O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 124
Você não vai passar




Terceiro Andar do Pandemonium, “O Deserto de Ossos”

 

DESTRUIÇÃO ABSOLUTA. Era isso que Odin podia ver ao olhar para o terceiro andar, e não muito mais além disso.

A lâmina de luz que havia sido forjada por Grancalibur criou um rastro de destruição imenso pelo deserto, grande como se um gigante tivesse golpeado a terra. Ele era largo e profundo o suficiente para que um rio pudesse correr por ele, e se estendia em direção ao horizonte pelo que pareciam ser quilômetros e quilômetros antes que o próprio horizonte achasse seu fim. Um corte se mostrava em meio ao próprio ar – não diferente do que havia criado antes – e por trás dele Odin via uma imensidão branca infinita. Ela devia se estender bastante também, mas não conseguia dizer devido à sua cor; só conseguia dizer que um pouco mais adiante dessa imensidão um segundo corte se abria, e além desse corte o que ele podia ver era nada mais do que a paisagem do lado de fora do Pandemonium – árvores e montanhas destruídas, cortadas e engolidas pelo rastro de destruição que seu ataque havia causado. Para atingir até mesmo o mundo exterior com tanta força... Grancalibur deve ser ainda mais forte do que eu imaginei. Teria de ser mais cuidadoso caso fosse usar aquela técnica de novo no futuro; se ela podia cortar através de barreiras dimensionais como aquela e causar tanto dano, era quase impossível dizer o que ela faria se fosse usada em terreno aberto. Bom... ao menos é bom saber que todos os meus esforços não foram em vão.

Assim que testemunhou a destruição e verificou que não restava um rastro sequer do Juggernaut, Odin não fez mais esforço para se manter em pé. Caiu sobre seus joelhos no chão, e a armadura caiu também em questão de instantes. Seus pedaços caíram ao redor dele como vidro quebrado, ruindo ao pó a medida que iam caindo em direção ao chão. Isso... isso foi exaustivo. A figura de Odin agora não era a figura forte que ele normalmente exibia. Na verdade, quem olhasse para ele agora veria mais uma múmia do que um homem, um corpo ressecado que mal podia contar como “ser vivo”. Eu... literalmente usei quase toda a minha energia nesse golpe. Incluindo um pouco da minha energia vital. Felizmente aquilo não era permanente e ele iria se recuperar com tempo o suficiente, mas até lá estava fora de qualquer condição de se juntar a uma batalha. Que droga... eu queria ajudar Kastor... O Tecelão parecia ser um oponente formidável e não gostava do pensamento de deixar um de seus filhos enfrenta-lo sozinho, mas supunha que iria ter que simplesmente confiar na força dele. Eu cuidei do Juggernaut... Kastor, Hozar... triunfem, meus filhos!

— Heh... hehehehe, hahahahaha! Hahahahahahahaha, GYAHAHAHAHAHA! CARA, ISSO FOI ÓTIMO! FENOMENAL, ODIN: ABSOLUTAMENTE FENOMENAL!

As palavras foram gritadas com júbilo, uma alegria intensa e incomparável, mas a voz que as disse fez com que o sangue gelasse nas suas veias. Isso é... impossível...! Havia visto o ataque atingi-lo e havia visto o rastro de destruição que seu golpe deixou; por toda a lógica do mundo, um ataque como aquele não deveria deixar nada pra trás. Você está morto. Você tem de estar morto! Não tem como você ter sobrevivido a isso!

Era isso que Odin pensava, mas quando ele se virou para trás, o que viu deixou claro que os seus maiores medos estavam se concretizando.

Jiazz estava atrás dele, há não mais do que alguns passos de distância. A parte superior do seu corpo estava em praticamente puro sangue, e uma grande parcela desse líquido viscoso havia caído sobre suas calças também. Um corte enorme e profundo estava sobre seu ombro direito, quase cortando seu torso ao meio, e sangue ainda esguichava ativamente dele, mas Jiazz nem parecia sentir nada. O Juggernaut tinha o sorriso mais bobo do mundo no rosto enquanto deixava suas chamas douradas irem curando a ferida, e seu olhar enquanto ele fitava Odin fazia parecer que ele era uma criança entusiasmada com seu mais novo brinquedo.

