O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 128
Misericórdia ou Inclemência


Notas iniciais do capítulo

LEIAM AS NOTAS FINAIS!

Valeu o/



— TCH... Parece que eu cheguei tarde demais. – Apesar das palavras que o compuseram, o comentário não veio com nenhum sentimento de aborrecimento, mas sim de admiração. – Quem diria, hein? Eu pensei que ia sobrar um pouco para mim, mas parece que subestimei esses cavaleiros.

De pé logo depois da porta de entrada do Quinto Andar do Pandemonium, Jiazz ainda trazia ferimentos. Metade de seu rosto estava desfigurada, queimada até que o osso ficasse visível, e um rombo na parte esquerda de seu peito sugeria que o punho de alguém havia perfurado e queimado a sua carne por dentro. Dois dos dedos da sua mão direita estavam completamente negros, queimados até serem carbonizados, mas nada disso lhe incomodava. Suas chamas douradas estavam agindo, e ele sabia o suficiente sobre elas para ter certeza que estaria completamente curado em questão de minutos, e a dor... já havia sofrido mais do que o suficiente na sua vida para que tivesse uma tolerância a dor que ia bem mais além dos limites do “inumano”.

— Aquele Cinzento não se saiu tão bem quanto seu pai, mas não ficou muito longe. Ele tem futuro – comentou o Juggernaut, observando maravilhado a forma como o cavaleiro e o mago caiam dos céus. – E esse azulzinho aí... quem imaginaria que Balak seria derrotado um dia, ainda mais por alguém como ele? Demônio ou não, esse é um feito impressionante. Nem eu consegui derrotar esse bastardo teimoso quando nos enfrentamos.

Uma gargalhada veio da sua garganta, e não demorou muito para que Jiazz girasse nos calcanhares, virando-se novamente em direção a porta.

— Bom, agora que essa luta acabou, eu imagino que a guerra também tenha chegado ao seu fim – comentou ele abertamente, sabendo que não havia ninguém por perto para lhe ouvir. – Isso significa que é hora de eu me apressar. Ainda tenho algumas coisinhas a fazer aqui.

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Assim que seus pés tocaram o chão, Kastor imediatamente tratou de desativar o Mach 5, e imediatamente ele caiu de joelhos, quase batendo de cara no chão já que tinha braços com os quais se sustentar. Isso... nunca, nunca mais volto a fazer isso de novo! Era praticamente descrever – ou sequer racionalizar – a sensação que havia sentido com o uso desse Mach. O êxtase de estar me movendo tão rápido e golpeando meus inimigos com tanta força é uma coisa, mas os efeitos colaterais... diabos, eu senti como se meu corpo pudesse se arrebentar com cada movimento que fiz. E mesmo com todo o êxtase que tinha em bater em Balak com toda aquela força, a dor gritante que sentiu quando seus braços explodiram foram o suficiente para fazer com que ele quisesse simplesmente parar e espernear em dor, embora de alguma forma tenha conseguido ignorar essa vontade em meio ao calor da batalha.

Não demorou muito para que suas habilidades regenerativas começassem a agir, e logo duas estruturas ósseas vieram dos buracos onde antes ficavam seus braços, para logo em seguida começarem a ganhar forma com carne, músculos e nervos que começavam a ser criados, recriando completamente os braços perdidos. A sensação disso foi tão doce e reconfortante que ele não pode deixar de suspirar em alívio, erguendo suas novas mãos diante do seu rosto para certificar-se de que elas estavam realmente ali. Quem quer que seja o idiota que disse que os homens se acostumam com tudo certamente não experimentou a sensação de perder um braço. Era verdade que a regeneração agora não lhe surpreendia tanto quanto nas primeiras vezes, mas perder uma parte do seu corpo – principalmente no meio de uma luta, fazendo algo que você sabia que ia te custar esse membro – não era algo com o qual alguém pudesse simplesmente “se acostumar”.

— Eu diria que me pergunto o que está passando pela sua mente agora... – começou uma voz fraca, mas ainda arrogante e zombeteira, antes de suas palavras serem interrompidas por uma crise violenta de tosse. A crise durou apenas o bastante para que Kastor pudesse virar seu rosto na direção daquela voz, a tempo de olhar no rosto daquele homem enquanto ele terminava de falar. – Mas... eu não posso dizer que me importo com os pensamentos de um idiota.

Balak estava horrível. Seus olhos estavam mais avermelhados do que antes, como se tivesse jogado pimenta neles, sangrando violentamente e parecendo inchados como se pudessem explodir a qualquer momento. Sangue também cobria a área ao redor da sua boca, cortesia do último soco de Kastor, mas o que era realmente marcante era o corte em seu peito. No calor da batalha Kastor não tinha tido a chance de realmente apreciar seu golpe, mas agora podia ver que aquele era um corte profundo, que vinha da extremidade inferior esquerda do estômago de Balak até o topo do seu ombro direito em um rastro vermelho que sangrava sem parar. Um corte assim... eu devo ter cortado algumas veias, e pelo menos um pulmão. Aquela ferida era algo que a maioria das pessoas iria considerar uma sentença de morte, mas Kastor não era tão ingênuo; uma pessoa normal não sobreviveria depois daquilo, mas uma pessoa normal também não sobreviveria depois de uma queda como aquela, e no entanto, lá estava ele. Para um mago, Balak é com certeza anormalmente durão. Com suas magias e a sua resistência, não duvidava que o Tecelão fosse capaz de se cuidar e sair daquela com viva.

Mas isso, claro, só se Kastor deixasse.

— Heh, esse olhar nos seus olhos... eu estaria correto em dizer que você está pensando no que fazer agora, Strauss? – O comentário veio acompanhado de o que tentava passar por um sorriso divertido, mas as feridas e a clara dor que Balak sentia arrancavam qualquer coisa que pudesse fazer o cavaleiro levar aquilo a sério. – Bom, permita-me lhe ajudar um pouco, hum? Me mate de uma vez. É isso que você quer fazer, não é?

Aquilo fez com que Kastor erguesse uma sobrancelha, e embora ele tenha mantido a compostura, isso fez sua mente começar a fervilhar. “Me mate de uma vez”? O que ele pensa que está fazendo? O que ele tem a ganhar com isso? Seus olhos correram rapidamente pelo ambiente ao seu redor, fazendo com que Balak gargalhasse um pouco com dificuldades, mas não achou nada, nenhum sinal de uma possível armadilha. Isso é estranho, estranho e suspeito demais. Não faz sentido que ele esteja me incentivando a lhe matar. Não a menos que ele tenha algum plano com isso? Decidiu por manter a cautela, e ao invés de acatar a sugestão de Balak, o que ele fez foi dirigir a palavra ao mago.

— Criou desejos suicidas subitamente, Hauss? Isso não parece do seu feitio – disse Kastor, mesmo enquanto usava seus poderes para invocar uma nova espada para ele... embainhada e presa ao seu cinturão. Pousou a mão sobre a empunhadura dela e começou a andar, mas não em direção a Balak: ainda não estava seguro de que não havia uma armadilha escondida em algum lugar por ali, e foi por uma dessas que procurou, mesmo enquanto falava. – O que te faz desejar a morte? Você nunca me pareceu depressivo.

