O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 129
Os Monstros do Mundo se Mostram (pt.I)


Notas iniciais do capítulo

Não, vocês não estão lendo errado.

Esse capítulo literalmente ficou tão grande, mas tão grande, que eu tive de parti-lo em duas partes para postá-lo, já que o Nyah! não aceita capítulos maiores do que 25 mil palavras.

A segunda parte dele estará sendo enviada em breve, e nela vocês poderão ver as minhas notas finais. Te aguardo lá!



QUAL O PROBLEMA, STRAUSS? – Balak podia sentir o gosto de sangue na língua enquanto falava, e mesmo com sua visão turva e avermelhada ele conseguia ver que o cavaleiro estava parado no lugar onde havia aterrissado, olhando para sua espada como se estivesse pensativo. – Para alguém que me odiava tanto a ponto de fazer questão de me enfrentar pessoalmente, você parece bem hesitante. Vamos, o que foi? Está com medo do que pode acontecer? Medo que eu tenha uma armadilha ao seu aguardo? Pois se sim, aqui vai uma boa notícia; eu não tenho. Você me derrotou completamente, meus parabéns. Eu não tenho nada que eu possa jogar. Nenhum plano secreto, nenhuma carta na manga. E é exatamente por isso que digo que essa é a sua melhor chance. Ou, talvez, sua única chance. Eu já disse isso antes, mas você não é muito esperto, então permita-me repetir de forma um pouco mais lenta e clara. Eu. Vou. Matar. Seus. Amigos. Me dê a chance de me recuperar, Strauss, e eu prometo que irei voltar atrás de você, e irei me certificar de que nada nem ninguém fique no meu caminho.

O rosto do cavaleiro voltou-se para ele ao ouvir suas palavras, e embora a visão de Balak fosse sem dúvida alguma uma completa merda a essa altura, ele ainda foi capaz de reconhecer o olhar sombrio do demônio. Heh, está funcionando. Enquanto externamente ele expressava um sorriso cínico e arrogante, o sorriso interno de Balak era muito mais resignado e tranquilizado pelo que aquilo significava. Eu estou conseguindo irritá-lo... o que significa que não vai demorar muito para que ele tente me matar. Excelente. É justamente isso que eu quero.

Até onde podia lembrar-se, sua vida naqueles últimos anos havia girado em torno de apenas duas coisas: a profecia da Era dos Demônios, e o Olho Vermelho. Havia se dedicado de corpo e alma em impedir o renascimento dos Corações, fazendo todo o possível para assegurar a sobrevivência da humanidade, e para esse fim ele também havia se esforçado em fortalecer sua guilda... embora dizer que essa era sua única preocupação fosse uma grande mentira. O Olho Vermelho havia nascido a partir dos vários companheiros que fez durante suas viagens: Tristah, Cleus, Scar, Presas, Bertold, Behemoth, J, T.I.T.A.N., Dwyn... nenhum deles era perfeito, mas eles eram companheiros leais de Balak, pessoas que haviam ficado do seu lado e lhe apoiado durante o melhor e o pior. A afeição que tinha por eles era maior do que podia descrever em palavras – eles eram para ele como sua família, e eram as únicas pessoas que ele podia afirmar com toda certeza que nunca sacrificaria em prol de objetivo algum.

Mas querendo ou não, era isso que ele havia acabado fazendo, e por um objetivo que era inalcançável. Nunca seria capaz de derrotar Kastor, o que significa que não seria capaz de parar o renascimento dos demônios, e seus amigos haviam, no fim das contas, morrido em vão. Via isso claramente agora, e tendo isso em mente... que motivo tinha para continuar vivo? Que direito tinha de continuar vivo? Eu fiz muitos sacrifícios e muitas coisas erradas. Matei, roubei, menti... feri pessoas a torto e a direito, e enquanto fazia tudo isso eu continuava a dizer a mim mesmo que isso era pelo bem maior, que tudo iria valer a pena quando eu impedisse os demônios. Mas isso nunca iria acontecer agora, o que significava que tudo aquilo havia sido em vão também. Todas aquelas vidas, tudo o que eu fiz... tudo a toa. Que merda, hein? Eu... eu realmente sou lixo, não sou? O pior dos lixos, o rei dos fracassados. Não queria mais continuar vivo, não depois de tudo aquilo... e ninguém melhor do que Kastor para desferir o golpe final.

— Diga, Strauss... por qual companheiro eu devo começar? As mulheres? Eu sei que tenho algumas boas alternativas em meio a elas, afinal, você se deu ao trabalho de criar seu pequeno harém, não é? Talvez eu deva começar com a maga, ou talvez com a que vem de Carcino? Talvez a arqueira, hum? A que perdeu um braço para um subordinado meu? Ou talvez eu deva pular logo para o que seria mais impactante? A espadachim ruiva... você tem sentimentos por ela, não tem? Imagino qual seria a sua reação ao entrar no seu quarto e ser recepcionado pelo rosto dela, decapitado, embrulhado nos lençóis da sua cama. Medo, ou fúria, hum? Qual seria o seu sentimento?

O cavaleiro não deu resposta, mas ao invés disso pareceu tomar uma decisão. Com aquele mesmo semblante sombrio em seu rosto ele segurou a empunhadura de sua espada com mais força e começou a avançar em direção a Balak de forma ameaçadora. Isso. Isso mesmo. Me odeie, Kastor. Me odeie, e me mate de vez.

— Ou talvez eu deva seguir para seus amigos, o que acha? – Provocou Balak, forçando-se a rir para ser ainda mais irritante. – Duke deveria ser o primeiro, talvez? Você parece ter firmado uma boa amizade com ele, ainda que recente, e ele parece bem leal a você e a sua causa. Acho que você sentiria a morte dele, Strauss, se tivesse um coração humano. Ou talvez seja melhor me focar nos amigos de longa data? Vejamos... eu posso acabar o trabalho que comecei com aqueles dois, Lancelot e Titânia. Ou posso tentar mirar um pouco mais alto e matar Odin, já que já matei os demais líderes do Salão de qualquer forma. Ou talvez... Royes?

Calado! — O que era um caminhar se transformou em uma corrida em questão de instantes. Perante às provocações de Balak, o cavaleiro azul não foi mais capaz de simplesmente continuar a avançar lentamente em sua direção, disparando a correr contra ele enquanto empunhava sua espada como se ela fosse uma lança. Quase lá! Quase lá!

— Parece justo, não parece, Strauss? Afinal, são esses os pecadores que se erguem em defesa de um demônio! Os pecadores que colocam a própria raça humana em risco por seu egoísmo! Não parece apenas justo que eles paguem por suas ações? Não parece apenas justo que eles sejam punidos pelos seus pecados! Pois é isso que vai acontecer! Dê-me tempo, Kastor! Rogo-lhe, dê-me tempo! Dê-me tempo, e a chance de erradicar os adoradores de demônio!

Ao fim do soar dessa frase, o brilho de aço iluminou o rosto de Balak. A ponta de uma espada mostrou-se acima da sua cabeça, apontando direto para seu crânio e empunhada por um homem cujo rosto era a própria máscara da fúria... e diante dessa visão que para muitos seria terrível, Balak não pode deixar de sorrir. Enfim. Finalmente. Sabia que iria morrer agora. E nada lhe deixava mais feliz.

CALADO! — Gritou a voz de Kastor, e sem hesitação, a espada desceu.

=====

3 dias depois, no Salão Cinzento...

 

— Eu sinto muito pelo que aconteceu com seus companheiros – disse Odin com pesar honesto em suas palavras, olhando direto nos olhos de Dayun enquanto falava. O Terceiro Cavaleiro, normalmente um homem vigoroso e hiperativo que estava sempre gritando, mostrava agora uma postura silenciosa e retraída, como a de um animal ferido. – Infelizmente eu nunca cheguei a conhecer Vaen e Chappa muito bem pessoalmente, mas eles eram cavaleiros do Salão Cinzento, e todos os cavaleiros são para mim parte da minha família. E além do mais, eu sei que você era próximo deles. É infeliz que eles tenham tido esse destino, e que você ainda tenha tido que presenciar aquilo.

— Eu... agradeço pelas suas palavras, Mestre Odin – murmurou o outro, embora pelo seu tom fraco e olhar perdido Odin pudesse facilmente assumir que ele não havia ouvido metade do que havia acabado de dizer. Não que pudesse culpa-lo. O pobre coitado ainda está claramente abalado depois do que aconteceu. Ele precisa de tempo para curar as feridas em seu coração, e provavelmente seria bom que eu lhe deixasse sozinho até que se recuperasse... não fosse a situação exatamente essa. Não era Odin que havia ido aos aposentos de Dayun lhe procurar, mas sim o contrário; o cavaleiro havia por algum motivo saído do seu repouso para buscar o Cavaleiro Negro em seu escritório com claramente alguma coisa a dizer, mas ele não parecia saber como exatamente dizê-la. Sem saber do que se tratava, Odin podia fazer pouco mais do que incentivá-lo.

— Sei que esse é um consolo pequeno, mas o responsável pelo que aconteceu com seus amigos foi morto em batalha, e os dois serão honrados. Os preparativos para o funeral deles e dos demais cavaleiros que caíram nessa guerra estão sendo feitos, e farei o meu melhor para garantir que seus feitos e sua dedicação sejam lembradas eternamente na história desse Salão – assegurou Odin, gesticulando com a mão enquanto falava. – Nesse meio tempo, se tiver qualquer coisa que você queira ou que eu possa fazer por você, por favor, sinta-se à vontade. Você é um herói, Dayun, e será tratado como tal.

— Herói? Eu? Pelo quê? Ter tido a sorte de só ficar inconsciente e não acabar morto? – Retrucou o Terceiro Cavaleiro de forma ríspida, sua voz ganhando rapidamente um tom irritadiço. – Eu não fiz nada, não contribui em nada. Não mereço esse título de “herói”. Guarde ele para os que morreram, ou para os que fizeram algo útil. Kastor, Hozar, Titânia, Bokuto... esses são os que merecem o título.

Podia criar uma lista tão grande com o que estava errado naquelas poucas frases que todo o roteiro de uma peça de teatro pareceria pequena perto disso, mas não ousou abrir a boca ou dizer uma única palavra. Dayun estava tenso pelo que havia acontecido com seus companheiros, e naquele estado seria uma péssima ideia discutir com ele sobre qualquer coisa – mesmo que isso fosse defendendo-o dele mesmo. Ao invés disso o que ele fez foi ficar em silêncio, impassível, apenas observando o cavaleiro, esperando pelo que quer que ele pudesse ter a dizer a mais.

Isso pareceu desapontar Dayun. Pela expressão no seu rosto ele estava preparado para seguir em frente no momento em que Odin retrucasse algo, mas como isso nunca aconteceu ele nunca teve a chance de falar nada, e o silêncio e a calmaria forçaram-no a repensar o que estava fazendo. Sua postura havia se animado com aquilo, fazendo com que seus ombros se erguessem e ele voltasse a parecer vivo por um momento: ver tudo aquilo voltar a desabar no desânimo quase fez com que Odin se arrependesse por não ter dito nada.

— Me desculpe, Odin. Você... eu não devo falar assim com você – murmurou Dayun, voltando a soar como um animal acuado. Odin tentou gesticular e dizer que ele não tinha que se desculpar, mas antes que tivesse a chance de falar qualquer coisa, Dayun lhe interrompeu. – Uma pergunta. A próxima guerra, a guerra contra Ember... ela vai ser como essa?

— .... Como é? – A pergunta lhe pegou de surpresa, fazendo com que seu único olho piscasse duas vezes, atônito. Dayun havia abaixado sua cabeça para evitar olhar no olho de Odin, mas mesmo assim ele não hesitou em elaborar quanto ao que havia dito.

— Todo mundo sabe que tem uma guerra que está por vir. Uma guerra entre o Império do Norte e os Reinos do Sul na qual o Salão Cinzento irá tomar partido. É só uma questão de tempo para ela chegar. Estamos todos nos preparando para isso, juntando forças e formando alianças, e cada um de nós sabe disso. A minha pergunta é: essa guerra vai ser como essa contra o Olho Vermelho? As coisas vão ser tão ruins assim?

Aquela elaboração – e em especial, a última frase do seu companheiro – foi o bastante para que Odin compreendesse bem o ponto ao qual ele queria chegar. Ele está com medo, compreendeu o cavaleiro. Ele está amedrontado pelo pensamento de enfrentar algo similar ao que ele passou, e ele quer que eu lhe tranquilize. Diga que as coisas vão melhorar.

— Não. – Disse Odin, simplesmente. – As coisas não vão ser como foram nessa última guerra. Elas serão piores. Muito piores.

Os olhos de Dayun se arregalaram ao ouvir aquilo, e só por isso Odin já sabia como aquela conversa ia terminar, mas isso não lhe parou, nem tampouco fez com que questionasse sua decisão. Ele tinha um código firme de morais, e um dos pontos mais importantes nesse código era algo simples, mas vital.

“Nunca minta sobre o que é a guerra”.

— Você mesmo disse isso, Dayun. Preparações estão sendo feitas. Alianças estão sendo feitas. Ferreiros estão parando de forjar foices e enxadas para forjarem armas e armaduras. Essa será uma guerra continental, então só por isso você deve poder imaginar que a dimensão dela será muito maior – disse Odin, vendo o terror crescente nas feições de Dayun enquanto discursava sobre aquilo. Podia parar a qualquer momento, sabia disso, mas queria seguir em frente. Depois do que o homem havia passado ele merecia aquilo, merecia saber exatamente o que ia acontecer. – Além da simples questão de dimensão, é importante notarmos que teremos pessoas de níveis de poder muito maior nessas batalhas. De um lado temos Ember, o Angra Mainyu, acompanhado dos seus Sete Einherjars e dos seus Vinte Generais. Do outro temos o Sul, e os exércitos de elite dos que guerrearam. Os Nove Guardiões da Sociedade do Anel, de Haerion. Os Onze G.E.A.R.S. de Carcino. As Cinco Termagand de Valenford. Os Quatro Duques da Legião de Ouro e Prata de Fredora, e, claro, os agora Seis Ascendentes do Salão Cinzento. E não podemos esquecer de todas as guildas também: a Pérola Negra, o Sétimo Círculo, o Sol Vermelho, os Vigilantes.... Esses fatores por si só estabelecem os ingredientes para um grande confronto, e levando em conta tudo o que está em jogo nessa guerra, as dimensões desse conflito e os interesses que os lados envolvidos tem... eu posso afirmar sem dúvida alguma que essa guerra será grande, Dayun. A maior guerra que esse mundo já viu desde a guerra entre Deuses, Demônios e Humanos, duzentos anos atrás. Perto de um conflito como esse... a guerra contra o Olho Vermelho é quase uma brincadeira de criança.

 Ao fim do seu discurso, Odin fechou seu olho e respirou fundo. É uma questão de tempo agora. Momentos, na verdade. Ele já sabia qual seria a reação do jovem cavaleiro quando havia começado a falar, mas isso não fazia com que se arrependesse do que havia feito. Um homem nunca deve se arrepender da sua honestidade. Se você espera que um soldado lute em uma batalha, o mínimo que você deve fazer é dizer a ele a verdade sobre essa batalha. Mesmo que isso não seja bonito, mesmo que seja desencorajador, é um direito de cada um saber no que está se metendo ao marchar para a guerra. Todos os soldados merecem isso, e alguém como Dayun, que acabou de sair de uma guerra na qual seus amigos mais próximos foram mortos diante dos seus olhos, merece isso mais do que qualquer um.

— Odin... – seu nome foi chamado pela voz trêmula do homem, e em resposta a esse chamado Odin voltou a abrir seu olho. A sua consciência do que iria acontecer a seguir foi o que permitiu que permanecesse calmo, mesmo depois de ver a expressão tortuosa e desesperada no rosto do cavaleiro. – Eu... eu gostaria de... eu quero... eu... eu não quero lutar! — A voz de Dayun quebrou ao soar daquele grito, ganhando um tom doloroso e desesperado que ninguém nunca esperaria de um homem como aquele. Seus punhos bateram com força na mesa, e lágrimas começaram a escapar de seus olhos, mas por mais que ele tentasse ele não conseguia pará-las, tal como não conseguia parar suas palavras. – Eu não quero lutar, Odin! Eu não quero ir pra guerra de novo! Eu não quero sentir tudo o que senti novamente, não quero ver meus companheiros morrer, não quero temer pela minha vida contra um oponente monstruoso, não quero ser morto como se fosse um cachorro, não quero morrer! Por favor, por favor, eu te imploro! Tenha piedade! Não me force a passar por tudo isso de novo, Odin! Por favor, não me force a voltar para a guerra!

... E mais um homem é quebrado. Aquela não era a primeira vez que Odin via algo assim, e duvidava muito que fosse ser a última. Bardos e escritores gostam de glorificar as guerras, falar sobre como elas são grandiosas e sobre como são campos de glória, lugares onde um homem pode fazer sua fortuna. Isso não é necessariamente mentira, mas eles se esquecem de pontos muito importantes. Como, por exemplo, o fato de que a guerra quebra homens. Em meio ao terror e a agonia da batalha, ao caos e desespero de ver seus companheiros e entes queridos morrendo ao seu redor de formas brutais, em meio ao cheiro de sangue, suor e o cheiro podre da morte, muitos homens quebram. Havia um motivo pelo qual muitos veteranos de guerras eram, nos melhores casos, amargos; passar por uma guerra era uma das experiências mais traumáticas que qualquer pessoa pudesse vivenciar, e ninguém saia de uma igual era quando se envolveu nela.

— Não vou forçar – respondeu Odin calmamente, olhando dentro dos olhos de Dayun enquanto falava. – Mas você compreende que há consequências para isso, não é, Dayun? Consequências que não serão ignoradas. – Com olhos fixos na mesa, Dayun moveu levemente sua cabeça, sem ousar erguer os olhos por um instante sequer. Envergonhado de mim? Não precisa ficar assim, é compreensível. Eu não vou condená-lo por ser um pouco egoísta, Dayun. — Eu normalmente lhe deixaria pensar sobre isso até que a guerra chegasse as nossas portas, mas considerando a situação atual e o fato de que você deve ansiar por se vê livre disso de uma vez, acho que é melhor irmos direto ao ponto. Vá até o seu quarto e me traga o seu brasão, filho. Desse dia em diante, pelos meus poderes como líder do Salão Cinzento, eu, Odin Wynthers, removo-lhe o título de cavaleiro.

