O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 103
Provações de Fogo




Segundo Andar do Pandemonium, “Labirinto Eterno”

 

FLECHAS ERAM DISPARADAS PELO AR EM ALTA VELOCIDADE, todas elas miradas em direção a Saber, mas nenhuma delas conseguia lhe alcançar. Os pés da amaldiçoada não passavam de se mover por um instante sequer, correndo incessantemente de um lado para o outro afim de escapar daqueles ataques, movendo-se tão rápido que ela conseguia até desafiar as leis da gravidade e correr pelas paredes para evadir melhor os ataques de sua oponente. Até então estava tendo sucesso com isso, mas não tinha ideia de por quanto tempo isso iria continuar. Eu estou conseguindo evitar os ataques dela até agora, mas eles não têm fim, e ela está sendo esperta também. Havia notado que enquanto disparava suas flechas contra Saber, Anabeth também estava se ocupando em espalhar o seu Pó de Fada pelo ambiente, colocando-o sobre certas áreas específicas em quantias grandes o bastante para criar uma explosão mais que considerável. Estava tomando o cuidado de evitar essas áreas, mas isso a prejudicava bastante também. Cada área que eu evito é uma área a menos para a qual posso fugir. O que significa que, com todo esse pó e esses ataques, eu estou ficando rapidamente sem ter pra onde correr. Se as coisas continuassem naquele ritmo ia ser só uma questão de tempo para que Saber fosse atingida, e isso era algo que ela queria evitar ao máximo.

E, no entanto, não conseguia pensar em uma forma de alcançar a sua oponente, ao menos não com todas aquelas flechas. Eu provavelmente posso me defender de algumas delas enquanto corro caso eu decida fazer um avanço frontal, mas não de todas. Eu vou ser atingida por uma parte delas, e considerando a quantia de flechas que ela pode disparar simultaneamente, isso pode muito bem ser o meu fim. Não era frágil, mas também não tinha uma resistência absurda como a dos rapazes, dado o seu estilo de luta. Eu posso tentar me aproximar pelos lados ou por trás, mas o Pó de Fada está nessas áreas. Fazer isso seria basicamente pedir para que ela me explodisse. E se eu tentar atacar por cima ela pode simplesmente disparar uma saraivada de flechas contra mim, e eu não só irei acabar sendo acertada por ao menos parte delas como também irei ter meus movimentos extremamente restritos. Não importava como pensava nisso, a situação estava completamente contra ela, e a cada minuto que passava ela parecia ficar pior.

Foi no momento em que pensou assim que uma ideia passou pela sua mente, súbita como um relâmpago, fazendo com que seus olhos se arregalassem e com que um sorriso ganhasse seus lábios sem que pudesse se controlar. Seus olhos foram para o sabre em suas mãos, um sabre que havia banhado no seu próprio sangue para poder usar sua Aloeiris contra Anabeth. Minhas maldições podem derrotar os meus oponentes... mas elas também podem me afetar. Usar sua Aloeiris direto no sangue que corria em suas veias era perigoso demais, mas podia transmitir o seu poder de forma a tornar apenas o sangue na sua espada amaldiçoada e depois devolvê-lo ao seu corpo por meio de um golpe contra si mesma. Como a quantia de sangue amaldiçoado será menor nesse caso, será mais fácil para mim lidar com qualquer problema que possa resultar disso. Francamente, eu nunca tentei fazer algo assim, então todo cuidado é pouco. Podia causar centenas de efeitos diferentes com as suas Aloeiris. A pergunta era... que efeito seria melhor para aquela ideia?

— Você corre bem rápido, Saber! – Declarou a voz de Anabeth, e essa declaração fez com que a espadachim voltasse sua atenção novamente a ela, seus olhos se arregalando novamente no momento em que viu o que ela trazia em sua mão. Com suas chamas ela havia criado o que parecia ser uma espécie de revolver de fogo, com a diferença de que ao invés de ter tambor, alça ou massa de mira ou coisa do tipo, ela possuía apenas um único cano de comprimento normal e diâmetro extraordinário, tendo uma abertura de boca que era facilmente duas ou três vezes maior do que a de um revólver normal. – Mas eu não sei... por algum motivo, eu não acho que esses seus pés rápidos vão te salvar disso!