— Não é só a depressão que faz as pessoas desejarem a morte, cavaleiro. Existem várias situações que fazem com que uma pessoa possa desejar que uma espada atravesse seu coração. Como, por exemplo, quando você está com as costelas quebradas depois de uma queda de mil metros de altura, com seus olhos inchados como se pudessem explodir, um corte enorme no peito e sangue fluindo para fora de você como se fosse um porco no abate.

— Não seja dramático agora, nós dois sabemos que você está contornando a questão com isso. Dor ou desespero podem fazer com que alguém prefira morrer do que viver, sim, mas a mente deve ser mais vulnerável ou a situação deve ser extrema para levar a pessoa a esse ponto, e nós sabemos que a sua mente é forte, tal como sabemos que você é mais do que capaz de sair dessa com vida se eu não fizer nada contra você. Então, essa desculpinha não vai colar.

— Ho.… olha lá, parece que o idiota não é tão idiota assim quando quer. Que interessante. – Os olhos vermelhos de Balak estavam até então observando Kastor, mas então eles se ergueram. Eles olharam para o céu, até então negro, que começava a esclarecer, e depois de algum tempo o mago voltou a falar. – Diga, cavaleiro... por que eu perdi? E antes que você venha com algo assim, não quero ouvir uma justificativa porca como “porque você estava do lado errado” ou “porque eu luto por meus amigos”. Por que eu perdi? Eu usei um Geas para me fortalecer, um contrato com o mundo. Independentemente do quão forte você possa ser, isso deveria ter sido o suficiente para garantir a minha vitória. Então como as coisas acabaram assim?

— Como eu deveria saber? Essa é uma habilidade sua: você que deveria ter condições de responder perguntas como essa – retrucou Kastor, lançando um olhar aborrecido ao mago. Eu acabei de me certificar disso – não há nenhuma armadura aqui. E esse parece ser ele mesmo, e não uma espécie de clone como o que enfrentamos antes. E com essas perguntas... isso fica mais estranho a cada minuto que passa. Ainda não estava totalmente certo do que deveria ser aquilo ou do que exatamente estava acontecendo, mas sentia que deveria continuar jogando aquele joguinho de Balak, mesmo que não entendesse bem o motivo dele. – Mas... se fosse para dar a minha opinião, baseado no que sei, eu diria que existem duas hipóteses.

Disse aquilo e esperou, aguardou pelo comentário sarcástico de Balak. Ele nunca veio, e isso fez com que sua sobrancelha se erguesse novamente. Muito bem, isso já está passando do “ligeiramente estranho” para “estranhamente perturbador”. Podia não conhecer o mago pessoalmente a muito tempo, mas pelo que havia vido em sua luta com ele, Balak parecia alguém bem arrogante e jocoso, sempre pronto para zombar de alguém. Imaginou que ele iria fazer alguma troça ao ouvir que Kastor tinha a ideia ousada de falar com ele sobre a sua habilidade, mas não foi isso que aconteceu. Quando se voltou para o mago ele estava olhando na sua direção com um olhar atento, em sinal de que ele realmente estava interessado em ouvir o que Kastor tinha a dizer, e dizer que isso era bizarro para o cavaleiro era pouco. Bem... eu realmente não esperava por essa, mas... tudo bem. Vamos ver aonde é que isso vai nos levar.

— Primeira hipótese: até aonde eu sei, a sua Aloeiris funciona de forma a estabelecer um contrato com o mundo em que a oferenda e o pagamento são feitos simultaneamente. Ou seja, ao mesmo tempo que o ofertado é “cobrado”, você recebe o que está “comprando”. Baseado nesse princípio, o seu Geas não funcionaria: se você recebe o que compra ao mesmo tempo que isso é cobrado de você, você morreria no momento em que ganhasse o aumento de força, o que faria com que você acabasse não conseguindo lidar comigo e com Ekhart, o que significaria que o contrato não seria completo e que, portanto, o mundo não poderia tomar a sua vida. Em outras palavras, o seu contrato estabeleceria um paradoxo interno que faria com que ele não pudesse acontecer em primeiro lugar.

— Uma hipótese interessante, mas errada – apontou Balak ao fim da fala de Kastor, em um tom surpreendentemente neutro para alguém que falava normalmente com tanta arrogância. – Embora o Geas muitas vezes se desenrole com ambas as partes executando a “troca” simultaneamente, isso é apenas porque normalmente é possível que ambos ocorram simultaneamente. O Geas pode se adaptar dependendo das necessidades; desde que eu possua o que estou ofertando, eu posso criar um Geas, e caso eu precise disso que estou ofertando por algum tempo para receber meu “pagamento”, então o mundo espera até que eu obtenha esse pagamento para então tomar o que é dele por direito. Além do mais, eu notei um aumento bem significativo de poder depois que fiz o Geas, significativo demais para que fosse apenas impressão. O aumento de poder certamente ocorreu, o que significa que o contrato não foi anulado por um paradoxo interno como você sugere.

— É, eu pensei nisso. E é isso que nos leva a segunda hipótese: a sua vida não vale tanto quanto você pensa que vale.

Parou novamente ao dizer isso, já preparado para ouvir um insulto em resposta, mas Balak apenas continuou olhando para ele. Hã? Sério, nada? Mesmo depois disso? Pegou-se tentando entender o porquê de Balak estar agindo daquela forma estranha, mas não teve muito tempo para isso, pois o mago logo se mostrou impaciente.

— Sabe, Strauss, quando se começa a falar de alguma coisa importante com alguém, é cortesia comum não cortar a mensagem pela metade.

— Eu não “cortei pela metade” tanto quanto deixei que você ligasse os pontinhos, mas já que você parece querer que eu te dê os detalhes, assim será. Outra coisa que eu sei sobre a sua habilidade é que ela se baseia em um princípio de “troca equivalente”. O mundo não trapaceia em seus contratos, e você também não pode trapacear. Se você tentar obter uma determinada coisa com uma oferenda cujo valor não é equivalente ao que você quer obter, o contrato não é terminado e ninguém consegue nada. Em outras palavras, o mundo avalia o que você quer e avalia o que você está oferecendo para ele, para só então fechar o contrato. Quando você fez o seu Geas oferecendo a sua vida em troca de poder, o mundo respondeu ao avaliar o valor da sua vida e, a partir dessa avaliação, determinar a quantia de poder correspondente ao valor dela. Esse poder foi entregue a você, proporcionando o seu aumento de poder, mas como demonstrado pela sua derrota agora, ele não foi o suficiente. Você precisaria de mais poder do que a sua vida vale para me derrotar, o que significa que o contrato se tornou inválido. Em outras palavras... a sua vida foi uma oferenda pequena demais para o que você queria conseguir.

Aquilo foi finalmente capaz de arrancar alguma reação de Balak. Os olhos inchados dele se esbugalharam tanto quanto podiam e sua boca se abriu para falar alguma coisa, mas som nenhum veio. Ele havia chegado a levantar sua cabeça do chão para dirigir a palavra a Kastor, mas lentamente essa voltou a pender para trás até repousar novamente sobre os escombros abaixo dele.

