O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 19
Recepção


Notas iniciais do capítulo

Yo! Pessoal! Faz tanto tempo que não nos vemos, hein? Saudades de mim? Claro que sim! Afinal, eu sou alguém verdadeiramente magnífico! Sentir saudades de mim é algo simplesmente natural, ora bolas.

Ah, sim, quero lhes informar algo. Esse pequeno arco aqui é um pouco diferente dos demais. Diferente dos outros arcos que foram predominantemente protagonizados por personagens meus, esse arco em questão é feito quase que inteiramente por personagens de leitores. Duke e Hozar são os únicos personagens meus aqui. Então, sim, esses personagens legais e originais que vocês vão ver aqui foram criados por outros leitores que nem vocês, meus chapas! Gostei bastante desse arco e espero que no futuro eu tenha a chance de fazer algo assim também, mas, por hora, vamos apenas deixar vocês apreciarem-no!

Eros, Nony, Murray, agradeço desde já aos três, que providenciaram os personagens desse arco!



– Então essa é a mansão? – o tom de voz que Hozar usava em suas palavras era mais do que o suficiente para deixar claro que ele não estava necessariamente satisfeito com o que via. – Eu... não esperava exatamente por algo assim.

Pelo que Odin havia dito, aquela mansão era abandonada a pelo menos algum tempo, mas francamente, não era essa a impressão que tinha ao olhar para ela. Sim, haviam algumas falhas que ele podia notar; o caminho até ela tinha alguns buracos, e mesmo da distância que estava ele podia ver alguns buracos também presentes nas telhas e paredes da casa principal. E no entanto, o jardim bem cuidado ao seu redor e a estufa de vidro que via a sua frente... tudo aquilo sugeria exatamente o contrário.

– Bom, esse lugar certamente tem muitas flores e... coisas verdes... pra um lugar supostamente abandonado. – a postura de Duke era despreocupada, ambas as suas mãos apoiadas na parte de trás de sua cabeça enquanto ele andava de forma desleixada, mas a fala que dele foi mais do que o suficiente para confirmar que ele havia estranhado aquilo tanto quanto Hozar. – Afinal, o que será que aconteceu? Será que aquele tal de Odin estava enganado?

– Improvável. Odin não é nenhum idiota, e você teria de ser um grande imbecil para não conseguir ver algo tão óbvio como isso – contrapôs Teigra, posicionada entre os dois homens, pousando uma mão sobre a empunhadura da katana que trazia em sua cintura. – E, francamente, é exatamente isso que faz com que isso seja tão estranho. É absurdo pensar que Odin tenha cometido um erro como esse, e ao mesmo tempo... é difícil contestar o que vemos diante de nós.

– Talvez essa seja uma miragem? – sugeriu Hozar, virando-se para ela. – Uma ilusão feita com algum motivo oculto.

– Não é esse o caso – disse prontamente Duke, balançando a cabeça. – Eu sou um mago, esqueceu? E sou mais atento e perceptivo do que vocês imaginam pra esse tipo de coisa. Se isso fosse uma ilusão ou qualquer coisa próxima disso, eu teria notado.

Estaria mentindo se dissesse que não havia se esquecido de que Duke era um mago. Não é necessariamente como se isso fosse algo difícil de se esquecer. Não havia absolutamente nada em Duke que dizia que ele era um mago; a forma de agir daquele homem era totalmente diferente do que o que era normalmente associado aos magos, e o próprio estilo de luta que ele assumia parecia mais algo digno de um verdadeiro guerreiro do que de um mago. Isso dito, essa é uma das vantagens dele. A maioria dos inimigos provavelmente deve assumir que a sua capacidade de reforço se trata de uma Aloeiris, e isso faz com que eles estejam preparados com algo completamente errado em mente. Apesar de que... aquilo era curioso. Não consigo deixar de me perguntar... se isso tudo é apenas a sua magia, qual será a capacidade que ele terá quando alcançar sua Aloeiris?

De qualquer forma, supunha que não fazia sentido parar para pensar em algo assim agora.

– Muito bem... qualquer que seja o caso, creio que a nossa missão não mudou – disse Hozar, cruzando os braços enquanto fitava a estufa. – Teremos de ser um pouco mais cuidadosos, mas ainda devemos ao menos investigar a mansão, ver se conseguimos alguma coisa que possa ajudar Odin e Kastor. A questão apenas é... essa estufa está na frente da mansão, na frente da entrada principal. – entortou um pouco a cabeça, como se mudar um pouco o ângulo de sua visão fosse deixar que visse algum tipo de segredo ali. Não teve sucesso nisso. – Me pergunto... devemos contorna-la, ou passar por dentro dela?

– Passar por dentro dela? – o tom de voz de Teigra ao repetir sua fala era o bastante para deixar claro que ela não gostava nada daquela ideia. – Você deve estar brincando, não é, Hozar? Essa estufa é obviamente uma armadilha. Deveríamos evita-la.

– Sim, a estufa é obviamente uma armadilha – concordou ele, acenando levemente com a cabeça antes de voltar-se para ela. – Mas lhe pergunto: a armadilha está dentro ou fora dela?

A expressão de confusão apenas ficou no rosto da cavaleira por um único instante antes que a compreensão se espalhasse por ele. Duke, no entanto, não teve a mesma sorte. O olhar do Titã passou para Teigra, Hozar, Teigra de novo e tornou a cair sobre Hozar. Quando viu que nenhum parecia disposto a se manifestar em algum tipo de resposta foi que ele suspirou audivelmente e franziu as sobrancelhas, irritado.

– Muito bem, muito bem – disse ele, impaciente. – Alguém aí se importa em me explicar do que porra vocês estão falando?

Hozar olhou para ele mas não manifestou-se de forma alguma em dar uma resposta. Se lhe questionassem sobre isso ele negaria até a morte, mas a verdade é que gostava de irritar levemente as pessoas assim, deixar que alguém ficasse um pouco frustrado antes que ele finalmente lhe fornecesse uma resposta decente. Fruto da influência de Kastor, suponho eu. Sou capaz de apostar que metade das vezes que ele nos irrita, ele faz isso de propósito.

Infelizmente para ele, Teigra não compartilhava das mesmas diversões, e isso fez com que ela rapidamente arruinasse a graça das coisas.

– A estufa parece uma armadilha óbvia, e é claro que ela foi colocada aqui por mãos humanas – disse ela, calmamente. – Instintos e bom-senso dizem que devemos evita-la, mas pode ser exatamente isso que o inimigo planeja. Talvez ele colocou a estufa aqui justamente para que assumamos que ela é uma armadilha e tentemos evita-la, apenas para cair na verdadeira armadilha. Ou seja, a função dela ali pode ser para nada mais do que manipular nossas ações.

– Obviamente, isso não é uma certeza – adicionou Hozar, já que sua diversão havia sido estragada. – Pode ser que a estufa realmente tenha uma armadilha. Ou pode ser que eles tenham colocado armadilhas tanto na estufa quanto em rotas paralelas. É simplesmente impossível para nós dizer qual é o caso, Duke, e isso é o que faz dessa uma situação complicada.

– Hmm... – murmurou o Titã, apoiando seu queixo sobre dois de seus dedos, parecendo estar pensando no que haviam lhe dito. – Bem, porque apenas não invadimos pela frente?

– É isso que estamos considerando, Duke – disse pacientemente Teigra. – Estamos considerando se a melhor alternativa é realmente passarmos por dentro da estufa para evitarmos armadilhas, ou ao menos as piores armadilhas.

– Quem disse algo sobre evitar armadilhas aqui? – questionou Duke, erguendo uma de suas sobrancelhas. – Vamos pela porta da frente e que se explodam as armadilhas. Damos conta disso.