=====

— É difícil acreditar no que aconteceu nos últimos dias... – murmurou um dos mais novos Ascendentes do Salão Cinzento. Após o fim da guerra contra o Olho Vermelho, o vácuo de poder criado no Salão Cinzento tinha de ser preenchido, e a melhor forma de fazer isso era colocando pessoas competentes para ocupar posições condizentes. Isso significava que, ao fim da batalha, muitos dos guerreiros sobreviventes receberam promoções... e isso incluía ele. Mesmo agora, Maoh não podia acreditar no novo título que caia em suas costas, embora não fosse necessariamente a ele que o jovem cavaleiro se referia no momento. – Eu nunca imaginei que o Salão pudesse um dia ficar em um estado como esse.

— O que é difícil de imaginar é que alguém como Senjur foi promovido a Mestre do Salão – resmungou Enderthorn, de braços cruzados e postura imponente, apesar de todas as faixas que cobriam seu peito. – É compreensível que Soulcairn seja promovido, considerando o quanto ele contribuiu para o esforço de guerra e a reputação que ele criou ao longo dos anos, mas Senjur não tem essa mesma reputação, e ele foi o mais inútil dos Quatro Ascendentes na batalha. Titânia e Bokuto merecem essa promoção bem mais do que ele.

— Não é tanto uma questão de merecer quanto de ser adequado para a posição – contrapôs Hozar. Tal como havia acontecido com Ender e Maoh, Hozar e Kastor também haviam recebido promoções por suas atuações ao fim da guerra, e isso fazia com que o Salão Cinzento agora contasse com seis guerreiros que traziam o título de “Ascendente”. – O Salão sempre manteve um número ímpar de líderes para que todas as decisões maiores fossem tomadas em uma votação de forma clara, sem abrir espaço para reclamações. Com a morte de Ezequiel e Gwynevere, fez-se necessário que dois novos cavaleiros fossem promovidos a posição de Mestre para que a balança pudesse se manter. Por sua história e posição, Soulcairn era uma escolha óbvia, mas escolher o terceiro... isso era mais problemático. Era inviável se promover qualquer um que estivesse abaixo da posição de Ascendente já que isso representaria um grande salto por entre a hierarquia, algo de grande importância para uma instituição militar, e ao mesmo tempo, Bokuto e Titânia simplesmente não podiam ser promovidos a essa posição. Por mais poderosos que os dois sejam e por maiores que tenham sido suas contribuições para o esforço de guerra, tanto ele quanto ela são famosos por terem posturas antissociais, o que significa que eles são pessoas que não se dão bem com outras pessoas. Uma característica importante para um líder é o carisma, e isso é algo que falta a esses dois, e some isso ao fato de que nenhum deles possui habilidades diplomáticas que você consegue facilmente chegar à conclusão do porquê eles seriam uma péssima ideia como líderes do Salão. Sendo assim, a única alternativa verdadeira que restou foi Senjur, e embora ele não tenha sido o mais útil dos cavaleiros durante essa guerra, ele ainda tem uma história respeitável o bastante.

— Por falar em Bokuto, alguma notícia dele? – Perguntou Maoh, mudando o foco para o companheiro desaparecido. – Esse sumiço súbito dele depois da guerra... isso não faz sentido. Ele estava lutando junto de mim, Ender e Titânia contra Jiazz da última vez que o vi.

— As equipes de busca ainda não deram nenhuma pisca do que aconteceu – respondeu Hozar – mas posso lhe dizer que ele não é o único. Depois do desaparecimento de Bokuto, nós fizemos um esforço para tentar averiguar se mais alguém havia desaparecido, e algumas pessoas se mostraram nessa lista. Do nosso lado, Ylessa Farcry está desaparecida. Do lado do Olho Vermelho temos várias pessoas: Tristah, Zaniark Grimmweather, Harclay Steelex, Byron Cromwell, Ibur Caelum e Dokurei Deux, estão todos desaparecidos. Não se tem noção alguma do que pode ter acontecido com qualquer um deles.

— Você está esquecendo de Balak nessa lista – apontou Enderthorn em um tom calmo, embora o olhar que ele e Hozar trocaram no momento em que ele disse aquilo tenha sido tudo, menos amigável. – O corpo de Balak Hauss nunca foi encontrado, então ele deveria estar na lista também, não concorda?

— Kastor matou Balak, Thorn – declarou Hozar em um tom frio e decisivo que não abria espaço para argumentação. – Ele disse isso, e Shell apoiou a declaração. Eu não planejo aturar você questionando a palavra dele como um mentiroso.

— Por quê, medo que eu ache alguma verdade oculta no meio disso? – Desafio o cavaleiro do trovão.

— Não. Medo que eu perca a paciência e cometa fratricídio – retrucou Hozar, estalando os dedos.

Os dois Ascendentes se encararam intensamente ao dizer aquelas palavras, de forma a fazer com que parecesse até mesmo que alguém pudesse ver faíscas ao redor dos seus olhos. Sutilmente a mão de Enderthorn começou a descer em direção à empunhadura de sua espada, enquanto ao mesmo tempo o martelo de guerra espiritual de Hozar começava a se tornar visível em sua mão direita, mas antes que irmãos-em-armas pudessem avançar um contra o outro, Maoh se colocou em meio a eles.

— Calma! Parem com isso, vocês dois! – O rosto do pobre cavaleiro-demônio era nervoso, quase desesperado. Ele nunca havia tido que lidar com uma situação como aquela antes, e o medo que ele tinha de que dois companheiros acabassem brigando era maior do que tudo. – Nós acabamos de lutar uma guerra juntos! Isso não significa nada pra vocês? Deveríamos estar comemorando a vida e honrado os mortos, não lutando entre si!

— Comemorar a vida e honrar os mortos? Diga, Maoh, como pretende sugerir que eu faça isso, sabendo que a razão para toda essa guerra simpatiza tanto com o inimigo responsável pelas nossas perdas – questionou Enderthorn, movendo seu olhar para o Demônio Chifrudo.

— Se você acha que Kastor simpatiza com o inimigo você está enlouquecendo de vez, Enderthorn! – Disse Hozar, mostrando uma careta de irritação que parecia mais com um cão rosnando do que qualquer outra coisa. – Kastor é o que mais tem motivos para odiar o Olho Vermelho. Por que diabos ele iria simpatizar com a guilda?

— Me responda isso você! – Cuspiu Ender de volta. – Se as coisas são realmente como você diz e Strauss odeia tanto o Olho Vermelho, então por que ele não trouxe a cabeça de Balak de volta para espertarmos ela na ponta de uma lança? Por que ele estava tão solene depois da batalha? Por que, ao invés de estar nos dando explicações, ele está nos calabouços, falando com aquele homem?!

 

=====

Os calabouços do Salão Cinzento não eram feitos para serem particularmente cruéis ou doentios. Eles não eram feitos para torturarem prisioneiros ou causarem medo em ninguém, mas isso não significava que fossem particularmente agradáveis. Eles eram escuros, e úmidos, e frios. Eram tão quietos que o som do roer de um rato podia ecoar por toda a estrutura, e isso tudo contribuía para que Kastor tivesse aquela constante sensação de desconforto enquanto o guarda lhe guiava pelos seus corredores.

Embora, claro, isso também pudesse ser causado pelo fato de que Titânia havia insistido em ir junto dele, e ela estava com sua lança amostra, mantendo um olhar assassino aterrorizador enquanto avançava.

— Err... sabe, Titânia, você realmente não precisa me acompanhar. Eu posso cuidar disso soz-

— Calado, Strauss – cortou ela, impaciente. – Eu não me importo com qualquer desculpa que você possa dar. Eu quero vir junto. Quero cuidar desse miserável pessoalmente.

Você realmente não tem noção alguma do porquê de eu estar vindo pra cá, não é?, pensou o cavaleiro, sentindo uma gota fria de suor escorrer pelo seu rosto. Ou... talvez tenha, e exatamente por isso ela está vindo junto. Qualquer que fosse o caso, aquilo iria ser algo bem problemático, mas não podia simplesmente deixar que Titânia fizesse o que queria. Seu objetivo ali era simples, e tinha de cumpri-lo.

Não demorou muito para que o guarda que servia como guia abrisse uma porta, e passando por ela Kastor e Titânia se viram em uma sala de vela, mais ampla e espaçosa, iluminada por uma dúzia de tochas distribuídas pelas paredes. Uma mesa velha de madeira estava no centro da sala, com uma cadeira de cada lado, e imediatamente ao entrar nela Kastor pode ver dois guardas que flanqueavam a entrada, ambos empunhando alabardas. A sala de interrogatório, hum? Pelas correntes que conseguia ver ao redor de uma das cadeiras e os espaços para prendê-las, podia imaginar que os guardas tomavam bastante cuidado para que os prisioneiros não escapassem... embora, considerando o nível daquele homem, isso nunca seria capaz de impedi-lo.

— O senhor pode se sentar se quiser, senhor – disse o guarda que os guiou, gesticulando com a cabeça em direção a cadeira sem correntes. – Não vai demorar muito para que tragam o prisioneiro até aqui e o interrogatório possa ter início.

— Obrigado, mas isso será desnecessário – respondeu Kastor, dispensando a oferta com um gesto balançar da mão. – Eu prefiro ficar em pé... e de qualquer forma, nunca planejei um interrogatório.

A expressão de pura confusão no rosto do guarda foi quase cômica o bastante para arrancar uma gargalhada dele.

— Nã... não planejou? – Gaguejou o homem, sem entender nada. – Mas então... se esse não é seu plano, o que raios o senhor planeja com o prisioneiro?

— Executá-lo, lógico. – Quem ofereceu a resposta por ele foi Titânia, com seu olho brilhando com sua sede de sangue. – Ele é o último dos membros do Olho Vermelho. Quero abrir a garganta do miserável pessoalmente.

— Eu temo que isso não vai ser lá possível... – disse Kastor em um tom bem mais fraco e frágil do que queria, fazendo com que o olhar já furioso de Titânia se movesse quase que imediatamente para ele. O mero olhar dela foi por si só o bastante para fazer com que ele engolisse em seco, mas sabia que não podia vacilar agora que já havia começado a falar, e por isso se forçou a terminar sua frase. – Eu... eu não vi aqui para simplesmente matar ele, Titânia. Eu entendo a sua fúria e sede de vingança para com o Olho Vermelho, mas você não po-

— Quem diabos você pensa que é para querer me dizer o que posso ou não fazer, Strauss? – Questionou ela sem fazer esforços para esconder sua irritação. Seu corpo virou-se completamente na direção de Kastor, e pelo olhar que ela trazia no rosto podia acreditar que ela lhe mataria pela menor das provocações. O nervosismo de Kastor com aquela situação fez com que engolisse em seco novamente e com que seus dedos se flexionassem sozinhos. Por um momento chegou a considerar se deveria invocar suas espadas, mas compreendeu imediatamente que essa seria uma péssima ideia. Se eu mostrar as armas, ela vai partir pro confronto. E deixando de lado o fato de eu não querer enfrenta-la, as minhas chances com Titânia não são boas. Não era estúpido; tinha derrotado Balak, mas aquilo havia sido um esforço conjunto. Em uma batalha um a um, Titânia era um grande perigo para ele.

E foi então, nesse momento, que as portas do outro lado da sala se abriram.

Uma pequena comitiva de oito guardas era separada em duas fileiras de quatro que flanqueavam o prisioneiro. Eles certamente haviam feito grandes esforços para mantê-lo cativo; grilhões de ferro fundido estavam ao redor de seus pés, ambos ligando a duas pesadas bolas de ferro que eram arrastadas com cada passo dele. Similarmente, correntes ligavam suas pernas e estavam enroladas ao redor de seus braços para limitar seus movimentos tanto quanto possível, e as “algemas” que ele tinha eram nada mais do que grandes blocos de aço que envolviam toda a metade inferior dos seus braços. E apesar de tudo isso, ele não parecia minimamente incomodado. Ele estava sujo, com a barba por fazer, sem camisa e vestindo apenas um calção rasgado de prisioneiro, mas apesar disso, ele de alguma forma conseguia parecer mais com um cavaleiro do que qualquer um dos presentes.

— O prisioneiro! – Anunciou um dos guardas que o trazia, em alto e bom som. – O membro da guilda ilegal denominada “O Olho Vermelho”, Cleus Jombaek, dito “Pássaro-de-Fogo”!

De certa forma, a mera chegada de Cleus foi o bastante para salvar Kastor. Titânia moveu seu olhar do cavaleiro para o membro do Olho Vermelho quase que de imediato, e por mais que isso deixasse Kastor respirar aliviado num primeiro momento, ele logo se lembrou do quão perigoso era o encontro desses dois. Oh, merda!

Sem aviso, Titânia flexionou rapidamente seus joelhos e saltou com tudo contra Cleus, como um leopardo salta sobre sua presa. A lança dela moveu-se numa estocada direcionada ao peito do Pássaro-de-Fogo, mas graças a sua velocidade Kastor foi capaz de interceder; invocando uma de suas espadas ele conseguiu se colocar no caminho bem a tempo, bloqueando o golpe com a lâmina bem a tempo.

Os guardas que cercavam Jombaek quase saltaram para trás com o susto que tomaram. Alguns deles brandiram suas alabardas em direção aos dois, enquanto outros levaram suas mãos às espadas que traziam nos cinturões e um terceiro grupo ficou simplesmente olhando ao redor, sem ter a menor ideia do que deveriam fazer. O próprio Cleus não fez mais do emitir um leve grunhido de curiosidade enquanto via o que acontecia diante dos seus olhos.

— Você ficou bem ousado, pivete – resmungou Titânia, sem nunca perder seu olhar hostil. – Diga, quando foi que você ganhou bolas para ousar ficar no meu caminho?

— No momento em que você decidiu ignorar o que eu havia dito e partir para o ataque mesmo sabendo que não devia fazer isso – retrucou Kastor, fazendo seu melhor para afiar o olhar e demonstrar a postura mais imponente que podia. – Pare um pouco com toda essa ignorância e me deixe fazer o que tenho de fazer, Titânia.

— Se o que você for fazer não envolver cortar a cabeça desse lixo, eu não dou a mínima para isso – declarou ela simplesmente, e sua lança girou. O movimento jogou a espada de Kastor para trás ao mesmo tempo em que permitia a ela ajustar sua postura para um novo ataque. A lança investiu novamente, e mais uma vez Kastor parou seu golpe, dessa vez usando de duas espadas gêmeas e cruzando as lâminas para ter mais firmeza.

— Talvez envolva! – Gritou Kastor enquanto se esforçava em segurar o golpe da ruiva. Aqueles eram ataques simples dela, sem muito esforço, mas a força por trás deles ainda era o suficiente para que Kastor sentisse que iria ser jogado para trás se ousasse os subestimar. – Talvez, ao fim do que eu tenho de fazer, Cleus seja executado! Talvez não! Eu realmente não sei qual será o caso, mas antes de tomar qualquer decisão, eu preciso falar com ele! Então, pelo amor dos Deuses, pare de ser movida pela raiva por um momento e aja racionalmente por uma vez na sua maldita vida, sim?!

O desabafo frustrado veio sem que o próprio Kastor se desse conta, fazendo com que seus olhos se arregalassem em surpresa. E pelo que podia ver, não era o único que estava surpreso assim. Afrente dele, Titânia tinha seu único olho arregalado em surpresa, incrédulo, e ele ficou assim por um momento ou dois antes que a expressão hostil de antes voltasse a reinar. Ela vai me matar, foi o que Kastor pensou imediatamente quando o olhar dela pousou sobre ele, mas para sua surpresa o que aconteceu foi justamente o contrário. A lança de Titânia girou novamente, e ao invés de movê-la em uma nova estocada, ela simplesmente passou a segurá-la atrás do corpo. Sem dizer nada ela se virou e caminhou em direção à parede do outro lado da sala, virando-se novamente ao chegar nela. Ela apoiou sua espada nessa parede e depois fez o mesmo com seu próprio corpo, cruzando os braços e assumindo ali uma postura de observadora.

— Muito bem. – Disse ela simplesmente. – Faça o que quer que tenha de fazer. Fale com ele e tome uma decisão, qualquer que seja ela. Eu só te aviso de uma coisa: se eu não concordar com a sua decisão, eu vou matar ele, e nada nem ninguém entrará no meu caminho.

Hehe, ameaçadora como sempre. Merda. Supunha que, considerando tudo, devia sentir-se grato por aquilo, mas não conseguia deixar de sentir-se nervoso com a condição estabelecida por ela. Mesmo que eu tenha evitado o confronto por agora, ainda é bem provável que ele acabe ocorrendo mais cedo ou mais tarde. O que significa que uma das primeiras coisas que eu deveria fazer é tirar os inocentes daqui.

— Ei, vocês – disse Kastor, se referindo aos guardas que estavam na sala. – Isso que vem a seguir é só entre nós. Vou precisar que vocês se retirem.

Isso foi outra coisa que pegou os guardas de surpresa. Alguns suspiraram em alívio, não querendo passar muito tempo perto de monstros como aqueles que pareciam tão agressivos, enquanto outros trocaram olhares como se estivessem tentando entender se aquilo era sério ou uma espécie de pegadinha. Foi só um que estava mais adiante e parecia ser o líder deles que teve a coragem de falar.

— Senhor, sem ofensas, mas... nós não podemos fazer isso – balbuciou ele, gesticulando com as mãos enquanto falava. – Eu não duvido que suas intenções sejam todas puras, mas o fato é que somos guardas escoltando um prisioneiro. Não podemos simplesmente deixa-lo sozinho.

— Vocês não estarão deixando ele sozinho – contrapôs Kastor, oferecendo a ele uma piscadela travessa de cúmplice. – Nós estamos aqui, não estamos?

