O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 13
O Raio Dourado


Notas iniciais do capítulo

Alguém aí quer um pouco de misericórdia?

Não estou usando a minha, então acho que o melhor seria que eu a desse para alguém que precisasse.



Em sua forma de raio, perseguia a arqueira ruiva pelos céus da cidade. Para alguém que não tinha uma habilidade focada na movimentação como ela, a arqueira era mais rápida do que deveria. Maldição. MALDIÇÃO! Aquela mulher havia lhe deixado bem irritado ali, bem irritado mesmo. O suficiente para que não quisesse nada mais naquele momento do que quebrar os ossos dela e esmagar seu rosto no chão. Vou mostrar pra ela quem é o covarde! Ela vai ver só uma coisa! ... Espera. Ela me chamou de covarde, certo? E ela está fugindo de mim... isso não significaria que ela é uma covarde apesar de ter me chamado de covarde? SUA MALDITA HIPÓCRITA! Pensar naquilo apenas fazia aumentar ainda mais o seu desejo de chutar a bunda dela.

Não demorou muito para alcança-la. Para alguém que estava correndo com as próprias pernas, a arqueira era surpreendentemente rápida, mas isso não mudava o fato de que ela estava correndo com as próprias pernas ali, enquanto Zaniark contava com uma habilidade feita especialmente para mobilidade. Por menor que fosse esse, a arqueira desperdiçava uma certa quantia de tempo cada vez que fugia, pulando entre os telhados das várias casas daquela cidade, enquanto Zaniark não fazia o mesmo; ele simplesmente ricocheteava diretamente nesses lugares, tomando cada ponto desses como um impulso para tanto mudar sua direção quanto avançar ainda mais rapidamente contra ela.

Alcançou-a no topo do céu, depois que ela havia saltado para cima após pegar apoio em uma chaminé. Quase tremeu de excitação quando isso aconteceu. Sua forma de raio passou por ela tão rápida quanto uma flecha, e assim que isso aconteceu ele voltou imediatamente a sua forma humana. A arqueira só teve um momento para manifestar seu susto e confusão no rosto antes que o ataque dele viesse. Ele girou rapidamente no ar, ergueu sua perna, e sem pensar duas vezes desferiu um poderoso chute direto na boca do estômago dela. Teve um instante para ver o sangue que saiu de seus lábios antes que ela fosse lançada em direção ao chão rodopiando com uma força assombrosa, e não perdeu tempo para transformar-se de novo em um raio e avançar novamente contra ela.

Não teve a mesma sorte duas vezes. De alguma forma, mesmo depois de ter recebido um golpe tão forte quanto o dele, mesmo depois de ter rodopiado tanto quanto tinha no meio do ar, a arqueira conseguiu tirar equilíbrio e forças o suficiente de si mesma aterrissar de pé, apoiando suas pernas no chão com tanta força que a pressão exercida por sua queda foi o suficiente para levantar poeira do pé. Era de se esperar que ela ao menos ficasse um pouco desnorteada depois disso, mas nem isso aconteceu; assim que ela aterrissou a reação imediata que ela teve foi tomar seu arco em mãos e conjurar uma flecha de fogo nele. Apontou-a para Zaniark, e sem tomar nem ao menos um momento para mirar, disparou.

Merda! Voltou a sua forma humana tão rapidamente quanto pode e cruzou prontamente seus braços enquanto mentalmente se preparava para receber aquele ataque. Merda, merda, merda! A explosão de fogo que resultou disso foi o suficiente para lhe jogar para trás como se ele não fosse nada, jogando-o de volta ao ponto de início. Maldição, eu tive sorte de ter conseguido voltar a forma humana à tempo! Havia acabado saindo daquilo com queimaduras nos antebraços e as pontas de seus cabelos queimadas, mas esse era um preço baixo se comparado ao destino que teria se fosse atingido na forma de raio. Sua forma de raio era muito boa para se locomover, mas tinha muitos pontos fracos, também. Eu sou muito frágil quando estou nela, e além do mais, tem a questão da movimentação. Por mais rápido que ele fosse na forma de raio, ele só podia se mover em uma linha reta; em outras palavras, ele podia mudar sua trajetória, mas apenas em uma direção reta – inclinações naquela forma eram muito difíceis de serem feitas, e era simplesmente impossível que ele fizesse ângulos ou curvas. Dessa forma, por melhor que a forma de raio seja para que eu me movimente de um ponto ao outro, é impossível para mim desviar de ataques de forma eficaz enquanto nela.

Lançou um olhar para baixo assim que viu-se livre da explosão, e tal como algo em seu interior lhe dizia, a mulher já não estava mais lá. Ruivinha miserável, pensou ele, rangendo os dentes. Aonde foi que ela se meteu?!