– Avançar direto, ignorando qualquer armadilha no caminho? – o tom de voz da cavaleira deixava claro qual era a opinião dela acerca daquilo. – Essa é uma ideia no mínimo estúpida, Duke. Estamos na desvantagem aqui. Não sabemos quantos inimigos temos diante de nós, não sabemos quais são as habilidades deles, não sabemos nem qual é sua localização exata. Temos problemas aqui o suficiente sem termos de lidar com uma armadilha. O mais sensato aqui é que pensemos em uma forma de contorna-las.

– Que forma de contorna-las? – tornou ele, prontamente. – Você e Hozar acabaram de me dizer que vocês não sabem aonde estão essas armadilhas, não é? Não, risque isso; vocês não sabem nem sequer se existem armadilhas aqui. Como raios vamos contornar algo que nem sequer sabemos se existe? Poderíamos ir para a direita, para a esquerda, por trás ou pela frente, e no fim das contas, tudo seria o mesmo! Podemos ficar o dia todo aqui pensando no que fazer, mas no fim das contas não chegaremos a decisão nenhuma, e isso significará que estamos apenas perdendo tempo! Tudo que temos de fazer é seguir em frente, e se realmente tiver uma armadilha em nosso caminho, tudo que temos de fazer é lidar com ela e seguir em frente!

Teve que controlar uma gargalhada que ameaçou subir aos seus lábios ao ouvir aquelas palavras. “Lidar com ela e seguir em frente”? Isso parece algo que Kastor diria. Não sabia se isso era fruto da influência de Kastor nele através do tempo ou se era algo natural dele, mas conseguia ver algumas semelhanças entre os dois, e não conseguia deixar de divertir-se com isso.

– Além do mais! – declarou Duke subitamente, batendo no próprio peito e lançando um sorriso para Teigra. – Se qualquer coisa acontecer, pode confiar em mim, minha linda espadachim do fogo! Eu sou Duke Graham, o homem dentre os homens, e juro por minha masculinidade que te protegerei te todo mal!

... Bom, a estupidez dele certamente está no mesmo nível da de Kastor.

– Me proteger? – a forma como Teigra cuspiu as palavras sugeria que ela achava aquilo tão estúpido quanto Hozar havia achado. – Creio que você pode ficar um pouco desapontado com isso agora, Duke. Depois da nossa missão, você deveria saber isso melhor do que ninguém; eu não preciso que ninguém me proteja. Não mais.

A única resposta que Duke deu a isso foi sorrir, como se estivesse dizendo “sei o que você quer dizer”.

– Muito bem, creio eu que está decidido o que vamos fazer então – declarou Hozar, em alto e bom som. – Vamos lá, vocês dois. Caminho direto.

E sem dar a chance para que qualquer um dos dois erguesse uma reclamação a isso, começou a seguir em frente, forçando a mão deles. Não concordo com tudo que Duke disse, mas ele levantou um bom ponto em seu argumento: não vamos fazer nada se ficarmos apenas parados aqui pensando no que fazer. Se pretendiam conseguir alguma coisa ali, tinham de tomar a iniciativa e ir em frente. Se tiver uma armadilha diante de nós, tudo que teremos de fazer é lidar com ela. Somos mais do que capazes disso.

Logo notou algo interessante; apesar de ser de vidro, ele não conseguia ver dentro da estufa. Por algum motivo, a medida que se aproximava ele notou que a imagem dela não era transparente, não deixava que ele visse o que acontecia dentro dela, mas sim tinha um efeito similar ao de um espelho, refletindo as imagens que vinham de fora. Isso não faz sentido. Uma estufa servia para o cultivo de plantas e verduras, e para esse cultivo você precisava deixar a luz passar. Se a estufa está refletindo a imagem, então ela está refletindo a luz, e isso vai diretamente contra a razão de toda a existência de uma estufa. Ter esse conhecimento já foi o bastante para que ele erguesse sua guarda e afiasse um pouco os olhos, olhando mais atentamente ao redor. Pelo visto Teigra estava certa. Isso é uma armadilha.

Aquele não era um efeito apenas do exterior. Assim que ele adentrou da estufa, Hozar notou que o vidro dela refletia o que transcorria por ali da mesma forma, como se ele estivesse passando por dentro de um salão de espelhos. Aquilo lhe incomodava mais do que deveria, lhe dava a constante impressão de que estava sendo observado por alguém, mas conseguiu de alguma forma lidar com essa sensação, o suficiente para que olhasse bem o ambiente que lhe cercava. Ao invés do que esperava considerando toda a questão da luz, a estufa estava repleta de verde; conseguia ver rosas das mais diferentes cores por todo canto, e com base no número de macieiras que se esgueiravam entre elas, quem quer que fosse o dono daquele lugar gostava bastante de maçãs.

Mas mais do que isso, no centro daquela estufa tinha uma mesinha branca, e nessa mesinha estava uma... coisa.

Queria chama-la de “mulher”, mas censurava-se mentalmente quanto a isso já que sabia que não era esse o caso. Suas formas lembravam a de uma, sim, mas a pele extremamente branca que ela tinha deixava claro o bastante que aquela definitivamente não era uma mulher. Ela tinha um rosto delicado e jovial, um corpo com curvas nos lugares certos, mas o branco de sua pele somado ao branco de seus cabelos e até mesmo seus olhos eram o suficiente para perturbar bastante qualquer um que olhasse em sua direção. É como se ela fosse feita de pura neve ou massa branca, como se ela fosse algum tipo de boneca moldada aos desejos de alguém. As roupas que ela usava eram provocativas, também; tinham um bom decote nos seios, quadris, cintura, e vários pedaços que deixavam a mostra parte de suas pernas e braços. Correntes de ferro também corriam pelo corpo dela, entretanto, envolvendo seus braços, torso, pernas e cinturas, como se fossem várias serpentes enroscadas ao redor dela. À sua frente, três caixas em forma de maçã reluziam: uma amarela, uma vermelha-alaranjada e uma preta-roxeada. De alguma forma, Hozar não conseguia tirar de sua mente o fato de que essas caixas não deviam servir apenas como decorações. Um pouco mais adiante, um bule e algumas xícaras de chá estavam servidas, como se ela estivesse esperando pela chegada do trio.

Quando viu os três, ela sorriu de forma doce e sensual.

– Ora, aqui estão os visitantes. E entre eles, dois lindos homens. Isso me alegra tanto... – uma de suas mãos deslizou, um de seus dedos traçando o contorno da sua perna de forma provocante enquanto ela mantinha seus olhos especificamente sobre Duke e Hozar, não tentando nem sequer disfarçar a sedução ali. – Vocês devem poder imaginar isso, mas uma mulher como eu fica muito solitária em um lugar como esse. Digam... algum de vocês, cavalheiros, seria gentil o suficiente para fazer companhia para uma dama como eu e compartilhar um pouco de... chá de maçã?

Sentiu-se ligeiramente irritado por aquilo, não necessariamente pelas palavras que ela havia usado ou pela tentativa de sedução, mas sim pelo fato de que ela parecia honestamente esperar que eles caíssem em algo tão estúpido assim. Quem raios ela pensa que somos? Será que ela realmente imagina que exista no mundo alguém idiota o suficiente para cair em uma armadilha tão ob-

EU! – o grito foi tão alto e tão súbito que ele realmente chegou a assustar Hozar, quase fazendo com que o cavaleiro saltasse para trás com o susto. Virou-se irritado para ver o responsável por isso, mas só pode ver um vulto. Teve de tornar a virar seu rosto para frente afim de ver o que estava realmente acontecendo ali, e fez isso apenas para ver Duke Graham subitamente sentado à mesa junto da mulher, olhando-a atentamente como se ela fosse a coisa mais importante do mundo. – Não se preocupe, minha bela donzela. Eu, Duke Graham, estarei mais do que contente em lhe fazer companhia!