— E além do mais, esse homem é um membro do Olho Vermelho, enquanto nós somos dois Ascendentes – apontou Titânia de onde estava, impaciente. – Não precisamos de ajuda para mantê-lo sobre controle, e mesmo se precisássemos, guardas como vocês entrariam no caminho mais do que ajudariam.

— É... isso também. Titânia é um pouco mais grossa e impaciente do que eu gostaria, mas ela não mente – murmurou Kastor, gesticulando de forma apologética enquanto falava. – De qualquer forma, fiquem tranquilos. Não vai acontecer nada, eu prometo. E se acontecer, eu assumo toda a responsabilidade.

Aquilo pareceu tranquilizar os guardas, e embora o que tivesse falando ainda não demonstrasse estar completamente certo daquilo, seus companheiros foram rápidos em arrastá-lo para fora da sala, ansiosos por terem algum tempo livre e saírem daquela encrenca. Um minuto foi todo o necessário para que a sala fosse completamente esvaziada, e ao fim desse tempo Kastor voltou-se para Cleus.

— Eu ouvi que rumores de que você estava chamando por mim, falando que queria me ver e que tinha algo a conversar comigo – disse Strauss em um tom que deixava claro que ele não estava pedindo confirmação, mas sim fazendo uma constatação, afirmando um fato. – Então, sobre o que você queria falar?

Cleus não deu uma resposta para aquilo. Ele simplesmente ignorou as palavras de Kastor e continuou a observá-lo com um olhar neutro, apenas levemente interessado, como se fosse uma criança no zoológico vendo um espécime exótico pela primeira vez. Kastor não pôde deixar de erguer uma sobrancelha em confusão, e estava prestes a falar novamente quando um sorriso subitamente se abriu nos lábios de Cleus, e o olhar neutro dele encheu-se de alegria e animação.

— Não resta dúvida – murmurou ele, a voz cheia de júbilo. – Eu planejava conversar com você antes, tentar conhecê-lo um pouco melhor antes de fazer minha decisão, mas isso já se tornou desnecessário. Se erguer sua espada e minha defesa não havia deixado tudo claro, olhar em seu rosto e ver os seus olhos gentis basta para matar qualquer dúvida. Não há nada que me segure mais.

E sem oferecer uma explicação para isso, Cleus cai sobre um joelho no chão. Em grilhões e correntes de ferro, sem camisa e sujo dos pés a cabeça, o guerreiro assumiu uma postura como a que os cavaleiros assumiam quando iam ser sagrados, mas isso não pareceu uma troça, não foi uma piada. Sua postura era solene, suas ações concisas, e o simples respeito e significado por trás daquelas ações parecia quase palpável.

— Kastor Strauss, líder da Era Dourada, por favor, ouça meu pedido! – Clamou o Pássaro-de-Fogo, com olhos no chão e voz forte como o trovão. – Por muito tempo eu andei perdido. Servi, por anos e anos, à Balak e ao Olho Vermelho. Fiz coisas terríveis, cometi pecados hediondos que nunca hão de ser esquecidos. Para um homem como eu, o perdão é uma graça inalcançável: carregarei para sempre a mácula dos meus crimes em minhas costas. Mas ao teu lado, sobre o teu comando, sinto que posso encontrar um futuro iluminado! Não com uma penitência, nem com uma punição, mas sinto que posso alcançar algum tipo de redenção, fazer algo de bom para pagar um pouco pelo mal que fiz ao mundo! Por isso, rogo-me de joelhos perante a ti, Cavaleiro! Se teu coração decidir que meu sangue há de ser pagamento, então aceito seu julgamento e imploro que corte minha garganta! Mas se teu coração ver outro caminho, então lhe suplico por uma segunda chance! – Seu rosto se ergueu, e um par de olhos determinados olharam dentro dos de Kastor, com uma chama pura e infindável ardendo em seu interior. – Por favor, Cavaleiro, ouça o meu lamento e conceda-me esperança! Permita que eu, Cleus da família Jombaek, junte-me a tua honrada guilda, para que a vida desse pobre pecador possa voltar a ter algum valor!

=====

Bateu duas pedras sílex com firmeza uma na outra para gerar faíscas para sua fogueira. A essa hora do dia Coralina não precisava de luz, mas tinha um coelho que precisava ser transformado em um ensopado. Talvez eu devesse ter pedido alguns suprimentos no Salão Cinzento antes de ir embora. Sendo alguém que lutou ao lado deles na guerra, não acho que iriam me negar. Mas ao mesmo tempo, iria ter de depois lidar com o sentimento de culpa em tomar parte dos suprimentos de uma organização que havia sofrido tantas perdas com a guerra. Não, melhor não, decidiu ela, vendo as chamas que começavam a crescer por entre os galhos. Posso cuidar de mim mesma.

— Ei, eu sei que você provavelmente está pensando em fazer um ensopado, mas se quiser, eu conheço uma receita ótima de coelho grelhado que podemos fazer aqui, o que acha?

A voz casual lhe assustou, fazendo com que ela saltasse por cima da sua fogueira, virando-se imediatamente em direção a voz enquanto simultaneamente tirava a adaga da bainha e começava a brandi-la em sua mão. Há alguns metros de distância, um homem estava sentando sobre um tronco caído, olhando para Coralina com um leve brilho de interesse no olhar. Ele tinha cabelos negros desarrumados e costeletas avantajadas que quase se juntavam em seu queixo numa barba completa, bem como olheiras sob os olhos, mas em contraste com o que isso podia sugerir, ele estava bem arrumado. Suas vestes eram nada mais do que um terno negro completo que parecia bem caro e fino pelo que podia ver, com sapatos pretos fechados que adicionavam um grau a mais de elegância às suas vestimentas.

— Sabe, eu poderia dizer que é um pouco desapontante que você não tenha me notado até o momento em que decidi me mostrar, mas pra ser justo, eu tenho anos de treinamento na arte de ser sorrateiro – disse tranquilamente o sujeito, sem parecer minimamente preocupado com a postura de batalha de Coralina. – Eu tenho alguma habilidade em chegar aonde quero sem chamar atenção... embora saber como evitar olhares e saber ficar invisível sejam coisas bem diferentes. A sua habilidade é muito mais rara e interessante que a minha, Carter.

— Você me tem em desvantagem aqui – gracejou ela, tomando o cuidado de manter-se sempre atenta a todos os cantos enquanto falava. Isso é mal. Estou completamente aberta aqui. Não sabia quem era aquele homem ou porquê ele estava ali, mas se ele havia conseguido chegar tão longe sem que o notasse, então nada garantia que alguns companheiros dele não tivessem feito o mesmo. Se ele for um inimigo e tiver companheiros por aqui, eu estou morta.

— Se refere a seu nome e sua habilidade? Opa, foi mal, falta de cortesia minha. – Desculpou-se ele, embora não parece nem um pouco apologético. – Meu nome é Geinz Tallhart, prazer em lhe conhecer. Talvez você já tenha o ouvido antes, mas como isso provavelmente não aconteceu, permita-me elaborar um pouco mais em cima disso. Eu sou o segundo-em-comando de uma guilda em ascensão conhecida como “Vigilantes”. E, caso não tenha ficado óbvio, esse já é um nome que você deve conhecer.

— Sim, eu conheço ele – respondeu ela, franzindo suas sobrancelhas em aborrecimento. Os modos daquele homem estavam lhe incomodando um pouco, mas tinha que admitir que o que ele havia acabado de falar era bastante interessante. Os Vigilantes, hum? Essa guilda tem feito um bom nome recentemente. Nunca havia pesquisado particularmente sobre eles, mas sabia que a guilda havia um dia sido um grupo rebelde que atuava em Fredora, realizando ataques contra propriedades de nobres corruptos (o que significava praticamente que realizavam ataques contra toda a nobreza do reino), mas depois que seu líder Quan havia morrido eles haviam deixado seus modos antigos e passado a agir como uma guilda tradicional... ainda que uma muito bem-sucedida. – Isso dito, conhecer esse nome não esclarece muita coisa. Como, por exemplo, que tipo de interesse um grupo como os Vigilantes pode ter em alguém como eu.

— Heh, isso é realmente uma pergunta? Você realmente não tem ideia do quão interessante você é, Carter? – As perguntas de Geinz vieram acompanhadas de um sorrisinho divertido, e enquanto falava ele se levantou, começando a caminhar calmamente em direção a ela. – Você é uma mulher particularmente fascinante, sabia? Não leve isso da forma errada, mas estamos de olho em você há muito tempo. Afinal de contas, as suas habilidades têm se destacado de forma bem espetacular. Você é rápida, habilidosa com uma adaga, e como eu disse antes, capaz de ficar invisível. A soma dessas características fez com que você completasse um bom número de trabalhos, o que por sua vez com que os olheiros do Salão Cinzento fossem até você para contratá-la como uma mercenária nessa guerra, e você não decepcionou pelo que eu ouvi. Corrija-me caso eu esteja me afobando aqui, mas pelo que eu ouvi você foi a responsável por cumprir um papel principal que foi diretamente responsável pela vitória do Salão na guerra, não? Algo bem impressionante, devo admitir.

— Você primeiro me provoca e parece questionar minhas habilidades, para logo em seguida vir me bajular e puxar um saco que não tenho. Parece que alguém aqui sofre de um pouco de bipolaridade – comentou ela, sorrindo. Por mais que não quisesse demonstrar, aquela massagem em seu ego era algo que apreciava até certo ponto, e de qualquer forma não é como se ele estivesse dizendo alguma mentira. Mas apesar disso, ainda tinha coisas que lhe incomodavam em meio a ele. – Isso dito, devo dizer que você gosta de falar como se me conhecesse bem, e isso não é necessariamente algo que eu aprecio.

— Falo? Perdoe-me por isso, mas depois que você estuda alguém tanto quanto eu estudei você, você meio que sente como se conhecesse essa pessoa a anos. – Disse ele, sorrindo, embora essa frase tenha feito o sorriso de Cora coalhar um pouco. Geinz não pareceu se incomodar com isso. – Sei que isso pode não parecer lá muito agradável, mas tome isso como um sinal de que somos bem profissionais no que fazemos, bem como um sinal de que não estamos nos aproximando de você despreparados. Seu nome é Coralina Carter, 25 anos, chamada de “Pantera” por alguns graças a sua velocidade... embora eu também diria que seu charme feminino tem algo a ver com isso. Você é sociável, do tipo que ri fácil e joga conversa fora com estranhos, e um pouco desinibida também, do tipo que não vai passa uma noite sozinha a menos que queira passar a noite sozinha. Gosta de festas e de bebidas, o que inclusive me faz pensar que você deve ter a sua característica garrafa de rum no meio dos seus pertences em algum lugar, certo? E o mais importante: seu pai, Johan Carter, morreu quando você tinha 16 anos, e desde então você está caçando os responsáveis pela sua morte. Matou alguns deles já, mas tem outros que você ainda não alcançou... e eu acho que posso ajudá-la a chegar neles.

A menção de seu e dos homens que o mataram fez com que o sorriso desaparecesse completamente do rosto de Cora, e até mesmo para Geinz pareceu que o ambiente se tornou um pouco mais frio depois disso. A expressão em seu rosto tornou-se completamente séria, e sem hesitar ela voltou a embainhar sua adaga, sabendo que não iria usá-la.

— A que ponto você quer chegar? – Perguntou ela num tom que deixava claro que não estava mais disposta a receber brincadeiras. Geinz percebeu isso e respeitou seus desejos; tal como havia acontecido com ela o rosto dele também se tornou bem mais sério, e quando ele tornou a falar, sua voz veio num tom puramente profissional, completamente diferente de antes.

— Os Vigilantes atuam como uma guilda comum, Coralina, mas essa é só a fachada externa. Em verdade a guilda se trata de nada menos do que um grupo de justiceiros, pessoas que dão justiça aos que o governo não pune. E em um reino como Fredora, temos muitos que se encaixam nesse grupo. Os homens que você caça são nossos alvos, então francamente não faz muita diferente se você os mata ou se nós fazemos isso, mas eu sei que você quer ser ter a sua vingança, quer ver a luz sumir dos olhos deles, e por isso eu lhe faço uma proposta. – Ele deu um último passo em direção à Cora, seu pé pairando acima da fogueira, e foi então que ela viu algo bizarro. Quando a perna dele estava bem acima dessa fogueira a forma dela subitamente se alterou; ela expandiu de um jeito quase inacreditável, transformando-se num perna que mais parecia a pata de um elefante. E isso foi rápido também; assim que ele pisou sobre a fogueira a perna voltou ao normal como se nada tivesse acontecido, mas a pequena cratera que havia ficado no local foi mais do que o suficiente para que Cora tivesse certeza de que aquilo não era ilusão nenhuma. – Junte-se a nós – disse ele, e com aquelas palavras ela voltou a erguer os olhos para ver que ele estava olhando direto nos dela, sério como se fosse um homem completamente diferente. – Eu irei lhe ajudar a completar sua vingança. E em troca, eu peço que você se junte a nós e torne-se uma membra dos Vigilantes.

=====

Como é que é?! — Já havia imaginado que Titânia teria uma reação daquele tipo quando deu a resposta a Cleus, mas imaginar algo acontecendo e presenciar isso eram coisas bem diferentes. Não importava o quanto visse isso, não conseguia deixar de ver a fúria daquela mulher como nada mais do que aterrorizadora. Principalmente quando ela o encarava com aquele olhar furioso, como estava fazendo naquele exato momento. – O que você pensa que está fazendo, Kastor?! Esse cara é um inimigo, alguém que literalmente estava lutando contra nós nessa guerra! Já é ruim o suficiente que você não queira a cabeça dele, mas agora você vem me dizer que pretende fazer dele um membro da sua guilda? Você tem de estar de sacanagem comigo!

Virou seu corpo em direção a ela enquanto lutava para manter a expressão aborrecida que queria se apossar da sua face longe. Cara, é trabalhoso lidar com o temperamento de Titânia. Não sei como Lancelot aguenta. Entendia os sentimentos dela: entendia que ela devia ter o maior ódio imaginável do Olho Vermelho pelo que a guilda havia feito, principalmente pelo fato deles terem sido os responsáveis por cortar as pernas de Lancelot, mas era no mínimo problemático lidar com ela considerando que ela insistia em se cegar nesse ódio e parecia ignorar tudo o que ele dizia.

O que, por sua vez, não significava que ele podia simplesmente parar de tentar.

— Eu entendo os seus sentimentos, Titânia, mas você tem que tentar ver as coisas pelo meu ponto de vista também – murmurou Kastor, já sem as espadas nas mãos e aproveitando-se da falta delas para gesticular em apoio aos seus argumentos. – Você viu o que ele fez, não viu? Você sabe tão bem quanto eu que o pedido de Cleus foi completamente honesto, não sabe? E além do mais, tal como eu, você também sabe que ele é alguém que se entregou voluntariamente às nossas forças e não estabeleceu resistência alguma, aceitando ser um prisioneiro, correto?

— Sim, eu sei tudo isso, e o que é que isso muda?! – Questionou a ruiva, furiosa demais para lhe dar ouvidos. – Se está simpatizando com ele, então simplesmente deixe-o aí! Isso não me deixaria satisfeita, mas eu poderia aceitar que ele passasse o resto dos seus dias apodrecendo em uma prisão. Mas você planeja soltá-lo e arma-lo novamente, e ainda por cima chama-lo de companheiro depois de tudo que ele fez? Você perdeu sua maldita cabeça?!

— Eu não sei se você chegou a ser informada disso, mas esse cara já nos ajudou bastante durante a Batalha do Pandemonium – apontou Kastor. – Ex declarou que ele ajudou a enfrentar tanto Dokurei quanto Jiazz, e Anabeth jura que ele a salvou e derrotou uma mercenária chamada Saber. Ele salvou uma das minhas companheiras. Você chamaria alguém que salvasse Lancelot de inimigo?

— Se essa pessoa tiver feito parte do grupo que o colocou em perigo em primeiro lugar, você pode apostar que eu chamaria! – Esbravejou ela, voltando a mover sua lança em preparação para um novo ataque, algo que por si só fez com que Kastor soubesse que aquela discussão estava para ir de mal a pior. E ele estava certo em pensar assim. – Quer saber, eu não vou discutir isso com você. Já está mais do que óbvio que você não planeja me ouvir. Eu vou apenas fazer o que tem de ser feito e acabar com a raça desse miserável de uma vez por todas!

E sem dar tempo para que Kastor pudesse ter qualquer chance de argumentar novamente, ela voltou a investir contra Cleus, tal como havia feito antes. E pelo brilho decidido que pode ver em seus olhos, Kastor tinha quase certeza de que ela estava disposta a passar por cima dele se fosse necessário. Ah merda, como eu queria que as coisas não tivessem de ser assim. Invocando duas novas espadas em suas mãos, Kastor flexionou seus joelhos em preparação para o novo confronto entre eles.

Mas isso nunca aconteceu porquê, antes que ela pudesse lhe alcançar, uma bola de aço veio voando em sua direção. Ela estava avançando com uma mão para frente e a lança às suas costas, o que a permitiu esmagar a bola com um soco sem perder momento, mas isso se provou um erro gigante, pois aquilo não havia sido mais do que uma distração. Cleus havia movido sua perna em alta velocidade, fazendo com que a corrente que prendia a bola se quebrasse e com que ela fosse contra Titânia, mas ele fez aquilo apenas para que a bola cobrisse a visão dela e, assim, cobrisse o seu avanço. Assim que arremessou a bola Cleus não perdeu tempo em avançar na sombra dela, e quando Titânia escolheu continuar a correr e destruí-la sem parar, ela se colocou em uma situação que tornava impossível que ela desviasse do golpe que estava por vir. Cleus a chutou lateralmente com uma força tão monstruosa que o mundo pareceu congelar por um momento com seu impacto; teve tempo o bastante para ver o sangue subir aos seus lábios e o olho dela se arregalar, um momento antes que ela fosse isolada até o canto direito da sala. Era uma boa coisa que a prisão do Salão Cinzento fosse feita de pedras encantadas por poderosas magias antigas que lhes tornavam muito mais resistentes do que o normal, porque se não fosse por isso o golpe iria lançar Titânia até o centro da cidade; mesmo com elas, o impacto dela contra a parede criou uma cratera profunda nela, cratera essa da qual Titânia escorregou com sangue escorrendo de algumas feridas e a armadura de aço que ela usava rachada em vários pontos.... embora isso não fizesse nada para controlar a fúria dela, que parecia cada vez mais terrível sempre que olhava para o seu rosto.