– Olá garotão – murmurou uma voz provocante de mulher, falando como se estivesse sussurrando ao seu ouvido. – Vem sempre aqui?

Virou prontamente sua cabeça para o lado, e para a sua surpresa e desespero viu que ali estava a arqueira, com um sorriso travesso no rosto e uma flecha de fogo apontada diretamente para ele. Tentou fazer alguma coisa ali, mas simplesmente não teve tempo; antes que pudesse tentar se esquivar daquilo ou tentar erguer algum tipo de defesa, a flecha foi disparada e explodiu direto em seu peito.

Um tiro à queima-roupa como aquele não iria fazer nada menos do que um grande estrago, e foi exatamente isso que aconteceu. Zaniark foi jogado longe com cerca do dobro da força que tinha lhe arremessado antes, caindo e quicando no teto de alguma casa ali enquanto sentia seu peito arder como se ele estivesse em brasas. Tentou tocá-lo em pânico, e isso apenas fez fazer com que sentisse mais dor ainda. Maldição, maldição, maldição! Puta que pariu, fogo queima pra caralho! Não era nenhum tipo de médico ou curandeiro para avaliar queimaduras, mas sabia que aquelas ali certamente eram do mais alto grau! Maldição, maldição, eu odeio essa mulher!

– Você não é tão forte quanto parece, é? – questionou a voz de uma puta insolente. Ergueu seu rosto, os olhos demonstrando toda a fúria que ardia em seu interior, e viu a arqueira pousando na beirada daquele prédio, um sorriso arrogante e divertido no rosto dela. – Que desapontante. Depois de tanto tempo sem uma verdadeira luta, eu esperava que meu oponente fosse alguém mais forte, um oponente digno. Mas parece que de todos nós, eu fui a que pegou o oponente mais fraco.

Sentiu seu sangue ferver ainda mais dentro de suas veias ao ouvir aquilo. Vadia imunda... não ouse zombar de mim! A velocidade com a qual se ergueu, auxiliado por sua fúria, foi surpreendente até pra ele; em um minuto estava de pé, e quando isso aconteceu, ele não perdeu tempo. Assumiu sua forma de raio novamente e efetuou uma aproximação rápida, pegando a mulher desprevenida.

A feição de surpresa e descrença no rosto dela quando viu o tão perto ele estava foi uma das coisas mais satisfatórias que Zaniark já viu em sua vida. Poderia morrer naquele momento e teria uma morte feliz... mas sua morte seria mil vezes melhor se conseguisse antes esmagar a cabeça dela em pedaços com suas próprias mãos. E se eu fizer ela provar um pouco do que ela me fez passar antes disso, minha morte será dezenas de milhares de vezes melhor!

ESPÍRITO DO RAIO! – faíscas envolveram seu braço direito no momento em que ele o recuou, correndo por todo ele continuamente. Por um instante seu braço brilhou em dourado, por um instante ele pareceu mais ser uma espécie de raio, por um instante ele iluminou a noite. E no instante seguinte, veio o seu ataque. – PUNHO CANHÃO!

O movimento de seu braço foi quase que instantâneo. Seu punho colidiu em cheio com o rosto da arqueira num piscar de olhos, arremessando-a para longe tão rapidamente quanto ele se moveu. Tudo que viu dela foram traços fracos e breves, as costas dela batendo na pedra que formava o topo daquela construção e quicando, a roupa dela se rasgando com a forma violenta como ela rolou pelo chão, até que por fim ela colidisse contra a proteção lateral daquele prédio. Tomou um momento para avaliar o estrago que tinha causado. Bem, julgo que é seguro dizer que ela não vai se levantar de novo. Aparentemente a mulher havia batido sua cabeça pelo que podia ver das grandes quantias de sangue que escorriam dessa, e mesmo que não tivesse, ela certamente não iria conseguir levantar-se depois de um soco como aquele. Raios partam, eu bati nela tão forte que a marca do meu punho ainda está nele! Sentia até um pouco de pena dela vendo aquilo. Maldição, é por isso que eu não gosto de lutar com mulheres. Tenho sempre um grande caso de remorso depois que derroto uma. Mas por um lado, a culpa não era dele por ter batido tanto nela. Afinal de contas, ela mereceu! Foi ela que decidiu ficar me provocando, zombando da minha cara! Se ela tivesse apenas ficado calada, eu teria enfrentado o Kastor, e então eu estaria matando ele ao invés dela. Matando... isso levantava um bom ponto.

