O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 114
O Homem Mais Forte do Sul




Primeiro Andar do Pandemonium, “Mundo de Pedra”

 

PARALISADOS. Foi assim que os mercenários reunidos na entrada do Mundo de Pedra ficaram ao ver Jiazz. Nenhum deles havia visto aquele homem antes em carne e osso, mas todos conheciam ele. Entre os mercenários, Jiazz era praticamente uma lenda vida. Não por ter feito algo fantástico ou por ser alguém que representava os mercenários de uma forma especial, mas pela sua pura força bruta descomunal. Entre os mercenários existiam certas “regras”, mesmo que informalmente. Orientações que todos buscavam seguir para manter um bom convívio, coisas como “nunca venda informações sobre outro mercenário” ou “jamais misture o pessoal com o profissional”. A maioria delas eram apenas formas de conduta, mas havia uma em particular que existia apenas para Jiazz, uma frase que corria pelos lábios para os ouvidos de qualquer mercenário, mais como um aviso do que como qualquer outra coisa.

“Se você estiver fazendo um trabalho qualquer e Jiazz subitamente aparecer como um oponente, termine o contrato e saia dali o tanto quanto antes. O dinheiro perdido pode ser ganho de novo com alguma outra coisa, e o dano a sua reputação pode ser reparado com o passar do tempo, mas não existe nada que vai te tirar do caixão no qual Jiazz vai te enfiar”.

Infelizmente, correr não era uma opção que nenhum dos sete tinha naquele momento.

— Hum... – A empolgação que Jiazz tinha em seu rosto inicialmente não demorou a secar, fazendo que sua expressão se tornasse consternada, desanimada, e então simplesmente decepcionada, fazendo com que os ombros afundassem cada vez mais. – Cara, que saco! Pelo visto não é aqui que eu vou ter uma luta decente. Droga.

As mãos de Jiazz foram para os bolsos da sua calça, e movendo seus olhos dos mercenários para se focar no caminho a sua frente, ele começou a caminhar calmamente em direção ao corredor daquela sala, ignorando completamente todos os outros.

                Mas o que?

O que é que...?

Isso é sério mesmo?!

Ele... ele está realmente nos ignorando...?

Mas o que diabos ele está planejando?

Esse homem... o poder que emana dele... isso é além até dos rumores...!

Miserável... filho da puta miserável!

Jiazz não chegou a avançar mais do que alguns passos antes que alguém se colocasse em seu caminho; uma única pessoa. Breath se colocou no caminho de Jiazz, a cerca de dez metros de distância dele, e por mais que ele parecesse nervoso, ele também parecia irritado. Seus braços se cruzaram diante do seu corpo, encobrindo um pouco as faixas em seu torso, e sua voz trovejou.

— Ei, Juggernaut! – Gritou ele com força e ferocidade, colocando sua determinação por trás das suas palavras. – O que você pensa que está fazendo? O que diabos você quis dizer com isso de “não vou ter uma luta decente aqui”?!

— Ei, você sabe que eu estou literalmente aqui na sua frente, certo? Você não precisa ficar gritando feito porco no abate, ô esquentadinho. – Respondeu Jiazz casualmente, erguendo levemente uma sobrancelha enquanto continuava a caminhar no mesmo ritmo de antes. – E respondendo as suas perguntas, eu estou indo atrás de alguém forte. Como eu disse há meio minuto atrás, eu não ter uma luta decente aqui, ao menos não com você. Nada pessoal, mas vocês não são fortes o suficiente para sequer me fazer suar, quem dera me divertir.

Breath já estava irritado antes, tendo tomado ofensa da forma como Jiazz havia lhe tratado. Ouvir aquelas palavras esnobes foi o suficiente para fazer com que ele perdesse de vez toda a paciência que ainda lhe restava. Ele assumiu rapidamente uma postura de batalha, e um brilho passou brevemente pelo seu olho antes que Ifrit se mostrasse, o demônio do fogo surgindo acima de Breath como um grande guardião, imitando a mesma postura que ele havia assumido.

— Você está se achando demais, Jiazz o Juggernaut! Não pense que só porquê você é um mercenário famoso que você é melhor do que nós! – Chamas ardentes envolveram os punhos de Breath, e o único olho do mercenário encarou furiosamente o Juggernaut, mesmo enquanto este por sua vez continuava a caminhar em sua direção com a mesma tranquilidade de antes. – Eu sou o mercenário Breath “do Fogo”, e eu serei seu opon-

Correção!

A palavra soou de uma vez, ao mesmo tempo em que Jiazz surgia subitamente a um do rosto de Breath, fazendo com que o olho do mercenário se arregalasse em surpresa. O punho do Juggernaut caiu sobre ele antes que o jovem mercenário tivesse a chance de dizer qualquer coisa, atingindo-o com uma força monstruosa que fez com que Ifrit se desfizesse imediatamente e jogou o corpo de Breath no chão com força o bastante para criar uma grande cratera na seção que ele atingiu. Sangue escorria da boca aberta do mercenário enquanto ele estava no chão, e a sua bochecha acertada trazia perfeitamente a marca dos dedos de Jiazz – uma lembrança do soco que havia lhe nocauteado.

— Você é uma formiga, esquentadinho – murmurou Jiazz, sua voz soando muito mais sombria e intimidadora do que antes, carregada por um tom gutural que, acompanhado pelo olhar sério e duro com o qual o Juggernaut fitava seu oponente caído, fazia com que Jiazz parecesse um homem completamente diferente. – E eu não tenho tempo para perder com formigas.

O som daquelas palavras despertou algo nos que estavam naquela sala. Até então eles estavam todos em silêncio, apenas fitando Jiazz em uma mistura de terror e descrença, mas ver um de seus companheiros ser derrotado daquela forma e ainda ser tratado daquela maneira fez com que a chama da batalha queimasse em seus corações.

E o primeiro que respondeu a essa chama foi Denis.

— Esse é o meu amigo, Juggernaut! – Declarou o mago, jogando ambas as suas mãos abertas para trás e usando seus poderes para criar múltiplas pequenas bolinhas brilhantes de energia nas palmas delas, encarando Jiazz com um olhar furioso em seu rosto normalmente tão sereno. – Eu não vou te perdoar por isso!

Jiazz apenas tinha movido seu rosto levemente em direção a Denis quando o mago arremessou de uma vez todas as bolas de energia em suas mãos, usando sua magia para que elas fossem disparadas com uma velocidade ainda maior. Elas acertaram Jiazz em cheio, e os sons de dezenas de explosões ressoou simultaneamente por todos os cantos enquanto a fumaça delas ia cobrindo toda a figura do Juggernaut. Tantos golpes diretos seriam o suficiente para matar qualquer homem normal, e Denis sabia muito bem disso, mas ele também sabia que Jiazz estava longe de ser um homem normal, e por isso ele continuou com a saraivada. Cada vez mais ele criava mais e mais bolinhas de energia, e a medida que essas eram criadas ele as disparava contra Jiazz, determinado a não parar enquanto tivesse energia.

Foi nesse momento, com esse pensamento em mente, que ele sentiu dois dedos tocarem o seu ombro.

— Perguntas pra você, mané do boné. – A voz que disse aquilo foi uma que ele reconheceu assim que a ouviu, e o rosto de Denis se virou assombrado para trás, apenas para vez Jiazz ali, lhe encarando com aquele mesmo olhar sombrio que ele havia lançado para Breath. – Você acha que me importo com o seu amigo? Ou com o seu perdão?

Virou seu corpo de uma vez visando saltar para trás e criar distância, mas Jiazz foi mais rápido. O punho dele atingiu em cheio bem o meio do rosto de Denis, e uma fração de segundos depois o corpo do mago mercenário foi arremessado até o outro lado da sala, acertando a parede com tanta força que abriu um buraco nela e passou para a sala seguinte, e para a próxima, e a outra depois dessa. Não demorou para que o corpo de Denis já não fosse mais visível, mas que apenas pudesse se ouvir o som da destruição que ele estava causando por onde passava, tudo isso enquanto Jiazz ficava calmamente em pé, fixo no mesmo lugar e na mesma posição que ele havia assumido para golpear o mago.

— Seu amigo é um amigo seu, mané do boné. É você que se importa com ele, não eu – disse Jiazz, endireitando novamente o seu corpo e colocando uma de suas mãos no bolso enquanto a outra, que havia sido a que ele tinha usado para golpear seu oponente, continuava erguida, com fumaça subindo dela como se fosse um motor quente. – Se você preza tanto pelo bem dele, então que tal impedi-lo de fazer merda da próxima vez ao invés de ficar irritadinho quando as merdas que ele faz tem consequências, hum?