Por um momento não pode acreditar que ele estava falando sério com aquilo. Isso deve ser sarcasmo da parte dele. Ou talvez ele esteja apenas tentando tapeá-la. Isso, ele está tentando enganar essa mulher, fingir que está caindo na armadilha dela para poder ataca-la quando ela estiver desprevenida.

No entanto, quando ele viu Duke bebendo do chá que ela oferecia enquanto conversava animadamente com ela e lembrou-se de como aquele homem era um completo mulherengo, não pode mais mentir para si mesmo. Raios... partam... DUKE!

Seu avanço foi rápido, tão furioso quanto o próprio Hozar estava. Avançou contra ela sem medo, alcançando a mesa bem antes do que ela esperava. O treinamento com Kastor valeu a pena, pelo que parece, foi o pensamento que cruzou sua mente no momento em que acertou um poderoso soco com toda a sua força diretamente no rosto dela. Teve um momento para apreciar o rosto daquela mulher se amassando perante ao seu punho antes que ela fosse arremessada para trás com uma força monstruosa, como se fosse pouco mais do que um saco vazio, quicando no chão com força o suficiente para arrancar uma boa parte dele antes de pôr fim bater no vidro... e surpreendentemente, não quebra-lo. Tal como eu pensei, tem muitas coisas estranhas aqui. O vidro havia trincado bastante, mas o fato ´é que ele devia ter se quebrado direto com um impacto como aquele. Além disso... Sangue devia vir de um golpe como esse, mas não vejo sangue nenhum aqui. E além do mais... a sensação que tive quando soquei ela não foi a de estar socando qualquer coisa próxima de um humano. Foi como se eu estivesse dando um soco em uma placa de ferro.

– Ei, ei, ei, ei, ei! – gritou Duke em protesto, praticamente saltando de sua cadeira para ir encarar Hozar. – Que diabos é isso, Hozar? O que você pensa que está fazendo, batendo na dama assim tão subi-

Não lhe deu a chance de terminar. Antes que a frase de Duke fosse completada o punho de Hozar já havia achado seu caminho até a boca do estômago do Titã. Por um momento Duke não fez nada além de arregalar os olhos enquanto fitava Hozar, mas isso não durou muito. Deu um passo para o lado, bem a tempo de evitar o vômito de Duke quando o corpo dele subitamente curvou-se para frente. Foi rápido também em saltar para trás, evitando por pouco o punho de aço do Titã que subiu em direção ao seu queixo.

– Que porra você pensa que está fazendo, seu cavaleiro cinzento de merda?! – exclamou Duke, verdadeiramente irritado agora. Ao mesmo tempo em que ele mantinha seu punho de aço erguido, conseguia ver pedra começar a se estender por suas pernas, torso e outro braço, um sinal claro de que o homem estava preparado para uma luta ali. – Eu não sei se você é um otário ou se você perdeu a cabeça ou até mesmo se você está sendo controlado pelo inimigo, Hozar, mas eu sei que não vou ficar aqui parado apanhando gratuitamente! É melhor que você tenha uma boa desculpa pra isso, ou eu quebro-lhe a cara!

Não se intimidou por aquilo. Realmente, esse homem pode ser bem forte, mas isso não muda o fato de que ele também é extremamente estúpido. Gostava de pensar que a força de Duke era diretamente proporcional a sua capacidade de perder três-quartos do seu QI de uma hora pra outra.

– Você bebeu chá servido por uma inimiga – apontou calmamente Hozar, fazendo com que Duke erguesse uma sobrancelha em uma pergunta muda. – Nunca lhe ocorreu que o chá poderia estar envenenado? Talvez não um veneno muito forte já que você claramente não está sentindo efeitos dele, mas ainda existe essa possibilidade. Com algo assim não se brinca. Não sei se isso vai salvá-lo de um veneno, mas regurgita-lo assim rapidamente deve servir ao menos para reduzir os efeitos que ele vai ter sobre você.

Tinha de admitir; foi consideravelmente hilariante ver a fúria de Duke transformar-se rapidamente em medo e susto. O Titã olhou para seu vômito no chão e depois olhou prontamente para as xícaras de chá que continuavam sobre a mesa – apenas para prontamente chutar elas e a mesa para longe dali. Ouviu Teigra suspirar e murmurar algo como “idiota” entre os dentes, mas aparentemente o próprio Duke em si não chegou a ouvir isso, preocupado demais com a possibilidade de ter bebido veneno.

No entanto, o que veio a seguir pode ser ouvido claramente por todos eles ali.

– Não é veneno, não precisa se preocupar com isso – disse a voz doce da criatura que Hozar havia golpeado momentos atrás. – Isso era apenas chá de maçã, tal como eu falei. Recepciono bem os que veem até aqui... até porquê, geralmente não se trata de muitas pessoas.

A atenção do trio voltou-se para ela justamente no momento em que a mulher erguia-se dos escombros. A visão que tiveram era bizarra; o rosto dela estava claramente completamente deformado pelo soco de Hozar, um grande pedaço de seu ombro direito estava faltando e seu braço direito estava virado em uma forma claramente anormal, mas ela não parecia se importar com isso, e o porquê disso logo se mostrou. Diante dos olhos de todos ali, o corpo dela se regenerou; seu rosto voltou a normal, massa surgiu e fechou o buraco que havia ficado em seu ombro e o braço dela girou por conta própria como se estivesse possuído por um demônio até assumir sua posição normal novamente. Como eu pensei. Ela não é nada sequer perto de um humano.

– Sabem, é uma pena que vocês tenham decidido partir logo para a briga assim – disse ela, sorrindo de forma doce e falsa. – Desde o primeiro momento em que vocês chegaram aqui, a morte de vocês estava decidida. Eu queria que vocês imitassem as rosas antes de morrer.

– Imitar as rosas? – repetiu Duke, sem entender. – Que raios tu quer dizer com isso?

– Ora, exatamente o que eu disse – respondeu ela, sem realmente dar ajuda alguma para facilitar a compreensão de tudo aquilo. – Rosas... rosas mortas são coisas realmente horríveis de se ver, não é? Murchas e negras depois que toda a vida foi tirada delas, com uma textura que faz com que elas pareçam mais pedaços de carvão... não gosto delas. Mas enquanto vivas, as rosas são lindas, belíssimas, as mais belas das flores. Queria que vocês as copiassem. Depois de mortas, as pessoas ficam horríveis, mas enquanto estão vivas, enquanto sorriem e se divertem, as pessoas são belas, todas elas. Eu queria que vocês tivessem um pouco de beleza antes de morrerem.

– Isso é desnecessário da sua parte – retrucou Hozar, olhando seriamente para ela enquanto seus dedos estalavam-se um a um pelo simples movimento de seus músculos neles. – Nós não precisamos dessa beleza, simplesmente porque não vamos morrer. Alguém como você está longe de ser o suficiente para matar qualquer um de nós.

O sorriso que ela lhe mostrou parecia dizer “é mesmo?”.

– Você está me subestimando um pouco, não acha? – questionou ela, provocante, dando alguns pequenos passos para frente. – Eu sou Kat, conhecida como “fantasma do chá”. Por ordens de minha senhora, meu dever é recepcionar os visitantes e convidados. Vocês são visitantes. Ao contrário do Olho Vermelho, vocês não receberam um convite. Isso significa que não será permitido que nenhum de vocês saia daqui com vida.

Uma das mãos dela estendeu para a sua frente, e subitamente a caixa amarela que ela antes tinha na mesa surgiu ali, pairando no ar. Dedos finos e longos fecharam-se ao redor da tampa da caixa, e no momento em que isso aconteceu, Hozar pode sentir uma forte pressão cair sobre o ar. Algo está vindo!

Fruto Proibido – disse calmamente Kat, sem tirar os olhos do cavaleiro cinzento. – Maçãs do Amanhecer.