Coçou levemente seu queixo com uma de suas mãos enquanto pensava naquilo e prestou ativamente um pouco mais de atenção àquela mulher. De fato, ela realmente estava muito ferida, isso era bem claro, mas apesar disso, Zaniark conseguia ver o peito dela subir e descer. Em outras palavras, ela está viva ainda. Talvez devesse por um ponto final naquilo, já que estava ali. Não gosto de matar mulheres, mas suponho que devo ao menos tirá-la do seu sofrimento. Pra ser sincero ali, aquela mulher dificilmente iria sobreviver àquilo se ele simplesmente a deixasse ali; ela era uma arqueira, não uma guerreira, e os danos que ele havia causado sobre ela eram simplesmente elevados demais. Se ela fosse alguém como eu, ela provavelmente conseguiria sobreviver a isso por seu corpo ser mais resistente e mais acostumado com golpes como esse, mas sendo uma guerreira que se foca no combate a longa distância, ela provavelmente é frágil demais para sobreviver a isso. E mesmo se não fosse esse o caso, também não seria algo bom simplesmente deixa-la vivo. Não gosto de matar mulheres e tudo mais, mas prefiro matar uma mulher do que deixa-la sobreviver e correr o risco de que ela acabe causando ou colaborando na morte de algum companheiro meu. Pelo que sabia, Byron deveria estar lutando contra alguém do grupo de Kastor – ele havia dito que iria tentar detê-los no segundo andar, e lembrava-se de Kastor e uma de suas companheiras terem falado sobre algo desse tipo antes. Se ela se intrometer em uma luta como essa, ela pode causar a morte dele. Claro, a chance disso é mínima, mas ainda assim... Aquela era uma escolha complicada a se fazer.

Desperdiçou um ou dois minutos pensando nisso – um tempo que não tinha – mas no fim das contas, chegou a uma decisão. Afastou suas mãos do queixo, estalou seus dedos, deu uma última boa olhada na mulher... e virou-se de costas. Ela não é uma ameaça, disse ele para si mesmo enquanto se afastava. Se ela tiver de morrer, ela vai morrer. Se ela tiver de viver, ela vai viver. De qualquer forma, ela não vai poder interferir no que vai acontecer aqui, e eu não sou desprezível ao ponto de tirar até mesmo a chance de alguém luar por sua vida. A morte ou sobrevivência dessa mulher agora dependia unicamente da determinação dela. Há. Sinto que vou me arrepender disso eventualmente... mas, como dizem, “a vida é uma caixinha cheia de surpresas e arrependimentos”.

Arrependeu-se daquilo imediatamente.

Nem sequer notou que aquele ataque havia sido lançado contra ele, não havia ouvido seu som nem nada do tipo. Apenas sentiu algo perfurar seu corpo, sentiu como se um choque corresse por todo seu corpo, e quando olhou para baixo, viu um buraco. Seu mamilo do peito direito simplesmente não existia mais, e no lugar dele estava um buraco com cerca de vinte e cinco milímetros de diâmetro do qual pingava sangue, um buraco que atravessava diretamente o peito de Zaniark, provocado pelo ataque que havia atingido-lhe pelas costas.

Sentiu sangue subir aos seus lábios, mas nem se importou com isso. Estava irritado demais para realmente prestar atenção à detalhes como aquele. Puta. Puta maldita... Sua raiva era tanta que sua visão estava turva, sem que conseguisse focar seus olhos em qualquer ponto. Virou seu rosto enquanto rangia os dentes, sangue manchando-os de vermelho.

– Vadia ingrata... – murmurou ele, voltando lentamente seu corpo em direção à sua inimiga. A arqueira estava ensanguentada e completamente arrasada; suas roupas haviam sido reduzidas à trapos, deixando que visse partes da pele dela em carne viva, raladas brutalmente pela força com a qual ela foi arrastada pelo chão graças ao soco dele. Ainda assim, o olhar que ela lançava para Zaniark era tudo menos arrasado. Um olhar destemido e desafiante, que parecia jurar derrotar Zaniark, qualquer que fosse o custo disso. Em uma situação normal ele acharia um olhar como esse admirável, veria-o como o sinal de um verdadeiro guerreiro... mas ali, naquele momento, isso não era nada mais do que irritante para ele. – Eu ia lhe poupar, sua maldita vaca. Eu ia lhe presentear com misericórdia!

Era claro ali que a mulher estava com dificuldades. Ambos os braços que ela usava para segurar seu arco estavam feridos, e apesar de todos os esforços dela, Zaniark conseguia vê-los tremendo um pouco de tempos em tempos. A bem da verdade, parecia-lhe que aquela mulher quase não se aguentava ali, que ela estava tendo de usar toda a sua determinação para erguer aquele arco, mas a resposta que ela lhe deu foi uma direta contradição a tudo isso.

