O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 11
O Senhor dos Anéis


Notas iniciais do capítulo

Referências? Eu?

Nah.



Assistiram o leilão de escravos por um bom tempo, e por esse período, a atuação de Kastor foi simplesmente fenomenal. Ficou honestamente surpresa com aquilo; mesmo quando havia falado com seu líder, se esforçado para explicar tudo pra ele da melhor forma possível, estava meio convencida de que ele iria cometer algum erro ali. Mas nada assim aconteceu; Kastor estava, surpreendentemente, seguindo o plano ali de forma perfeita, dando lances que eram superados pelos demais tão convincentes que até mesmo a própria Bryen acabou questionando-se se ele realmente estava apenas fingindo ou sendo sincero ali. Quem diria. Kastor é um ótimo ator. Estavam conseguindo a atenção do leiloeiro ali – isso era algo que ela podia notar pela forma como ele olhava frequentemente para eles – e, pelo que parecia, tudo estava correndo bem.

Até a chegada daquela mulher.

– E agora, senhoras e senhores, eu lhes trago uma grande beldade! – a voz do leiloeiro era alta e ressoava por aquele lugar, mas nem mesmo ela foi o suficiente para encobrir o som de correntes sendo puxadas ou os grunhidos tanto masculinos que vinham por detrás da cortina. Parece que alguma coisa está acontecendo ali... mas, Deuses sejam bondosos, eu não quero nem imaginar o quê. – Essa mulher é famosa, meus caros! Linda, linda de morrer, e “morrer” é o que acontece com muitos que lindam com ela! Com seios fartos, curvas lindas e uma retaguarda fenomenal, essa mulher tem beleza o suficiente para fazer com que qualquer homem babe aos seus pés... mas ao invés disso, o que ela faz é esmagar as cabeças desses homens com seus punhos! – um sorriso largo surgiu no rosto do leiloeiro no momento em que ele dramaticamente jogou sua cabeça para trás e gritou. – Com vocês, senhoras e senhores! A Besta Rubra, Ylessa Farcry!

Ylessa Farcry? Nunca havia ouvido falar desse nome antes em sua vida, mas aparentemente, o mesmo não podia ser dito da plateia atrás dela. Quando ouviram o nome daquela mulher, mais da metade dos homens na plateia pareceram simplesmente perder a cabeça, liberando urros tão fortes que ameaçavam tornar Bryen surda. Maldição, pensou ela, olhando ao redor. Quem exatamente é essa mulher? Por que eles estão tão felizes assim?

Compreendeu logo o motivo disso assim que a cortina se abriu.

O leiloeiro havia falado muito bem da beleza daquela mulher, e pelo que pode ver, ele não havia exagerado em sua descrição. Não sou uma dessas, mas sei que existem muitas mulheres por aí que matariam para ter o corpo dela. Estava vestida apenas com uma simples camisa extragrande de pano branco com a parte dos braços ausente – algo que cobria-lhe apenas até um pouco abaixo da virilha – e isso fazia pouco para esconder a beleza dela. Pelo que podia ver, aquela mulher tinha um par de seios fartos e cheios mal contidos por sua roupa, curvas bem acentuadas e quadris largos, bem como pernas longas e bem trabalhadas. No entanto, a beleza dela não era absoluta, também; seus braços eram claramente mais finos do que os de um homem normal, mas mesmo assim o olhar atento de Bryen conseguia notar um bom número de músculos desenvolvidos ali, e o rosto dela também exibia uma longa cicatriz que corria desde a bochecha direita até quase tocar sua orelha, mais do que prova o suficiente de que, apesar de toda a sua beleza, aquela mulher era uma guerreira no fim das contas. Mas mesmo com tudo aquilo, nada disso chamava tanto a atenção quanto os cabelos dela. Podia dizer que aquela mulher era bem alta – pelo que chutava, ela tinha mais ou menos um e noventa de altura – mas mesmo assim os cabelos dela eram longos o suficiente para chegarem até a sua cintura, belos, selvagens, brilhantes... e bicolores. As mechas de seu cabelo eram, em iguais quantias, negras e rubras, entrando em um contraste ali que era no mínimo curioso, para não usar palavras de significado maior como “exótico” ou “bizarro”. A maior parte desse cabelo caia sobre as costas da mulher, mas algumas mechas também cobriam sua testa, bem como um punhado seleto de mechas rubras e negras caiam sobre seus ombros direito e esquerdo.

Quando ouviu todos os grunhidos e o barulho que vinha por detrás da cortina, Bryen havia imediatamente assumido que estavam abusando de alguma daquela mulher, mas bastou um olhar sobre ela para compreender que era exatamente o contrário. Cerca de uma dúzia de homens estavam ali, se esforçando para segurar aquela mulher com o auxílio de correntes, hastes de ferro, grilhões e outra infinidade de coisas, mas eles não estavam obtendo muito sucesso, pelo que a ruiva podia ver. Eram todos musculosos e obviamente treinados, mas isso fazia pouco para mudar o fato de que aquela mulher, por si só, era mais forte do que todos eles juntos, e ela não se acanhava em mostrar isso. Quando um deles tentou laçar o pescoço dela com algum tipo de corda presa a uma vara de aço, a resposta da mulher foi inclinar seu corpo para frente com tanta força que o homem foi arremessado por cima dela como se não fosse nada, quase acertando uma das fileiras de cadeiras da frente. Quando outro homem cometeu o erro de aproximar-se dela e tentar segurá-la com suas próprias mãos, a mulher respondeu por morder-lhe violentamente na lateral do rosto, cravando seus dentes na pele do homem com uma força assustadora. Não fossem aqueles homens escravistas, Bryen sabia que iria sentir pena deles com aquilo; a brutalidade da mulher era absurda em seu ataque, e os gritos de dor e pânico que a vítima dela liberava enquanto seus companheiros lutavam para tentar tirá-la dele eram, no mínimo, aterrorizadores.

E no entanto, tudo aquilo parecia não passar de um grande espetáculo doentio para todos os que haviam vindo até aquele lugar. Aquela mulher era claramente descontrolada e perigosa, atacando ferozmente todos os que alcançavam, e ainda assim todos os que estavam ali não faziam nada além de rir, gargalhar como se aquilo fosse uma obra prima da comédia, obviamente sem dar a mínima para o perigo que aquela mulher representava ou quão desesperadora era a situação do homem ali... ou, principalmente, o fato de que eram aqueles homens dos quais eles estavam zombando que estavam impedindo que aquela mulher caísse sobre eles. Eu francamente não sei se esses porcos são sádicos ou estúpidos. Acho que ambos, pelo que vejo. Ao seu lado, viu que seus companheiros compartilhavam de seus pensamentos; Kyanna já não olhava para o palco, preferindo olhar para o lado como que para tentar ignorar o que se passava ali – algo que, considerando a forma como ela mordia seu lábio inferior, não era necessariamente alguma coisa na qual ela estava tendo muito sucesso. Anabeth ainda sustentava seu olhar par o palco, mas ela obviamente também não estava muito melhor ali; de braços cruzados como ela estava, Bryen conseguia ver os dedos da maga-arqueira apertarem sua carne com força, ameaçando perfura-la, e a forma como ela não desviava o olhar do palco para absolutamente nada sugeria que ela não estava exatamente observando tudo ali porque gostava. De todos, o único que parecia verdadeiramente calmo ali era, não tão surpreendentemente considerando tudo o que ela já havia visto dele naquele dia, Kastor. Apesar de tudo que ocorria ali diante dos seus olhos o cavaleiro estava observando calmamente as coisas com uma perna apoiada sobre a outra, sem mostrar um pingo de emoção sequer em seu rosto.

Demorou um bom tempo para que os homens conseguissem arrancar a mulher de seu companheiro; eles recorreram a muitas coisas, desde a simplesmente puxá-la até a golpeá-la violentamente com seus punhos, mas tudo o que conseguiram com isso foi fazer com que suas mãos sangrassem enquanto não deixavam um único arranhão sobre ela. Foi apenas no momento em que dois deles se juntaram em puxá-la para trás pelos cabelos que ela inclinou um pouco sua cabeça para trás, e os outros prontamente aproveitaram-se dessa chance para tirar seu companheiro das garras dela. Viu um homem forte e grande chorar como uma criança enquanto alguns de seus companheiros tiravam-no dali, praticamente o arrastando, enquanto todos os outros se focavam apenas em segurar aquela mulher com toda a sua força, e mesmo assim aparentavam ter dificuldades. A mulher cuspiu alguma coisa no ar, algo que caiu bem perto de Bryen. Virou seus olhos para isso e viu que aquilo era nada menos do que a orelha do homem, arrancada a dentadas por ela. Ergueu seus olhos de volta à ela ao ver aquilo, e em resposta a isso, a mulher sorriu pra ela, mostrando orgulhosamente seus dentes tingidos de vermelho.