— Eu... entendo o seu ponto – murmurou o mago em uma voz muito mais baixa do que a que estava usando até então, algo que não soou muito mais alto do que um sussurro aos ouvidos de Kastor. – Suponho que eu devia ter imaginado que algo assim iria acontecer. Demônios ancestrais são conhecidos por serem criaturas muito poderosas, e o meu poder nunca foi meu trunfo. Versatilidade, conhecimento e inteligência... foram nesses atributos que eu baseei a minha força e foi com eles que conquistei tudo que tenho. Para ser derrotado depois de os deixar de lado em prol de poder puro... eu suponho que isso não é nada mais do que irônico, não concorda?

Uma gargalhada fraca veio de Balak, e Kastor não se juntou a ela. Ele está zombando de si mesmo. E criticando a si mesmo. Acho que estou começando a entender o porquê dele ter dito o que disse antes. Não havia visto nenhuma armadilha nem nada que pudesse sinalizar que Balak tinha alguma armadilha preparada, e agora que via aquilo... era até que um tanto fácil chegar a uma conclusão, mas mesmo assim Kastor queria uma confirmação.

— Você ainda não me respondeu – disse ele, um momento após o mago fechar seus olhos. Uma expressão aborrecida ganhou o rosto do Tecelão, antes dele abrir novamente os olhos e direcionar seu olhar ao cavaleiro. – Por que você disse aquilo antes? Por que sugeriu que eu te matasse? Criou algum desejo suicida recentemente, Balak?

— Desejo suicida? .... Não, não tenho nenhum. Não sou tolo o bastante para tirar minha própria vida. Mas o fato de eu não querer me matar não significa que quero viver também.

— Não quer viver? – Repetiu Kastor. – Isso significa que você quer morrer?

— Não vá colocando palavras na minha boca, Strauss. “Não querer viver” e “querer morrer” são coisas completamente diferentes. Apesar de que, francamente.... eu não me importo. Viver ou morrer, tanto faz um quanto o outro para mim, a essa altura. – A medida que ele falava, a voz de Balak ia mudando. Quando ele havia começado toda aquela conversa, sua voz tinha sido como a que Kastor conhecia bem: arrogante e zombeteira, cheia de sarcasmo e um ar de superioridade. Depois ela se tornou mais neutra, mais solene, fazendo com que o humor e a arrogância desaparecessem e com que o Tecelão parecesse alguém sério, dez anos mais velho. Agora... agora ele aparentemente tentava disfarçar, mas Kastor conseguia sentir um som de perdição em meio a ela. Algo quebrado, sem fogo, sem vida. A voz que você esperaria de alguém que simplesmente não se importa com mais nada e se arrasta pelos dias, um após o outro. – Eu não sei se você compreende isso Strauss, afinal de contas você parece estar sempre ocupado demais olhando para o próprio umbigo para ver o todo, mas eu não tenho muito mais porquê viver. Essa derrota me custou tudo, absolutamente tudo. Meus companheiros devem estar mortos a essa altura, e perder para você aqui significa que, no fim das contas, eu não consegui alcançar o objetivo no qual dediquei os últimos anos da minha vida. E mesmo considerando que eu de alguma forma consiga sair vivo daqui, não é como se as coisas fossem melhorar. O Salão Cinzento nunca vai me perdoar pelo que fiz contra os cavaleiros, e o Colégio Branco também não vai deixar a forma como arrastei o nome dos magos pela lama sair barato. Não deve demorar para que eles revoguem o meu título e enviem seus Inquisidores atrás de mim. Mesmo que eu saia vivo daqui o que me espera é uma vida de cão, fugindo por aí enquanto sou caçado até o dia da minha morte.

— Você fala como se você fosse uma vítima disso tudo – resmungou Kastor, sentindo-se levemente irritado pela forma como Balak estava falando de si mesmo. – Tudo isso são coisas que você causou com suas próprias mãos.

— E essa é mais uma coisa com a qual irei ter de conviver: a culpa. Obrigado por me lembrar dela, cavaleiro – disse Balak, voltando a adotar um leve tom de ironia em sua voz, embora seu sorriso ainda tenha sido seco. – Isso tudo deve deixar bem claro para você o porquê de eu não estar lá muito preocupado com viver ou não a essa altura, Strauss... embora, por favor, não confunda as coisas. Eu não estou te sugerindo que me mate para me livrar disso ou coisa do tipo. Eu estou te sugerindo que me mate porque essa é a coisa esperta a se fazer. Porque, se você não me matar, eu mato você.

A reação de Kastor ao ouvir aquelas palavras foi sacar imediatamente a sua espada, desnudando aço em hesitar. Havia mantido uma expressão séria durante toda a conversa, mas essa se fechou ainda mais ao ouvir a ameaça de Balak, bem como a chama da desconfiança se reacendeu. O mago, por sua vez, não pareceu achar aquilo mais do que divertido; ele riu em resposta ao mostrar do aço, e se não fosse pela crise de tosse que interrompeu as gargalhadas dele, Kastor tinha quase certeza de que iria acabar avançando contra o homem dos olhos vermelhos.

— Para ficar tão tenso assim com a ameaça de um moribundo... eu lhe amedronto tanto assim, Strauss? Lisonjeante – murmurou o Tecelão, fazendo um esforço para abrir um meio-sorriso irônico. – Você não devia se surpreender tanto com isso, no entanto. Pense um pouco. É apenas racional, não é? Se você parar para pensar, todas as coisas que aconteceram e acontecerão comigo ocorrem independentemente da minha vitória ou derrotar aqui. O fato de eu ter perdido essa luta piora um pouco mais as coisas ao significar que eu nem sequer consegui alcançar o meu objetivo no fim das contas... mas se você parar para pensar, isso não significa que em sobreviver eu tenho ao menos uma coisa a fazer? Um objetivo a caçar? – O mago virou sua cabeça um pouco para o lado e cuspiu um bocado de sangue nos escombros, tudo isso enquanto Kastor esperava da melhor forma que podia por uma maior elaboração. Embora eu já possa ter uma boa ideia do que ele vai dizer. — Permita-me pular os rodeios e ser direto, sim? Se você não me matar, só vai ter uma coisa que eu posso fazer nessa vida, e essa coisa é tentar de novo. Tentar livrar o mundo dos demônios novamente. Considerando que eu não teria nada a esse ponto as coisas vão ser um pouco mais difíceis, mas não há nada já feito que não possa ser refeito. Eu iria sumir por um tempo, sim. Tentar usar dos meus contatos para desaparecer no submundo e fugir dos Inquisidores..., mas isso seria temporário. Você e eu sabemos bem como as coisas iriam ser, certo? Eu iria fugir e me esconder como um rato por alguns anos, e durante esse tempo eu iria trabalhar para juntar forças. Eventualmente, quando eu estivesse forte e preparado o suficiente, eu tentaria de novo. Você seria atacado de surpresa pelo Novo Olho Vermelho, e com a minha inteligência e conhecimentos superiores eu seria capaz de fazer um trabalho muito mais efetivo dessa vez. Um movimento, dois movimentos, três movimentos, e xeque-mate. Você e seus amigos iriam cair perante às minhas forças, e eu teria a última risada.