– Eu não me lembro... de ter pedido misericórdia – cuspiu ela, sem nunca vacilar em seu olhar ou postura, mantendo seu rosto erguido e orgulhoso. – Sou uma membra da Era Dourada, homem-raio. Nós não pedimos por misericórdia. Nós a concedemos.

Isso apenas fez lhe irritar ainda mais. Essa arqueira... ela não é apenas uma mulher irritante, mas também arrogante! Acima de sua cabeça, os céus rugiram no momento em que um raio fez-se notar, iluminando repentinamente toda aquela cidade por um único instante. Já começou, então. Minha Aloeiris. Sua habilidade era Trovoada, e as habilidades que ela lhe concediam eram muitas. Posso transformar todo o meu corpo em um raio para me mover. Posso transformar apenas parcialmente o meu corpo em raio para aumentar a velocidade e o poder de meus ataques. Sou imune a eletricidade e posso causar tempestades de raios, trovões e relâmpagos ao meu bel prazer quando bem me convir, sem a necessidade de uma preparação anterior ou sequer de nuvens no céu. Mas nenhuma dessas habilidades era nada se comparadas ao poder que iria mostrar agora.

– Você não pede por misericórdia, mulher? Bom pra você! – declarou ele, batendo um punho fechado no outro. Faíscas surgiram do contato entre seus punhos e eletricidade fluiu por seu corpo, dos dedos do pé até a ponta de seus cabelos. – Pois de agora em diante, eu não vou mais pegar leve! Quando eu terminar com você, não terá sequer um corpo pra contar história!

Ergueu uma de suas mãos para o alto, e por sua ordem um novo raio surgiu. O rugido deste foi duas vezes maior do que o anterior, capaz de ensurdecer qualquer um, e ao contrário do anterior que foi um simples raio ao acaso, aquele raio caiu exatamente sobre Zaniark... ou, mais precisamente, falando, sobre a mão de Zaniark. Sentia o brilho sobre seu rosto e o calor sobre sua mão, mas essa era uma sensação com a qual ele já estava acostumado. Parece que mesmo sendo alguém que possui a habilidade de causar raios, eu não sou completamente imune aos efeitos de um quando ele me atinge diretamente assim. Mas isso não importava. A relação custo-benefício ali estava claramente ao seu favor.

Seus poderes começaram a agir assim que o raio lhe atingiu. Eles captaram a energia daquele fenômeno natural, comprimindo-a de forma portável e dando-lhe uma forma útil. O brilho continuou a iluminar o ambiente, ainda que de forma mais contida, quando o raio foi completamente dominado pela sua vontade, tornando-se uma espécie de lança de eletricidade segurada pela mão nua do Raio Dourado. A expressão forte no rosto da arqueira desapareceu, e ao ver aquilo, ela se tornou uma expressão de puro pânico e descrença. Está assustada, arqueira? Se se lembrava bem, haviam histórias sobre um Deus antigo que tinha uma habilidade como aquela, um Deus que tinha o poder de invocar raios e usá-los como armas, arremessando-os contra seus inimigos. Eu não sei se isso é realmente verdade ou se é apenas uma daquelas histórias estúpidas que me contavam quando eu era criança, mas francamente, isso não importa. Verdade, mentira... o fato é que esse ataque tem o poder de um Deus! Afastou sua perna esquerda para afim de usá-la como apoio, jogou sua mão com o raio nela pra trás, e naquele momento, um sorriso surgiu em seu rosto. Te vejo no inferno, puta vermelha.

LANÇA-RAIOS! – entoou ele com toda a força de seus pulmões, lançando o raio de suas mãos e liberando toda a energia destrutiva que tinha acumulado ali contra sua oponente.

Fazia muito tempo desde a última vez em que tinha recorrido aquela técnica, e isso fez com que ele se sentisse imensamente satisfeito quando verificou que o poder dela era o mesmo que ele recordava. Absolutamente nada que foi atingido por seu raio resistiu. O telhado do prédio aonde estava, a metade superior do prédio que ficava depois dele, até mesmo parte da muralha protetora erguida ao redor da cidade pelo pouco que ele podia ver... tudo isso e ainda mais havia simplesmente desaparecido. O raio que lancei é pura energia comprimida, liberada de uma única vez. E ao ser liberada, essa energia mostrava todo o seu poder; fumaça saia das partes que haviam sobrado do prédio, e mesmo assim era simplesmente impossível ver qualquer sinal de queima ou derretimento que não fosse aquele. Energia é quente, muito quente. Um raio meu não faz algo tão simples quanto eletrocutar ou queimar o que ele atinge. Ele literalmente oblitera tudo em seu caminho. Quando eu lanço meu ataque, não sobra nada do que quer que seja atingido por ele. E era exatamente isso que havia acontecido com aquela arqueira. Você poderia ter sobrevivido, mulher, mas teve de teimar em ficar abrindo a boca, não é? Ainda não gostava muito de ter matado uma mulher, mas não havia nada que pudesse fazer quanto a isso. Ela era uma inimiga, e eu não posso simplesmente sair por aí deixando inimigos vivos simplesmente porquê eu não gosto de mata-los. Além do mais, ela morreu por teimosia própria, orgulho estúpido e uma inabilidade de ficar quieta. Isso foi menos “eu a matei” e mais “ela cometeu suicídio via mim”. Até para ele aquilo soava como uma desculpa um tanto quanto esfarrapada, mas supunha que aquilo não tinha importância; desculpa esfarrapada ou não, nada mudava os fatos.

