O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 18
História Paralela 4 - Titânia


Notas iniciais do capítulo

Esse capítulo é um pouco diferente da maioria dos meus capítulos.

E pesado. Realmente pesado. Tenham isso em mente ao lerem ele, ok?



Foi a grande comoção naquele lugar que chamou sua atenção.

– MORRA! MORRA! – gritou uma voz.

– ARDA NO INFERNO, SUA PUTA! – entoou uma segunda.

– PARRICIDA! PARRICIDA! – cantou a terceira.

Mas o que...? Não pode deixar de franzir a sobrancelha ao ouvir aquilo. Parricida? Pelo que sabia, um parricida era aquele que matava o próprio pai, e partindo dos gritos ali... eles estão atacando alguém que matou o próprio pai? E pelo que disseram, parece ser uma mulher, também... Normalmente não gostava de se envolver em questões como aquela – e francamente, conseguia compreender a raiva que as pessoas teriam de alguém que fez algo tão abominável assim – mas acabou caminhando em direção a multidão de qualquer forma. Pelos gritos, eles devem estar matando a pessoa. Mais que isso, eles devem querer matar a pessoa. Uma parricida era um indivíduo horrível e amaldiçoado pelos Deuses, mas ainda assim, dois errados não faziam um certo.

Juntou-se a comoção e abriu seu caminho por entre todas as pessoas ali... apesar para se dar conta que a pessoa que eles estavam tentando matar era uma criança. No meio daquele círculo de pessoas estava uma garota ruiva, encolhida no chão enquanto meia dúzia de marmanjos jogavam pedras nela e lhe golpeavam impiedosamente com chutes em qualquer parte do corpo que ficasse a mostra.

Sua reação aquilo foi bem rápida. Avançou antes que qualquer um ali pudesse sequer pensar em lhe atrapalhar, e sua mão fechou-se com uma firmeza assustadora ao redor do ombro do homem que a chutava. Antes que esse pudesse sequer pensar em esboçar uma reação, arremessou-o longe, jogou-o para o meio da multidão de uma vez só. Uma pedra já havia sido arremessada a essa altura e dirigia-se direto para o rosto daquela garota, mas segurou-a com facilidade antes que fosse tarde demais. Deu por si subitamente cercado de pessoas irritadas que tinham seus olhos agora voltados para ele, mas não se incomodou com isso. Ao invés disso, o que ele fez foi esmagar a pedra em suas mãos até que ela se tornasse pó, afiar seus olhos e retirar a surrada capa que cobria seu corpo, revelando tanto sua armadura quanto a espada que trazia em suas costas. Isso, por si só, foi o suficiente para desanimar e fazer com que parte dos que estavam ali recuassem, decidindo que era melhor não arranjarem encrenca com alguém como ele. Embora menos do que eu esperava fizeram isso, não deixou de notar Odin, correndo rapidamente o olhar por eles. Ou esses aldeões são mais corajosos que o normal – coisa que eu, francamente, duvido muito – ou essa garota irritou eles de uma forma tão grande que eles estão dispostos a arriscar a própria vida para matá-la.

– O que porra você pensa que está fazendo, cavaleiro?! – exclamou um deles, dando um passo ameaçador em direção a Odin. Em resposta a isso, o que ele fez foi levar suas mãos até a empunhadura de sua espada, e isso fez com que ele recuasse, embora não que ele abaixasse o tom de voz. – Isso não tem nada a ver com você. Você não tem nada a ver conosco, com nosso vilarejo ou com nossa justiça. E se você tem uma gota de bom-senso na cabeça, você vai parar de tentar protege-la e esmagar a cabeça dela como ela merece.

– Se você tem uma boa de bom-senso – tornou Odin, calmamente – você abaixaria o tom quando fala com alguém mais forte e bem armado que você.

A ameaça não foi o suficiente para fazer o homem se abaixar. Na verdade, ao invés disso, o que ela fez foi motivar aquele homem a afiar seus próprios olhos, como que para intimidar Odin. Falhou nisso, mas ainda assim, isso foi o suficiente para fazer com que Odin tivesse a certeza de que as coisas seriam complicadas ali. Pelo que parece, esse é um daqueles vilarejos extremistas que odeiam estranhos. Eles querem a garota morta, e odeiam minha presença e interrupção aqui o suficiente para me desafiarem, mesmo isso sendo algo que vai contra qualquer noção de bom senso. Aquela é uma situação complicada. Não posso simplesmente matar todos eles, mas ao mesmo tempo, simplesmente não vou deixar que eles continuem com isso. Talvez fosse inútil isso, mas supunha que uma das melhores coisas que podia fazer ali era apelar para a compaixão e o bom-senso daquelas pessoas. Se tem alguma coisa de humano neles, devo ser capaz de convencê-los a parar com isso.

– Vocês estão realmente considerando matar uma criança? – perguntou ele, olhando para todos ali. – Olhem para ela! Ela não deve ter nem doze anos! Que tipo de monstro é tão brutal assim com uma garota dessa idade?

– Me responda você! – gritou uma voz entre a multidão. – Que tipo de monstro mata o próprio pai?!

Touché.

– Por acaso alguém a viu matando seu pai, para afirmarem isso com tanta certeza? – ousou o Cavaleiro Negro.

– Ver? Quem precisa ver? A aberração estava coberta de sangue com uma faca na mão, enquanto o pai dela estava ao lado com o pescoço rasgado! Qualquer idiota consegue ver que ela matou o pai!

– É isso mesmo! – concordou o homem que havia tentado avançar contra Odin antes. – Não pense que somos os ruins aqui, cavaleiro! Essa pirralha matou o pai dela! Rasgou a garganta dele, sem piedade! Não se mostra misericórdia ou compreensão para monstros como esses! Se não matarmos ela agora, ela vai matar todos nós quando crescer, e depois vai matar ainda mais! Quando alguém mata o pai, essa pessoa perde todo o amor que ela tinha pela vida, todos sabem disso!

Esse é um bom ponto. Franziu o cenho, profundamente incomodado por aquilo. Não concordo nem um pouco com o que eles estão fazendo, mas eles tem um ponto. Se as coisas realmente são como um deles falou, então ela certamente matou seu pai, e simplesmente não se pode confiar em alguém que mata o próprio pai. Principalmente nessa idade; as chances de que ela cresça pra se tornar uma psicopata são muito grandes. Mas ainda assim... Olhou bem para a garota atrás dele. Ela era uma coisa miúda, não exatamente pequena, mas magra, magra de dar dó. Conseguia ver os ossos dela por baixo da carne, e a visão não ficava nem um pouco mais bonita com todos os ferimentos que os aldeões haviam causado nela. Em vários pontos seu corpo estava cheio de cortes, sangrando, enquanto em outros ele estava inchado e sujo devido aos chutes e pedradas que ela recebeu. Sangue havia coagulado acima do olho direito dela, e seu olho esquerdo havia acabado inchado graças a vários golpes, mas ainda assim, a garota fitava Odin de volta... com força. Uma força assustadora, maior do que a força de todos os aldeões dali juntos. Essa garota... ela...