— Faz muito, muito, muito tempo desde a última vez que um ataque chega tão perto assim de me matar! Hahahaha, francamente, se eu tivesse me descuidado eu estaria em pedaços nesse momento! Um pedaço de cérebro aqui, um dedo ali, um olho acolá... ah, sim, seria um espetáculo sangrento esse!

— C-c-c-c-c-

— Combo breaker? – Sugeriu Jiazz, armado de um sorriso tão inocente quanto travesso.

Como você ainda está vivo?! — Falar de forma tão exaltada se mostrou um erro imediatamente. Assim que a última palavra deixou seus lábios Odin se viu vomitando, jogando um misto de restos de alimentos e sangue no chão a sua frente, mas nem mesmo isso foi capaz de acalmá-lo. – Eu vi o golpe te atingido! Você disse que seria feito em pedaços se tivesse se descuidado, mas uma vez atingido por Grancalibur você não deveria ter esperanças de sobreviver! Você deveria estar em pedaços agora, então como infernos você está vivo?!

Jiazz só fez sorrir frente a essa pergunta. Ao invés de responder com palavras, ele pareceu escolher responder à Odin com ações; criou um pouco de chamas douradas ao redor de sua mão, e pouco a pouco essas chamas foram se solidificando. Não de uma forma similar ao que Odin fazia com seu espírito ou como alguns guerreiros faziam para solidificar elementos em armas que pareciam feitas de aço; ele solidificou suas chamas em forma cristalina, similar à Taikdarys, mas isso não mudou o fato de que elas envolveram sua mão como se fossem uma armadura.

— Alguns dias atrás, antes dessa batalha toda de agora começar, eu enfrentei um velho amigo meu, e durante a nossa batalha ele me mostrou uma coisa interessante. Uma habilidade nova na qual ele solidificava seu elemento de escolha numa armadura que o envolvia, fazendo com que suas capacidades físicas fossem aprimoradas imensamente – explicou o Juggernaut. – Eu não posso dizer que não fiquei fascinado por isso, mas não tentei fazer algo igual. Revestir seu corpo com um elemento para se melhorar é algo interessante, mas eu notei que essa armadura não era necessariamente resistente, e mais do que isso, eu tive uma ideia: “se tentar fazer minha armadura melhorar tudo em mim a deixa forte assim, o que será que consigo se eu deixar todo o resto de lado para me focar em apenas um aspecto?”. Claro, considerando que eu vi isso há pouco tempo, essa técnica ainda está em desenvolvimento. Mas você pôde ver um pouco dela agora; Taikdarys, a espada mais forte, e a minha armadura, Griovėjas, a armadura mais resistente. O conjunto perfeito.

A ferida no ombro de Jiazz ia se fechando cada vez mais enquanto ele falava. Com uma mão – a mão envolta pela armadura – ele tocou essa ferida, cutucando um pouco ela mesmo enquanto suas chamas trabalhavam. Viu lampejos de dor cruzarem seu rosto, mas eles não foram o suficiente para parar o Juggernaut.

— Lembra do que eu havia dito antes, Odin? “Nada menos do que um golpe capaz de destruir uma ilha irá me ferir”. Eu não estava mentindo ou exagerando quando disse isso. Seus golpes podem não ter a proporção necessária para causar uma destruição nessa escala, mas não lhes falta o poder; você seria capaz de destruir uma ilha com eles caso fizesse as alterações necessárias, ao menos teoricamente falando. Essa armadura, logicamente, é ainda mais resistente do que o meu corpo. Eu diria que você precisaria de cerca de dez vezes mais força para conseguir fazer alguma nela, e isso deve te dar uma ideia da proporcionalidade com a qual estamos trabalhando aqui. E mesmo assim, mesmo sendo tão resistente, ela não foi capaz de fazer nada mais do que reduzir um pouco o estrago do seu ataque. Você pode ver que não estou usando armadura nenhuma, e isso é pelo simples fato de que o seu ataque destruiu tudo que eu tinha... e você tem alguma ideia do quão FODA é isso?! — O sorriso entusiasmado de Jiazz se alargou um pouco mais ao dizer aquilo, e só faltou que o homem uivasse em alegria e felicidade. – Faz tanto tempo desde a última vez em que senti algo assim, Odin! Tanto tempo desde que senti que eu poderia morrer diante de algum ataque! Tanto tempo desde a última vez que senti que estava entre a vida e a morte! Para a maioria das pessoas essa pode ser uma experiência horrível, algo pelo qual elas desejam nunca passar, mas cá entre nós, a maioria das pessoas são um bando de bundões de merda! Por que temer a morte? Por que ficar se escondendo e correndo por aí, tentando evita-la tanto quanto possível? Você não pode escapar da morte! Desde o dia em que você nasceu, a sua única certeza é que você vai morrer um dia! Não importa como você viva, o que você faça ou o que você tente, mais cedo ou mais tarde você vai morrer também, então pra quê vivendo na sombra do medo da morte? Abrace-o! Aceite-o! Reine sobre ele! Se vamos morrer de qualquer maneira, então não devemos temer a morte, mas sim temer uma morte entediante! Se você vai morrer, então certifique-se de morrer da melhor forma possível! Morra a sua morte ideal, para que você possa deixar esse mundo sem arrependimentos!

