O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 20
Titã de Diamante


Notas iniciais do capítulo

Yo!

Finalmente, estamos de volta! Com vários capítulos preparados aqui, trago-lhes de volta o Olho Vermelho com seus lançamentos semanais! Teremos uma pequena alteração agora, tendo os capítulos normais da história sendo lançados na segunda e possíveis "extras" nas sextas, mas nada demais.

... Eu senti saudades de vocês, pessoal.



– Merda, merda, merda! – a raiva exalava de Duke enquanto ele corria com tanta força que parecia até mesmo que o homem poderia se transformar em uma bola de fogo a qualquer momento. Seus eram tão fortes que eles quase afundavam um pouco no chão, e por mais de uma vez seu companheiro abriu portas com fortes e furiosas ombradas, arrebentando-as por completo enquanto seguia em frente. O fato de que estavam aparentemente numa sequência infinita de corredores estava fazendo pouco para lhe acalmar. – Eu não acredito nisso. Eu não acredito que simplesmente deixamos Teigra pra trás! Merda, que porra nós fizemos?!

– Em primeiro lugar, acalme-se – disse Hozar por sua vez, muito mais calmo e focado do que seu companheiro, correndo lado a lado com ele. Duke precisa se acalmar, pensou o cavaleiro cinzento, olhando atentamente os movimentos de seu companheiro. Ele é forte, monstruosamente forte, mas a grande fraqueza dele é que ele é temperamental demais. Emocional demais. Por mais que ele tentasse manter uma postura de “machão” e “durão”, Duke era de longe o mais emocional dos membros da Era Dourada, e isso era bem problemático em momentos como esse. Estamos em meio a território inimigo. Podemos ser forçados a lutar a qualquer momento aqui, e seria péssimo se Duke tivesse de lutar com o seu emocional tão abalado assim. – Em segundo lugar, ela quis ficar pra trás. Você fala como se tivéssemos abandonado-a, e talvez você realmente pense assim, mas a verdade é que ela escolheu isso para poder nos deixar seguir em frente. Em terceiro lugar... você notou o mesmo que eu notei?

– Se eu notei o que?! – questionou ele, dando uma ombrada em outra porta, arremessando-a longe, apenas para revelar outro corredor igual ao qual haviam acabado de passar. O grunhido de irritação que veio da garganta dele deixou mais do que claro que ele não tinha mais paciência alguma com aquilo. – Se você fala sobre o fato desse lugar ser a porra dum labirinto, então sim!

... Bom, isso é parte do que eu queria que ele notasse, eu acho. Aquele lugar estava realmente sendo um verdadeiro labirinto, mas pelo que Hozar estava notando até então, isso não era algo natural. Existe magia em efeito aqui. Isso é óbvio. Nenhuma mansão teria tantos corredores repetidos, um atrás do outro, e mesmo se tivessem, estavam correndo em linha reta ali por tempo o suficiente para terem cruzado a mansão de uma ponta a outra, e ainda assim o corredor continuava infinitamente, sem nunca levar-lhes a lugar algum. Eu não sei se estão usando algum tipo de feitiço que altera a estrutura da mansão ou se caímos em algum tipo de armadilha, uma ilusão que altera a nossa percepção e coloca nossa mente em um mundo estranho, mas sei que não vamos chegar a lugar nenhum simplesmente correndo em linha reta aqui.

Foi por isso que subitamente parou de correr, e fechando sua mão em um punho, desferiu um soco forte na parede ao seu lado, causando um grande rombo nela que dava para o outro lado.

E tal como esperava, o que estava do outro lado daquela parede era nada mais do que uma cópia perfeita do corredor no qual estavam, quase como se estivessem olhando para um espelho.

– Mas o que diabos... – Duke se aproximou com uma sobrancelha erguida, seu rosto passando lentamente de uma expressão de espanto e descrença para uma de fúria mal contida. – O que diabos está acontecendo aqui, afinal de contas?! Isso está ultrapassando todos os limites do ridículo!

Não deu resposta a isso, até porque concordava completamente com o que ele dizia. Isso dito, tinha de lidar com aquilo ainda assim, e tinham coisas ali que lhe deixavam curioso. Sem dizer uma palavra ele avançou pelo buraco que abriu de forma calma, olhos atentos para aquele corredor. Ele parece idêntico ao que estamos agora... mas o que exatamente é isso, afinal? Seria uma a situação se estivessem lidando com corredores similares mas diferentes, mas por algum motivo, não imaginava que era esse o caso...

E teve a confirmação de suas suspeitas assim que viu que, do outro lado daquele corredor, um buraco idêntico ao que havia acabado de abrir naquela, no mesmo lugar aonde havia o aberto. E mais ainda; não conseguia ver o que tinha do outro lado daquele buraco em questão, mas atrás dele, Hozar conseguia ver algo... ou melhor dizendo, alguém; conseguia ver as costas de Duke.

Não teve essa visão por muito tempo. Logo a figura de Duke se moveu, passando pelo buraco que ele via ali, e assim que virou seu rosto deu de cara com o Titã fitando-lhe com uma feição de confusão, como se estivesse tentando compreender o porquê de Hozar ter feito o que fez, para logo em seguida parecer se dar conta de tudo aquilo. Não disse nada; apenas virou-se rapidamente e disparou a correr em direção a porta no fim do corredor. Esse corredor não é simplesmente similar ao anterior. Ele é literalmente o mesmo. Se a minha hipótese estiver correta, então...

Desfez a porta em pedaços com um único chute poderoso seu, e a cena que viu foi a mesma; um corredor idêntico ao anterior, com o mesmo buraco em uma das paredes. É realmente aquilo que eu pensei. Não estamos nem sequer andando em círculos aqui. Estamos literalmente dando voltas e voltas no mesmo lugar.

– Mas que merda... – a voz de Duke atrás dele veio de forma que ela mais pareceu o rosnar de um animal enfurecido do que algo que você esperaria de um humano. Por poucos instantes Duke ficou em silêncio, seus olhos correndo pelo corredor como se ele estivesse tentando entender o que se passava ali. Não soube se ele conseguiu o fazer, mas um minuto depois o punho revestido de Duke golpeou com força uma parede próxima, arrancando um grosso pedaço de concreto dela. – Você tem que estar de palhaçada comigo! Estamos andando em círculos aqui?! Isso não faz o menor sentido.

– Na verdade, isso faz bastante sentido – contrapôs Hozar, coçando levemente seu queixo enquanto pensava. Não podia culpar Duke por se sentir tão irritado assim; o próprio Hozar estava tremendamente irritado com aquilo também, embora a sua experiência com isso graças a convivência de anos que tinha com Kastor fizesse com que ele ainda fosse capaz de pensar de forma racional mesmo numa situação como aquela. Seguindo em frente ou para os lados, esse corredor é absolutamente o mesmo. É como se estivéssemos presos em uma pequena dimensão paralela da qual não podemos sair, cada caminho que seguimos nos levando para o mesmo ponto, apenas por uma entrada diferente. Sendo assim... talvez existisse uma forma de escaparem daquilo. Se esse corredor é o único lugar que podemos alcançar, então o que acontecerá se o destruirmos? Aquilo era arriscado, mas era um risco que ele estava disposto a correr.

Moveu seu punho subitamente contra o chão abaixo de si, visando destruí-lo com um único soco, mas antes que chegasse a fazer qualquer coisa, uma voz o fez parar.

– Por favor, não destruam a mansão – disse essa voz, fazendo com que o punho de Hozar parasse instantaneamente no instante em que a ouviu. – É problemático restaurá-la ao seu estado original depois.

