O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 104
A Coragem do Covarde




Primeiro Andar do Pandemonium, “Mundo de Pedra”

 

ESPADAS SE BEIJARAM VIOLENTAMENTE NO MEIO DA SALA: a brandida por Bokuto do Salão Cinzento e a brandida por Ibur Caelum do Olho Vermelho, ambos guerreiros poderosos e experientes que se encaravam firmemente nos olhos naquele exato momento. O choque das lâminas dos dois guerreiros causou uma agitação na sala que fez com que pó e escombros fossem erguidos do chão, mas essa agitação foi seguida por uma calmaria quase que serena enquanto os dois se encaravam. Ela não durou muito. Não demorou para que o som de aço raspando em aço irrompesse a calmaria, e um momento depois as duas espadas foram jogadas para trás pela pressão que seus próprios donos exerceram, apenas para voltarem a se mover uma contra a outra quando os dois persistiram no ataque.

A espada de Ibur veio pela direita em um golpe horizontal, mas Bokuto colocou a sua arma no caminho e bloqueou o golpe com certa facilidade. Veias ficaram visíveis em seus braços por um instante quando ele colocou ainda mais força neles, empurrando a arma do seu oponente para o lado e fazendo com que o braço dele fosse com ela, deixando sua guarda completamente aberta para o golpe que veio a seguir. A ponta da espada de Bokuto avançou em uma estocada mirando no que deveria ser o coração do guerreiro, mas no momento em que a sua arma estava prestes a atingi-lo aquela seção do corpo de Ibur se desfez em uma multidão de borboletas, deixando que o golpe do cavaleiro passasse inofensivamente por ele, fazendo com que o homem rosnasse em fúria por um momento, mas não teve tempo nem para fazer isso, pois Ibur se aproveitou do seu último golpe para lançar um soco contra ele com sua mão metálica, forçando Bokuto a se abaixar rapidamente enquanto resmungava... bem de encontro ao joelho do padre.

A joelhada lhe atingiu direto no queixo com força inumana, fazendo com que Bokuto cuspisse sangue e lançando seu corpo descontroladamente para trás por alguns metros, o suficiente para que Caelum se aproveitasse. Enquanto Bokuto rodopiava para trás o padre avançava contra ele, brandindo sua espada com ambas as mãos. Quando o cavaleiro enfim pareceu recobrar o controle de si mesmo e conseguiu aterrissar de joelhos no chão ele foi imediatamente recebido por uma sombra que cobriu todo o seu corpo. Segurando sua espada apenas com a sua mão mecânica, Ibur desceu sua arma com toda força contra o cavaleiro, fazendo com que Bokuto praguejasse em frustração e tivesse de erguer rapidamente a sua espada para colocá-la no caminho. Mesmo de longe como Syd estava, ele conseguiu sentir a força do golpe como se fosse sobre ele; o som do impacto ressoou pelo ambiente, e o solo abaixo de Bokuto começou a se rachar quase que de imediato. Mas ele resistiu. O peso por trás daquele golpe era visivelmente monstruoso, mas de alguma forma Bokuto conseguiu resistir a ele mesmo enquanto ferido, suportando toda a força por trás do ataque sem se dobrar. De cima, Ibur lhe encarou, e mesmo enquanto resistia ao ataque dele, Bokuto retornou o olhar sem medo.