Rosnou em resposta a isso porque sabia que era essa a resposta que Balak esperava, mas em verdade sua mente funcionava de forma muito diferente ao que o mago podia esperar. Ele está tentando me motivar a mata-lo, compreendeu Kastor de forma simples. Não foi muito difícil chegar a essa conclusão: acidentalmente ou não, Balak havia dado várias dicas disso. O sorriso, a arrogância... isso é tudo falso. Uma máscara, não é? Uma atuação que ele faz por algum motivo. Não havia notado isso antes, mas via claramente agora, depois que fragmentos da verdadeira personalidade do homem tinham se mostrado. Ele está depressivo agora, nesse instante, nesse momento. Ele se sente um fracassado, se sente culpado por causar a morte de seus amigos por um objetivo que ele não pôde atingir, e quer morrer logo. Ele dizia que não, que não se importava com nenhum dos casos, mas se fosse esse o caso ele adotaria uma postura neutra, não incentivaria Kastor a mata-lo. Ele quer que eu o mate. Ele quer morrer, porque para ele, viver seria doloroso demais de agora em diante.

Isso não significava que o que ele falava era mentira, no entanto. Se havia alguma coisa que Kastor havia notado sobre Balak ao enfrenta-lo era que o homem era obstinado, determinado. Ele tentou todas as cartas contra eu e Ekhart. Ele estava disposto a sacrificar a própria vida para nos derrotar. Esse seu objetivo... ele já provou de novo e de novo que ele não vai medir esforços para alcançá-lo. Não duvidava que o mago fizesse exatamente o que estava dizendo se lhe deixasse viver, e temia os resultados que uma nova guerra contra Balak pudesse causar. Essa guerra custou inúmeras vidas e deixou um rastro de destruição por onde passou. Mesmo o Salão sofreu danos imensos nessas batalhas. Se guerreássemos de novo contra ele... eu francamente não sei se venceríamos, e tenho certeza de que mesmo que vencêssemos, essa vitória não viria sem sacrifícios. Pensar nisso era algo que fazia com que Kastor se sentisse tentado a dar ao mago exatamente o que ele pedia.

Mas ao mesmo tempo em que mantinha esse pensamento, outro pensamento lhe impedia de simplesmente avançar contra ele.

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7 dias atrás, no Salão Cinzento

 

— Você o quê?! – Titânia virou-se para seu namorado com um olhar tão fulminante que Kastor iria temer por ele se não soubesse o quanto o homem significava para ela. Na verdade, mesmo sabendo disso ele não estava completamente seguro de que ela não fosse bater nele mesmo assim. – Lancelot, eu sei que você perdeu as pernas, mas não pensei que você perdeu a cabeça também! Será que você enlouqueceu de vez?!

— Eu entendo como você se sente, Tit, mas tente ver as coisas pelo meu ponto de vista – rogou o Segundo Cavaleiro da Quinquagésima Nona leva e namorado de Titânia, Lancelot Galahad, olhando para sua namorada com os sempre-calmos olhos azuis que ele tinha. – Matar ele é o que você quer, eu entendo isso. Francamente, é o que eu quero também. Mas o fato de querermos isso ou o fato disso ser vingança não faz com que isso seja certo! Não podemos simplesmente ignorar o fato de estarmos fazendo algo errado porque queremos fazer isso.

— Você está falando de matar um verme que está envolvido em inúmeras atividades criminais, como assassinatos, escravismo e contrabando. Alguém que causa mortes de inocentes a torto e a direito pelos seus fins, alguém que te mutilou pessoalmente! Eu dificilmente acho que matar um pedaço de lixo como ele seja lá algo errado.

— Matar qualquer um que não possui um coração corrompido é errado,  e o fato de uma pessoa fazer ou ter feito coisas ruins não torna ela ruim – apontou Lancelot. – Eu não te tiro toda a razão, ele realmente fez coisas horríveis, mas isso não justifica...

— É CLARO QUE JUSTIFICA! – Esbravejou a ruiva, e seu punho bateu na mesa com tanta força que o pobre moveu se quebrou no meio perante a sua força. Lancelot arregalou os olhos com o susto, para depois voltar a olhar aquilo com calma e acabar suspirando, como se se sentisse cansado. Ele coçou a cabeça com uma das mãos e ergueu os olhos para Titânia, devolvendo o olhar furioso dela com um olhar calmo e ameno da sua parte. Ah, nada melhor do que estar preso no meio de uma briga de casal entre duas das pessoas mais fortes do Salão. Em sua poltrona, Kastor observava tudo aquilo meio que encolhido, lutando para não demonstrar muito aberta o quão completamente aterrorizado ele estava pelo que se desenrolava. Se eu deixar isso tudo continuar assim, vai ser só uma questão de tempo até que alguém seja mandado voando pra fora daqui. E esse provavelmente serei eu. Então, pelo bem da minha pele... acho que é maior eu me intrometer um pouco.

— Então... deixa eu ver se entendi... – começou Kastor, atraindo os olhares dos dois cavaleiros para ele, algo que o deixou nervoso o bastante para começar a suar frio de imediato, apesar dele ter conseguido de alguma forma seguir em frente com o que tinha a dizer. – Lancelot, o que você está dizendo é que, basicamente, eu devo poupá-lo se tiver a chance? Eu... devo dizer, eu me vejo um pouco confuso por isso. Não esperei que você fosse pedir misericórdia por alguém que te mutilou... ou alguém que mutilou sua namorada.

— ... Francamente, você não é o único, e não me refiro apenas à Titânia. Eu também estou surpreso por estar fazendo isso. – A admissão de Lancelot veio em um tom solene, indicando que apesar dele estar pedindo por aquilo, o próprio cavaleiro não estava completamente satisfeito com isso, algo que fez com que a própria Titânia voltasse seu rosto novamente para ele, uma expressão inquisitiva em seu rosto. – Honestamente, eu não consigo deixar de desejar a morte dele. Balak é diretamente responsável pela morte de centenas de cavaleiros, muitos deles amigos pessoais meus, e ele é particularmente responsável por tirar o olho de Titânia. As ações dele não são coisas que eu posso simplesmente esquecer ou fingir que nunca aconteceram, e a fúria que elas me despertam é forte, Kastor. Se eu tivesse ele de joelhos, à minha misericórdia... eu não acho que o pouparia.

— Você tem noção que suas frases parecem mais contraditórias a cada minuto que passa, não é? – Observou o cavaleiro azul, erguendo uma sobrancelha. – Se esses são de fato os seus sentimentos e você quer Balak morto, então por que insiste em pedir para que eu seja misericordioso? Você acabou de dizer que você mesmo não seria piedoso.

— E isso é mais um testamento da minha fraqueza do que uma prova de que tal ato está correto – retrucou Lancelot sem hesitar. – Meus sentimentos são inconsequentes frente a uma questão como essa, Kastor. Na verdade, os sentimentos de qualquer um são inconsequentes frente a uma questão como essa. Você não pode condenar uma pessoa como má simplesmente por não gostar dela, e você não pode esperar fazer um julgamento justo de alguém que já fez algo contra você no passado. É natural que eu odeie Balak e queira a sua cabeça pelo que ele me fez, mas isso não faz com que seja certo fazer algo assim, e é esse “certo” que nós devemos almejar.