Os dedos da arqueira apertaram o gatilho da arma, e o cano dela brilhou por um momento antes que uma rajada de chamas fosse disparada dele em alta velocidade. Não teve tempo para pensar mais no que fazer diante daquilo; só teve tempo para colocar uma maldição sobre o sangue em sua lâmina e cravar sua espada em seu próprio estômago antes que fosse atingida.

As chamas praticamente explodiram no motivo em que acertaram o corpo de Saber, arremessando a mulher longe – criando um buraco na parede e arremessando-o até outra sala – e a fumaça criada por elas fez uma cortina através da qual Anabeth não conseguia ver. Ah, maravilha! Eu tinha que estragar tudo de alguma forma, não tinha? Era uma boa coisa que tivesse finalmente conseguido atingir um golpe nela, mas jogá-la longe apenas dava àquela mulher a chance perfeita de reagir. Eu estava isolando-a tão bem nessa área, também. Talvez eu devesse ter esperado um pouco mais e tentado causar uma grande explosão em massa aqui... ou melhor, não. Isso não acabaria bem, nunca. Se criasse uma explosão muito grande em um espaço tão confinado como aquele, a própria Anabeth acabaria envolvida nela, e já havia visto o suficiente para saber que aquela mulher era muito mais resistente do que ela.

Suspirou. Com seus poderes ela criou duas dezenas de flechas de fogo, mantendo-as pairando no ar ao redor dela, enquanto mantinha seu revólver na mão, pronta para usá-lo a qualquer momento. Acho que, no fim das contas, usar o revólver foi a ideia certa. Talvez as coisas simplesmente não ocorram sempre da forma que queremos. O que podia fazer agora era ficar onde estava e reforçar suas defesas tanto quanto possível, se preparar para qualquer possível ataque da mulher, embora francamente duvidasse que ela fosse fazer algo assim.

E tal como imaginou, ela se mostrou esperta demais para cometer um erro tão estúpido. Isso se provou depois que passou alguns bons minutos esperando, na expectativa de que ela lhe atacasse, sem que nada acontecesse. Maldita seja ela.... Aquela era uma situação que forçava a sua mão. Se eu ficar aqui e manter as minhas defesas, minha mana vai acabar e eu vou me tornar um alvo fácil. Se eu ficar aqui e desativar as minhas defesas eu estarei dando uma brecha enorme para que essa mulher possa me atacar, o que me torna um alvo fácil. Se eu tentar ir atrás dela eu estarei entrando no seu território, o que significa que ela vai ter ao menos uma chance de me atacar desprevenida, o que, novamente, me torna um alvo fácil! Estava tentando pensar desesperadamente em alguma alternativa que contornasse essas vulnerabilidades, mas por mais que se esforçasse ela não conseguia pensar em nada, e isso só fazia com que ficasse cada vez mais ansiosa, principalmente considerando que tinha um limite de tempo para tomar a sua decisão.

Por fim, mesmo que a contragosto, ela se viu começando a caminhar em direção ao buraco que Saber havia criado. Nenhuma dessas alternativas é boa, mas eu suponho que a de caminhar para o território dela consegue ser a melhor. Teve certeza de trazer suas flechas consigo e manter seus olhos bem abertos, caminhando atentamente enquanto tentava ignorar o melhor possível o corte que Saber havia criado antes em seu peito. Bom, ela ao menos deve estar um pouco limitada também. Ela havia sofrido alguns bons golpes antes com a mistura entre as flechas e o Pó de Fada. Apesar de que... não pareceu que isso a atrapalhou muito quando ela me atacou, nem que esses ferimentos entraram no seu caminho enquanto ela evitava os meus ataques. Pensar nisso fez com que rangesse seus dentes em frustração. Pelos Deuses, a situação não poderia ser pior, poderia? Ela pode ser apenas uma das companheiras dele, mas parece até que eu estou enfrentando o próprio Juggernaut aqui, pela durabilidade dessa mulher.