E então, sem aviso, uma descarga elétrica foi gerada do braço mecânico do padre, correndo por ele até a sua espada e passando da lâmina de aço dele para Bokuto. Com sua espada em contato direto com a arma de seu oponente, Bokuto simplesmente não teve chance de tentar se proteger disso de alguma forma. O choque lhe atingiu em cheio, com força o suficiente para fazer com que seu corpo brilhasse o suficiente para que pudesse ter relances do esqueleto do cavaleiro e para que fumaça subisse do seu corpo, como se ele estivesse sendo queimado por dentro por aquilo. Viu-o ranger seus dentes com força para não gritar, mas pela violência dos choques e a fumaça que subia era óbvio que ele devia estar em muita dor, e isso fazia com que Syd se sentisse mal. Merda, ele está em maus lençóis! Eu deveria ajuda-lo..., mas isso seria uma péssima ideia. O máximo que Syd podia fazer seria sacar uma de suas armas e disparar um pouco contra Ibur com ela, e duvidava muito que isso fosse ser efetivo contra um oponente como aquele. E além do mais, ele está me ignorando no momento. Se eu o atacar, eu duvido que isso vá continuar assim. Não era idiota, sabia que o único motivo pelo qual seu oponente não estava se focando nele era porquê não havia se envolvido na luta assim. Mas se disparasse contra ele Syd iria estar se envolvendo no conflito, e era uma lógica simples das lutas matar sempre o oponente mais fraco primeiro para se focar no mais forte. O que basicamente significa que, caso eu me intrometa, esse cara vai me matar, sem dúvida nenhuma!

Gostava de Bokuto e tinha uma dívida de gratidão com ele por ter lhe salvado de Cleus, mas por mais que não quisesse vê-lo morto, queria morrer ainda menos, e por isso ele ficou quietinho onde estava, apenas observando tudo sem fazer nada.

Não demorou muito para que a feição de Ibur se contorcesse em uma careta irritada. Era óbvio que o plano dele havia sido quebrar a guarda de Bokuto com aquele choque para conseguir cortá-lo com sua espada, mas o cavaleiro havia se mantido firme apesar de tudo, e isso o forçou a apelar para um simples chute forte no rosto dele, um golpe poderoso o bastante para arremessar Bokuto voando de novo, colocando-o a mercê do padre no meio ar. Aquilo lhe deu uma chance, e uma que ele não planejava desperdiçar; suas pernas se dobraram por apenas um instante antes que ele avançasse correndo contra Bokuto, segurando sua espada com ambas as mãos, preparando-se para movê-la em um único golpe decisivo contra o cavaleiro.

Mas quando ele estava quase lhe alcançando, quando sua espada estava a apenas um palmo de distância do seu alvo, uma coluna de pura pedra se ergueu do chão subitamente em alta velocidade, acertando Ibur em cheio no queixo com força o bastante para forçar o padre a recuar, e então Bokuto começou seu contra-ataque.

Imperador da Pedra, e... — Murmurou ele, invertendo sua posição em meio ar para que seu rosto ficasse virado em direção ao seu oponente. Uma parede de pedra sólida se ergueu atrás dele, bem a tempo para que suas pernas se apoiassem nela. Elas se dobraram instantaneamente, e como uma mola ele disparou de uma vez, segurando sua espada com ambas as mãos, seus olhos fixos em Ibur com um claro brilho assassino reluzindo neles. – Estilo Uma Espada: Corte da Meia-Lua!

O ataque de Bokuto foi um único movimento, mas um assustadoramente poderoso. Seu corte não afetou apenas o que sua espada tocou, mas tudo em seu caminho até onde os olhos podiam. Em um único movimento ele desferiu um corte horizontal tão poderoso que a mera pressão do ar exercida pelo movimento da sua espada foi o bastante para que ele cortasse através das paredes de pedra do Primeiro Andar, criando cortes limpos em tudo num ângulo de cento e oitenta graus a partir da frente do seu corpo, tudo como parte de um único corte que parecia muito bem poder se estender por todo o Primeiro Andar do Pandemonium.

Mas nem mesmo esse corte foi capaz de causar um arranhão sobre Ibur.

O padre havia visto o corte de Bokuto vindo em sua direção, e por isso ele teve uma reação simples, mas extremamente efetiva. No último momento, quando a espada estava prestes a lhe atingir, toda a seção do seu corpo que seria atingida se desfez num enxame de borboletas que se espalharam pela sala, fazendo com que aquele golpe tremendamente poderoso de Bokuto falhasse em lhe atingir.

E não só isso, mas isso também colocou Ibur em uma posição perfeita para lançar um contra-ataque, o que foi exatamente o que ele fez.

