O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 121
Fogo e Vento




Quarto Andar do Pandemonium, “A Catedral”

 

PUNHOS PODEROSOS SE CHOCARAM MAIS UMA VEZ NO CENTRO DA SALA, e a explosão resultante do confronto entre vento e fogo forçou ambos a recuarem. Hozar da Era Dourada e Tristah do Olho Vermelho... ambos já estavam se confrontando a alguns bons minutos em grande intensidade, e ambos já estavam cansados pela sua luta. Tristah estava sendo forçada a usar mais intensidade mágica em suas magias do que de costume para poder bater de frente com o poder de Hozar, e o Cinzento por sua vez estava enfrentando a mulher depois de ter tido uma luta exaustiva com um dos mercenários contratado pelo Olho, Reivjak “o Deus do Aço”. Ambos estavam ofegantes, lutando por golfadas de ar, chegando cada vez mais próximos do limite das suas forças...

Mas ao mesmo tempo que algo assim era claro para qualquer um que olhasse para eles, também era óbvio que os dois estavam determinados, decididos a não parar aquela luta até que saíssem triunfantes.

Eles investiram um contra o outro novamente ao mesmo tempo, armados de uma ferocidade que era quase que bestial. O punho direito de Hozar se ergueu e foi prontamente envolvido pelas chamas hostis que ele brandia em batalha, e em resposta a isso a própria Tristah jogou um de seus punhos para trás. Mas ela foi mais lenta, e enquanto seu punho ainda se preparava, Hozar desferiu seu golpe. Seu punho avançou direto contra o rosto de Tristah, ardente como o próprio inferno... e quando ele estava prestes a alcançá-la o cavaleiro viu um sorriso ganhar o rosto da mulher.

Uma estranha corrente de vento veio do lado sem aviso algum, parecendo focada diretamente no braço de Hozar, e pego de surpresa por ela num momento em que não esperava nenhuma interrupção, o cavaleiro não pode fazer nada. Seu braço foi jogado para o lado, fazendo com que seu punho se movesse e com que seu soco errasse o rosto de Tristah, apenas o suficiente para que as chamas brilhassem sobre as feições dela, acentuando ainda mais o sorriso malévolo que a mulher tinha nos lábios. O punho dela concluiu seu movimento, e graças ao que havia acabado de acontecer, Hozar estava com a guarda completamente aberto; seu peito foi atingido em cheio por um punho cercado pelo que só podia ser descrito como um tornado em miniatura, e a força do golpe estraçalhou tudo em seu caminho. As ondas de vento do tornado moviam-se tão rápido que funcionavam como facas, e elas dilaceram através do peito de Hozar, espalhando sangue para todos os lados enquanto ao mesmo tempo a força do soco o empurrava para trás brutalmente, arrastando-o alguns metros por mais que ele se esforçasse em resistir ao ataque.

Tentou se controlar para não fazer isso, mas acabou tendo de levar uma mão ao peito depois do ataque, e foi só com muita luta que conseguiu se manter em pé mesmo enquanto suas pernas começavam a fraquejar. Tch... bosta...! Aquele havia sido um erro bobo, mas era algo que podia muito bem custar-lhe a luta; começou a sentir quase que de imediato o seu corpo começando a trabalhar na regeneração dos danos que o golpe havia lhe causado, mas isso iria demorar algum tempo, e sabia que Tristah não iria lhe dar esse tempo.

Quando ergueu seus olhos novamente para ela, fez isso apenas a tempo de vê-la acabando de cruzar seus braços, e logo sentiu exatamente o que isso significava em seus ossos. Com seus movimentos era havia invocado duas ondas de vento que funcionaram como espadas, cortando através da carne e osso de Hozar em golpes que criaram um verdadeiro “x” sangrento em seu peito, espalhando ainda mais do seu sangue pelas redondezas e agravando ainda mais suas feridas anteriores. Teve de morder seus dentes para não gritar em dor com o ataque, mas aquilo não foi o fim, pois enquanto ele sofria em dor Tristah usou a chance que teve para usar uma magia de vento em seus pés – acelerando seus movimentos – e avançou contra ele sem hesitar.