Tanto Hozar quanto Duke imediatamente voltaram-se na direção da qual veio essa voz, a atenção deles atraída para ela. No meio do corredor, uma figura se destacava em meio a todas aquelas imagens repetidas. Parecia uma estátua de pedra, alguma coisa esculpida a partir do próprio concreto do solo há anos e anos, com a pequena diferença de que ela movia-se. Sua forma era tão humanoide quanto podia ser, remetendo a imagem de um homem de estatura mediana e bem vestido, com terno e óculos. Sendo feita de pedra ela não tinha pupilas, obviamente, mas isso aparentemente fez pouco para impedir que a figura se voltasse para Hozar e Duke como se estivesse os vendo de forma perfeitamente normal.

– Você são os invasores, presumo eu – disse ela, ajeitando seus óculos de forma calma enquanto falava. Tinha uma postura ereta, suas mãos atrás das costas e a massa de seus pés misturada a massa do chão abaixo dela, seu ponto de origem. Pela sua postura e a forma como ele falava, o homem parecia calmo e tranquilo, como se estivesse no controle total da situação. Ver isso foi o bastante para que Hozar soubesse que ele era o responsável por aquilo. – Meu nome é Zenon, invasores. Bem-vindos a mansão da nossa senhora, a Dama de Ferro.

– Dama de Ferro? – perguntou Hozar, afiando um pouco seus olhos em curiosidade. – Quem seria es-

Não teve sequer tempo para terminar de fazer sua pergunta. Antes que o pudesse fazer, a figura de pedra daquele homem foi acertada em cheio pelo punho de Duke, explodindo em milhões de pedaços que foram espalhados por todo o corredor quase que instantaneamente.

Isso, por sua vez, foi algo que quase fez com que Hozar realmente perdesse a paciência; foi necessário muito autocontrole de sua parte para que não saltasse sobre Duke em fúria, para que não esmagasse o rosto de seu companheiro em suas mãos. Maldição, Duke, controle-se um pouco mais! Duvidava que aquilo tivesse feito qualquer coisa que lhes beneficiasse ali, e era uma péssima ideia afastar um inimigo em uma situação como aquela sem nem sequer tentar tirar alguma informação dele.

– Parece que temos duas espécies de pessoas entre os invasores; um homem com um senso mínimo de prioridades e um cão violento, estúpido e descontrolado. Nunca lhe ensinaram, cavaleiro? Cães violentos deviam estar presos a correntes. – murmurou a voz de Zenon novamente. Tinha de admitir; aquilo lhe surpreendeu. Eu... realmente não esperava que ele voltasse a aparecer depois de ter sido atacado dessa forma. Se ele é ousado a esse ponto, isso só pode significar que ele ou é extremamente burro, extremamente arrogante, ou está extremamente confiante. Embora talvez pensar assim fosse um pouco antecipado da sua parte. Tanto Hozar quanto Duke estavam olhando ao redor da melhor forma que podiam em busca daquele homem, mas não havia tido nenhum sinal da presença dele em lugar nenhum ali. – Pra trás e pra cima, cavaleiro – disse ele, solícito – Olhe pra trás e pra cima e talvez achará o que tanto procura.

Fez isso, apesar de não ter sido capaz de evitar um grunhido de irritação devido a zombaria nas palavras daquele homem. Maldito, ele está me provocando. A figura de Zenon havia reaparecido ali, embora dessa vez ela estivesse no teto ao invés de no chão. De ponta cabeça, era estranho falar com o homem, mas isso parecia não incomodá-lo, considerando a forma como ele estava calmo e relaxado.

– Muito bem, muito bem – pequenas palminhas sarcásticas vieram dele enquanto a feição em seu rosto continuou neutra. Se alguma coisa, tudo que ela exibia era arrogância, como se ele se julgasse superior aos dois guerreiros. – Eu sabia que conseguiriam. Vocês não são tão burros quanto parecem.

Duke tentou avançar contra ele novamente ao ouvir aquilo, mas dessa vez Hozar reagiu a tempo o suficiente para impedi-lo; quando o Titã tentou passar por ele, moveu-se rapidamente e segurou o ombro dele com uma das mãos. Ainda bem que sou eu aqui, pensou ele ao fazer isso, vendo a forçar que Duke havia colocado em sua investida e a agressividade com a qual ele tentou se livrar quando o segurou. Se fosse Bryen, Kyanna, Teigra, Anabeth, até mesmo Kastor... qualquer um deles ou seria arrastado por Duke, ou seria arremessado por ele quando tentasse lhe deter. Dentre toda a Era Dourada, Hozar era o único que tinha força física o suficiente para poder parar Graham.

– Me largue – resmungou Duke, voltando-se para Hozar apenas o suficiente para fita-lo, a raiva presente tão fortemente em seu olhar que parecia até mesmo que ele tinha chamas nele. Não deixou-se intimidar-se por isso, e quando Duke viu que seu plano não iria funcionar, ele tornou a remexer-se, tentando se soltar. – Eu disse pra me largar!

– E o que você planeja fazer caso eu o faça? Tornar a ataca-lo? – fez aquela pergunta ao mesmo tempo em que franziu uma de suas sobrancelhas, deixando bem claro o que pensava daquilo. – Você sabe tão bem quanto eu que isso não vai fazer nada de útil. Na verdade, talvez isso chegue até mesmo a nos prejudicar, e pra quê? Para lhe satisfazer um pouco? – olhou bem nos olhos do homem, sabendo que ia surtir efeito sobre ele assim. O temperamentalismo de Duke era algo problemático e uma desvantagem em certas situações, mas sua real função era de uma faca de dois gumes; ela era tão problemática quanto útil, e supunha que podia usá-la a seu favor ali. – Use sua cabeça, Duke. Você não é estúpido, nem tão pouco egoísta. Pode estar furioso agora, mas eu sei bem que você não vai desperdiçar os esforços de Teigra assim.

Suas palavras surtiram o efeito desejado. Enquanto falava com o Titã, Duke mantinha o seu olhar irado no rosto, parecendo nem sequer ouvir o que Hozar falava, mas bastou que o cavaleiro cinzento mencionasse a questão de Teigra para que esses mesmos olhos se arregalassem subitamente e depois se desviassem, olhando o nada, aparentemente envergonhados demais para voltar a olhar para o rosto de seu companheiro. Perfeito. Isso é bom. Muito bom. Duke tinha problemas no que dizia sentido ao seu emocional, mas isso dito, ele ainda era um dos membros mais poderosos da Era Dourada. Sua guilda estava cheia de pessoas poderosas, mas dentre todos ali, Duke estava em um nível de poder completamente diferente. O poder das outras varia entre o nível de um Terceiro ou Segundo Cavaleiro, mas ele? Ele possui poder no nível do de um Primeiro Cavaleiro. Aquele era um aliado valioso para se ter no campo de batalha... e um bom amigo, também.

– O cachorro está sob controle? – questionou Zenon, aparentemente apenas para provocar. Duke lançou um olhar irado contra o homem, mas dessa vez não fez nenhum movimento para tentar lhe atacar ou algo do tipo. – Hum, muito bem. Então agora talvez possamos conversar de forma adulta e civilizada.

A figura do homem caiu do teto assim que essas palavras foram ditas, caindo sobre o chão na forma de uma massa gosmenta e pegajosa, como se fosse um bocado de lama que havia de alguma forma achado seu caminho até ali. Isso não durou muito; logo a forma dele ganhou consistência, e num piscar de olhos Zenon era novamente um massa de pedra e rocha sólida.