Com seu braço mecânico ele ergueu a sua espada, a ponta dela apontando para baixo, direto contra Bokuto, e de uma vez ele desceu a arma em um golpe que Bokuto não deveria poder bloquear, mas de alguma forma ele o fez. O golpe lhe atingiu, sim, mas ele foi completamente inefetivo, porque no tempo que a espada levou para cair – o que havia sido uma questão de frações de segundos— Bokuto havia de alguma forma criado uma camada de diamante sobre a sua pele, como uma espécie de revestimento defensivo.

— Eu em geral não uso minha Aloeiris quando enfrento um espadachim. Uma luta entre aqueles que trilham o caminho da espada deve ser livre de táticas e habilidades exóticas como essa, mas um duelo entre dois guerreiros que testam suas habilidades um contra o outro. Mas você não possui a honra de se considerar um espadachim, e sendo assim eu não tenho motivos para hesitar em usar isso contra você. – Os olhos de Bokuto se ergueram novamente, encarando seu oponente firmemente com um olhar desafiador. – Meu nome é Bokuto do Salão Cinzento, e a alcunha pela qual eu fiquei conhecido foi “Bokuto da Espada de Madeira”. Mas outra alcunha que agora o meu nome é “Bokuto, o Imperador da Pedra”. Deixe-me te mostrar o porquê!

Foi o tempo dele dizer aquelas palavras e Syd sentiu o chão abaixo dele tremer, se agitar como uma onda no mar. Não, não só o chão. Olhando ao redor, era fácil notar que não era só o chão que havia se agitado, mas todo o ambiente. Estavam no Mundo de Pedra, e todo ele estava se agitando pelo que parecia ser a simples vontade de Bokuto. Uma das mãos do cavaleiro soltou a empunhadura de sua espada, apenas para que ele movesse dois de seus dedos e apontasse para baixo com eles, e ao fazer isso a pedra acima das suas cabeças se agitou ainda mais violentamente. E um segundo depois longas lanças de pedra foram forjadas a partir desse teto, avançando contra Ibur como se tivessem vida própria, fazendo voltas em torno umas das outras em meio ar com uma flexibilidade que nunca esperaria ver de pedras ou rochas. Aquilo forçou Ibur a recuar; uma espécie de jato foi acionado da sola do seu pé metálico, empurrando-o para trás com força o suficiente para que ele pudesse evitar a primeira investida das lanças, mas elas não pararam apenas com aquilo. Elas se dobraram no ar e ajeitaram o seu próprio percurso, continuando a avançar contra Ibur, implacáveis, inexoráveis, inclementes. Cavaleiros não conhecem o significado de “misericórdia”, recordou Syd, no momento em que viu Bokuto “aterrissar”, apenas para que seu corpo entrasse direto dentro do chão como se ele estivesse mergulhando em uma lagoa profunda, sem deixar absolutamente nada para trás, nenhum sinal de que ele havia estado ali.

Inicialmente não entendeu o que aquilo deveria significar, muito menos o que Bokuto almejava com algo assim. Mas então a resposta veio a sua mente. Naquele mesmo momento as lanças estavam avançando contra Ibur, e o padre – a essa altura já com o seu corpo reformado – estava sendo forçado a recuar cada vez mais para trás afim de evita-las. Em outras palavras, ele estava sendo forçado contra a parede, literalmente. A alcunha de Bokuto... eu me lembro dela, e eu me lembro do porquê dela também. O nome vem da Aloeiris dele. “Imperador da Pedra”, uma das poucas Aloeiris conhecidas que garantem ao seu usuário um controle elemental quase que perfeito. O dono dela pode manipular a forma da terra e de seus derivados, alterar a sua constituição, criar armas e objetos a partir dela, transformar seu corpo nesse elemento e até mesmo se fundir a ele se for essa a sua vontade. O que significava que quando Bokuto havia sido aparentemente “absorvido” pela pedra ele havia na verdade se fundido a ela, e se as informações de Syd e a sua teoria estivessem certas, isso significava que ele tinha a capacidade de se mover e atuar livremente por toda a extensão do Primeiro Andar do Pandemonium com a sua habilidade. E se ele pode fazer isso, então se mover para uma parede próxima deve ser muito fácil.