Antes que Hozar pudesse se recuperar o bastante para sequer começar a pensar em uma reação ela acertou o centro do seu peito com um golpe de palma aberta, e dessa palma aberta ela liberou uma rajada de vento destrutivo que teve seu epicentro bem no meio do peito de Hozar.

Não teve disputa. A rajada abriu um buraco, não, um rombo no peito de Hozar sem encontrar resistência alguma, arrancando uma boa parte do seu peito com sua violência e jogando o corpo do Deus da Fúria para trás, com seus olhos brancos em dor, com seu peito literalmente estraçalhado e sem qualquer força para tentar reagir a algo assim.

Não demorou mais do que alguns segundos, mas para Hozar isso foi uma eternidade. Seu corpo caiu ao chão como uma bacia vazia, quicando por uma vez antes de simplesmente jazer ali, estiraçado, de braços abertos. De onde estava Tristah apenas observou tudo aquilo com um olhar neutro. Mesmo depois de um ataque tão poderoso a maga não conseguia sentir-se completamente certa da vitória, e isso se dava por um motivo bem simples; ela conhecia Hozar. Ela havia lutado com ele o suficiente para saber o quão forte e monstruoso aquele cavaleiro era, e ela sabia bem o monstro de poder que aquele guerreiro representava no campo de batalha. Aquela havia sido uma das suas técnicas mais fortes, mas mesmo assim, não conseguia sentir-se completamente segura de que ela era o suficiente para derrota-lo.

— .... Não, estou sendo paranoica demais – disse ela, pensando alto. – Hozar... ele pode ser tão forte quiser: isso não vai fazer diferença. Qualquer homem, do mais alto rei ao mais baixo plebeu, morre uma vez que seus órgãos estejam em pedaços. Nem mesmo um guerreiro tão monstruoso como Ezequiel foi capaz de sobreviver depois de receber um golpe desses. Não importa o quão forte Hozar possa ser, seu destino foi selado no momento em que eu lhe atingi.

Dizer aquelas palavras em voz alta para si mesma lhe deu uma confiança que estava lhe faltando até então. Mais segura do que havia feito, Tristah dignou um último olhar ao corpo moribundo de Hozar antes de se virar e começar a caminhar para fora dali. Tenho muito a fazer para perder tempo com um moribundo. Pela energia absurda que sinto do andar inferior, parece que Jiazz está aqui, e pelo tempo que ele passou nesse andar só consigo imaginar que ele está enfrentando alguém, e tenho também de me preocupar com Balak no andar superior. Por mais força que ele possa ser, seus oponentes são nada menos do que dois dos Hospedeiros e um dos Inquisidores do Colégio Branco. Ele vai precisar da minha ajuda. Exausta como estava não sabia exatamente o quanto poderia fazer para ajudar qualquer um dos dois, mas essa era a menor das suas preocupações; estava decidida de que iria ajudá-los, e isso era final. Independente de como eu esteja ou de como esteja a situação deles... independente do que aconteça... é meu dever fazer a minha parte para que sejamos vitoriosos nessa guerra.

— Aonde... aonde você pensa que está indo, bruxa do vento?

As palavras fizeram com que Tristah congelasse bem aonde estava, fizeram com que seus olhos se arregalassem em surpresa e com que seu queixo caísse em descrença. Não pode ser... ele deveria ter morrido com isso! Havia visto seu golpe abrir um rombo no peito de Hozar e sabia que o cavaleiro não tinha nenhuma habilidade como ilusionista, e exatamente por isso tinha tanta dificuldade em acreditar que estava ouvindo a voz dele naquele momento.