— Eu conheço você, Titânia. Sua fama é quase lendária – murmurou Cleus calmamente, voltando a colocar seu pé no chão sem dificuldade alguma, demonstrando claramente que todos os esforços para lhe aprisionar não significavam nada para ele. – E é exatamente por saber o quão forte você é que digo que a sua ira age mais contra você do que qualquer coisa. Pela sua fama, você nunca seria atingida tão facilmente por um golpe como esse.

— Você fala demais para um prisioneiro miserável. – Retrucou ela, limpando um filete de sangue que escorria do canto de sua boca com as costas da mão. – Eu pensei que você iria manter algum resquício de decência e aceitar calado o seu julgamento, mas aparentemente superestimei demais um membro do Olho Vermelho.

— Eu não teria problema em aceitar julgamento, se coubesse a você me julgar – disse o Pássaro-de-Fogo – mas não me lembro de ter me colocado sob seu julgamento em momento algum, e não acho que alguém lhe deu a autoridade de me julgar. E além do mais, Lorde Strauss acabou de me aceitar como um membro da sua guilda. Mesmo que eu não me erga em minha própria defesa, nunca irei deixar que alguém erga armas contra ele sem que eu faça nada contra isso.

— Como se eu me importasse! – Exclamou a cavaleira, cuspindo um pouco de sangue pro lado enquanto girava sua lança, brandindo-a à sua frente. – Isso não muda nada. Se você pretende lutar, isso apenas faz com que seja ainda mais fácil para mim acabar com você!

Sem hesitar e sem aprender nada do seu último confronto, Titânia tornou a avançar mais uma vez, dessa vez contra Cleus, e em resposta a isso o guerreiro assumiu a melhor posição de combate que podia em seu estado. Maldição, Titânia, sua maldita ruiva ignorante dos infernos! Saltou tão rápido quanto pôde, decidido a interceder no meio daqueles dois, mas foi então que aquilo aconteceu.

Sem aviso, o chão em frente a eles simplesmente colidiu. As pedras que o formavam entraram em colapso e caíram para dentro de um grande abismo sem fundo, um abismo de forma circular que havia parado tanto o avanço de Titânia quanto impedido Cleus de fazer qualquer movimento mais ousado. Kastor, que havia sido o mais rápido dos dois, chegou a ter de saltar para trás afim de evitar que caísse dentro daquele abismo, e olhando para os outros dois ele teve a certeza de que eles não eram responsáveis por isso. Eles parecem surpresos demais para que tenham algo a ver com isso, mas se não são eles os responsáveis, então quem raios fez isso?

Teve sua resposta em um momento.

— Não sinto orgulho em ter de enganar vocês dessa forma, mas isso se provou necessário, dado a situação. Espero que possam me perdoar. – O tom apologético já era o suficiente para dar uma boa dica, mas tudo ficou claro como o dia quando a porta que dava para aquela sala se abriu, e por ela passou um homem de cabelos loiros longos com pernas metálicas que, embora fizessem ruídos característicos das engenhocas de Carcino, pareciam tão sólidas e decentes quanto as pernas originais que ele havia tido. Em comparação com como havia o visto antes, Lancelot Galahad parecia infinitamente melhor, como se finalmente tivesse voltado a ser o mesmo cavaleiro de antes.

Lancelot... graças aos Deuses. Palavras falhavam em expressar o quão aliviado Kastor se sentia em ver o homem bem novamente. Lancelot era um cavaleiro popular em todo o Salão por um ser dos maiores exemplos de boa vontade e bom coração dentre todos que haviam feito parte da organização em algum momento, mas Kastor o conhecia particularmente bem e contava nele um grande amigo. A notícia da mutilação que ele sofreu nas mãos de Balak foi algo que fez com que o azul ficasse bastante nervoso no início daquela guerra, e as palavras que ele havia lhe dito antes de seguir para a batalha final haviam pesado bastante na escolha final de Strauss. Você pode não ter mais pernas de carne e osso, mas é muito bom ver que você ainda está vivo, seu miserável de bom coração! Avançou alegremente pelo buraco no chão – sabendo agora que ele não era nada mais do que uma ilusão e sentindo chão firme sob seus pés – mas antes que pudesse alcançar seu amigo e envolve-lo em um abraço, Titânia se adiantou.

No momento em que viu seu amado ali a guerreira perdeu qualquer vontade que tinha de lutar. Ela jogou sua lança de lado sem se importar e correu numa velocidade que surpreendia o próprio Kastor. Lancelot não tinha nem tido tempo para compreender o que estava acontecendo quando ela lhe alcançou, e as mãos dela viraram e seguraram o rosto de seu namorado com ternura antes que o puxasse de encontro aos seus lábios. O beijo que ela lhe foi ardente e necessitado, como se tivessem passados anos separados, e todos se surpreenderam com aquilo. Os olhos Lancelot se arregalaram, as sobrancelhas de Kastor se levantaram e, pelo que pôde ver, Cleus enrubesceu e desviou o olhar, mantendo os olhos sob um ponto da parede para tentar ficar menos embaraçado.

Quando ela finalmente separou os lábios dos de seu namorado, Titânia tomou um momento para olhar novamente para ele. Ela olhou bem para seu rosto, depois olhou para suas pernas e tornou o olhar ao rosto. Um sorriso se abriu nos lábios de Titânia – um sorriso tão largo e alegre que parecia até que ela havia se tornado outra mulher por um momento – e o brilho de lágrimas surgiu em seu único olho antes que afundasse o rosto no peito dele.

— Seu idiota... seu bendito idiota...! – Ela nem tentou manter a voz firme e autoritária que normalmente mantinha a essa altura. Enquanto falava ela chorava; não de tristeza, mas de alegria. – Eu pensei que você não ia se recuperar... pensei que você nunca mais ia voltar a andar! Nunca mais me preocupe assim, está me ouvindo?! Nunca mais! Se você morrer... se alguma coisa acontecer com você... eu não sei o que vou fazer. Eu te amo, Lancelot. Te amo.

O olhar dele – que estava surpreso e embasbacado até então – tornou-se tenro ao ouvir aquilo. Ele abaixou seu rosto para que ele ficasse lado-a-lado com o de Titânia, e suas mãos a envolveram. Uma foi para o meio de suas costas, enquanto a outra acariciou a cabeça dela por trás com a gentileza de uma pluma.

— Desculpe – murmurou ele, a voz quase um sussurro. – Para fazer uma mulher como você chorar... eu realmente sou um idiota. Mas um idiota sortudo, que pode dizer que está com a melhor mulher do mundo. – Suas mãos puxaram-na mais pra perto, mantendo os dois corpos tão unidos que eles quase pareciam ser um único ser. – Eu também te amo, Titânia. E sempre vou te amar.

=====

O abraço de sua irmã foi firme e forte, como se ela nunca quisesse soltá-la. De certa forma, Blair sentia-se do mesmo jeito, mas sabia que não podia se dar a luxos como esse. Embora amasse sua irmã e quisesse mantê-la a salvo, não podia viver sua vida apenas em função dela. Tinha que trilhar seu próprio caminho, fazer seu próprio futuro, achar seus próprios amigos, criar sua própria vida. Kyanna já havia começado com isso e estava indo bem até então; não podia deixar sua irmã mais nova passar na sua frente assim.

— Você tem mesmo que ir? – Perguntou Kyanna, olhando para ela com os melhores olhos de cachorrinho que podia, provavelmente já tendo uma boa ideia de qual seria a resposta. – Kastor é um bom homem, e a guilda tem muito espaço. Eu tenho certeza de que ele te aceitaria se você pedisse pra se juntar.

— Você me conhece, irmã. Eu não sou de pedir nada pra ninguém. – Disse Blair. Tinha de assumir que se sentia um pouco tentada a se juntar à Era Dourada, considerando que os membros da guilda pareciam bem fortes, divertidos e interessantes pelo que havia visto, mas não gostava do pensamento de caminhar na sombra da sua irmã. O fato de Strauss não ter enviado alguém para lhe convidar era uma boa coisa na verdade; se ele tivesse feito esse movimento, ela provavelmente teria acabado se juntando a eles. – E além do mais, essa é a sua guilda. Eu estou orgulhosa de você por estar numa guilda emergente como essa, mas você deve entender bem que temos que trilhar caminhos diferentes. Eles provavelmente vão se encontrar de novo, mas os lugares para onde eu vou e para onde você vai tem de ser diferentes, Kyanna. É assim que as coisas devem ser.

— Eu sei, mas... – os olhos da sua irmã mais nova pareceram perdidos por um momento, como se buscassem por alguma coisa escrita no ar que pudesse usar como argumento, e quando não achou nada ela se conteve em abraçar Blair com mais força ainda e enterrar sua cabeça no peito dela. – Eu vou sentir saudade.

A invocadora não pode deixar de sorrir diante disso. Eu sou realmente abençoada, refletiu essa, acariciando a cabeça de sua irmã mais nova enquanto se deleitava em seu afeto. Quantas mulheres podem se gabar de terem irmãs tão boas quanto a minha?

Entre a despedida da sua irmã e a preparação da sua bolsa Blair acabou demorando bem mais a partir do que tinha inicialmente planejado, mas conseguiu ir em frente no fim das contas. Com a mochila dependurada em um de seus ombros ela se pôs a caminhar em direção aos portões... e não foi muito longe antes que uma voz a surpreendesse.

— Essa despedida foi bem triste – disse a voz em um tom simultaneamente cordial e casual, e inegavelmente feminino. – Me fez desejar ter uma irmã.

Apesar da surpresa que a voz lhe trouxe, Blair voltou-se em direção a ela de forma calma. Ainda estou dentro do Salão Cinzento. Se fosse um inimigo, ele ou ela esperaria até que eu estivesse um pouco mais distante pelo menos. Logo, se a pessoa está falando comigo enquanto estou em um lugar como esse, ela só pode ser amigável. E tal como sua lógica dizia, o que viu não era nenhum inimigo sedento de sangue, mas uma jovem mulher de pele amorenada, vestida em roupas leves e com seus longos cabelos negros presos em duas tranças que iam até a metade das suas costas, sentada na beirada de um dos poucos prédios intactos do Salão Cinzento.

— Observando pessoas em momentos pessoais? – Questionou Blair, mais pra provoca-la do que tudo. – Que falta de modos.

— De fato, uma falta de modos terrível. Minhas desculpas por isso! – A mulher saltou do prédio sem hesitação alguma e aterrissou no chão sem demonstrar qualquer sombra de problemas. Quando voltou a se erguer ela abriu um sorriso simpático e começou a se aproximar de Blair, balançando as mãos enquanto o fazia para mostrar que não estava armada. – Espero que não tenha lhe irritado com isso, Blair. E, sim, eu sei seu nome, antes que você pergunte. Descobrimos ele já há um bom tempo.

— “Descobrimos”? – Repetiu Blair, erguendo uma sobrancelha sugestiva.

— Sim, descobrimos. – Confirmou a mulher, assentindo com a cabeça. – Permita-me me apresentar. Meu nome é Arcueid Black, e eu estou aqui em algo que você poderia chamar de uma “missão diplomática”, representando os interesses da minha mãe, Ebony Black.

— Ebony Black... – repetiu novamente Blair, dessa vez não em questionamento, mas em contemplação. Reconhecia aquele homem, reconhecia-o bem. – A líder da Pérola Negra, Ebony Black. O que significa que você é...

— Arcueid, a Princesa Negra. Sim, suponho que sou – afirmou a mulher, um pouco orgulhosa do seu título. – No entanto, não é em mim que devemos me focar, não é mesmo? Afinal, o “x” de toda a questão é a minha mãe... e você.

— Sua mãe e eu... entendo, acho que começo a entender o que você quer aqui. – Relaxou um pouco seu corpo e deixou uma mão escorregar até o bolso da sua calça, retirando de lá uma moeda que passou prontamente a jogar no ar e apanhar quando caia. – Então, uma guilda tão grande quanto a Pérola Negra criou interesse numa mercenária como eu? Lisonjeante.

— A Pérola Negra tem interesse em qualquer mulher que se destaque na arte da batalha – disse Arcueid. – Mercenárias, magas, guerreiras, cavaleiras... não importa qual seja o seu foco, se uma mulher conhece da batalha, teremos olhos para ela.

— Qualquer mulher, especificamente? – Questionou Blair, erguendo uma sobrancelha. – Parece um pouco sexista isso, não?

— Hum... quando você coloca desse jeito, realmente. Perdão, me expressei mal. Permita-me explicar um pouco melhor meu ponto – pediu Arcueid, e foi só depois de Blair assentir com a cabeça que ela seguiu em frente. – Não quero passar a impressão de que nossa guilda é sexista ou coisa do tipo. Entenda que repudiamos qualquer tipo de discriminação baseada em gênero. Mas é exatamente por isso que mantemos nosso foco em recrutar mulheres. Não irei te entediar com a história toda agora, mas caso você não saiba, basta dizer que minha mãe é uma mulher que sofreu bastante nas mãos de homens no passado, e ela quer acabar com isso. A Pérola Negra é uma guilda que se foca em recrutar mulheres fortes porque queremos fazer um ponto, provar algo para o mundo. Queremos provar que mulheres são fortes também, que podemos lutar tão bem quanto qualquer homem, que não somos flores frágeis ou peças de arte que devem apenas ser admiradas. Nós provamos um pouco disso na última Guerra das Guildas com o triunfo da minha mãe sobre os cães de Volcano... e planejamos provar isso novamente esse ano.

— Você quer dizer, pretendem ganhar a Guerra das Guildas que está por vir de novo, não é? – Perguntou Blair, e Arcueid assentiu quase imediatamente.

— Exatamente. – Arcueid não fazia esforço para tentar esconder suas intenções, e Blair francamente não sabia se isso era por ela não achar que tinha nada a esconder ou por ela saber que a invocadora era astuta o suficiente para ver através de mentiras e meia-verdades. – E para esse fim, nós temos recrutado. Temos buscado mulheres hábeis e poderosas que possam nos representar na Guerra da Guilda. Não apenas à Pérola Negra, veja bem, mas à todas as mulheres do mundo de forma geral. E você é uma mulher ideal para isso, Blair.

Sua mão se ergueu, e quando ela fez isso, Blair viu um envelope branco com o selo da Pérola Negra entre seus dedos. Não tinha a menor ideia de onde ela tinha tirado algo assim, mas Arcueid também não lhe deu a chance de fazer uma pergunta dessas.

— Você não tem que responder agora. Ainda temos tempo para que você possa pensar e fazer sua decisão. Mas lembre-se do que eu disse – murmurou Arcueid, estendendo à Blair o envelope. – A Pérola Negra não está lutando apenas por glória ou por riquezas ou para provar que é forte. Ela está lutando por um objetivo, Blair, por um motivo maior do que qualquer outro que qualquer outra guilda possa ter. Se você tem algum interesse em participar da Guerra das Guildas, então lutar ao lado da Pérola Negra é a melhor coisa que você pode fazer.

=====

— Então, Kastor... – depois de ter passado algum tempo com Titânia conversando em particular com ela no canto da sala, Lancelot havia se aproximado de Kastor e pedido para que os quatro conversassem juntos. A namorada dele parecia bem mais calma agora que ele estava por perto, e Kastor sabia que Lancelot poderia acalmá-la caso ela tentasse matar mais alguém, então não teve muitas objeções em aceitar aquilo, embora já tivesse uma ideia do que ele iria querer saber. Acabaram usando da mesa de interrogação para isso, ficando Lancelot de um lado (acompanhado de Titânia) com Kastor do outro (acompanhado de Cleus). – Já que eu estive meio por fora de tudo que tem acontecido recentemente, você poderia me dizer como foram as coisas com Balak durante a Batalha do Pandemonium?

Aquelas poucas palavras foram o bastante para fazer com que qualquer sorriso e sinal de satisfação no rosto de Kastor coalhasse e morresse. Essa não é uma pergunta que eu esperava, pensou o cavaleiro, e logo se sentiu estúpido por isso. Devia ter imaginado que algo assim podia acontecer, e devia ter planejado algo para dizer nesse caso, mas não tinha nada, e isso deixava tudo muito mais complicado. Tentou ocultar a feição problemática que quis abrir caminho até seu rosto e retrucou a isso da melhor forma que pode.

— Eu tenho mesmo que falar sobre isso? Você já deve ter ouvido os rumores, não? Eles não demoraram a se espalhar.

— Ah, sim, eu ouvi os rumores! – Concordou Lancelot de forma entusiasmada, e isso deixou Kastor mais perturbado do que tudo. Se ele havia ouvido os rumores então não havia motivo para ele estar lhe perguntando diretamente a menos que quisesse alguma informação mais precisa, e pela reação que ele havia tido ao ouvir aquilo, Kastor sentia-se como se tivesse acabado de lhe dar a faca e o queijo na mão. – Desculpe, Kastor, eu acho que não fui claro o bastante com o que queria de início. Permita-me me expressar melhor, sim? Eu ouvi os rumores, ouvi sobre como você matou Balak. Agora eu gostaria que você me dissesse a verdade.

Seu rosto enrubesceu de vergonha e fúria diante da acusação de Lancelot, mas o outro só fez continuar a sorrir inocentemente diante daquilo, como se isso fosse algo casual sem significado. Seu miserável.... isso explica o porquê de dizerem que você deve sempre desconfiar dos que são bonzinhos demais. Lancelot parecia sempre simpático e bondoso, mas pelo que estava vendo agora ele era em verdade bem mais astuto e ardiloso do que dava a parecer.

