O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 2
História Paralela 1 - O Demônio Escarlate


Notas iniciais do capítulo

Yo! Trazendo aqui pra vocês a primeira história paralela dessa temporada! Nessa temporada da Era Dourada, farei essas histórias paralelas um pouco diferentes. Ao contrário da temporada passada, aonde elas contavam coisas importantes mas não imediatamente relevantes para a história principal - mais como um extra - aqui elas servem para complementar a história principal. Elas, invariavelmente, ou irão mostrar as ações e o progresso de personagens envolvidos nessa pequena guerra que não tem relação imediata com o grupo de Kastor, ou mostrarão flashbacks de personagens importantes, revelando detalhes de seu passado e mostrando como eles chegaram aonde estão hoje. Espero que vocês gostem disso!



INTRUSOS! – gritou um guarda. Bateu a pequena marreta de aço que tinha em mãos no grande sino localizado no centro da prisão enquanto de todos os cantos brotavam mais e mais guardas, armados com lanças, espadas e machados. – INTRUSOS ESTÃO NO BLOCO C, EM SEU CAMINHO PARA O BLOCO H! PAREM-NOS ANTES QUE SEJA TARDE DEMAIS.

Dungvield era uma grande prisão, uma das mais seguras de todo o mundo. Localizada nas Terras Velhas, ela era território neutro. Não pertencia a nenhuma das grandes nações, a nenhum dos grandes poderes, mas tinha afiliação com todos. Era ali que eram armazenados os maiores prisioneiros do mundo. Era ali que aprisionavam o lixo, aonde o trancavam. Uma vez que alguém ia para Dungvield, essa pessoa nunca voltava a ver a luz do sol.

O que era exatamente o porquê daquela intrusão ali ser tão problemática.

– Quantos guardas já caíram? – perguntou o diretor, Kamlek Keinss, comandante daquela prisão. Era um homem grande, apesar de pequeno aos maiores do mundo, com mais de um metro e noventa de altura. Trajava uma grossa armadura cinzenta de placas de aço revestido ao redor de seu corpo, mas mesmo com essa armadura pesada sobre ele, era possível que qualquer um que olhasse para aquele homem soubesse que ele tinha uma força absurda em seus osso. Ele era calvo, com apenas alguns fios de cabelo grisalho nas laterais de sua cabeça, mas a sua velhice não fazia com que ele parecesse menos formidável... e isso, em parte, era devido as várias cicatrizes que cobriam seu rosto, marcas de lugares por onde antes passaram milhares de lâminas.

O guarda que veio fazer o relatório engoliu em seco antes de responder. Kamlek era temido, tanto entre os prisioneiros quanto entre os guardas. Não sabia qual seria o resultado de dar uma notícia ruim a ele. Por isso que, antes de responder, buscou olhar para o vice-diretor.

Enquanto Kamlek era temido entre os guardas, Saber era adorado. De traços finos e andróginos, ninguém sabia ao certo o que exatamente ele deveria ser; a maior parte dos guardas assumia que se tratava de um homem, mas haviam alguns que insistiam que era uma mulher disfarçada, e a voz fina e gentil que ele tinha não ajudava em nada. Qualquer que fosse o caso, só podia dizer que, sendo homem ou mulher, Saber certamente era agradável de se ver. Seus cabelos castanhos eram finos, lisos e brilhantes, caindo-lhe sobre os ombros e o início das costas, longos o bastante para serem belos e ao menos tempo curtos o suficiente para não atrapalharem. Tinha olhos azuis, limpos, e seu rosto tinha traços finos e lisos. Em sua cabeça usava um quepe negro, algo que lhe dava um ar militar e autoritário. Em seu corpo, não usava armadura, mas sim a vestimenta dos guardas de alta patente; um uniforme militar negro com detalhes em dourado e gola alta, bem como patentes em ambos os ombros. A única arma que portava era o sabre que trazia em sua cintura.

Foi só depois que Saber viu seu olhar e acenou gentilmente com a cabeça em resposta que teve coragem o suficiente para falar.

– Cerca de... quinhentos, senhor – disse o guarda, abaixando a cabeça. Com Saber ali, julgava que tinha certa segurança, mas mesmo assim, simplesmente não conseguia ter coragem o suficiente para olhar no rosto do diretor enquanto falava. – Isso é... esse é o relatório mais recente, senhor, mas ele tem quinze minutos. Considerando que a situação não foi resolvida até agora, é possível que a situação tenha... piorado.

Kamlek não disse nada. Não disse nada, mas o guarda ainda assim pode sentir a ira dele, pode sentir a pressão que emanava daquele homem. Isso é... monstruoso. Sentia como se um gigante estivesse sobre ele, pisando nele em uma tentativa de esmaga-lo, e seu corpo estivesse lutando com todas as forças para resistir a isso... e isso era só a pressão da força que emanava de Kamlek, que nem sequer era dirigida a ele. Tão forte! Eu não... eu não consigo imaginar ninguém que consiga se opor a ele.

– Entendo – foram as palavras que vieram de Kamlek, um minuto antes que o guarda ouvisse o som de uma cadeira se arrastando. Sentiu toda a pressão que antes estava ali desaparecer de uma vez, e quando ergueu os olhos, Kamlek estava na porta, lançando um olhar a Saber, que parecia preocupado com ele. – Vamos logo, Saber. Já deixei que eles vagassem por aqui por tempo demais. Hora de acabar com os ratos.

=====

– Então... para onde vamos? – perguntou J, lançando um rápido olhar em direção a Retalhador. Um guarda tentou se aproveitar disso, pensando que isso significava que ele havia se descuidado, mas explodiu a cabeça dele com um estalar de dedos antes que esse realmente pudesse representar algum perigo.

– Bloco H – foi a resposta do braço direito de Balak Hauss, o homem que eles conheciam como “Retalhador”, segundo em comando do Olho Vermelho. – Pelas orientações do líder, eles devem estar ali. Nicholas, Fera... e Dokurei.