Foi então que sentiu alguma coisa vindo em sua direção. Teve uma reação tão rápida quanto pôde para aquilo, mas não foi o suficiente. O melhor que pode fazer foi erguer desajeitadamente um de seus braços e coloca-los no caminho do que quer que vinha contra ele, e não demorou muito para que entendesse o que havia acontecido. Três flechas de gelo atingiram seu braço, e apesar de não ter sentido dor alguma com o impacto delas, todo o seu braço foi instantaneamente congelado por elas. Maldição... Tentou mover sua mão revestida de gelo para tentar ver se ainda podia usá-la de alguma forma – não era possível, afinal, que suas articulações tivessem congelado assim tão rápido – mas não obteve sucesso nisso. É como se uma massa de concreto envolvesse meu braço. Não sinto propriamente como se eu não pudesse movê-lo, mas sim como se algo estivesse me impedindo de movê-lo. Aquilo certamente era magia, e considerando que haviam sido flechas que caíram sobre ele... tinha uma boa ideia de quem era o responsável por isso.

– Estou surpreso que você possa fazer algo assim – disse ele em voz alta, sabendo bem que ela lhe ouvia, apesar de não saber ao certo aonde ela estava. – Você só esteve utilizando flechas de fogo desde que lhe vi. Imaginei que suas habilidades se limitavam a esse elemento. – não podia mover seu braço, mas isso não o impedia de usar seu próprio poder. A partir de seu outro braço ele gerou uma onda elétrica, transformando parcialmente seu corpo em um raio, e depois apenas teve de trabalhar em mover essa onda do seu braço, pelo seu ombro, até seu braço congelado. O gelo despedaçou-se como vidro diante da força da eletricidade, e assim que isso aconteceu Zaniark pode voltar a mover seu braço normalmente. – No entanto, parece que você não é particularmente talentosa com esse tipo de magia. O congelamento foi apenas superficial, uma mera camada de gelo cobrindo meu braço. Se o gelo ficasse ali por tempo o suficiente, talvez eu tivesse verdadeiros problemas... mas acho que você já viu o suficiente de mim para saber que uma magia desse nível não vai me segurar por muito tempo. Se você planeja me derrotar, vai precisar de muito mais do que isso, arqueira!

Esperava de alguma forma atrair aquela mulher com suas palavras. Claro, não imaginava que ela fosse apenas sair de qualquer que fosse o buraco aonde havia se escondido para enfrentá-lo de frente, mas esperava que ela ao menos respondesse a ele de alguma forma, fosse com palavras ou com flechas. Mas nenhuma resposta veio. Ela está sendo esperta, ou apenas rude? Não sabia qual era o caso, mas sabia que isso atrapalhava bastante seus planos. Planejava usar a voz dela ou a direção da qual viessem suas flechas para descobrir aonde ela estava escondida, mas parece que isso não vai ser possível. Muito bem então. Se não posso fazer as coisas do jeito mais fácil... só me resta usar do jeito mais difícil!

Abriu sua mão antes congelada, e mais uma vez um raio caiu sobre ela. Tal como havia feito antes, comprimiu e converteu esse raio até que ele assumisse a forma de uma lança, mas dessa vez não limitou-se apenas a arremessa-lo contra sua oponente, até porquê não sabia aonde ela estava. Ao invés disso, fez algo muito pior; atirou-o de volta para o céu, devolvendo-o à escuridão da noite. Sorriu, sabendo bem o que a mulher deveria pensar daquilo. Ela provavelmente está confusa, pensando que sou algum tipo de louco. Deve estar imaginando nesse exato momento o que eu tenho a ganhar com isso. Bom, pelo que lhe constava, ela podia ficar tão confusa quanto quisesse. Você não é a única que tem truques na manga, mulher. A diferença é que os meus truques vão matá-la!

Ergueu um punho fechado aos céus, apontando-o em direção a sua lança elétrica.

RAIJIN! – gritou ele, ativando sua habilidade, e no momento em que essas palavras foram ditas, abriu sua mão.