– Vamos começar pela pergunta que você tinha feito antes... ou melhor, a pergunta que você tinha começado a fazer antes que o cachorro lhe interrompesse – disse Zenon, sua feição neutra apesar do óbvio escárnio em sua voz. – A Dama de Ferro é, basicamente, a nossa senhora; a que lidera-nos, os Recipientes, bem como a responsável por nossa própria existência. Em termos, creio que ela seria para nós o equivalente de “mães” para vocês, humanos.

Sabia que não havia nenhuma segunda intenção por trás de pelo menos aquelas palavras em específico, mas ainda assim, simplesmente não pode deixar de se sentir tremendamente irritado com o que ouviu. Ela seria o equivalente de “mães” para nós? Acho que não. De alguma forma, não conseguia pensar que aquela tal de Dama de Ferro fosse tão desprezível assim. Se ela não bate em seus filhos, não os deixa com fome, não expressa bem vocalmente seus desejos de que eles nunca tivessem nascido... então ela não é uma mãe.

– Ela é sua líder, então – disse Hozar, não em uma pergunta, mas em uma afirmação. Aquilo havia ficado bem claro pelo que Zenon havia dito, acima de qualquer dúvida.

– Sim, esse termo cairia bem sobre ela – concordou Zenon, ajeitando óculos. – Ela é nossa líder, sim... e exatamente por isso, não deixaremos que vocês cheguem até ela, invasores.

– Foi por isso que você arranjou tudo isso para que ficássemos seguindo em círculos aqui? – tal como Hozar, Duke não perdeu tempo perguntando se havia sido Zenon o responsável por aquilo, já partindo direto com essa afirmação. Ao contrário do cinzento, no entanto, ele foi bem mais agressivo em suas palavras, deixando claro que, apesar de tudo, ele ainda estava bem irritado. – Bando de covardes... pretendem nos manter aqui até quando?! Venham e nos enfrentem, seus merdas!

– E por que deveríamos fazer isso? – questionou calmamente Zenon, sem demonstrar o menor incômodo diante da provocação de Duke. – Não vejo nenhum benefício em sair para lhes enfrentar, principalmente se podemos lidar com o problema que vocês nos proporcionam de forma muito mais simples. No momento em que vocês entraram nessa mansão, vocês entraram em meu território. Não preciso lhes enfrentar se posso lhes aprisionar aqui por tanto quanto eu quiser.

– Você acha que é capaz de nos aprisionar aqui? – desafiou Duke, batendo um punho pesado em sua mão aberta e estalando o pescoço enquanto encarava aquele homem sem esconder sua irritação. – Há! Não nos subestime, seu pedaço de merda! Eu já sei que existe magia em ação aqui, e eu sou um mago; eventualmente vou achar um meio de desfazer esse seu feitiço! E mesmo que eu não arranje um jeito, não tem problema; se for necessário, tudo que terei de fazer vai ser quebrar todo esse lugar em pedaços! Qualquer que seja o caos, você está cometendo um erro muito grave se acha que algo assim é o suficiente para nos parar. Coloque isso em mente: somos a Era Dourada, e pedaços de merda covardes como você nunca serão capazes de nos deter!

Não deixou de notar os detalhes escondidos naquelas palavras de Duke. “Somos a Era Dourada”? Interessante. Antes, o mais provável era que aquele homem usasse uma frase como “eu sou Duke Graham” ou coisa do tipo para motivar glória pessoal, mas agora ele havia usado a guilda nessa frase ao invés disso. Pode ser que eu esteja apenas pensando demais ou sendo muito otimista aqui, mas gosto de pensar que isso significa que ele está desenvolvendo um bom espírito de grupo aqui. Se fosse realmente o caso, isso era muito bom.

Surpreendentemente, as palavras do Titã também foram o suficiente para fazer com que Zenon ficasse em silêncio, como se elas tivessem realmente lhe afetado. Devia achar aquilo bom, mas por algum motivo não conseguia fazê-lo. Isso está sendo fácil demais. As palavras de Duke haviam sido agressivas e desafiantes, sim, mas não as considerou particularmente profundas ou efetivas o suficiente o suficiente para realmente afetarem seu oponente, principalmente considerando que Zenon parecia ser alguém extremamente frio e racional pelo que havia mostrado até então. Isso é estranho. Não gosto nada disso.

– Verdade seja dita, eu devo dizer que também não gosto tanto realmente de manter vocês aqui, correndo estupidamente por aí. – começou subitamente Zenon, surpreendendo todos ali com suas palavras e o tom de voz que ele usava ao dizê-las; sua voz ainda tinha traços da arrogância e seriedade de antes, mas ao mesmo tempo, mas ao mesmo tempo ele passava também a impressão nela de que havia contemplado as palavras de Duke e via ao menos algum senso nela. Isso foi o suficiente para que Hozar tivesse praticamente certeza de que realmente tinha algo errado ali. – Por mais que seja divertido ver vocês correndo como formigas tontas, isso fica logo entediante, e não é realmente tão efetivo quanto poderia ser. Manter todos vocês aqui eternamente é inviável, por exemplo. Esperar que vocês morram de fome ou algo do tipo é inconcebível; gastaria tempo demais, energia demais e, francamente, seria simplesmente desnecessário considerando que posso lidar com ambos sem dificuldades. – uma de suas mãos ergueu-se levemente, apontando para a porta do outro lado do corredor. – Sigam pela porta uma última vez. Não se preocupem, dessa vez vocês não irão voltar ao inicio desse corredor de novo. Passem por essa porta, e então iremos nos enfrentar.

Abriu a boca para questioná-lo sobre aquilo, mas não teve nem sequer a chance de fazer isso. Antes que pudesse dizer uma única palavra, a massa que formava a figura dele subitamente tornou-se líquida, escorrendo para o chão como se fosse água marrom. Isso está errado. Muito errado. Não gostava nem um pouco daquilo; para aquele homem mudar subitamente de opinião assim, ele tinha de ter algum tipo de plano ou armadilha preparada contra eles, e nunca era uma boa ideia caminhar para a armadilha de um oponente.

No entanto, Duke não parecia pensar da mesma forma que ele, e se pensava, não parecia realmente se importar. O homem não demorou a começar a caminhar em direção a porta, necessitando que Hozar o parasse novamente segurando seu ombro. Dessa vez o Titã não se debateu, no entanto; limitou-se a olhar para Hozar, e mesmo assim, não tinha hostilidade em seus olhos.

– Poupe suas palavras, Hozar – advertiu ele antes de tudo, falando com calma e segurança. – Eu sei o que você dizer, e eu concordo com isso. Tudo isso aqui está bem estranho; estamos obviamente caminhando em direção a uma armadilha. Eu sei bem disso. No entanto, não é como se tivéssemos escolha. Ficar aqui parados não vai nos levar a lugar nenhum, vai? Temos de seguir em frente, mesmo que isso signifique que iremos cair em uma armadilha.

Aquilo lhe surpreendeu um pouco; não esperava que Duke tivesse chegado à mesma conclusão que ele, mas, ao mesmo tempo, isso era bem útil. Se Duke chegou a mesma conclusão que eu, isso significa que ele pensa da mesma forma que eu. Isso adiantava as coisas.

– Esse é realmente um ponto que temos de considerar – concordou Hozar, acenando com a cabeça – no entanto, não é só por causa disso que devemos ser descuidados. Você é um mago, como você mesmo lembrou antes, e você mesmo apontou que tem magia em trabalho aqui. Sendo assim, não seria de se estranhar que magia fosse usada também nessa armadilha. Talvez você seja capaz de-

– Talvez eu seja capaz de anular essa magia ou contra atacá-la de alguma forma? – completou Duke, a sombra de uma gargalhada seca presente em sua voz. – Eu pensei nisso também, Hozar... mas não vai acontecer, lhe digo isso. Sou um mago, é verdade, mas a magia desse tal de Zenon está em um ponto além do que eu posso lidar. Prova disso é que eu não fui capaz de notar a magia que agia ao nosso redor nesse corredor.