Dokurei... Lembrava-se dos rumores que havia ouvido falar daquele homem. O “Demônio Escarlate”, a “Morte Vermelha”. Dokurei era alguém nativo de Fredora, mas com uma fama temida por todo o mundo. Ele fez por merecer, afinal. Três anos atrás ele havia sido capturado pelas forças de Fredora depois de ter travado uma guerra de um só homem contra aquela nação que quase havia resultado no colapso dela. Pelo que os rumores dizem, ele é alguém extremamente forte. Talvez forte o suficiente para comparar-se ao líder em combate. Apesar de que, provavelmente não seria bom dizer isso para Retalhador; ele em geral era agradável o bastante de se conversar (o que significava que, em geral, ele ficava calado e lhe deixava dormir), mas podia ser um pouco... fanático em relação a sua lealdade à Balak. Bom, ao menos é bom saber que não estou fazendo tudo isso atoa. Seria realmente irritante para ele se estivesse fazendo tudo aquilo para obter alguns soldados sem valor quando podia estar dormindo.

Enquanto ele e Retalhador lutavam por ali, em outro ponto, a terceira pessoa que havia sido mandada naquela missão simplesmente dançava. Com um livro em suas mãos e uma feição entediada em seu rosto enquanto o lia, Tristah apenas se dava ao trabalho de dançar para a direita e esquerda, evitando cada golpe que os guardas lançavam contra ela. Isso parece estar irritando eles cada vez mais, observou J. No início, os golpes daqueles guardas eram mais cautelosos e cuidadosos; eles atacavam, mas tentavam sempre se certificarem de estar em boas condições para evitarem qualquer contra ataque dela... mas mais e mais eles começavam a simplesmente avançarem loucamente, atacarem-na com tudo que tinham sem mais consideração alguma por seu próprio bem... mas nem isso foi o suficiente. Por mais que eles tentassem, tudo que Tristah fazia era desviar e desviar, para um lado e para o outro, sem ter a menor dificuldade em lidar com eles. Para eles, tentar acertar essa mulher é a mesma coisa que tentar acertar a lua.

– Tristah! – gritou Retalhador, enquanto com seus dedos rasgava a armadura e o peito de um homem, ao mesmo tempo em que defendia-se do golpe de espada de um segundo guarda com seu antebraço. – Pare de ficar brincando por aí! Temos trabalho para fazer aqui. Use seus poderes e acabe logo com tudo isso.

Isso atraiu a atenção dela. Por um momento ela parou todos os seus movimentos e apenas virou a cabeça para fitar Retalhador, e no momento em que isso aconteceu, outro guarda tentou ataca-la. Péssima ideia, meu chapa. Nem precisava ver o que vinha a seguir para saber o que seria isso, mas o fez simplesmente porque isso era mais interessante do que ficar simplesmente parado ali matando aqueles fracotes. Tristah apontou sua mão direita para aquele homem, abriu a palma dela e, através dessa, liberou uma grande quantia de ar, diversas ondas afiadas como lâminas de espadas. Elas atingiram em cheio seu oponente, e isso foi praticamente uma confirmação de que ele não tinha chances de sobreviver ali. O corpo dele – mutilado e coberto de sangue – foi cair no chão à mais do que vinte metros de distância dela, e isso foi o suficiente para que os outros decidissem que talvez seria melhor serem um pouco mais cuidadosos com aquela mulher. Meio que tarde demais pra isso, meus amigos.

– Muito bem – disse ela, em uma voz que não tinha emoção alguma. Ergueu sua outra mão e também abriu a palma dela, apontando-a para o lado contrário ao da outra. – Vento Forte.

Ah, bosta. Mal teve tempo de erguer uma barreira ao redor de seu corpo para proteger-se daquilo, mas de alguma forma, conseguiu fazer isso a tempo o suficiente para conseguir ver o espetáculo.

Já havia visto isso algumas vezes no passado, mas mesmo assim, isso nunca deixava de ser surpreendente e incrível. Tinham centenas de guardas ao redor deles, todos eles cobertos de aço, alguns esguios, alguns pesados, alguns normais; não importou. Todos eles foram arremessados para o ar como se fossem folhas ao vento, juntamente com boa parte do solo e de pequenas construções próximas, e tudo isso que foi lançado ao ar foi retalhado em pedaços pela violência das ondas de vento que o ataque de Tristah havia criado. Havia criado uma barreira ao redor de si para proteger-se daquilo, mas nem mesmo isso significava que ele podia ficar despreocupado; primeiro teve de se preocupar em manter-se firme no chão para que não acabasse sendo jogado ao ar por aquilo de qualquer forma, e depois teve de manter-se em constante movimento para evitar que um pedaço de pedra ou coisa do tipo caísse sobre e lhe esmagasse.

Ao fim de tudo aquilo, estava completamente exausto. Respirando pesadamente ele olhou ao redor, observando a destruição que aquela mulher havia causado com tão pouco esforço. Maldição... isso é algo realmente divertido de se ver, mas é bem trabalhoso ter de evitar ser afetado também por esse ataque.

Vou um ruído, e moveu sua cabeça na direção dele bem a tempo de ver Retalhador emergir de um monte de destroços, jogando-os para o ar facilmente. Ao contrário de J, aquele homem não era um mago, o que significava que ele não tinha nenhuma forma de ignorar ou anular o poder daquilo. E ainda assim, ele estava completamente ileso. Ele simplesmente era resistente o suficiente para resistir a um ataque daqueles sem sofrer danos. Bem, creio que não é por nada que ele é o braço direito de Balak, não é?

Viu o olhar de Retalhador pousar sobre ele subitamente, apenas para depois mover-se, pousando sobre Tristah. Por um momento ele apenas observou os dois, como se estivesse considerando alguma coisa, mas sem oferecer explicação alguma nem dizer nada, ele simplesmente virou-se e continuou a andar.

– O que estão esperando? – disse ele, enquanto se afastava. – Nosso trabalho ainda não acabou aqui. Venham logo. Não temos tempo a perder.