— ... Eu poderia balbuciar alguma coisa sobre como entendo o que você quer dizer e tudo mais, mas isso seria uma mentira. Você está me deixando cada vez mais e mais confuso, Lancelot, e não vamos chegar a lugar algum com isso – reclamou Kastor, balançando a cabeça em desalento. Lancelot acenou em resposta, e isso não lhe surpreendeu; se havia algo que o cavaleiro loiro tinha a seu favor era o fato de que ele tinha grande compreensão e empatia para com outras pessoas, o que significava que ele conseguia entender o ponto de alguém melhor que ninguém. E era exatamente por isso que Kastor estava se esforçando para tentar entender o ponto dele. Se Lancelot está dizendo que eu devo poupar Balak, então existe uma boa razão por trás disso. E eu pretendo descobrir qual é. — Explique-se bem, da melhor forma possível, e faça isso desde o início. Que tal?

Novamente o cavaleiro assentiu em resposta a isso, e ficou em silêncio. Seus olhos se fecharam um pouco, e pela expressão em seu rosto Kastor sabia que ele estava pensando em como colocar seus pensamentos em palavras. Reclinou-se na sua poltrona e observou a forma como Titânia se afastou, indo se encostar em um dos pontos da sala para dali observar a explicação do seu namorado.

— Deixe-me começar dizendo o seguinte: Balak não é uma má pessoa. – Foram as primeiras palavras que saíram dos lábios de Lancelot depois de alguns momentos de silêncio, quando ele terminou de organizar seus pensamentos. – Confie em mim quando digo isso, Kastor. Eu conheço a maldade. Eu sei quando uma pessoa é se diverte com o sofrimento dos outros, eu sei quando alguém não tem um resquício de moral que guia seus passos, eu sei quando alguém só quer fazer mal aos que estão ao seu redor. Eu conheço a maldade, e por isso afirmo que Balak não é mal.

— Você ainda insiste nessa bobeira mesmo depois de tudo que falei? – Questionou Titânia, rangendo os dentes. – Eu já te disse. O que ele faz não deixa dúvidas de que ele é-

— Existem homens bons que fazem coisas ruins, e homens ruins que fazem coisas boas. Devemos julgar alguém baseado apenas em suas ações e na forma como as percebemos? Isso é simples e objetivo, mas “simples” e “objetivo” não são sinônimos de “certo” ou “justo” – apontou o loiro. – As pessoas são seres complexos, Titânia, com motivações complexas, moralidades complexas e modos de pensar complexos. Se fossemos condenar alguém pelas simples ações que essa pessoa já tomou, então todos aqueles que já mataram alguém em algum momento da sua vida merecem a morte, e isso significa que todos os cavaleiros do Salão Cinzento devem morrer.

— Você está saindo de um extremo e indo ao outro – reclamou ela, aborrecida. – A situação é completamente diferente.

— Aí que está: ela não é. Essa comparação que eu acabei de fazer é a comparação mais adequada que eu consigo imaginar. Diga, quantas vezes nós, cavaleiros, matamos pessoas? Seja por um motivo ou por outro, isso acontece frequentemente: as vezes matamos para nos defender, as vezes matamos para defender os outros, as vezes matamos para exercer a justiça e as vezes matamos simplesmente porque nossos trabalhos como mercenários exige que matemos determinadas pessoas em determinados momentos. Nada disso nos torna maus, porque não matamos essas pessoas por maldade ou crueldade, não matamos com malícia, e esse mesmo princípio vale para Balak. Ele faz coisas ruins, sim, mas ele não faz essas coisas com malícia, pois tudo que ele faz é visando um objetivo nobre, uma luz no fim do túnel.

— Um objetivo nobre... – repetiu Kastor, pronunciando cada palavra enquanto ao mesmo tempo começava a entender o ponto que Lancelot queria fazer. – Você está falando do objetivo de matar os demônios?

— De certa forma – concordou Lancelot, acenando. – Não entenda mal, Kastor. Não digo que ele está correto ou que você deve morrer, mas é inegável que o objetivo dele é nobre. Se você pensar, o que ele quer é ser nada mais do que um mártir; o objetivo final de Balak é erradicar a ameaça dos demônios da face do mundo, permitindo que a humanidade viva em paz. Na verdade, pelo que eu sei ao ter lido a mente do subordinado dele, isso vai ainda mais além: anos atrás uma figura mostrou a Balak uma visão na qual os Cinco Corações se libertavam, e com seus poderes os demônios ancestrais destruíam o mundo humano. E essa visão motivou Balak a embarcar nessa jornada, a se dedicar ao seu objetivo. Em outras palavras, o que ele está tentando fazer é salvar a humanidade da sua destruição.

— Opa, opa, espera aí: uma figura? – Foi Titânia quem interrompeu, tendo sua atenção despertada por aquela palavra. – O que exatamente você quer dizer com isso? Quem era essa figura?

— Eu não sei – respondeu Lancelot, encolhendo os ombros. – E não digo “eu não sei” no sentido de não conhecer a pessoa. Eu literalmente não pude vê-la. Mesmo na memória de Dwyn, a figura estava encoberta em sombras, como se algo ou alguém estivesse fazendo um esforço para tentar mantê-la oculta.

— E é possível que alguém faça algo assim? – Perguntou Titânia, cruzando os braços. – Considerando que você leu a mente de alguém, a pessoa teria que sabotar as próprias memórias que você viu no momento em que você estava as lendo. É realmente possível se fazer algo assim?

— Se você estiver perto o suficiente, sim – afirmou Lancelot. – Eu suponho que isso é o que posso lhe dar no que diz respeito a essa figura estranha. Eu não tenho a menor ideia de quem exatamente essa figura possa ser.…, mas eu sei que, quem quer que seja essa pessoa, ela estava em Valhala durante o torneio.

Alguém que estava durante o torneio de Valhala? Isso... é bem útil, pra ser sincero. O torneio de Valhala havia sido um evento grande que havia atraído a atração de dezenas de figurões de Fredora, e haviam ainda várias pessoas que ele não conhecia ali. Mas durante a batalha com Dwyn? Não haviam ficado tantas para trás. Me lembro de que devido à demora para a batalha final, muitos haviam ido embora quando ela chegou a acontecer. Claro, existe sempre a possibilidade de que o responsável por isso tenha conseguido se disfarçar em meio à multidão mesmo assim – ainda haviam pessoas o suficiente para isso – mas essa ainda é uma pista boa o bastante para nos ajudar.

— Isso que você falou sobre essa figura é bem interessante... mas esse não é o momento para nos focarmos em algo assim. – Disse por Kastor, achando por bem que era sábio voltar o assunto ao foco antes que se desviassem demais. – Se eu não me engano, você havia dito que Balak não é mal por fazer o que faz na tentativa de salvar a humanidade. Mas, mesmo se considerarmos que você está correto com isso, o fato persiste que não se espera que você tenha misericórdia do homem responsável pelas desgraças que aconteceram na sua vida. Considerando o que Balak já fez, não só a você ou a mim, mas a todo o Salão Cinzento em si... não acha que merecemos vingança?

Lancelot fechou novamente seus olhos ao ouvir aquilo, e permaneceu com eles assim por um bom tempo. Kastor aguardou, primeiro pacientemente, depois se questionando se havia ofendido seu companheiro de alguma forma com suas palavras, mas quando ele tornou a falar, ficou claro que ele estava apenas pensando para organizar seus pensamentos.