— Eu... eu ainda estou vivo...! – Lentamente a maga voltou novamente seu corpo na direção da qual a voz vinha, e o que viu diante dos seus olhos foi Hozar, se reerguendo com claras dificuldades do chão, mas ao mesmo tempo com uma persistência incrível. Se havia qualquer dúvida sobre o estado dele, a visão daquele enorme buraco e do sangue que escorria dele deixou tudo muito claro, embora nem mesmo isso parecesse ser o suficiente para parar Hozar, dada a forma como ele lutava para ignorar a dor enquanto se levantava. – Um golpe desses, tão simples assim... nunca será o suficiente para me matar!

Não pode fazer muito mais do que ficar fitando aquela figura com olhos arregalados. Simplesmente não conseguia acreditar no que vi o suficiente para fazer qualquer outra coisa. Esse homem... eu tenho certeza que acabei com todos os órgãos do seu peito com isso. Pulmões, coração, eles devem estar em pedaços aqui por algum lugar, e mesmo depois de perder esses órgãos ele continua vivo? Isso é absurdo! Podia imaginar que a parte demoníaca de Hozar tivesse parte do crédito por isso, mas mesmo assim não fazia tanto sentido pensar dessa forma. Byron é um demônio completo, e Zaniark é meio-demônio depois de ter bebido o sangue dele. E esses dois não tem feitos de resistência para se compararem a esse. Se eu arrancar o coração de um deles, esse cai morto no chão em questão de minutos. Para que Hozar ainda esteja vivo e em condições de fazer qualquer coisa... ele precisa de algo a mais...!

Foi algo pensar nisso que se lembrou de algo que podia muito bem ser a resposta que procurava. Ezequiel... quando eu enfrentei Ezequiel eu também fiz a mesma coisa com ele, e embora ele tenha acabado morrendo no fim das contas, isso não foi imediato. Ele resistiu por algum tempo, o suficiente para me atacar de novo e tentar me matar. Lembrava-se ainda da ferocidade que o Terror dos Dragões havia demonstrado naquele momento, bem como lembrava-se de como isso havia quase significado a sua morte. Ezequiel e Hozar... será que esses dois são movidos pela mesma coisa? Será que tudo isso, toda essa teimosia e essa persistência... será que é tudo fruto determinação deles em continuarem vivos?!

— Você... afinal, por que você ainda luta? — Dentre todos os membros do Olho Vermelho, Tristah era provavelmente a mais controlada. Alguns diziam que ela tinha mais controle das suas emoções do que até mesmo Balak, dada a postura serena que ela mantinha quase que perpetuamente, mas naquele momento até mesmo ela perdeu sua compostura. – Você está praticamente morto, com esse rombo enorme no peito! Você está sangrando como porco no abate e sofrendo mais do que alguns sofrme durante torturas, e você ainda existe em lutar! Por quê?! Por que você se esforça tanto para proteger o cavaleiro azul?! Ele tem um maldito demônio em seu interior! Deixe-o morrer de uma vez e acabe logo com tudo isso! Por que lutar tanto assim por ele?!

— Porque Kastor é meu amigo...! – A resposta de Hozar foi simples, mas de coração... ou do mais próximo de coração num homem com um buraco como aquele no peito. Ela foi o suficiente para silenciar Tristah novamente e fazer com que ela não pudesse fazer anda mais do que continuar olhando para ele com aquele fixo olhar perplexo. – Kastor... ele é o meu melhor amigo...! Você não entende... não tem como entender, não é? Você não entende o que é o vazio, o desespero, a depressão! Você não entende o que é se sentir sempre sujo como se tivesse acabado de rolar na lama, o que é sentir que você não tem valor algum, o que é acreditar com a mais profunda certeza que não há ninguém nesse maldito mundo que se importa com você! MAS EU SEI! Eu passei por isso, eu afundei nesse buraco até quase tirar a minha vida, e foi só graças a Odin e a Kastor que eu me reergui! Meu pai e meu melhor amigo... você tem alguma noção do quão importantes eles são para mim?! Esses dois são as pessoas que eu mais amo nesse mundo! Eu faria qualquer coisa pelo bem deles sem pensar duas vezes, e ainda assim, aqui estão vocês! Os membros do Olho Vermelho, essa guilda negra que acha que tem algum direito de brincar de “júri, juiz e executor”! Vocês saem de qualquer que seja o buraco no qual se escondem e se levantam contra nós, ameaçando a vida desses dois com acusações estúpidas e insistindo em tentar passar por heróis! Você... você tem alguma ideia do que isso significa para mim?! Da fúria que isso me causa?!