=====

– Ei – disse o prisioneiro, colocando a cabeça para fora de sua cela e olhando para o homem que lhe guardava. – Está tudo bem aí? Estou ouvindo um bocado de comoção aqui.

A bem verdade, sabia o que era aquilo. Havia passado tempo o suficiente em batalhas para saber decifrar o som de uma. E considerando que isso já tem durado por algum tempo, não é algo tão pequeno quanto uma briga entre prisioneiros ou uma briga entre prisioneiros e guardas. O que significa que devemos ter invasores aqui.

– Nicholas? – disse o guarda, virando-se para ele. Sua feição era nervosa, indicando que tudo aquilo estava deixando-o apreensivo. Ainda assim, ela se tornou mais branda quando viu de quem se tratava. Os guardas gostam de mim. E por que não? Sempre tratei-os bem. Gostava de tratar as pessoas bem. Isso fazia com que elas se sentissem bem e confortáveis. – Estamos... bem, creio que não faz sentido esconder algo assim a esse ponto, não é? Estamos sendo atacados. Não sei por quem ou quantas pessoas, mas considerando que vários guardas já foram mobilizados para a posição deles e a batalha ainda continua, eles devem ou ser bem fortes, ou serem muitos.

Fortes ou muitos, hum? Interessante. Se perguntava qual era o caso... bem como se perguntava quem teria mobilizado eles até ali. Será que recentemente capturaram um chefe de máfia ou coisa do tipo? ... Não, não, muito difícil. Se tivesse tido alguma nova captura, principalmente uma tão grande assim, eu teria ouvido falar dela. Podia supor também que eles estavam ali para resgatar alguém que havia sido capturado a mais tempo, claro, mas isso não fazia muito sentido. Se eles queriam resgatar alguém que está aqui há um bom tempo, eles podiam ter feito isso bem antes.

– EI! SEU MERDA! – veio o grito da cela que ficava do outro lado da sua. Olhou para lá, e tal como esperava, pode vê-la agindo. Fera estava saltando contra a grade da cela, investindo contra ela como se pretendesse derrubá-la na base do ombro. Ver aquela mulher ali, agindo daquela forma, foi o suficiente para que o guarda recuasse um passo para trás... ficando um pouco mais próximo da cela de Nicholas. – ME SOLTE! ME SOLTE E EU TE AJUDO! EU MATO ELES! EU MATO TODOS! ME SOLTE!

O guarda visivelmente tremeu ao ouvir aquilo, seu joelhos quase colidindo uns com os outros. Bem, não culpo ele por isso. Fera é realmente assustadora. Naquela prisão, haviam muitos tipos de pessoas; alguns eram ladrões, outros assassinos, outros estupradores, outros estupradores que assassinaram sua vítima depois do estupro e roubaram-na em seguida. No entanto, ninguém ali era tão maluco ou claramente insano quanto Fera. Se bem me lembro, ela foi capturada usando diversos colares e cinturões feitos da pele e pequenos membros arrancados do corpo de pessoas que já matou. Isso não coloca necessariamente uma reputação de “sanidade” em alguém.

– Ei, Fera, fique calma aí, sim? – disse Nicholas, olhando para ela. – Eu sei que gritar e fazer estardalhaços são a sua coisa e tudo mais, mas essa dificilmente é a melhor hora pra algo assim.

– VAI SE FODER, NICHOLAS! – berrou ela em resposta. – EU VOU MATAR TODOS! VOU MATAR! VOU MATAR! TIRE-ME DAQUI, SEU MERDA! DEIXE-ME MATAR! MATAR! MATAR! MATAR! AHAHAHAHA! – bateu mais uma vez na grade, recuou para trás, e então... parou. Por um momento, todos os movimentos dela parou, toda a agressividade, toda a fúria, toda a loucura... tudo isso parou como se nunca tivesse existido em primeiro lugar. E então, de uma só vez, ela começou a gargalhar no instante seguinte, uma gargalhada profunda e insana, mais louca do que qualquer coisas que Nicholas já havia visto ou ouvido em sua vida. Louca e súbita o suficiente para fazer com que o guarda recuasse um passo a mais, aproximando-se ainda mais da cela de Nicholas.

Era o suficiente.

Tinha grilhões pesados de aço e ferro ao redor dos seus pulsos para impedir-lhe de mover-se livremente, mas eles de pouco adiantaram. Partiu-os num instante sem dificuldade nenhuma. O guarda ouviu o som disso, claro, mas já era tarde demais para reagir. Segurou o crânio dele muito bem com suas duas mãos e puxou com força. As orelhas do guarda foram arrancadas pelas barras de ferro laterais, enquanto que seu pescoço foi quebrado ao colidir com uma das barras horizontais, fazendo com que o sangue espirasse para longe. Ele morreu sem dar nem um pio, mas seus olhos ainda abertos olhavam para Nicholas de forma quase que condenadora.

– Desculpe-me por isso – sussurrou ele, e beijou a testa do guarda em desculpas. Depois, levou uma de suas mãos ao bolso do peito dele e de lá retirou o molho de chaves do seu bloco.

Não perdeu tempo em abrir a porta de sua cela, e a primeira coisa que fez ao dar seu primeiro passo pra fora dela foi respirar bem fundo. Ah! O cheiro da liberdade! Ela cheira... feito bosta. Talvez não fosse exatamente bom comemorar sua liberdade enquanto ainda estivesse em um bloco que, dentre muitas coisas, estava cheio de baldes de merda e mijo. Devo sair daqui. Mas primeiro! Creio que é apenas educado que eu dê meus agradecimentos aqueles que me proporcionaram essa chance, não é? Tinha curiosidade em ver quem eram os responsáveis por aquele ataque a prisão.

Não precisou ir muito longe para isso; bastou virar-se e deu de cara com eles.