Um sorriso surgiu em seu rosto, contra a sua vontade. Eu não sei o que aconteceu aqui. Não sei se ela matou seu pai, nem sei o porquê isso aconteceu. Mas... qualquer que seja o caso... eu sei que eu simpatizo com essa garota.

– Os pontos que vocês fazem são todos válidos... – disse lentamente Odin, ao mesmo tempo em que retirava sua espada da bainha. – Mas creio que terei de ser egoísta aqui e ignorá-los. – cravou sua espada no chão com facilidade, causando um estrondo com o contato do aço e da pedra forte o suficiente para que quase todos ali recuassem imediatamente com aquilo. – Não vou deixar que vocês façam mal a essa garota mais... simplesmente porque ela é minha protegida, de agora em diante. Ela vem comigo.

– Ah, tá de sacanagem com a minha cara?! – exclamou o homem que havia tentado avançar contra ele antes, voltando a ameaçar avançar contra Odin. A resposta de Odin a isso foi simples; ele moveu sua espada, fazendo com que a ponta dela emergisse novamente do chão, levando terra e rochas consigo ao ar... e movendo-a com força e velocidade o suficiente para emitir uma onda cortante dela. Não colocou realmente força ou desejo assassino algum naquele ataque, mas mesmo assim isso foi o suficiente para abrir um corte na bochecha daquele homem. Não foi um corte muito fundo, nada que fosse capaz de realmente causar dor a ninguém, mas ainda assim, o homem jogou sua cabeça para trás e passou a mão pelo ferimento que surgiu em seu rosto, levando até sua frente e fitando o sangue nela apenas para logo em seguida voltar-se para Odin, seus olhos afiados como se aquilo tivesse lhe irritado mais do que tudo ali. – Muito bem, já chega! – com um dos braços ele gesticulou para os outros, apontando um de seus dedos para Odin. – Vamos lá, todo mundo! Não vamos apenas deixar que esse cara venha aqui e comece a agir como se ele mandasse em nós, não é? Ele pode estar armado, mas é só um! Se o atacarmos juntos, seremos os vitoriosos aqui!

Ninguém respondeu a ele.

O homem olhou ao redor, abismado, como se aquilo fosse algo impossível, inconcebível. Você não deveria estar tão surpreso assim, observou Odin, lutando para não deixar que um meio-sorriso surgisse em seu rosto ali. As pessoas gostam de latir, gostam de reclamar, gostam de xingar... mas elas não tem muita determinação pra lutar. Se tivessem, nosso mundo não teria metade das injustiças que ele tem. Elas iriam bem alegremente reclamar sobre como Odin não podia fazer aquilo, sobre como ele era opressivo, como ele estava sendo arrogante e tudo mais... mas nenhum deles tinha as bolas de fazer qualquer coisa contra ele que fosse além de falar. Se você planeja me enfrentar, temo que vá ter de fazer isso sozinho.

Covardes! – gritou o homem para todos que o cercavam. A surpresa que eles tiveram e a fúria contida na voz dele foi o suficiente para que, quase simultaneamente, todos recuassem um passo. – Que tipo de vermes são vocês?! Esse cara é apenas um, e um folgado ainda por cima! Ele não tem nada a ver conosco, ele não tem ligação nenhuma a nossas vidas, e ainda assim ele acha que pode nos dizer o que fazer! E ainda assim, vocês só abaixam a cabeça pra ele? Vão te catar, todos vocês! Tenham alguma coragem por uma vez na vida e unam-se a mim para chutarmos a bunda desse filho-da-mãe!

Talvez um grilo ou outro, mas não muito mais.

Com um grito que era tanto de raiva quando de determinação, o homem avançou contra Odin. Isso seria admirável... não fosse ao mesmo tempo abominável e ridículo. Tanta determinação assim seria algo louvável, não estivesse ele tão determinado assim a matar uma criança. E além do mais, aquilo era tremendamente tolo também. Não importava quão determinado aquele homem estava, isso não mudava o fato de que ele era muito mais forte do que aquele homem, e aquela era uma pessoa que havia lhe irritado bastante. Uma péssima combinação para ele.

Só precisou de um golpe. Esperou pacientemente que o homem fizesse o trabalho de se aproximar bastante dele, e quando viu-o erguer um punho, esmagou sua espada contra ele com uma única mão. Não usou a parte laminada de sua arma, mas isso fez pouca diferença; o corpo daquele homem foi jogado direto para o chão, quebrando-o de uma fez e criando uma pequena cratera ali, como se o punho de um gigante houvesse esmagado aquele homem. Não havia colocado nem metade da sua força por trás daquele golpe, mas mesmo assim ele conseguiu ouvir o som de metade dos ossos dele se quebrando. Minha intenção não era matar esse homem, mas francamente, é capaz que ele tenha acabado morto de qualquer forma. Deveria sentir-se envergonhado por estar usando força bruta como aquela com um simples aldeão, mas francamente, não conseguia sentir nada em relação a ele. Bem, creio que não é como se isso fosse algo ruim, no fim das contas. Mesmo se ele estiver morto, duvido que a morte de alguém como ele vai fazer alguma diferença para o mundo. Ao invés de focar-se nisso, o que fez foi erguer seu rosto e fitar o resto daquela multidão que o cercava. Dessa vez, apenas isso foi o suficiente para fazer com que todos recuassem mais ainda. Nada como quebrar o corpo de um homem para colocar medo nos outros.

– Mais alguém aqui disposto a tentar me impedir? Não? Ninguém? – perguntou ele, olhando para todos ali, no que podia muito bem ser uma pergunta retórica. Quando nenhum deles se manifestou em resposta, apenas bufou, girou sua espada e encaixou-a na bainha, antes de virar-se para a garota. – Muito bem, então. Garota; você vem comigo.

=====

– Essa é a garota? – perguntou Gwynevere, virando o rosto para analisar melhor a criança que seguia atrás de Odin. Desde quando havia a encontrado, aquela garota havia constantemente permanecido perto de Odin, quase como se fosse a sombra dele. Não creio que posso culpa-la por isso, no entanto. Considerando a situação na qual ele havia a encontrado, era normal que ela ficasse bem mais retraída e se agarrasse a qualquer coisa à qual ela pudesse associar a palavra segurança. Na verdade, considerando aquilo pelo qual ela passou, ela estava reagindo de uma forma absurdamente boa, até. O que, infelizmente, não muda o fato de que isso é um tanto quanto incômodo. Gostava da garota, mas não podia fazer trabalhos com ela sempre atrás dele, e sua renda estava acabando mais e mais.