– Você estava irritado – apontou Hozar. – É normal que você não preste atenção à coisas assim nessa situação.

– Talvez – concedeu Duke, sem parecer muito convencido – mas mesmo assim, isso não explica o fato de eu não ter sentido essa magia em ação mesmo depois de ter me acalmado. Nesse mesmo momento eu posso lhe dizer que não sinto nada ao nosso redor. Eu sei que existe magia agindo ao nosso redor, mas eu não a sinto. Isso não deveria acontecer. Se isso está acontecendo, isso significa que a magia desse homem é diferente o suficiente para que eu não consiga nota-la ou em um nível tão acima do meu que ela consegue estar ativa ao meu redor e eu não a notarei. Qualquer que seja o caso, o fato é que isso significa que eu não serei capaz de lidar com a magia dele, mesmo que eu saiba que ela vai estar em ação. E isso tudo é partindo do pressuposto que ele usará magia nessa armadilha, o que em si não é uma certeza.

... Droga, existe razão no que ele fala. Por uma vez gostaria que Duke estivesse sendo apenas apressado ou coisa do tipo. Que irônico. O momento em que ele fala algo absolutamente correto e importante é também o momento em que ele me dá uma péssima notícia que joga o plano que eu tinha em mente no lixo. Duke suspirou, e por algum motivo Hozar teve a impressão de que ele sabia o que se passava em sua mente quando fez isso, e compartilhava com sua frustração.

– Vamos andando, cinzento – disse ele, libertando-se da mão de Hozar e seguindo em frente, ambas as mãos sobre os bolsos de forma preguiçosa e complacente. – Não podemos demorar muito aqui. Não queremos dar ao nosso inimigo a chance de mudar de ideia, certo? Não depois de todo o trabalho que ele teve em preparar essa armadilha para nós.

Não estava nem um pouco satisfeito com a situação que tinha em mãos. Isso é mal. As chances de que as coisas deem errado são absurdas. No entanto, o que Duke havia falado era verdade; eles simplesmente não tinham muita opção. Não podemos nos dar ao luxo de recuar agora, não podemos recusar essa oferta. Tal como Duke disse, andar direto pra uma armadilha ainda consegue ser melhor do que ficarmos parados aqui sem fazer progresso algum. Foi por isso que, mesmo não estando a vontade com aquilo, seguiu Duke até a porta.

Tal como Zenon havia falado, dessa vez quando eles abriram a porta não deram imediatamente de cara com outro corredor, mas sim com uma sala completamente dela. Uma sala espaçosa, bem iluminada, com um estilo nobre e refinado que lembrava o que você esperaria encontrar nos salões da mansão de algum tipo de rei ou coisa do tipo. Uma escadaria dupla levava ao segundo andar, com tapetes vermelhos cobrindo seus degraus e corrimões que pareciam ser de ouro (embora chutasse que eram de latão). A lateral da sala estava coberta de armaduras de ferro de cavaleiros, e pelos modelos que via ali era fácil para Hozar dizer que elas eram bem antigas, com pelo menos um século de existência, embora estivessem conservadas de uma forma extremamente eficaz, sem uma única mancha de ferrugem nelas. Acima dos dois e no centro daquela sala, um candelabro balançava de forma perturbadora, pra frente e para trás, rangendo a cada movimento.

Mas não foi a sala em si que chamou a atenção deles, mas sim o fato de que ela estava completamente vazia. Ou ao menos, foi isso que eles pensaram em um primeiro momento.

Foi Duke que reagiu quando o inimigo saltou sobre eles, sendo naturalmente o mais ágil dos dois e aquele com os melhores reflexos. Revestiu sua mão humana com o mesmo aço de seu outro braço, e com ambas as mãos ele segurou duas grandes espadas que o inimigo brandiu contra ele. A criatura era monstruosa; com pelo menos dois metros e vinte de altura, aquilo parecia ser uma grande escultura feita de alguma estranha massa branca, embora seus movimentos negassem isso. Não tinha olhos propriamente ditos, mas sim o que pareciam ser seis espaços de viseiras em seu rosto, três na parte direita e três na parte esquerda dele, cada um deles brilhando em uma coloração vermelha de forma ameaçadora. A... criatura tinha quatro braços, dois superiores e dois inferiores, e usava duas mãos para mover cada uma de suas espadas – grandes pedaços de aço e ferro cinzentos, grossos e pesados de uma forma que fazia parecer que elas eram pouco mais do que grandes blocos de ferro que ganharam uma lâmina e foram denominados como armas. Dizer que aquele monstro tinha qualquer coisa de humano era algo que Hozar não iria fazer; isso seria simplesmente absurdo.

– Ei, ei, ei! – disse Duke entre dentes, esforçando-se para manter as armas daquele monstro distante deles. Pelo que se lembrava, Duke era um homem muito forte, o segundo mais forte fisicamente da Era Dourada atrás apenas de Hozar. Se ele estava tendo dificuldades para manter aquele homem longe dele, isso era apenas um testamento de que seu oponente não era alguém que eles deviam subestimar. – Eu estou bem certo de que você não é Zenon! Aonde raios está aquele covarde.

– Temo que Zenon nunca se moveria para lidar com formigas como vocês – respondeu uma outra voz, diferente da de qualquer um ali e ao mesmo tempo calma e controlada demais para pertencer àquele monstro. Sentiu a presença dela apenas por um momento, tendo de virar-se rapidamente para reagir a tempo. Sua mão direita segurou a mão de seu oponente no último instante; um segundo mais tarde e seu rosto teria sido dilacerado. Teve uma excelente visão da adaga que o inimigo trazia, uma arma de desenho inconstante e cruel, vermelha como sangue, e talvez teve uma ótima visão de quem era seu oponente. Ao contrário do monstro, ele tinha uma forma humana, talvez a mais humana dentre as de todos que viram ali, por exceção de Kat. Seu físico era franzino, pequeno e fraco, algo totalmente diferente do que você esperaria de um guerreiro, mas ainda assim ele tinha força o suficiente para que o próprio Hozar se sentisse pressionado por aquele ataque. Tinha vários fios finos de cabelo, cada um deles tão vermelho quanto sua adaga, espalhados de forma desordenada ali, encobrindo um dos olhos dele. O outro que Hozar podia ver era completamente dourado, sem pupila nem nada, e isso somado ao sorriso insano que ele trazia fazia um excelente trabalho em fazer com que aquele homem parecesse um assassino em série louco ou coisa do tipo. – Zenon não se dá ao trabalho de lidar com insetos, e além do mais, ele não é egoísta. Vocês são nossos, meu caro amigo!

No que disse isso, algo mudou. Seus corpo era extremamente branco – uma semelhança que Hozar havia notado entre todos aqueles “Recipientes” até então – mas no momento em que aquelas palavras foram ditas ele se tornou vermelho, e a força que o homem tinha pareceu triplicar-se. O aumento súbito foi o suficiente para que Hozar quase perdesse sua guarda ali, sentindo o chão abaixo de si ceder em uma pequena cratera devido à grande pressão que o homem exercia sobre ele, o olho visível de seu oponente passando de dourado para um verde brilhante como que para simbolizar sua mudança. As feições do Recipiente que estava enfrentando haviam se tornado “extremas”, animalescas como as de uma besta enlouquecida, e se Hozar não tivesse os nervos que tinha, ele provavelmente estaria completamente aterrorizado por aquilo. Esse aumento de força, essas feições... essa habilidade até lembra um pouco o MACH 5 de Kastor, embora eu duvide que ela proporcione o aumento de velocidade que aquele idiota ganha com isso. Aquela era a única coisa boa que conseguia ver em toda a situação diante de si. Se a velocidade dele fosse a mesma de Kastor, eu estaria com sérios problemas aqui.