O primeiro que notou era um homem de cabelos castanhos longos, arrumados em cinco tranças diferentes. Tinha roupas simples e surradas, gastas tanto pelo uso quanto pelo tempo, e não usava sapatos, o que talvez fosse exatamente o motivo pelo qual a sola dos pés dele era daquele jeito, parecendo tão dura e forte quanto o couro de algum animal selvagem. Em seu rosto, a expressão que ele trazia era uma mistura entre extremo tédio e extremo sono; era mais do que capaz de apostar que, se ele parasse completamente por um momento sequer, aquele homem não iria tardar a dormir.

A segunda pessoa era uma mulher. Uma mulher bela até, apesar de que certamente não o que ele classificaria como sensual. Não, não; aonde muitas mulheres tentavam ser bonitas mostrando seu corpo, aquela parecia fazer exatamente o contrário. Pernas, braços e peito eram encobertos por um robe de seda fina branca, com alguns detalhes em certos pontos que lembravam ondulações marinhas azuis. Em seus pés ela usava um simples chinelo de madeira e meias brancas, mas não era isso que chamava a atenção nela. Isso cabia para seu rosto. Um rosto simples e fino de mulher, só que com um desenho de uma lua minguante sobre o olho direito, bem como um desenho de uma estrela cadente sobre o olho esquerdo. Seus cabelos eram negros, bem escuros e sem brilho nenhum, e eles estavam enrolados, presos para cima em sua cabeça e segurados daquela forma por algo que parecia ser um fino espeto de aço. Elegante e exótica eram duas palavras que caiam muito bem para descrever aquela mulher, e considerando a expressão que ela tinha em seu rosto... talvez “entediada” pudesse se juntar a isso, também.

E a terceira e última pessoa ali voltava a ser um homem, o único entre todos os três que não tinha tédio em sua expressão. Pelo contrário; entre todos ali, ele era de longe a pessoa com a expressão mais séria e compenetrada, e era o único que realmente conseguia colocar medo na alma de Nicholas. Suas vestes eram simples; camisa branca, calça longa preta, botas de couro e um casaco de um marrom desbotado, como se ele tivesse ficado tempo demais na chuva. Até ai, tudo normal. O que realmente chamava atenção naquele homem era o rosto dele, só que de uma forma completamente diferente do da mulher. Enquanto a mulher de antes chamava atenção para o seu rosto devido a elegância e o ar exótico que ela tinha, aquele homem chamava a atenção para o seu devido ao puro ar mortal que o cercava. Eu olho para ele e vejo perfeitamente bem um assassino de aluguel. Seu rosto era triangular com traços retos e duros, fortes, como se aquele homem tivesse passado sua vida com tanta raiva que os traços dela acabaram ficado permanente esculpidos ali. Seus olhos eram finos e aparentemente permanentemente afiados, mantendo um olhar meticuloso e ameaçador, como um animal selvagem que observa sua presa. Seus cabelos eram negros, nem longos nem curtos, mas sim volumosos. Em cada orelha sua, o homem trazia um brinco... intrigante. Uma espada de prata.

Por um instante, todos se fitaram ali em silêncio. E no instante seguinte, Nicholas falou.

– Apenas três pessoas, eu suponho – disse o antigo prisioneiro, cruzando os braços. – Interessante. Creio que isso significa que vocês são bem fortes, não é?

– Você é bom em dizer o óbvio – apontou o aparente líder do trio, o assassino. – Partindo do princípio de que estamos no bloco H e que você é um dos alvos... suponho que você seria Nicholas, certo? Preso por estuprar uma mulher até a morte na frente de seu marido e depois esmagar a cabeça desse marido em questão com pancadas violentas.

– Ah, parece que você está ciente do meu passado! – comentou Nicholas, coçando a testa com um dedo, sem graça. – Haha, foi mal por isso. Não estou realmente orgulhoso daquilo, mas... bem, aquela mulher era uma grande vaca, e o marido dela me irritou, então resolvi me vingar de ambos.

– Você estuprou uma mulher até a morte e esmagou a cabeça do cara na base de pancadas! – observou o primeiro homem, alguém que mais parecia um mendigo do que tudo. – Afinal, o que ele fez pra te irritar tanto assim a esse ponto?

– Nem me lembro direito, pra ser sincero – respondeu Nicholas, dando de ombros. – Lembro-me apenas que estávamos discutindo sobre alguma coisa, e em certo ponto ele começou a me zombar e rir da minha cara. Então eu quebrei a cara dele, o amarrei, estuprei a mulher dele na frente dele, zombei da cara dele, e depois o matei. Simples.

Viu a sobrancelha do mendigo se erguer ainda mais ao ouvir aquilo, e por um momento ele pareceu prestes a dizer alguma coisa, mas o que quer que fosse isso, as palavras ficaram em sua garganta quando o assassino lançou um olhar para ele. Hum, parece que ele não concorda muito com o que eu fiz, observou Nicholas, coçando levemente seu queixo. Mas, bem, isso não importa. Desde que ele não me importune ou incomode, não importa o que ele pensa de mim. E se ele começar a me importunar, bem, então mais uma morte em minhas mãos não faz diferença alguma.

– De qualquer forma – disse o assassino, fazendo com que o olhar de Nicholas se move-se para ele. – Viemos aqui resgatar vocês, Nicholas. Sendo assim, você vem conosco.

Apenas sorriu ao ouvir aquilo. Creio que eu poderia dizer a eles que fui eu quem me resgatei, mas não acho que eles realmente vão se importar com isso. Além do mais, evitar desavenças com eles está, ao menos no momento, nas minhas listas de prioridades. Podiam ser só três, mas se eles haviam conseguido avançar tanto naquela prisão, então eles deveriam ser bem fortes. Não quero necessariamente enfrenta-los agora. E além do mais, certamente não há motivo para nos enfrentarmos aqui se nosso objetivo é o mesmo; sair daqui.

– Você disse “vocês” – apontou Nicholas, gesticulando com a cabeça para o lado, apontando para Fera, que ainda não havia parado de gargalhar. – Presumo que, com isso, você quer dizer que vieram resgatar ela também?

– Ela também – concordou o assassino com um aceno de cabeça, ao mesmo tempo em que sua mão direita se erguia, apontando para trás dele. – E o mesmo vale para ele.