– Como vocês podem ver, Ylessa é uma besta um tanto quanto indomada ainda, apesar de todos os nossos esforços! Aquele que decidir comprar essa mulher deve se certificar de ter um bom número de correntes em seu repertório... ou uma boa forma de quebra-la! – um sorriso maligno sorriu no rosto do leiloeiro enquanto ele se virava para a plateia e gesticulava animadamente. – Vamos, vamos! Existe aqui um grande homem capaz de quebrar essa mulher? Um grande homem capaz de tomar essa fera selvagem, fazer com que ela se curve e beije seus pés? Ou, talvez, vocês não queiram nem quebra-la! Eu não quebraria! Francamente, as minhas ultimamente estão um tanto quanto... frias. Elas apenas ficam lá paradas de pernas abertas! Ora, se eu quisesse alguém para ficar parado de pernas abertas, eu comprava um frango no açougue! Não, não. Eu gosto de um pouco mais de emoção! Um pouco mais de... fogo!

A multidão caiu na gargalhada ao ouvir aquilo, com exceção de Bryen e os outros. Eu não deveria mais me surpreender com tudo que eles fazem, mas não consigo deixar de sentir descrença todas as vezes que vejo as merdas que cercam esses malditos. Era uma coisa que pessoas se divertissem em uma arena ou torneio com o sofrimento dos guerreiros; aquelas pessoas haviam vindo até ali com a intenção de ver uma luta, e por tal, elas esperavam ou deveriam esperar pelo sangue e a brutalidade, e estavam devidamente protegidas disso. E mesmo assim, isso ainda é um tanto quanto perturbador. Mas naquela situação, isso conseguia ser ainda mais perturbador. Aqueles homens não eram guerreiros – na verdade, considerando o lugar aonde estavam e a forma como eles eram aparentemente tratados, Bryen se surpreenderia muito se eles fossem livres – e aquilo não era nenhum tipo de arena. Aquela brutalidade não era algo que ninguém esperava quando ia a um lugar como aquele, e não havia nada ali para manter aqueles porcos seguros caso a mulher de alguma forma escapasse. Isso não é simples sadismo. Isso é completa indiferença diante da vida humana. Eu sempre pensei realmente que escravistas não se importavam com a vida de outras pessoas, mas agora vejo que esse é um tipo de pensamento muito inocente. Não é que eles não se importam com a vida dos outros; eles não se importam com a vida de ninguém, incluindo a deles mesmos. E da mesma forma que isso era perturbador, isso também era assustador. Esses são os nobres e grandes de Fredora, a maior e mais rica das nações do sul. Se os nobres daqui tem tão destrutivos e indiferentes diante de questões como essas... então qual é o futuro que espera por essa nação?

– Três moedas de ouro pela mulher – anunciou subitamente a voz de um homem. A voz de Kastor, para a grande surpresa de Bryen.

Virou-se para o cavaleiro sem pensar duas vezes; sabia que fazer isso provavelmente atrairia um tipo indevido de atenção que poderia muito bem deixa-la do lado de fora da seção, mas simplesmente não pôde conter-se ali. O rosto de Kastor estava sério, os olhos do azul fixos na mulher, compenetrados. O que ele pensa que está fazendo? O plano era para que eles apenas dessem lances depois de um lance inicial da plateia. Do contrário, corremos o risco de que vençamos o leilão, o que não queremos. A não ser que...

– Cinco moedas de ouro pela mulher! – gritou outro homem do meio da plateia, um magricela com cabelos negros bem penteados para trás e um sorriso cruel em seu rosto. Vestia um terno verde-escuro, trazendo por baixo dele o que parecia ser uma camisa social branca, e no pai-de-todos de sua mão direita ele exibia um luxuoso anel de ouro, denunciando o seu estado na nobreza. Sua postura era relaxada e divertida, como se tudo aquilo ali fosse uma grande brincadeira aos olhos dele.

– Oito moedas pela selvagem! – gritou um segundo homem, alguém tão absurdamente gordo que era difícil para Bryen pensar como ele havia conseguido passar pelas do mercado. Ao seu lado estavam duas assistentes, duas garotas seminuas que simplesmente não podiam ter muito mais de quinze ou dezesseis anos, abanando o homem com penas de ganso. Ele era careca, mas em compensação, tinha uma grossa barba e sobrancelhas tingidas de lilás.

– Quatorze moedas pela mulher! – disse uma voz mais fina e calma que as outras ali. A voz de uma mulher. Bryen chegou a virar-se para fitar quem havia dito isso, e com isso ela pode vê-la; bem mais atrás, nas cadeiras das fileiras iniciais, estava uma mulher franzina, magra como um palito e com um rosto longo. Ela tinha cabelos curtos, caindo apenas até suas orelhas, e um par de lentes cobriam seus olhos. Uma mulher? Existe uma mulher fazendo compras aqui? E ainda por cima, comprando outra mulher? Afinal, qual era a intenção daquela mulher?

Sua atenção foi chamada novamente quanto ouviu o som de um impacto. Virou-se na direção dele para ver que o gordo havia golpeado o encosto de sua cadeira com força e agora fitava a mulher de forma irritado, carregando um olhar tão irado que parecia que ele seria capaz de quebrar o pescoço dela em suas mãos como se fosse um osso de galinha... considerando que ele fosse capaz de sair do seu lugar antes, claro.

– Raios partam, Evelle! – gritou ele. – Você não tem a menor ideia de como participar de um leilão, sua puta despeitada?! Quatorze moedas! Isso é muito pra oferecer assim! Afinal de contas, o que raios você faria com essa vadia, hein? Se você quer alguém pra lamber seu saco inexistente, compre um lixo de moedas de prata e deixe os realmente valiosos para pessoas como eu!

Evelle apenas olhou para ele. Um leve “hum” veio da garganta dela enquanto a mulher ajeitou seus óculos e voltou a virar-se para frente. Só então ela se dignou a responder.

– Agressividade cairia melhor em você se sua aparência não fosse tão deplorável, Laiger – disse ela, armada de uma calma e autocontrole incrível, ignorando completamente os olhares raivosos que o gordo lançava sobre ela. – Essa mulher vai se dar muito bem comigo. Meu coliseu precisa de algumas novas atrações; as lutas tem se tornado entediantes demais. Com a força que ela tem, posso coloca-la contra dezenas de gladiadores, animais selvagens e monstros e terei uma luta ao invés de um massacre. Consigo até me imaginar tendo um evento em que as pessoas pudessem fazer apostas e colocar seus próprios campeões contra. Isso certamente iria me gerar um bom lucro.

– Mesmo assim! – rugiu Laiger. – Você não aumenta um preço de oito moedas pra quatorze assim, sua puta burra!

– Eu não estou aqui para ficar competindo com vocês, Laiger. Eu estou aqui pra ganhar, para obter o que eu quero – apontou Evelle, como se estivesse explicando algo básico a uma criança estúpida. – Se você quer tanto essa mulher assim e tem o dinheiro para tal, dê um lance maior que o meu. Caso contrário, apenas fique calado e não me interrompa.

A raiva que isso causou em Laiger foi suficiente para que o gordo ficasse completamente vermelho, parecendo que ele poderia explodir ali a qualquer momento devido a sua pura fúria. Seu punho tremeu e ele parecia estar mais do que disposto a xingar mais aquela mulher, mas ao mesmo tempo alguma coisa parecia impedi-lo, como se ele não soubesse o que falar... ou temesse o que podia acontecer se falasse. Por um momento, o leilão ficou em silêncio.

Mas esse silêncio logo foi quebrado pelo magrelo com uma gargalhada.