— Morte... ideal...? – Encontrava dificuldades em falar, mas nada comparável a dificuldade que estava tendo em entender o que o Juggernaut queria dizer. Falando sobre a morte desse jeito, depois de ter sofrido um ataque como esse e enquanto mantém um sorriso tão aberto no rosto... eu não sei dizer se esse homem é um monstro corajoso, um monstro estúpido ou um monstro insano. Talvez uma mistura dos três. — Morrer aqui... isso seria uma morte ideal para você, Jiazz? Morrer em uma terra estranha, por uma causa com a qual não se importa, longe de seus amigos?

— Toda terra é estranha, toda causa é fútil, e os amigos, os verdadeiros amigos, nunca estão longe, porque você sempre tem eles do lado esquerdo do peito – respondeu o Juggernaut, sempre sorridente. – Além do mais, há mais nisso do que você pode achar, Odin. A minha morte ideal é uma morte guerreira: para mim, não existe nada melhor do que o pensamento de morrer em uma batalha feroz, perante um inimigo mais forte do que eu... e se eu morresse diante desse seu último ataque, seria exatamente isso que eu teria. Apesar de que, parece que o destino decidiu que hoje não é o melhor dia pr’eu morrer – disse ele, meneando com a cabeça. – Não que eu me importe muito, francamente. Ainda tenho muita coisa interessante para fazer, e existem muitas pessoas fortes que eu quero enfrentar. Essa experiência que você me deu é algo que faz com que eu me sinta vivo de novo, mas se não se importa, acho que vou continuar do lado dos vivos por algum tempo mais.

Não soube o que dizer em resposta a isso. Ele... tem um ponto, eu suponho. Apesar de não achar que isso importa muito aqui. Por mais “interessante” que aquela conversa sobre morte pudesse ser, o fato era que não fazia diferença alguma; independente do modo de pensar do Juggernaut sobre um assunto ou outro, ele continuava a ser seu inimigo, e o fato dele ainda estar de pé só podia representar uma coisa. Eu falhei em minha missão. O Juggernaut... ele venceu essa luta.

— Bom, de qualquer forma, temo que não estou aqui para ficar filosofando sobre a vida e a morte – murmurou Jiazz, estalando seu pescoço. As chamas douradas que haviam envolvido sua ferida tinham acabado de fazer seu trabalho até agora, fechando-a completamente sem deixar qualquer sinal de que ela havia sequer existido em primeiro lugar, e como que para provar que estava bem o Juggernaut esticou seu respectivo braço sem problema algum. – Você, Odin, me deu uma luta bem interessante. É raro que eu consiga uma luta como essa, e ainda mais raro que eu encontre alguém mais forte do que eu. Heh, isso é de certa forma reconfortante, sabe? O mundo seria muito sem graça se eu fosse a pessoa mais forte por aí. Gênios cheios de talento ou guerreiros extremamente esforçados... eu francamente não me importo com para qual classificação alguém pende, mas eu sei que quero que meus oponentes sejam poderosos, e você certamente é poderoso. Foi divertido lutar contra você, Wynthers, e diante da sua força e da sua determinação em vencer, eu não consigo dizer outra coisa além disso...

A mão esquerda de Jiazz disparou para frente, e Odin se viu fechando seu olho em preparação para o escuro da morte, mas golpe nenhum lhe atingiu. Alguns momentos se passaram e ele não sentiu nada, e quando compreendeu que nada estava vindo ele arriscou abrir seu olho novamente.

E esse se arregalou de imediato quando viu o que estava a sua frente, pois isso não era um punho, mas sim uma mão estendida, amistosa.