O efeito foi instantâneo. A lança e toda a energia que havia concentrada nela se dispersaram, se separando e caindo sobre a terra sobre uma chuva dourada de pura energia e eletricidade, fazendo com que raios causassem o caos sobre aquela cidade. O som deles foi superior a tudo, alto o bastante para ressoar em seus ouvidos como se estivesse ao lado de cada raio que caia. Cada raio que atingia o chão deixava uma cratera aonde caia, destruía a pedra ou terra ou concreto que estava em seu caminho como se não fossem absolutamente nada. Viu um raio cair sobre uma casa próxima e viu essa casa rasgar-se em duas no momento em que isso aconteceu, cortada em dois com a mesma facilidade com a qual uma faca quente corta manteiga. Ah, é por isso que eu adoro essa habilidade. Conseguia começar a ouvir os sons do pânico pela cidade, ouvir a população entrar em desespero diante da chuva de raios que caia sobre eles, mas francamente não conseguia se importar com aquilo naquele momento. Creio que nesse caso é algo muito bom que os raios sejam mais barulhentos que as pessoas.

– Consegue ouvir isso, arqueira? Ouvir o desespero?! – gritou Zaniark, no momento em que os raios pararam por um momento, a energia que ele havia lançado ao céu tendo finalmente acabado. Isso não durou muito, entretanto; logo um novo raio caiu sobre sua mão, e sem hesitar Zaniark tornou a arremessa-lo aos céus. – Isso vai continuar enquanto você não surgir! Posso manter isso a noite toda, arqueira, e não me importo em matar cada pessoa nessa cidade desde que você acabe morta também!

A bem da verdade, nem mesmo ele sabia se estava falando sério com aquilo. Estava destruindo tudo ao seu redor, sim, e não era necessariamente a pessoa mais bondosa que já pisou naquela terra... mas não era um psicopata louco, também. Seus ataques eram aleatórios e indiscriminados, mas ao menos por enquanto ele duvidava que algum de seus raios tivesse realmente atingido alguns inocentes. Isso não vai durar muito se as coisas continuarem nesse ritmo, no entanto. Cada vez mais os gritos ficavam cada vez mais desesperados, e simplesmente não conseguia deixar de pensar que isso significava que ele estava cada vez mais perto de atingir aquelas pessoas. Estava bem irritado com aquela mulher e queria matá-la mais do que qualquer coisa naquele momento, mas ainda assim... não tinha certeza se tinha sangue-frio o suficiente para causar a morte de toda uma cidade apenas para matá-la. Mas ela não sabe disso, e é isso que importa! Só precisava que aquela mulher se mostrasse de novo. Não tinha ideia de como ela havia evitado seu raio pela primeira vez, mas isso não importava. Ela pode ser tão rápida quanto quiser! Quando eu estiver na cara dela e arremessar um raio contra ela a queima-roupa, ela vai se transformar em pó!

Esperou mais alguns momentos antes de olhar ao redor, tentando ver se a mulher havia se mostrado. Quando viu que não, voltou a se irritar. Raios partam, será que ela pensa que estou blefando aqui? Esperava que ela fosse se mostrar com sua ameaça, mas aparentemente ela não era assim tão determinada a salvar vidas inocentes. Pensei que Kastor e seus companheiros viam-se como algum tipo de grupo de heróis ou coisa do tipo, mas não me lembro de nenhum herói que ficou parado escondido enquanto pessoas inocentes estavam sendo atacadas. Bom, supunha que devia ter esperado por aquilo. Isso só serve para mostrar como as coisas são. Eles podem gostar de se considerar bonzinhos e podem ser bons em passar a imagem de serem bonzinhos, mas no fim das contas, isso é só da boca pra fora. Eles não são os heróis que acham ser, e considerando que Balak tem um problema pessoal com eles pelo que entendi, eles devem ter feito algo de muito ruim no passado. Mas essa não era a questão que tinha diante de si naquele momento.

Eu sigo em frente com minhas ameaças? Ou não? Aquilo era algo realmente complicado, o dilema que tinha diante de si. Se usasse o Raijin de novo, certamente iria acabar matando algumas pessoas, principalmente considerando o pânico e desespero que já se alastrava entre a população daquela cidade. Esse não era necessariamente um pensamento que lhe deixava contente. No entanto, se eu não usar o Raijin, ficará óbvio que eu estava simplesmente blefando com o que falei antes. Isso não só significaria que a mulher não se mostraria como também que ela não acreditaria em nada que ele dissesse a seguir. Maldição, eu realmente deveria ter considerado melhor minhas opções antes de decidir ameaçar destruir uma cidade se ela não fizesse o que eu queria. A bem da verdade, não tinha uma verdadeira escolha ali.