– Ela está falando a verdade, Laiger. Em tudo! – disse o homem, gargalhando assim que as palavras terminaram de deixar seus lábios. Por um momento ele olhou para Evelle com o que Bryen pensava ser até uma certa admiração no olhar, e logo depois seu olhar moveu-se para Laiger, lançando ao gordo um olhar e um sorriso que claramente não tinham finalidade alguma além de irritar ainda mais aquele homem. – Você realmente seria mais intimidador se você tivesse uma aparência um pouco mais formidável, sabe? Talvez se você fosse capaz de suportar o seu próprio peso ou coisa do tipo. E a lógica dela também faz sentido, sabe? Quero dizer, olhando isso de uma forma puramente racional, essa mulher seria muito mais útil para ela como uma gladiadora do que como uma escrava sexual sua. Isso dito, ela é muito mais útil pra mim do que pra qualquer um de vocês já que, ao contrário de idiotas como vocês, eu farei ambos! Sendo assim! – o homem ergueu um dedo ao alto como se fosse dizer algo... mas nenhuma palavra veio dele. Estava olhando para ele de um ângulo que podia ver seu rosto bem, e sendo assim, Bryen conseguiu ver a confusão cruzando os olhos dele, uma confusão que a lembrou bastante da confusão que ela via cruzando o rosto de Kastor de tempos em tempos. Não é possível... esse idiota esqueceu o que ia falar? Aparentemente era exatamente isso o que havia acontecido, pelo menos até o homem subitamente estalar seus dedos e completar sua frase com um brilho no olhar. – Ah, sim! Dezessete moedas na mulher!

– Dezenove – retrucou imediatamente Evelle, sem nem sequer dar tempo para que o homem saboreasse sua vitória. O olhar dela caiu sobre ele logo em seguida. – Você só está me incentivando cada vez mais a adquirir essa mulher, Kin. Se não para conseguir uma boa gladiadora do meu lado, para poupá-la das suas mãos. Deixar alguém sobre seus cuidados não é algo que eu iria querer ao meu pior inimigo.

– Ora, isso é crueldade, Evelle! – contrapôs o homem, protestando audivelmente, apesar de parecer mais divertido por aquilo que tudo. – Ora, eu trato muito bem meus escravos! Você pode ir a qualquer um deles e perguntar se eles estão bem, se tem algo que eles querem, e nenhum deles apresentará uma reclamação sequer.

– Isso é porque você cortou as línguas de todos eles – apontou ela.

– Uma solução prática! Ninguém gosta de reclamões, afinal – concluiu o homem com uma gargalhada.

Essas pessoas são doentes. Doentes na cabeça. Antes sentia-se apenas revoltada e enojada por tudo aquilo, mas agora... com aquelas pessoas ali, estava começando a sentir medo delas, medo do que elas podiam fazer. E pensar que eu poderia acabar nas mãos de uma delas... ou pior, que eu ainda posso acabar nas mãos de uma delas. Esse provavelmente seria seu destino se falhassem em sua missão ali, afinal de contas. Se cometermos um erro e formos capturados, o mais provável é que sejamos todos escravizados. Pensar nisso fez com que seus olhos caíssem sobre seus companheiros; Kastor, Anabeth... e mais do que tudo, Kyanna. Gentil e doce Kyanna. Se as coisas ficarem realmente ruins e eu ver que iremos ser capturados... eu vou me certificar de poupá-la do sofrimento. Não acreditava que tinha coragem o suficiente para tirar sua própria vida, mas esperava que tivesse ao menos o bastante para conceder o presente da misericórdia aquela garota se fosse necessário, tirar a vida dela de uma forma indolor para livrar-se de uma vida de sofrimento e humilhação nas mãos de porcos como aqueles. E talvez eu possa conceder esse presente à Kastor e Anabeth, também... Sabia que não devia pensar daquela forma, mas simplesmente não conseguia controlar seus pensamentos.

– Vinte e uma moedas – disse a voz de Kastor ao seu lado, servindo para despertá-la do transe no qual havia caído. O olhar que lançou ao seu líder foi abertamente agressivo, mas ele tratou de ignorá-la completamente. A forma como Kastor estava compenetrado e surpreendentemente sério ali era absurda, quase como se ele tivesse simplesmente bloqueado todo o mundo ao seu redor para apenas se focar no leilão... ou, mais precisamente falando, na mulher. E pelo que ela podia ver, isso era reciproco. O leiloeiro fitava Kastor com uma feição que misturava surpresa com confusão e divertimento, enquanto a mulher simplesmente fitava o jovem cavaleiro como se ele fosse um animal estranho, parecendo perguntar “o que raios ele está fazendo?”.

– Malditos sejam todos vocês... – não virou-se para olhar pra ele, mas também, nem precisava. A raiva e a fúria não eram escondidas na voz de Laiger. Mesmo sem olhar para ele, Bryen conseguia visualizar claramente o homem fechando sua mão em um punho no meio da plateia. – Merda, eu não queria gastar tanto dinheiro assim, mas que assim seja! Vinte e cinco moedas pela puta!

– Vinte e oito – aumentou calmamente Evelle, bem após o lance de Laiger.

– Ah, vá pro meio dos infernos, sua puta asquerosa! – exclamou em voz alta o gordo, frustrado e irritado. – Você está fazendo isso apenas pra me irritar, não é? Sua vadia!

– Trinta! – lançou alegremente Kin, esse sim parecendo estar fazendo aquilo apenas para irritar Laiger pelo que demonstrava em sua voz e modo de agir.

– VÃO PRO INFERNO! TODOS VOCÊS! EU QUERO QUE TODOS VOCÊS CAIAM NO MEIO DO INFERNO ARDENTE! CAIAM LÁ E TENHAM ESSAS SUAS BUNDAS MAGRELAS ARROMBADAS POR TODOS OS DEMÔNIOS ALI, SEUS MERDAS! – gritou Laiger com todas as forças de seus pulmões, aparentemente nem se importando mais com o leilão ali, mais irritado e preocupado com seus competidores do que com tudo. Acho que eles irritaram ele um pouco demais.

– Trinta e três moedas – tornou Evelle.

Essa mulher está bem cara, observou mentalmente Bryen. Isso é muito estranho. Se podem vender essa mulher assim tão caro ela deveria pertencer a seção especial, certo? Talvez eles pudessem ter subestimado o valor de venda que podiam obter nela... mas francamente, era difícil imaginar isso. Ela está claramente fora da liga da maioria do mercado. O leilão estava cheio, e mesmo assim apenas quatro pessoas haviam dado lances naquela mulher. E isso considerando Kastor, que não vai compra-la, e Laiger, que aparentemente desistiu. Aquilo era muito, muito estranho. Será que a presença dessa mulher aqui é algum tipo de teste? Será que...

Cinquenta moedas de ouro! – entoou a voz do cavaleiro azul.

Seus pensamentos pararam no mesmo momento em que ouviu aquilo. Viu os rostos surpresos de Kyanna e Anabeth virarem-se para Kastor apenas um momento antes do seu se juntar aos delas. Logo notou que não eram apenas elas, no entanto; praticamente todos os participantes do leilão apenas tinham olhos para Kastor naquele momento, como se não conseguissem acreditar no que aquele homem havia dito, e francamente, Bryen não iria se surpreender se fosse esse o caso. Ela mal podia acreditar naquilo, e não por motivos bons. Kastor, o que raios você pensa que está fazendo?!

– Hoho! – riu o leiloeiro, claramente divertido com aquilo. – Hohoho! Parece que o nosso bom competidor aqui na frente está disposto a oferecer cinquenta moedas por Ylessa, senhoras e senhores? Será que deixaremos ele levá-la por esse preço? Hum? Deixaremos?

Pela voz e as palavras que aquele homem usava era óbvio que ele estava tentando motivar os demais participantes daquele leilão a agirem ali, mas nenhum deles se manifestou. Kin, Evelle, Laiger... todos eles ficaram em um profundo silêncio, sem dizer uma palavra. Maldição, maldição...

– Ninguém? Ninguém mesmo? – o leiloeiro quase pareceu desapontado, como se tivesse perdido sua grande diversão. – Bom, que assim seja, então. Dou-lhe uma! Dou-lhe duas!

Em desespero, olhou ao redor. Ninguém se manifestava. Ninguém iria se manifestar. Merda, merda, merda. Eles iriam ganhar. E ao ganharem, eles iriam perder o dinheiro. Maldição, esse era o dinheiro que precisávamos para entrarmos na seção especial! Merda! Merda!

VENDIDA!

=====

– Afinal de contas, qual foi sua grande ideia, Kastor?! – exclamou Bryen, olhando para o cavaleiro azul com uma irritação bem evidente em seu olhar. É, parece que eu realmente irritei ela dessa vez. Coçou sua cabeça, tentando pensar no que fazer ali. – Eu consigo entender que você faça bobagens de tempos em tempos e estrague as coisas eventualmente, mas era óbvio ali que você sabia muito bem o que estava fazendo. Isso não foi um acidente; você fez o que fez de propósito!