Até então Hozar estava se reerguendo com suas mãos, apoiando-as no chão e empurrando seu corpo para cima com base nelas, mas no momento em que aquelas palavras vieram da sua garganta essas mãos se fecharam em punhos. Um desses punhos golpeou o chão com força e revolta, e seu impacto foi o suficiente para criar uma cratera profunda aonde Hozar estava. Os olhos do Cavaleiro Cinzento estavam bem abertos naquele momento, praticamente brilhando em raiva e ódio pelo que ela havia acabado de questionar, e quando eles encararam Tristah a maga suou frio por um momento. O rombo em seu peito começou a se fechar rapidamente, e ao redor dos punhos dele ela viu a fagulha das suas chamas voltar a brilhar.

— Vocês do Olho Vermelho... eu não posso perdoá-los pelo que estão fazendo. E por isso eu me recuso a perder para qualquer um de vocês! Não importa o que eu tenha de fazer, eu vou vencer! Mesmo que ao fim de tudo eu acabe em pedaços ou aleijado para sempre, eu não me importo! Eu não vou perder!

Foi ele gritar aquilo para o que antes eram fagulhas se transformassem em um verdadeiro incêndio. Ambos os braços do Cinzento fossem envolvidos em chamas que avançaram também para o seu corpo, mas elas não pareciam incomodar minimamente Hozar. Imaginou inicialmente que isso se devia ao fato delas serem as próprias chamas do Cinzento, mas então se deu conta de algo que não havia notado até então; as chamas não estavam apenas envolvendo Hozar como também o revestindo, firmando-se como se fossem uma espécie de armadura ardente ao redor do seu corpo, e parecia que a cada peça dessa armadura que era completa o próprio corpo de Hozar mudava um pouco. Era lento, mas também era certo; Tristah não tinha a menor dúvida de que a figura de Hozar estava se tornando cada vez mais bestial diante dos seus olhos, principalmente no que dizia respeito ao rosto dele, que agora parecia menos com o rosto de um humano e mais com o rosto de uma espécie de cão infernal.

Cerberus: módulo três! — Gritou ele ao fim da transformação, e um uivo bestial seguiu seu grito.

O mero uivo foi capaz de gerar uma onda sonora que abalou por um momento tudo ao redor de Hozar, e isso foi o suficiente para que Tristah soubesse que estava com sérios problemas. Maldição... eu não esperava que ele tivesse alguma transformação, embora em retrospectiva talvez eu tenha sido um pouco ingênua em não esperar uma transformação de alguém que é parte demônio. No fim das contas, no entanto, supunha que isso não fazia muita diferença. Com ou sem transformação, as coisas não mudam muito para mim. No fim das contas, eu apenas vou ter que derrotar esse homem do mesmo jeito!