Quando a mulher disse aquelas palavras, esperava que algum tipo de ataque fosse lançado contra ele, mas nunca esperou que isso fosse ser tão rápido assim. Assim que os dedos dela retiraram a tampa da caixa, uma grande onda de chamas imediatamente emergiu dali. Aquelas eram chamas fortes, disso não tinha dúvida; mesmo da distância que estava, conseguia senti-las como se estivessem bem diante de seus olhos... e não demorou muito para que elas realmente estivessem tão perto assim. Teve de saltar rapidamente para o lado afim de evitar o ataque, e nem sequer teve tempo para averiguar se seus companheiros haviam conseguido fazer o mesmo antes de ver a onda de fogo seguindo novamente em sua direção. Tch... acha mesmo que algo tão simples assim vai ser o suficiente para fazer alguma coisa contra mim? Aquela mulher estava lhe subestimando demais, e não gostava nem um pouco disso.

Bateu um punho no outro e concentrou-se por um instante para que sua própria habilidades se ativasse. Cerberus! As chamas ardentes do Cão do Inferno surgiram ao redor de Hozar, e foram elas que ele usou para confrontar as chamas daquela coisa. Fogo chocou-se contra fogo, criando uma verdadeira reação explosiva ali, fazendo com que as chamas dançassem para todos os lados, chegando até mesmo a beijar a lateral do rosto de Hozar. Não vacilou, nem diante disso. Se essa mulher acha que fogo simples vai ser o suficiente para me derrotar, então vou dar-lhe um despertar doloroso!

Cerberus! – exclamou ele, convocando forças dos confins de sua alma e concentrando-as ao redor de seus punhos, erguendo estes acima de sua cabeça sem esconder a brutalidade em seus movimentos. – Erupção Vermelha!

Seus punhos quebraram o chão abaixo de si, e através do buraco que eles criaram ali, as chamas concentradas ao redor de seus punhos seguiram, correndo por debaixo do solo, quase que invisíveis. Se seguissem assim elas seriam completamente inofensivas, mas essa Hozar não tinha a menor intenção de mantê-las assim. Explosões se ergueram do subsolo, gêiseres vermelhos e ardentes que, ao se envolverem no confronto entre as suas chamas e as da mulher, fizeram com que toda aquela misture saísse completamente do controle, deixando as chamas consumirem praticamente todo o ambiente, apesar de que numa intensidade muito menor do que antes. E isso apenas era mais do que perfeito para Hozar.

Precisou de apenas um instante para dobrar seus joelhos e lançar-se em direção a sua oponente. Não tinha nem de longe uma velocidade tão grande quanto a de Kastor, mas tinha muita força física, e sabia utilizá-la muito bem. Da mesma forma que o cavaleiro azul sabia usar de sua velocidade e aceleração para aumentar a força por trás de seus golpes, Hozar sabia usar de sua força bruta fenomenal para lançar-se em alta velocidade contra seus oponentes. Usando algo assim, eu não tenho praticamente nenhuma mobilidade, não posso fazer nada mais do que seguir em frente... mas isso é o suficiente. As chamas haviam criado uma grande cortina de fogo que cobria todo aquele lugar, incluindo o próprio Hozar; ao mesmo tempo, no entanto, a intensidade das chamas havia sido reduzida o suficiente pela dissipação dela que seus gêiseres haviam causado que elas simplesmente não causavam dano sobre o cavaleiro cinzento, principalmente não com a grande velocidade na qual ele se movia. E isso lhe deu a chance perfeita de aproximar-se daquela mulher.

Não se deu ao trabalho de tentar socar o rosto dela dessa vez. Havia visto ela se regenerar dos ferimentos que havia lhe causado com seu soco anterior, e não estava disposto a dar uma chance para que isso se repetisse. Ela já provou que é capaz de se recuperar de danos consideravelmente superficiais. Mesmo que eu arranque uma parte de seu corpo como um pedaço do ombro ou da perna, essa ferida irá se regenerar. No entanto... me pergunto se ela é capaz de regenerar todo seu corpo depois que eu reduzi-lo a cinzas!

Seu punho perfurou diretamente o peito dela, atravessando-a entre os seios até que seu braço saísse do outro lado. Sangue nenhum manchou sem braço ou veio da ferida, mas isso não foi algo que lhe surpreendeu; desde o momento em que compreendeu que aquela mulher não era humana ele não havia esperado ver sangue ali. Dizem que o que não sangra não pode morrer... hora de ver se isso é mito ou verdade. Usou de um pouco de concentração e logo fez com que chamas de Cerberus surgissem ao redor do braço que havia usado, tanto a partir de seu ombro quanto a partir da palma de sua mão. Ambas as chamas correram por seu braço, e ao encontrarem-se no meio do trajeto – dentro do corpo daquela mulher – geraram uma explosão. Nada muito grande, nada muito espalhafatoso... mas o suficiente para partir o corpo dela em milhares de pedaços e arremessa-los por toda aquela estufa.

– Caceta Hozar, que tal um aviso antes de você mandar um monte de chamas contra a gente?! – virou-se para ver quem falava, mas francamente, já sabia quem era. Somente um de nós tem um modo de falar assim tão rude. Duke Graham jazia há uma certa distância dele, seu corpo coberto por pedras que ele havia adquirido com a ajuda de sua magia, aparentemente tendo usado-as para proteger-se das chamas. Teigra estava um pouco para o lado dele, segurando em mãos apenas a empunhadura de sua espada com a lâmina já desaparecida, um sinal bem claro de que ela havia usado das suas capacidades de manipular o fogo para proteger-se daquilo.

– Um aviso para vocês iria avisar também o inimigo do que eu iria fazer – apontou calmamente Hozar. – Além do mais, eu simplesmente não me dei ao trabalho de me preocupar com algo assim. Eu sei que você e Teigra são fortes demais para serem feridos por algo assim, quanto mais mortos.

Duke não sorriu ou coisa do tipo ao ouvir aquilo, mas a curta pausa que o homem teve antes de retornar as suas ações normais foi o suficiente para que Hozar soubesse que o seu sutil massageio do ego dele havia sido efetivo.

– Ainda assim, espalhar chamas por aí não é necessariamente a melhor coisa que pode ser feita – insistiu Duke, gesticulando, chamando a atenção para a estufa em si. Todas as plantas e o verde que existia ali antes simplesmente não existia mais. As chamas não haviam sido fortes o suficiente para fazer algo verdadeiramente agressivo como transformar tudo em cinzas ou queimar por completo as árvores, mas ainda assim, elas haviam sido o bastante para tirar toda a beleza que aquele lugar outrora teve. – Tenha um pouquinho mais de cuidado da próxima vez, sim?

– Não vai ter próxima vez, humanos – advertiu uma voz conhecida e inesperada.

Seus olhos correram mais uma vez pelo ambiente ao ouvir aquilo, dessa vez muito mais cautelosos. A voz vinha de todos os cantos, e se ela por si só não fosse o bastante para dizer quem é que falava, isso fazia o trabalho. Então ela pode sobreviver mesmo depois de ser feita em pedaços? Uma habilidade de regeneração como essa era algo muito superior a tudo que já havia visto. Nem mesmo Kastor poderia se regenerar depois de ser feito em pedaços assim. Isso é uma morte instantânea, e habilidades de regeneração só podem surtir efeito se o indivíduo ainda estiver vivo. E não havia um único ser vivo no mundo que podia sobreviver depois de ser literalmente explodido em pedaços. O que em outras palavras significa que... essa mulher... ela não está realmente viva?