Isso não é uma mentira. Realmente havia feito aquilo de proposito, e em seu interior ele sabia muito bem que Bryen iria brigar com ele por isso... mas não havia imaginado que as coisas ficariam daquele jeito.

Estavam, no momento, em um quarto de hotel. Apesar de todo o dinheiro que havia gastado no mercado de escravos, ainda tinha uma boa quantia de fundos disponível ali, o suficiente para pagar por um bom quarto. E era exatamente isso que ele havia feito. Apesar de que, considerando que eu paguei apenas por uma suíte e estava cercado por mulheres, uma delas claramente uma escrava, acho que passei a impressão errada. Ou, pelo menos, o atendente me passou a impressão de que eu passei a impressão errada pela piscadinha que ele me deu e o “sortudo” que ele sussurrou. Hum. O importante, no entanto, era que o quarto que ele havia alugado era bem espaçoso, mais do que o bastante para que todo o seu pequeno grupo se reunisse ali.

Estava sentado na cama dele naquele momento, uma grande cama que apesar de ser classificada como “de casal” podia facilmente comportar todos os cinco ali e talvez até mais. Talvez seja por isso que o atendente teve a impressão errada. Bryen estava à sua frente, de braços cruzados, fitando-o nos olhos com uma expressão que parecia positivamente irada. Anabeth estava do outro lado do quarto, apoiada na parede, observando tudo aquilo em silêncio enquanto fitava Kastor com uma feição que, apesar de não demonstrar irritação como a de Bryen, certamente mostrava um tanto de confusão. Kyanna, por sua vez, estava sentada de pernas cruzadas em uma poltrona próxima de Anabeth, apenas observando tudo que acontecia ali com certa curiosidade no olhar, embora ela pelo menos não lançasse a Kastor nenhum olhar inquisitivo nem nada do tipo. Por isso, o cavaleiro sentia-se devidamente grato.

E, claro, no meio do quarto, sentada de pernas cruzadas no chão, com grossos dispositivos de aço envolvendo seus braços como se fossem as luvas de alguma armadura, estava Ylessa Farcry, apenas observando tudo que acontecia ali com uma mistura de curiosidade e tédio. Noventa e cinco por cento tédio, cinco por cento curiosidade, pelo que seus olhos mostram pra mim.

– Foi mal, foi mal – desculpou-se ele, sabendo bem que qualquer outra resposta inicial diferente daquela iria resultar imediatamente em uma pancada. Na verdade, mesmo dizendo isso, não é garantido que eu não apanhe. Isso apenas diminui as chances. De... digamos, “certamente” para “provavelmente”. – Eu sei que estraguei o plano com isso e tudo mais... mas veja bem, eu não podia apenas deixar que os outros a comprassem, não é? Você viu que tipo de pessoas estavam tentando compra-la, certo? Eles conseguiam ser piores do que os escravistas normais. Eu não podia simplesmente deixar que um deles a comprasse.

Por um momento o rosto de Bryen amoleceu ao ouvir aquilo. Sua expressão severa se amenizou e, pelo que Kastor pode ver, ela chegou até mesmo a morder o lábio inferior. Mas isso só durou um momento. Se havia aprendido alguma coisa em todo o tempo que havia passado junto de Bryen, treinando ela na arte das espadas, era que aquela mulher era espantosamente rápida em recuperar sua compostura. Não foi diferente ali.

– Você não pareceu ver problema algum em deixar todos os outros homens e mulheres que passaram por ali serem vendidos! – apontou Bryen, rangendo os dentes. – Eu entendo a lógica por trás de suas ações, Kastor, eu realmente entendo, mas isso não muda o fato de que isso foi uma estupidez colossal! Você não só nos fez perder a melhor chance que tínhamos de realizar nosso objetivo aqui como também desperdiçou uma quantia tão alta inutilmente!

–Também não é assim – interpôs Ylessa, em uma voz cheia de tédio. – Eu realmente não me importo com todo o resto do que você disse, mas ele não fez um mal negócio em relação a mim. Ele pagou apenas cinquenta moedas, afinal. Eu valo bem mais que cinquenta moedas. Algo como... cem vezes mais. Ou duzentas vezes mais.

Aquilo serviu para redirecionar a fúria de Bryen. O olhar da ruiva mudou imediatamente seu foco de Kastor para Ylessa, fitando a mulher com uma expressão que fazia parecer com que ela estaria mais do que satisfeita em esmagar a cara dela no chão. Eu francamente não sei se eu devo me sentir aliviado pela raiva dela não está mais sendo direcionada para mim ou com pena de Ylessa pela raiva estar sendo direcionada pra ela agora. Talvez ambos.

– Diga-me uma coisa – disse a espadachim, com uma calma surpreendente que não se encaixava nem um pouco com a expressão em seu rosto. – Você por acaso planeja nos ajudar aqui? Sabe, fazer alguma coisa que possa melhorar as coisas pra nós?

– Não, eu não apostaria nisso – respondeu alegremente Ylessa, acenando com sua cabeça. – Não tenho nenhum plano quanto a isso.

ENTÃO ISSO NÃO FAZ DIFERENÇA, FAZ?! – esbravejou subitamente Bryen, exalando tanto fúria e frustração em sua voz que por um momento Kastor considerou se esconder-se debaixo das cobertas não seria a melhor das ideias que ele podia ter. A própria Ylessa ficou por um momento sem reação ali, permanecendo simplesmente parada de olhos esbugalhados olhando para o nada, antes que ela finalmente parecesse recuperar a noção do que acontecia ao seu redor. Quando isso aconteceu, a primeira coisa que ela fez foi balançar sua cabeça como se fosse um cachorro, passando a impressão a Kastor de que Bryen havia lhe deixado temporariamente surda, para em seguida apenas jogar seu corpo para trás e cair de costas no chão, deitar ali ainda de pernas cruzadas sem a menor preocupação no mundo. Ao mesmo tempo em que uma veia se tornou visível na testa de Bryen ao ver aquilo, Kastor simplesmente não pode deixar de erguer uma sobrancelha em surpresa e admiração. Gostei dessa mulher.

– De qualquer forma, tem uma coisa que me deixou curiosa no meio disso tudo – disse Anabeth, manifestando-se pela primeira vez ali. Os cabelos ruivos da arqueira estavam arranjados em um rabo de cavalo, e isso fazia com que eles não caíssem muito sobre seus olhos, e isso por sua vez permitia que ela olhasse diretamente para Kastor... e tinha de dizer, ela ficava bem intimidadora quando fazia isso. Seus olhos... Bryen era, em geral, a mais ativa das mulheres no que dizia respeito a pressionar Kastor; na verdade, ela era a mais ativa de toda a guilda. Mas Anabeth era a que conseguia colocar mais medo nele quando queria. Ela era diferente dos outros; ela não gritava, ela não xingava, ela não demonstrava perder a calma por um momento sequer. Ficava sempre tranquila, como se estivesse no controle total da situação. Mas quando alguma coisa lhe incomodava, Kastor ficava sabendo imediatamente, simplesmente porque os olhos dela o fitavam de uma forma que parecia que eles podiam enxergar sua alma. Tal como estão fazendo agora, nesse instante. – O que há de errado com você, Kastor? Seu modo de agir está sendo um tanto quanto... errático. Quando entramos no mercado você entrou por alguns momentos em um modo muito mais sério e furioso do que eu já vi. Da mesma forma, quando o leilão de Ylessa começou, você mostrou-se extremamente sério e focado, como se estivesse extremamente interessado nela. Você geralmente age de uma forma despreocupada, bem humorada e inconsequente, mas essas suas últimas ações simplesmente não se encaixam em meio ao seu modo operante. Afinal de contas, o que foi que aconteceu com você?

Aquelas simples palavras foram mais do que o suficiente para fazerem com que o humor de Kastor subitamente se tornasse muito mais negro. Ela também, observou ele nos confins de sua mente, nem um pouco satisfeito em saber que não era apenas Bryen que havia notado aquilo. Maldição, isso não é bom. Não quero assustá-las. Gostaria de poder dar uma resposta para elas, mas nem mesmo ele sabia bem o que estava acontecendo. Raios, isso é complicado...

Talvez você devesse apenas mata-las, pirralho.