– É ela, sim – disse ele. Sentiu os olhos da garota se erguerem, fitando firmemente Odin pela nuca. Fez todo o esforço possível para ignorar isso. Se eu me virar, vou olhar nos olhos dela, e se eu olhar nos olhos dela, vou me arrepender. Aquilo não era algo que aquela garota iria apreciar, mas era algo que tinha de ser feito.

– E você quer que eu cuide dela, não é? – perguntou Gwyn, cruzando os braços e fitando seriamente Odin. Aquilo foi o suficiente para que sentisse a garota atrás dele puxar sua calça para chamar sua atenção, mas de alguma forma conseguiu continuar a ignorar aquilo. Ignore, ignore. Isso é pro bem dela, Odin. Apenas ignore. – Diga-me de novo; por que eu deveria fazer isso?

– Pela extrema bondade do seu coração? – questionou ele, conquistando-lhe um olhar ressabiado da parte dela, enquanto a guerreira loira tentava decifrar se ele estava sendo sincero ou sarcástico com usas palavras. Nem o próprio Odin sabia qual era a verdade ali, e por isso, não lhe deu o tempo para se aprofundar em pensamentos. – Além do mais, você meio que me deve isso, sabe? Afinal de contas, eu te ajudei muitas vezes, Gwyn, seja te acompanhando em trabalhos seus, seja cobrindo por você em determinados momentos. É apenas justo que você me ajude aqui.

Gwynevere franziu as sobrancelhas e rangeu os dentes ao ouvir aquilo, mas não disse nada. Ela não gosta do fato de que estou cobrando favores dela, mas não vai reclamar, também. Bom. Precisava da ajuda daquela mulher, e apesar de poder convencê-la a te ajudar de outras formas, aquela era a mais rápida e prática. Simplesmente não tenho tempo para gastar com as outras formas, e além do ma...

AÍ! – gritou ele, subitamente, erguendo uma de suas pernas e massageando a parte atingida enquanto pulava com a outra. Maldição! Quanta força tem essa maldita garota?! Tudo bem que ela havia lhe atingido na parte de trás do joelho enquanto ele estava desprevenido, mas seu corpo era duro o bastante para que nem mesmo lanças pudessem perfurar sua pele. Ela não deveria poder fazer nada contra mim, quanto menos me causar tanta dor com um ataque tão simples! Olhou para a garota com raiva, disposto a xingá-la... mas sentiu seu coração amolecer instantaneamente quando viu ela olhando pra ele com aqueles olhos fofinhos.

– Você vai me abandonar com ela, então? – perguntou a criança, de uma forma ao mesmo tempo madura, inexpressiva e completamente adorável. Aquelas palavras foram o suficiente para simultaneamente quebrar o coração de Odin e fazer com que ele quisesse envolve-la nos braços, abraça-la e prometer a ela que tudo ficaria bem de agora em diante.

– Ei! Não julgue as coisas assim! – disse ele, movendo-se freneticamente enquanto falava com ela. – Não estou te abandonando; você não é um cachorro pra que eu simplesmente te jogue por aí em algum lugar, e eu não faço isso nem com cachorros! É só que as coisas estão realmente difíceis pra mim, sabe? Quero dizer, eu estou tomando conta de você, mas também tenho de tomar conta de Kastor e Hozar, e você quase quebrou o braço do Kastor anteontem! Eu posso confiar no Hozar pra cuidar do Kastor, mas, bem, quando ele tentou de impedir de quebrar o braço do Kastor, você tentou quebrar a perna dele! Eu não posso te deixar sozinha com eles, e eu preciso trabalhar para nos sustentar!

A garota não deu resposta a isso. Ao invés disso, o que ela vez foi muito pior; ela permaneceu ali, encarando firmemente Odin nos olhos, e subitamente, o cavaleiro negro pode ver uma lágrimas brilhar neles. Não conseguiu se aguentar nesse momento; caiu de joelhos no chão e abraçou-a com força, sentido as lágrimas correrem por seus olhos como se fossem cachoeiras.

Me desculpe! – choramingou ele. – Eu não vou te abandonar! Não vou, não vou, não vou! Eu juro que eu venho aqui te ver sempre que puder, e sempre trago alguma coisa pra você! É só fazer seus pedidos! Salgados, bonecas, armas de destruição em massa, eu arranjo qualquer coisa que você quiser e lhe entrego isso nas mãos! Por isso... por isso... por favor não chore!

– Você está mimando demais essa garota – lamentou-se Gwynevere atrás dele, balançando a cabeça, desolada.

=====

Era surpreendente o quão escuros os corredores daquele calabouço eram. Se não fossem pelas tochas bem espalhadas nas paredes, Odin simplesmente não conseguiria enxergar nem um palmo a frente de seu rosto. Raios, mesmo com a tochas, eu quase não consigo fazer isso. Em situações normais, nunca visitaria aquele lugar.

Mas era um dos líderes do Salão Cinzento, e sua influência era uma das poucas coisas ali que poderiam impedir que aquela mulher acabasse perdendo a cabeça. Mas antes de fazer qualquer coisa, eu tenho de saber exatamente o que aconteceu.

– Ei – disse ele quando chegou até a cela aonde ela estava. Apoiou uma de suas mãos na grade e virou-se em direção a ela, fitando bem o estado dela. – Você já esteve melhor.

Ela não respondeu. De pernas cruzadas e com pesados grilhões de ferro presos ao redor de suas mãos, Gwynevere apenas fez erguer seu rosto para que seus olhos fitassem os de Odin. Nunca pensei que um dia a veria nesse estado. Seus cabelos loiros normalmente eram naturalmente brilhantes em situações normais, mas a sujeira e a escuridão daquele lugar obscureciam esse brilho por total. Sua armadura que antes parecia até mesmo fazer parte de seu corpo, tão frequentemente que aquela mulher a exibia, agora havia sido substituída pelo que era meramente uma camisa de pano extremamente longa, suja devido a uso contínuo, grande o suficiente para cobrir aquela mulher desde os ombros até pouco acima dos joelhos. Felizmente, tal como haviam lhe informado, ela não estava ferida. Isso é bom, pensou ele. Se ela tivesse com um arranhão qualquer, eu provavelmente acabaria matando alguém, e isso não ajudaria ninguém.

– Não quer falar, hein? Bem... eu suponho que não posso lhe culpar por isso. – verdade seja dita, se a situação fosse inversa ali, ele provavelmente seria aquele que não iria querer falar. Afinal de contas, o que ele haveria de dizer? Não creio que há muitas desculpas que ela pode me oferecer para justificar algo assim. Mas pensar naquilo só tornava as coisas mais problemáticas. Eu preciso de uma desculpa dela. Algo que sirva para justificar isso de alguma forma, algo que sirva para deixar claro que isso não foi simplesmente um ato psicopata da sua parte. Se não conseguisse algo assim, da próxima vez que a visse, uma espada iria descer contra o pescoço dela. – Gwyn... eu sei que você não quer falar, mas eu preciso que você me explique o que aconteceu. Preciso que você me diga a razão pela qual você fez isso para que eu possa ao menos tentar melhorar as coisas pra você aqui.