– Vocês... vocês merecem uma medalha – disse a voz de Kat, e dessa vez Hozar pode identificar um ponto do qual ela estava vindo. Virou-se em direção a esse ponto e pode vê-la ali, ou melhor dizendo, pode ver os pedaços do corpo destruído dela se juntando, misturando-se um ao outro e lentamente tomando novamente a forma dela. – Eu normalmente sou famosa por ser uma das mais calmas entre os Recipientes da nossa senhora. Com exceção do Z, sou a mais difícil de irritar entre todos eles... com apenas uma exceção a essa regra. Minha estufa é sagrada. – a forma daquela mulher foi totalmente reconstruída naquele momento, e quando isso aconteceu Hozar pode ver em primeira mão exatamente a quão furiosa ela estava. Se antes ela tinha feições belas, sedutoras e provocativas, a expressão que cobria seu rosto agora era como uma caricatura, uma máscara do rosto de um demônio. – As macieiras... as rosas... deu muito trabalho cultivar tudo isso. Elas tornavam esse lugar belo, agradável... e você acabou de destruir isso. Não pense que vou perdoá-lo!

Tão magicamente quanto da primeira vez, uma das caixas em forma de maçã tornou a aparecer na frente daquela mulher. No entanto, ao invés da primeira que era amarela, essa era a caixa vermelha-alaranjada. Quando ela abriu a caixa amarela antes, ela subitamente ganhou o poder de usar aquelas chamas dela. Tinham três caixas sobre a mesa antes... isso significa que, abrindo cada uma daquelas caixas, ela ganha uma habilidade nova? Se fosse esse o caso, deveria parar aquela mulher antes que ela tivesse a chance de se tornar mais forte... mas já era tarde demais para isso.

Fruto Proibido – disse ela, seus dedos puxando a tampa da caixa para revelar uma fumaça de estranha cor metálica. – Maçãs do Meio Dia!

Aquilo não foi nem de longe tão espalhafatoso quanto o que aconteceu quando a primeira caixa foi aberta. A fumaça foi tudo o que veio dali, e mesmo essa foi prontamente absorvida pela mulher aspirada por suas narinas sem deixar nada escapar. Mas o que ela está fazendo? O último poder dela veio diretamente na forma das chamas que vieram da caixa. Isso significa que agora ela ganhou o poder da fumaça ou coisa do tipo?

Soube que não era esse o caso um minuto depois.

Com um forte puxão a mulher arrancou uma das correntes que envolviam seu corpo, mantendo sempre o seu olhar fixo e furioso sobre Hozar. Espere... eu não notei isso antes, mas as correntes também continuam ali? Isso é impossível, eu as explodi. Mesmo se ela conseguiu de alguma forma reconstruir seu corpo, o mesmo não deveria valer para as correntes. Não teve resposta para essa dúvida, no entanto. Kat logo arremessou a corrente contra ele como se fosse uma flecha, em algo que fez com que Hozar erguesse uma sobrancelha. O que ela está planejando? Correntes não funcionam dessa forma. Se ela planeja me prender com ela ou coisa do tipo, seu arremesso devia ser diferente. Da forma que o fez, parece que...

Compreendeu o que ela queria fazer imediatamente quando viu uma ponta como a de uma lança guiando a corrente.

Teve reflexos rápidos e deu um passo para o lado pouco antes dessa lhe alcançar, conseguindo fazer com que ela só passasse direto pelo ar. Entendo! Então essas caixas lhe dão o poder de manipular o ferro! Agarrou-a com uma das mãos e puxou bruscamente a corrente em sua direção, fazendo com que o mesmo fosse feito com a mulher. Teve algum sucesso com isso, mas antes que ela chegasse perto o suficiente para que pudesse lhe acertar de novo a mulher partiu a corrente e foi rápida em compensar a distância que havia perdido com alguns saltos para trás. Isso vai ser complicado. Habilidade de manipulação do fogo, habilidade de manipulação do ferro... e ainda existe uma caixa que ela não abriu. Isso sem falar das habilidades de regeneração dela...

– Hozar, Duke – disse subitamente Teigra, atraindo a atenção tanto do Deus da Guerra quanto do Titã para ela. Os olhos da Sétima Cavaleira estavam fixos sobre Kat, analisando cada passo de sua oponente. – Sigam em frente, vocês dois. Eu vou ficar aqui e lidar com ela.

Dizer que aquilo não lhe surpreendeu seria uma grande mentira. Planeja lidar com ela? Sozinha? O que motivou algo assim? Não teve a chance de fazer sua pergunta; Duke foi mais rápido.

– O que raios você pensa que está fazendo, Teigra?! – exclamou ele, muito menos controlado do que seus dois companheiros. – Lutar sozinha com essa mulher é estúpido! Temos a vantagem numérica aqui; podemos arrebentar com ela!

– As coisas não são tão simples assim, Duke – contrapôs Teigra, pacientemente. – Essa mulher disse que faz parte de um grupo aparentemente chamado de “Recipientes”. O uso dessa palavra no plural sugere para mim que existem outros além dela, e se eles possuírem metade das habilidades que ela possui, então eles certamente serão problemáticos de se lidar. Mais importante que isso, considerando que eles são um grupo, as chances de que todos eles tenham uma boa habilidade de trabalho em conjunto é grande, grande demais para arriscarmos. Cada minuto que perdemos parados aqui é não somente um minuto que damos a eles para chegarem e nos confrontarem em seu poder total como também um minuto que damos a quem quer que seja a líder dela para que realize uma fuga. Não podemos nos dar a esses luxos. Essa mulher é obviamente um oponente muito forte para que possamos apenas ignorá-la e seguir em frente; um de nós é necessário para mantê-la aqui. Não é nada menos do que o esperado que eu seja aquela a fazer isso.

– Você? – questionou Hozar, curioso. – Não pretendo lhe subestimar, Teigra, mas não consigo ver o motivo pelo qual você seria a pessoa mais adequada a lidar com isso. Eu tenho tido um bom desempenho contra essa mulher até agora.

– Você também é quem está liderando o nosso pequeno grupo nessa missão, assim como é o mais poderoso de nós – apontou ela, sem nem virar-se para ele. – Deixar que você ficasse para trás aqui quando temos outros inimigos adiante, possivelmente até mais fortes do que essa mulher, seria um erro colossal.

– Ei, e eu?! – perguntou Duke, apontando com seu polegar para si mesmo enquanto acenava com a outra mão, tentando chamar atenção. – Eu posso lidar com ela!

– Não, você não pode – murmurou Teigra, e dessa vez ela chegou a se virar, ainda que apenas um pouco, só o suficiente para que ela pudesse olhar para Duke. – Você é forte, Duke, e incrivelmente corajoso também, mas existe algo que lhe impede de lidar com essa mulher: você não suporta ferir uma mulher. Durante o Torneio de Valhala, você se meteu na luta entre Kastor e Kyanna para protege-la, e durante a nossa luta você enfraqueceu sua própria armadura para me proteger das minhas chamas. Mesmo quando enfrentamos Dwyn você foi o primeiro e mais teimoso de nós a levantar-se em batalha, simplesmente porque ele estava atrás de mim. Não é difícil notar que você, por algum motivo, é de certa forma protetivo de mulheres.

– Mas isso não me impede de lutar com ela! – insistiu ele, gesticulando enquanto falava. – É verdade, eu realmente não gosto tanto de ferir mulheres, mas se isso é necessário, então eu não vou hesitar em fazer isso!

– E essa é a questão; isso não é necessário. – disse Teigra, deslizando um de seus dedos para dentro dos bolsos de sua calça, fuçando ali em busca de alguma coisa. – Não me entenda mal, Duke. Eu sei o que você quer fazer e aprecio isso, mas ao mesmo tempo, quero evitar isso também. Se eu posso, quero evitar que você faça algo que não lhe agrada. Vá em frente com Hozar. Eu cuidarei dessa mulher.