As palavras dele caíram sobre ouvidos surdos, mas o Juggernaut não se importava com isso. Endireitou novamente seu corpo após desferir aquele golpe, e enquanto fazia isso correu os olhos ao redor para checar a localização de seus outros oponentes. Sua expressão não ganhou o menor indício de surpresa quando ele viu que apenas restava uma pessoa a vista ali; Orochi, médica e membra do Coração negro, que havia adotado uma postura de batalha enquanto se colocava em frente ao corredor que dava para o resto do Pandemonium, encarando Jiazz firmemente, mesmo com suor frio escorrendo pelo seu rosto.

— Hum. Só você? Eu me lembro de ter visto mais cinco pessoas além dos dois que acabei de derrotar, mas suponho que é de se esperar que eles tenham fugido – comentou Jiazz, avançando calmamente em direção a Orochi com ambas as mãos no bolso. – Isso é natural, não é? Fugir diante de uma força avassaladora que você não pode esperar deter. De certa forma, isso não é muito diferente de fugir de um tornado ou de uma onda gigante, então eu suponho que não devo me surpreender muito...

Enquanto Jiazz falava, poderes agiam sobre aquela sala. Mesmo enquanto ele avançava, o fluxo do espaço tempo se alterava às costas dele, fazendo com que um portal se abrisse bem atrás do Juggernaut e deixando com que duas espadas passagem por ele. Empunhadas pela espadachim de cabelos prateados, as espadas de Zetsuko moveram-se simultaneamente em direção ao pescoço de Jiazz, num golpe cruzado para decapitá-lo de uma só vez.

E foi então que o rosto dele se virou subitamente para traz, fitando dentro dos olhos da espadachim com um olhar feroz e um sorriso selvagem nos lábios.

Você acha mesmo que eu acreditaria numa merda dessa?

Os olhos de Zetsuko se arregalaram com aquilo, mas já era tarde demais para que ela pudesse parar seu ataque mesmo se quisesse. As lâminas foram de encontro ao pescoço de Jiazz, e ao se chocarem com ele as duas se quebraram em milhões de pedaços, como vidro se despedaçando. Os olhos já arregalados de Zetsuko se esbugalharam ainda mais ao ver isso, mas ela não teve tempo para nada, pois Jiazz girou seu corpo de uma vez enquanto brandia seu punho contra ela, atingindo o rosto da espadachim em cheio. A má postura de Jiazz ao desferir o golpe fez com que ele não conseguisse colocar tanta força por trás dele como havia colocado no soco que acertou Denis, mas o que ele pode fazer já foi mais do que o suficiente. O corpo de Zetsuko foi arremessado em alta velocidade contra a parede pela força por trás do golpe, acertando-a com tanta violência que ficou cravado em uma cratera em miniatura nela, como se fosse um prego recém-martelado.

Um sorriso satisfeito ganhou os lábios do Juggernaut ao ver outro oponente cair pelas suas mãos, e ele logo voltou a avançar como antes..., mas não foi muito longe. Mal havia dado um passo e Jiazz parou subitamente; suas sobrancelhas se ergueram, depois seu cenho se franziu, e finalmente uma expressão de curiosidade reinou sobre suas feições. Ele virou seu rosto em direção a Zetsuko, e só então reparou em algo que seria óbvio para a maioria das pessoas.

— Pera, pera, pera aí um minutinho. Ela está usando faixas? Para cobrir seus peitos? Por que raios alguém usaria faixas para cobrir seus peitos?! Faixas não foram feitas para cobrir peitos, maldição! Se você é uma mulher, o certo seria que você usasse um sutiã ou um biquíni ou coisa do tipo, ou ao menos que usasse uma roupa fechada o bastante para que não corresse o risco de pagar peitinho por aí! Eu não faço ideia de como essas faixas ainda não caíram se essa mulher está sempre lutando por aí assim! Francamente, que diabos?! Isso deve ser uma dessas coisas de moda, por que eu não entendo o porquê raios alguém faria algo tão idiota!

Invocação de Nível Dois: Rinoceronte de Armadura!

Ao parar de prestar atenção na batalha para comentar sobre as faixas de Zetsuko, Jiazz havia ficado com a guarda aberta por alguns momentos, e isso deu a Blair uma chance irresistível demais para que ela deixasse de capitalizar em cima dela. Os olhos do Juggernaut voltaram para a mercenária – que havia em algum momento se aproveitado de toda a confusão para buscar abrigo em um dos cantos da sala – bem a tempo de ver a magia de invocação dela agir, abrindo um portal interdimensional pelo qual passou uma besta monstruosa. Um rinoceronte pelo menos duas vezes maior do que um rinoceronte normal passou por esse portal, investindo em alta velocidade contra Jiazz com passos tão pesados que faziam com que toda a fortaleza parecesse tremer cada vez que ressoavam. Seu corpo estava todo envolvido por uma armadura de aço branco e preto que cobria cada centímetro dele, fazendo com que a única parte claramente visível do rinoceronte fossem seus olhos, vermelhos e hostis como os de uma besta selvagem enfurecida.

Aos olhos da maioria das pessoas, aquilo seria uma visão terrível e intimidadora, mas Jiazz não fez nada mais do que suspirar em desanimo em resposta a isso.

— Sério? Depois de tudo que eu já fiz aqui, você manda um rinoceronte contra mim? Vadia, por favor, isso chega a ser ofensivo. – Com um olhar que misturava partes iguais de aborrecimento e decepção, Jiazz ergueu preguiçosamente uma de suas mãos, erguendo-a mais alto do que a sua cabeça e mantendo-a com a palma apontada para baixo. – Você poderia jogar o Deus-Rei dos Rinocerontes contra mim que não faria diferença alguma. Algo assim não serve nem para matar o meu tédio.

Ele permaneceu parado naquela mesma postura por algum tempo, apenas esperando pela besta, esperando pela investida do rinoceronte. A besta abaixou sua cabeça enquanto avançava para erguê-la de uma vez quando chegou perto o bastante de Jiazz, jogando seu chifre direto contra o peito do guerreiro... apenas para que esse quebrasse ao meio com o choque, sem ser capaz de criar um único arranhão no peito nu do homem. A mão de Jiazz desceu ao mesmo tempo em que o rinoceronte atacava, e ele precisou de apenas um golpe para ter a vitória. Com apenas um golpe ele empurrou o crânio do rinoceronte para baixo com força, esmagando sua cabeça e armadura em pedacinhos contra o chão e fazendo com que sangue esguichasse para todos os lados.

A língua de Jiazz correu pelos seus lábios, lambendo um pouco do sangue que havia esguichado em seu rosto, e seus olhos se ergueram para ver o que ele já esperava. O rinoceronte nunca havia sido o ataque principal de Blair, mas apenas uma distração. Foi fácil para ela avançar na sombra dele; seu corpo foi oculto pelo tamanho colossal da criatura, e seus passos se tornaram facilmente inaudíveis quando colocados em sincronia com os da besta. Quando Jiazz esmagou o crânio do rinoceronte Blair teve a sua chance, saltando ao ar enquanto brandia uma adaga em suas mãos, visando perfurar o crânio do Juggernaut através de um de seus olhos.

Tudo isso foi um plano bem bolado... exceto por um detalhe importante. Em meio a todo o planejamento para o seu golpe e toda a tensão de ter de executar um plano tão meticuloso em meio ao campo de batalha, Blair havia se esquecido de um ponto crucial que ela havia falhado em levar em consideração.

A altura fenomenal de dois metros e dezoito de Jiazz fazia com que ele tivesse um alcance muito maior do que o de Blair, que tinha apenas razoáveis um metro e sessenta e sete de altura.

A mão do Juggernaut fechou-se ao redor do pescoço da maga bem antes que ela pudesse lhe atingir, e ele apertou com força ali, esganando Blair como se quisesse quebrar seu pescoço com sua mão nua. Um ruído similar ao de um engasgar raspou pela garganta de Blair, e a maga determinada tentou mover novamente a sua adaga na tentativa de alcançá-lo, mas Jiazz viu o que ela planejava e apertou novamente com ainda mais força, e a dor disso fez com que Blair vacilasse por um momento e deixasse a adaga escapar por entre seus dedos.