Os lábios dela ficaram firmemente selados, sem dar sequer uma sombra de resposta a ele, ao mesmo tempo que seus olhos se focaram ainda mais sobre Odin, como se ela estivesse apontando para ele e dizendo “a culpa é sua” com os olhos. Isso fez com que ele se sentisse mais incomodado do que deveria.

– Me encarar não vai melhorar as coisas – disse ele, tomando o cuidado de não deixar o incomodo que aquilo lhe causou refletir em suas palavras. Essa é uma situação muito tensa, tanto pra mim quanto para ela. É comum que as pessoas culpem umas às outras em uma situação assim. A melhor coisa que podia fazer ali era simplesmente manter a calma e agir logicamente em relação a tudo isso; não sairia nada de bom dali se eles começassem a acusar um ao outro. – Eu preciso de alguma explicação. Não vou dizer que qualquer coisa que você me dizer vai adiantar, mas eu preciso que você me diga ao menos a razão por trás de suas ações, me dê algum tipo de justificativa para ela.

– Alguma justificativa, é? – perguntou ela, sem fazer o menor esforço em esconder o escárnio de sua voz. – Que tal isso como justificativa: você é um maldito idiota, Odin Wynthers, e eu fiz o que você deveria ter feito muito tempo atrás!

Bem, já vejo que isso não vai ser fácil, pensou ele, coçando levemente sua cabeça com uma das mãos. Aproximou-se um pouco mais e voltou a falar com Gwynevere, já sabendo que aquela seria uma longa conversa.

– O que você quer dizer com isso, Gwyn? – foi a pergunta que ele fez.

– Você sabia que aquela garota foi estuprada?! – foi o retruque dela.

Aquilo foi o suficiente para que toda a postura de Odin mudasse ali. Antes, apesar de não estar necessariamente relaxado, o homem mantinha-se calmo e composto, mantinha-se ciente de que tinha de manter a compostura ali para chegar a algum lugar, mas aquelas palavras acabaram com tudo isso. Aquela garota...?! Sabia de quem Gwyn estava falando. A garota ruiva, a que ele havia encontrado sendo espancada em um vilarejo. Movido por pura raiva, sentiu suas mãos erguerem-se até as barras de ferro que separavam os dois, seus dedos fechando-se ao redor delas com tanta força que elas simplesmente quebraram em suas mãos como se fossem feitas de biscoito.

– O que você quer dizer com isso? – perguntou ele, sua voz agora estando entre um grunhido e um murmuro graças a quão irritado ele estava.

– Quando você encontrou aquela garota, ela estava sendo espancada em um vilarejo, não é? – perguntou Gwynevere, por sua vez. – Isso me foi dito por você e confirmado por ela. No entanto, nunca lhe ocorreu sobre o quão estranho era aquilo? Sobre o quão estranho era o fato de tantos adultos tinham se reunido ali para publicamente espancar uma criança de uma forma tão brutal?

– Pelo que eles me disseram no momento, ela havia matado seu pai – respondeu ele. Isso não era algo que havia dito para Gwynevere no início, quando havia deixado a garota sobre seus cuidados, mas não se importava mais tanto com isso agora. Ela provavelmente já sabe disso, e além. Não faz sentido fingir que sou um idiota.

– Sim, isso foi algo que eu descobri também, mas não parei nisso – declarou Gwynevere. – Mesmo saber disso apenas fez levantar mais perguntas do que responder. Por que ela matou seu pai? Aquela garota é séria, sim, eu concordo com isso. Para uma criança, principalmente uma da sua idade, ela é séria demais, e isso é algo que chama a atenção... mas mesmo sendo tão séria assim, ela não é fria. Aquela garota pode não demonstrar muitos sentimentos, mas isso é mais devido ao fato de que ela reprime os seus sentimentos do que a possibilidade de que ela não os possui ou coisa do tipo. E se tem uma coisa que eu posso lhe garantir, Odin, é que essa garota não é algum tipo de psicopata. Ela não é alguém que mataria seu próprio pai atoa. Simplesmente não é. Foi isso que chamou minha atenção e foi por isso que eu investiguei as coisas mais afundo. E foi então que eu descobri a verdade.

Viu a mulher se erguer. Em meio a escuridão, tudo o que ele podia ver era um vulto se movendo, e mesmo isso desaparecia constantemente, engolido pelo resto da escuridão que cercava aquele lugar. Por isso, o que realmente lhe guiava em relação ali quanto aos movimentos daquela mulher era pouco mais do que os ruídos de suas correntes.

Quando a viu novamente, Gwyn estava praticamente esfregada em sua cara, tão próxima dele quanto as grades permitiam. Só então reparou que aqueles grilhões também possuíam uma corrente que os ligava até a parede, mais uma medida preventiva que haviam tomado para tentar frustrar uma possível fuga de Gwynevere. Apesar de que, a bem da verdade, isso é mais estúpido do que tudo. Gwynevere era forte o bastante para que, caso ela realmente quisesse, pudesse arrebentar aquela correntes, grilhões e barras de ferro com facilidade. Tal como eu posso fazer isso. É algo tão simples e fácil pra pessoas como eu e ela quanto respirar.

– Aquela garota realmente matou seu pai... mas ela o matou porque ele a estuprava. Aquele porco de duas pernas estuprava ela frequentemente, e o vilarejo todo sabia disso. Eles sabiam disso, mas nunca fizeram nada. E você sabe por quê? Porque eles a consideravam culpada! Aqueles bastardos sabiam que o pai dela a estuprava dia após dia, mas eles a consideravam culpada por isso, achavam que ela estava de alguma forma seduzindo seu pai e que, por isso, ele era inocente ali, enquanto ela era a grande vilã. Até que um dia a garota cansou-se disso. Quando aquele asqueroso tentou tocá-la novamente, ela tomou uma faca em mãos e esfaqueou-lhe no pescoço. Aquela era apenas uma faca de cortar pão pelo que eu sei, mas ainda assim, ela esfaqueou-lhe tanto e com tanta violência que, de alguma forma, ela conseguiu cortar toda a cabeça dele para fora do corpo. E o resultado disso... bem, o resultado disso você viu, não é?

... Suas mãos se fecharam em punhos com tanta força que pode ouvir seus ossos estalarem e sentir sangue correr por entre seus dedos, mas mesmo assim, não parou com isso; aquilo era tudo que ele podia fazer para que não explodisse em raiva ali. Sim, eu sei. Compreendia o que havia acontecido ali, mas ao mesmo tempo, simplesmente não podia compreender como aquilo havia acontecido. Não que isso importe. Não queria nada mais naquele momento do que voltar até aquele vilarejo e matar cada um daqueles que participaram no espancamento da garota com suas próprias mãos... mas, creio que a chance de fazer isso já foi tomada de minhas mãos, não é?