— Você tem o meu respeito – disse o Juggernaut, simples e breve, mas com palavras pesadas que eram completamente sinceras.

Continuou olhando fixamente para essa mão mesmo depois de ouvir aquilo, e ficou nisso por mais um bom tempo enquanto o Juggernaut continuava a espera-lo. Depois de alguns momentos e de ver que Odin não ia tomar sua mão, Jiazz acabou por dar de ombros como quem diz “fazer o quê?” e se ajoelhar em frente a ele – tomando o cuidado de queimar antes o vômito do cavaleiro com suas chamas.

— Eu não sei o que você sabe de mim, Odin, mas uma coisa que você deve saber se pesquisou um pouco é que eu geralmente não respeito nada nem ninguém. Isso é particularmente notável quando alguém exige respeito de mim como se algo merecesse ser respeitado só por existir, é bem difícil que você faça eu me importar com alguma coisa que não cativou o meu interesse em primeiro lugar, o que logicamente sugere que o meu respeito é algo difícil de se obter. E dito isso, eu devo dizer que esse é um dos pontos que tem feito essa guerra tão divertida para mim; encontrei diversas pessoas aqui que conseguiram o meu interesse... embora você seja a única até agora que realmente conseguiu o meu respeito. E isso, Odin, é algo louvável. Louvável o bastante para que eu chegue à conclusão de que você merece uma espécie de prêmio por isso.

Seu rosto contorceu-se numa máscara de dúvida ao ouvir isso, mas Jiazz não ofereceu esclarecimentos. O Juggernaut tornou a se levantar, correu o olhar pelo ambiente ao seu redor, e então ergueu uma de suas mãos tão alto quanto pôde. Chamas douradas começaram a queimar na palma dela, inicialmente de forma não muito diferente à de uma tocha, mas logo elas ganharam força e intensidade, e então elas ganharam vida. As chamas se espalharam para todos os cantos, indo para vários pontos diferentes do terceiro andar, e uma parte delas inclusive chegou a ir para o próprio Odin. Um ataque?! Tentou se afastar delas desesperadamente, mas seu corpo falhou em lhe responder, e no fim das contas ele acabou apenas caindo de cara na areia.

 – Ei, ei, não precisa se desesperar assim. Quero dizer, você não pode estar realmente achando que eu pretendo lhe fazer mal com isso, não é? Sei que não devo estar lá muito alto no seu conceito a essa altura, mas confio que você ao menos saiba que não sou o tipo de cara que sai matando homens feridos desnecessariamente. – Enquanto ele falava, Jiazz deixava que suas chamas corressem ao redor de Odin, e para a surpresa do cavaleiro elas não estavam lhe queimando. Na verdade, elas estavam fazendo exatamente o contrário disso; por onde elas passavam ele conseguia sentir seu corpo melhor, como se todo o dano que tivesse sofrido durante a luta estivesse sendo queimado por elas de alguma forma, e até mesmo a ferida do seu braço decepado começou a se fechar diante dessas chamas. – Sabe, eu seria capaz de criar um braço novo se fosse para mim, mas esse é um trabalho complicado. Criar o braço em si é relativamente simples, mas reestabelecer as ligações nervosas e musculares, os vasos sanguíneos e tudo mais? Cara, isso é complicado, e eu preciso ser capaz de sentir as coisas para fazer algo tão complexo. Não consigo fazer o mesmo com você, mas posso pelo menos dar um jeito nas suas feridas. Até porquê, estou bem certo de que você iria acabar morrendo se ficasse sangrando naquele ritmo, e isso seria bem anticlimático.

A forma calma como o Juggernaut falava daquilo entrava em contraste com a simples descrença que Odin mantinha enquanto via tudo isso. Ele está me curando? .... Por quê? O que diabos ele tem a ganhar em me curar? Por mais que tentasse, simplesmente não conseguia entender a lógica pela qual o Juggernaut estava aparentemente funcionando, e isso lhe incomodava mais do que podia colocar em palavras. E aparentemente Jiazz viu isso, pois logo o olhar dele voltou-se para Odin, tão amistoso quanto sua mão havia sido antes.