— Cara, vocês certamente são bem corajosos – comentou Jiazz com um leve tom de aprovação em sua voz, embora ela ainda soasse em sua maioria neutra e/ou entediada. – Quero dizer, é um tanto quanto estúpido tentar me atacar considerando a óbvia diferença de forças entre nós, mas a maioria das coisas corajosas são estúpidas de qualquer forma.

A resposta que Blair deu a isso foi uma que o Juggernaut não esperava; mesmo com a mão dele apertando sua garganta daquele jeito, ela de alguma forma conseguiu juntar saliva e forças o suficiente para cuspir nele, direto no meio da sua testa. Jiazz fechou os olhos por um momento, e uma feição irritada surgiu em seu rosto, mas então ele passou a mão por ele para se limpar, e quando tornou a afastá-la (e criou chamas douradas nela para evaporar o cuspe), ele tinha um sorriso nos lábios.

— Sabe, eu normalmente ficaria absurdamente puto com algo assim... mas isso é tão ousado e desafiador que eu não consigo deixar de ficar admirado. Você pode ser uma mulher, mas tem um belo par de bolas, e eu respeito muito isso. Fui com a sua cara, mercenária – disse ele, um momento antes do sorriso morrer e seu rosto se fechar em uma feição sombria como a que ele havia mostrado para Breath e Denis. – Mas isso não vai te livrar de nada.

Ele não ofereceu mais explicações depois disso, mas explicações também eram desnecessárias, pois sua próxima ação deixou bem claro o que ele queria dizer. A mão com a qual Jiazz havia limpado o cuspe se fechou em um punho, e sem hesitar ele lançou um golpe contra Blair com esse punho. Um soco atingiu a mulher em cheio, perfurando sua carne e atravessando seu estômago até que o punho do Juggernaut emergisse do outro lado, completamente empopado em sangue. Os olhos de Blair se arregalaram e a maga tentou gritar, mas a mão em sua garganta lhe impediu de dar voz a sua dor, e logo em seguida os seus olhos perderam o foco. Seu corpo ficou mole nas mãos de Jiazz, como se ele estivesse segurando uma boneca de pano.

— Eu provavelmente poderia apenas ficar apertando a sua garganta até que você perdesse a consciência, mas isso iria demorar um tempo bem considerável, e eu ficaria exposto durante esse tempo – murmurou ele, mesmo sabendo que ela provavelmente não podia mais lhe ouvir a essa altura. Jogou o corpo dela ao chão, e não demorou para que uma poça de sangue começasse a se formar abaixo dela. – Na minha experiência, buracos no estômago são uma forma bem efetiva de incapacitar um oponente, não importa o quão durão ele possa ser.

Ele disse aquilo e suspirou, quase arrependido por condenar uma mulher como aquela a morte. Girou sua cabeça em um círculo para estalar seu pescoço e então moveu seus olhos para a mulher que havia visto momentos atrás... e imediatamente teve que dar um passo pro lado. Foi apenas rápido o suficiente para desviar a tempo da enorme serpente branca que veio voando em sua direção com a boca aberta e as presas a mostra, e acompanhou com os olhos a forma como ela continuou a seguir por algum tempo depois de passar por ele... até parar, virar em meio ar de volta em direção a ele, abrir a boca e silvar ameaçadoramente para o Juggernaut.

— ... Ok, beleza. Eu já ouvi alguns mercenários dizendo aqui e ali que as mulheres são cobras, mas eu acho que você levou isso um pouco a sério demais, não acha não? – Questionou ele, voltando seu rosto calmamente na direção da qual a cobra havia vindo. Orochi estava há cerca de quinze ou vinte metros de distância, encarando-o firmemente com um olhar calmo e decidido, e enquanto a mão esquerda dela segurava uma adaga de ponta curvada que lembrava uma arma cerimonial, seu braço direito se mostrava completamente esbranquiçado e cheio de escamas. Ele estava estendido para frente, e era claro com um olhar que era ele o responsável pela cobra. Ou, mais especificamente, que esse braço era a cobra.— Heh, eu devo dizer, essa habilidade é inusitada. Já vi pessoas com Aloeiris ou poderes especiais que permitiam a elas assumir uma forma híbrida entre humanos e animais, mas acho que essa é a primeira vez que vejo alguém que consegue transformar parte do seu corpo em um animal, quanto mais um animal que parece ter ao menos algum semblante de racionalidade. E então, cobrinha? Que tipo de habilidade inusitada você tem em suas mãos.

— Calado, seu idiota. – Enquanto Jiazz falava e conversava amigavelmente com Orochi, a serpente branca da mulher investia novamente contra ele. A cobra não tinha asas nem anda do tipo, mas ela também não precisava; de alguma forma ela conseguia manter-se planando em meio ar, e pela velocidade com a qual ela avançava naquele exato instante, não era um exagero dizer que ela também podia voar. – Esse é um campo de batalha. Se você não manter o foco aqui, você vai morrer.

— Ah, acredite em mim, eu estou em campos de batalhas desde que tinha cinco anos. Eu sei bem do quão impiedosos eles são. – Jiazz tinha uma expressão tranquila mesmo enquanto a cobra branca avançava com tudo em direção a ele, silvando abertamente, sem fazer qualquer esforço para manter um estado de incógnita. Ele simplesmente não se preocupava com ela, e essa confiança não era indevida; ele apenas esperou um pouco antes de mover sua mão rapidamente, envolvendo a cabeça da cobra entre seus dedos e esmagando-a de uma vez, isso tudo sem ter que sequer olhar na direção dela. Seu sorriso se abriu um pouco mais quando sentiu o sangue e os miolos da serpente escorrerem pelos seus dedos, mas ele também coalhou um pouco quando não viu nenhum resquício de dor passar pelo rosto de Orochi. – Hum... estranho. Eu pensei que esmagar a sua mão tiraria alguma reação de você. Você deve ser realmente durona, hein, mulher?

— Quando foi que você esmagou a minha mão? – Perguntou Orochi com uma calma que rivalizava a de Jiazz, e ao soar das suas palavras, seu braço caiu. Ele não foi cortado, ele não foi arrancado, nada do tipo; ele simplesmente caiu de uma vez como se não fosse nada, como se estivesse apenas sendo segurado junto ao seu corpo por alguma coisa esse tempo todo. Só isso já foi o suficiente para fazer com que uma das sobrancelhas de Jiazz se erguesse, mas o que veio a seguir a seguir foi ainda mais surpreendente: Orochi respirou fundo, estalou o pescoço, fechou os olhos, fez uma careta de esforço e, subitamente, um braço novo emergiu do local onde estava seu braço anterior momentos atrás. Foi um braço de coloração normal que emergiu dessa vez, coberto em sangue e fluídos que Jiazz não fazia a menor ideia do que eram, mas aparentemente completamente funcional, como os movimentos e as leves flexões que Orochi fez com ele demonstraram. A mulher abriu novamente seus olhos, e com eles fitou serenamente Jiazz, assumindo novamente a mesma faceta calma que havia mostrado antes. – Eu acho que me lembraria se você fizesse algo como “esmagar a minha mão”.

Por alguns momentos, Jiazz ficou em silêncio. Ele apenas ficou parado onde estava, fitando aquela mulher enquanto tentava processar em sua mente o que havia acabado de acontecer. Pouco a pouco ele foi ligando os pontos, e a medida em que isso acontecia, um sorriso se abria cada vez mais em seus lábios. Ao fim desse processo – quando ele finalmente compreendeu tudo e voltou a falar – o sorriso cobria quase todo o seu rosto, maníaco como o que você esperaria em um homem completamente insano.

— Hahahahaha, magnífico! Primeiro uma cobra, agora um lagarto. Você é um show de horrores reptiliano de uma mulher só, não é mesmo? – Apesar das suas palavras, Jiazz falava sem nenhum traço de ofensa em sua voz. Na verdade, era exatamente o contrário. Suas palavras traziam pura admiração, interesse e empolgação, não diferentes das de uma criança diante de alguma nova coisa “legal”. – Qual a próxima, dentes de crocodilo?

— Hm. Essa é uma ideia maravilhosa, agradeço por ela. – Foi o tempo de ouvir aquelas palavras para que Jiazz compreendesse que havia cometido um grande erro em abrir a boca, mas não teve tempo para tentar corrigir nada. Orochi abriu sua boca tanto quanto pode, e imediatamente todos os seus dentes caíram, mas ao invés do que havia acontecido com o seu braço, isso não foi do nada. Eles caíram porque eles foram empurrados por outros dentes que tomaram o seu lugar, dentes muito mais afiados e de aspecto muito mais selvagem e perigoso. Dentes de crocodilo. – Eu espero que você não se importe, mas eu vou seguir sua sugestão!