Seu punho livre moveu-se com rapidez, pegando seu oponente de surpresa com um poderoso soco direto no rosto dele, arremessando para longe com brutalidade. Fez isso praticamente ao mesmo tempo que viu o monstro que havia atacado Duke sendo lançado por cima de sua cabeça, um sinal de que o Titã tinha tido a mesma ideia que ele. Nenhum dos dois inimigos deixou-se abalar com aquilo, entretanto. O monstro cravou ambas as suas “espadas” no chão com força, fazendo com que elas se arrastassem enquanto fincadas nele, abrindo consideráveis crateras ali e espalhando rocha dura por todos os cantos, enquanto que o oponente de Hozar simplesmente girou no ar, com graça e habilidade. Pararam e aterrissaram um do lado outro e voltaram-se ambos para fitar os membros da Era Dourada, ao mesmo tempo em que Hozar sentiu a aproximação de Duke e olhou de canto de olho para ver o antigo mercenário ao seu lado.

– Miseráveis... – rugiu Duke, irritado, mostrando seus dentes da mesma forma que um animal mostrava suas presas. – Eu não tenho interesse em chutar a bunda de merdas como vocês! Aonde está o covarde que vocês chamam de Zenon?! Tragam-no aqui para que eu possa estraçalha-lo!

– Não ouviu o que eu disse antes, meu rapaz? – murmurou o homem dentre os dois, erguendo levemente uma sobrancelha. – Zenon não vai vir. Ele não tem tempo para desperdiçar com crianças como vocês, e falando francamente, nunca foi parte de seus planos lutar com vocês. Veja bem, quando ele disse “iremos nos enfrentar”, ele não estava dizendo que vocês iam enfrentar a ele, mas sim que vocês iriam enfrentar Recipientes: eu e Eon.

– Você tem de estar de sacanagem comigo... – a expressão no rosto de Duke já deixava bem claro que ele não estava nem um pouco satisfeito com o que havia acabado de ouvir, mas mesmo assim o Titã não teve vergonha nenhuma de expressar vocalmente a sua ira. – Vocês estão me dizendo que aquele merda é covarde o suficiente para correr da gente e mandar seus servos nos atacar?! Isso é palhaçada! Eu vou partir esse filho-da-puta em pedaços!

– Para isso, você primeiro teria de passar por nós, esquentadinho – retrucou o homem, sorrindo de forma irritante, exibindo um ar triunfante e superior que deixava claro que um dos seus grandes problemas era a arrogância. – E deixe-me adiantar um pouco as coisas; enquanto eu e Eon estivermos aqui, você não vai passar.

O rosto de Duke estava transformado em pouco mais do que uma manifestação de pura fúria, chegando a preocupar Hozar por alguns momentos com a possibilidade de que seu companheiro voltasse a fazer alguma coisa estúpida novamente... mas surpreendentemente, o que Duke fez foi sorrir. Em um instante toda a raiva, a agressividade e a hostilidade contida no olhar de Duke desapareceu. Estranhou aquilo por um momento, mas sua dúvida não durou por muito tempo.

– Realmente... você tem alguma razão no que fala; eu não vou passar. – os passos de Duke ressoaram pelo ambiente, o Titã avançando diretamente contra ambos os seus oponentes sem demonstrar medo ou hesitação em momento algum. – Digam-me... vocês tem ideia de com quantos componentes estamos em contato diariamente? No solo abaixo de nós, na água que bebemos, no ar que nos cerca... até mesmo em nosso próprio corpo. Estamos sempre cercados por diversos componentes, cada um deles com um milhão de utilidades diferentes.

– Muito interessante – murmurou o homem, a feição em seu rosto passado a impressão de que ele não achava aquilo particularmente interessante. – Agora, qual o seu ponto?

– Mas você sabe qual é o meu favorito entre todos esses componentes? – continuou Duke, ignorando a pergunta do homem enquanto abria um sorriso de orelha a orelha em seu rosto, inclinando-se para frente. – Carbono. Um elemento tão útil e tão fácil de se encontrar! Um elemento bem versátil, também. Posso usá-lo de milhares de formas diferentes, cada uma delas mais útil que a outra.

À frente deles, os Recipientes trocaram um olhar, como se estivessem se perguntando do que exatamente Duke estava falando. Hozar queria saber mais do que eles ali, mas nem mesmo o cavaleiro cinzento conseguia tirar muito sentido do que Duke estava falando ultimamente. Por fim, pareceu que os dois oponentes diante deles simplesmente perderam toda a paciência que tinham: ambos avançaram contra Duke sem se importar mais com o que ele falava, brandindo as gigantescas espadas e a adaga vermelha. Preparou-se para avançar também em apoio ao seu companheiro ao ver aquilo, mas algo na postura de Duke fez com que mudasse de ideia. Ele está... relaxado. Mesmo com os inimigos avançando diretamente contra ele, Duke estava completamente relaxado, sem demonstrar o menor sinal de preocupação com aquilo. Seus braços se abriram, como se ele estivesse oferecendo seu corpo como um alvo para os ataques de seu inimigo, e seu discurso prosseguiu de uma forma que deixava claro que aquilo não o alterava.

– Minha magia se chama Metamorfose. Uso ela para retirar propriedades dos materiais que toco e incorporá-las ao meu corpo. Tiro a fluidez da água, tiro a elasticidade do plástico, tiro a dureza da pedra. E recentemente eu aprendi outra coisa diferente sobre os meus poderes, sabiam? Eu aprendi que, se eu posso retirar propriedades dos materiais, eu também posso alterar as propriedades desses mesmos materiais, e se o toque, ou seja, o contato, é o que eu uso para poder usar meu poder sobre esses materiais em primeiro lugar, então eu posso manipular tudo que estiver em contato com meu corpo, o que inclui o meu próprio corpo! – os oponentes deles não pareceram se importar com aquilo, seu avanço desafetado por aquelas palavras, mas tampouco Duke pareceu se preocupar com isso. Na ponta dos dedos de Duke, por um único instante, pensou ter visto algum tipo de cristal brilhar, e antes que pudesse raciocinar melhor sobre isso um brilho forte e claro veio de Duke, de todo o corpo de Duke, forçando-o a fechar seus olhos por um momento.

Quando voltou a abri-los, a cena que tinha diante de seu rosto era completamente diferente da anterior. Aparentemente os dois Recipientes haviam realizado seus ataques, e aparentemente esses ataques haviam atingido em cheio, mas isso havia feito pouco para torna-los mais eficazes. As espadas, a adaga... todas as armas que chocaram-se com o Titã foram quebradas em pedaço, o que fazia com que aqueles dois estivessem com as feições incrédulas que tinham em seus rostos naquele momento. O próprio Hozar não era exceção a isso, no entanto; nem mesmo ele podia acreditar realmente no que estava vendo ali. Isso... não deveria ser possível.