— Diga, Kastor... qual você acha que é o maior presente que os Deuses nos deram? O trunfo da humanidade? – Foram as perguntas que o loiro fez, com completa calma e serenidade, pegando o cavaleiro azul de surpresa com elas. Primeiro ergueu suas sobrancelhas, confuso, depois tentou pensar em uma resposta adequada a isso e, quando não conseguiu pensar em nada, acabou balançando sua cabeça negativamente. – Não sabe? Bem, permita-me explicar o que penso. Na minha opinião, o maior trunfo da humanidade não é a força que somos capazes de alcançar. Não são as magias que podemos dominar. Não são as artes que podemos aprender, nem o intelecto sem fim que podemos sempre desenvolver. O maior trunfo da humanidade... é a nossa capacidade de perdoar, a dádiva da misericórdia. O fato de temos a capacidade de perdoar os que nos fizeram mal algum dia... esse é o nosso maior ponto forte.

— Per... perdoar? – Não pode deixar de achar estranho a frase, chegando até a entortar sua cabeça para um lado. Mas... do que raios ele está falando? — Foi mal, Lancelot, mas... você tem que concordar comigo que esse não é um pensamento muito convencional.

— De fato, não é. Mas isso não faz com que eu acredite que ele está errado. Veja bem, Kastor: permita-me explicar a racionalidade por trás dele – pediu o cavaleiro, gesticulando enquanto falava como se achasse que os gestos podiam ajudar a passar sua ideia. – Você certamente já ouviu falar daquele ditado “olho por olho, dente por dente”, não ouviu? Ele é um ditado muito famoso e bastante vingativo, que incentiva alguém a vingar-se de algo na mesma moeda. No entanto, existe uma variação dele importante que não é tão famosa quanto o original: “olho por olho, dente por dente, e no fim das contas acabam todos cegos e banguelas”. Creio que não é preciso elaborar muito no que esse ditado quer dizer, mas pelo bem da claridade, deixe-me explicitar o seu significado: se ficarem todos se vingando uns dos outros por tudo que alguém faz, nós vamos todos encontrar a nossa perdição.

“O motivo disso é bem simples: a vingança é, no fim das contas, uma faca de dois gumes. Existe um motivo pelo qual a vingança é considerada de forma diferente da justiça, e isso é porquê a vingança quase sempre não é justa. Entenda, a justiça existe para ser disciplinante e criativa: o motivo da sua criação é, sobretudo, moderar disputas e problemas de forma imparcial e adequada, promovendo através disso um convívio duradouro e benéfico para todas as partes. A vingança, por outro lado, é puramente destrutiva: quando alguém se vinga ela não quer nada mais do que ferir alguém, as vezes nem exatamente a pessoa que lhe fez mal em primeiro lugar, para tentar saciar um desejo negro que muitas vezes nem se sacia com isso.

Não vou menosprezar a vingança ou as pessoas que tem sede de vingança, pois eu sei bem o que é essa sensação. Como eu disse, eu mesmo provavelmente mataria Balak se tivesse a chance, mas como eu também disse antes, isso não faz com que isso seja correto. Quando digo que o perdão é o trunfo da humanidade, eu não sugiro que as pessoas devem começar a perdoar qualquer um que fez mal contra elas em algum momento, ou que ninguém deve ser punido por algo que faz, mas sim que as punições devem ser justas e devem considerar o tipo de pessoa com o qual se está lidando. Existem pessoas nesse mundo que são verdadeiramente podres, monstros cheios de maldade e malícia que só querem semear caos e morte por onde passam. Para essas pessoas uma punição como a morte não é nada menos do que adequada. Mas da mesma forma existem pessoas que, devido a alguma circunstância, estão fazendo coisas ruins, mas não possuem corações maldosos, e essas pessoas não devem ser punidas com algo como a morte, por um simples motivo: ao não terem corações maldosos, essas pessoas tem consciência e moralidade, e essa consciência junto dessa moralidade dá a essas pessoas a chance de redenção, o que é o que devemos almejar.”

— Uou, uou, espere um momento aí! – Dessa vez foi o próprio Kastor que teve que parar Lancelot, surpreso demais pelo discurso dele para aceitar aquilo. A essa altura, Titânia já havia desviado o olhar, sem paciência para ouvir o que seu namorado tinha a dizer. – Você está me dizendo que Balak, BALAK, vai se redimir? Você por acaso perdeu a cabeça?! Ele é o filho-da-mãe responsável por todos esses ataques contra nós! O responsável pela morte de tantos cavaleiros! Me parece que ele foi longe demais nessa sua cruzada para se redimir agora, e de qualquer forma, se ele realmente teve essa visão que você mencionou, eu duvido que ele vá simplesmente começar a se dar bem comigo.

— .... Quando você conheceu Hozar, ele te detestava. Ele te esnobou, te agrediu e tentou te afastar de todas as formas. Hoje vocês são como irmãos, mas, diga: o que teria acontecido se você nunca tivesse o perdoado? – A pergunta de Lancelot foi simples e feita em um tom pacífico, mas Kastor sentiu-a como se o loiro estivesse cortando através dele com uma faca. Sua boca se abriu para balbuciar alguma resposta, mas Lance não lhe deu chance alguma. – Quando eu conheci Titânia e tentei me aproximar dela, ela me surrou múltiplas vezes sem nenhuma piedade. Eu hoje a amo, e sei que ela me ama. Mas o que teria acontecido se eu não tivesse a perdoado? Quando jovens, Odin e Soulcairn se aventuraram em Valenford e voltaram trazendo Gwynevere, princesa da família Sunfyre, a família real das amazonas. Essa ação trouxe uma pequena guerra entre o Salão e um dos grandes reinos do nosso mundo e conquistou a fúria do Herói Cinzento. Dizem que, por algum tempo, ele debateu se não devia simplesmente executá-los e entregar as cabeças dos dois às amazonas junto da princesa e de um pedido de desculpas. Diga, o que teria acontecido se ele não tivesse os perdoado? Algum de nós estaria aqui?

— Essas são coisas diferentes... – resmungou Kastor, embora nem mesmo ele estivesse certo se eram tão diferente assim. – As situações, os contextos... essas coisas que você aponta são...

— Mais recentemente eu ouvi sobre como você cortou os dedos de Duke durante a batalha contra ele no Salão Cinzento, ou sobre como ele quase te matou durante essa mesma luta. Coisas brutais, coisas que muitos não perdoariam. Mas, diga, o que teria acontecido se não tivessem perdoado um ao outro e firmado uma amizade forte mesmo assim? E sua guilda... se você se recordar, você fugiu durante o assalto de Dwyn, correu e abandonou os outros. O que teria acontecido se eles não tivessem perdoado isso? Eu aposto que você provavelmente estaria morto a essa altura, e alguns deles não teriam destinos muito felizes pela frente. Diga, Kastor: você realmente acha que não devemos perdoar as pessoas? Que elas não vão se redimir? Porque em todos esses casos, as pessoas se redimiram. E Balak não é diferente de nenhuma delas.