A mulher saltou de uma vez contra Jiazz, chutando o chão com tanta força em sua investida que deixou uma cratera para trás onde antes estava. Ela avançou de boca aberta e um olhar que parecia ao mesmo tempo feroz e reptiliano, e Jiazz compreendeu só de olhar para ela que tentar bloquear aquilo com seu braço seria uma péssima ideia. Com suas habilidades ele criou chamas douradas ao redor da sua mão direita, solidificando-as em uma espada de fogo bem a tempo de movê-la para com ela bloquear a mordida que Orochi lançou contra ele. Nem mesmo a sua espada estava sendo capaz de bloquear completamente a força por trás daquela mordida, no entanto; espadas forjadas das suas chamas deveriam ser mais duras do que diamante, mas mesmo assim a sua espada trincou assim que os dentes se fecharam sobre ela, e a medida que Orochi ia colocando mais força sobre a sua mordida os trincos iam aumentando, tanto em quantia quanto em tamanho.

— Ah, puta que me pariu – praguejou Jiazz entre dentes, assistindo aquilo com surpresa por nunca ter imaginado que sua oponente pudesse ser tão forte assim. – Eu sei que sou gostoso e que você provavelmente quer um pedaço de mim, mas isso já está ridículo!

Fechou novamente sua mão livre em um punho, e no momento em que os dentes de Orochi estraçalharam sua espada e a mulher continuou a investir contra ele, Jiazz lançou um soco que acertou em cheio o rosto dela. Orochi foi arremessada rodopiando como um peão pelo ar, girando enquanto era jogada longe pela força do golpe, mas para a surpresa de Jiazz, aquilo não foi o bastante para dar cabo dela. De alguma forma a mulher recuperou o controle do seu corpo em meio ar e girou de forma controlada para perder momento. Ela cravou suas mãos e seus pés no chão com força para perder velocidade, e com isso conseguiu parar antes que fosse isolada para fora da sala, mas isso não veio sem custo. Ao cravar seus membros no chão e tê-los sendo arrastados com ela por uma distância tão grande, toda a pele das suas mãos e pés acabou sendo arrancada, deixando seus membros em carne pura e sangrando pelo chão. E isso ainda foi pouco se comparado ao que aconteceu com o resto dela; sua cabeça havia sido jogada completamente para trás com o golpe, e assim ela havia permanecido, caindo para trás em um ângulo inumano, o pescoço como um elástico esticado ao máximo.

A aparência que a mulher tinha naquele estado era algo morto, similar ao que alguém esperaria ver em alguma peça de terror envolvendo garotas fantasmas, e exatamente por isso foi ainda mais bizarro quando Orochi simplesmente ajeitou sua postura como se nada tivesse acontecido, endireitando seu corpo e voltando sua cabeça para frente sem problema algum, embora Jiazz não tenha deixado de notar que seu pescoço pareceu perturbadoramente mole quando ela fez esse movimento.

— Cara... eu não sei se fico feliz e acho as suas habilidades legais, ou se fico assustado e acho elas bizarras – comentou Jiazz, olhando para Orochi com um misto de admiração e incredulidade. – Afinal de contas, como é que você consegue fazer algo assim, mulher? Você não tem ossos nesse corpo não?

— Não – respondeu ela tranquilamente, enquanto pele nova crescia ao redor dos seus dedos das suas mãos e dos seus pés, estancando o seu sangramento. – Já esqueceu? Eu sou uma cobra, no sentido mais literal da palavra.

A resposta de Jiazz a isso não pode ser nada além de abrir um sorriso largo. A mulher não retribuiu, no entanto; ao invés de sorrir também, o que ela fez foi avançar novamente contra ele a toda velocidade, cruzando a sala ainda mais rapidamente do que havia feito em sua primeira investida. A rapidez com a qual ela se movia era tanta que tudo que Jiazz conseguia ver era praticamente um borro em constante movimento, avançando em ziguezague contra ele.

Apesar disso, o Juggernaut conseguiu acompanhar os movimentos dela com seus olhos. E o sorriso no seu rosto se alargou ainda mais quando ele criou outra espada de chamas douradas e moveu-a contra ela, cortando o corpo de Orochi diagonalmente ao meio enquanto os olhos da mulher se arregalavam em descrença.

Mas esse sorriso coalhou logo em seguida, quando a Orochi que ele havia cortado se dissipou em meio ao ar como uma miragem.

— Um homem sábio um dia disse: nunca confie nos seus olhos. Acho que você nunca aprendeu essa lição.

Seu corpo virou de uma vez ao ouvir aquilo, movido por puro instinto, e ele foi recebido por dentes afiados. Orochi mordeu com força o pescoço de Jiazz, e seus dentes perfuraram pela carne dele, arrancando sangue e grunhido de dor do guerreiro. As mãos dele se fecharam ao redor do pescoço da mulher na tentativa de puxá-la para longe de si, mas ela reagiu a isso colocando ainda mais peso por trás da sua mordida, e a dor que ele sentia foi o que impediu Jiazz de realmente colocar toda a sua força no esforço.

— Maldição, sua vadia!— A praga veio dos lábios de Jiazz com uma mistura de dor e fúria, e foi completamente ignorada por Orochi. A única coisa que parecia passar pela cabeça da mulher naquele momento era morder Jiazz com mais e mais força para rasgar a sua carne, de forma não muito diferente de como um crocodilo atacava suas presas. E pouco a pouco, isso pareceu surtir efeito. A força com a qual o Juggernaut a puxava diminuiu. A postura dele acabou se rebaixando. E a dor ficou ainda mais clara em sua voz. – Mal... dita...! Isso... isso...

Um sorriso mais largo do que todos os que ele havia mostrado até então abriu-se de uma vez só nos lábios de Jiazz, e os olhos dele moveram-se para olhar direto para Orochi.

Isso quase faz cócegas!

Os olhos da mulher se arregalaram instantaneamente, e ela soube naquele momento que estava vulnerável, mas já era tarde demais. Ele apanhou um punhado dos cabelos de Orochi com uma de suas mãos e puxou brutalmente a cabeça dela para trás por eles, causando dor o suficiente para fazer com que seus dentes largassem o seu pescoço enquanto ao mesmo tempo criava distância o suficiente para o que queria fazer. Segurou o crânio dela com ambas as suas mãos, forçando a mulher a olhar direto dentro dos seus olhos, e então gargalhou, ignorando os buracos em seu pescoço ou o sangue que escorria destes.

— Hahahaha, hahahaha, hahahahahahaha! Mulher, eu quero lhe parabenizar por ser a pessoa aqui que chegou mais perto de me dar uma luta decente, mas ao mesmo tempo eu quero rir muito por você ter achado que algo assim seria o suficiente para me derrotar! Eu sou Jiazz, o Juggernaut! O homem mais forte do Sul! Eu sei que um rostinho bonito como o meu pode não sugerir isso, mas eu sou um cara bem perigoso, sabia? E caras perigosos não são mortos por mordidas carinhosas como essas suas! – Uma careta furiosa foi ganhando o rosto de Orochi a medida que ele ia falando, e ao terminar a sua frase a situação já havia chegado a um ponto em que ela estava rosnando e se debatendo, tentando morder um de seus dedos ou fazer qualquer coisa que pudesse lhe causar dom, mas Jiazz conseguia a segurar a uma distância segura sem dificuldade alguma. E para provoca-la ainda mais ele aproximou seu rosto do dela para dizer suas próximas palavras, mantendo-o a menos de um palmo de distância da mulher, mas ainda longe demais para que ela pudesse fazer algo contra ele. – Agora, vejamos bem... você havia me dito antes que você não tem ossos por ser uma cobra, correto? Bom, eu não sou o maior especialista em cobras do mundo nem nada do tipo, mas corrija-me caso eu esteja errado; cobras podem não ter ossos ou vértebras ou sei-lá-o-que, mas elas certamente possuem um corpo que é ao menos sólido e firme em determinados pontos, certo? Afinal de contas, pelo que me lembro... se você bater a cabeça de uma cobra repetidamente contra algo duro, ela morre, não é mesmo?