Sua cabeça doeu no momento em que aquela voz ressoou dentro dela. Foi necessária uma boa quantia de força de vontade para que Kastor não levasse uma mão à sua testa ao sentir aquilo, sabendo que isso iria apenas preocupar ainda mais as duas. E essa maldita voz me atormentando... maldição, o que está acontecendo? Havia ouvido essa mesma voz antes, por duas vezes. Na primeira ela havia sussurrado para que ele matasse o segurança do mercado, e apesar de ter conseguido resistir a vontade dela, sabia bem que isso havia influenciado suas ações. Da segunda, por sua vez, ele havia agido diretamente de acordo com os desejos dela, comprando Ylessa para si apesar de saber que essa não era a melhor das ideias. Essa voz... ela está me perturbando mais do que deveria. E não só isso. Eu... eu estou me sentindo tão estressado desde que ouvi as notícias sobre Titânia e Lancelot. Como se eu estivesse sempre instável, pólvora e pavio que apenas precisam de uma faísca para explodir. Seu nervosismo e a voz na sua cabeça... juntos, aqueles dois deixavam as coisas bem complicadas.

– Nada – foi a resposta dele. Sabia que essa resposta não iria satisfazer nenhuma das duas, mas era o melhor que ele podia fazer ali. Não acho que conseguirei uma coisa muito melhor falando que estou estressado e ouvindo vozes na minha cabeça me mandando matar pessoas. – Eu suponho que vocês ainda não viram esse lado meu, não é? Bem... não é de se estranhar, francamente. Vocês não estão comigo a tanto tempo assim. Eu sou brincalhão e alegre em situações normais como essa e tudo mais, mas isso não é algo que está sempre presente, sabem? Se alguma coisa me irrita ou se a situação exige uma certa quantia de seriedade, então a minha personalidade muda, mesmo que apenas temporariamente. Hozar sabe disso, mas suponho que vocês nunca tiveram a chance de descobrir tal, não é?

Certo, isso deve servir. Ao menos, esperava que isso servisse. Era uma boa desculpa, ou ao menos, pensava que essa era uma boa desculpa. Elas podem suspeitar um pouco disso, mas isso deve servir por hora. De qualquer forma, elas devem levar suas suspeitas à Hozar, e ele não é burro. Assim que elas começarem a falar ele vai entender mais ou menos a situação e deve me cobrir. Claro, isso significaria que depois teria de lidar com o próprio Hozar querendo saber o que estava acontecendo com ele, mas isso era algo com o qual ele iria se preocupar depois, e além do mais, sentia-se mais confortável falando de algo assim com Hozar do que com qualquer uma das duas.

Anabeth ainda sustentou seu olhar sobre Kastor por alguns momentos, tentando ver se arrancava mais alguma coisa dele. O que sua mente lhe dizia era para que evitasse o olhar dela, que afastasse seus olhos, mas sabia que fazer isso iria apenas confirmar as suspeitas dela. Por isso, o que ele fez foi manter o olhar com o dela, fazendo ao mesmo tempo o seu melhor para não deixar transparecer nada. Os minutos pareceram se arrastar em anos enquanto Anabeth lhe fitava seriamente, mas no fim das contas a arqueira acabou por suspirar e balançar a cabeça, como se estivesse dizendo que não tinha jeito com aquilo.

– Muito bem, que assim seja – declarou ela, simplesmente. Depois, cruzou os braços e direcionou seu olhar à Ylessa. – Isso me parece justo... mas de qualquer forma, isso não resolve alguns pequenos problemas nossos. Temos de pensar no que fazer agora para cumprir nossa missão, e não podemos demorar aqui. E, obviamente, também temos de pensar no que fazer com essa mulher.

– Você poderiam me libertar. – disse imediatamente Ylessa, ainda deitada daquela forma bizarra. – Gosto da ideia de ser liberta.

– Isso seria jogar todo o dinheiro que gastamos em você no lixo – apontou Bryen.

– Segundo você, ruivinha, vocês já fizeram isso – lembrou a guerreira, não escondendo o prazer que sentia em ganhar a vantagem contra Bryen em uma discussão da sua voz. – Além do que, pelo que posso ver e ouvir de vocês, não são algum tipo de escravistas ou coisa do tipo, não é? Pelo que me parece, vocês estão aqui justamente para pôr um fim a isso. Estão realmente dispostos a usar uma escrava para isso? Seus hipócritas.

– Não fale sobre o que não sabe, mulher – cortou Bryen, ríspida. – Nossa função aqui não é libertar os escravos. E mesmo que fosse, não temos obrigação de fazer as coisas de acordo com o que você acha certo ou não. E mais importante que tudo isso, eu nunca falei em usar você como escrava. Nós perdemos cinquenta moedas; isso é óbvio e não vai mudar. Mas mesmo assim, podemos usar essas moedas da melhor forma possível agora. Nós te libertamos e você nos ajuda a realizar nosso objetivo. Isso parece mais do que justo, não concorda?

A postura de Ylessa endureceu ao ouvir aquilo. Até aquele momento aquela mulher havia se mantido em uma postura despreocupada, leviana, mas assim que aquelas palavras foram ditas ela voltou a sentar-se, e subitamente o ar ao redor dela pareceu muito mais sério. Ela fechou os olhos por um instante, e quando voltou a abri-los eles não pareciam mais os olhos de uma mulher. Quando ela voltou a abri-los, seus olhos pareciam os olhos de um lobo, de um animal selvagem que tinha sua presa na mira. Ela sorriu para Bryen, e o fato desse sorriso lembrar o mesmo sorriso que ela havia mostrado durante o leilão foi mais do que um pouco perturbador para Kastor.

– Isso parece justo, sim... mas não vou fazê-lo. Eu já te disse antes, ruivinha. Eu não planejo fazer nada para ajudar vocês. Se quiserem me soltar, me soltem, mas não esperem uma recompensa por isso. Se não gostarem disso, me mantenham presa. É só uma questão de tempo até que eu descubra uma maneira de me soltar daqui, de qualquer forma. Só não venham me culpar depois se acontecer de eu matar alguns de vocês quando o fizer.

A postura de Bryen não vacilou perante daquela ameaça. As duas mulheres se encararam, uma de forma selvagem, outra de forma fria, ambas deixando bem claro que não teria prazer nenhum maior pra elas naquele instante do que arrancarem a cabeça uma da outra. Foi necessário que Kastor intervisse ali.

– Muito bem, vamos te libertar agora.

Isso fez com que ambos os pares de olhos caíssem sobre ele, mas ignorou-os. Levantou-se da cama e caminhou calmamente em direção a Ylessa enquanto enfiava a mão direita no bolso de sua calça e fuçava ali para tentar achar a chave que haviam lhe dado. Foi só quando ele finalmente já tinha a chave em mãos e se ajoelhava para retirar as algemas da mulher que Bryen pareceu recuperar sua voz o suficiente para falar de novo.

– O que você pensa que está fazendo, Kastor? – questionou ela, falando como se ele tivesse ficado louco. – Nós já não estamos em uma situação boa aqui, precisamos usar cada vantagem que temos! Não podemos nos dar ao luxo de simplesmente soltar essa mulher assim!

– Soltar essa mulher assim foi exatamente o que me motivou a compra-la, Bryen – retrucou Kastor sem se virar enquanto fuçava para libertar Ylessa. – Você mesma disse que já perdemos o dinheiro. Não faz diferença realmente usar ou não essa mulher. E a bem da verdade, eu não quero usá-la; não me sinto correto fazendo isso, sinto como se estivesse usando de chantagem. Sei que isso pode lhe parecer estúpido, mas... bem, esse sou eu.

Esperava ouvir mais depois daquilo e já havia até mesmo planejado ficar em silêncio, deixar que Bryen extravasasse sua raiva nele, mas os xingamentos que esperava nunca vieram. Será que ela aceitou as minhas ações? Só podia esperar que sim.

Levantou-se assim que os grilhões caíram no chão com um baque, afastando-se um passo para dar espaço a mulher. O sorriso no rosto de Ylessa havia se transformado de intimidador e selvagem para genuíno; as mãos da mulher corriam por seus pulsos, apertando-os e massageando-os para incentivar o fluxo sanguíneo. Só depois disso foi que os olhos de Ylessa ergueram-se para ele, fitando-o com curiosidade, divertimento e malícia.