— Que foi, cavaleiro? Ainda confuso? Eu entendo que isso pode ser algo um tanto quanto ortodoxo, mas acredito que você é esperto o suficiente para entender o que isso significa – disse Jiazz, sorridente. – Conquistar o meu respeito não é algo fácil. Por tê-lo feito, não há nada mais justo do que que você receba algo em troca, certo? Considere isso como uma oferta de paz; eu não tenho intenção alguma de manter hostilidades com você ou com seus subordinados depois disso tudo, e para provar essas intenções eu irei curar você e os seus guerreiros no Terceiro Andar. Parece justo, não concorda?

Ele não esperou por uma resposta. Suas chamas ainda estavam ardendo quando ele desapareceu diante do olhar de Odin, fazendo com que o olho do cavaleiro se arregalasse por um momento em susto antes que ouvisse o som dos seus passos novamente. Olhou para o lado e viu Jiazz ali, fitando o horizonte... ou, mais precisamente, as escadarias.

— Isso dito, acho que convém deixar uma coisa clara; por mais que eu não tenha intenção de manter hostilidades com você e os seus, eu também não tenho intenção de deixar esse trabalho pela metade. Eu poderia dizer que isso é algum tipo de ética trabalhista ou coisa do tipo, mas seria uma piada fingir que eu aderiria a uma ética dessas.  Ainda assim, o fato é que eu quero acabar com isso depois de ter seguido tão longe por tanto tempo. Então, pra encurtar as coisas... eu vou atrás de Kastor e Hozar agora, Odin.

Se as palavras anteriores do Juggernaut haviam lhe deixado confuso e começado a fazer com que pensasse melhor sobre o tipo de homem que ele era, essas de agora fizeram que todo esse progresso fosse por água abaixo. Ainda não era nada fácil fazer qualquer coisa considerando o quão cansado estava, mas a cura do Juggernaut havia ao menos melhorado sua situação um pouco – o suficiente para que pudesse de alguma forma de colocar em pé rapidamente.

— Eu não vou deixar – declarou Odin, com uma força na voz muito maior do que a que tinha em seu corpo. Seu olhar ficou fixo sobre o Juggernaut, que por sua vez se manteve imóvel aonde estava, sem demonstrar a menor reação perante às suas palavras. – Se você quer fazer alguma coisa com os meus filhos, vai ter que passar por cima de mim primeiro.

 – ... É, eu esperava por uma resposta como essa – murmurou por fim o Juggernaut, virando seu rosto o suficiente para que pudesse olhar para Odin por cima do seu ombro. – Você sabe que isso já aconteceu, não é, Wynthers? Eu acabei de lhe derrotar, e por mais que eu tenha te curado agora, tanto você quanto eu sabemos que isso não é de longe o suficiente para te colocar em condições de luta novamente. E mais do que isso, eu já te falei sobre a minha peculiaridade, não falei? Eu fico mais forte com cada luta que tenho, e quanto mais difícil a luta, maior a força que tiro dela. Não vou bancar o bonzão e dizer que estou muito acima do seu nível agora, mas se você não conseguiu me matar antes, agora que você não tem chance mesmo.

— E você acha que isso importa? – Questionou Odin, arrancando um suspiro do Juggernaut. – Kastor e Hozar... você sabe o quão importantes eles são para mim, não sabe? Nunca que eu vou deixar você fazer mal a eles. Enquanto meus ossos tiverem forças, eu irei defende-los.

— E você parece não se tocar que estou dizendo que você é incapaz de fazer isso. No sentido mais literal possível da palavra. – Agora Jiazz se voltou completamente para Odin, uma expressão aborrecida cintilando em seu rosto. – Você não é lerdo, Odin, então não se faça de um. Você sabe tão bem quanto eu que você mal está se aguentando de pé a essa altura, e isso com a minha cura. O que você pretende fazer? Gritar alto o suficiente para explodir o meu cérebro? Por favor, isso é estúpido. Você me enfrentou, você tentou me derrotar, e por mais que tenha feito um esforço admirável, você perdeu. Aceite isso. Ninguém vai ganhar nada da sua morte, então vá parando de tentar cometer suicídio.

— Suicídio? Como se eu planejasse algo assim. – Não era fácil fazer isso enquanto na sua situação atual, mas com esforço Odin conseguiu forçar um sorriso ao seu rosto. – Eu não tenho nenhuma intenção de morrer..., mas eu vou te derro-

Antes que ele pudesse terminar de falar, os olhos de Odin se tornaram completamente brancos. Seu corpo perdeu as forças, e ele caiu ao chão sem cerimônia, afundando seu rosto nas areias. Acima dele, Jiazz apenas observou com um olhar neutro enquanto Odin caia, sua mão ainda erguida depois de ter desferido um golpe rápido na nuca do cavaleiro.