Isso foi o suficiente para que o sorriso de Nicholas morresse. Ele também? Não tinha nada com aquele homem, mas ainda assim... ele era assustador. Tinha medo dele. Muito medo.

Mas ao fundo, a cela além da dele e de Fera era muito mal escura. Você mal conseguia ver o que havia dentro dela, mas ainda assim, você conseguia ver o suficiente. Conseguia ver inúmeras barras de ferro pesadas ligadas à um tipo de suporte que ficava nas costas de um homem, para que suas pontas pressionassem pontos estratégicos de seu corpo constantemente com força, de forma a simultaneamente tirar-lhe a força e causar-lhe dor extrema. Conseguia ver correntes em ambos os lados, puxadas de uma forma a esticarem os braços e pernas daquele homem até o máximo e um pouco além, como se estivessem prestes a arrancá-los dele a força.

E via, além disso, um homem. Via os cabelos castanhos dele, via os olhos fechados, e via a expressão que ele tinha no seu rosto; a tranquilidade de alguém que está dormindo, como se ele não sentisse dor nenhuma.

Aquele era o Demônio Escarlate, Dokurei Deux.

=====

– Então, vocês vieram me tirar daqui? – perguntou Dokurei, passando uma mão pelo pulso da outra, aonde as correntes antes estavam amarradas. Era uma sensação muito boa, a de estar livre de novo. – Há! Creio que devo um “obrigado” a vocês não é?

– Não precisamos de “obrigado” nenhum – rebateu Retalhador de braços cruzados. – Tudo que precisamos é que...

– Eu mate aqueles que vocês querem mortos – completou Dokurei com uma risada. Ajeitou seu casaco em seu corpo, apreciando a sensação dele. Quente e confortável. Eu deveria usar mais desses. Lembrava-se bem do quanto gostava de usar aquele tipo de roupa três anos atrás. – Não se preocupe; eu sou um homem que paga suas dívidas. Irei matar quem quer que você queira morto... contando que você tenha paciência o suficiente para esperar um pouco. Existem pessoas que conquistaram seu lugar no topo da lista.

Um estalo de irritação veio daquele homem em resposta a isso, mas Dokurei não se importou com isso. Fique tão irritado quanto quiser, meu camarada. Você não pode me intimidar, e você não pode me matar. Tinha a intenção de pagar sua dívida com eles, mas iria fazer isso ao seu ritmo e do seu jeito.

Virou-se para o espelho.

Ficou satisfeito com o que viu ali. Sua aparência ainda era a mesma, mesmo depois de três anos. Seus cabelos estavam mais longos, era verdade, mas eles continuavam jogados para trás e espetados, de forma que fazia parecer mais que ele tinha um ouriço ou coisa do tipo agarrado a sua cabeça ou coisa do tipo. A cor deles se mantinha a mesma, também; um castanho-avermelhado, como se seu cabelo estivesse se tornando pouco a pouco ruivo. Tinha criado uma barba durante os seus anos de aprisionamento, mas não havia gostado dela e não perdeu tempo em livrar-se daquilo com a ajuda de uma navalha, o que significava que seu queixo agora estava limpo e liso.

Gostou das suas roupas, também. Não gostava da ideia de ficar com aqueles trapos que haviam lhe dado quando haviam lhe aprisionado, e por isso foi pra fora de seu caminho para fazer com que aqueles caras lhe levassem até uma das várias salas dos guardas espalhadas pela prisão. Ali, havia encontrado roupas boas o suficiente. Não gostava dos guardas, mas tinha de assumir que os uniformes deles eram bem agradáveis de se ver, e por isso roubou um conjunto para si, completando-o com botas de couro e pelo e arrancando as patentes dele para deixa-lo do seu gosto. Além dele, também havia arranjado um casaco, e desse ele gostou bastante. Um casaco longo e grosso, aberto na frente, em sua maioria carmesim, cor do sangue, mas com as bordas da abertura, dos bolsos e da gola feitas de pelos prateados. Haviam mantido a gola erguida também; gostava do efeito que ela dava. Fazia com que ele parecesse ainda mais foda do que era por si só.

– Parece que os guardas daqui pelo menos tinham um bom gosto por roupas, hein? – contemplou ele, e gargalhou, divertido e satisfeito ali. – Bem, creio que eles não podiam ser merdas completos!

– Se apresse – resmungou o Retalhador, claramente irritado por todos aqueles atrasos. – Não temos tempo para perder aqui.

– Calma, calma – disse Dokurei por sua vez, nem um pouco preocupado com aquilo. – Não há porque corrermos aqui. Eu estou livre. A partir do momento em que eu estou livre, não existe ninguém nessa prisão capaz de me impedir de fazer qualquer coisa. – deixou que essas palavras pairassem no ar um pouco, a ameaça delas bem clara para qualquer um. – Além do mais... eu tenho contas a acertar com Kamlek e Saber. Tenho de pagar esses dois por tudo o que fizeram comigo durante esses anos. Não concordam? Nicholas, Fera?

Olhou para os dois outros prisioneiros. Nicholas era, por todas as considerações, um homem completamente normal, apesar de que provavelmente mais forte fisicamente do que a maioria. Tinha qualquer coisa entre um e oitenta e um e noventa de altura que não importava, e seus ombros largos davam para braços fortes e rígidos o suficiente para que ele parecesse capaz de quebrar o que quer que estivesse em suas mãos com facilidade. Seus cabelos eram negros, moles e agarrados constantemente ao seu corpo como se estivessem sempre molhados, e uma sombra de barba cobria seu queixo, sempre mantida bem raspada pelos barbeiros da prisão.