O corpo de Duke não lembrava nada sequer levemente similar ao de um humano naquele momento. Sua camisa e calça estavam destruídas naquele momento, inúmeros buracos presentes nelas devido aos cristais que haviam surgido do corpo do Titã, reluzindo de forma alucinante, refletindo belamente a luz daquele ambiente. Duke parecia ser constituído de nada mais do que aqueles cristais naquele momento; seus braços, seus dedos, seu peito, suas orelhas, lábios, até mesmo seus olhos – todo o seu corpo parecia ter se tornado parte daquele cristais, e uma couraça deles também envolvia sua cabeça na área aonde normalmente ficaria seu cabelo, servindo como uma espécie estranha de couraça. Isso por si só já era algo interessante e surpreendente, mas Hozar sabia do que se tratava tudo aquilo, e isso só fez com que ele ficasse ainda abismado. É por isso que ele estava falando sobre carbono antes! Duke, seu maldito, eu sabia que você era forte, mas não sabia que você tinha chegado a esse nível. Antes Duke tinha o nível de um Primeiro Cavaleiro, mas agora isso havia mudado. Com aquele poder, o nível do Titã era no mínimo o de um ascendente.

Metamorfose: Titã de Diamante. – anunciou o guerreiro, tirando um claro prazer imenso em ver as feições de seus oponentes. Por um momento pareceu a Hozar que ele iria parar um pouco para rir deles, mas ao invés disso o que Duke fez foi golpear diretamente o rosto do monstro entre eles, esmagando-o em pedaços instantaneamente com seu golpe e arremessando seu corpo até o outro lado da sala com facilidade. – Deixe-me adiantar uma coisa pra vocês, seus miseráveis: diamante é um dos materiais mais duros que existe em nosso mundo. Não importa o quanto vocês tentem, vocês não irão ser capazes de sequer me arranhar.

Seus olhos voltaram-se para o homem que havia restado, e assim que viu que ele era o que estava agora na mira de Graham esse não perdeu tempo em saltar rapidamente para trás, criando distância de seu oponente, seu rosto incapaz de mentir, incapaz de ocultar o medo que ele sentia. Infelizmente para ele, Duke era tão rápido quanto resistente, e a distância que ele havia criado não era nem de longe o suficiente para lhe deixar seguro. Os movimentos de Duke foram um pouco mais lentos devido ao diamante que cobria seu corpo, mas ainda assim foram rápidos o suficiente para que seu oponente não notasse sua aproximação até que ele estivesse bem atrás dele. Quando enfim o fez, o homem tentou erguer um de seus braços para tentar bloquear o ataque, mas já era tarde demais; o chute de Duke lhe atingiu em cheio, golpeando-lhe com tanta força que o braço que ele tentou usar como escudo literalmente se quebrou no meio, arremessando o homem com facilidade para a parede do outro lado da sala e até mesmo além dela, pelo que Hozar foi capaz de ver.

A postura de Duke pareceu relaxar um pouco mais ao ouvir aquilo. Seu corpo virou-se em direção a Hozar, tomando um momento em silêncio olhando em direção a ele como se estivesse tentando identifica-lo, e não demorou para que Hozar compreendesse o motivo de tamanha dificuldade. Todo o corpo dele está revestido por diamantes nesse momento. Sendo assim, não é de se estranhar a possibilidade que esses diamantes estejam de alguma forma atrapalhando a visão dele. Aparentemente aquela habilidade era tal como a personalidade de Duke; uma faca de dois gumes. Por mais que o uso dessa habilidade conceda a Duke uma defesa quase que perfeita, ela aparentemente também reduz coisas importantes como sua visibilidade ou sua velocidade, e talvez até mesmo algumas outras coisas das quais não tenho ideia no momento. Aquilo era algo preocupante... mas pela forma como Duke ergueu sua mão para apontar ao cinzento, estava convencido de que ele não estava preocupado com isso.

– Ei, Hozar! – disse ele, apontando com seu polegar para o caminho atrás dele, as escadas que levavam ao segundo andar. – Vá em frente você. Eu te alcanço mais tarde.

Aquelas palavras deveriam lhe pegar de surpresa, ele sentia, mas não o fizeram. Eu já imaginava isso. No momento em que vi Duke começar a agir, eu já imaginava que ele tinha um plano como esse em mente. O que não fazia com que ele se sentisse confortável com aquilo. Havia sido uma coisa deixar Teigra para trás – ela era esperta e capaz, e lidava com apenas um inimigo – mas Duke estava com dois inimigos ali, e além do mais, o “Titã de Diamante” dele já havia mostrado alguns pontos fracos aos olhos de Hozar, ainda que a capacidade defensiva dele fosse verdadeiramente impressionante.

– Você tem certeza disso? – questionou o cinzento, lançando olhares nas direções em que foram arremessados os dois Recipientes de antes. Normalmente não se preocuparia com o inimigo depois desse ter sido atingido por golpes tão poderosos quanto aqueles, mas já havia enfrentado Kat antes, e havia presenciado em primeira mão as absurdas capacidades regenerativas da mulher. Não tinha motivos para acreditar que o mesmo não valia para aqueles dois.

– Com base no que já vi, esses dois devem se levantar de novo em breve – disse Duke, sem olhar para eles, mas ainda assim assumindo uma postura um pouco mais séria e defensiva com seu corpo enquanto falava. – Não sei como matar permanentemente essas coisas. Não sei nem se é possível fazer isso, em primeiro lugar. E não podemos ficar perdendo tempo aqui. Eu sou o mais resistente de nós, e com meu corpo revestido por diamantes, o inimigo não pode me fazer um arranhão. Sou de longe a pessoa mais indicada para sustentar uma luta com eles aqui. Então, enquanto eu faço isso, você vai em frente e corta a cabeça da serpente.

– Você fala como se eu fosse conseguir seguir em frente – retrucou Hozar. – Lembra-se de Zenon? Ele havia manipulado o corredor para que ficássemos seguindo em círculos por ele, e ele não está aqui pelo que eu sei. Nada o impede de fazer com que eu siga em círculos aqui também.

– Bom, se for esse o caso você simplesmente dá um jeito de alguma forma – declarou Duke, dando de ombros e assumindo uma postura que deixava claro que ele não iria mais discutir aquilo. – Eu não posso solucionar esses problemas, Hozar, mas eu posso lhe apontar os fatos; você tem de seguir em frente, e eu tenho de segurar esses oponentes aqui. Você é o braço direito de Kastor, certo? Você vai dar um jeito nisso.

Mal conseguiu acreditar naquelas palavras. Ele realmente acha que eu posso simplesmente tirar uma solução do ar para problemas como esse? Aquilo era absurdo... embora, pra ser sincero, ele também não conseguisse deixar de se sentir um pouco lisonjeado pela confiança que Duke estava depositando sobre ele. Eu entendo que Teigra escolha ficar pra trás para que eu possa seguir em frente – ela sempre foi a mais racional de nós – mas Duke? Aparentemente, as observações que havia tido durante todo aquele trajeto não eram apenas fruto da sua imaginação em ação. Aparentemente, Duke tem um bom espírito de equipe escondido por baixo de toda a arrogância, egocentrismo e fanfarronice.

Não desperdiçou mais tempo tentando discutir sobre aquilo. Sem pensar duas vezes ele começou a correr, passando ao lado de Duke e vendo claramente o sorriso que surgiu no rosto do Titã quando esse viu Eon começar a se erguer dos destroços, seu corpo completamente recuperado do ferimento que Duke havia lhe causado. Quando subiu as escadas ele já podia ouvir os sons da luta, os gritos de guerra de Duke e o som de várias coisas sendo quebradas. Nem sequer olhou pra trás. Olhar pra trás seria um insulto a Duke. Ele quer que eu siga em frente e deixe esses dois por conta dele, e é exatamente isso que eu planejo fazer. Toda a sua preocupação e foco devia ir para seguir em frente e por um fim a tal de “Dama de Ferro”, não importa o que tivesse de fazer pra tal.