Um brilho de confusão passou pelos olhos de Orochi ao ouvir aquilo, mas Jiazz não estava disposto a lhe dar sequer a chance de raciocinar em cima daquilo. Sem esperar para que ela pudesse dizer nada, o Juggernaut endireitou seu corpo e jogou sua cabeça para trás... e então, de uma vez, ele inclinou seu corpo e jogou a cabeça para frente novamente, acertando uma cabeçada em cheio no meio da testa de Orochi.

Um guincho de dor escapou de Orochi com aquilo, e sangue jorrou de uma ferida que se abriu em sua testa, e tudo isso só fez incentivar Jiazz mais ainda. Ele jogou a cabeça para trás e desferiu outra cabeçada contra a mulher ainda mais rápido do que antes, e depois outra, e outra, e outra! Cada cabeçada era mais rápida que a anterior, mas ele não cometia erros em nenhuma delas, o que fazia com que elas fossem progressivamente mais fortes graças ao momento e que impedia Orochi de ter um momento sequer para se acostumar com a dor. O que havia começado como um guincho logo se transformou em verdadeiros gritos de dor consecutivos que ecoavam pelas salas do Mundo de Pedra, acompanhados sempre pelos sons dos impactos das cabeçadas de Jiazz... e eventualmente pelo som enojante de algo molhado batendo em outra coisa molhada, proporcionado pelas testas dos dois, umedecidas pelo sangue de Orochi.

Eventualmente chegou um ponto em que Orochi simplesmente parou de reagir a todas aquelas cabeçadas, e foi só então que Jiazz parou. Ele afastou a cabeça e olhou bem para a mulher afim de verificar se aquilo era verdade ou apenas uma atuação dela, mas a poça vermelha que emergia da sua testa e escorria pelo seu rosto – acompanhada pelos olhos perdidos e desfocados dela – deixaram isso além de qualquer dúvida. Deixou o corpo dela cair como uma criança deixa um boneco do qual enjoou cair ao chão, e depois estalou seu pescoço, fazendo com que sangue esguichasse ainda mais das suas feridas. Foi só depois de fazer isso que ele pareceu se dar conta de que estava ferido, e prontamente o Juggernaut criou chamas ao redor de uma das suas mãos, levando-a até a ferida.

— Uuuh, interessante. – Comentou ele, sentindo o sangue em seus dedos. – Esse não foi um golpe perigoso ou realmente efetivo contra mim, mas foi ao menos o bastante para me ferir. Isso já é mais do que eu esperava do pessoal desse Primeiro Andar. Me pergunto quem está pelos outros andares, e quão fortes eles podem ser! – Um sorriso foi se abrindo em seu rosto a medida que ele ia pensando nisso, animado com o prospecto de enfrentar oponentes poderosos. – Será que eu vou conseguir enfrentar alguns dos grandes? Odin, ou Soulcairn! Talvez eu encontre a mulher que chamam de Titânia, ou talvez eu reencontre Bokuto! Não acho que ele esteja muito mais forte agora do que uma semana atrás, mas ele certamente é capaz de me dar uma luta interessante, principalmente se ele me enfrentar com mais alguém! E ainda tem mais! Aparentemente Ylessa está junto com o Salão Cinzento, e eu já ouvi o suficiente sobre essa mulher pra saber que vai ser divertido bater de frente com ela! E tem Kastor e Hozar, também, os líderes da Era Dourada... ah, sim! Minhas lutas aqui vão ser bem divertidas!

A mão no seu pescoço se afastou, revelando que a ferida já estava completamente curada ao ponto de não deixar traço algum de que sequer havia existido um dia, e ela logo se juntou a segunda mão do homem. Ele esticou os braços para cima de forma descontraída, sereno apesar do campo destruído e sangrento no qual se encontrava, com um sorriso no rosto que era honesto como o de uma criança.

Foi com ele se encontrando nessa posição que uma adaga se manifestou bem diante do olho direito de Jiazz, avançando imediatamente contra ele sem mal dar tempo para que o Juggernaut pudesse respirar.

Desde o momento em que havia visto aquele homem, Coralina compreendeu que não tinha chances contra ele numa batalha frontal. Ela simplesmente não tinha a força necessária para tal, ela sabia que tentar avançar contra Jiazz iria acabar mal para ela, e por isso não tentou. Uma das coisas nas quais a mercenária se destacava era saber usar bem os seus poderes de forma tática em uma batalha, e foi exatamente isso que ela fez. Ficar à espreita observando enquanto seus companheiros eram derrotados por um monstro era algo terrível, mas depois de ter que fazer isso para quebrar a Joia do Infinito, Cora estava de certa forma... anestesiada. Sendo assim ela conseguiu ficar em silêncio, camuflada pela sua magia e movendo-se lentamente para a posição mais vantajosa possível enquanto via Jiazz derrotar todos que se erguiam contra ele, tudo isso enquanto esperava pela chance perfeita, por uma oportunidade de acabar com aquele homem de uma só vez.

E foi naquele momento que ela a viu.

E foi exatamente por causa disso que sua expressão se tornou uma de pânico quando viu sua adaga se quebrar ao meio, a ponta dela saltando ao ar sem um traço de sangue nela.

— Diga, você achou que eu esqueci de você ou coisa do tipo, garota? – O tom de voz no qual o Juggernaut falou foi ameno e amigável, mas o que o olho dele disse quando ele começou a virar seu rosto para Cora foi algo completamente diferente. “Olho” por que apenas um dos seus olhos estava visível; enquanto um deles fitava Coralina com uma fúria que sugeria que ele podia rasga-la em pedaço naquele instante, o outro estava escondido por trás do que era literalmente um tapa-olho feito de chamas douradas solidificadas, um que parecia extremamente sólido apesar de tudo. – Você pode me dizer que não sou a pessoa mais esperta que esse mundo já viu, e farei um belo eco disso, mas não entenda as coisas errado. Eu não sou brilhante, mas também não sou estúpido como algumas pessoas parecem achar. Eu vi que tinham sete oponentes aqui quando eu comecei a enfrenta-los, e eu notei que você desapareceu em determinado momento da luta. Como pelas minhas contas ainda sobravam dois oponentes e eu sabia que ao menos um deles havia usado alguma habilidade para desaparecer, eu sabia que não podia abaixar a guarda, ao menos por enquanto. Isso é lógica básica, não concorda?

Ele girou nos calcanhares e fechou a mão ao redor do pescoço de Coralina em um único movimento, erguendo-a do chão em poucos segundos sem dificuldade alguma. Uma careta de dor foi ganhando o rosto da mulher a medida que sentia o aperto e o começo da falta de ar, mas Jiazz claramente não se importava nem um pouco com isso, mantendo um sorriso nos lábios enquanto falava e deixava o seu tapa-olho se desfazer.

— Isso dito, eu não vou deixar de se parabenizar por isso. Parabéns, você fez um bom trabalho em se aproximar de mim. Não se sinta mal pelas coisas não terem ido do jeito que você planejou; entenda, por mais que você tenha pensado em um bom plano e executado-o muito bem, ainda havia uma janela na qual você ficava vulnerável com ele, e a diferença de poderes entre nós é simplesmente gritante o bastante para que eu possa me aproveitar dessa janela. Eu não sei se isso te consola ou te deprime, mas se você fosse um pouco mais forte, eu estaria sem um olho agora. Mas... temo que mesmo na melhor das situações você não seria capaz de conseguir muito mais do que isso. Não vou entrar em pormenores aqui e agora, mas deixe-me colocar dessa forma: eu não sou um cara que morre fácil. – Enquanto falava, Jiazz também erguia seu outro punho, fechando-o com força o bastante para que deixasse um par de veias a mostra nele. – De qualquer forma, não é como se nada disso importasse agora, não é? Você já viu o que eu fiz com a Invocadora antes, então já deve conseguir imaginar o que vem a seguir. Se prepare, pois isso vai doer bastan-

A frase de Jiazz foi interrompida subitamente. A voz falhou ao Juggernaut e os seus olhos se arregalaram até quase saltarem das órbitas. Enquanto falava, Jiazz não havia prestado nenhuma atenção particular aos movimentos de Coralina; seus olhos haviam ficado apenas sob o rosto dela, e vendo a expressão de dor e agonia da mulher enquanto ela lutava para respirar, ele havia ficado com a impressão de que ela estava completamente vulnerável às suas mãos. Mas a verdade era que em todo o tempo em que havia ficado erguida por ele, Coralina havia se mantido atenta. Ela tinha olhado para ele e avaliado a situação, avaliado a forma como Jiazz estava agido e raciocinado sobre qual seria a melhor forma de escapar das garras dele.