— Mas é esse o problema, Lancelot: ele é diferente! – Exclamou Kastor, frustrado e furioso pela insistência do loiro. Lancelot sempre foi famoso por ser o mais bondoso dos cavaleiros. Ele certamente merece essa reputação e é uma ótima pessoa, mas... por mil diabos, é tão difícil falar com ele as vezes! Mesmo com a sua exclamação ele não havia conseguido mais do que fazer com que o cavaleiro parasse seu discurso um pouco e o olhasse com um olhar levemente intrigado, mas supunha que isso teria de bastar. – Eu sei que você é uma pessoa e sei que você está tentando fazer o melhor, mas essa sua visão é bem idealista. Você está me dizendo para não matar Balak porque isso não seria certo, porque ele pode se redimir no futuro. Mas o que te faz pensar que isso vai acontecer? Eu me sinto um disco arranhado aqui, mas deixe-me repetir mais uma vez: ele é o responsável pelas mortes de centenas de cavaleiros. Ele é um criminoso, líder da maior organização criminosa do nosso mundo. Ele é alguém cujo próprio objetivo não é nada mais do que eliminar os Cinco Corações, o que significa que ele não vai parar até me eliminar. O que te faz pensar que ele vai se redimir? E mais! O que faremos se ele não se redimir? Você sabe melhor do que eu como Balak é um homem perigoso, do que ele é capaz. E você sabe o quão determinado ele é. Se ele não se redimir, as chances são de que ele volte a nos atacar. E se isso acontecer, Lancelot... quantas pessoas você acha que vão morrer devido a nossa “misericórdia”?

A boca de Lancelot se abriu imediatamente ao fim da frase de Kastor, mas quando foi a hora de falar, nenhuma palavra saiu dos seus lábios. Ele ficou mudo, e não demorou muito para que sua boca se fechasse de novo. Não tem uma resposta para isso, não é? Foi o que eu imaginei. Balançou sua cabeça, desolado... e foi então que Lancelot falou.

— Se você quer que eu te dê uma solução ideal, desista. Eu não posso fazer isso, uma vez que não existe uma solução ideal assim. – A frase inesperada atraiu a atenção de Kastor, fazendo com que ele erguesse seu olhar. – A misericórdia é uma aposta, Kastor. Ela pode funcionar, ou pode não funcionar. E qualquer um dos dois vão te levar a consequências completamente diferentes, negativas e positivas. Por um lado a misericórdia pode levar alguém que fazia coisas ruins a se redimir, enquanto por outro ela pode permitir que essa pessoa escape e continue fazendo essas mesmas coisas ruins por aí, talvez até de forma pior do que antes. A misericórdia nunca é segura, e se você acha essa aposta arriscada demais, então a inclemência provavelmente é a alternativa que você quer seguir. Mas, como eu já disse antes, isso não faz com que ela seja certa.

Por um momento as mãos de Lancelot empurraram o corpo do loiro para cima como se ele fosse se levantar, fazendo com que Kastor, Titânia e até mesmo o próprio cavaleiro se surpreendesse. Ele logo parou o esforço, deixando-se cair novamente em sua cadeira e escondendo uma feição aborrecida por trás da sua própria mão. Ele ainda se esquece de que não tem mais suas pernas. E ele não parece estar lidando tão bem com isso. Era de certa forma admirável como ele conseguia, mesmo naquele estado, defender o homem responsável por isso com tanto fervor.

— Eu... como eu disse antes, eu não vou culpa-lo se você decidir pela inclemência. Eu provavelmente escolheria ela, se por nada mais, por simples ódio. Mas isso é uma fraqueza minha, Kastor; eu consigo ver o certo e o errado da questão e consigo distingui-los bem, mas isso não significa que consigo controlar minhas emoções o suficiente para agir com base neles. Mas talvez você consiga. Talvez você possa fazer o que é certo. – A mão se afastou para revelar um Lancelot cansado, como se estivesse discutindo aquilo o dia todo, mesmo que não tivessem se passado mais do que alguns minutos. – Balak não é um homem ruim. Ele é um homem que faz coisas ruins na tentativa de alcançar um objetivo nobre, e mata-lo, embora compreensível, não é o certo. Isso não é fácil, e isso tem vários riscos, mas por favor, eu lhe peço: se você tiver a chance, faça a coisa certa. Mostre-o misericórdia.

 

=====

Refletir sobre aquela conversa fez com que Kastor se sentisse incerto, inseguro sobre o que deveria fazer. O que Lancelot havia me dito não é exatamente reconfortante, principalmente não quando considerando o que o próprio Balak acabou de me dizer. Não duvidava nem um pouco que o mago fizesse o que ameaçava, e esse era francamente um pensamento que o assustava: dezenas de pessoas que ele havia conhecido pessoalmente e chamado de “amigos” um dia morreram em batalha, e sabia que dezenas mais teriam o mesmo destino se voltassem a ter uma guerra contra Balak. Mas apesar disso... Lancelot não deixou de ter uma certa razão no que dizia.

Quando tentava analisar a situação pelo ponto de vista de Balak, Kastor não conseguia deixar de simpatizar com alguns dos pontos dele. Os Cinco Corações são demônios famosos por matar Deuses, aqueles que quase foram responsáveis pela extinção da humanidade durante a Grande Guerra. Eu presumo que a possibilidade de que eles possam se libertar é assustadora para qualquer um que não tenha um deles dentro de si... e considerando que Balak aparentemente vem de um clã de Caçadores de Demônios, isso deve ser algo que o afeta ainda mais. Esse medo não justificava todos os crimes que o homem havia cometido, mas ao menos estabelecia o motivo pelo qual ele fez o que fez. E além disso, mais importante ainda... ele se importa com os que servem a ele.

Se tivesse dito aquilo como motivação para qualquer um poupar alguém, Kastor provavelmente enfrentaria um olhar estupefato, seguido por risadas e chacota. Apesar do quanto as pessoas gostavam de afirmar o contrário, ele não era idiota: sabia bem que a maioria das pessoas consideraria isso uma desculpa no mínimo estúpida para conceder misericórdia para alguém. Mas ele era diferente. “O valor e o caráter de um homem pode ser medido pela forma como ele trata aqueles sobre o seu comando”. Essa havia sido uma das primeiras lições que Odin havia lhe ensinado quando começou a lhe treinar, e uma das que serviu como base para todo o seu ser, todo o seu caráter e seu senso moral. “Um homem que maltrata seus subordinados, que os despreza, que abusa deles, ou que simplesmente os trata com desdém, é um homem em que não se pode confiar. Os subordinados devem ser para um líder como seus filhos: da mesma forma que um homem que maltrata seus filhos é abominável, um líder que maltrata seus subordinados é uma criatura deplorável, fadada ao fracasso – não importa o que ele faça, nunca celebrarão seus sucessos. Suas vitórias serão vazias, desprovidas de glória. E no dia da sua morte, os que lhe serviam vão brindar e rir em júbilo sem fim.” Havia tido a chance de ver a verdade nessas palavras várias vezes – Odin tinha se certificado disso. Por vezes um líder mercenário vinha ao Salão Cinzento na esperança de contratar alguns cavaleiros para fortalecer suas tropas, e nem sempre esses eram bons homens. Quando Odin via que quem os liderava era um líder ruim, ele mostrava a Kastor o porquê ele era um líder ruim. Ele apontava os sinais de abusos em seus homens – como alguns tinham cicatrizes de chicotes em suas costas, como outros estavam magros de fome, como alguns tinham olheiras de noites mal dormidas, ou tinham manchas pelo corpo que indicavam doenças. Esses líderes eram pessoas com as quais os cavaleiros nunca negociavam, e Kastor não tirava a razão por isso. O problema não era apenas o fato deles tratarem mal suas tropas: uma das coisas que o jovem cavaleiro sempre notou nesses homens é que eles nunca, nunca, pareciam decentes. As vezes eles eram gananciosos, as vezes vãos. As vezes muito arrogantes, as vezes muito violentos. As personalidades, as mentalidades e o modo de agir variavam de um para o outro, mas uma opinião que Kastor sempre havia mantido era que ele não confiava em nenhum desses homens.