– Creio que isso explica o porquê você matou todo um vilarejo – disse ele, de uma forma tão calma que chegava a ser assustador, olhando fixamente nos olhos da cavaleira. – O porquê de você ter matado todo aquele vilarejo.

Os olhos de Gwynevere se fecharam ao ouvir aquilo. Por um momento ela ficou em silêncio, não deu resposta alguma aquilo. Quando seus olhos voltaram a se abrir, a primeira coisa que ela fitou não foi Odin, mas sim os próprios grilhões que haviam colocado sobre suas mãos, fitando-os com um olhar perdido mas, ao mesmo tempo, parecendo estar analisando-os minuciosamente.

– Não me arrependo de ter matado aquelas pessoas – anunciou ela subitamente, sem demonstrar emoção nenhuma em suas palavras. – Sei dos meus juramentos, sei da moralidade, sei que não sou nenhuma Deusa para decidir se alguém deve morrer ou não, principalmente tantas pessoas assim, mas francamente... não me importo. Na minha opinião, aquelas pessoas mereciam morrer; a terra só pode se ver melhor, uma vez livre de lixos como eles. E por tal, matei eles. Não nego que mereço uma punição por isso, assim como não nego que existem pessoas que vão me considerar como lixo por tal, mas eu simplesmente não me importam com isso. Se minha cabeça há de ser cortada, então que assim seja. Não tenho arrependimentos.

– Ninguém cortará sua cabeça – prometeu Odin.

Isso chamou a atenção dela. Quando seus olhos se ergueram de novo eles foram direto para os de Odin, fitando-o com uma mistura de curiosidade e interesse no olhar.

– Quando você chegou naquele vilarejo, você foi atacada – disse calmamente Odin, sustentando seu olhar com o dela. – A população voltou-se contra você subitamente, usando todas as armas que tinham a disposição; pás, enxadas, facas, foices de garimpo, tudo. Você tentou evitar um confronto com ele, mas eles lhe caçaram e lhe seguiram, e eventualmente, eles lhe encurralaram. Você se viu forçada a mata-los. Mais tarde, depois de uma investigação um pouco mais minuciosa, você encontrou o responsável por isso; um mago que trabalhava com artes ocultas. Você o enfrentou e o derrotou, mas no momento em que sua lança perfurou o coração dele, seu corpo caiu ao chão e se tornou pó.

Gwynevere ergueu uma sobrancelha ao ouvir isso, mas ele não lhe deu tempo nem sequer pra que ela fizesse um comentário. Uma de suas mãos alcançou a porta de ferro daquela prisão, e com nada mais do que um puxão com mais força, arrebentou-a e abriu a passagem para ela. Foi só então que ela pareceu realmente compreender o que ele estava fazendo ali... e quando essa compreensão caiu sobre ela, ela simplesmente não conseguiu impedir que um sorriso surgisse em seu rosto. Só de olhar para ela, Odin pôde afirmar com toda a certeza de que isso era simplesmente o melhor que ela conseguia fazer para impedir que uma gargalhada estourasse de sua garganta. Viu ela avançar para fora de sua cela, quebrando a corrente que a ligava à parede com uma pisada forte de seu pé, para em seguida arrebentar também os grilhões de suas mãos com facilidade.

– Você sabe, eles provavelmente não vão deixar você sair ileso disso – comentou ela, apesar do sorriso não ter deixado seu rosto nem por um instante. – Os outros líderes... eles vão cair encima de você agora como cachorros loucos. Não sei se eles vão conseguir fazer isso, mas eles certamente vão tentar lhe tirar toda a influência e reputação que você criou em todos esses anos.

– Eles podem fazer o que bem entenderem – foi a resposta de Odin, sem hesitar. – Se eu deixar você aqui e tentar discutir, eu sei que eles vão simplesmente organizar a sua morte. Não irei deixar que você morra, não por algo assim. E se eles quiserem me derrubar, bem, eles podem se sentir livres pra tentar. Verão que eu não caio fácil.

=====

– Ei! Crianças! – chamou o instrutor, o cavaleiro encarregado do treinamento daqueles jovens naquele momento, antes que eles crescessem mais e se tornassem verdadeiros aprendizes do Salão Cinzento. Todos os olhos caíram sobre ele rapidamente, quase que instantaneamente, e com um sorriso no rosto, o cavaleiro colocou as mãos em sua cintura. – Hoje nós teremos uma nova pessoa se juntando a nós. Uma pessoa especial, alguém passado e recomendado para nós por dois dos líderes do Salão Cinzento; Odin Wynthers e Gwynevere Header. Ela vai passar a treinar junto conosco de agora em diante, então certifiquem-se de serem cordiais com ela e trata-la bem, entendido?

Isso foi o suficiente para conquistar vários comentários. As vozes de dezenas das crianças que estavam ali se misturaram de uma vez, em um coro simplesmente ensurdecedor. Foi necessário que o cavaleiro batesse palmas com força ali para que eles ficassem um pouco mais sobre controle, apesar de que isso não foi o bastante para impedir que alguns dos garotos se manifestassem.

– “Ela”, você diz? – contemplou Florian, cruzando os braços e elevando uma mão ao seu queixo. Pesar de ser o segundo mais novo dos garotos ali, apenas ligeiramente mais velho do que Kastor, mas ainda assim, o modo de agir dele era mais maduro do que o de muitos adultos. – Isso significa que se trata de uma garota, certo? Interessante. Não recebemos muitas garotas, aqui.

– Me pergunto se ela vai se adaptar à vida aqui – disse Behemoth, parecendo estar mais pensando em voz alta do que tudo ali. “Behemoth” não era o nome real daquele garoto, mas era o apelido pelo qual ele, Sars Jaeger, era mais conhecido ali, e um apelido merecido. Tinha apenas quatorze anos, mas ainda assim, ele tinha mais de dois metros de altura, e seu físico era de longe o mais desenvolvido dentre todos os garotos ali. – Existe um motivo pelo qual não recebemos muitas garotas aqui, afinal.

– Ei, ei, não vamos ser precipitados, Behemoth – disse Adelien, fazendo sinal com as mãos para que todos se acalmassem. Entre todos os garotos ali, Adelien era de longe o mais amigável. Sempre com um sorriso no rosto e disposto a ajudar os outros, aquele garoto era simplesmente adorado por todos ali, sejam esses cavaleiros, sejam esses outros garotos. – Eu sei que não recebemos muitas garotas aqui, mas isso não significava que elas não são capazes de suportar o mesmo treinamento que nós. Quero dizer, a própria Gwynevere é uma prova que mulheres podem ser tão boas cavaleiras quanto homens, e temos algumas mulheres aqui que aguentam muito bem o treino.