E a conclusão que havia chegado com isso tinha sido a que ela aplicou naquele momento; chutar o saco do guerreiro com todas as suas forças.

— Sua... puta...!

O murmúrio provavelmente saiu dos lábios de Jiazz com a intenção de soar imponente e ameaçador, mas o chute em suas regiões mais sensíveis fez com que a voz dele ganhasse um tom de soprano, soando absurdamente fina e como algo que ninguém nunca esperaria vindo de um homem com o porte de Jiazz. Ele soltou a mulher e Coralina lutou para manter o equilíbrio ao cair de pé depois de ser esganada com aquela violência, e isso ainda conseguiu ser muito melhor do que o que aconteceu com Jiazz; enquanto ela ainda tinha conseguido recuperar o equilíbrio e se manteve de pé, Jiazz não teve a menor chance de fazer o mesmo, indo direto ao chão de joelhos e dobrando seu corpo até que sua testa tocasse o solo de pedra enquanto gemia de dor e levava as mãos até o meio das suas pernas, massageando desesperadamente a região na tentativa de aliviar a dor.

Coralina só dignou um rápido olhar a situação dele antes de virar-se para o corredor e começar a correr tão rápido quanto podia para longe dali. Não era idiota – ela sabia que havia verdade nas palavras que ele havia dito antes e sabia que não tinha a menor chance de derrotar o Juggernaut naquelas condições, e tinha coisas melhores a fazer do que tentar insistir inutilmente em um erro estúpido. Eu não posso derrota-lo pessoalmente dessa forma, mas eu posso dar uma chance aos outros de derrota-lo. O Segundo Andar do Pandemonium deveria estar cheio com alguns dos melhores guerreiros que lutavam ao lado do Salão Cinzento naquela guerra. Se conseguisse os alcançar e lhes alertasse sobre os poderes de Jiazz, ela talvez conseguisse lhes dar uma boa chance de vitória. Além do mais, se o meu problema é força, talvez eu possa resolvê-lo com algo assim. Só precisava ser um pouco esperta para usar sua magia em combinação com as habilidades dos outros, e talvez isso fosse o suficiente para derrotar o Juggernaut.

Foi no momento em que pensou nisso que sentiu algo se enroscar ao redor do seu pé direito, e graças àquilo ela caiu de encontro ao chão. A queda fez com que mordesse seu próprio lábio e sentisse seu próprio sangue na língua, mas não foi com isso que se preocupou; seu rosto se virou imediatamente para trás, e ai ela viu a corrente de chamas douradas que havia se enroscado ao redor de seu pé, uma corrente que se estendia por uma longa distância, com sua outra ponta estando na mão de Jiazz o Juggernaut – o homem que embora ainda caído no chão, com um olho meio fechado em dor e uma mão no saco, encarava firmemente Coralina com seu outro olho com uma fúria diferente de qualquer coisa que alguém pudesse esperar em um humano.

— Sua. Puta! — A frase foi repetida já na voz normal de Jiazz, ou no que seria a voz normal dele se ela não soasse tão profunda e embebedada de ódio, como de um demônio saído dos confins do inferno. – Você... você tem alguma ideia do que você fez? Alguma ideia do quanto isso dói?! Provavelmente não, não é?! Claro que não! Vocês mulheres não tem ovos nem linguiça, então obviamente vocês não têm a menor ideia da dor excruciante que está envolvida no chute a uma dessas partes! – Enquanto ele berrava Jiazz ia se levantando, tendo alguma visível dificuldade ao fazer isso, mas deixando claro que ele estava se recuperando bem rápido. E quanto mais ele se recuperava, mais ficava claro o ódio que ele sentia de Coralina naquele momento. – Basta dizer para você que essa é uma dor inumana, muito pior do que qualquer coisa que você pode sentir na sua vida! Um chute no saco é como, sei lá, uma facada no olho, coisa que você tentou fazer, sua maldita puta! Você não tem a menor ideia de como eu me sinto nesse momento, não é? Do ódio que corre em minhas veias? DA FÚRIA INCESSANTE QUE ARDE COMO AS MAIS QUENTES CHAMAS DA MAIS PROFUNDA CAMADA DO MALDITO INFERNO?! Eu poderia te fazer em pedacinhos e pendurar a sua cabeça pelas suas entranhas para usá-la como um saco de pancadas e isso ainda não seria o suficiente para aplacar essa fúria, o que significa que eu vou ter que recorrer a algo muito pior. Prepare-se, puta da perna de ferro; você está prestes a conhecer o inferno na terra!

Enquanto aquelas palavras eram proferidas, Jiazz se levantava completamente e ia fazendo seu caminho até Coralina. E a medida que via o guerreiro gigante fazendo seu caminho até ela, a mercenária ia sendo preenchida por um medo diferente de qualquer outro que já sentiu um dia na vida. Ela tentou desesperadamente se afastar dele arrastando-se pelo chão, mas isso só conseguiu fazer com que Jiazz puxasse a corrente em sua mão, puxando-a para ainda mais perto. Não, era o único pensamento que passava pela sua mente naquele momento. Não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não! Não sabia qual era o plano de Jiazz, mas a expressão no rosto dele lhe dizia que seria algo inumano.

Por mais que tentasse lutar contra a força dele e se afastar, o Juggernaut se aproximou cada vez mais, até que chegou ao ponto em que ela se encontrou bem diante dos pés dele. Acima de Coralina, Jiazz tinha um meio sorriso furioso no rosto enquanto a encarava, e no momento em que viu uma das mãos dele se esticar em sua direção, a mercenária previu a terrível tortura que deveria vir a seguir.

E foi exatamente por isso que ela se surpreendeu tanto quando ao invés de bater nela ou quebrar alguma parte do seu corpo, o que Jiazz fez foi alcançar seu sovaco e começar a fazer cócegas nela.

— Cuti! Cuti, cuti, cuti! – Apesar de brutas e súbitas, as cócegas de Jiazz foram efetivas. Não demorou nada para que Coralina começasse a gargalhar e se debater loucamente perante a elas, e Jiazz ainda elevou as coisas ao próximo nível ao soltar a corrente e começar a ataca-la com ambas as mãos. – Cuti, cuti, cuti, cuti, cuti, cuti, cuti, cuti, cuti!

A mercenária gargalhou como uma criança perante a tudo aquilo, remexendo-se como uma minhoca para um lado e pro outro enquanto ria até que seus pulmões ficassem sem ar e suas bochechas se tornassem vermelhas como um tomate. Qual é o problema desse cara? O que raios tem de errado com ele?! Mesmo enquanto se debatia e ria como não fazia há muito tempo, ela não conseguia parar de questionar isso. Pelo que lhe dizia respeito, Jiazz deveria estar lhe agredindo naquele momento. Ele havia deixado claro antes que estava bem irritado com o chute que ela havia desferido, e pela forma como ele havia falado e a expressão que ele trazia no rosto quando se referiu a ela, a impressão que tinha tido era que ia no mínimo ter o crânio esmagado por ele. Mas por algum motivo, o que ele havia escolhido ao invés disso tinha sido fazer cócegas nela. Eu não entendo, eu não entendo, eu juro que não enten-

Jiazz jogou sua cabeça contra a de Coralina de forma bem súbita enquanto ela ainda estava rolando de rir no chão, e isso pegou a mulher completamente de surpresa. Ele atingiu a cabeçada em cheio na testa dela, fazendo com que a cabeça da mercenária batesse também no chão e com que ela fosse nocauteada imediatamente. As gargalhadas sumiram da mesma forma abrupta como haviam surgido, e ele estaria mentindo se dissesse que não sentiu falta delas, mas não havia nada que podia fazer quanto a isso.

— Sério, garota, você realmente não deveria acertar as bolas de um homem. Por um momento ali eu realmente quis te quebrar no meio por isso – murmurou Jiazz, se levantando e se afastando de Coralina enquanto estalava o pescoço. – Sua sorte que eu tenho uma boa dose de respeito por pessoas ousadas como você. Se não fosse isso, seus amigos iam precisar de um mapa para achar os seus pedaços quando eu terminasse.

Ele disse aquilo e abriu os braços, esticando seu corpo como se estivesse se espreguiçando depois de uma boa noite de sono. Bom, com essa mulher eu já devo ter derrotado seis dos sete que estavam aqui, certo? O que significa que resta um...