A mulher em questão apenas observava tudo aquilo. Ela não estava parada, obviamente – chamas haviam voltado a cerca-la, surgidas subitamente como que por combustão espontânea, e naquele exato momento ela estava ocupada manuseando suas correntes de ferro entre os dedos, dando-lhes pontas e fios capazes de cortar um homem em pedaços. E no entanto, em momento algum ela fez um movimento para tentar impedi-los; ficou simplesmente parada, observando tudo com atenção em silêncio, esperando que resolvessem aquilo. Não sei se ela está fazendo isso em respeito, por não se importar ou pensando que isso é vantagem dela, refletiu Hozar, mas qualquer que seja o caso, devo lhe agradecer por isso. Não teria sido algo nada agradável caso ela decidisse lhes atacar enquanto estavam resolvendo aquela questão.

Mesmo depois de tudo que Teigra havia lhe dito, Duke não parecia estar completamente certo sobre o que fazer ali; tinha se movido um pouco como que para acompanhar Hozar, mas seus olhos ainda continuavam a cair continuamente sobre Teigra, temerosos em relação a abandoná-la. Não vamos chegar a lugar nenhum se continuarmos assim. Duke estava indeciso demais, e por isso Hozar decidiu que era hora de forçar a mão dele; partiu correndo sem aviso, fazendo com que um grito surpreso viesse de Duke, pedindo-lhe para parar. Ignorou-o por completo. Considerando tudo, a única forma de fazer Duke tomar uma decisão é colocando-o em uma situação de nadar ou afundar, em uma situação em que ele tem de rapidamente escolher entre uma coisa ou outra. Logo viu que havia sido bem sucedido com isso; demorou um pouco, mas os passos de Duke ressoaram em seus ouvidos, tal como as várias pragas que o Titã agora cuspia, frustrado e irritado por ter sua mão forçada daquele jeito. Não deu importância a elas.

Passaram ao lado de Kat sem encontrarem resistência alguma por parte dela; aquela mulher não havia nem sequer de dignado a olhar para eles enquanto seguiam seu caminho, seus olhos fixos apenas sobre Teigra como se ela fosse a única coisa que existia no mundo. Espero que Teigra tome cuidado, observou ele em silêncio, vendo aquilo. Essa mulher não possui alguma rixa específica com Teigra, mas mesmo assim a sua atenção está completamente focada nela. E pelo que ela demonstrou antes, ela está extremamente irritada conosco graças a destruição dessa estufa. Se era esse o caso, só conseguia pensar num motivo para todo aquele comportamento dela:

Calmaria antes da tempestade.

=====

Com calma e parcimônia, o Recipiente deslizava calmamente pelos corredores da mansão, mantendo sempre a postura ereta, o rosto sério, e uma certa elegância em seus movimentos. Com qualquer coisa entre um metro e setenta e um metro e oitenta, pele bem branca, terno preto, luvas brancas e óculos no rosto, Zenon era alguém que se destacava por onde passava.

Terei de ter uma conversa com Kat depois. Deixar que os inimigos passem assim... ela está tomando riscos demais.

Havia observado tudo que ocorreu na estufa, e o comportamento de sua companheira havia sido menos do que satisfatório para ele. Bem menos. A estufa é a nossa recepção, um posto de guarda avançado. Nenhum inimigo devia passar por ele. Que dois inimigos o fizeram já é problemático o suficiente, mas o fato de Kat ter deixado eles passarem livremente sem oposição é uma desgraça sobre nós. Teria de discipliná-la depois para impedir que isso voltasse a ocorrer.

Mas antes disso, tinha de alertar a Dama de Ferro.

Abriu as portas duplas de carvalho do quarto dela, e para sua surpresa, não viu-a ali; o piano, a cama, a mesa e os livros estavam perfeitamente arrumados, sem nenhum sinal de que Annie tivesse sequer passado por ali. Será que ela foi embora? Não... não, impossível. Tinha um sistema de vigilância perfeito pela mansão; se Annie tentasse sair dela, ele teria notado isso. Sendo assim, só resta uma verdadeira opção. Ajeitou a gravata ao redor de seu pescoço e respirou fundo, preparando-se mentalmente para o que estava por vir, e só então foi até o banheiro.

Tal como havia imaginado, Annie estava tomando banho. Pequena como era, a Dama de Ferro tinha o corpo quase que completamente submergido em meio a água e espuma, deixando apenas com que o topo de sua cabeça ficasse a mostra... o que, francamente, era algo que lhe deixava bastante aliviado. Annie é nossa senhora, nossa matriarca, nossa criadora. É nossa obrigação mostrar respeito e lealdade para ela, e esses dificilmente são demonstrados vendo-a nua. Além do mais, por mais que respeitasse e venera-se a Dama de Ferro, o fato era que ela tinha oitenta anos de idade; sua aparência dificilmente era algo que qualquer um teria curiosidade de observar.

Logicamente, ela não estava sozinha ali. Dentre os Recipientes, manterem-se sempre por perto de Annie era como uma regra, um dever que todos eles tinham de fazer. Invariavelmente a Dama de Ferro estava sempre acompanhada por um deles, seja ele Zenon – que frequentemente agia como líder dos outros –, Mister Pig – o “animal” de estimação da sua senhora – ou pelo que acompanhava-a naquele momento: Aurum, o Andorinha.

O “jovem” sorriu para Zenon ao vê-lo ali. “Jovem” era, francamente, um título que Aurum não merecia realmente. De todos os Recipientes, ele era o mais velho, o primeiro que Annie havia criado. A diferença não era muita já que praticamente todos os Recipientes Humanos foram criados no mesmo dia, no entanto, e considerando que ele era o que tinha as feições mais joviais dentre todos eles, esse era o título que ele normalmente mantinha dentre eles. Um grosso sobretudo negro cobria seu corpo da ponta dos pés até o pescoço, sendo esse totalmente fechado, deixando apenas a cabeça do Andorinha a mostra. Com aquelas vestimentas, o tridente em suas mãos, o cabelo negro e a franja vermelha, não era difícil imaginar que ele provavelmente seria alguém bem assustador de se ver caso Zenon não estivesse tão acostumado com ele.

– Terno – disse Aurum, sorrindo abertamente, passando um pano ao redor das pontas de seu tridente para limpá-lo e poli-lo. – Bom te ver de novo.

– Aurum – tornou Zenon, sem se incomodar por ter sido chamado pela roupa que usava. Aquela era uma peculiaridade de Aurum. Não sabia se isso era algum erro que sua senhora havia cometido durante o processo já que ele foi seu primeiro ou se aquilo tinha causas relacionadas unicamente a ele mesmo, mas o Andorinha tinha uma péssima memória no que dizia respeito a nomes. Podiam dizer e tornar a dizer seus nomes para ele dia após dia, e mesmo assim não seria necessário mais do que alguns minutos para que ele se esquecesse deles de novo. No fim das contas, todos tiveram de simplesmente aprenderem a se acostumarem com os apelidos que ele criava pra cada um. – Vejo que a guarda caiu a você hoje.

– É, parece que sim, não é? – questionou Aurum, erguendo uma sobrancelha. – Não que eu reclame. A velhota pode ser velha, mas ela tem um papo agradável.

Isso já foi o suficiente para lhe irritar um pouco. Não era a primeira vez que ouvia o apelido que Aurum tinha para Annie, mas ele nunca deixava de lhe incomodar. Isso é ultrajante. Como é possível que um de nós tenha tamanha falta de respeito pela nossa senhora? Se pudesse, executá-lo-ia sem pensar duas vezes devido a esse tipo de comportamento... mas não podia fazer isso. Apesar de seu comportamento desrespeitoso (ou, talvez, justamente devido a ele), Aurum era de longe o mais querido dos Recipientes de Annie, e além do mais, sendo um Recipiente, ele era imortal; mesmo se esmagasse sua cabeça, uma nova iria apenas surgir no lugar.