— O que você quer dizer com isso? – Perguntou Kastor em uma voz um pouco mais grossa pela sua irritação, mais na tentativa de comprar algum tempo para pensar e na fraca esperança de que aquilo parasse o questionamento de Lancelot..., mas claro, isso não seria tão fácil.

— Você há de me perdoar, Kastor, mas você não é um bom mentiroso – disse casualmente o cavaleiro loiro, gesticulando com a mão enquanto falava, conquistando com isso um grunhido de irritação de Cleus. O homem ainda estava preso e mal havia entrado na guilda de Kastor, mas aparentemente ele já estava tomando uma postura protetora do azul. Isso dito, se Kastor tinha ele, Lancelot tinha Titânia, e não queria uma briga. Tratou de chamar a atenção de seu companheiro e gesticular para que ele cortasse aquilo, e Lancelot seguiu em frente como se nada tivesse acontecido. – Há várias falhas na sua mentira. Em primeiro lugar, você diz ter matado Balak, mas você não trouxe nenhuma prova de que ele estava morto nem apresentou uma justificativa para não trazer uma. Você também não parece particularmente orgulhoso disso, e seria de se imaginar que você estaria saltitante de alegria em finalmente matar o responsável por toda essa guerra. Na verdade, você evita falar sobre o que aconteceu com ele, o que parece bem inconsistente considerando que isso seria algo de que se orgulhar. E por fim, mas não por último, temos um outro fato simples, mas mais convincente de tudo: você não olha nos meus olhos enquanto fala, Kastor. Você evita contato visual. E não há outra explicação para isso além de “vergonha”, e não há outra explicação para vergonha além de “mentira”.

Ouviu tudo isso em silêncio, fazendo seu melhor para controlar-se e não deixar que tremesse ou vacilasse. Maldito seja, Lancelot, você é um bastardo esperto, não é? Queria poder dizer alguma coisa sobre aquilo, mas simplesmente não tinha o que dizer; não era ousado o bastante para afirmar que a lógica de Lancelot era perfeita, mas ela certamente era boa o suficiente para deixar Kastor sem palavras, e isso era basicamente o mesmo que admitir que ele estava certo.

— Mestre. – A voz de Cleus cortou por entre a tensão como uma faca, fazendo com que o cavaleiro estivesse mais do que um pouco grato quando ergueu seu olhar para ele. A expressão do guerreiro era calma e neutra, o que sugeria que ele iria aceitar qualquer decisão que Kastor tomasse, mas o fato dele estar se manifestando deixava claro que ele tinha algo a dizer. – Eu sei que ainda sou um membro recente na guilda, mas... posso dar a minha opinião?

— Em primeiro lugar: sem “mestre”. Ninguém me chama de mestre, ninguém nunca chamou, e não vai ser você que vai começar a chamar. E em segundo lugar... sim, claro, por que não? Vá em frente. Diga o que tem de dizer.

— Muito bem – murmurou o fênix, assentindo e respirando fundo antes de falar. – Meu juramento para você ainda é recente, me-, digo, Kastor. Mas o fato de ser recente não o torna frágil. Minha lealdade é sua, de agora até o fim dos tempos. Sendo assim, independente de qual seja a sua escolha, eu irei respeitar a sua decisão e seguir seus comandos de forma inabalada. Mas dito isso... eu sei que não é certo que eu faça um pedido desses em tão pouco tempo, líder, mas eu sinto que devo dizer que eu gostaria de saber o que houve com meu antigo líder, Balak Hauss. Seus métodos foram no fim errados e ele acabou se tornando um homem que causou mal ao mundo no fim das contas, mas ainda assim ele ainda é um homem que salvou a minha vida em mais de um momento, e um homem que eu respeitei e admirei em determinado momento da minha vida. Saber o seu destino é.… algo que eu apreciaria.

Suspirou resignado ao ouvir aquilo. Ele tentou montar sua frase de forma a parecer mais neutro, mas eu não diria que foi muito bem nisso. Não que isso fosse algo ruim. De certa forma, o fato de Cleus ter falhado em manifestar-se como realmente neutro havia sido útil; isso havia acabado com a hesitação de Kastor e feito com que o cavaleiro tomasse de vez sua decisão.

— Muito bem, muito bem. Se vocês têm tanto interesse, então abram bem os ouvidos e prestem atenção – disse Kastor, erguendo seus olhos como se estivesse olhando direto nos de Lancelot, mas não era para ele que estava olhando. Seus olhos não viam nada que estava naquela sala, mas sim uma memória que já era um pouco distante, mas ainda vívida em sua mente. – Foi isso que aconteceu...

=====

Três dias antes, durante a Batalha do Pandemonium...

Uma gota de suor escorreu pela sua testa e pingou sobre o homem abaixo dele. Suas mãos – seus dedos — se apertaram com mais força e firmeza ao redor da empunhadura de sua espada: a espada que estava cravada no chão, bem ao lado do rosto atônito de Balak Hauss, cuja bochecha fora cortada quando a lâmina caiu.

Eu não sou um demônio. — Grunhiu Kastor com a ferocidade de um lobo, deixando a raiva e a fúria em sua voz claras como o nascer do sol. – E não importa o quanto você diga o contrário, eu não vou me tornar um!

Empurrou a empunhadura – enfiando a espada ainda mais no chão com isso – e usou do momento para se levantar e gritar para ninguém em particular, para o próprio mundo que lhe cercava. Estava furioso, com tudo e todos. Furioso com Balak que era o responsável por aquela guerra; furioso com Lancelot, que havia colocado aquela ideia estúpida na sua cabeça; furioso consigo mesmo, por ser burro o suficiente para fazer tamanha merda. Eu vou me arrepender disso. Eu sei que vou me arrepender disso. Diabos, por que eu não pego uma espada e perfuro a cabeça desse merda de uma vez! Tão simples! Um golpe, um pouco de sangue, e pronto! Sem chateação, sem aborrecimento, sem mais dor de cabeça!

Mas não era mais tão simples. Agora ele sentia que podia matar Balak. Sentia que matar aquele mago seria um dos piores erros que podia cometer, e sentia que não seria capaz de se perdoar se fizesse isso.

— É assim que você planeja terminar tudo, Strauss? Com uma espada no chão? É isso mesmo? – Aparentemente o momento de surpresa de Balak havia passado, pois ele já estava voltando a lhe encher o saco. – Patético. É isso que pret-

— Ora, cale a sua maldita boca! – Cortou Kastor, sem paciência para toda aquela merda. – Você não está enganando ninguém com esse papo furado, Balak! Eu não vou te matar: simples assim. Se você quer morrer tanto assim, seja homem por uma vez nessa sua maldita vida e corte os próprios pulsos! Escreva uma cartinha com seu sangue falando sobre como o mundo é injusto e todo mundo te odeia se quiser! Eu não dou a porra da mínima! Só não venha falar bosta no meu ouvido, pois já estou atolado até o pescoço de merda sem a sua contribuição.

Aquilo surpreendeu bastante o mago, pelo que o silêncio súbito dele lhe disse. De certa forma aquilo havia surpreendido até o próprio Kastor. Não estava acostumado atacar alguém com palavras de forma tão agressiva e direta assim... mas também não podia dizer que isso não o acalmava. Sentia como se estivesse finalmente colocando pra fora toda a raiva e frustração que havia acumulado em toda aquela guerra, e dizer que esse era um sentimento libertador era pouco para descrever a sensação que tinha.

Seu nervosismo e sua agitação fizeram com que começasse a zanzar sem sentido. Ia prum lado num momento e depois seguia pr’outro, andando de lá pra cá numa tentativa de se acalmar. Não demorou muito para que voltasse a extravasar, e dessa vez ainda mais agressivo do que antes.

— Sabe, Balak, você sempre ficou esse tempo todo falando sobre como eu sou um demônio. Sempre falou sobre como eu sou mal e ruim, sobre como eu deveria morrer, sobre como a luz sagrada ia me obliterar e blá blá blá. Sabe, eu queria que você tivesse alguma razão no que fala. Eu queria ser um demônio, um monstro, queria ser capaz de ignorar todo senso de moral e decência que me foi passado durante anos e anos para que eu pudesse cravar meio metro de aço nessa sua cara arrogante e livrar o mundo de alguém como você, mas sabe qual é a novidade? Eu não posso! Eu tenho morais! Eu tenho íntegra! Eu tenho caráter, e eu não sou capaz de ignorá-lo ao meu bel prazer como você!

— ... Esse é o seu discurso, Strauss? Ridículo. Digno de um garoto mimado que tenta provar ao pai que sabe o que é o mundo. – Aparentemente a sua raiva era contagiante, pois pelo que podia ver parecia que o próprio mago estava começando a exibi-la agora. – Você fala como se se apegar as morais fosse uma coisa excelente, um tiro que nunca sai pela culatra, mas a realidade é bem diferente. As morais guiam uma pessoa e a induzem a fazer a coisa certa num contexto ético e social na maioria das vezes, mas elas também limitam alguém. Elas são correntes invisíveis que te impedem de fazer o que tem de ser feito, o que você sabe que tem de ser feito, e causam mais prejuízo a longo prazo do que tudo. Quando você tem como foco o bem maior, você não pode agir como uma criança. Você tem que agir como um homem e tomar decisões difíceis, e colocar as morais de lado é uma dessas decisões.

— Besteira, besteira, besteira, besteira, besteira, besteira, besteira, besteira, besteira, besteira, besteira, besteira, besteira, besteira, besteira, besteira, BESTEIRA! Lá vem você de novo com essas suas justificativas ridículas, tentando enobrecer as suas palhaçadas e falar como se você fosse um herói incompreendido que tenta fazer o melhor para o mundo e merece uma medalha, quando isso não é mais do que uma tentativa ridícula de minimizar o mal que você faz! Morais são correntes? Morais te impedem de fazer o que tem de ser feito? Esses são os pensamentos de um sociopata! Desprezar suas morais nunca é algo beneficial! Não para a sociedade, não para o futuro, não para o tão chamado “bem maior”! Na verdade, essa desculpa de “bem maior”? Ela é o maior besteirol já dito nesse maldito universo! Essa é a desculpa que tiranos e psicopatas dão para justificar seus atos mais horrendos, para fazer parecer que são pessoas decentes! Em retrospectiva, é bem apropriado que você esteja a usando, não é? Esse é exatamente o tipo de coisa que gente da sua laia diz!

— Gente da minha laia? Você realmente acha que tem algum direito de falar sobre a minha laia, demônio?! — Uma das mãos do mago se fechou em um punho, e ele o bateu com força em um pedaço de destroço. Sua força não era muito além da de um humano normal, e isso não conseguiu muito mais do que machucar sua mão o suficiente para que ela começasse a sangrar, mas Balak não deu a mínima para isso: ele estava furioso demais para se importar com qualquer coisa que não fosse Kastor. – Eu fiz tudo o que fiz por um motivo: para defender esse mundo! Nunca me vangloriei como um herói, nunca pretendi ser menos vil do que sou! Eu sou miserável, Strauss! Sou um mago que comercializa escravos e realiza assassinatos, um líder de uma guilda envolvida em contrabandos, tráfico e crime-organizado que se estende não apenas por toda Fredora ou todo o Sul, mas por todo o mundo conhecido! Eu sou um pedaço de merda, um infeliz que não tem direito algum de estar vivo! Mas eu estou vivo e eu sou o único que pode fazer alguma coisa para proteger o mundo! Todas as minhas ações foram tomadas para o bem da humanidade, e a sua aprovação, ou a falta dela, não mudam nada!

— Suas ações foram tomadas pelo bem da humanidade? Não me faça rir! Nada, absolutamente NADA do que você fez foi feito pelo bem da humanidade! Tudo que você fez como base nada mais do que uma profecia estúpida cuja verdade ninguém sabe! Você acha que isso é justificativa, Balak? Você é realmente um demente grande o suficiente para achar que uma profecia é justificativa para derramar tanto sangue, estragar tantas vidas? VOCÊ ACHA QUE ESSA SUA FANTASIA DE HÉROI JUSTIFICA TODA ESSA GUERRA?!

­— Não se ATREVA a zombar do que não conhece, Strauss! Você não sabe nada de mim, ou do que faço, ou do que significa tudo isso! Eu não fiz nada movido por uma mera profecia, mas por fatos! Eu vi o futuro, Strauss, e o que tinha nele era sangue e cinzas! A humanidade morria, as árvores queimavam e os mares secavam! O Sol acima de nossas cabeças era negro e o ar era pesado como se fosse pó de cobre! Aquele era um futuro em que não havia caos, não havia guerras e não havia lágrimas, porque não tinha mais nada! Ele era um futuro condenado, uma ruína destruída! E tudo isso pela mão de vocês, seus malditos demônios! É para evitar esse futuro que eu lutei! É para evitar esse futuro que eu luto! É para evitar esse futuro que o Olho Vermelho agiu, e para evitar esse futuro que ele sempre vai agir!

— Seu burro, idiota, imbecil, mentecapto do caralho! Será que você não entende?! Eu sei de toda essa merda, e é essa merda que faz com que você esteja tão errado! Você diz que age para evitar esse futuro, mas você já ouviu falar de uma coisinha chamada “profecia autorealizadora”? Porque é exatamente isso que está acontecendo! Use esse seu cerebrozinho retardado por uma vez e pense exatamente no que você fez até agora! O que exatamente você já fez para impedir que esse futuro se torne realidade, Balak?

— O que você quer dizer com isso?! Tudo! Todos os nossos esforços em caçar demônios...

— .... Foram em prol de impedir esse futuro? Porque se você não notou, o que eles fizeram foram exatamente o contrário! Você FACILITOU para que esse futuro se torne realidade! Pra alguém que age sempre de forma tão arrogante e parece se orgulhar tanto do seu intelecto, você é incrivelmente BURRO, Balak Hauss! Os hospedeiros são prisões, seu imbecil! Nós que recebemos os Corações ao redor dos anos servimos como prisões para eles! Nós limitamos a influência deles no mundo exterior e confinamos seus poderes! Nós os mantemos sob controle dentro dos nossos corpos, de forma a impedir que eles façam mal a qualquer um!

— E você acha que isso é o suficiente? Acha mesmo que pode-se confiar em humanos para servirem como prisões para demônios ancestrais! Pelo amor dos Deuses, use você a sua maldita cabeça, Strauss! Humanos são seres gananciosos e terríveis, criaturas horrendas que podem facilmente serem corrompidas! Colocar uma pessoa para conviver com um demônio poderoso dia após dia é basicamente pedir para que essa pessoa seja corrompida! Dê ao demônio alguns meses e ele fará com que essa pessoa não seja mais do que um fantoche, um boneco que se dobra aos seus desejos, e teremos então os demônios andando na terra.

— Puta que pariu, como você pode ser tão burro assim?! Pense um pouco, idiota! Se o que você está falando é verdade, então como isso nunca ocorreu? OS CORAÇÕES ESTÃO SELADOS EM HUMANOS HÁ DOIS SÉCULOS! Se o risco fosse assim tão grande, isso já teria acontecido pelo menos uma vez, não concorda? Mas não aconteceu! E sabe por que? Porque o selo nesses demônios não é tão fraco! Eles não conseguem influenciar as pessoas como você acha que eles fazem, gênio! E novidade para você: esse selo não enfraquece com o passar do tempo! Uma magia ancestral não enfraquece com algo tão simples quanto o passar do tempo, e mesmo se enfraquecesse isso não seria em questão de dois séculos, mas sim de milênios e milênios de anos! Sabe o que enfraquece os selos? EMOÇÕES! Não emoções positivas como o amor ou a felicidade, mas emoções como o medo, o nervosismo, a frustração! Emoções que você causou nos malditos hospedeiros com a sua mil-vezes-maldita caça-às-bruxas! E sabe como eu sei disso? Porque mesmo usando inconscientemente das habilidades do demônio no meu interior, mesmo sabendo que eu tinha um demônio dentro de mim, eu não senti nunca a influência do Coração Azul até o dia em que recebi a notícia que você havia quase matado dois dos meus melhores amigos!

Aquele foi um argumento que pegou Balak de surpresa. Por um momento ele ficou atônito. Por um momento ele simplesmente não soube o que responder. Mas ele se recuperou rápido, e não demorou para que ele voltasse a falar.

— E.…? Você acha que isso muda alguma coisa? Emoções negativas são parte da experiência humana, Kastor! É impossível que alguém passe por essa vida sem sentir medo, ou raiva, ou desespero! Se essas emoções fazem com que os demônios venham a tona, então os hospedeiros ainda são perigosos! E é por isso que é importante que lidemos com esses demônios!

— O problema, meu caro idiota, é que vocês não lidam com porra nenhuma! Você não mata os demônios, mata, Balak? Não, não, nã-nã-ni-na-não! Não mata não, e eu SEI que você não mata, porque eu me lembro de ter ouvido você falar sobre como você sela os demônios! Então, você está travando guerras para matar os hospedeiros, quebrar os selos neles e tirar os demônios dos seus corpos para o quê, selá-los de novo?!

— Não é tão simples assim! Se fosse possível matar os demônios eu já teria feito isso há muito tempo, mas eles são criaturas imortais de poder imenso! Seria necessário erradicar completamente as suas almas para fazer algo assim, e nada menos do que um Deus seria capaz disso, e caso você tenha se esquecido, os Deuses estão mortos! Selá-los de forma mais segura é o melhor que pode ser feito para certificar-se de que eles não corrompam ninguém e nunca se libertem!