– O que não muda o fato de que mulheres simplesmente não deveriam estar aqui! – apontou Denevar, de forma arrogante. De todos os garotos que estavam treinando ali, Denevar era o único do qual Odin realmente não gostava. Não era o único garoto rico que havia conquistado um lugar no Salão Cinzento por dinheiro, não; infelizmente, para sustentarem-se, era necessário por vezes dar lugar ao dinheiro ao invés dos méritos pessoais. No entanto, enquanto os outros garotos ainda mantinham um certo nível de educação e humildade o suficiente para se sujeitarem aos comandos e autoridade dos cavaleiros, Denevar era arrogante demais para isso. Ele gostava de agir como se fosse o melhor e mais importante ali, e Odin já tinha recebido pelo menos sete cartas do garoto “pedindo” a remoção de determinado cavaleiro das dependências. Havia ignorado todas elas, mas isso não fazia com que o garoto ficasse mais humilde ou compreendesse sua deixa. – Mulheres não foram feitas para a batalha. Seja quem for essa garota, ela não tem motivo para estar aqui, mesmo se ela for uma favorita dos líderes! Meu pai paga muito dinheiro para que eu tenha boas armas, boas armaduras e um bom treinamento; não pretendo dividir o que conquistei com uma garota estúpida!

Aquelas palavras foram o suficiente para erguer um novo tumulto, com metade dos garotos que estavam se manifestando a favor do ponto dele, enquanto outra metade deles se manifestava contra isso. Enquanto o cavaleiro ali tentava novamente colocar tudo aquilo sobre controle, moveu seus olhos deles para Titânia. A porta que estava afrente deles era feita de um vidro especial, importado de Carcino; enquanto eles conseguiam ver perfeitamente tudo que acontecia do outro lado, os garotos e o cavaleiro não conseguiam fazer o mesmo. Isso é tremendamente útil. Teoricamente, aquilo deveria servir apenas para que os garotos não tivessem sua concentração quebrada por quesitos externos, mas a bem da verdade, isso servia mais para propósitos de observação. Graças àquele vidro, conseguiam observar o que acontecia dentro de muitas salas e analisar a personalidade e habilidades dos novos recrutas tranquilamente, sem que aqueles notassem sua presença e pudessem ter sua performance influenciada por aquilo.

No entanto, naquele momento, aquilo não era nada mais do que problemático, considerando que a garota conseguia tanto ver quanto ouvir o que acontecia ali.

– Eu não gosto deles – disse a garota calmamente, fitando todos os garotos do outro lado do vidro com olhos inexpressivos.

– Não precisa ter medo – murmurou Odin, apertando o ombro daquela garota de forma tranquilizante... ou ao menos que ele esperava ser tranquilizante. Eu queria saber o nome dela em momentos como esses. Falar com ela usando seu nome provavelmente seria muito mais eficaz em uma situação como essa, mas... bem, eles não sabiam o nome dela. Aquela garota nunca havia lhes dito como se chamava; sempre que Odin ou Gwynevere tentavam lhe perguntar ele, a garota simplesmente fingia-se de surda e ignorava completamente a pergunta. E quando, por vezes, eles tentaram perguntar qual o nome, qualquer nome, pelo qual ela gostaria de ser chamada, a única resposta dela foi dar de ombros. Não tinha realmente nada mais pelo qual chama-la do que “garota”. – Eles podem parecer um pouco intimidadores, mas eles não vão mexer com você, não precisa se preocupar.

– Não estou com medo – respondeu a garota, franzindo levemente uma de suas sobrancelhas. Ela provavelmente fazia aquilo para tentar parecer mais séria e intimidadora, mas aos olhos de Odin, tudo que ela conseguia era parecer adorável com aquilo. – Eu só não gosto deles. Você tem que parar de assumir que quero dizer uma coisa por dizer outra coisa.

– Você está sendo um pouco precipitada com seu julgamento, não acha? – disse por sua vez Gwynevere, do outro lado da jovem garota. – Você não falou com nenhum deles, ainda. Na verdade, você não os viu por nem cinco minutos. É cedo demais para fazer julgamentos como esse, não?

– Apenas se eu estiver errada – declarou a garota, cruzando os braços. – Não gosto deles, e não acho que eles vão gostar de mim. Não combinamos. Isso é perda de tempo.

– Ah, o que é isso! – disse Odin, dando leves palmadinhas nos ombros da garota. – Você está sendo muito pessimista. Não digo que você vai se dar bem com todo mundo, ou que vocês vão gostar imediatamente uns dos outros, mas, bem, dê uma chance pra eles, sim? Eventualmente você vai começar a fazer amigos entre eles. Você só precisa dar a eles a chance de serem seus amigos.

A única resposta que aquela garota deu a isso foi olhar para ele com um olhar que parecia dizer “você não engana ninguém com isso”, mas pelo menos dessa vez ela não disse nada. Viu a garota suspirar e viu os olhos dela se fecharem, e apesar da feição séria e calma que aquela garota tinha em seu rosto, foi mais do que capaz de dizer que ela estava nervosa ali. E eu não posso realmente culpa-la por isso. Desde que havia se encontrado com ela, ela nunca havia realmente ficado perto de ninguém que não fosse Odin ou Gwynevere. Havia se relacionado com ambos de uma forma muito melhor do que se podia esperar em condições normais de alguém que passou pelo que ela passou, mas mesmo assim, isso não significava que ela se dava bem da mesma forma com outras pessoas. Prova disso foi o relacionamento dela com Kastor e Hozar. O motivo inicial que pelo qual Odin havia levado àquela garota para Gwynevere em primeiro lugar, afinal de contas, havia sido exatamente os problemas que ela tinha com aqueles dois.

Não pressionou a garota a ir em frente. Deixou que ela fosse quando estivesse pronta, o que não demorou muito. Tanto ele quanto Gwynevere acompanharam-na com as mãos em seus ombros, uma demonstração muda de que estava ali do lado dela para o que quer que viesse.

Não demorou um momento depois de abrirem as portas para que alguém se manifestasse.

– EIIIII! – gritou alguém que Odin conhecia muito bem. Ele emergiu do meio de todos aqueles garotos, correndo de forma alegre e energética como só ele podia, balançando seu braço no ar em o que parecia ser uma saudação apressada. Com um sorriso no rosto, Kastor corria loucamente em direção a eles. – Prazer te conhecer, quem quer que seja você! Espero que sejamos amigos! Meu nome é Kas...

Parou imediatamente, porém, tudo o que estava fazendo no momento em que viu quem eram as pessoas que estavam ali. Seus olhos passaram alegremente por Odin e Gwynevere, mas no momento em que eles caíram sobre a garota, toda a alegria sumiu deles. Seus movimentos pararam por completo naquele instante, e o garoto começou a suar frio mais rápido do que Odin achava que era humanamente possível. Seus joelhos começaram a tremer e bater um no outro, seus olhos se tornaram os de um animal acuado diante de um grande predador, e antes que qualquer um pudesse dizer qualquer coisa, ele havia dado meia-volta e corria de volta para o meio dos garotos chorando.