— Eu não sei se você estava blefando para me provocar ou se realmente acreditava no que estava dizendo, Odin, mas isso não importa. Eu não vou te enfrentar de novo, cavaleiro – murmurou Jiazz, suspirando pesadamente antes de esticar seus braços e começar a caminhar para fora daquele andar, em direção às escadarias que se erguiam ao horizonte. – Essa guerra está quase acabando, eu sei disso. E antes dela acabar, eu pretendo completar meu último objetivo. Enfrentar os líderes da Era Dourada.

 

====

Sabia que ainda restavam alguns guerreiros espalhados pelo Pandemonium. Mesmo tendo enfrentado grandes pessoas nos andares inferiores, Jiazz havia notado que algumas estavam faltando. Em especial, os membros da Era Dourada. Não me lembro de ter visto nenhum deles me enfrentando, e isso é no mínimo estranho. Eles são os principais envolvidos nessa guerra, e não é possível que eles tenham sido todos derrotados. Havia imaginado que eles deveriam estar no Quarto Andar enfrentando Tristah, mas assim que chegou à Catedral uma das primeiras coisas que o Juggernaut notou foi que o lugar estava pacífico demais. Toda a atmosfera dela era calma e serena, e embora isso fosse exatamente o que alguém esperaria de um lugar chamado “Catedral”, isso também era a última coisa que esperaria de um campo de batalha.

E no entanto era inegável que uma batalha havia ocorrido ali. Destroços e marcas de destruição aqui e ali deixavam isso bem claro, e se mesmo depois de ver todas essas coisas alguém ainda tivesse alguma dúvida, o corpo de Tristah que ele encontrou em certo ponto do andar deixava tudo escancarado. Então, eles realmente estiveram aqui, hein? E aparentemente conseguiram derrotar Tristah também... surpreendente. Havia se encontrado com a mulher algumas vezes no passado e havia visto o suficiente das suas habilidades para saber que ela era bem forte. Tem mais poder mágico até do que o seu líder, embora não seja tão flexível como ela. Dos dois, Balak é com certeza o mais perigoso, mas Tristah não é uma oponente fácil de se lidar. Afinal de contas, ela era a segunda pessoa mais forte do Olho Vermelho, e até onde Jiazz sabia, ela havia sido a responsável por matar Ezequiel, um dos líderes do Salão Cinzento. Se eles a derrotaram, isso significa duas coisas: eles são mais fortes do que eu havia imaginado, e eles já seguiram em frente.

Sentiu seu cenho se franzir quando começou a imaginar a situação de Balak, enfrentando sete guerreiros perigosos simultaneamente no Elísio, e esse pensamento motivou Jiazz a acelerar o ritmo, começando a correr rapidamente em direção ao Quinto Andar.

 Não demorou muito depois que ele resolveu fazer isso. Com sua velocidade ele alcançou rapidamente a sala das escadarias para o Quinto Andar, e ao chegar nessa sala ele deu de cara com seis pessoas – seis guerreiros que estavam parados ali, aguardando por algo. Ou alguém.

— Hm, parece que ele chegou... – murmurou uma mulher ruiva com apenas um braço, se levantando do lugar onde estava ajoelhada, conjurando uma fleche de fogo em sua mão.

— Tsc, já não era sem tempo. A minha bunda já estava ficando dormente! – Reclamou um homem de cabelos negros e feição que era tanto aborrecida e hostil, com um braço de carne e outro de aço.

— Para demorar tanto assim... só consigo imaginar que ele entrou em confronto com Odin – comentou uma mulher de cabelos brancos, envolta em nalgum tipo de armadura de aço que Jiazz desconhecia, diferente de tudo que já havia visto antes, com uma feição inexpressiva no rosto.

— Mas se ele está aqui... será que Odin está bem? – A que demonstrou preocupação era uma mulher de expressão gentil. De todos ali ela era a que parecia mais jovem e que menos parecia com uma guerreira, mas o poder que conseguia sentir sendo exalado dela deixava claro que não podia subestimá-la.

— É claro que está. Meu pai é um homem bom demais para ser morto por alguém da laia desse – respondeu rispidamente o homem que aparentava ser o líder daquele grupo, um sujeito alto e forte, vestindo uma grossa armadura cinzenta e trazendo um martelo de batalha nos ombros enquanto encarava fixamente o Juggernaut.