– Zenon – disse calmamente a voz de Annie, chamando sua atenção. Por entre toda a espuma não conseguia ver o rosto dela, mas não precisava vê-lo para ser capaz de notar os efeitos de sua voz. A forma como Annie falava, mantendo ao mesmo tempo calma, elegância e um tom de autoridade, era a prova de suas raízes nobres. – Se você veio até aqui, isso significa que existe alguma coisa importante para ser reportada. Vá em frente. Diga-me o que tem de dizer.

– Sim, senhora! – sabia que ela não podia lhe ver, mas mesmo assim dobrou-se, caiu de joelhos no chão para dizer aquelas palavras. – Inimigos estão invadindo a mansão. Um grupo de três, dois homens e uma mulher, sendo que um dos homens é um mago pelo que pude ver. A mulher ficou na estufa e, até aonde eu sei, está enfrentando Kat nesse exato momento. Os outros dois seguiram adiante e estão nos primeiros cômodos da mansão nesse instante.

– Inimigos passaram pela estufa? – Aurum pareceu surpreso com aquilo, e não era pra menos. – Que... interessante. É a primeira vez que algo assim ocorre, não é? Kat deve estar ficando relaxada.

– Você não tem a menor ideia de quanto – murmurou Zenon entre dentes. Eu lhe prometo isso, Kat; você não vai gostar nada da conversa que teremos depois que isso terminar.

– Eon e Valak... eles estão ativos, não estão? – questionou Annie, em uma voz que não trazia o menor sinal de preocupação com aquela notícia.

– Sim, minha senhora – confirmou Zenon, abaixando a cabeça. – Ambos estão preparados, prontos para lutar assim que for necessário. Faz tempo desde que eles tomam parte de uma luta de verdade, mas mantenho-os em um programa de treinos rígido e eficaz. Eles não vão decepcionar.

– Excelente – disse ela, e pelo movimento que a espuma teve, soube que estava assentindo enquanto falava. – Nesse caso, organize para que eles tenham a chance de confrontar os invasores. São dois os que fizeram seu caminho pra dentro da mansão, certo? Isso significa que teremos uma luta justa. E com as suas habilidades, não vai ser difícil arranjar para que esse confronto ocorra. Agora, vá. Devo informar Balak sobre isso. Tenho certeza de que o Olho Vermelho vai gostar de saber de algo assim.

Aquela resposta era exatamente a que esperava de sua senhora... e francamente, ela não lhe agradava muito. Ela quer que eu arranje para que essa luta ocorra... Aquela não era uma boa ideia. Eon e Valak ficariam obviamente ocupados demais lidando com os intrusos para fazer qualquer coisa, e Zenon teria de se ocupar em manipular tudo para que aquele confronto ocorresse e manter um olho sobre ambas as lutas para se certificar de que não teriam surpresas desagradáveis. Isso lhe deixaria impossibilitado de fazer muito além disso, e esse não era um pensamento do qual gostava. Algo assim reduziria a guarda da Dama de Ferro à apenas Aurum, e embora eu não tenha dúvidas no que diz respeito a lealdade dele, não me sinto confortável em confiar a guarda dela a uma única pessoa...

Por algum motivo, tinha a sensação de que aqueles invasores não eram seus únicos inimigos ali.

=====

A moeda girou no ar, refletiu um pouco de luz nos olhos de sua dona, e por fim caiu na palma da mão de Blair White.

– Hum... – murmurou levemente ela, olhando para essa moeda. – Cara de novo, não é? – suspirou e jogou sua cabeça para trás, seus belos cabelos cor-de-ébano balançando um pouco tanto graças ao movimento quanto devido à deliciosa brisa que soprou naquele instante, deliciosa o suficiente para fazer com que um sorriso tocasse seus lábios. – É estranho como as coisas quase nunca dão um determinado resultado quando queremos esse resultado, não concorda, Syd?

– Ah, com certeza – concordou o mercenário, um largo sorriso estampado em seu rosto enquanto fuçava um pouco em sua arma, uma bela e longa lança de cabo preto e ponta dourada, com várias runas desenhadas no cabo em caracol. Claro, uma pessoa normal não saberia que aquelas coisas eram runas, mas Blair era uma maga, e uma bem talentosa, modéstia à parte. Seria insultante pensar que ela não saberia identificar uma runa. Acho que foi justamente por isso que ele não mentiu quando lhe perguntei se essas coisas realmente eram runas. – Sempre me sinto como se estivesse em um grande jogo quando esse tipo de coisa acontece, sabe? Como se o mundo fosse um grande tabuleiro e eu fosse apenas uma peça nele, e os Deuses por vezes se divertissem fazendo com que as coisas dessem errado para mim.

Sorriu ao ouvir aquilo e moveu sua cabeça pra direita e para a esquerda, estalando seu pescoço. Assoprou a franja que caia sobre seu olho esquerdo para tirá-la do caminho e deu um passo à frente, fazendo com que o sol brilhasse sobre ela e com que seus olhos azuis-acinzentados se tornassem puramente azuis por um momento.

– Eu me sentiria tentada a acreditar nisso, não soubesse eu que os Deuses estão mortos e enterrados – comentou ela, sorrindo. Deu leves chutes nas costas de Syd com a ponta de seu pé e o homem logo entendeu seu sinal, parando de mexer em sua lança e começando a levantar-se. – Está na hora, não acha?

Syd fez uma careta ao ouvir aquilo. Era óbvio que ele não gostava nem um pouco do pensamento de partir pra batalha... o que era algo extremamente irônico, considerando que ele era um mercenário.

– Você tem certeza? – perguntou ele, coçando levemente sua cabeça com o dedo indicador enquanto falava. – Acho que podemos esperar um pouco mais antes de entrarmos em ação, não é? Os outros dois acabaram de invadir. Convém deixarmos que eles façam um pouco de estrago.

– Eles já fizeram estrago o suficiente – apontou Blair por sua vez. – Uma de nossas oponentes está enfrentando uma deles nesse momento, e a estufa deve estar danificada o suficiente para que o inimigo não consiga vigiá-la. Além do mais, esse é o momento mais oportuno para partirmos pro ataque; com a invasão dos dois, a atenção do inimigo vai voltar-se para eles, o que nos dará a possibilidade de passar despercebidos e tirarmos as peças maiores de jogo.

– Como queira – resmungou ele, não muito satisfeito com aquilo mas também não incomodado ou irritado ao ponto de discutir aquilo. Seu rosto, no entanto, logo se iluminou no momento em que uma ideia aparentemente cruzou sua mente e seus olhos pousaram sobre a moeda na mão de Blair. – Ei, Blair, que tal um pequeno jogo, hum? Temos de lidar com certas pessoas dentre o inimigo, certo? Dois alvos para dois mercenários... creio que podemos decidir quem lida com quem de uma forma bem divertida.

Por um momento apenas ergueu uma sobrancelha, confusa quanto ao ponto que ele queria fazer, mas logo compreendeu qual era a ideia. Seus olhos também caíram sobre a moeda, levemente interessados. Entendo. Isso pode realmente ser divertido.

– Muito bem então – declarou ela, lançando a moeda para cima. Deixou que ela cintilasse um pouco no ar antes que a apanhasse, afastando sua mão com ela de seu rosto sem bisbilhotar. Francamente, seria bem fácil para ela verificar de canto de olho qual era o lado que havia dado sem que ele percebesse, mas que graça haveria nisso? A graça de um jogo não era vencer, mas a possibilidade de perder e não o fazer. – O que você vai querer? Cara ou coroa?

– Cara – respondeu quase que imediatamente ele, sem nem parar para pensar naquilo. Só depois disso foi que relaxou um pouco, deu de ombros e falou, como quem não quer nada. – Gosto de seguir o caminho dos vencedores. Cara tem ganhado constantemente nos últimos tempos. Não vejo por que agora seria diferente.