– HAAAAAA! – gritava ele, balançando freneticamente os braços enquanto lágrimas saiam de seus olhos de uma forma que mais parecia ser pequenas cachoeiras. – Mulher monstro! Mulher monstro! Socorro!

... Muito bem, isso provavelmente poderia ter começado de forma melhor. Kastor agora havia se enfiado novamente no meio dos outros garotos, buscando refúgio em meio a eles como se fosse algum tipo de foragido, e isso deixava Odin e, mais importante, a garota, em uma posição um tanto quanto constrangedora. E foi exatamente por isso que ele se deu ao trabalho de manter um olho sobre ela depois daquilo, cuidadoso. Me pergunto o que ela vai fazer agora.

Para a sua surpresa, a reação dela foi simplesmente seguir em frente, avançar três passos em direção ao grupo dos garotos sozinha. Pensou em acompanha-la, mas o braço de Gwynevere lhe barrou quando tentou fazer isso, e a mulher loira lançou um olhar para ele que parecia dizer “deixe-a andar com as próprias pernas”. Por isso, deixou-a seguir, apesar de não deixou de olhá-la atentamente de forma apreensiva. Bom, ela vai ficar bem, não é? São apenas garotos, afinal de contas.

– ... Oi – disse a garota ao fim de algum tempo, erguendo uma de suas mãos em saudação... sem emoção alguma em sua voz. Ela... eu sei que não posso reclamar muito, sei que ela está fazendo até demais para alguém na situação dela, mas ainda assim... falar de uma forma sem emoção assim provavelmente não vai melhorar as coisas.

Tal como esperava, nenhum dos garotos demonstrou uma reação àquilo... ou, ao menos, não demonstraram uma reação agradável. Dentre eles conseguiu ver algumas coisas; conseguiu ver Florian e Behemoth, fitando-a de forma intrigada, e conseguiu ver Adelien erguer uma sobrancelha e recuar um passo para trás, parecendo cauteloso perto dela. Até mesmo Hozar estava ali, do meio de todos aqueles garotos, encarando a garota a distância com um olhar que parecia sugerir que ele não gostaria de fazer nada mais do que acertar um bom soco na cara dela, mas ao mesmo tempo não era ousado o suficiente para tentar isso. Entre todos ali, a única pessoa que realmente parecia não ter se importado muito com aquela garota era Teigra, e mesmo assim, isso parecia ser mais devido ao fato dela aparentemente estar ignorando tudo ali do que qualquer outra coisa.

Ou ao menos, foi isso que ele pensou até ver aquele garoto agir.

– Com licença, com licença – disse ele, abrindo caminho dentre os outros garotos ali para emergir do meio deles. De cabelos e coração de ouro, aquele era, provavelmente, o único garoto dentre todos ali que podia realmente competir com Adelien pela posição de “mais simpático” dentre todos. E ele fez jus a isso, certamente; assim que ficou cara a cara com a garota, ele não fez mais do que olhar para ela por um instante, apenas para no instante seguinte abrir um sorriso e se aproximar. – Olá! Prazer em te conhecer! Meu nome é Lancelot; Lancelot Galahad!

E após dizer aquelas palavras, ele cometeu o erro de estender a mão para ela.

Em geral, estender a mão para alguém não era algo que ninguém iria assumir como algo perigoso... mas pelo mesmo ponto, em geral, as pessoas não sabiam daquela garota, não sabiam do passado que ela tinha. As únicas pessoas que podiam tocar naquela garota eram Odin e Gwyn; se qualquer outra pessoa tentasse fazer isso, ela receberia a fúria daquela garota. Foi isso que causou os problemas entre ela, Kastor e Hozar, e foi isso que fez com que ela atacasse aquele garoto.

Seus movimentos foram assustadoramente rápidos, principalmente considerando o quão jovem ela era. Nem mesmo Odin conseguiu ver bem o momento em que suas mãos se moveram; quando se deu conta do que estava acontecendo, ela já havia segurado e puxado o garoto contra ela com toda a sua força, fazendo com que o jovem expressasse susto em seu rosto, mas só por um instante. Ao puxar-lhe ela havia tirado o equilíbrio dele, e um rápido movimento da sua perna foi todo o necessário para que as pernas do garoto deixassem o chão e pairassem no ar, um momento antes que ele finalmente caísse.

Silêncio triunfou sobre todo aquele ambiente. Ninguém disse nada. Instrutor, aprendizes, Gwynevere... nem mesmo o próprio Odin. Todos apenas puderam observar seu movimento. Observar o que ela havia feito.

– Não me toque. Nunca. – murmurou ela, deixando bem claro em sua voz que desobedecer aquilo culminaria na morte dele em suas mãos.

Ele abriu a boca para dizer algo, mas ela nunca lhe deu a chance de dizer nada. Antes que uma palavra saísse de seus lábios, ela já havia corrido pra fora dali.

=====

– Aí! – Lancelot soltou um gritinho de dor quando o algodão com álcool tocou o corte em sua testa, recuando para trás de forma dramática enquanto fazia uma careta. – Isso dói, isso dói demais!

– Se você continuar se debatendo, vou quebrar suas pernas e braços para que me deixe cuidar de você – retrucou ela, nem um pouco satisfeita ou divertida por tudo aquilo, fitando Lancelot diretamente com uma expressão nem um pouco impressionada. – Tenho certeza de que isso doeria bem mais do que o que estou fazendo.

Ele não respondeu nada, mas também, não precisava de resposta; a simples feição de susto e medo que o jovem trazia em seu rosto era mais do que o suficiente para lhe dizer que ele não iria voltar a fazer isso. Tal como esperava, quando voltou a passar o algodão pelo corte o corpo dele estremeceu, mas dessa vez ele mostrou alguma fibra e permaneceu firme aonde estava. Dizem que mulheres são mais frágeis do que homens. Não sei quem foi o idiota que disse isso, mas ele obviamente nunca viu eu e Lancelot.

– Você precisa treinar mais – disse ela enquanto cuidava dele, limpando os ferimentos que havia abrido nele durante sua sessão de treinamento. – Suas habilidades em usar ilusões em combate são realmente boas... mas suas habilidades de combate corpo-a-corpo estão abaixo da média. Você precisa melhorá-las.

– Não é que minhas habilidades estão abaixo da média, mas sim que você é monstruosamente forte no que diz respeito a isso – retrucou ele, fechando um pouco seu olho esquerdo quando ela se moveu para limpar um ferimento do lado dele. – Quero dizer, você tem quinze anos, e mesmo assim tem força o bastante para competir com pessoas como Odin, Gwynevere e Ezequiel no que diz respeito a força física! Você parece até a própria Titânia!

Aquela palavra lhe fez parar por um momento. Uma de suas sobrancelhas se ergueu e sentiu seus lábios se moverem sozinhos, sem que desse a ordem pra tal.