– Ora, ora, parece que o líder desse pequeno grupo tem um coração melhor do que o dessa ruiva, não é? – disse ela, ficando de pé e estalando seu pescoço, flexionando seu corpo tanto quanto podia ali. – Valeu por me libertar, garoto. Você realmente deveria ganhar uma recompensa por isso.

– Bryen não tem um coração ruim, ela só é durona – disse ele em resposta. – E de qualquer forma, uma recompensa não é necessá-

– Não é necessário, sim, eu sei. Calado, sim? – a mulher esticou-se, inclinando seu corpo para trás, o que fez com que seus seios se projetassem um pouco para frente. Seus olhos foram imediatamente atraídos para eles. Oooh... eu não prestei muita atenção nisso quando estávamos no leilão, mas eles são bem grandes, não é? Acho que cada um deles é mais ou menos do tamanho da minha cabeça. Eles são tão adoráveis! Olho para eles e sinto vontade de apenas deitar minha cabeça sobre eles como se fossem um par de travesseiros! Seios! Seeeeeios! – Eu vou pagar minha dívida com você alguma hora. Eventualmente. Da forma que eu quiser. Mas o farei.

Gostei da precisão no meio disso tudo. A mulher disse aquilo e em seguida desapareceu, embora Kastor não tenha se preocupado com isso; já sabia pra onde ela devia ter ido. Virou sua cabeça calmamente para aquela direção – em direção a única janela que tinham no quarto – e tal como esperava, era ali que ela estava. Metade de seu corpo estava do lado de fora enquanto a outra metade ficava do lado de dentro; ela estava sentada na borda, suas pernas balançando enquanto ela acenava para Kastor.

– Até a vista, garoto de azul – disse ela, sorrindo de orelha a orelha. – Nos vemos depois.

Disse aquilo e logo em seguida deixou seu corpo cair pela janela, sem preocupação nenhuma. Da mesma forma, Kastor não se preocupou com aquilo, também. Ela não me parece uma mulher nada fraca, e ela fez isso com confiança demais. Ela não vai morrer. Raios, eu me surpreenderia se ela sequer se ferisse. Estalou um pouco seu próprio pescoço e virou-se para seu grupo. Suas companheiras estavam fitando-o, Bryen um pouco irritada, Anabeth com expectativas, Kyanna com curiosidade.

– Bem... creio que agora, a única questão que resta é nos prepararmos para invadir o mercado, não? – disse ele, alcançando sua dimensão particular com a ponta de um dos dedos e retirando dela uma espada que logo tratou de jogar para Bryen.

Aquilo surpreendeu todas as três. Bryen apanhou a espada que ele havia jogado para ela, mas isso não mudou o fato de que ela claramente não esperava que ele falasse algo assim. Tão surpresas elas ficaram – e por tal, tão mudas – que quase imaginou que não iriam nem sequer questionar o que ele queria dizer com aquilo. Quase.

– Com “invadir” você quer dizer “infiltrar”, certo? Sabe, entrar despercebido, na surdina? – Anabeth dizia aquilo, mas pelo simples tom de voz que ela trazia era óbvio que ela duvidasse que fosse isso.

– Infiltrações são chatas – reclamou Kastor, fazendo uma careta. Depois retirou um par de belas espadas longas gêmeas com suas respectivas bainhas da sua dimensão paralela e começou a coloca-las em suas costas. – Quando falo de invadir, me refiro literalmente a invadir. Entrar pela porta da frente sem ser convidado e chutar a bunda de qualquer um que tente nos parar. Isso me parece bem mais interessante.

– Você está louco, Kastor? – sentia que Bryen havia tido a vontade de fazer essa pergunta por várias vezes naquele dia, mas essa era a primeira vez que ela realmente dava voz a esse sentimento. – Nós temos de nos manter discretos aqui, lembra? Se o inimigo descobrir sobre nós...

– Sabe, Bryen, sem ofensas, mas pra uma mulher tão esperta quanto você é, você às vezes é bem lenta pra compreender as coisas – interrompeu ele. – O inimigo já sabe que estamos aqui. Ele não é burro, nem incompetente. Seria o cúmulo de ambos se um de seus alvos entrasse e saísse de uma de suas próprias bases sem que eles sequer soubessem disso. Se existe algo que eles queiram destruir ou esconder, eles já o fizeram, então não faz diferença tentar ser discreto ou fazer um estardalhaço. E além do mais, invadindo o mercado nós podemos ao menos libertar os escravos presentes ali, independente de termos sucesso ou não em nossa missão.

Não esperou por uma resposta por parte da mulher. Antes que Bryen tivesse tempo de argumentar qualquer coisa com ele, usou sua velocidade para cruzar o quarto. Quando as três lhe viram de novo ele estava agachado, seus pés na beirada da janela aberta pela qual Ylessa havia partido.

– Bom, estou indo – disse ele, sem se virar. – Não me deixem esperando, vocês duas.

Disse aquilo e saltou, ganhando a rua e a cidade. E nem bem saltou, ouviu as três mulheres começarem a mover-se.

=====

– Kastor Strauss está na cidade, Byron – comentou Zaniark, sorrindo bem mais do que ele deveria em uma situação como essa. Um guerreiro por profissão, Zaniark era um homem loiro de cabelos longos, rebeldes e espetados em todas as direções. Em suas pontas, cada uma das mechas de seus cabelos assumiam uma forma similar à de um raio ou de um relâmpago, o que era exatamente o que garantia aquele mercenário o título de “Raio Dourado”. Seu corpo deixava bem claras as raízes guerreiras daquele homem, sendo volumoso, repleto de músculos e claramente bem desenvolvido, algo que ele deixava evidente pelo fato de não usar camisa. Tudo o que vestia eram calças longas grossas marrons, encobertas até os joelhos pelo que parecia ser uma jaqueta branca que ele havia amarrado até a cintura. Seus cabelos, que estendiam-se naturalmente até os joelhos daquele homem, haviam sido amarrados em um rabo de cavalo na metade dessa altura para tentar diminuir seu comprimento sem muito sucesso, e na frente de sua testa caiam parte das mechas de seus cabelos dourados, quase chegando a encobrir os olhos vermelhos que o homem tinha, olhos carmesins. – Isso não é excitante? Finalmente um oponente digno!

– Ao contrário de você, eu não sou algum tipo de maníaco por batalhas, Zan. – ao contrário de seu sócio que não escondia a natureza selvagem e guerreira dele, Byron Cromwell era um homem muito mais reservado. Tinha cabelos em um tom que parecia estar em algum lugar entre o preto e um verde bem escuro, finos e consideravelmente longos, caindo até os ombros dele. Afastou o cachimbo de seus lábios e deles eles soprou a fumaça do fumo que estava saboreando. Um grosso e longo cassaco verde-escuro cobria praticamente todo o corpo daquele homem, exceto por suas mãos (que eram cobertas por luvas pretas) e por seus pés (que eram cobertos por botas velhas de couro). Seus olhos não eram visíveis; esses estavam cobertos por faixas brancas como se estivessem feridos, mas pelo que Zaniark sabia, o homem sempre havia sido assim. Suponho que ele é apenas cego ou coisa do tipo. Nem ele sabia ao certo, pra ser sincero, mas francamente, também não se importava. – Não vejo como termos um inimigo aqui é algo bom... apesar de que consigo ver facilmente como você acha isso bom.

– ... Sabe, eu não sei porque eu ainda demonstro minha alegria com você, seu maldito estraga prazeres viciado em tabaco. – virou-se para outro dos seus companheiros que dividiam aquele quarto, o que se mantinha mais distante dos outros. – E você, monge? Você está aqui pra matar esses caras, certo? Não se sente animado com isso?

Ele não lhe respondeu. Monzar Shin não era alguém que Zaniark realmente apreciava dentre todos os que estavam ali. Era o único deles que não era um mercenário, e isso aparentemente fazia com que o monge se julgasse superior aos outros. Isso e o fato de ser religioso, provavelmente. Religiosos tem essas mania de se acharem mais importantes que os outros. Bem irritante, isso. Era um homem careca ele, alguém que parecia mais velho do que ele realmente era graças a gigantesca barba que vinha de seu queixo. Vestia-se com roupas leves mas conservadoras, claramente religiosas, e possuía um único cajado branco que ele manejava com ambas as mãos em combate. Ele estava sentado num canto do quarto de pernas cruzadas e olhos fechados como se estivesse meditando, e foi assim que ele permaneceu, ignorando completamente as palavras de Zaniark.