Mas da mesma forma que tinha esse lado, também tinha outro, baseado em outro dos ensinamentos de Odin. “Da mesma forma que um homem que trata mal seus subordinados é uma criatura deplorável, um homem que preza por aqueles sob o seu comando é digno de respeito. Vá do norte ao sul, do leste ao oeste, e procure por todos os cantos. Analise todos os líderes. E você verá uma coisa: um homem que trata bem seus subordinados, que tenta se esforçar para mantê-los seguros, que tenta se certificar que eles estejam bem, que se recusa a sacrificá-los quando pode evitar, que chora e se entristece com a morte deles... a um homem assim, nunca falta valor, nunca falta caráter. Eu já encontrei dezenas de homens assim ao longo dos anos, lutando de vários lados, por várias causas. Eles eram muito diferentes uns dos outros, e mais do que alguns exibiam traços negativos como vaidade, ganância, arrogância ou tendências violentas. Mas essa negatividade não engolia o seu ser. Eles não eram perfeitos, mas nunca eram maus”.

Girou a empunhadura da espada em sua mão e mordeu os lábios enquanto pensava naquilo. Balak não é um homem mal. Um homem mal não sentiria culpa por causar as mortes dos seus subordinados. E o objetivo dele... ele fez coisas horríveis, mas fez elas tentando impedir um desastre. Não foi fácil entender a lógica de Lancelot, mas agora acho que consigo entender o ponto que ele queria fazer. Considerando quem ele é, quais eram seus objetivos e o porquê dele ter feito o que fez... eu posso dizer que ele é mal? Que seu coração é corrupto? Que ele não tem redenção, ou que ele não merece a chance de se redimir?

Pensar assim fazia com que se sentisse tentado a o poupar, mas então outros pensamentos vinham à sua mente. Lembranças dos corpos dos mortos que ele viu no Salão Cinzento. Lembranças do estado dos seus amigos quando Dwyn atacou, lembranças do que Balak havia feito contra diversas pessoas – incluindo alguém como Lancelot, o mesmo que havia pedido por misericórdia para ele. Lembrou-se de tudo isso e considerou que tudo podia se repetir se Balak cuspisse em sua misericórdia. “A misericórdia é uma aposta”, foi o que Lancelot disse. Será que ele vale essa aposta? Será que estou disposto a fazê-la? Por mais que fosse capaz de simpatizar com as motivações do mago em certo nível, não podia dizer que não o odiava também. E não podia dizer que não tinha medo do que podia acontecer se eles lutassem de novo. Essa... essa é uma decisão difícil. A mão de Kastor tremeu em nada menos que puro nervosismo, e ele pegou-se movendo o olhar para ela, vendo seu rosto refletido no aço.

Misericórdia... ou... inclemência..., pensou o azul, forçando seu olhar a cair novamente sobre a figura do mago. Qual eu escolho?



Notas finais do capítulo

LEIAM AS NOTAS FI- Ah, pera, vocês já estão aqui. Ah-am.

Bem... vocês que andaram fazendo as contas já devem saber disso (e francamente, mesmo os que não fizeram isso já devem imaginar), mas essa história está chegando ao fim. Esse é, literalmente, o penúltimo capítulo do Olho Vermelho. Eu tenho muito a dizer para vocês, caros leitores, mas guardarei tudo isso para o próximo capítulo, porque nesse capítulo temos coisas muito importantes a tratar.

Como vocês devem imaginar pelo fim desse capítulo, temos aqui uma escolha. Ou melhor, duas escolhas, que serão feitas por vocês por meio de votação. Só que essa votação será diferente.

Eu não quero nenhum voto nos comentários.

Parece estranho, não parece? Provavelmente é. Mas, sim, eu não quero nenhum voto nos comentários. Dois motivos para isso: primeiro, essa é uma votação bem séria. A mais séria até agora. O que vocês decidirem aqui vai literalmente afetar todo o futuro do mundo da Era Dourada, o que significa que essa é uma escolha um pouco mais tensa a se fazer. Sendo assim, alguns podem preferir certo anonimato para votar - seja para que os outros não saibam no que você votou, seja por ser um leitor mais recente e ter algum tipo de vergonha/receio do que os outros possam achar de você votando, seja por qualquer motivo em geral. Além disso, temos uma outra questão simples: votos em comentários permitem que as pessoas leiam os comentários para saberem como está indo a votação, o que permite que elas saibam o que vai acontecer antes mesmo disso acontecer.

Eu quero evitar isso. Eu quero fazer vocês ficarem apreensivos, perguntando-se qual será o veredito.

Então, as coisas funcionarão desse jeito. NÃO COLOQUEM VOTOS NOS COMENTÁRIOS! NEM OS MENCIONEM NOS COMENTÁRIOS TAMBÉM! Entendam que não estou fazendo isso para ser mal nem nada do tipo, mas eu vou desconsiderar os votos que estejam nos comentários, então não votem em seus comentários nem tampouco mencionem seus votos nesses comentários. Tudo bem?

O que vocês devem fazer é bem simples: enviem uma mensagem privada para mim com o título VOTAÇÃO - OLHO VERMELHO, e me enviem nessa mensagem os seus votos. Simples assim. Sintam-se livres para justificarem-nos se quiserem (apesar de não ser necessário). Sintam-se livres para mudá-los (basta mandar o voto alterado nessa mesma mensagem). Sintam-se livres para discutir sobre os votos comigo caso queiram (embora eu obviamente não vá dar spoilers). E por favor, votem: o voto de vocês é importante. Não é obrigatório que votem em ambas as questões, mas por favor, votem. Independente se você é um leitor que acompanha a história há dois meses ou dois anos, a sua opinião é importante, e a interatividade de vocês é algo que prezo. Por favor, colaborem para que essas história seja algo único para todos nós.

Os quesitos nos quais vocês devem votar são os seguintes:

"Qual o destino de Balak?"
A) Misericórdia (Kastor poupa Balak)
B) Inclemência (Kastor mata Balak)

"Qual será o novo membro da Era Dourada?"
A) Blair White (Blair se junta a guilda)
B) Coralina Carter (Coralina se junta a guilda)
C) Sydwel Ostrower (Syd se junta a guilda)
D) Maoh (Maoh se junta a guilda)
E) Enderthorn (Enderthorn se junta a guilda)
F) Breath (Breath se junta a guilda)
G) Zetsuko (Zetsuko se junta a guilda)
H) Denis (Denis se junta a guilda)

Darei a essa votação um período de dois semanas. Ou seja, ela se encerrará no dia 09/07/2016, às 00:00 (meia-noite), a partir do qual quaisquer votos enviados não serão mais contabilizados. Mantenham em mente que irei começar a escrever o próximo capítulo apenas depois desse período, então saibam desde já que o último capítulo da história pode demorar um pouco.

Até mais, pessoal, e os vejo de novo no Gran Finale!



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