— Oh, meus amados Deuses, me deem paciência para lidar com essa criatura estúpida! Ouça suas próprias palavras, Balak: você realmente acha que um selamento feito por você e, sendo generoso, meia dúzia de magos de nível intermediário vai ser mais forte do que um selamento ancestral feito por centenas dos magos mais poderosos que o nosso mundo já viu? Certamente nem você é tão arrogante assim! Então, o seu selamento é mais fraco! Você está literalmente quebrando um selamento mais forte, que foi fragilizado devido à sua influência, para substitui-lo por um selamento mais fraco! Então o problema não se torna mais a possibilidade dos demônios corromperem os seus hospedeiros, não é? O problema se torna o fato deles estarem presos através de selos que qualquer um pode quebrar! Presos em urnas que qualquer um pode abrir! E antes que você me venha falar que o fato de você saber destruir o selo original significa que qualquer um poderia fazer isso, deixe-me deixar isso claro: não, não significa porra nenhuma! Eu não deveria ter que dizer isso, mas já que você é tão burro, permita-me deixar as coisas claras para você: você é o descendente de um clã de caçadores de demônios, Balak, com um poder inigualável e um conhecimento inigualável. Técnicas especiais devem ter sido passadas pela sua linhagem sanguínea de geração em geração. A magia que você usa para quebrar os selamentos provém dessas técnicas, não provém? E mesmo para você, que é dito um gênio da magia, deve ter demorado uma eternidade para que aprendesse a usá-las efetivamente, algo que seria diretamente impossível para qualquer outro homem já que ninguém teria o tempo necessário para algo assim! Você entende a dimensão da merda que você fez agora, seu imbecil? Você não fez algo tão simples quanto trocar seis por meia dúzia. Você trocou seis por um e meio! Toda essa guerra que você travou, toda a campanha do Olho Vermelho, tudo que você fez até agora... isso tudo só serviu afim de criar um ambiente propício para que o futuro que você viu se torne verdade!

Os olhos de Balak, que já pareciam perpetuamente arregalados a esse ponto, se arregalaram ainda mais ao ouvir aquilo. Ele abriu a boca para dar alguma resposta, mas nenhum som veio. A sua cara era como a de um peixe naquele momento, de boca aberta e olhos esbugalhados, sem saber o que fazer, sem ter o que responder. Mesmo em meio a sua fúria e frustração, Kastor não foi capaz de se impedir de sentir dó dele ao ver aquilo.

— Essa guerra, Balak... ela foi de longe o maior erro que você podia cometer. Pense só. Se os demônios realmente se erguessem um dia, a sua guilda e o Salão Cinzento seriam duas das grandes forças que iriam se erguer em defesa da humanidade. Mas como isso deve acontecer agora? Ambos estão enfraquecidos, à beira do colapso. Essa guerra custou muito aos humanos e deu vantagem aos demônios. Preparou o campo para a matança. – Balak não disse nada em resposta, mas gotas de sangue começaram a escorrer dos seus olhos, descendo pelo seu rosto até o queixo. Poderia imaginar que isso era apenas algo causado pela sua técnica, mas ele então começou a tremer e gemer, e não demorou para que compreendesse que ele estava chorando. Balançou sua cabeça para isso e virou-se de costas, incapaz de ver um homem que havia sido tão formidável como oponente naquele estado tão patético. – É por isso que eu não consigo te matar. Você não tem malícia, não tem maldade. No fim do fim, você não é mal de verdade. Você é apenas idiota. Um tolo extremista que achou que estava fazendo o bem, sem nunca ver os fios do marionetista até que fosse tarde demais. Alguém te manipulou por esse tempo todo, Hauss. A pessoa que te mostrou esse futuro... essa pessoa é a que você deveria procurar por respostas.

Colocou suas mãos nos bolsos e começou a se afastar, um passo após o outro, sempre calmo e controlado. Queria não falar mais nada... mas acabou provando-se incapaz disso.

— ... Como eu disse antes, se você quiser morrer, sinta-se à vontade para cometer suicídio – disse Kastor, parando por um momento e virando levemente o rosto, embora não o suficiente para olhar novamente para Balak. Pelos gemidos ele sabia que o mago ainda estava chorando e não queria vê-lo assim. – Mas pessoalmente? Isso seria o cúmulo da covardia da sua parte. Eu irei dizer pra todo mundo que você morreu, e isso deve no mínimo te dar algum tempo para se reorganizar. Não posso dizer o que você deve fazer, mas posso te dar essa sugestão: engula esse choro, levante-se de novo, e concerte a merda que você fez.

=====

— E foi basicamente isso que aconteceu – concluiu Kastor, gesticulando e voltando sua atenção novamente para seus companheiros, buscando ver agora qual seria a reação deles às notícias. Os três tinham feições severas em seus rostos, duras e rígidas demais para que pudesse lê-las..., mas de qualquer forma, isso não seria necessário.

— Então, você está dizendo que Balak estava agindo diretamente contra os seus próprios interesses? – Apesar de sua elaboração, o tom que Lancelot usou na pergunta sugeria que ela era mais pra si mesmo do que qualquer outra coisa. – Isso é.… trágico. Imagino como ele deve ter se sentido diante disso. Considerando que ele aparentemente fez tudo que fez foi em prol disso... a sensação deve ter sido terrível.

— Lancelot, por favor, não me diga que você está sentindo pena dele! – Exclamou Titânia, lançando um olhar incrédulo ao seu namorado. – Caso você tenha esquecido, ele é o responsável por nossos ferimentos! Ele arrancou meu olho e as suas pernas! O filho-da-puta pode arder no inferno até que seus ossos virem cinzas, e isso ainda seria bom demais para ele.

— Tit, sem ofensas, mas eu nunca esqueci de nada. E nem nunca vou esquecer – disse Lancelot, pousando uma mão sobre uma de suas pernas metálicas, um gesto que não passou despercebido por Titânia e fez com que a mesma desviasse o olhar, não em irritação, mas em vergonha. – Mas eu também sei que ficar remoendo esse ódio não vai resultar em nada de bom. E além disso... o fato dele ter feito algo horrível para mim não faz com que o que aconteceu com ele seja menos horrível. Para alguém descobrir que estava agindo contra o que pensou lutava por durante anos e anos... essa é uma sensação que ninguém deveria ter.

— Mas é uma sensação que ele teve – disse Kastor, dando de ombros – e francamente, eu acredito que isso seja para melhor. Você havia dito antes que tinha a chance dele se redimir, certo? Bem... se essa chance é realmente real, então eu acho que isso é o que a maximiza. Se Balak há de se redimir de alguma forma, ser confrontado quanto a verdade de suas ações é o que mais pode motivar essa mudança.

— O que mais pode motivar a mudança, ou o que mais pode motivar o suicídio – comentou Lancelot em um tom um tanto seco, embora Kastor não tenha tirado ofensa disso. Ele obviamente não havia falado com o sentido de ofender, e o cavaleiro não era fútil o bastante para caçar briga assim tão fácil. – De qualquer forma, não tiro sua razão. Esse confronto é o que mais pode resultar em algo bom. Você foi esperto em escolher por ele.

— Mais esperto do que imaginei que você era – acrescentou Titânia, lançado um olhar afiado a Kastor.

— O que posso dizer? – Fez o cavaleiro, encolhendo os ombros e meneando a cabeça com um sorriso malandro e satisfeito. – As pessoas acham que sou só um rostinho bonito, mas há mais em mim do que isso.

— É, parece que há mesmo – concordou Lancelot, lutando para conter uma gargalhada. – Isso é bom. Faz com que eu saiba que fiz a escolha certa em me juntar a você.

Irromperam em gargalhadas ao fim daquela frase, tanto Kastor quanto Lancelot, observados silenciosamente por seus respectivos companheiros como se estivessem os deixando de fora de alguma coisa. Algumas pessoas gostavam de dizer que Kastor era lerdo, alienado, avoado, ou simplesmente um idiota, e em crédito a essas pessoas, elas não estavam tão erradas. Demorou mais do que deveria para que o cavaleiro se desse conta do que as palavras de Lancelot implicavam, e quando a ficha finalmente caiu ele se viu se inclinando para frente, os olhos arregalados e ambas as sobrancelhas erguidas.

— Espera, o quê?

— Ah, é, eu provavelmente não falei com você ainda, não é? – Comentou o loiro sorridente, como se aquele fosse um detalhe sem importância. – Eu estive pensando nisso há um bom tempo e tomei minha decisão quando Tiamat terminou de colocar minhas pernas novas Kastor, enquanto vinha para cá. Se não for um incômodo, eu gostaria de me juntar à sua guilda.

— Você? Se juntar? – Ainda estava surpreso com aquilo, não tanto pelo fato de alguém querer se juntar a sua guilda por vontade própria (entre Shell e Cleus ele havia meio que se acostumado a isso), mas por quão súbito era o pedido. – Por quê? Quero dizer, sem reclamações, você é um cara legal e sua habilidade com certeza vai ser útil mais cedo ou mais tarde, mas por quê?

— Em verdade? Tédio – respondeu o outro. – É um pouco triste dizer isso, mas a vida de um cavaleiro não é lá muito interessante depois que nos formamos. Se você tem uma ocupação a qual retornar as coisas continuam normalmente, mas se você não tem vida além do Salão você acaba ficando aqui, o que é basicamente o mesmo que ficar atoa se você for de um nível maior. Os cavaleiros que se formam em posições menores estão sempre ocupados com tarefas de guarda e patrulha e em treinamentos constantes para melhorarem suas habilidades, mas isso não acontece com os cavaleiros que se formam como membros dos dez melhores de uma leva. Trabalhos como esses são opcionais para nós, e francamente, eles são bem entediantes, o que significa que muitos cavaleiros simplesmente não têm interesse neles. O que nós realmente fazemos são trabalhos oficiais como mercenários que pedem especificamente por cavaleiros, mas o número desses está diminuindo constantemente com o surgimento e a predominância das guildas, o que significa que estamos ficando cada vez mais parados. Para tentar remediar isso um pouco Odin tem começado a colocar os cavaleiros de melhor nível do Salão Cinzento como instrutores para novos cavaleiros na esperança de tanto mantê-los ocupados quanto melhorar o nosso poder militar com recrutas melhores, mas isso também não funciona tão bem. O problema não é o treinamento dos recrutas, mas sim de onde eles vêm. Nós não caçamos talentos como antes Kastor, em parte pelo fato da maior parte desses talentos serem colhidos pelas guildas, o que significa que o que recebemos são filhos de nobres e um filho ou outro de famílias mais humildes que conseguem juntar dinheiro o suficiente para financiar uma educação de cavaleiro. O que quero dizer com isso é que as pessoas que estão se juntando ao Salão Cinzento estão fazendo isso com base em uma situação monetária que, embora mantenha o Salão funcionando, significa que nossos recrutas não têm talento ou potencial. Nós podemos trabalhar com eles para fazê-los ficar melhores e mais fortes, mas o nível de esforço que essas pessoas terão de ter para serem realmente poderosos é muito maior do que o de alguém com talento, e eles simplesmente não tem a intenção de fazer esse esforço: o que eles querem é se formar como cavaleiros e ganharem dinheiro e uma boa posição social a partir disso, o que significa que eles não estão dispostos a se esforçarem para serem realmente bons. E além do mais... sinto muito, mas eu não quero isso. Eu não tenho talento para ensinar as pessoas e não gosto de servir como tutor de ninguém, e por mais que eu tente ser calmo na maior parte do tempo, eu sei que algum fidalgo nobre vai em algum momento fazer uma piadinha sobre eu ter perdido minhas pernas, e eu sei que eu vou responder a essa piadinha de forma agressiva, algo que eu também não quero que aconteça.

Lancelot parou por um momento após dizer aquilo para buscar fôlego e organizar seus pensamentos, e Kastor apenas ficou lhe observando atentamente enquanto isso acontecia. Uau... parece que o que deveria ser uma justificativa breve se transformou em um complexo desabafo sobre o que incomoda Lancelot no Salão Cinzento. Sabia que Odin era um líder popular pelo seu carisma e sua posição como uma lenda viva, e sabia também que apesar disso a sua aprovação não era completa, que algumas pessoas achavam que, por mais poderoso e bondoso que Odin pudesse ser, ele não tinha os talentos necessários para ser um bom administrador. Mas não sabia que Lancelot era uma dessas pessoas, e não sabia que os problemas com a administração de Odin eram tão profundos assim. Acho que é uma boa coisa que Hozar não esteja aqui, e que eu tenha o arrastado comigo para fora do Salão. Ele é uma boa pessoa, mas meio precipitado e inconsequente no que diz respeito a Odin. Se ele estivesse ouvindo alguém falar mal de Odin ou do seu trabalho, ele provavelmente estaria comprando briga com essa pessoa nesse exato momento, sendo ela Lancelot ou não.

— Heh... desculpe, Kastor. Parece que eu me exaltei demais e acabei desviando o assunto para um foco um tanto mais desagradável – murmurou Lancelot, colocando um pouco de humor em sua voz na tentativa de melhorar o clima da sala. Apesar da forma delicadeza com a qual ele estava fazendo isso, a mensagem que ele queria passar, “eu não quero falar disso”, ela bem clara, e por isso Kastor não tentou forçar o assunto. – De qualquer forma, o importante é o seguinte: desde que eu vi a sua guilda em Valhala durante o torneio eu tive o desejo de me juntar a ela. Obviamente essa guerra toda entrou no caminho desses planos, mas agora que a guerra chegou ao fim e eu tenho pernas novamente, acho que é hora de colocarmos velhos desejos em prática, não concorda? Então... seria possível para mim me juntar à sua guilda, Kastor?

— E você ainda precisa perguntar? Claro que é! – Respondeu o azul, esticando-se para apertar a mão do seu velho amigo. – Com suas habilidades e sua personalidade você será extremamente útil para nós. Quem sabe, considerando que você está acostumado a impedir mulheres ruivas de destruir meio mundo, eu comece a apanhar menos da Bryen de agora em diante!

— Bryen? Há! Duvido. Aquela dali não tem paciência para as suas idiossincrasias, e se você começar a apanhar menos dela, vai ser só porquê terá outra mulher ruiva por perto para distribuir pancadas – retrucou Titânia, cruzando os braços. Apesar da clara agressividade de suas palavras o sorrisinho que ela tinha nos lábios sugeria que isso era mais bem-humorado do que tudo: uma piada, por assim dizer. – E não sei se você vai achar isso tão bom assim.

Kastor piscou ao ouvir aquilo. Uma, duas, três vezes. Demorou um tempo para que ele entendesse o que ela estava sugerindo, mas quando o fez, seus olhos de arregalaram até quase saltar de seus respectivos buracos.

— Pera aí, você não está sugerindo que...

— .... Eu vou me juntar a guilda também? É claro que vou! Você acha que eu iria deixar o Lancelot ficar no meio de um bando de lunáticos como vocês sozinho? – Questionou a ruiva, abrindo seu sorriso um pouco mais, o suficiente para que seus caninos se mostrassem em um sorriso que Kastor não conseguia decidir se era mais predatório ou divertido. – Além do mais, vai ser uma boa mudança de ritmo. Como Lancelot falou, ficar no Salão quando se é um cavaleiro de alto nível é tedioso, e como Odin não é louco o bastante para me colocar como instrutora de ninguém, eu tenho ainda mais tempo livre. Já cansei de treinar aqui e sei que preciso de mais experiência de combate do que tudo se quiser ficar mais forte nesse ritmo. E além do mais, a Guerra das Guildas está se aproximando, certo? Considerando a participação de vocês nessa guerra e a atenção que ela vai ganhar pelo mundo, não há dúvidas que vocês serão convidados a participar dela. Esse deve ser um evento interessante, uma chance de enfrentar pessoas poderosas.

— Eu nunca pensei que você era uma adoradora de lutas? – Comentou Kastor, erguendo uma sobrancelha. Titânia apenas deu de ombros em resposta.

— Eu gosto de lutas de forma geral. Não gosto de lutar pela minha vida ou pela de outras pessoas e por isso me mantenho séria quando estou fazendo isso, mas não vejo nada de mal em uma luta... “esportiva”, por assim dizer. Você sempre pode aprender algo de uma luta assim, e no mínimo do mínimo, ela te ocupa por alguns minutos.

Assentiu a cabeça em concordância com aquilo, e enquanto o fez, não pode deixar de pensar no que estava acontecendo. Eu estou conversando com Titânia. Não brigando com ela, nem discutindo com ela, mas conversando, normalmente, como se ela não fosse uma ruiva maluca e assustadora. Aparentemente ver Lancelot bem de novo e andando por aí havia melhorado o humor da mulher o suficiente para que ela mantivesse uma conversa decente com Kastor, e pelo que via não parecia que ela se importava muito com o fato de ter acabado de se juntar a uma guilda que teria Cleus – um antigo membro do Olho Vermelho – como seu companheiro. Ou talvez ela simplesmente não se tocou disso ainda por estar muito distraída, mas de qualquer forma, não importa. Mesmo que ela fique nervosa com isso depois, o fato de termos Lancelot por perto significa que acalmá-la vai ser muito mais fácil.

No fim das contas, não pode deixar de rir.

— Hahaha, cara, esse certamente foi um dia bem cheio! – Disse Kastor, apoiando seus braços na mesa. – Quando é que eu imaginaria que ao fim do dia a minha guilda teria não um, não dois, mas quatro novos membros? Espetacular!

— Uou, uou, espera aí – interrompeu Titânia, voltando a ficar séria subitamente. – Quatro novos membros? O que você quer dizer com isso? Eu e Lancelot fazemos dois, e com.… ele — resmungou ela, apontando com os olhos para Cleus – você tem três membros. Mas qual é o quarto?

— Hum? Ah, sim, verdade! Eu nunca cheguei a comentar isso, não é? – Disse Kastor em uma pergunta retórica. – Bom, não se preocupe muito com isso. Acontece que antes de vir para cá eu já estava de olho em recrutar alguém que se destacou durante a Batalha do Pandemonium e em alguns momentos que antecederam a ela pra minha guilda. Um sujeito diferente de vocês três, mas que acredito que vai ser igualmente útil. Hozar deve estar finalizando o recrutamento nesse exato momento.

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— Hm... então... deixe eu ver se entendi... – murmurou Syd Ostrower, jogando seu corpo pra frente de forma a olhar melhor para o Cinzento enquanto falava e gesticulava. – Vocês querem que eu me junte a sua guilda? Por quê? Não acho que pareço similar a você, ou ele, ou ela, ou a qualquer um dos outros membros da guilda.