– É, bem, vai se ferrar você também – disse Zaniark em resposta para as ações dele, começando a sentir-se ligeiramente irritado por tudo aquilo. Raios partam, será que é difícil ter alguém aqui que seja capaz de manter uma conversa agradável? Virou-se para sua última esperança ali. – Ei, Tsui. Pelo que me lembro, você lutou com Kastor no Torneio de Valhala, certo? Espera... com Kastor não, com o parceiro dele lá. Hozar ou coisa do tipo. De qualquer forma! Ansioso pela batalha que está por vir?

Tsui Miwalk olhou para ele ao ouvir aquilo – o que, francamente, era mais do que ele havia conseguido dos outros dois – mas mesmo ele não lhe deu resposta. O brutamontes era um mercenário silencioso, silencioso até demais; desde que havia começado a trabalhar com ele, não havia ouvido a voz de Tsui uma única vez. Isso em geral era estranho, perturbador, e em momentos como esse, tremendamente irritante. Raios partam! Eu sei que esse cara não é lá o mais esperto do mundo, mas ele deve ao menos saber falar alguma coisa, certo? Certo?

– Ele não responde, Zan. Eu francamente não sei porquê você continua a tentar falar com ele – comentou Byron, sem parecer estar realmente interessado naquilo apesar de suas palavras.

– Eu sou um determinador e não desisto nunca – respondeu o loiro.

– Você é um idiota viciado em lutas, e ponto. – retrucou o primeiro.

– Isso também – concordou Zaniark.

Um sorriso surgiu no rosto de ambos com aquilo, satisfeitos em seu pequeno diálogo rápido e engraçado. Jogou-se em uma das várias poltronas vagas naquele quarto e repousou sua cabeça no encosto dela, olhando para cima enquanto curtia a sensação.

– Ah... me pergunto exatamente quão forte é Kastor – comentou ele em voz alta. – Espero que ele seja bem forte. Quero uma luta bem interessante.

– Você não deveria se animar tanto com pensamentos de luta, Zaniark. Não vamos enfrenta-lo, esqueceu? – Byron virou seu cachimbo ao contrário e bateu-o levemente para retirar o fumo queimado de dentro dele, colocando sua outra dentro do bolso para retirar mais enquanto liberava fumaça. – Estamos aqui servindo como guarda-costas. Nossa missão não é sair enfrentando inimigos. Pelo contrário, nossa função é retirar o I.d.I, Indivíduo de Interesse, daqui assim que notarmos a aproximação inimiga.

– Isso não vai ser necessário, Byron o Fumante – disse alegremente uma voz, vindo por detrás da porta dupla que dava para aquele quarto. – Podemos lidar facilmente com esse cara. Ou, ao menos, eu posso lidar facilmente com ele.

Voltou-se na direção daquela voz bem a tempo de ver a porta do quarto de abrir. Por ela passou o leiloeiro – Falco – arrastando consigo uma bela escrava-de-cama com cada braço, mantendo um sorriso no rosto, óculos de sol nos olhos e seu mais-do-que-extravagante cabelo.

– Falco? – perguntou Zaniark, franzindo a sobrancelha direita ao ver aquilo. – O que você está fazendo aqui?

O homem pareceu surpreso ao ouvir aquilo.

– Falco? – repetiu ele, parecendo confuso ao ouvir seu próprio nome. Seu rosto logo se abriu em uma expressão de compreensão, no entanto. – Ah! Não desativei ainda o feitiço, não é? Foi mal, foi mal; erro meu.

Foi o tempo daquele homem dizer aquilo e um brilho veio do dedo indicador da sua mão direita. Aquele brilho durou apenas por um momento, mas isso foi o suficiente. Durante esse momento ele brilhou com força o suficiente para cegar temporariamente todos os que estavam ali, e quando eles voltaram a ver, o homem era alguém completamente diferente.

Ele agora era um homem loiro de pele branca imaculada, intocada pelo sol. Seus cabelos eram consideravelmente volumosos, o suficiente para que quase chegassem a encobrir as orelhas dele, apenas não o fazendo pois as orelhas pontudas que ele tinha se destacavam. Suas vestes eram feitas de seda branca – calça longa e camisa social – complementadas por um par de sapatos de couro de jacaré; ele era rico e nobre, e não fazia o menor esforço para esconder isso. Contudo, o que realmente chamava a atenção nele eram os anéis que ele trazia. Com exceção do polegar, o homem trazia um anel em cada um de seus dedos, e todos esses anéis traziam neles um pequeno cristal, uma pequena joia extremamente bela. Azul-claro, azul-marinho, vermelho, verde-escuro, roxo, preto, amarelo, branco. Essas eram as cores de cada um dos cristais, e eram desses cristais que o Senhor dos Anéis tirava seu poder. O que ele usou antes é o anel do dedo indicador da mão direita, certo? Isso significa que é o anel roxo. O anel da ilusão.

– Apollo – disse calmamente Byron, olhando em direção ao chefe deles ali. – Por que você estava usando a aparência de Falco?

Algo chamou a atenção de Zaniark no meio disso tudo.

– Espera aí, como você sabe que ele estava com a aparência de Falco? Você pode ver?

– É claro que eu posso ver – retrucou Byron, claramente impaciente. – O que acha que eu sou, cego? E de qualquer forma, isso não vem ao caso. Você não respondeu minha pergunta, Apollo.

Apollo apenas fez sorrir de forma quase que apologética. “Quase” pois, com toda a arrogância que aquele homem deixava transparecer de si, você teria de ser verdadeiramente estúpido para pensar que ele estava sendo sincero.

– O que posso dizer? Eu precisava de um disfarce, e Falco servia bem para isso. – desculpou-se ele, ao mesmo tempo em que dava de ombros, mostrando bem o que sentia em relação a isso. – Não se preocupe. Eu matei Falco antes disso e dei o corpo dele pros cães para garantir que ninguém descobrisse que tinham dois de nós andando por ali. Não é como se alguém fosse sentir falta dele.

– Entendo – murmurou Byron, recolocando seu cachimbo nos lábios e voltando a fumar. – Muito bem, isso me leva a minha segunda pergunta: por que? Por que você fez algo assim? E o que você quer dizer com “isso não vai ser necessário”?

– Exatamente o que eu disse. Fugir não vai ser necessário. – uma das mãos de Apollo deslizou por uma das mulheres que ele trazia nos braços, fechando-se ao redor de um dos seios dela e apertando-o com força, arrancando um gemido dela. Normalmente Zaniark consideraria uma cena como aquela um tanto quanto excitante, mas não no caso daquelas mulheres. Elas não são prostitutas. São escravas. Pelo que sei, Apollo tem uma grande tendência a matar seus rivais e escravizar as famílias deles. Se eles tem alguma mulher na família, ele toma as belas e favoritas como concubinas pessoais e entrega as demais para seus homens usarem como brinquedinhos. Poderia estar trabalhando junto daquele homem ali, mas isso não significava que simpatizava nem um pouco com aquele tipo de coisa. Se não fosse pelo fato de que Balak me pagou para proteger esse cara, eu provavelmente o mataria. Talvez eu ainda faça isso de qualquer forma, assim que eu matar Kastor. – Eu estava disfarçado, lembra? Eu vi o leilão. Na verdade, eu fiz o leilão. E isso me possibilitou ter uma visão bem clara de Kastor e das putinhas dele. Um bando bem patético, esse. Só preciso mover um pouco meu dedinho para aniquilá-los. E pretendo aniquilá-los.

– Estamos aqui para proteger você, Apollo. Não para participar de seus joguinhos – lembrou-lhe Byron, uma sutil ameaça escondida em suas palavras. Apollo apenas sorriu em resposta, dessa vez de forma abertamente arrogante.

– Vocês foram pagos para me proteger, Byron, e me proteger significa enfrentar meus inimigos se eu decidir fazer isso – retrucou o loiro, apertando novamente o seio de sua escrava para ênfase. Dessa vez ele apertou com muito mais força e brutalidade, e o resultado disso foi um grito alto da mulher... algo que lhe irritou. Em um piscar de olhos o braço do loiro se desvencilharam da mulher para que ele desferisse um soco poderoso no rosto dela, jogando-a direto para o chão e arrancando sangue e um dente dela. – Quem foi que te mandou gritar, vadia?! – exclamou ele, desvencilhando-se da outra e avançando contra a primeira, enquanto a segunda se afastava, mantendo controle o suficiente de si mesma para não gritar. A primeira estava tentando se levantar, tentando murmurar algum tipo de desculpa ali, mas ele não lhe deu a chance de terminar. Pisou em cima da cabeça dela e pressionou-a contra o chão como alguém pisa em uma formiga. – Da próxima vez, morda a sua maldita língua, ou eu a arranco para lhe silenciar!