— De qualquer forma, é melhor deixarmos para nos preocupar com Odin depois – acrescentou uma mulher ruiva de feição severa enquanto desembainhava sua espada e mantinha um olhar sempre cauteloso sobre Jiazz. – Temos coisas mais urgentes com as quais nos preocupar no momento.

Correu os olhos por aqueles seis de forma calma, e embora seu olhar tivesse começado acompanhado por uma expressão confusa, essa logo se transformou numa expressão entusiasmada, como a que alguém esperaria de um garoto que acabou de ganhar seu mais novo brinquedo.

— Heh... então é aqui que vocês estão se escondendo? – Questionou Jiazz, dando um passo em direção aos seis. Tentou parecer ameaçador com isso, mas nenhum deles demonstrou qualquer sinal de sentir-se intimidado por aquilo. Eles ficaram aonde estava e continuaram o que faziam tranquilamente como se nada tivesse acontecido, e só isso já foi o suficiente para que o Juggernaut soubesse que aquela luta ia ser diferente das outras. Hahahahahaha, hahahahahahahaha! Perfeito, fantástico! Isso vai ser ótimo! — Afinal, o que vocês estão fazendo aqui, membros da Era Dourada?

— Isso não é óbvio, seu panaca desmiolado? – Disse Duke Graham, encarando Jiazz com um olhar desafiador enquanto batia uma mão na outra.

— Nosso líder, Kastor, está lutando além dessas escadas – murmurou Teigra Blacktiger, apontando para as escadas mais atrás dela com o polegar, sem nunca tirar os olhos de Jiazz. – É apenas lógico que guardemos as escadas que levam para ele.

— Ah, é? E por que vocês fariam isso? Por que não, sei lá, simplesmente avançar para ajudá-lo? – Perguntou Jiazz, embora sentisse que já tinha uma boa ideia da razão.

— Porque ao contrário de vocês do Olho Vermelho, nós sabemos uma coisa ou outra sobre honra – respondeu Kyanna Aoki, e no momento em que ela disse aquelas palavras toda a sua expressão se tornou subitamente muito mais séria e agressiva, fazendo com que ela parecesse uma mulher completamente diferente da garota gentil que ele havia visto antes.

— Kastor pode não ser a pessoa mais esperta que o mundo já viu, ou a mais certinha, mas ele tem seu próprio código de honra e seu próprio senso de orgulho – apontou Anabeth Di Gregori, mantendo sempre um olhar cauteloso sobre Jiazz. – Ele havia dito que iria derrotar Balak junto de Ekhart e Shell, e é exatamente isso que vai acontecer. Ele é nosso líder, e ele decidiu ter essa luta. Interrompê-la seria ofendê-lo mais do que qualquer coisa. Como seus subordinados, é nosso dever confiar em Kastor em suas habilidades.

— Não sabemos o que está acontecendo ou como as coisas estão indo nesse momento, mas sabemos em quem estamos apostando. Não importa quem seja o oponente ou quão perigosas as coisas possam parecer, Kastor não vai perder. Se ele disse que vai vencer, então ele vai vencer. De um jeito ou de outro, ele vai vencer. — A convicção absoluta com a qual Bryen Hardying disse aquelas palavras deixou clara a fé que a ruiva tinha em seu líder, sem parecer incerta por um segundo sequer.

— Sim. Kastor vai vencer, e por isso nós não vamos interromper. E logicamente, também não vamos deixar que ninguém interrompa – disse Hozar Royes, arquejando uma de suas sobrancelhas. Um rápido olhar, quase imperceptível, foi trocado entre ele e seus outros companheiros, e então os seis avançaram um único passo em direção à Jiazz em sincronia perfeita.

JIAZZ O JUGGERNAUT, NÓS SOMOS A ERA DOURADA.— As vozes dos seis soaram ao mesmo tempo, se misturando em completa harmonia, de forma a fazer com que Jiazz pudesse identificar a voz de cada um dos seis enquanto ao mesmo tempo ouvia o coro soar como as palavras de uma única pessoa. – EM NOME DO NOSSO LÍDER, KASTOR STRAUSS, VOCÊ NÃO VAI PASSAR!