Tal como Coralina, Syd Ostrower havia compreendido só de bater os olhos em Jiazz que aquele homem era um oponente que ele não podia esperar derrotar em batalha. Mas ao invés da mercenária que havia tentado bolar um plano de batalha a partir do qual derrota-lo, Syd recorreu a uma estratégia bem mais simples: ele aproveitou que o corpo de Dayun ainda estava lá e que o tratamento do cavaleiro não tinha terminado para se jogar no chão ao lado dele e ficar bem paradinho ali, fingindo estar morto para que não tivesse que bater de frente com o Juggernaut. Claro, isso fez com que ele ficasse ouvindo tudo que acontecia ao seu redor, mas isso serviu mais para lhe convencer de que havia feito a escolha certa do que tudo. Esses caras... eu não sei se eles são mais corajosos, burros ou teimosos! Por que eles insistem em enfrentar alguém como esse monstro? A reputação de Jiazz era conhecida por todo o Sul, e alguém como Syd (que se certificava de pesquisar tudo que podia sobre as pessoas mais fortes para maximizar a sua chance de escapar delas com seu couro intacto caso acabasse se vendo numa luta envolvendo um deles) tinha acesso até ao passado de Jiazz, e isso revelava coisas terríveis. Desde os cinco anos de idade ele luta em arenas profissionais como um gladiador, dilacerando guerreiros com o dobro do seu tamanho em pedaços como se estivesse cortando queijo. Os rumores dizem que ele já matou mais de cem mil guerreiros e se banhou em sangue o suficiente para pintar o oceano de vermelho. Dizem que ele mata qualquer um que o incomode e que a força por trás dele é tão brutal que até mesmo os exércitos de um reino tão poderoso quanto Fredora se curvam diante da sua vontade, fazendo com que até mesmo os poderosos Duques dobrem os seus joelhos perante aos desejos de Jiazz, tratando-o como se ele fosse a personificação de um Desastre Natural, como um terremoto ou um furacão: uma calamidade viva! Os únicos relatos sobre uma derrota de Jiazz eram sobre momentos em que ele lutou em arenas particulares contra um tal de Ishir Daemon, mas não tinha a menor ideia de quem era esse ou de onde podia encontra-lo, e de qualquer forma o Juggernaut também tinha um bom número de vitórias contra ele. Não importa como você pense nisso, Jiazz não é um oponente que você pode enfrentar! Pelo que está acontecendo aqui, os rumores não podiam estar mais corretos: ele é um desastre ambulante! Quando um furacão vem em direção a sua cidade você não sai com uma espada e tenta enfrenta-lo; você abandona tudo que puder lhe atrasar e sai correndo ou se esconde e reza para sair vivo dessa!

Naquele exato momento, o pensamento de enfrentar Jiazz era uma das coisas mais aterrorizadoras que Syd já havia sentido, e tudo que o Campeão dos Covardes podia fazer era rezar para que ele não lhe encontrasse.

— Ei, você que está tremendo aí no chão! – Gritou a voz do Juggernaut. – Por quanto tempo você planeja ficar se fingindo de morto?

... Bosta. Virou seu corpo a contragosto em direção à voz de Jiazz e quase deu uma cambalhota mortal tripla para trás quando viu que Jiazz estava agachado bem ao seu lado, lhe olhando com uma expressão levemente curiosa.

— Ei, você está realmente se fingindo de morto em meio a um campo de batalha no qual os seus companheiros acabaram de ser massacrados na tentativa de que eu não te note? – Perguntou ele, erguendo uma sobrancelha em descrença enquanto falava. – Isso é... uau. Simplesmente uau.

— Err... não! Eu estava... err... descansando um pouco os olhos? – Ofereceu Syd com um sorriso amarelo.

— “Descansando os olhos” sugere que você estava dormindo. Eu realmente não sei se dormir enquanto seus companheiros são massacrados é muito melhor do que se fingir de morto enquanto isso acontece... mas, de qualquer forma, isso não parece ser problema meu – murmurou Jiazz, dando de ombros sem se importar. – Anda, levanta daí e sai daqui. Eu não tenho interesse em covardes. Não vou fazer nada com você.

Aquelas palavras foram como uma canção para os ouvidos de Syd. Quase não pode acreditar nelas, mas viu Jiazz se erguer e colocar as mãos nos bolsos, e isso o convenceu de que ele estava falando sério. Isso não pode ser verdade! Hahahaha, isso não pode ser verdade. Aquela chance era perfeita, simplesmente perfeita. Poderia correr agora, sair dali e não se preocupar mais com nad-

Toda a animação que tinha e o sorriso que havia ganhado em seu rosto desapareceram quando ele olhou ao redor e viu o estado no qual estavam os outros. Zetsuko, em uma cratera na parede. Orochi, caída com a testa sangrando. Breath, esmagado contra o chão. Coralina, completamente nocauteada. Blair, com um buraco no estômago. O único que não conseguia ver ali era Denis, mas considerando o que havia acontecido com os outros, não conseguia imaginar que ele tivesse tido um bom destino. Eles estão... eles todos estão... A medida que a compreensão ia reinando sob a sua mente, Syd sentia seu semblante se fechar cada vez mais.

Os passos calmos de Jiazz enquanto ele se afastava soavam como tambores às suas orelhas. Seus olhos se moveram para fitar as costas do Juggernaut, vendo como ele avançava despreocupadamente em direção ao corredor que dava para a saída daquela sala. Esse cara... ele fez isso. Ele fez tudo isso! Sentiu a fúria surgir e crescer no seu interior, queimando pelas suas veias como fogo líquido, mas estaria mentindo se dissesse que foi ela que o moveu.

Foi com a mais absoluta resolução que ele manifestou uma de suas pistolas na sua mão direita e disparou sem pestanejar contra Jiazz.

O disparo atingiu a parte de trás da cabeça do Juggernaut em cheio, mas não fez dano algum, tal como ele havia imaginado. Tudo que ele fez foi fazer com que um pouquinho de fumaça subisse da área atingida, e com que o Juggernaut parasse e estalasse a língua enquanto ainda mantinha suas costas voltadas para Syd.

— Ei, Covarde – disse ele, virando levemente seu rosto para fitar Syd por cima do seu ombro. – Você sabe que isso não vai funcionar comigo, não é?

— Eu sei – respondeu Syd, sua voz em um tom muito mais baixo, grave e sério do que o normal. – Eu só não me importo.

Disse aquilo e disparou de novo, acertando dessa vez o Juggernaut no ombro com um tiro que não foi mais efetivo do que o anterior. O Juggernaut balançou sua cabeça de um lado para o outro de forma desolada. Ele se virou calmamente em direção a Syd, e enquanto ele fazia isso o mercenário disparou mais três vezes contra ele, atingindo novamente seu ombro, suas costas e por fim a sua testa. Pela forma como Jiazz ignorou tudo e começou a avançar um passo após o outro na sua direção, poderia muito bem ter jogado pequenas pedrinhas nele com um estilingue de dedo.

— Muito bem, vou morder a isca. Por que você está fazendo isso? – Perguntou Jiazz com um leve interesse. – Considerando o que você estava fazendo, pensei que você queria evitar um confronto comigo a todo custo. Atirar na minha cabeça dificilmente é a melhor forma de evitar isso... ao menos quando estamos falando de mim, claro.

— Você não está enganado. Eu realmente queria evitar um confronto o máximo possível. E estava disposto a deixar que os meus companheiros se ferrassem se isso significasse que eu teria sucesso nisso. Mas agora... – hesitou, não por não querer dizer a Jiazz o que havia acontecido, mas porque não sabia exatamente como descrever isso.

— Algo mudou nos últimos vinte segundos? – Questionou o irônico Juggernaut.

— Você pode dizer isso e não estará errado – concordou Syd com um aceno, manifestando sua segunda pistola na sua outra mão e disparando com ambas as armas contra Jiazz. – Nos últimos vinte segundos aconteceu o primordial. Eu abri meus olhos.

— Meus parabéns, você está fazendo progresso! Agora é questão de tempo para que você comece a andar e faça cocô no peniquinho!