Fera, por sua vez... bem, era até mesmo difícil dizer que aquilo era uma mulher. Ela certamente não parecia uma, disso tinha certeza. Sua cabeça não tinha pelo algum, seja ele barba, bigode ou cabelo. Ao invés disso, o que ela tinha era um crânio coberto por cicatrizes, marcas de lugares por onde machados e espadas haviam passado, bem como lugares que foram outrora perfurados por lanças e flechas. Um dos olhos daquela mulher era completamente branco, como se fosse feito de algo como leite ou osso, enquanto o outro tinha uma íris muito pequena, quase imperceptível. Isso, somado aos lábios dela que haviam sido partido em quatro e estavam sempre sorrindo de forma divertida, faziam com que ela parecesse profundamente perturbadora para qualquer um que olhasse para ela. Nunca pensei que eu ia dizer isso um dia, mas eu não quero dormir com essa mulher.

– Ah, eu não sei, pra ser sincero – disse Nicholas, sorrindo de forma apologética. Aquele homem tinha sempre um fino sorriso em seu rosto e uma aparente calma incrível, como se ele estivesse grogue depois de usar algum tipo de droga forte, e isso fazia com que ele fosse um pouco perturbador também, embora nada comparável ao nível de Fera. – Quero dizer, eu não quero realmente ficar aqui um minuto a mais do que eu tenho.

– Eu não dou a porra da mínima – disse Fera por sua vez, enquanto distraia-se rindo de alguma coisa qualquer e olhando para duas espadas que ela segurava em suas mãos naquele momento. – Desde que eu possa matar alguém, pouca diferença faz pra mim se estamos dentro ou fora. Eu só quero matar. – e parou, subitamente, por completo, apenas para tornar a dizer a palavra novamente, muito mais lentamente dessa vez, como se estivesse saboreando um prato delicioso. – Ma... tar... – um sorriso selvagem tocou seus lábios, e logo em seguida ela voltou a gargalhar.

– ... Está vendo, Nicholas? Ela entende aonde eu quero chegar! – disse Dokurei, decidindo que o melhor que poderia fazer ali seria começar a se acostumar a ignorar a loucura de Fera aonde não lhe fosse conveniente. – Quando alguém te aprisiona por tanto tempo assim, você deve ter sua vingança! Não podemos simplesmente nos esgueirar pra fora daqui; isso é coisa que maricas fazem! Homens de verdade saem pela porta da frente e matam tudo que surgir em seu caminho, e um pouco mais, para mostrarem que ninguém pode pará-los!

– Não temos tempo para isso – reclamou novamente Retalhador, irritadiço. – Temos de nos mover rapidamente antes que...

Parou suas próprias palavras no momento em que compreendeu que era tarde demais para isso. Virou-se, seus olhos afiados indo para fitar o inimigo que tinha diante de si, tudo isso enquanto Dokurei sorria.

A frente deles estavam Kamlek e Saber, acompanhados de dezenas, não, centenas de guardas, todos armados, todos prontos para a batalha.

– Então... – disse Kamlek, cada palavra do diretor carregando um peso tão grande que parecia até que elas poderiam esmagar rochas. – Vocês são os que estão atacando minha prisão.

=====

Isso é pior do que eu esperava. Não sabia quem eram aqueles três desconhecidos, mas considerando que eles haviam invadido sua prisão e chegado tão longe assim, eles certamente haviam de ser fortes. Nicholas e Fera eram oponentes com os quais ele provavelmente seria capaz de lidar, mas isso não seria necessariamente algo fácil... e mais preocupante que isso era Dokurei. Dentre todos os que estavam ali, ele era o único que Kamlek tinha certeza de que podia lhe derrotar. Vou ter de tomar cuidado com ele. Ele é perigoso. Extremamente perigoso. Dokurei havia travado uma guerra sozinho contra toda Fredora, e ele havia sido mais bem sucedido nisso do que qualquer um devia ser. Qual será o nível dele? O nível de um Tecelão? O nível de um dos líderes do Salão Cinzento? Alguma coisa além disso? Havia ouvido alguns rumores pouco tempo atrás de que as Grandes Nações estavam discutindo a possibilidade de soltá-lo para que ele enfrentasse Ember e suas forças na guerra que estava por vir. Aparentemente, a influência de Fredora havia feito com que decidissem mantê-lo aprisionado, mas o simples fato de que haviam considerado aquilo era uma boa demonstração de exatamente quão insanamente poderoso aquele homem era.

Homens! – gritou ele. Com uma mão ergueu sua grande espada bastarda alto. Vamos ver exatamente quão forte Dokurei está agora, depois de três anos aprisionados! Apontou para seus inimigos e deu a ordem. – MATEM-NOS!

Com um grito de guerra, seus guardas não demoraram a obedecer sua ordem. Com suas armas erguidas eles avançaram direto contra os inimigos, sem medo algum. Vocês vão todos morrer, disse mentalmente Kamlek, mas a morte de vocês irá possibilitar que eu compreenda melhor as capacidades do inimigo, então ela não será em vão.

Tal como ele esperava, quem avançou para lidar com todos aqueles homens foi Dokurei. Com um sorriso no rosto, o homem lentamente retirou as mãos dos bolsos, enquanto um líquido pingava do indicador de sua mão direita, caindo no chão e derretendo a área que ele atingiu até não sobrar nada. Os soldados que avançavam não notaram isso, mas Kamlek o fez.

– Ei, ei! – disse Dokurei, sorrindo de forma jovial enquanto abria os braços. O olho direito ainda faltava naquele homem, algo que eles haviam tirado dele três anos atrás, enquanto o torturavam na tentativa de arrancar uma confissão que nunca veio. – Vocês avançam cegamente contra mim... parece até que se esqueceram da minha habilidade, haha! Mas vocês não se esqueceriam de mim, não é?

Um líquido escarlate surgiu do nada ao redor das mãos daquele homem, criado por nada mais do que a energia que ele tinha. Aquilo foi o suficiente para ativar a memória de alguns dos guardas e fazer com que eles parassem, mas a maioria – desconhecendo por completo as habilidades do Demônio Escarlate – simplesmente continuou a avançar.