Ibur não havia nem chegado a atingir a parede ainda quando Bokuto emergiu dela com um salto, bem atrás de seu oponente. Ele ainda mostrou instintos bons e uma velocidade grande o suficiente para se virar em direção a ele, mas não teve o suficiente para conseguir erguer uma defesa, e mesmo que tivesse, Syd não estava certo de que isso iria sequer fazer alguma diferença. A espada de Bokuto se moveu rápida como um raio, e num instante ela estava sendo embainhada novamente pelo cavaleiro espadachim, enquanto o peito do seu oponente se abria e sangue jorrava da ferida.

Estilo Uma Espada: Corte Rápido — sussurrou Bokuto, e um instante depois o som da guarda de sua espada batendo em sua bainha ressoou.

Ele apenas aterrissou pacificamente depois de seu ataque, mas seu oponente não teve a mesma sorte. As lanças de pedra que haviam avançado contra ele conseguiram lhe alcançar graças ao ataque, e todas elas lhe atingiram em cheio. Oito lanças de pedra perfuraram através das costas do padre para emergirem tingidas de vermelho do outro lado do seu peito, e foram elas que sustentaram seu corpo no ar mesmo depois que o jato que saia do seu pé chegar a um fim.

Depois que aterrissou, a primeira coisa que Bokuto fez foi voltar seu olhar para ele, fitando o corpo de seu oponente com um olhar frio e indecifrável. O que é que ele está fazendo?, pensou Syd, tentando decifrar as intenções de Bokuto, quando subitamente o cavaleiro sacou novamente sua espada com o dedão, tomou-a em ambas as mãos e a moveu em um corte rápido, separando a cabeça de Ibur do corpo em um único golpe e fazendo com que sangue esguichasse para todos os lados. Mas o que diabos?! Se suas pernas estivessem funcionando... bem, se suas pernas estivessem funcionando, Syd já teria fugido correndo de muitas coisas ali, mas ele com certeza fugiria com afinco particular de algo assim. Mas o que diabos foi isso?! Por que ele fez algo assim?!

— Eu não sou ingênuo, eu sei que um simples corpo aparentemente morto não é nem de longe o suficiente para afirmar que alguém está morto! – Afirmou Bokuto, como se lesse os pensamentos de Syd. Pela forma como ele continuava a segurar sua espada, não parecia que ele estava acabado. – Se você vai matar alguém, o mínimo que deve ser feito é se certificar de que o trabalho foi bem feito!

A espada de Bokuto dançou após aquelas palavras, movendo-se em múltiplos cortes que eram tão rápidos que Syd não conseguia ver mais do que os vultos dos movimentos. Mas não precisava ver os golpes em si, de qualquer forma. Podia acompanha-los facilmente pelo que acontecia com o corpo de Ibur. A cada golpe que Bokuto desferia ele cortava uma parte do homem padre; uma orelha com um golpe, uma mão com outro, um pé, um pedaço do ombro. Ele cortou carne e aço em pedaços que não eram maiores do que blocos, e depois cortou esses pela metade, e cortou essas metades pela metade de novo. Quando ele terminou, tudo que restou foram pequenos pedaços de carne e metal que não eram maiores do que uma moeda, espalhados em um monte no chão. Pelos Deuses... esse cara definitivamente não é alguém que eu quero como um inimigo. Até onde via aquele oponente não havia feito nada em particular para irritar Bokuto, e mesmo assim o cavaleiro estava lhe condenando daquela forma, com tamanha brutalidade.

Ver aquilo era algo que fazia com que entendesse bem o porquê do Salão Cinzento ser tão respeitado quanto temido. Os cavaleiros são monstros. Não só em força, mas em comportamento também, pelo que parece. Estou começando a entender melhor o lema pessoal deles.

Bokuto ainda ficou olhando os pedaços do seu oponente por algum tempo, como se estivesse tentando decidir se aquilo era bom o suficiente, antes de finalmente se dar por satisfeito e começar a se afastar. Ele não foi muito longe. Menos de cinco passos foram dados antes que seus olhos se arregalassem e a ponta vermelha de uma espada emergisse de seu peito, fazendo com que sangue subisse a sua boca e escorresse pelos seus lábios.