– Titânia? – perguntou ela, confusa. Pelo nome, parece ser uma mulher... mas nunca ouvi falar de nenhuma mulher com um nome desses.

– Sim, Titânia – repetiu Lancelot, parecendo surpreso pela confusão dela. – Nunca ouviu falar dela? Alexia Drauvein, chamada “Titânia” pelos seus aliados e inimigos, é uma das mais antigas heroínas da história humana. Ela fundou o Salão Cinzento, junto com Grescol Lower, “o Terror Negro”, e Edwid Armaheim, “o Herói Cinzento”. Pelo que as histórias dizem, ela foi a mulher mais forte que o mundo já viu, forte o bastante para que a mera força de seu olhar fosse o bastante para que um homem forte e adulto caísse de joelhos aos seus pés. Na verdade, dizem até que ela uma vez duelou com o Deus da guerra em uma batalha que durou sete dias e sete noites, e no fim da batalha os dois tiveram de se contentar com um empate, ambos cansados e feridos, porque a batalha deles havia culminado na destruição de todo um continente.

– Entendo... – murmurou ela, perdida em pensamentos. Titânia, não é? Não sabia porquê, mas esse nome havia chamado sua atenção. Alexia Drauvein, a Titânia. Gostava de como isso soava. Sem que se desse conta de quando exatamente isso aconteceu, um fino sorriso surgiu algo em seu rosto, algo que ela só notou quando viu a forma como Lancelot estava lhe olhando. Assim que notou isso, foi bem rápida em apagar o sorriso de seu rosto e pressionar o algodão contra um ferimento de Lancelot com um pouco mais de força, o suficiente para fazer com que o sorriso também sumisse do rosto dele. Foi só depois disso que voltou a falar. – Agora você não precisa me chamar de “garota” mais. Vou adotar esse nome como meu.

– Hm? – murmurou ele, estremecendo um pouco novamente ao sentir o algodão ser novamente pressionado contra seu rosto. – Que nome? Alexia?

– Não – disse ela, lutando para manter um sorriso longe de seus lábios. – Titânia.

=====

Lancelot estava tremendo. Isso era algo bem claro ali, bem como algo que estava começando a preocupar Titânia. Afinal de contas, o que é que ele tem? Será que ele estava desapontado com sua colocação? Podia ser esse o caso, mas duvidava disso. Lancelot foi aprovado como o Segundo Cavaleiro, a segunda maior posição que alguém pode ter em uma leva. A única forma dele ter uma posição melhor seria tendo a minha posição, e não acredito que ele é inocente o suficiente para acreditar que ele conseguiria uma posição superior a minha. Não subestimava seu companheiro, mas também não subestimava a si mesma; haviam duelado centenas de vezes através dos anos, e Lancelot nunca havia conseguido uma única vitória.

Ouviu atentamente Odin dizer as últimas palavras enquanto pousava sua espada nos ombros de Behemoth, sagrando o homem como um cavaleiro antes de seguir para Hozar, o Terceiro Cavaleiro daquela leva, e viu a tremedeira de Lancelot piorar ainda mais. Por um momento ergueu uma de suas sobrancelhas ao ver aquilo, mas logo compreendeu exatamente o que estava acontecendo ali. Ele está nervoso. Ele está nervoso diante de ser sagrado um cavaleiro. Aquilo chegava até a ser um pouco ridículo, de certa forma; depois de todo o trabalho que haviam tido, de todos os anos de esforço e treinamento, era justamente o momento em que ele havia receber sua recompensa por tudo aquilo no qual ele iria vacilar, no qual iria tremer? Esse idiota... se as coisas continuarem assim, o mais provável é que ele acabe entrando em pânico e saia correndo daqui.

Não podia deixar que isso acontecesse, e por isso envolveu a mão dele com a sua.

Lancelot quase saltou quando sentiu aquilo acontecer. Seu rosto voltou-se imediatamente para Titânia, e foi só depois que ela fez um aceno quase que imperceptível com sua cabeça em sinal de que estava tudo bem que ele pareceu se acalmar. As últimas palavras do sacramento de Hozar foram ditas, e imediatamente Odin passou para Lancelot, aparentemente sem notar o nervosismo dele.

– Lancelot Galahad. Vinte e um anos. – a espada beijou o ombro direito do jovem, e ele quase que se encolheu como se estivesse morrendo de medo dela. Aquela cena era indigna; aquilo deveria ser um mestre aprovando um discípulo, mas parecia mais um mestre aprovando um rato. Viu Odin erguer uma sobrancelha ao notar aquilo também, mas era tarde demais para parar a cerimônia ou coisa do tipo, e por tal ele continuou. – Eu, Odin Wynthers, declaro-o e sagro-o como Segundo Cavaleiro da quinquagésima-nona leva, pelos poderes e autoridades concedidos a mim pela posição Decano do Salão Cinzento. Você aceita esse título e os deveres que vem com ele? Você aceita a obrigação de proteger os fracos, lutar pela justiça, ajudar os necessitados? Você jura por sua alma e ser nunca abusar de seu poder, nunca corromper seu ser, nunca ferir um inocente?

– Eu... eu... – aquilo chegava até a doer. Lancelot estava tentando falar, mas o nervosismo que ele sentia estava simplesmente lhe impedindo de falar. Vamos lá, Lancelot! Só são necessárias duas palavras, raios partam! Mas apesar disso, ele não conseguia falar, isso estava óbvio. Entre as fileiras dos dez cavaleiros, alguns já estavam virando suas cabeças em direção a ele, e em meio a grande plateia que observava tudo ela já conseguia começar a ouvir alguns murmúrios. Nada disso estava fazendo nada para acalmar Lancelot. Maldição, eu não vou simplesmente deixar as coisas ficarem assim!

– Está tudo bem – sussurrou ela. Sua voz foi baixa, bem baixa, o suficiente para que que apenas Odin e Lancelot pudessem ouvi-la, mas isso era o suficiente. Os olhos de Lancelot pareceram brilhar ao ouvirem suas palavras. Apertou sua mão ao redor da dele, não com força, mas gentilmente. – Lancelot, está tudo bem. Eu estou aqui, não estou? Se você tem medo, saiba que não precisa disso. O que quer que aconteça, eu estarei do seu lado.

As palavras pareceram surtir efeito nele. Por longos momentos ele ficou parado, calado, sua cabeça baixa, seus cabelos cobrindo seu rosto. Perguntou-se o que estava acontecendo, perguntou-se se havia feito a coisa certa, e quando ele enfim ergueu seu rosto, teve sua resposta.

– Eu aceito – disse Lancelot, um sorriso brilhando de orelha a orelha. – Mestre Odin... eu aceito o título de Segundo Cavaleiro!

E no que ele disse isso, sua mão retribuiu o aperto de Titânia, alisando a mão dela de forma terna e gentil.

Não pode deixar de sorrir com aquilo.





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