Aquelas palavras trouxeram o maior dos sorrisos ao rosto de Jiazz. Hahahaha, sim! Sim, sim, SIM! É disso que estou falando! Já havia sido desafiado dezenas de vezes em sua vida, mas aquele foi de alguma forma diferente. Ele conseguiu fazer o sangue de Jiazz ferver em suas veias, fez com que o Juggernaut se sentisse tão entusiasmado que ele mal podia se controlar o suficiente para não começar a gritar e gargalhar como um pirralho hiperativo.

— Hehehehe... heheh, hahaha, hahahah, bhahahaha, GYAHAHAHAHAHAHA! – A gargalhada que escapou da sua garganta foi a marca do seu fracasso nisso, alta e ressoante como o soar de um trovão. Chamas douradas começaram a arder ao redor dos braços de Jiazz e o Juggernaut jogou seu torso para frente, em direção aos seus novos oponentes. – Hehehehe, ótimo! Vocês dizem que eu não vou passar, não é? Pois bem, eu lhes digo para tentarem o seu melhor! Me parem! Se puderem!



Notas finais do capítulo

Primeiro Andar – O Mundo de Pedra

Ylessa VS Piromaníaco (Vencedora: Ylessa)
Bokuto VS Shiva (Vencedor: Bokuto)
Soulcairn VS Kong (Vencedor: Soulcairn)
Duke VS Bertold (Vencedor: Duke)
Breath, Denis, Zetsuko e Blair VS Alcatraz e Zumbis (Vencedores: Quarteto)
Jane VS Cleus (Vencedor: Cleus)
Syd VS Cleus (Vencedor: Cleus)
Bokuto VS Cleus (Luta Interrompida)
Bokuto e Syd VS Ibur (Vencedores: Bokuto e Syd)
Breath, Denis, Zetsuko, Blair, Syd, Coralina e Orochi VS Jiazz (Vencedor: Jiazz)

Segundo Andar – O Labirinto Eterno

Maoh VS Zaniark e Byron (Vencedor: Maoh)
Kyanna VS Steelex (Vencedora: Kyanna)
Teigra VS Behemoth (Vencedora: Teigra)
Mefisto VS Zumbi de Zephyr (Vencedor: Mefisto)
Hozar VS Reivjak (Vencedor: Hozar)
Enderthorn VS Octo Gall (Vencedor: Octo Gall)
Bryen VS Octo Gall (Vencedora: Bryen)
Goa VS Saber (Vencedora: Saber)
Anabeth VS Saber (Vencedora: Saber)
Cleus VS Saber (Em andamento)
Valery e Bryen VS Presas (Interrompida; Valery morta)
Senjur VS Presas (Vencedor: Presas)
Bryen e Enderthorn VS Presas (Vencedores: Bryen e Enderthorn)
Maoh, Enderthorn, Bokuto e Titânia VS Jiazz (Em Andamento)

Terceiro Andar – O Deserto de Ossos

Hozar VS Gunlamar (Luta Interrompida)
Trevor e Marco VS Gunlamar (Vencedores: Trevor e Marco)
Trevor e Marco VS Dokurei (Vencedor: Dokurei)
Ex, Cleus e Ylessa VS Dokurei (Vencedores: Ex, Cleus e Ylessa)
Ex, Cleus e Ylessa VS Jiazz (Vencedor: Jiazz)
Soulcairn e Odin VS Jiazz (Fragmentada)
Soulcairn VS Jiazz (Vencedor: Jiazz)
Odin VS Jiazz (Vencedor: Jiazz)

Quarto Andar – A Catedral

Hozar VS Tristah (Vencedor: Hozar)
Hozar, Duke, Bryen, Teigra, Kyanna e Anabeth VS Jiazz (Em andamento)

Quinto Andar – Elísio

Kastor, Ekhart e Shell VS Balak e o Anjo de Sangue (Fragmentada)
Kastor e Ekhart VS Balak (Fragmentada)
Shell VS Anjo de Sangue (Vencedor: Shell)
Ekhart VS Balak (Vencedor: Balak)
Kastor VS Balak (Em andamento)

Primeiro Andar Subterrâneo – Terra das Bestas

Odin, Soulcairn, Gwynevere e Ezequiel VS Hashmaul (Vencedores: Odin e Soulcairn)

Segundo Andar Subterrâneo – Terras Úmidas

Titânia, Vaen, Chappa e Dayun VS Retalhador (Vencedora: Titânia – Vaen e Chappa mortos, Dayun inconsciente)



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