– Minha habilidade é... veneno! – da mão direita de Dokurei, um dragão escarlate feito de puro veneno avançou. Parte dos guardas foi atingido por ele, mas não sofreram dano algum. Sendo feito de veneno, o dragão não causava nenhum dano físico real; ele não podia arrancar o braço de alguém com suas presas, e a força do impacto dele dependia muito de sua velocidade. Ainda assim, Kamlek sabia; aqueles homens estavam mortos. – Posso criar diversos tipos de venenos diferentes de meu corpo, em vários estilos diferentes! Posso criar veneno líquido ou gasoso, ou até solidifica-lo em uma forma que eu bem escolher! Posso criar venenos paralisantes, venenos debilitantes... mas de longe, o meu favorito é esse que lhes atingiu! – no momento em que aquelas palavras foram ditas, os gritos de dor e pânico vieram. Os guardas que haviam sido atingidos por aquilo caíram no chão, e isso fez com que outra parte dos guardas parasse para fita-los, surpresos. Os que haviam sido atingido se remexiam loucamente e gritavam como almas torturadas, tudo isso enquanto o veneno de Dokurei lentamente ia consumindo o corpo deles, derretendo-os até que não sobrasse nada mais do que osso ali. – Veneno Ácido!

Aquilo foi o suficiente para acabar completamente com qualquer moral que aqueles guardas podiam ter ali. Os que não estavam ocupados demais morrendo, os que haviam sido sortudos o suficiente para não serem atingidos por aquele veneno, eles não perderam tempo em virar-se e começarem a correr para longe dali.

Mas Dokurei não iria deixá-los escapar.

– Ei, aonde vocês pensam que estão indo?! – questionou ele, gargalhando em felicidade e satisfação com tudo aquilo. – Eu não vou deixá-los escapar! Irei matar vocês, cada um de vocês, seus pedaços de merda supercrescidos! GHOUL!

Um punho gigante feito de veneno escarlate esmagou grande parte dos guardas que estavam fugindo naquele momento, surpreendendo Kamlek. Então, ele não estava apenas flertando quando falo que podia solidificar seu veneno?! Mas como ele aprendeu a fazer isso?! Nos últimos três anos, ele esteve preso e imobilizado sem um único momento de liberdade! Mais perturbador que isso era apenas a criação que Dokurei havia feito. Aquele punho era apenas uma pequena parte de algo muito maior; com suas habilidades, Dokurei havia criado um verdadeiro monstro, algo que parecia ser um esqueleto gigante feito de nada mais do que veneno escarlate solidificado. Esse esqueleto era gigantesco, grande o bastante para que ele tivesse de ficar dobrado simplesmente por ser alto demais para ficar ereto ali, e isso fazia com que boa parte dele acabasse cobrindo Dokurei como se fosse algum tipo de muralha ou coisa do tipo. Ele não tinha pernas ou cintura; era feito apenas baseado na metade superior do corpo de alguém e isso fazia com que ele só pudesse atacar com uma mão, tendo de usar a outra para sustentar-se, mas isso não parecia fazer nada para diminuir a efetividade dele.

– A vingança é uma vadia, não é, seus filhos-da-puta?! – gritou Dokurei para os guardas que fugiam, se divertindo de forma doentia com o sofrimento deles. Os que não morriam instantaneamente, esma – Sintam isso! Sintam essa dor! Sintam esse ódio! Isso foi o que eu senti durante esses três anos! Engasguem nisso e morram, seus bastardos!

Sentiu seu rosto se contorcer em uma carranca a medida que via tudo aquilo. Maldição, parece que o poder de Dokurei não diminuiu em nada com o passar dos anos. Na verdade, não conseguia compreender como aquilo era possível, mas de alguma forma parecia que aquele homem havia se tornado ainda mais forte! Será que ele passou todo o seu tempo preso pensando em formas de utilizar melhor sua habilidade? Ou será que o simples ódio que ele tem por nós é tão grande que isso está servindo para lhe dar todo esse poder extra? Não importava, realmente. Tudo o que importa é que irei mata-lo!

– Saber – disse o diretor enquanto segurava sua espada com ambas as mãos. – Eu vou lidar com Dokurei. Certifique-se que os outros nã-

Foi interrompido no momento em que uma lâmina atravessou seu peito.

Aquilo era algo que ele realmente não esperava. Mas... como? Por quê? Cuspiu sangue ao tentar virar seu rosto para trás, mas no fim, conseguiu fazê-lo.

Atrás dele, Saber segurava em mão sua espada – a espada que havia literalmente apunhalado Kamlek nas costas – tudo isso enquanto mantinha no rosto um fino sorriso que poderia passar por apologético, não fosse os olhos risonhos dele que demonstravam a ironia daquilo.

– Desculpe, diretor. Você ainda está vivo, não é? – o sorriso apologético de Saber se transformou rapidamente em algo sádico, e Kamlek pode quase que instantaneamente sentir o vice-diretor girar a espada dentro dele, provocando cada nervo de dor em seu corpo. – Sinto por isso. Irei cuidar para que você morra logo, está bem?

Traidor! Deixou que a empunhadura de sua espada escorresse por entre seus dedos e sua arma caiu ao chão. No momento em que isso aconteceu, o sorriso no rosto de Saber alargou-se ainda mais, e Kamlek usou aquilo para identificar que aquela era sua chance ali. Virou-se de uma vez para aquele homem e aperto a mão que antes segurava sua espada ao redor do pescoço fino dele. Fechou-a e apertou com força, tentando literalmente quebrar aquele pescoço em pedaços com sua força, mas não importa o quanto se esforçasse ali, a expressão de Saber não mudava; ele parecia mais divertido do que tudo por aquilo. Não sorria, maldito seja! Eu quero que você se debata! Eu quero que você lute! Eu quero que você chore! Eu quero que morra de uma vez, seu traidor de merda, pedaço de lixo, estrume!

E foi então que sentiu algo quebrar suas costas e esmagar seu coração de uma única vez.