O “ele” e “ela” aos quais o Campeão dos Covardes se referia eram ninguém menos do que os dois membros que haviam sido pessoalmente escolhidos por Kastor para servirem como guardas e auxiliares de Hozar naquele recrutamento. Com o passar do tempo, um fato tornou-se conhecido na Era Dourada: apesar de todos os membros da guilda serem amigos entre si e de todos se importarem uns com os outros, existiam alguns em particular que tinham a maior confiança de Kastor, aqueles com os quais o Cavaleiro Azul se entrosava melhor e que, portanto, eram os que atuavam como seu “braço-direito”: Hozar Royes, Duke Graham e Bryen Hardying.

— Você fala como se parecêssemos similares uns aos outros – apontou Bryen, de braços cruzados e encostada na parede. – Kastor é um idiota carismático e hiperativo. Hozar é um homem calado e irritadiço. Duke é um idiota pervertido. Teigra uma gênia retraída. Kyanna é uma maga alegre e Shell é um caçador de magos preguiçoso. Se você já viu um grupo mais estranho que esse, por favor, me avise.

— Você ficaria surpresa com os grupos que pessoas formam em romances por aí. Ou com os grupos que você pode formar com integrantes das mesmas guildas grandes. Ou, diabos, exércitos. Você acha que exércitos são disciplinados? Pois eles são! E isso não impede que tenham um bando de doidões no meio deles. Me lembro de um sujeito, por exemplo, que beijava um pé de coelho decepado que ele tinha antes de cada luta por sorte, bem como de um outro mais macabro que coletava as orelhas dos homens que matavam para assim ter “parte da força deles do seu lado”. – Uma das sobrancelhas de Bryen se ergueu perante a esses relatos bizarros, e a isso Syd lançou um olhar rápido que parecia dizer “Viu?” antes de retomar o foco. – Além do mais, por mais que seu ponto faça razão, você tem que admitir que não é como se o que eu estou dizendo também não tivesse certo sentido. Você e Hozar, por exemplo, são bem similares no sentido de serem retraídos e estourados... apesar de você parecer bem mais estourada do que ele. Sem ofensas.

— Ela não está ofendida – se apressou em dizer Hozar no momento em que viu Bryen abrir a boca para responder. O Cinzento conquistou um olhar irritado da ruiva por isso, mas respondeu a ele com um olhar próprio que parecia dizer “controle-se e me deixe lidar com isso”, para só então voltar sua atenção a Syd. – E de qualquer forma, como Bryen disse, o seu ponto continua a ser errado. Não buscamos por pessoas similares a nós, mas sim por pessoas competentes. Nosso líder viu as suas habilidades e decidiu que você seria uma adesão significante a guilda. Isso não é motivo o suficiente para te querermos conosco?

— Ser o suficiente não quer dizer que é convincente – replicou Syd, armado de um olhar astuto que corria por todos ali. – Não me entenda a mal, Hozar, mas você tem que concordar comigo que simplesmente achar que eu sou uma “adesão significante” é um motivo meio fraco para que você, que estou francamente indeciso se é o segundo-em-comando ou o segundo líder da guilda, viesse pessoalmente me recrutar. E mesmo se não fosse esse o caso, esse motivo não é razão alguma para que eu me junte a vocês. Desculpe se isso soa como se eu estivesse pedindo por um suborno, mas eu não vejo razão alguma para me juntar a vocês. E muitas razões para ficar longe.

— Opa, como assim muitas razões para ficar longe? – Duke, que até então estava sentado no chão com sua costa apoiada na parede, se levantou quase que com um salto e começou a fazer seu caminho rapidamente até Syd, a feição em seu rosto deixando claro que ele não estava nem um pouco satisfeito com o que havia ouvido. – Alguma coisa contra nós, parceiro?

— Nada – respondeu Syd um pouco rápido demais, ficando visivelmente nervoso diante da aproximação hostil do outro, mas não o suficiente para parar de falar. – Entenda... eu não quero ofender ninguém aqui. Eu só quero colocar um ponto de vista prático em jogo para que compreendam a situação em que me encontro. Eu não tenho nada a ganhar se me juntar a guilda de vocês, mas muito a perder. Mais especificamente, a minha cabeça a perder.

Duke não ficou satisfeito por aquilo: isso era óbvio. Ele grunhiu e rosnou como se fosse um cão, e estava prestes a falar alguma coisa quando o Cinzento lhe cortou.

— Duke, eu compreendo que você está tentando ajudar e agradeço por isso, mas antes de falarmos qualquer coisa, precisamos primeiro ouvir o que o outro tem a dizer – disse ele, movendo seus olhos para Syd ao dizer aquilo, olhando dentro das órbitas do mercenário menor e mais fraco. – Não concorda, Sydwel?

O outro mercenário, tão surpreso pela intromissão de Hozar, demorou alguns instantes para lembrar do seu nome e assentir com a cabeça. Com um olhar firme, mas cauteloso, direcionado ao seu companheiro, Hozar disse para Duke voltar ao seu lugar, e apesar de não parecer nem um pouco satisfeito com isso, o Titã acatou. Ele voltou ao canto do qual saiu, mas seus olhos continuaram fixos em Sydwel, atentos a toda ação que ele fazia enquanto seus ouvidos ouviam cada palavra que ele dizia.

— Sim... sim, obrigado por isso Hozar – agradeceu Syd, recompondo-se um pouco antes de voltar a falar. – Bem, eu falei que tenho a perder se me juntar a sua guilda, certo? Permita-me elaborar um pouco mais sobre isso. A sua guilda, até aonde eu sei, é uma guilda que se envolve em bastante problemas. Agora, eu sei o que você vai dizer, sei que vai falar que essa guerra não foi provocada por vocês, e eu concordo com isso, mas se você prestar atenção vai ver que o meu ponto é que vocês se envolvem em problemas. A sua guilda pode não ter provocado ou pedido por nada disso, mas isso não muda o fato de que ela acabou envolvida em toda essa confusão, e vamos lá, o fato da guilda ter cerca de o quê, dois meses, e já ter se envolvido em uma guerra nesse pequeno não é necessariamente reconfortante. E como você provavelmente já sabe bem, eu não sou lá o melhor dos guerreiros. Tenho meus planos e minhas artimanhas aqui e ali que me permitem sair de combates com a cabeça no lugar, as vezes até ganhar alguma luta ou outra, mas eu não sou um monstro como vocês e diria que sou seguramente mais fraco do que qualquer um dos membros atuais da sua guilda. Então, seja sincero comigo: quais você acha que seriam as minhas de continuar vivo se eu me juntasse a vocês?

— Cem por cento. – Respondeu o Deus da Fúria sem um único momento de hesitação.

A forma decidida como Hozar disse aquelas palavras pegou Syd de surpresa, fazendo com que qualquer discurso que ele pudesse ter em mente fosse por água abaixo antes que pudesse sequer tentar usar essa carta. E usando dessa vantagem, Hozar não hesitou em seguir com o seu ponto.

— Você teme pela sua vida, Syd? Pois se teme, devo dizer que a melhor forma de ficar seguro é juntando-se a nossa guilda. Reflita sobre uma coisa: existem três facções que entraram com força nessa guerra: o Salão Cinzento, o Olho Vermelho e a Era Dourada, a minha guilda. Podemos aumentar esse número para quatro facções se contarmos os mercenários que se juntaram a ambos os lados. Agora, quantas dessas facções saíram da guerra sem casualidades, sem que nenhum de seus membros tenha sido morto em combate? Vou te dar a resposta: uma, e só a Era Dourada. Se quiser forçar um pouco você pode contabilizar também o Coração Negro, mas essa guilda só teve quatro membros envolvidos na guerra, e um deles praticamente morreu, tendo de ser reconstruído pelo Rei de Carcino. Agora, outra pergunta: você sabe o porquê da nossa guilda não ter sofrido perdas? Não é porque nós somos mais fortes que os outros grupos, ou por estarmos bem preparados. É porque trabalhamos bem em equipe. Nossas lutas foram travadas individualmente, mas mesmo nessas lutas o nosso trabalho de equipe brilhou, pois elas foram lutas que podíamos vencer individualmente. Quando éramos confrontados por um oponente que podia dar problemas para outros de nós ou colocar todo o grupo em perigo, algum de nós tomava a dianteira para o bem dos outros: Kyanna fez isso no Mercado de Escravos, Teigra fez isso na Mansão Abandonada e Duke fez isso na Batalha do Pandemonium. E mais que isso: durante as batalhas em grupos que tivemos, nós cuidamos uns dos outros. Duke fez o seu melhor para proteger os demais durante o ataque de Dwyn no Torneio de Valhala, aguentando até que eu, Titânia e Lancelot pudéssemos chegar para controlar a situação, e eu também fiz o mesmo durante a Batalha do Pandemonium, fazendo meu melhor para segurar o Juggernaut e impedir que ele pudesse ir atrás de Kastor ou que ele matasse algum dos meus companheiros. Então, se você me pergunta qual é a sua chance de continuar vivo se se juntar a nós, eu lhe respondo sem sombras de dúvidas: cem por cento. Enquanto um de nós tiver vida, Syd, nós não deixaremos um companheiro morrer.

O peso dessas palavras era grande, e a forma como a mensagem foi dita deixou Syd completamente sem graça. Em seus respectivos cantos, Duke e Bryen abriram sorrisinhos enquanto o Campeão dos Covardes coçava seu rosto, encabulado depois daquela resposta.

— Bem, eu... entendo. Mas, ainda assim, você deve concordar que me juntar a sua guilda parece ser algo bem perigoso, certo?

— Sim, de fato. Juntar-se a nossa guilda é perigoso, sim. Mas não somos mercenários? Em guildas ou fora delas, nós vagamos pelo mundo realizando várias missões que frequentemente envolvem confrontos diretos com grupos de soldados ou pessoas particularmente poderosas. O nosso próprio estilo de vida já é perigoso, não concorda? Então, frente a isso a guilda é realmente particularmente perigosa? Eu não acho.

E mais uma vez Syd se sentiu como se ele tivesse lhe dado um tapa na cara com aquela resposta. Simplesmente não sabia mais o que dizer a esse ponto, e foi por isso que decidiu por ficar calado, tentando pensar e organizar seus pensamentos. E quando fez isso, foi a vez de Hozar tomar a iniciativa em falar.

— Eu compreendo quais devem ser os seus sentimentos nesse momento, Sydwel – disse Royes, olhando calmamente para Syd. Ele estava sério, mas não parecia autoritário ou imponente como havia parecido momentos atrás. Agora ele parecia completamente tranquilo. – Você hesita em se juntar a guilda porque tem medo. Medo do que lhe espera no futuro caso faça isso, medo do que pode acontecer se você se juntar a nós. Isso é compreensível, e eu não vou culpar-lhe por ter esse receio, mas ouça o que digo: não há porque temer. Há perigo em ser um membro da Era Dourada, sim, mas por mais que você valorize a sua vida, você não teme o perigo, não de todo. Se temesse, você não continuaria a ser um mercenário. E como eu disse antes, nós conhecemos os seus talentos, sabemos do que você é capaz, e por isso somos capazes de dizer que você não tem o que temer ao nosso lado. Nós não precisamos de alguém que vá pra linha de frente bater de cara com o inimigo: eu e Duke já somos mais do que o suficiente para isso. Não precisamos de alguém que possa usar magias e manter um combate de longa ou média distância, temos Shell e Anabeth e Kyanna para isso, e também não precisamos de alguém que possa ser rápido e preciso, pois Kastor e Bryen lidam bem disso. Não precisamos nem de alguém que possa ser versátil e atuar nas três frontes, pois já temos Teigra pra isso também. O que precisamos é de alguém de mente esperta e raciocínio rápido, alguém que possa bolar táticas e estratégias de batalha e que possa fazer com que nossas habilidades individuais sejam aproveitadas ao máximo. Teigra tem feito isso até agora, mas acho que você e eu sabemos que você seria a pessoa ideal para tal. Por isso temos interesse em você, Sydwel, e em troca da sua competência nos lhe oferecemos algumas coisas. Segurança, estabilidade, fortuna, sim. Tudo isso..., mas mais do que isso, lhe oferecemos companheirismo. Olhando nos seus olhos eu sou capaz de dizer que você é um homem que viu muito do mundo. E sendo assim, você é um homem que deve saber melhor que ninguém que ninguém deve passar por essa vida sozinho.

Ouvir aquele discurso fez com que um sorrisinho se abrisse no rosto de Syd também, tal como o que havia se aberto nos rostos de Duke e Bryen. Esse cara... pode não parecer, mas ele tem um dom maior com as palavras do que você imaginaria. Havia começado a pensar assim nos primeiros momentos em que Hozar havia lhe interrompido com bons argumentos, mas aquilo foi muito além. Em retrospectiva eu consigo ver tudo bem claro. Suas palavras, desde o início... ele estava preparando o solo para o que disse agora. Ele tem preparado o terreno para esse argumento já há um bom tempo. Supunha que a maioria das pessoas se sentiriam irritadas ao se darem conta daquilo..., mas Syd apreciava aquela esperteza, e o último argumento de Hozar... ele havia sido bem convincente.

— Muito bem, muito bem, você conseguiu – murmurou Syd, meneando com a cabeça enquanto coçava seus cabelos. – Eu provavelmente vou me arrepender disso no futuro, talvez quando eu estiver rastejando por baixo de corpos num campo de batalha ou quando estiver dormindo com a cara na lama em uma floresta qualquer, mas... fazer o quê, né? Sydwel Ostrower, o Invicto, oficialmente aceita sua oferta para se juntar a Era Dourada!

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— Você realmente pretende insistir com isso de se separar? – Perguntou Denis, erguendo uma sobrancelha, enquanto via Breath ajeitar o saco de bagagem e suprimentos que ele trazia às suas costas.

— Sim – respondeu o outro, terminando de mexer no saco para depois voltar sua atenção ao seu amigo. – Não me entenda mal, mas isso é o melhor. Eu tenho algumas ideias que quero colocar em prática, mas só que elas... bem, digamos apenas que não são coisas nas quais vocês devem se envolver, sim?

— Quando você fala assim eu não consigo deixar de pensar que você está planejando algo perigoso – murmurou Zetsuko, cruzando os braços abaixo dos seios. – Se você está planejando fazer algo arriscado, fale conosco. Nós já passamos pelo suficiente juntos para confiarmos uns nos outros, não concorda?

— E você está me entendendo mal. Maravilha, não demorou muito para isso – murmurou o mais imprudente do trio mercenário, balançando sua cabeça de forma desolada. – Escuta, eu te garanto que não é nada arriscado. Na verdade, isso é estupidamente seguro até. O problema é.… olha, a questão é que isso é algo custoso para mim, e eu não quero que vocês paguem o mesmo preço que eu, uma vez que isso é completamente desnecessário e é óbvio que vocês não têm a mesma inclinação que eu.

— Sabe, se você está falando na esperança de nos acalmar, está fazendo um trabalho de merda – apontou o mercenário do boné, esboçando um sorriso.

— É, eu sei, mas não é como se eu pudesse falar mais sobre isso. Se vocês soubessem o que eu estou planejando as coisas ficariam bem mais sem graça, e isso sendo otimista e assumindo que nenhum dos dois tente me convencer do contrário, o que provavelmente aconteceria. Vai por mim, é melhor que vocês ouçam o mínimo possível sobre isso. E, Zetsuko, você está certa quanto a confiarmos uns nos outros. Então, posso confiar que vocês dois vão confiar em mim e me deixar fazer isso sem mais perguntas?

A elaboração da frase foi estranha, no mínimo, mas a mensagem foi clara o bastante. Denis e Zetsuko trocaram um olhar rápido, assentiram um pro outro e depois voltaram-se para Breath, assentindo para ele também. O mercenário de cabelos longos respirou aliviado depois disso.

— Bom! Bom... quase pensei que vocês iam me dar uma dor de cabeça com isso – murmurou ele, coçando sua cabeça, subitamente sem graça.

— Ei, você apelou para os nossos laços de camaradagem, isso foi quase que chantagem – reclamou Denis em bons espíritos, mantendo um sorriso no rosto. – De qualquer forma, acho que isso significa que é hora dos três amigos se separarem.

— Ei, espera, como assim? – Agora foi Breath que pareceu surpreso, olhando para os dois como se estivesse assustado. – Vocês não vão viajar juntos?

— Nah, provavelmente não. – Respondeu Denis simplesmente.

— Eu e Denis já conversamos sobre isso antes e tomamos uma decisão. Se não fossemos viajar os três juntos, iriamos ir cada um pro seu próprio lado. Se fossemos apenas dois, iriamos acabar sentindo falta do terceiro; é mais fácil viajar sozinho do que em duplas, nesse caso.

Breath não disse nada em resposta aquilo, mas seu semblante se fechou. Por mais que ele estivesse calado, Denis e Zetsuko conheciam o mais novo dos três o suficiente para saber que ele estava começando a se sentir culpado, e esse não era um sentimento que eles queriam provocar. Por isso, no momento em que se deram conta disso, eles tentaram intervir; Denis abriu sua boca para falar, mas antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, Zetsuko passou na sua frente.

— Ah, sim, eu já estava me esquecendo disso!

Tanto Denis quanto Breath ergueram uma sobrancelha ao ouvirem aquela frase estranha, mas nenhum dos dois teve tempo de fazer nada. Usando de sua habilidade ela surgiu na frente de Breath subitamente, e aproveitando-se do elemento surpresa ela esticou suas mãos e segurou o rosto do mercenário para logo em seguida beijá-lo.

Os olhos de Denis se arregalaram ao ver aquilo, embora isso não fosse nada se comparado ao que aconteceu com os de Breath. Estes se arregalaram de forma quase que cômica, como se a qualquer momento pudessem criar pernas e sair correndo, e o corpo dele amoleceu visivelmente como se fosse manteiga derretida. Pelo que Denis podia ver, parecia que tudo que o sustentava agora era a mulher lhe beijando, e isso se provou verdadeiro quando ele quase caiu de cara no chão quando ela se afastou.

— Quando eu te conheci, pensei que você era só um babaca irritadinho, mas acabou que você se provando um cara legal – disse ela, sorrindo e piscando para ele. – Espero te ver de novo!