Estalou seus dedos em preparação para o que estava por vir, e no momento em que fez isso Hozar investiu contra ela, saltando com um punho erguido. Podia tentar bloquear aquele ataque com uma barreira de vento e aproveitar-se da chance para lançar um contragolpe, mas não era burra; a força deveria ser o que mais havia aumentado em Hozar, o que significava que barreira nenhuma iria ser de muita utilidade contra seus golpes, e certamente não queria levar um soco dele no rosto. Sendo assim o que fez foi concentrar seu vento ao redor dos seus pés e usar da agilidade extra que ele lhe proporcionou para se mover para fora do caminho do golpe. Não se arrependeu disso; com sua visão perimetral ela viu o golpe de Hozar atingir o chão do lugar onde ela antes estava, e a pedra que constituía o chão da catedral derreteu em uma espécie de poça de magma imediatamente após entrar em contato com o punho de Hozar. Isso é.… parece que as coisas acabaram de ficar um tanto mais complicadas. Tentou erguer sua mão para lançar um contra-ataque contra o cavaleiro, mas ele não lhe deu a chance de fazer isso; mal ele havia terminado seu ataque anterior e ele já se movia novamente em direção a ela, brandindo seu braço com toda a sua fúria na tentativa de atingi-la em cheio. Teve que saltar para trás para evitar esse golpe, mas isso estabeleceu uma distância de apenas um momento, pois logo em seguida Hozar estava novamente sobre ela, lançando mais um de seus golpes.

Não demorou para que percebesse que aquele era um ciclo sem fim. Sempre que desviava de um ataque Hozar seguia imediatamente para o próximo, sem qualquer tipo de janela entre seus ataques da qual ela pudesse se aproveitar. E não só isso, mas seus ataques também não estão sendo racionais. Ele está agindo como uma besta agora, uma criatura selvagem. Embora isso fosse bom já que significava que ele não podia organizar seus ataques de forma a tentar emboscá-la nem nada do tipo, isso também fazia com que os ataques dele fossem bem imprevisíveis; sem esperança de tentar entender alguma lógica por trás deles a única alternativa que restava à Tristah para tentar ver por onde e para onde eles iriam ir seria lendo os movimentos corporais de Hozar, mas ele se movia rápido demais para que ela pudesse ter qualquer esperança de fazer algo assim. Desviar deles da melhor forma que posso é a minha melhor alternativa para lidar com eles nesse momento, e isso é algo que vai acabar explodindo na minha cara mais cedo ou mais tarde. Me mover tanto assim vai consumir rapidamente a minha estamina, e embora ele tecnicamente esteja gastando mais estamina do que eu ao lançar seus ataques, sinto que ele não é afetado por esse tipo de coisa enquanto nesse estado transformado.

Em outras palavras, se ela quisesse ter uma chance contra Hozar, Tristah iria ter de fazer alguma coisa. E para que ela fizesse alguma coisa, ela teria de ser atingida.

Deixou que o próximo golpe que o Cinzento lançou lhe acertasse em cheio. Ele foi um soco na lateral do estômago poderoso o suficiente para fazer com que Tristah vomitasse sangue e bílis antes que ela mesma se desse conta, tudo isso enquanto ao mesmo tempo sentia a sua carne derretendo e o cheiro dela queimando subia às suas narinas. A dor que sentiu com aquele único golpe foi indescritível – o suficiente para fazer com que ela desejasse que aquele ataque tivesse simplesmente a matado de uma vez por um instante – mas valeu a pena; graças a força por trás daquele golpe o seu corpo foi arremessado longe, criando a distância da qual ela tanto precisava e fazendo com que um sorriso se abrisse no rosto da maga.

Olho do Ciclone! — Disse ela enquanto ainda era jogada longe, estendendo suas mãos na direção de Hozar, e assim que as palavras deixaram os seus lábios o seu poder já começou a agir. O ar ao redor do cavaleiro começou a se agitar, e em um único instante o que começou como pouco mais do que uma brisa um pouco mais forte se transformou em uma ventania poderosa o suficiente para soprar árvores e casas longe. Os ventos invocados por Tristah fecharam uma espécie de esfera ao redor de Hozar, movendo-se a uma velocidade tão grande que qualquer coisa que tentasse sair de dentro daquela esfera de vento seria retalhada em pedaços por eles. Foi quando viu essa esfera pronta que Tristah decidiu seguir para a próxima fase do seu ataque; com um movimento das suas mãos ela ordenou que a esfera se fechasse de uma só vez. As centenas de lâminas de vento que haviam sido criadas como parte da esfera foram todas de uma vez contra Hozar, e ao impacto de todas essas lâminas com as chamas ardentes que envolviam o cavaleiro, soou uma explosão.