.... Como?! — Mesmo ferido como estava, o cérebro de Bokuto não havia parado de funcionar. Ele foi rápido em usar os seus poderes para revestir uma de suas mãos com pedras, e rapidamente ele segurou a ponta da espada com essa mão, usando as pedras para protege-la da lâmina enquanto ao mesmo tempo segurava a arma no lugar, impedindo que seu inimigo movesse a espada para ampliar ainda mais o dano. Sangue estava escapando de seus lábios a cada momento que passava, mas isso não o impediu de voltar seu rosto para trás, lançando um olhar cheio de ódio e de uma fúria indescritível ao responsável por aquilo. – Eu acabei de te cortar em pedaços. Como você ainda está vivo?!

— Um truque bem simples, cavaleiro. Uma ilusão. Com os poderes que o Deus Caelum me concedeu, é fácil fazer algo assim. – Em contrapartida a Bokuto que se mostrava emocional, Ibur falava enquanto mantinha um olhar frio como gelo, não parecendo estar minimamente preocupado com qualquer coisa que o cavaleiro pudesse fazer. Um pouco atrás deles, o monte de carne e metal que Bokuto havia cortado se transformou em dezenas de borboletas que voaram para todos os lados, se espalhando pela sala. – Pensei que poderia estar sendo exageradamente cuidadoso quando comecei a fazer isso, mas pelo visto eu tive sorte em ser precavido. Essa sua habilidade das pedras... ela é um pé no saco. Felizmente, ela não vai continuar a ser um problema por muito tempo.

Ele disse aquilo e puxou de uma vez a sua espada com tudo. Bokuto estava segurando a lâmina com força para impedir que ele a movesse, mas aquilo não era tanto movê-la quanto retirá-la do seu corpo, e toda a força do mundo tinha limites de utilidade em algo assim. Por mais que tentasse, ele não conseguiu fazer mais do que atrasar um pouco a retirada da espada, fazendo com que o som da fricção ressoasse e lhe dando tempo o suficiente para lhe dar alguma chance de reagir. Ele girou em seus calcanhares rapidamente, sacando sua espada em um só movimento para contra-atacar, mas nem toda a sua agilidade foi o suficiente; ao girar em torno de si mesmo, tudo que ele conseguiu foi fazer com que fosse o seu peito a ser cortado, ao invés das suas costas.

A espada cortou através da carne de Bokuto do seu peito até o seu abdômen, deixando que o sangue esguichasse em jatos vermelhos contra Ibur, tingindo o padre com o líquido da vida sem que ele desse a menor importância para isso. As pernas de Bokuto fraquejaram, seus braços caindo para baixo, sua espada sendo segurada apenas pelas pontas de alguns de seus dedos. O cavaleiro grunhiu e rangeu os dentes, frustrado e irritado, e por um momento pareceu que essa irritação iria servir como combustível para um contra-ataque. Por um momento sua mão se apertou com mais força ao redor da sua espada e ele a ergueu, preparado para golpear Ibur.

Mas no último momento sua força lhe falhou. A espada escorregou da sua mão e caiu ao chão, e seu corpo lhe acompanhou logo em seguida. Ele desmoronou de cara no chão, sem forças para sequer expressar a dor do impacto, sendo capaz de fazer pouco mais do que respirar pesadamente, seu peito subindo e descendo com dificuldade. Acabou, compreendeu Syd, olhando aquela cena. A luta acabou. Bokuto perdeu. Um arrepio correu por sua espinha no momento em que o pensamento de que aquilo fazia dele o próximo cruzou a sua mente, mas para sua surpresa, Ibur não avançou contra ele.

Ao invés disso o que ele fez foi apontar sua espada novamente para Bokuto.

— Um pulmão perfurado, um peito dilacerado, e ainda assim você continua vivo. A sua resistência é surpreendente, Bokuto do Salão Cinzento. – O elogio soou seco vindo de Ibur, mas de alguma forma mais honesto por isso. Não que isso mudasse o fato de que ele estava pousando a ponta da sua espada contra a parte de trás da cabeça de Bokuto, com intenções bem claras. – Você é um oponente perigoso, perigoso demais para ser poupado. Não serei descuidado. Alguém como você deve morrer, e eu me certificarei disso.