E do nada, sem dar a chance para que ele pudesse dizer qualquer coisa, ela abriu um segundo portal e saltou para dentro dele, desaparecendo de vista. Breath ainda ficou com aquela mesma expressão surpresa e embasbacada de antes por alguns segundos, antes que uma expressão de fúria dominasse seu rosto.

— Esse... esse... esse foi o meu primeiro beijo! Essa filha da puta roubou o meu primeiro beijo! — Para um homem que havia acabado de ser beijado por uma linda mulher, Breath parecia tremendamente furioso, embora isso parecesse mais causado por uma frustração em não saber o que fazer do que qualquer outra coisa. – E quem raios essa mulher pensa que é? Me beija e sai correndo? Vai pro inferno! Eu vou chutar a sua bunda da próxima vez que nos encontrarmos, Zetsuko! Você me paga, mulher!

Sentiu vontade de rir diante daquilo, mas sabia que isso iria chamar a fúria de Breath para ele, e por isso fez força para se conter. Ah, é bom ver que por mais estranho que ele esteja falando, Breath ainda é Breath. Com um sorriso nos lábios Denis girou nos calcanhares, e com seu rosto protegido da luz do sol pelo seu boné, ele avançou em direção ao horizonte, acenando por cima do ombro para seu amigo que, na ação mais clássica possível de Breath, continuou a xingar o nada.

=====

— Um membro do Olho Vermelho... como um novo membro da nossa guilda? – Se a expressão quase caricaturada de Duke com uma sobrancelha erguida e o maior olhar de “isso vai dar merda” que Kastor já havia um dia visto não fosse o suficiente para indicar o que ele pensava daquilo, o tom exageradamente cético dele deixava tudo bem claro. – Kastor... eu sempre soube que você tinha merda na cabeça, mas sério, você acha que isso é uma boa ideia?

Suspirando em busca de paciência, o cavaleiro azul assentiu lentamente com sua cabeça. Ele sabia desde o início que os outros não iam ficar muito satisfeitos com aquilo, então supunha que não podia reclamar de verdade, mas ainda era frustrante imaginar que teria de lidar com todas aquelas reclamações. Pelo menos o mais novo companheiro em questão ajudava com isso; se tinha algo que ninguém podia reclamar de Cleus era que ele caçava encrenca. Agora, enfiado em uma armadura azul como a de Kastor (embora inegavelmente mais completa e pesada) e armado novamente com sua arma ancestral, ele poderia facilmente refutar qualquer comentário com agressividade, mas ao invés disso ele mantinha uma postura tremendamente humilde, aceitando cada crítica de cabeça baixa e deixando que a pessoa expressasse seu desgosto pela ideia de tê-lo ao seu lado, levantando a voz pouquíssimas vezes em sua defesa. Não sabia se isso era motivado por algum sentimento de culpa ou por ele saber que falar só complicaria ainda mais sua situação, mas isso facilitava um pouco as coisas para Kastor, e por isso era grato.

— Sim, eu acho que isso é uma boa ideia – respondeu Strauss, passando a mão pelos cabelos e jogando alguns que caiam sobre sua testa para trás. – Ele nos ajudou durante a batalha, Duke, e sua ajuda foi tremendamente útil. Ele fez parte do Olho Vermelho, sim, mas está arrependido e quer se redimir ao nosso lado. Acho que ele já fez por merecer essa segunda chance.

O Titã ouviu aquilo, olhou para Cleus, meneou com a cabeça para lá e para cá, e por fim assentiu.

— Muito bem, se você diz.

Dizer que ficou apenas surpreso com aquilo seria uma atenuação estrondosa.

— “Muito bem”? Só isso? Você não vai criticar minha decisão, me chamar de louco, falar que isso é estúpido e que eu estou sendo idiota ou alguma coisa do tipo?

— Eu deveria? – Perguntou Duke, arquejando novamente uma sobrancelha. – Pode não parecer, mas eu respeito sua liderança. Você nos guiou até aqui bem, e por mais que eu já tenha questionado algumas decisões no passado, as coisas sempre deram certo. Então decidi que vou parar de te questionar tanto assim. Não vou pular atrás de você se te der na ideia de se jogar de um penhasco, mas não vou ficar procurando falhas em cada decisão que você fizer. Você já se provou mais do que o suficiente para não precisarmos disso, meu amigo.

Aquele pequeno discurso foi algo que surpreendeu Kastor, e também algo que alegrou seu coração. Uau... isso é.… eu não acho que já fui elogiado assim muitas vezes. Era... gratificante ouvir algo como aquilo, e pelo que parecia a sua reação foi notada pelos demais, pois Duke logo sorriu com satisfação antes de se afastar. Foi só depois que ele se foi e Kastor voltou sua atenção para os outros que ele se deu conta de uma coisa: aquele elogio não havia sido dito apenas para ser um elogio. Ele havia sido também uma indireta para os demais membros da Era Dourada. Teigra, Bryen, Kyanna, Anabeth, Hozar, Shell, até o mais novo recruta, Syd.... todos eles pareciam ter algo a falar antes, mas agora eles pareciam incertos, como se não tivessem certeza de que suas dúvidas eram realmente bem fundadas. Duke... você é um maldito gênio, seu pervertido de marca maior! Sentia que com aquelas palavras Duke havia lhe poupado um monte de trabalho, e isso fez com que um sorriso se abrisse nos lábios de Kastor.

— Bom, mais alguém tem alguma coisa a dizer? – Questionou ele, apontando para Cleus. Fazia aquilo mais porque tinha de fazer do que tudo: sabia que não podia deixar que os outros se sentissem ignorados, mas também não tinha vontade de ficar respondendo às mesmas questões de novo e de novo, e por isso torcia em segredo para que ninguém falasse nada. – Mais alguém tem alguma coisa contra Cleus se juntar à guilda?

Esperou por um momento, e nada. Mais um momento e o nada continuou. Foi só no terceiro momento, quando estava prestes a dar aquilo por encerrado, que Shell falou alguma coisa... e para a sua mais absoluta frustração, aquilo foi algo positivo.

— Eu não tenho nada contra a entrada dele na guilda – comentou o mago de gelo, meio que cobrindo um bocejo com a mão enquanto falava com olhos cansados. – Pelo que eu pude ver quando estivesse sobre o comando de Balak, ele é o mais moral e consciente dos membros do Olho Vermelho. Me parece bem mais que a questão dele é “andar com a companhia errada” do que ser mal por si mesmo ou coisa do tipo. Ele não fará mal na guilda.

— Eu concordo com Shell – disse Anabeth em seguida, gesticulando com sua mão enquanto falava. – Eu posso ser um pouco tendenciosa já que ele me ajudou, mas Cleus parece uma boa pessoa, então acho que estaremos bem com ele. Além do mais, não machuca em nada o fato dele ser bonitão.

— .... Ei, espera aí, eu pensei que eu era bonitão? – Questionou Shell, voltando-se para ela, que em resposta deu uma piscadela travessa para ele.

— Ah, não fique com ciúmes, Shell. Você é bonitão. Só ocorre que ele é mais – respondeu a ruiva.

— .... Kastor, eu gostaria de mudar meu voto. Acabei de perceber que Cleus é meio otário. Voto por ele não se juntar a guilda – disse Shell, voltando-se agora para o azul. O cavaleiro não pode deixar de suspirar novamente perante aquilo.

— Bem, eu não tenho nada contra ele se juntar a guilda – manifestou-se Kyanna, olhando bem para Cleus por alguns segundos antes de abrir um de seus sorrisos amigáveis. – Ele pode ter sido um membro do Olho Vermelho, mas olhando para o seu rosto agora eu não consigo vê-lo como nada mais do que um bom homem. Ele vai se encaixar bem conosco.

— Também sou a favor dele na guilda – disse Teigra, surpreendendo um pouco Kastor, que esperava que ela assumisse uma postura contra. – Ele não me parece estar mentindo... e se sendo parte da guilda ele pode nos sabotar internamente e agir como um espião, nós também podemos manter uma vigilância maior sobre ele. Como diz aquele ditado, “mantenha seus amigos por perto, e seus inimigos mais perto ainda”.

— Eu sou contra isso – retrucou Hozar, não parecendo muito satisfeito com tudo aquilo. – Nós já aceitamos Shell na guilda, e ele não é necessariamente confiável. Não podemos esperar que a guilda continue a funcionar bem se continuarmos a aceitar pessoas nas quais não podemos confiar.

— Mas, err, se me permite, eu diria que podemos confiar nele – manifestou-se Syd, parecendo um pouco intimidado e fora de lugar entre todos aqueles monstros, mas ainda confiante o suficiente para manifestar sua opinião com certa segurança. – Talvez vocês não saibam disso, mas eu conheço Cleus um pouco de encontros que tivemos antes dele se juntar ao Olho Vermelho. E durante a Batalha do Pandemonium eu presenciei o momento em que ele abandonou o Olho Vermelho. Isso pode parecer um pouco difícil de acreditar, mas eu realmente acho que ele se arrependeu de ter se aliado ao Olho em primeiro lugar, e eu acredito piamente que ele vai manter a lealdade a guilda se se tornar um de nós. Então... err, eu não sei se um novato como eu tem direito ao voto, mas se tenho, eu sou a favor.

— Eu, por minha vez, sou contra – murmurou Jane, a cachorra falante estranha Syd, sentada ao seu lado de forma pomposa... o que era um tanto quanto estranho, considerando que estava falando de uma poodle. – Você pode ter seus motivos para querer Cleus na guilda, Syd, mas devo lembrar-lhe que esse é o mesmo homem que quase me torrou viva. Talvez eu esteja parecendo um pouco amarga, mas não acho que eu gostaria de fazer parte de uma guilda, ainda que indiretamente, que tem ele em meio aos seus membros.

— E eu sou contra, por motivos que já apresentei antes – disse Titânia, cruzando os braços e lançando um olhar afiado para Kastor. – Eu não vou ficar reclamando se ele acabar se juntando, mas não vou dizer também que sou a favor disso. Na minha opinião, ele ainda devia estar preso.

— Já eu tenho que discordar, Tit – desculpou-se Lancelot. – Deixar Cleus preso não ia fazer nada. Literalmente. Ele apenas iria ficar definhando lá, sem que nada acontecesse, sem que nada seguisse em frente. Devemos tomar uma decisão em relação a ele, e eu acredito que a melhor decisão seja fazer dele um membro da guilda. Todas as pessoas merecem uma segunda chance, e sendo um membro da guilda e estando diretamente sobre nossa influência, podemos assegurar que a influência dele será positiva. Então, meu voto é a favor.

— Você está sendo idealista demais – apontou Bryen, dirigindo suas palavras tanto a Lancelot quanto a Kastor. – Não há nada de errado em querer ver o melhor nas pessoas, mas isso começa a ser problemático quando o seu desejo de ver algo de bom nelas sobrepuja o seu bom senso. Cleus é um criminoso que esteve recentemente atuando como parte de uma guilda criminosa que tentou nos matar diversas vezes. Tudo bem que ele a traiu, mas isso não é uma carta de anistia. Os pecados dele não são apagados pelo fato dele ser um traidor, e, recordo-lhes, um traidor não é nenhuma criatura louvável. Você não recompensa um traidor; você corta a cabeça da cobra antes que ela possa picar mais alguém.

— Há uma lógica por trás disso, ruivinha, mas você está sendo um pouco exagerada, não acha? – O tom de Duke era casual enquanto falava, despreocupado, tal como a postura relaxada dele com as mãos atrás da cabeça sugeria. – Você fala como se ele estivesse sendo um rato traiçoeiro que abandonou o navio quando viu que as coisas começavam a ficar ruins ou como se ele tivesse traído o Olho Vermelho por ver oportunidades melhores do outro lado. Mas pelo que nosso amiguinho Syd parece sugerir, ele traiu o Olho Vermelho porque discordava deles, o que é um motivo muito mais simpático do que qualquer um dos outros. E bem, como eu disse antes, eu já discuti bastante sobre decisões assim antes e nós sempre nos saímos bem mesmo assim. Acho que se Kastor está querendo que ele se junte à guilda, ele tem um bom motivo pra isso, então devemos deixar que ele se torne um de nós. Então, meu voto é a favor.

— Muito bem, então, vamos lá: antes de efetuarmos uma contagem, alguém aí quer mudar seu voto? – Estava tentando organizar aquilo afim de garantir que aquele processo fosse o mais rápido e diplomático possível, e por isso deu algum tempo para que eles pensassem. Alguns de seus companheiros olharam uns para os outros, outros cochicharam com alguém que estava ao seu lado, mas no fim das contas, todos balançaram suas cabeças negativamente. – Ótimo. Então, fazendo uma contagem simples do voto, temos que Bryen, Hozar, Jane e Titânia são contra Cleus se juntar à guilda...

— E eu! – Gritou Shell.

— Vai tomar no cu – respondeu Kastor sem perder a linha. – Então, temos que Bryen, Jane, Hozar e Titânia são contra Cleus se juntar à guilda. Quatro votos. Ao mesmo tempo temos que Anabeth, Kyanna, Duke, Syd, Lancelot, Teigra e eu somos a favor de que ele se junte à guilda. Sete votos. Desconsiderando o voto de Shell por motivos dele ser um idiota com cubos de gelo no lugar de cérebro ou não, temos uma resolução clara, não concordam?

Os dez companheiros que lhe ouviram assentiram com a cabeça – alguns com mais entusiasmo do que os outros, obviamente. Notou que Hozar, Jane e Bryen em particular pareciam insatisfeitos com o resultado, e fez uma anotação mental para falar mais com eles sobre aquilo depois, mas não deixou que isso o impedisse de se voltar para Cleus.

— Então, agora é oficial. Seja bem-vindo, Cleus Jombaek. Você agora é oficialmente um membro da Era Dourada.

A reação do homem aquilo seria algo que Kastor quase chamaria de neutra, se não estivesse tão próximo dele. Para os outros ele provavelmente tinha aparentemente apenas assentido levemente com a cabeça antes de dar um passo à frente, mas Kastor estava perto o suficiente para ouvi-lo murmurar “graças aos Deuses” em um tom aliviado, e isso foi o bastante para que o cavaleiro azul soubesse que ele estava se contendo.

— Obrigado, Kastor. E obrigado a vocês, que eu chamo agora de companheiros – disse Jombaek, dirigindo-se ao pequeno grupo que o cercava. – Eu agradeço a confiança que colocaram em mim, e prometo não os desapontar. Aqueles que estão inseguros quanto a mim, quero deixar claro que não lhes culpo por isso e que não pretendo deixar essa insegurança impactar no relacionamento que desenvolveremos. Eu irei provar a minha lealdade de forma a eliminar toda a insegurança, e depois irei provar o meu caráter e o homem que eu sou de forma a conquistar a amizade de vocês: essa é uma promessa que eu faço. Meu passado é cheio de pecados, mas vejo na Era Dourada uma chance de redenção, e vejo o meu futuro ao lado de vocês. Não irei desapontá-los, eu prometo.

Assentiu em concordância a isso e caminhou em frente também, batendo nas costas de Cleus ao passar por ele. Quando falou, Kastor não direcionou suas palavras a apenas um ou outro, mas sim a todos.

— De qualquer forma, sem mais sobre isso. Essa noite não é para conflitos. Essa noite é para comemorações! Pessoal, depois de tanto tempo, de tanta luta, de tanto esforço, nós finalmente ganhamos! O Olho Vermelho foi derrotado! A guerra está acabada! As batalhas chegaram ao fim! Depois de todas as nossas provações, podemos enfim pousar nossas cabeças tranquilamente em nossas camas, e isso é uma conquista, uma conquista de cada um de nós! Desde os que estão aqui desde o início como Hozar, Bryen e Kyanna, aos que se juntaram mais recentemente como Syd, Cleus, Lancelot e Titânia, todos nós somos responsáveis por isso! Todos nós contribuímos para essa vitória e, portanto, todos nós somos vencedores!

Ergueu um punho ao céu, sorriu, e então o abriu. Com sua habilidade, Kastor fez com que uma dúzia de barris de cerveja e vinho, bem como mesas, cadeiras, talheres e pratos deliciosos surgissem espalhados pelo grande espaço do armazém que o Salão Cinzento havia cedido para que servisse como sede temporária da sua guilda na cidade. Graças aos seus poderes tudo havia surgido já perfeitamente organizado, fazendo com que o que antes era apenas um espaço vazio se transformasse num verdadeiro salão de banquetes, com velas iluminando todos os cantos e uma organização impecável, digna de um buffet. Na sua mão agora aberta surgiu um caneco já cheio de cerveja, já preparado, e com um gesto ele indicou para que os outros fizessem o mesmo. E a medida que eles iam levantando e abrindo suas mãos, canecos também surgiam nas mãos de cada um de seus companheiros.

— Essa é uma noite em que iremos festejar! No futuro que nos espera eu tenho certeza de que encontraremos muitos desafios, muitas aventuras e muitas emoções! A Guerra das Guildas vem daqui há alguns meses, e certamente iremos participar dela, onde nos envolveremos em muitas lutas! Mas sabem o que mais? Nós vamos ganhar! Não importa o que aconteça, não importa qual seja o nosso oponente, nós iremos vencer! Porque nós somos bons, nós somos fortes, e mais do que tudo, nós estamos unidos! A nossa força individual somada a força dos nossos laços faz com que sejamos mais fortes do que qualquer um, e é por isso que nunca iremos perder! Então, um brinde, eu digo! Um brinde a nós! Um brinde à nossa união! Um brinde às vitórias do nosso passado, e um brinde às glórias do nosso futuro! Um brinde... À ERA DOURADA!

Ao soar daquelas palavras, não teve discussão. Independentemente de suas personalidades, independentemente do modo cama um podia pensar, todos agiram como um só. Cada homem e mulher (e cachorra, no caso de Jane) que estava ali ergueu sua respectiva caneca, e ao mesmo tempo, todas elas se encontraram. As canecas bateram umas nas outras, e em completa sincronia, um único grito veio daquele armazém.

À ERA DOURADA!





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