Um brilho alaranjado dominou toda aquela sala enquanto uma nuvem de fumaça cinzenta se erguia simultaneamente na forma de uma espécie de cogumelo gigante. Tristah – que já estava no ar – foi arremessada ainda mais longe pela força da explosão, mas dessa vez ela foi com um sorriso largo e satisfeito no rosto. Eu consegui! Meu ataque funcionou! Em meio ar ela girou, manobrando seu corpo de forma a aterrissar tranquilamente de joelhos, de olhos fixos no espetáculo pirotécnico que ocorria pouco metros afrente dela.

As chamas da explosão dançaram e se contorceram em direção aos céus como se fossem mãos em um abismo que clamavam desesperadamente pelo sol da superfície. Não se considerava uma mulher sanguinolenta, mas não pode deixar de sentir um profundo senso de satisfação ao ver o quão feroz havia sido o seu ataque. E esse senso só fez crescer ainda mais quando as chamas e a fumaça se abriram para revelar a figura de Hozar. Depois de receber aquele golpe o cavaleiro havia caído de joelhos ao chão, tendo que se apoiar em suas mãos para se sustentar de alguma forma. As chamas que haviam se moldado ao redor do seu corpo pareciam rachadas agora, como se pudessem desmoronar completamente ao menor toque descuidado, e tudo isso dava uma aparência de fragilidade ao Cavaleiro Cinzento que a dama do vento nunca antes havia visto.

Mas ela não teve a oportunidade de se deleitar disso, pois no momento em que ia começar a rir Tristah viu os olhos de Hozar brilharem intensamente em vermelho, e logo em seguida uma única palavra foi pronunciada.

Fraco.

Mal foi capaz de acompanhar os movimentos de Hozar quando ele investiu de novo. Foi apenas os seus instintos e uma boa dose de sorte que permitiram que ela saltasse antes que ele o atingisse, evitando por muito pouco um soco que quebrou e derreteu o chão sobre o qual ela pisava meros momentos atrás. Após seu golpe Hozar urrou, e a mera força por trás desse urro foi grande o bastante para que ela sentisse seu corpo ser empurrado para trás em meio ao ar.

Você realmente acha que um ataque como esse será o suficiente para me derrotar?! — A voz era alta e gutural, como de um ogro falando de dentro de uma caverna, mas mesmo assim era impossível não a reconhecer como pertencendo à Hozar. A compreensão desse simples fato foi o suficiente para fazer com que Tristah ficasse primeiro surpresa pelo fato dele conseguir conservar algum tipo de racionalidade mesmo enquanto naquele estado, para que logo em seguida ela fosse tomada pelo terror que veio com a percepção do perigo que ele poderia representar com isso. – Será que você não entendeu a sua situação até agora? Não há nada que você possa fazer mais contra mim! Não importa o que você tente ou como você tente, você não será capaz de me derrotar!

Ele disse aquilo e avançou novamente contra ela. Dessa vez, estando preparada para isso, Tristah foi capaz de acompanhar seus movimentos de alguma forma, embora tenha notado que ele ainda estava se movendo mais rápido do que antes. Maldição, isso é muito problemático.... Abriu ambas as suas mãos para o lado, e a partir delas ela liberou duas ondas de vento poderosas que serviram para empurrar seu corpo na direção contrária, movendo-a rapidamente para fora do caminho do novo golpe de Hozar. Eu não gosto de admitir algo assim, mas parece que ele tem razão, observou ela, vendo a forma como Hozar se movia e a figura imponente que ele havia se tornado. Se eu não consegui derrota-lo antes ao abrir um rombo em seu peito, é difícil imaginar que eu consiga derrota-lo com qualquer outra magia de vento. E de qualquer forma, não é como se eu fosse ter tempo o suficiente para usar uma técnica mais forte com todas essas investidas dele. A não ser que...