Avançou direto em direção as portas duplas do segundo andar, e enquanto corria sua mente trabalhava em algum tipo de plano para o caso da situação se complicar. Essas portas deveriam permitir que eu siga em frente, mas francamente, é simplesmente impossível dizer se vai ser esse o caso ou não agora. Aparentemente, Zenon podia influenciar de alguma forma na estrutura daquela mansão, e isso significava que, pelo que sabia, ele podia muito bem voltar para a entrada assim que passasse pelas portas. Mas não é como se eu pudesse fazer alguma coisa contra isso. Não gostava nem um pouco daquilo, mas não tinha nenhum forma de contra-atacar a habilidade daquele homem e nem sequer uma ideia do que deveria fazer para lidar com ela; por mais que não gostasse nada disso, havia pouco que ele podia fazer além de esperar que conseguisse seguir em frente.

Quando aproximou-se o suficiente, fechou os olhos, preparou-se mentalmente para acabar voltando ao início de toda a mansão e avançou por entre as portas com uma ombrada.

Mal pode conter sua surpresa quando abriu os olhos e viu que não era esse o caso. Por um momento pensou que o corredor no qual se encontrava deveria ser o mesmo de antes, mas logo viu que não; a estrutura dele era diferente do anterior, e mais importante que isso, o buraco que ele havia feito na parede encontrava-se ausente nesse. O que aconteceu? Por que eu não voltei? Não fazia sentido, nada daquilo. De acordo com o que havia entendido, Zenon devia ter lhe impedido de avançar, mas isso simplesmente não aconteceu.

... Bom, eu não vou questionar isso, decidiu mentalmente Hozar, e sem parar mais pra ficar pensando naquilo, pôs-se a correr novamente.

=====

Rangeu seus dentes com força, frustrado pelo que via diante de seus olhos. Eon. Valak. O que vocês dois pensam que estão fazendo?! Aqueles dois deveriam ser mais do que o suficiente para lidar com os invasores, mas o que estava vendo ali era uma demonstração digna de pena; um único intruso havia destruído-lhes por completo, brincado com os Recipientes da forma como bem queria, e ele agora falava calmamente com o segundo para que esse seguisse em frente. Isso é patético, pior que patético. Aparentemente havia superestimado demais as habilidades de seus companheiros. Isso é devido ao tempo que eles passaram longe das lutas? Ou será que eles simplesmente sempre foram tão fracos assim? Não sabia qual era o caso, mas não se importava. Eles podem se regenerar, o que significa que não importa o quanto eles apanhem, eles ainda devem ser capazes de ganharem no fim simplesmente por uma questão de resistência. Depois que isso acontecesse, iria fazer questão de falar pessoalmente com eles e discipliná-los para que uma demonstração como aquela nunca voltasse a se repetir. Tudo que preciso fazer é mantê-los nessa sala. O homem de diamante pode dizer o que quiser, mas nunca irei deixar que o cavaleiro sai-

Seus pensamentos foram interrompidos quando seu corpo foi subitamente empurrado para frente, ao mesmo tempo em que teve a estranha sensação de que algo estava sendo forçado contra ele por trás. Abaixou seu rosto, e no momento em que fez isso ele pode ver o buraco em seu peito, do qual saia a ponta de uma lança.

Virou imediatamente seu rosto para trás sem pensar duas vezes, e exatamente por isso conseguiu ter uma boa visão do causador daquilo. Um homem robusto de pele queimada pelo sol, cabelos negros cortados muito curtos e barba negra cerrada estava ali, olhando para Zenon com uma de suas espessas sobrancelhas erguidas e um branco sorriso amarelo levemente surgindo em seu rosto. Usava uma faixa na cabeça, couraça quadrada sobre o peito, bem como ombreiras e braçadeiras leves. Uma blusa preta estava por baixo da couraça, e da mesma forma, as calças largas dele estavam presas nas botas. Em suas costas ele trazia o que parecia ser um grande estudo retangular preso por duas tiras de couro, e em suas mãos ele trazia a lança que havia perfurado Zenon, ainda presa ao corpo do Recipiente.

Seus olhos se afiaram, fitando diretamente dentro da alma daquele verme. Ao mesmo tempo, o que o homem fez foi retirar uma das mãos de sua lança e erguê-la levemente, acenando para Zenon com o sorriso amarelo brilhando em seu rosto.

– Oi! – disse ele, com uma alegria forçada e uma jovialidade falsa em sua voz. – Você... meio que deveria estar morto agora, sabe?

Não deu resposta a isso. Ao invés disso, o que fez foi esticar uma de suas mãos, alcançando com ela um vaso de ferro na sua lateral. Seu toque foi o suficiente para que sua mágica começasse a agir, e quase que imediatamente o vaso se transformou em uma espada longa e afiada. Uma espada que Zenon não perdeu tempo em usar; virou-se de uma vez, movendo sua arma com a intenção de decapitar o homem com um único golpe.

Infelizmente, seu oponente tinha reflexos melhores do que esperava. A lança saiu de seu corpo com uma enorme rapidez, e quando seu golpe chegou ao ponto aonde seu oponente antes estava este já havia há muito saltado para trás, criando uma certa distância entre os dois. Virou-se totalmente em direção a ele e concertou sua postura, mantendo uma pose que lhe permitia contra-atacar rapidamente ao mesmo tempo em que exalava superioridade. Essa era uma das coisas que havia aprendido com o passar dos anos. Vocês, humanos, são seres muito estranhos. São dotados do maior intelecto por natureza, tendo uma mente que lhes põe acima de todos os animais, mas ainda assim, você insistem em serem estúpidos. Zenon sempre mantinha o pensamento racional como o senhor absoluto de suas ações; cada movimento dele era um movimento calculado e preciso, sem se deixar levar por emoções passageiras. Se não fosse, eu teria interrompido a luta daqueles dois ao ver aquele desempenho patético, ou me intrometido na luta de Kat quando ela começou a fazer besteira. No entanto, por algum motivo os humanos não eram iguais a ele. Por algum motivo, humanos sempre deixavam que sentimentos dominassem suas ações. Esperança, raiva, amor, compaixão, inveja, desespero... esses sentimentos não faziam nada mais do que atrapalhar, do que obstruir o caminho que eles queriam seguir, mas mesmo assim os humanos não paravam de deixar-se levar por eles. É por isso que uso esses mesmos sentimentos ao seu favor. Era incrível como simplesmente exalar um pouco de superioridade era o suficiente para fazer com que a maioria dos humanos perdesse a cabeça e tentasse lhe atacar de forma estúpida.

Mas não foi esse o caso com aquele homem. A maioria dos humanos já teria lhe atacado a essa altura, mas seu oponente permanecia parado, lhe observando, girando sua lança com uma de suas mãos. Sua postura parecia relaxada a quem quer que lhe olhasse, mas Zenon era esperto demais para cair nisso; por mais aberta que sua postura parecesse, sua guarda estava erguida. Se eu tentasse lhe atacar agora, ele simplesmente iria contra-atacar. Preciso pensar em alguma coisa, alguma forma de passar pelas defesas dele.

– Estou surpreso – disse Zenon em tom neutro. Não tinha nenhum interesse em falar durante lutas, mas naquela situação, essa era uma boa ideia. Palavras podem distrair pessoas, e isso é muito útil em combate. Se tivesse sorte, conseguiria distrair Zenon o suficiente com aquilo para fazer com que o homem abaixasse a guarda o suficiente para que se aproveitasse disso, e mesmo se não fosse capaz de fazer isso, aquilo lhe dava tempo o suficiente para que corresse os olhos pelo ambiente e bolasse uma estratégia. – Meus reflexos são bons, tal como chão meus instintos. Mais do que isso, essa mansão é meu território. Que alguém como você tenha conseguido de alguma forma adentrar despercebido e me atingir por trás... como você conseguiu tal façanha, eu me pergunto?