Sentiu como se seu coração parasse de bater por um momento ao ouvir aquilo. Ah, não! A espada de Ibur se ergueu rapidamente, acima da cabeça do padre, e as reações de Syd foram quase que inconscientes; ele nem se viu fazendo aquilo, mas subitamente ele estava com uma de suas pistolas na mão direita, e a fumaça que saia do cano dela e o olhar que Ibur lançava contra ele deixava claro que ele havia acabado de disparar. Oh. OH. OH, BOSTA! Desespero tomou conta dele rapidamente: o primeiro pensamento que passou pela sua mente foi de largar a arma para tentar parecer inofensivo, mas seu corpo se recusou a lhe obedecer, e sua mão simplesmente não abriu mão da pistola. Ah, maldição, não me venha com algo assim, não agora! Ergueu seus olhos para Ibur, e o que viu apenas fez com que ele ficasse ainda mais desesperado; o padre estava agora focado apenas nele e avançava em direção à Syd com passos lentos, sem a menor pressa. Meu Deus, ele vai me matar. Bondosos sejam os Deuses, ele vai me matar! Sabia disso, sabia muito bem disso, mas sabia também que não podia fugir, e sabia que se parasse com tudo aquilo e por algum milagre Ibur decidisse lhe ignorar, ele iria apenas matar Bokuto, e isso por algum motivo não era algo que ele podia aceitar. Maldição, por quê?! Eu já abandonei pessoas antes! Eu já abandonei a minha família antes?! Por que eu não posso simplesmente deixar esse cara morrer?! Eu nem conheço ele direito!

Não sabia se aquilo era devido a conversa que havia tido com Cleus ou se era simplesmente uma espécie de consciência que ele havia criado ao longo do tempo. Talvez não fosse nenhum dos dois, mas apenas o fato de que ele não era capaz de testemunhar isso. Não sabia, mas não importava, de qualquer forma. O fato era que, agora, Sydwel era incapaz de deixar um companheiro morrer diante dos seus olhos.

Vai pro inferno! — Gritou ele, e sua segunda mão achou seu caminho até a sua arma. Segurou sua pistola com ambas as mãos para dar-lhe firmeza e então apertou o gatilho, de novo e de novo. Disparou mais balas do que pode contar, todas miradas diretamente contra Ibur. Ele não deu muita atenção a elas. Desviou de algumas com movimentos simples, e as que pareciam lhe acertar eram logo reveladas como tendo acertado apenas mais um monte das suas borboletas. Mesmo assim, Syd não parou. Aquilo só fez com que ele disparasse com ainda mais violência. Soltou uma das mãos da pistola para fazer com que outra arma surgisse nela, e agora com duas pistolas ele começou a atirar ainda mais contra Ibur, tudo enquanto lágrimas corriam de seus olhos, lágrimas de puro medo. – VAI PRO INFERNO, MALDIÇÃO!

— E quem vai me mandar pra lá? Você? – Num instante ele se aproximou. Em um momento Ibur estava longe, há vários e vários metros de distância, e no outro ele estava tão próximo, bem em frente a Syd, olhando-o de cima com um ar claro de superioridade, como um homem olha um rato. – Você é fraco, Sydwel. Fraco demais. Acha mesmo que pode fazer alguma coisa? Que é capaz de fazer alguma diferença com o seu poder? – Um segundo se passou e a espada de Ibur encontrou o pescoço de Sydwel. A essa altura os disparos das suas armas já haviam parado há um bom tempo, e agora Sydwel não fazia nada mais do que suar frio e engolir em seco. – Eu não sei o que foi que lhe fez achar que seria uma boa ideia me interromper e começar a disparar contra mim, mas saiba que esse foi o pior erro que você podia ter cometido. Por esse erro, eu vou te matar.