Levantou-se assim que viu aquilo, movido por nada mais do que sua irritação. Todo o bom humor que tinha antes diante da possibilidade de uma boa luta ali havia desaparecido, dado lugar a pura raiva. Apollo notou isso, e quando viu a fúria de Zaniark, uma expressão zombeteira e complacente surgiu em seu rosto.

– Oh, está irritado, Zan? Não gosta da forma como eu trato minha puta? Que peninha. Isso é realmente triste. – Apollo chutou o rosto da mulher uma última vez antes de começar a se aproximar de Zaniark, avançando a passos trôpegos enquanto mantinha uma expressão de deboche constante em seu rosto, como se estivesse provocando o mercenário a ataca-lo. – Bom, o que você planeja fazer quanto a isso? Me matar? Hum... acho que não. Não porque você é pago pra me proteger, você não é tão profissional assim, mas porquê... hum... o que era de novo? Ah, sim! – o sorriso arrogante e zombeteiro alargou-se ainda mais no rosto de Apollo no momento em que o loiro inclinou seu corpo para frente e apontou para seu próprio peito com as mãos. – Porque você é mais fraco que eu.

Aquilo foi a gota d’água. Mal viu seu próprio corpo começar a se mover; quando se deu conta ele já estava avançando contra Apollo, pronto para quebrar o pescoço do loiro com suas mãos.

Mas nunca chegou a alcança-lo.

Antes que se aproximasse demais, sentiu todo o seu corpo ser imobilizado, como se cordas o envolvesse. Olhou para baixo e tentou mover seu braço, e aí ele pôde ver exatamente o que lhe segurava. Fumaça cinzenta havia envolvido seus braços, pernas e torso, impossibilitando-o de se mover livremente, forçando-o a permanecer em um lugar. Aquilo era apenas fumaça, mas mesmo assim Zaniark a sentia como se fosse dura feito aço, e isso significava que aquilo só podia ser uma coisa. Maldição, Byron!

– Calma, Zan. Não faça nada precipitado.

Lançou seus olhos contra seu sócio, pronto para xingá-lo, questionar como ele podia obedecer um lixo como Apollo. Mas foi então que viu aquele homem. Ele segurava seu cachimbo com uma das mãos enquanto a fumaça saia de seus lábios, e a mão que segurava o cachimbo estava tremendo. Ele está irritado também, compreendeu Zaniark. Tanto quanto eu, ele quer matar Byron.

– Oh! Byron, Byron, sempre o senhor da razão! Meus parabéns! – Apollo bateu palminhas para Byron, algo que soou mais ofensivo do que tudo. – Bem, voltando ao nosso assunto principal... não precisa se preocupar. Kastor deve atacar ainda hoje, se minha predição estiver certa. Aí poderemos acabar com ele... e depois disso ser feito, poderemos ir para Pandemonium.

=====

O guarda bocejou, sonolento. Não havia dormido bem na noite passada graças ao seu bebê, e isso fazia com que seu trabalho de turno noturno fosse ainda mais cansativo.

– Ei, meu chapa – disse a voz de seu amigo, dando uma ombrada nele para chamar sua atenção. Quando olhou para ele, seu companheiro trazia em suas mãos uma xícara de café quente, ainda com a fumacinha saindo dele. – Tome um pouco disso. Se começarmos a cochilar aqui e alguém ver que estamos fazendo isso, vamos estar com grande problemas.

Aceitou o café de mãos abertas. Era sempre bom ter algo assim, algo para te dar energia e tirar o frio do sangue. Isso caia bem. Principalmente em uma noite como essa. Pelo que podia ver e sentir, estava mais frio do que normalmente. Bem mais frio.

Ergueu seus olhos, e quando fez isso, viu um homem caminhando em direção a eles calmamente no meio da noite.

Alguém sozinho? A essa hora? Aquilo era mais do que apenas estranho. As estradas não são seguras. Ninguém viaja sozinho a essa hora. Se alguém estava fazendo isso, a pessoa tinha de ser louca... ou estar com problemas verdadeiramente grandes atrás dela.

– Ei, Joe! – gritou ele, chamando a atenção de seu companheiro. – Dê uma olhada nisso.

Joe veio, resmungando, mas seus resmungos pararam quando ele viu aquela pessoa, transformando-se em um simples murmúrio de “mas o que diabos?”. Ambos ficaram dali, olhando a figura que se aproximava, simplesmente sem saber o que fazer. Raios, eu sei que sou um guarda noturno, mas o meu trabalho é vigiar pra caravanas ou comitivas! Essa é a primeira vez que vejo uma pessoa caminhando até nós sozinha. Estava indeciso ali, indeciso sobre se deveria gritar para tentar falar com aquela pessoa ou pegar seu arco e atirar contra ela.

No fim, Joe tomou a decisão por ele.

EI! – gritou seu amigo, colocando as mãos próximas da boca para aumentar o som de sua voz. – QUEM VEM LÁ?!

A figura parou ao ouvir aquilo. Por um momento pensou que ela iria lhes dar uma resposta, ou que talvez ela iria virar-se e sair correndo dali, mas ela não fez nada assim. Ao invés disso, o que ela fez foi erguer uma de suas mãos e movê-la lateralmente rapidamente. Não entendeu aquilo imediatamente, e por isso virou-se para Joe, querendo saber se ele compreendia o que a figura queria dizer.

Quando fez isso, viu que Joe estava envolto em um bloco de gelo, completamente congelado.

Um grito de horror veio de sua garganta ao ver isso, e instintivamente ele tentou se afastar. Mas não conseguiu. Não sentia mais seus pés. Olhou para baixo e, aterrorizado, viu que seus pés também estavam congelados, fixos ao chão por isso. Desesperado, curvou-se para tentar quebrar o gelo com suas próprias mãos, mas antes que sequer os tocasse uma voz lhe parou.

– Eu não faria isso se fosse você – advertiu a voz de um homem, grossa, rude e rouca como se essa pessoa não tivesse exercitado suas cordas vocais há um bom tempo. – Toque em um gelo tão frio como esse e você perde sua mão na hora.

Aquilo foi mais do que o suficiente para que ele mudasse de ideia instantaneamente; ergueu-se de novo e lançou um olhar na direção da qual havia a ouvido, e ali viu o homem.

Era um homem estranho, no mínimo. Seu rosto era duro e rígido, algo que deixava claro que ele havia tido uma vida difícil. Ele tinha olhos azuis muito claros, quase parecendo ser cristais de gelo, e os cabelos deles eram longos e azuis, da cor do mar. E mesmo assim, o que mais chamava a atenção naquele homem era sua roupa. Ele usava um casaco que cobria praticamente todo o seu corpo – o que, por si só, não era realmente tão chamativo – mas o fato desse casaco ser feito do pelo de lobos-do-gelo e ursos polares chamavam a atenção de todos que olhassem para ele. Aquele homem estava sentado em uma... cadeira de gelo. Como?! Sentado em uma cadeira de gelo, com uma de suas mãos aberta e com pequenos cristais de gelo flutuando acima da palma dela; era assim que estava aquele homem.

– Quem... quem é você? – perguntou o guarda, apesar de que, em seu interior, ele já sabia quem era aquele homem. Ele é a figura, aquele que eu vi antes. E pela aparência dele... eu não quero acreditar nisso, mas pode ser que ele... não, ele certamente é...

– Quem eu sou não é importante – retrucou o homem, fechando sua mão e esmagando os cristais de gelo nela. Os olhos claros de Ex Glace olharam dentro dos do guarda, e de uma só vez o Tecelão Branco ergueu-se de sua cadeira. – O importante é que estou procurando por algo muito importante pra mim, e você vai me ajudar a achar isso.

Não deixou de notar a forma como o homem havia constituído sua frase. “Vai”, e não “pode”. Estava claro que não tinha escolha ali.

– O quê... o que é que você procura? – questionou ele.

– Não “o quê”. “Quem”. – corrigiu o homem, aproximando-se dois passos do guarda. – Procuro por meu irmão mais novo. Sabe onde ele está?



Notas finais do capítulo

Hehehe, esse ficou um pouquinho maior, não é? Foi mal, pessoal.

Mas agora vocês entendem o porquê que eu dividi os capítulos, certo?