas sim o que havia dentro dela. Bonecos. Bonecos humanos. Criaturas com uma forma completamente humanoide e inteiramente brancas, sem olhos ou boca ou orelhas, mas apenas vãos nos espaços em que essas partes deveriam estar. Essas criaturas estavam acorrentadas às paredes daquela sala, e embora isso por si só já fosse bizarro e assustador o suficiente, isso não era o pior. O pior era que aquelas criaturas se moviam e gemiam, emitindo grunhidos primordiais que pareciam ecoar, enchendo a sala e transmitindo uma sensação de desconforto à Hozar que nem mesmo o Cinzento conseguia ignorar. Mas que inferno... que tipo de aberrações são essas? Não gostava nada daquilo, nem um pouco.

E não gostava nada também de Annie ali, ainda montada em cima de seu porco, ambos os braços cruzados, parecendo estar simplesmente aguardando por Hozar.

– Você finalmente chegou, Cavaleiro Cinzento – disse ela, calmamente, abandonando lentamente sua postura para colocar ambas as mãos em suas costas, olhando diretamente para Hozar. – Está atrasado, no entanto. Jovens homens não deveriam deixar velhas senhoras esperando.

– Pelo que sei, velhas senhoras também não deveriam se associar às guildas ilegais e tentar matar pessoas com monstros – retrucou ele. Annie apenas fez dar de ombros.

– Creio que no fim das contas, tanto você quanto eu não somos necessariamente as pessoas mais exemplares que esse mundo já viu – disse ela, sem parecer realmente se importar com aquilo, embora Hozar não deixou de notar as mãos dela se afastando lentamente uma da outra, seus braços se abrindo, apontando para as paredes repletas das criaturas. – Muito bem, de qualquer forma, acho que é hora de pararmos com o papo furado. Viemos até aqui pela nossa última luta, certo, Hozar? Sendo assim, não temos tempo a perder. – e dizendo isso, os dedos de ambas as mãos daquela velha se estalaram.

No momento em que o estalar deles ressoou por ali, uma reação imediatamente surgiu nas criaturas. Todas elas, sem exceção, começaram a se debater contra suas correntes, algumas até mesmo chegando a conseguir se libertar dessas correntes, e isso, considerando que antes elas quase que pareciam mortas, era uma mudança grande e importante demais para que apenas a ignorasse. E então ambas as mãos de Annie se fecharam, e com os indicadores de cada uma delas a velha apontou em direção a Hozar, fazendo com que imediatamente todas as criaturas que ela aparentemente havia despertado com aquilo se voltassem em direção a Hozar, seus rostos virados em sua direção como se elas pudessem lhe ver mesmo sem olhos. Entendo... acho que entendi o porquê dela querer vir pra cá. Aparentemente, aquelas coisas – o que quer que fossem elas – respondiam aos comandos de Annie. Ela as manipula, as ordena. O que significa que acabei de vir para o meio de seu exército.

Um meio-sorriso surgiu em seu rosto ao compreender aquilo. Perfeito. Essa é a oportunidade que eu tanto esperava.

– Você sorri, Royes? – questionou ela, parecendo apenas levemente intrigada por aquilo. – Perdeu a cabeça?

– Não – respondeu ele, olhando para ela. – Mas você perdeu a vida, Annie. Se acha que algo assim tão patético é o suficiente para me matar, então você realmente não tem a menor ideia de quem eu sou.

E sem oferecer mais nenhuma palavra para servir como resposta, Hozar deixou que ela visse o que ele queria dizer. Todos os membros de seu corpo foram subitamente forçados ao máximo, fazendo com que com que veias surgissem por todos eles, um sinal da pressão que era exercida sobre eles naquele momento. Chamas surgiram ao redor de seus punhos, ao redor de suas pernas, ao redor de seu peito, como se fossem pouco mais do que uma extensão do seu corpo. Mas isso não era nada ainda. A pressão exercida sobre os membros de seu corpo também era exercida em seu rosto, e não demorou muito para que sentisse a pele ao redor de seus lábios se rasgar de uma única vez, deixando que a carne da totalidade de sua boca ficasse a mostra, exibindo uma gengiva tão vermelha que parecia estar sangrando constantemente e dentes tão afiados que poderiam cortar com facilidade aço. Sabia bem o quão assustador ele parecia naquele estado, e era justamente essa uma de suas intenções.

– Deixe-me lhe mostrar, “Dama de Ferro”... o terror absoluto! – ergueu seus olhos para ela, e quando o fez, eles já não eram mais os olhos de um humano, mas sim os de um animal selvagem e louco. – Cerberus, módulo dois!



Notas finais do capítulo

Capítulo um tanto que menor que os normais, hmm?

Bom, vejam só, vocês podem ficar um pouco insatisfeitos por isso, mas lembrem-se do seguinte:

"A calma sempre vem antes da tempestade."



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