O diabo que vai! — A exclamação veio poderosa, furiosa, e apesar de trazer uma sombra de dor, essa era eclipsada pelo simples peso da ameaça contida na voz dela. A voz de um cavaleiro-espadachim que estava há meros momentos atrás de cara no chão. Bokuto?! — Ele é um amigo meu. Se você planeja fazer mal a ele, terá que passar por cima do meu cadáver!

Pareceu que Ibur podia sorrir em escárnio ao ouvir aquilo. Ele se virou em direção a ele, seus lábios já se movendo para murmurar o que certamente seria uma provocação, mas tudo que foi ouvido foi um longo silvado, pois no momento em que ele se virou Bokuto já havia cruzado toda a distância que os separavam, e a lâmina do cavaleiro cortou através do peito do padre com a precisão de um bisturi.

— Sem borboletas e sem ilusões dessa vez – disse ele no momento em que o sangue esguichou no seu rosto. O que havia esguichado antes tinha se desfeito quando Ibur revelou sua ilusão, mas Syd podia sentir que esse era do tipo permanente. Com seus olhos afiados e seu rosto salpicado de vermelho, Bokuto parecia um verdadeiro matador, um assassino frio e eficiente. – Caia e morra, padre, e diga ao seu Deus que eu o mandei ir a merda.

Os lábios do padre se moveram em resposta a isso como se ele estivesse amaldiçoando Bokuto, mas som nenhum veio deles. Seu corpo desabou para frente e Bokuto deu apenas um passo para o lado afim de sair do caminho, deixando que o corpo de seu oponente caísse ao chão, pesado como uma âncora.

Permaneceu olhando o corpo do padre por algum tempo depois que ele caiu, antes de erguer seu olhar para Syd. Sem dizer uma palavra ele fez seu caminho ao mercenário, e quando se deu conta ele já estava segurando seu braço e o puxando para cima de seu ombro.

— E-ei, o que você pensa que está fazendo? – O susto que teve com aquilo fez com que ele instintivamente se puxasse na direção contrária, mas isso fez pouco, se algo. Ferido ou não, Bokuto era muito mais forte do que Syd, o suficiente para que o mercenário não tivesse a menor chance de medir forças com ele.

— Suas pernas estão quebradas – respondeu Bokuto de forma simples, e foi então que notou a dor na sua voz. Ele estava tentando esconder isso, mas era claro como o dia que Bokuto ainda sentia muita dor graças aos seus ferimentos. Mas é claro, isso é de se esperar! Ele pode ser resistente e bem mais forte do que uma pessoa normal, mas no fim das contas ele ainda é humano! Qualquer um vai sentir dor depois de sofrer golpes como aqueles. — Você precisa de cuidados médicos, e é óbvio que você não vai conseguir ir pra lugar algum com suas pernas nesse estado. Então eu vou te carregar.

— Me carregar?! Ei, você não acha que está se esforçando demais?! – Mesmo enquanto argumentava, o corpo de Syd era colocado mais e mais sobre as costas de Bokuto, colocado estirado de um ombro ao outro, como alguns marinheiros faziam para carregar um saco de carga. – Sério, você está com um pulmão perfurado e o peito cortado! Eu acho que tentar carregar uma pessoa nos ombros nesse estado é meio que exagerado!

— Essas feridas não vão me matar. Se eu fosse morrer diante de ferimentos tão medíocres como esses, eu nunca teria me tornado um cavaleiro. – As palavras foram duronas, mas não fizeram muito para tranquilizar Syd. Isso dito, não parecia que Bokuto estava realmente preocupado em lhe tranquilizar, de qualquer forma. – Além do mais, nós não temos muita escolha aqui. O Primeiro Andar deve estar relativamente seguro à essa altura, mas eu não tenho certeza se Ibur morreu com o meu ataque, e mesmo caso ele esteja morto, ainda temos que nos apresar e cuidar dos nossos corpos. Essa luta pode estar terminada, mas a batalha em si ainda está longe de acabada.





Hey! Que tal deixar um comentário na história?
Por não receberem novos comentários em suas histórias, muitos autores desanimam e param de postar. Não deixe a história "O Olho Vermelho" morrer!
Para comentar e incentivar o autor, cadastre-se ou entre em sua conta.