A ideia se formulou rapidamente na sua mente, e estando em uma situação tão desesperadora quanto aquela, Tristah não hesitou em colocá-la em prática.

O Cinzento havia investido novamente contra ela naquele momento, e tal como antes o que ela fez foi colocar suas mãos para o lado e liberar rajadas de vento delas para se lançar longe. Mas dessa vez ela também fez algo diferente; ao se lançar, Tristah também se certificou de inclinar seu corpo o suficiente para que ele pudesse girar enquanto ia para longe, e num momento em que ela teve certeza de que ambos os seus pés estavam apontados para cima a mulher não hesitou em liberar por eles novas rajadas de vento, empurrando-a dessa vez em direção ao chão. Mais um giro rápido e preciso e ela se viu aterrissando, ainda que não de uma forma recomendável. Ergueu seus olhos e, tal como esperava, verificou que Hozar estava um pouco distante, se preparando para uma nova investida. É agora. Tudo ou nada, que rolem os dados!

Antes que o cavaleiro pudesse avançar contra Tristah, um orbe branco brilhante surgiu diante do seu rosto, atraindo sua atenção por um momento, tempo o suficiente para que outros orbes surgissem ao redor dele. As luzes desses orbes brilhavam sobre Hozar, e não demorou para que o cavaleiro começasse a gemer e se debater a medida que elas iam queimando-o, fazendo com que chamas brancas surgissem em meio às chamas vermelhas que o formavam. Não pode deixar de sorrir diante disso. Balak... agora eu finalmente colho os frutos do treinamento que você me deu. Irei usar a técnica que você me ensinou para matar um demônio que te ameaça. Nada mais justo, não concorda?

Seja purificado pelas doze estrelas que formam a coroa divina, demônio, e desapareça junto com a sua corrupção! — O braço direito de Tristah cruzou-se diante dela, com dois de seus dedos apontando para detrás do seu ombro esquerdo, e um segundo depois esses dedos brilhavam com a sua energia. Uma luz branca consumiu seus olhos, e de uma só vez ela descruzou rapidamente seu braço, dando com isso a ordem de execução. – Sanctus Coron-

Faltando literalmente uma letra para que concluísse a ordem e marcasse o fim de Hozar, Tristah foi interrompida. Antes que ela pudesse terminar de falar uma dor fulminante queimou através do seu seio direito, e quando moveu seus olhos para o seio em questão em confusão, o que ela viu ali não era nada menos do que uma flecha feita de puro fogo, cravada nela como uma de aço, mas queimando como chamas vivas. O que é.… qual o significado disso? De onde essa flecha veio? Tentou ignorá-la e terminar o encantamento, mas quando abriu a boca para voltar a falar uma outra flecha veio do nada, atingindo seu ombro esquerdo. Uma terceira veio na sombra dessa segunda, mas essa foi uma que Tristah pode ver a tempo de mover seu rosto para o lado, fazendo com que ela apenas criasse um corte fino na sua bochecha..., mas então sentiu uma terceira flecha lhe atingir no estômago, e aí ela perdeu de vez as forças.

Caiu sobre um joelho de olhos esbugalhados, incapaz de acreditar no que havia acabado de acontecer. Isso é.… isso é impossível. Hozar não pode ter feito isso, eu sei disso. A única solução que podia achar para aquelas flechas eram uma segunda pessoa no campo de batalha, mas quem?

Ergueu os olhos para tentar buscar o responsável por aquilo, mas deu imediatamente de cara com o martelo de guerra de Hozar, a meros centímetros de distância do seu rosto.