Relutante, ergueu sua mão aos céus, preparando-se para invocar outro raio até ela... mas antes que tivesse tempo de fazer isso, sentiu uma dor cortante em seu braço... e logo em seguida não sentiu mais nada depois de seu antebraço.

Seu rosto virou-se imediatamente em direção aquilo. Nada no mundo seria capaz de descrever apropriadamente a expressão de pura incredulidade que tomou conta do rosto de Zaniark quando o Raio Dourado viu uma flecha seguindo em direção ao chão, metade de seu braço dançando em meio ao ar e sangue esguichando de seu ferimento. Isso... isso não é possível! Uma flecha não pode causar tanto dano assim, flechas não cortam membros tão facilmente assim! Isso é uma ilusão, tem de ser uma ilusão! Isso foi o que ele pensou de imediato... até notar algo. Olhou para flecha e seus olhos treinados compreenderam tudo. Ao redor da ponta dela, conseguia ver o movimento do ar. Sendo impossível de se ver ao olho nu, ninguém conseguia ver o movimento do ar ou do vento em situações normais, a não ser que ele estivesse se movendo muito rapidamente. Como um furacão... Aquilo não era um furacão, mas pelo que podia ver, não era tão diferente, também. Conseguia ver o ar e via-o parado ali, e era ao menos esperto o suficiente para saber que isso não seria possível... o que significava que o ar estava na verdade se movendo, só que se movia tão rapidamente que ele parecia estar parado. Ele provavelmente está movendo-se em um sentido circular ao redor da ponta da flecha, e se eu não consigo ver seu movimento, então a velocidade dele é absurdamente alta. Um movimento contínuo extremamente rápido em um curso circular considerável... por mil diabos, isso não é uma flecha, mas sim algum tipo de serra de ar! Era por isso que havia sido tão fácil cortar seu braço, então.

Voltou seu rosto para trás ao mesmo tempo em que a flecha fazia um buraco no chão abaixo dele e seu braço caia lá em baixo, pelo buraco que havia feito naquele teto ao usar seu lança-raios. Sentia ainda a dor do corte que havia sofrido, mas não permitia a si mesmo focar-se nela. Tenho coisas mais importantes nas quais me focar, não é mesmo? Coisas como a minha oponente! Seus olhos foram para cima, e ali eles a viram. A arqueira estava na beirada de um prédio distante do seu, mas muito mais alto. Mal conseguia vê-la, tão distante que ela estava, mas sabia que aquela era ela, tal como sabia que a distância que os separava não significava nada para aquela mulher. Ela é uma arqueira! Faz sentido, faz todo o sentido! Uma arqueira se especializa no combate a longa distância, então é apenas natural que ela tenha buscado exatamente por isso no tempo que teve.

Gargalhou de felicidade.

Não estava louco ou ignorante a situação na qual se encontrava. Sabia claramente que estava com muitos problemas ali, sabia melhor do que ninguém que a chance de que acabasse morto ao fim do dia estava ficando cada vez mais fortes, mas pelos Deuses, nada disso importava. É isso que eu quero. Uma luta! Uma verdadeira e digna luta! Fazia muito tempo, tempo demais. Fazia muito tempo desde a última vez que tinha encontrado um oponente decente. Pensei que Kastor seria aquele que poderia me dar uma verdadeira luta de novo, mas parece que eu estava subestimando o grupo dele! Uma pessoa normal ficaria desesperada em perder seu braço daquela forma, mas Zaniark não conseguia sentir nada mais do que gigantesca satisfação com aquilo; aquele ali era o seu objetivo de muito tempo se realizando, e isso lhe enchia de felicidade e animação.

– Ei! Arqueira! – gritou ele com toda a força de seus pulmões, batendo em seu peito com seu próprio punho, usando força o suficiente naquele golpe para que o estrondo ressoasse pela cidade. – Acredito que nunca fiz minha introdução, não é? Meu nome é Zaniark! Zaniark Grimmweather, chamado de “Raio Dourado”!

Não esperava realmente nenhuma resposta para isso. Havia imaginado que a mulher iria simplesmente ignorar tudo aquilo – talvez que ela até mesmo se aproveitasse da chance para lançar um ataque – mas não foi isso que aconteceu. Ela lhe deu uma resposta, e bem prontamente, até.

– Meu nome é Anabeth Gregori Dilauence – tornou a voz dela, alta para que ele pudesse ouvi-la, mas ainda assim calma e bem controlada. – Membra da Era Dourada, seguidora de Kastor Strauss... e a mulher que irá tirar a sua vida.