A primeira coisa que sua olhadela rápida captou era que a sala era escura, o que, francamente, não era fora do comum. Não tinha janelas ali, o que fazia com que a iluminação fosse completamente dependente de velas espalhadas pelos cantos, e isso fazia com que uma cortina negra cobrisse a maior parte da sala. Isso é bom. Considerando a forma como havia manifestado seus poderes anteriormente, não restava dúvidas de que seu oponente tinha ao menos uma ideia de como ele funcionava... o que fazia com que aquela cortina servisse bem par encobrir os diversos Recipientes espalhados por ali, todos pronto para uso de Zenon. Se eu tivesse de dizer qual foi o maior erro dele, diria que foi ter escolhido me enfrentar no meu quarto.

– Um bom mago nunca revela seus truques – respondeu o homem, sorrindo, embora não conseguisse disfarçar um pouco de nervosismo em suas feições. Aparentemente, ele realmente não contava em sequer estar tendo aquela conversa. – E, bem, eu não sou um mago, mas acho que o princípio também se aplicar a mim. Sinto muito, mas isso é algo que você vai ter de descobrir por si mesmo.

“Um bom mago nunca revela seus truques”... será que isso significa que foi um mago o responsável por isso? Supunha que essa era uma hipótese considerável. Tinha olhos por toda a mansão, mas só conseguia acompanhar uma determinada coisa por vezes, e seu foco e atenção estavam voltados para os invasores antes. Talvez ele esteja acompanhado por um mago, usando das habilidades deste para deslocar-se pela mansão sem que eu descobrisse. Isso, no entanto, não era certeza. Pode realmente ser esse o caso, mas a possibilidade de que ele tenha simplesmente se esgueirado de forma cuidadosa também é bem real. Ele teria de cronometrar sua entrada de acordo com as ações dos invasores para passar despercebido, bem coo teria de mover-se tanto rápida quanto sorrateiramente, mas isso era possível. Na verdade... considerando que ele está me atacando diretamente e que isso está acontecendo bem quando os invasores estão atacando... ele está relacionado a eles? Supunha que essa era uma possibilidade, mas por algum motivo, não conseguia pensar que era realmente esse o caso.

– Muito bem, eu irei fazer isso então – retrucou calmamente Zenon, dando um passo à frente. – Mas apenas depois que eu tiver lhe cortado em pedaços.

=====

A cabeça de Annie estava apoiada no encosto de seu sofá, relaxada, em repouso. Seus olhos estavam fechados e seu rosto tinha uma expressão pacífica, tranquila. Em seus oitenta anos, foram poucas as vezes em que Annie teve uma expressão tão relaxada como aquela. E todas as vezes em que isso aconteceu, isso era apenas uma máscara; a expressão relaxada em seu rosto escondia o quão afiada estava sua mente.

Aquela situação não era uma exceção.

– Quanto tempo pretende ficar esperando, jovem moça? – perguntou ela, em alto e bom som, não se dando ao trabalho de nem sequer abrir seus olhos; sabia que a garota estava ali, e de qualquer forma, não precisava estar de olhos abertos para saber aonde ela estava. – Pensei que você atacaria uma vez que eu demonstrasse estar com a guarda tão aberta assim, mas você apenas continua ai... esperando... aguardando. Toda essa espera não me deixa mais jovem, sabia?

Por longos instantes ela não teve resposta. Não se incomodou com isso. A pobre jovem provavelmente está pensando no que fazer, se ela se mostra ou tenta permanecer oculta. Sabia bem que era esse o pensamento que devia estar passando por sua mente. E, francamente, tinha até que algum interesse nele. Se essa garota se mostrar, brinco um pouco com ela. Do contrário, mato-a de uma vez. Não tinha paciência para lidar com covardes.

– Você fala como se eu devesse ter lhe atacado ao ver essa sua postura – comentou uma voz jovem e bela, o suficiente para que Annie tivesse a certeza de que a garota que estava tentando lhe matar era alguém com alguma vida dentro de si. Que bom. Sempre achei aquelas assassinas metidas a não terem emoção terrivelmente entediantes. – Eu não sou cega nem burra, sabia? Você pode dizer o contrário, mas eu vi que você nunca abaixou a guarda. Você tentava parecer relaxada, mas na verdade você estava sempre atenta, alertar, esperando... a sua confirmação agora de que você sabia que eu estava aqui explica muito bem isso.

Aquilo quase fez com que um sorriso viesse aos seus lábios em puro divertimento. Uma garota esperta e divertida! Ah, tirei a sorte grande com essa assassina! Esse era o tipo de garota que ela mais gostava de matar.

– Me diga, criança – começou ela, calmamente. – Você se importaria em me dizer quem foi que lhe pagou para me matar?

– Obviamente – respondeu a garota. – Eu seria uma péssima mercenária se saísse por ai dando informações sobre meu contratador, principalmente se para pessoas como você. Além do mais, com todo o respeito, mas eu fui paga para lhe matar, não pra conversar com você.

– Verdade, verdade... – concordou Annie, virando subitamente seu rosto na direção da mercenária. Tal como havia imaginado pela voz dela, aquela era uma linda garota, com belos cabelos negros e um corpo claramente muito bem definido, apesar dela aparentemente tentar escondê-lo com roupas largas. Pobre garota. Ela esconde seu corpo quando deveria mostra-lo. Um corpo jovem, bonito... são tantas as que iriam querer algo assim, e ela o desperdiça. E o mais triste era que, no fim das contas, ela nunca teria a chance para aproveitá-lo. – Mas no fim das contas, criança, você não fará nenhum dos dois.

Aurum surgiu atrás da garota assim que essas palavras soaram, seu tridente erguido, as pontas dele apontadas diretamente para a cabeça dela. Um movimento era todo o necessário. Um movimento e a garota morreria.

Mas Aurum não teve a chance de fazer esse movimento.

O ar atrás da garota, atrás de Aurum, distorceu-se diante dos olhos de Annie. Uma grande mão, extremamente grossa e de cor bege-amarelada surgiu a partir dessa área distorcida, fechando-se em um punho e acertando Aurum em cheio na lateral de seu corpo com uma força irreal. O Andorinha foi arremessado ao outro lado da sala quase que imediatamente, e foi só então que o dono daquela mão se revelou. Uma criatura que claramente não era humana. Um monstro gigantesco, com cerca de três metros de altura que erguia-se atrás da garota como um grande protetor, um monstro com duas cabeças; uma grande, com pelo menos o dobro da cabeça de um homem normal, enquanto a segunda era pequena como a de um bebê de um ano. Sua boca era cheia de dentes amarelos anormalmente grandes, grandes demais para serem mantidos todos dentro dela, escapando para fora e dando àquele monstro uma aparência ainda mais monstruosa e bestial. Uma invocadora, não é? E uma capaz de invocar um Ogro assim, sem um ritual nem nada do tipo... ela é boa. Muito boa. Aquilo iria ser divertido, conseguia sentir isso.

– Deixe-me te avisar de uma coisa, vovó – murmurou a garota, um sorriso arrogante e satisfeito em seu rosto. – Você ou seus Recipientes... não importa o quanto tentem, vocês não vão me derrotar.



Notas finais do capítulo

Se vocês sentiram saudades de mim, por favor, depositem um pão de queijo na minha conta. Obrigado. Isso ajuda muito.



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