 – Faça as piadas que quiser, Juggernaut, mas eu estou falando sério aqui. – O retruque foi ríspido e irritadiço, e mesmo que Syd não tivesse se conscientizado totalmente disso a essa altura, foi aquela piada de Jiazz que fez com que sua fúria viesse realmente a tona. – Os outros, todos esses caras... eles lutaram com tudo. Todos eles sabem bem o quão forte você é, e não tenho dúvida alguma de que todos sabiam que não tinham a menor chance de te derrotar em uma luta um-contra-um, mas eles te enfrentaram mesmo assim. Eles fizeram o seu melhor e colocaram toda a sua força e dedicação por trás do objetivo de lhe derrotar, e por isso eu não posso simplesmente meter o rabo entre as pernas e sair correndo. Eu não me importo com a minha reputação ou com a minha honra, mas correr agora seria fazer pouco de toda a dedicação deles, e isso é algo que eu não vou admitir!

— Palavras bonitas – comentou Jiazz, caminhando de forma inflexível em direção a Syd enquanto ignorava completamente todos os tiros que vinham contra ele. – Mas elas não mudam nada.

— Talvez não para você, mas elas mudam tudo para mim! – Seus dedos estavam começando a doer pela força com a qual ele apertava o gatilho, mas não deixou que isso lhe parasse. Pelo que lhe dizia respeito, poderia acabar com os dedos em carne e osso ao fim de tudo sem que conseguisse fazer um arranhão em Jiazz, e ainda se daria satisfeito com isso. – Eu não sei exatamente se isso é devido a Jane, devido a Cleus ou devido a Bokuto, mas eu não sou agora o mesmo homem que entrou no Pandemonium. O homem que eu era já teria abandonado seus companheiros e saído correndo daqui há muito tempo, e francamente, eu ainda meio que quero fazer isso. Eu não quero morrer, principalmente não por uma causa na qual não acredito ou por alguém que não significa nada para mim, mas ao mesmo tempo... eu não vou mais abandonar aqueles que estão ao meu redor e tentar me esconder. Correr de novo depois de todos os esforços desses idiotas seria fazer o mesmo que eu fiz a tantos anos atrás, e eu não vou repetir meu erro! Eu não posso te derrotar, Juggernaut, mas isso não vai me impedir de tentar!

As palavras vieram com um fogo e uma bravura que nem mesmo o próprio Syd sabia que ele tinha, mas o efeito que deveria estar por trás delas foi perdido quase que de imediato quando ele apertou novamente os gatilhos das suas pistolas... para que tudo que viesse delas fosse o leve som de “click”. Seus olhos se arregalaram ao ouvir o som e foram de imediato para as suas armas, e foi o tempo de fazer isso para que uma sombra se erguesse sobre ele. Voltou seus olhos para frente, mas já sabia o que era o responsável por isso desde o primeiro momento em que a sombra caiu sobre ele.

Jiazz, o Juggernaut, estava bem diante de Syd, olhando para ele com um sorriso largo nos lábios e olhos.

— Hoje é um bom dia – disse o Juggernaut, retirando uma de suas mãos do bolso e a fechando em um punho. – Mal comecei o meu ataque, e já conheci três pessoas que merecem o meu respeito.

Seu punho subiu em um gancho que acertou Syd direto no queixo. O corpo do mercenário foi jogado rodopiando para trás e caiu no chão com um baque, rolando ainda o bastante para que ele ficasse voltando para a entrada, completamente inconsciente e com sangue escapando dos seus lábios, a marca do punho desenhada em sua bochecha.

— Bons sonhos, Pistoleiro. Eu controlei a minha força, então você não deve acordar com nada mais do que uma dor de cabeça bem filha-da-puta – murmurou Jiazz, sorrindo de forma satisfeita enquanto dava as costas para Syd. – Sabe... essa não foi uma luta desafiante ou coisa do tipo, mas ela ainda foi bem satisfatória. Existem tantos palhaços arrogantes e falsos e simplesmente podres-por-dentro pelo mundo que muitas vezes eu me pergunto que tipo de direito a raça humana tem de ainda existir, mas pessoas como vocês me mostram que essa terra de merda ainda tem alguma esperança. Isso provavelmente não significa muito no grande esquema das coisas, mas pelo que conta, vocês têm o meu respeito e até uma certa admiração minha, mercenários do Salão Cinzento.

Voltou a caminhar em direção ao corredor, mas enquanto fazia isso Jiazz abriu e ergueu uma de suas mãos, apontando-a para cima. Chamas douradas surgiram na palma dela como se ela fosse uma tocha, e essas chamas douradas se espalharam pela sala. Vários feixes individuais delas foram em várias direções diferentes, com algumas indo até pessoas como Blair e Orochi, enquanto outras foram para pessoas como Breath e Zetsuko. Elas foram até mesmo para Denis, alcançando-o ao passar pelas várias salas pelas quais o mercenário tinha sido arremessado, e a medida que elas iam alcançando alguém, as feridas dessa pessoa começavam a ser curadas.

— Sabe, Pistoleiro, quando você me atacou eu tive a impressão de que você assumiu que eu tinha matado os outros. E essa foi uma impressão muito errada – contemplou Jiazz, gargalhando levemente. – Eu nunca tive a intenção de matar ninguém quando me juntei a essa guerra. E por que teria? Parece um terrível desperdício matar pessoas tão valorosas como vocês por um motivo tão fútil como algumas moedas, não concordam?

Suas chamas cuidaram rapidamente dos feridos, e assim que o trabalho delas foi concluído Jiazz tratou de as extinguir. Sem mais nada o que fazer ele voltou seu foco totalmente para o caminho pelo qual seguia, tendo um sorriso divertido e interessado no rosto.

— Descansem bem, vocês. Sonhem com os anjos, se assim quiserem. Vocês já fizeram a sua parte e me divertiram um pouco – comentou ele em voz alta, estalando seus dedos. – Agora resta ver se os outros vão conseguir o mesmo.



Notas finais do capítulo

Primeiro Andar – O Mundo de Pedra

Ylessa VS Piromaníaco (Vencedora: Ylessa)
Bokuto VS Shiva (Vencedor: Bokuto)
Soulcairn VS Kong (Vencedor: Soulcairn)
Duke VS Bertold (Vencedor: Duke)
Breath, Denis, Zetsuko e Blair VS Alcatraz e Zumbis (Vencedores: Quarteto)
Jane VS Cleus (Vencedor: Cleus)
Syd VS Cleus (Vencedor: Cleus)
Bokuto VS Cleus (Luta Interrompida)
Bokuto e Syd VS Ibur (Vencedores: Bokuto e Syd)
Breath, Denis, Zetsuko, Blair, Syd, Coralina e Orochi VS Jiazz (Vencedor: Jiazz)

Segundo Andar – O Labirinto Eterno

Maoh VS Zaniark e Byron (Vencedor: Maoh)
Kyanna VS Steelex (Vencedora: Kyanna)
Teigra VS Behemoth (Vencedora: Teigra)
Mefisto VS Zumbi de Zephyr (Vencedor: Mefisto)
Hozar VS Reivjak (Vencedor: Hozar)
Enderthorn VS Octo Gall (Vencedor: Octo Gall)
Bryen VS Octo Gall (Vencedora: Bryen)
Goa VS Saber (Vencedora: Saber)
Anabeth VS Saber (Vencedora: Saber)
Cleus VS Saber (Em andamento)
Valery e Bryen VS Presas (Interrompida; Valery morta)
Senjur VS Presas (Vencedor: Presas)
Bryen e Enderthorn VS Presas (Vencedores: Bryen e Enderthorn)

Terceiro Andar – O Deserto de Ossos

Hozar VS Gunlamar (Luta Interrompida)
Trevor e Marco VS Gunlamar (Vencedores: Trevor e Marco)
Trevor e Marco VS Dokurei (Vencedor: Dokurei)
Ex, Cleus e Ylessa VS Dokurei (Em andamento)

Quarto Andar – A Catedral

Hozar VS Tristah (Em Andamento)

Quinto Andar – Elísio

Kastor, Ekhart e Shell VS Balak e o Anjo de Sangue (Fragmentada)
Kastor e Ekhart VS Balak (Em andamento)
Shell VS Anjo de Sangue (Vencedor: Shell)

Primeiro Andar Subterrâneo – Terra das Bestas

Odin, Soulcairn, Gwynevere e Ezequiel VS Hashmaul (Em Andamento)

Segundo Andar Subterrâneo – Terras Úmidas

Titânia, Vaen, Chappa e Dayun VS Retalhador (Vencedora: Titânia – Vaen e Chappa mortos, Dayun inconsciente)



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