Virou seu rosto novamente para trás e viu que o responsável por isso havia sido o aparente líder do grupo que havia invadido sua prisão; o homem de cabelos longos. Miserável! Largou a mulher e tentou virar-se para aquele homem, mas no momento em que tentou isso, o homem retirou seu braço de seu peito, e quando isso aconteceu, sentiu como se toda a força que restava em seu corpo se esvaísse. Sua luta que antes era para que pudesse matar pelo menos um deles antes de morrer se transformou em uma simples luta para que conseguisse se manter de pé, e essa foi uma luta que ele perdeu por completo. Sentiu sua visão escurecer ao mesmo tempo em que seu corpo começava a cair no chão. Estou morrendo, compreendeu ele imediatamente, e em algo surpreendente para ele, sentia-se curiosamente tranquilo em relação àquilo.

– Opa, opa! – disse uma voz, e antes que ele atingisse o chão, sentiu uma mão fechar-se ao redor de seus cabelos e sustentar seu rosto erguido. – Não podemos deixar você morrer assim, não é, diretor? – a mão que segurava seu cabelo passou a segurar seu rosto diretamente, e por entre os mãos dos dedos, conseguiu ver o rosto sorridente de Dokurei lhe fitando. – Sua morte – disse ele, apertando sua cabeça – tem de ser por minhas mãos.

=====

Quando encontrou aquele homem novamente, ele estava se divertindo jogando uma moeda para cima e vendo o que dava, enquanto tomava goles de cachaça de tempos em tempos. Adorável, pensou sarcasticamente Scar Reinz, o chamado “Retalhador” do Olho Vermelho. Só espero que ele possa voar essa coisa bêbado. Podiam fugir dali agora a pé, uma vez que o real perigo que era Kamlek havia morrido, mas ainda assim, era importante que eles voltassem para sua base o mais rápido possível, e Skuld Didien era a chave para isso.

Ele não demorou a notar sua aproximação. Apanhou a moeda em uma de suas mãos, bebeu um último gole de sua cachaça e ergueu-se, batendo a poeira de suas calças.

– Ei, Scar! Bom ver você! – dentre todos ali, Skuld era o único que se referia a ele pelo seu nome real. A maior parte das pessoas referia-se a ele como “Retalhador” em sinal de respeito, medo, ou simplesmente por costume. No entanto, Skuld não se referia a ele por seu nome como um sinal de intimidade ou coisa do tipo; ele fazia isso simplesmente porque era um maldito idiota com uma falta completa de bom-senso. – Ei, eu... sabe, eu acho que vocês demoraram um pouco ali dentro, não é?

– Demoramos, sim – respondeu rispidamente Scar. Ainda lhe irritava tudo o que havia feito ali. Maldito idiota, esse Dokurei. Como se não bastasse toda a perda de tempo pela qual ele já nos fez passar, ele também inventou de arranjar papel para limpar sua mão depois de esmagar a cabeça de Kamlek. Se aquele homem tinha tanto nojo de deixar suas mãos sujas de sangue, então por que raios ele havia escolhido fazer isso?

– E... corrija-me caso eu esteja errado, mas no nosso acordo, você disse especificamente que seriam rápidos ali, certo? – perguntou Skuld, coçando a cabeça com uma das mãos.

– Grr... – apenas grunhiu em resposta a isso, já sabendo aonde aquele homem estava querendo chegar. Skuld, seu filho da puta, não se atreva. Se você fizer isso, eu juro que te mato assim que a guilda parar de ter um uso para seus serviços. Infelizmente, Skuld não era alguém facilmente intimidável.

– Sabe, Scar... – disse ele, movendo seus para que olhassem diretamente dentro dos de Scar. – Acho que precisamos conversar sobre isso.

Não respondeu nada sobre isso; apenas resmungou para si mesmo. Você está tão morto, seu filho da puta. Tirou um saco de moedas do seu cinturão e arremessou-o para Skuld, deixando que aquele homem apanhasse-o em mãos. Voltou a andar nesse momento, enquanto o bêbado maldito abria o saco e via as moedas de ouro dentro dele. Um sorriso tocou seus lábios quando ele viu aquilo.

– Bom, agora que já conversamos, acho que é hora de fazer meu trabalho, não é? – e esfregando as mãos, Skuld virou-se e começou a fazer sua parte.

Skuld era muitas coisas; um bêbado, um vagabundo, um pervertido, um ladrão e um apostador... mas se tinha uma coisa que ele tinha a seu favor era a sua habilidade. Ela geralmente seria algo feito para o combate, uma habilidade feita e usada apenas para tirar a vida dos outros, mas ele havia a adaptado e transformado-a em uma grande habilidade de movimentação, capaz de fazer com que pessoas cobrissem em uma hora uma distância que elas deveriam cobrir em um dia.

Estendeu suas mãos, concentrou energia ali e, a partir dessa energia, criou um grande dragão azul de pura energia, grande o suficiente para que todo o grupo – Scar, Tristah e J, os três prisioneiros e Saber – pudessem viajar nas costas dele.

– Muito bem! – gritou o vagabundo, e prontamente ele saltou, aterrissando sentado de pernas cruzadas em cima da cabeça de seu dragão. – Ei, só pra confirmar; vamos direto pra base, não é?

Abriu a boca para gritar que sim, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, foi interrompido.

– Vocês podem fazer isso, se quiserem – disse Dokurei, sorrindo de forma animalesca. Lançou um olhar irritado àquele homem, mas tudo que isso conquistou foi fazer com que o sorriso do Demônio Escarlate se alargasse ainda mais. – Eu te disse, não disse? Existem pessoas que conseguiram seu lugar no topo da minha lista. Vou fazer uma visitinha a elas, antes de tudo.



Notas finais do capítulo

Link para a discussão do capítulo no fórum:
http://igorescritor.forumeiros.com/t6-discussao-da-historia-paralela-1-o-demonio-escarlate#8

Bem, esse capítulo foi um tanto grandinho, não? Bem, não se preocupem. A maioria dos capítulos segue mais ou menos o tamanho do primeiro, não o desse.

... O que significa que tem mais ou menos 1000 palavras de diferença. Mas ei! Quanto mais, melhor! Certo?



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