É isso que eu quero ouvir! Ergueu a mão que lhe restava aos céus e mais uma vez chamou por um raio. Não demorou para que um deles caísse em sua mão, mas no tempo em que havia feito isso, Anabeth não ficou parada. Não conseguiu ver muito bem o que exatamente ela estava fazendo ali, mas conseguiu ver algumas chamas destacando-se no meio de tudo aquilo, e isso foi mais do que o suficiente para que soubesse que ela estava falando sério. Ela já mostrou pelo menos outros dois elementos além do fogo, mas pelo que eu vi até aqui, suas habilidades de fogo são as mais poderosas em seu arsenal. Começou a moldar o raio em suas mãos para arremessa-lo contra ela, sabendo bem que precisava fazer isso o mais rapidamente possível se quisesse ter uma chance de combate ali... mas não o fez rápido o suficiente pelo que viu.

Gostava de pensar em si mesmo como um guerreiro corajoso e destemido, alguém que não se abaixava diante de desafio algum... mas teve de admitir; até mesmo ele sentiu medo quando viu aquilo. Não sabia exatamente o que Anabeth havia feito, mas o que surgiu do arco dela não foi nenhum tipo de flecha, mas sim uma gigantesca salamandra de fogo. Muito bem, por essa eu não esperava! O grande réptil feito de chamas não tinha mãos ou pés, mas apenas seu corpo e cabeça. Tinha espaços no lugar aonde deveriam estar seus olhos, mas nada os preenchiam, deixando apenas órbitas vazias ali que faziam com que aquele monstro parecesse ainda mais assustador. A salamandra subiu alto, crescendo e crescendo cada vez mais, parecendo estar sempre se tornando maior e mais poderosa... e em um momento, ela virou-se para Zaniark. Oh, merda. Não sabia se aquela coisa podia lhe ver ou se ela sentia sua presença ali ou até mesmo se ela simplesmente estava obedecendo ordens de Anabeth. Não importava. Sem hesitação, a grande salamandra de fogo avançou contra ele.

Mas no instante em que ela fez isso, as preparações de Zaniark foram terminadas, e ele não pode deixar de sorrir com isso. Um último confronto, que tal? Seu golpe mais forte contra o meu golpe mais forte. Vamos ver quem é o melhor, Anabeth! Jogou seu braço para trás.

LANÇA-RAIOS! – cantou o guerreiro, arremessando seu ataque.

=====

O corpo de Anabeth caiu ao chão, do topo do tão-alto prédio aonde ela antes estava. Seu braço esquerdo não existia mais; com o lança-raios de Zaniark, ele havia sido completamente obliterado, reduzido até o pó e um pouco menos.

Sorriria em satisfação, se não estivesse tão cansado... e se tivesse motivos pra sorrir, além de uma boa luta.

– Eu perdi... – murmurou consigo mesmo Zaniark Grimmweather, caindo de joelhos no chão, a flecha ainda cravada em seu peito.

Lembrava-se bem do que havia acontecido. O confronto entre seu ataque e o de Anabeth foi violento, como duas feras terríveis se enfrentando. Fogo e eletricidade bateram de frente com todas as forças, tentando subjugar um ao outro de qualquer forma... e no fim, eletricidade venceu. Sua lança abriu caminho, desfazendo a salamandra de fogo da arqueira em pouco mais do que brasas, seguindo para tomar o braço da mulher e sua consciência, também. No entanto, no fim de tudo, ele havia perdido, e tudo por um motivo muito simples; não havia visto a segunda flecha dela, a que havia lhe atingido em cheio.

– E pensar que você seria capaz de esconder um ataque na sombra do outro dessa forma... eu lhe subestimei muito, Anabeth. – sabia que iria morrer ali, mas estava satisfeito. Morrer em batalha... essa é uma boa morte.

Sentia o sangue em seu peito ferver já com os efeitos da flecha e sabia bem que assim que ela se quebrasse o anjo da morte viria busca-lo, mas não tentou resistir quando o chão puxou seu corpo. Caiu de barriga pra baixo, quebrando a flecha com seu peso, e no instante em que fez isso, chamas consumiram seu corpo.



Notas finais do capítulo

Ok, esse capítulo foi registrado segunda agora. Tenho de adiantar um pouco as coisas aqui! Afinal, planejo ter outra história paralela ao fim desse pequeno arco, e tenho outros projetos paralelos também. Espero que vocês tenham gostado desse capítulo!

Ah, por sinal: Kya, prenda a respiração. Você é a próxima.

... Tá, não prenda a respiração. É só daqui à uma semana que virá o próximo capítulo. Se tu fizer isso, vai definitivamente acabar morta antes dele vir ao ar.



Hey! Que tal deixar um comentário na história?
Por não receberem novos comentários em suas histórias, muitos autores desanimam e param de postar. Não deixe a história "O Olho Vermelho" morrer!
Para comentar e incentivar o autor, cadastre-se ou entre em sua conta.