Um instante antes que seu golpe atingisse a maga, Hozar se certificou de fazer com que chamas viessem a toda força da parte de trás da cabeça do seu martelo, impulsionando-o com ainda mais força contra sua oponente. Sua arma atingiu a mulher direto no rosto sem dar qualquer chance de defesa a ela, e com o seu impacto o som de ossos se quebrando ressoou pela sala. Dizer que Tristah foi simplesmente jogada longe por aquele golpe seria pouco. Ela foi arremessada pela parede daquela sala, e de outra, e de outra, e outra ainda. Três segundos foram todo o tempo necessário para que ele a perdesse completamente de vista, e foi só após isso que ele se permitiu relaxar. Ela é forte e dura na queda, mas ainda é uma maga. Ela não sobrevive a isso. Respirou fundo para se acalmar e desativou o módulo três... e foi o tempo dele fazer isso para que uma voz familiar soasse.

— Finalmente... você certamente tomou seu tempo lutando contra essa mulher, hein? Seu cinzento de merda.



Notas finais do capítulo

Primeiro Andar – O Mundo de Pedra

Ylessa VS Piromaníaco (Vencedora: Ylessa)
Bokuto VS Shiva (Vencedor: Bokuto)
Soulcairn VS Kong (Vencedor: Soulcairn)
Duke VS Bertold (Vencedor: Duke)
Breath, Denis, Zetsuko e Blair VS Alcatraz e Zumbis (Vencedores: Quarteto)
Jane VS Cleus (Vencedor: Cleus)
Syd VS Cleus (Vencedor: Cleus)
Bokuto VS Cleus (Luta Interrompida)
Bokuto e Syd VS Ibur (Vencedores: Bokuto e Syd)
Breath, Denis, Zetsuko, Blair, Syd, Coralina e Orochi VS Jiazz (Vencedor: Jiazz)

Segundo Andar – O Labirinto Eterno

Maoh VS Zaniark e Byron (Vencedor: Maoh)
Kyanna VS Steelex (Vencedora: Kyanna)
Teigra VS Behemoth (Vencedora: Teigra)
Mefisto VS Zumbi de Zephyr (Vencedor: Mefisto)
Hozar VS Reivjak (Vencedor: Hozar)
Enderthorn VS Octo Gall (Vencedor: Octo Gall)
Bryen VS Octo Gall (Vencedora: Bryen)
Goa VS Saber (Vencedora: Saber)
Anabeth VS Saber (Vencedora: Saber)
Cleus VS Saber (Em andamento)
Valery e Bryen VS Presas (Interrompida; Valery morta)
Senjur VS Presas (Vencedor: Presas)
Bryen e Enderthorn VS Presas (Vencedores: Bryen e Enderthorn)
Maoh, Enderthorn, Bokuto e Titânia VS Jiazz (Em Andamento)

Terceiro Andar – O Deserto de Ossos

Hozar VS Gunlamar (Luta Interrompida)
Trevor e Marco VS Gunlamar (Vencedores: Trevor e Marco)
Trevor e Marco VS Dokurei (Vencedor: Dokurei)
Ex, Cleus e Ylessa VS Dokurei (Vencedores: Ex, Cleus e Ylessa)
Ex, Cleus e Ylessa VS Jiazz (Vencedor: Jiazz)

Quarto Andar – A Catedral

Hozar VS Tristah (Vencedor: Hozar)

Quinto Andar – Elísio

Kastor, Ekhart e Shell VS Balak e o Anjo de Sangue (Fragmentada)
Kastor e Ekhart VS Balak (Fragmentada)
Shell VS Anjo de Sangue (Vencedor: Shell)
Ekhart VS Balak (Vencedor: Balak)
Kastor VS Balak (Em andamento)

Primeiro Andar Subterrâneo – Terra das Bestas

Odin, Soulcairn, Gwynevere e Ezequiel VS Hashmaul (Vencedores: Odin e Soulcairn)

Segundo Andar Subterrâneo – Terras Úmidas

Titânia, Vaen, Chappa e Dayun VS Retalhador (Vencedora: Titânia – Vaen e Chappa mortos, Dayun inconsciente)



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