– É mesmo? – perguntou ela, apesar de sem interesse real nisso. Por mim, tudo bem que ele escolha cara. Eu iria pegar coroa se tivesse a chance, de qualquer forma. Não tinha graça apostar no que estava ganhando; mesmo se ele vencesse, você iria apenas sentir como se estivesse trapaceando ou coisa do tipo, e de qualquer forma, as chances eram sempre as mesmas. E além do mais, eu sinto em meus ossos que vai dar coroa dessa vez.

Deu cara.

Praguejou entre os dentes em resposta a isso, sem se importar com o fato de que não era necessariamente esperado de uma dama como ela que praguejasse. Por sorte, o próprio Syd também não se importou. Enquanto ela estava muito ocupada em praguejar, ele estava muito ocupado em se vangloriar. Considerando a forma como ele estava feliz com aquilo, agradecendo aos céus sem parar, não duvidava muito que ele acabasse caindo de joelhos e rezando, mas isso não chegou a acontecer.

– Beleza! Beleza, beleza, beleza! – o homem tinha quase o dobro da idade de Blair, mas ainda assim ele claramente não conseguia conter sua animação, seu punho movendo-se para cima e para baixo em excitação enquanto ele grunhia e comemorava em satisfação. Voltou-se para Blair com um sorriso de orelha a orelha no rosto, como uma criança que acabou de conseguir o que ela mais queria. – Você sabe o que isso, não sabe Blair? Essa pica é toda sua!

Acenou com a cabeça em concordância, uma, duas vezes... e então subitamente falou. Só então que seu cérebro captou o que exatamente ele havia dito. Voltou-se novamente para ele, um olhar sério e inquisidor em seus olhos, uma de suas sobrancelhas erguidas. Não demorou muito para que Syd compreendesse o que ela queria dizer com aquilo, e assim que o fez ele quase saltou para trás, gesticulando nervosamente com as mãos enquanto falava com as bochechas ficando vermelhas.

– Pica no sentido figurado! Figurado! Estou falando da pica no sentido da velha! Não que ela tenha uma pica, veja bem, ou ao menos eu espero que ela não tenha, seria bem perturbador se tivesse, mas enfim, estou dizendo que ela uma pica. No sentido figurado. O que significa, mais ou menos, que ela é... dura...? Osso duro de roer...? Algo do tipo!

Apenas cruzou os braços e murmurou um “hum” em resposta a isso, sem tirar os olhos de Syd. A bem da verdade, sabia desde o início que ele estava falando aquilo em um sentido figurado – Syd não era nem de longe pervertido ou suicida o suficiente para usar aquela palavra em sentido literal com ela – mas aquela era simplesmente uma chance perfeita de lhe deixar encabulado, e isso era algo tão raro e divertido que ela não podia perder essa oportunidade.

– Você sabe que você vai ter de trabalhar mesmo assim, certo? – questionou ela, um pouco mais séria agora, olhando bem pra Syd. – Eu cuido da velha e de qualquer guarda que ela tenha, mas você vai ter de cuidar de Zenon enquanto isso. Se Zenon não estiver com suas mãos ocupadas, é virtualmente impossível derrotarmos Annie nessa mansão.

– Sim, sim, não preocupe-se com isso – assegurou Syd, acenando de forma despreocupada. Estufou seu peito e bateu em cheio nele com seu punho direito, erguendo o nariz como se para mostrar arrogância. – Não esqueça com quem está falando, minha jovem Blair! Syd Ostrower, o Invicto! Em todas as batalhas que lutei, nunca tive uma derrota! Esse inimigo logo irá conhecer o terror que é me enfrentar! Bhahahahaha!

Apenas ficou observando aquilo de forma muda, simplesmente não sabendo o que deveria dizer em resposta a isso. “O Invicto” é apenas a alcunha que ele dá a si mesmo, não é? Pelo que sabia, Syd introduzia-se por ela, mas ninguém nunca o chamava assim. “Urso Negro”, “O Desertor” e “Campeão dos Covardes”... esses são títulos mais usados para referir-se a ele, pelo que sei. Sabia um pouco do homem, e esse pouco era contraditório. Pelo que sei, ele possui uma má fama por ter desertado de uma guilda destruída pelo Sétimo Círculo alguns anos atrás antes da grande batalha que culminou no fim dela e por rejeitar trabalhos de alto nível, mas seu índice de aproveitamento nos trabalhos que ele realmente faz é de cem por cento, e eles são sempre feitos de forma exemplar. E mais curioso ainda... se ele realmente rejeitar trabalhos de alto nível como dizem os rumores, então por que ele aceitou esse? Todas aquelas eram questões complicadas, mas não tinha tempo para arranjar resposta para tudo isso, então apenas deixou isso de lado.

– Muito bem então – disse ela, dando alguns passos para frente. Saiu da luz, fazendo com que seus olhos voltassem a cor azul-acinzentado normal deles, e fixou agora seus olhos sobre a mansão. – Pronto para começar a trabalhar, Syd?

A resposta do mercenário mais velho foi apenas acenar positivamente com a cabeça. Fechou os olhos por um momento ao ver isso e lembrou-se das palavras que Soulcairn lhes disse antes de partirem. “Odin partiu com alguns mercenários para conseguir a ajuda de seus discípulos... mas, tratando-se dele, não acho que ele vai fazer só isso. Meu rival nunca foi famoso por ficar parado quando pode ter ação; é por isso que é meu rival, afinal de contas. Heh. De qualquer forma, existe uma mansão consideravelmente próxima do destino dele com grandes riscos de possuir alguma reação com o Olho Vermelho, pelo que eu sei. Provavelmente ele ou algum grupo aliado a ele irá checa-la antes de voltar, se o conheço bem. Quero que vocês dois vão lá primeiro. Avaliem o lugar, vejam se realmente tem inimigos lá, e analisem os inimigos se eles forem reais. Mas não ataquem. Vocês só devem atacar se o grupo chegar e começar o ataque. Se for esse o caso, ajudem-nos. E se for Odin aquele que estiver liderando esse grupo, avisem-no que ele me deve uma.”

Refletiu naquilo por um momento. Não é Odin que está aqui... mas acho que o resto se mantém. Havia dado uma boa olhada no líder daquele grupo, o suficiente para saber quem era ele. Hozar Royes... ouvi falar dele no jornal. Pelo que ele diz, ele é o braço direito de Kastor Strauss, líder da recém-fundada guilda, Era Dourada. E pelo que o que esse jornal diz, também, Kyanna está nessa guilda. Tinha interesse nisso, e provavelmente esse motivo seria o suficiente para que lhes ajudasse mesmo se não fosse paga para tal.

Abriu os olhos novamente, e sem dizer nada, os mercenários começaram seu ataque.



Notas finais do capítulo

Sabem... meu plano originalmente era programar esse capítulo para vir ao ar apenas dia 01 de Dezembro... mas devo dizer, estou muito, muito ansioso para voltar a divulgar a história. Estou gostando muito do trabalho que estou fazendo no momento, e embora eu não queira, tenho de esperar pra soltar os capítulos; fazer todo o trabalho bem para poder depois disponibilizar bons capítulos para vocês a cada semana, sabe?

Por hora, fiquem apenas com esse capítulo aqui, como um "gostinho" do que está por vir! Apesar disso, já lhes aviso; não esperem capítulo semana que vem. A história volta realmente apenas dia 01 de Dezembro, aonde seguiremos com o Arco da Mansão, hehe.

Até lá!



Hey! Que tal deixar um comentário na história?
Por não receberem novos comentários em suas histórias, muitos autores desanimam e param de postar. Não deixe a história "O Olho Vermelho" morrer!
Para comentar e incentivar o autor, cadastre-se ou entre em sua conta.