Ainda restavam resquícios de fumaça obscurecendo sua visão enquanto avançava. Afastou-os com um movimento de seu braço e olhou por adiante do buraco para ver o que a outra sala reservava para ela. Essa parecia servir como uma espécie de arsenal para os membros do Olho Vermelho, estando cheia de armaduras montadas em manequins e armas como espadas, lanças e machados colocadas em barris, enquanto outras mais raras como naginatas, alabardas, facas kukri, estrelas d’alvorecer, katares e outras estavam exibidas nas paredes. Porém, tudo isso não importava. O que importava era o fato de que, por mais que olhasse, ela não conseguia ver qualquer sinal de onde diabos deveria estar Saber.

Tch! Eu sabia que isso ia acontecer. Era algo bem fácil de se imaginar, não? Depois de ser jogada naquela sala e ter alguns bons minutos de paz, era óbvio que Saber não iria simplesmente ficar parada a plena vista esperando por Anabeth. Ela provavelmente está escondida em algum lugar, só esperando que eu entre para lançar um ataque surpresa. A maldita não é só rápida e forte, mas esperta também. Teria que tomar muito cuidado para não ser emboscada, e pensar nisso fez com que Anabeth respirasse fundo. Muito bem, muito bem, acalme-se.… o que você tem que fazer é simples: olhe os cantos, olhe o teto, olhe qualquer lugar em que ela possa se esconder. E mesmo caso você olhe tudo e não ache sinais dela em lugar algum, não abaixe a guarda. Em um mundo como o nosso, eu não estranharia se ela tivesse uma habilidade que faz com que ela possa entrar dentro das sombras ou coisa do tipo.

Avançou a passos cautelosos, um pé atrás do outro, sentindo um bolo travar sua garganta graças ao puro nervosismo que tinha enquanto fazia tudo aquilo. Seus olhos iam para cada canto assim que um entrava em vista, depois corriam para o teto e seguiam para fazer uma varredura completa do ambiente, buscando por qualquer sinal que pudesse significar um ataque, mas não encontrou nada. Nem um único sinal de que Saber sequer havia pisado ali – algo que, embora lhe tranquilizasse um pouco, conseguia ao mesmo tempo ser muito mais aterrorizador do que qualquer outra coisa. “Isso está quieto demais”... essa provavelmente é a frase mais clichê que eu já li em algum livro de suspense ou terror, mas é uma que cai como uma luva nessa situação. Aquele silêncio todo era claramente anormal. Saber nunca iria simplesmente ir embora ou coisa do tipo – não depois de um discurso como o que ela havia feito sobre o Juggernaut – e se ela ainda estava ali, então Anabeth estava em grande perigo. A questão é, onde é que ela pode estar? Será que ela realmente se misturou as sombras, como eu havia pensado antes?

Estava considerando pesadamente essa hipótese quando notou algo que não pôde acreditar que havia passado despercebido por ela até agora. Em um ponto da sala, no meio do chão aberto, alguma coisa pequena – aparentemente uma bola ou coisa do tipo – estava jogada, coberta por um pano sujo marrom. Isso chamou a sua atenção de imediato, mas também fez com que todo o seu corpo entrasse em um estado de alerta. Alguma coisa desconhecida jogada em um local aberto sem motivo aparente. Isso quando a minha oponente sumiu sem deixar traços. A oponente que estava bem nessa sala. Quase suspirou de tão óbvia que era aquela armadilha.

— Há-há, boa tentativa Saber, mas eu não sou idiota o suficiente para cair n’algo assim! – Enquanto ela gritava ela girava também seu revólver, e a sua frase foi pontuada por um disparo direto contra o objeto desconhecido, liberando mais uma rajada de chamas contra ele.

Elas não muito longe dessa vez. Quando haviam cruzado cerca de metade do caminho as suas chamas simplesmente se extinguiram. Elas brilharam em azulado por um instante, ganharam uma coloração preta como carvão no outro e desapareceram num terceiro como se fossem cinzas espalhadas ao vento, e no momento em que elas se foram elas também revelaram algo horrível, que fez com que os olhos de Anabeth se esbugalhassem e com que seu queixo caísse ao chão. O que havia aparentemente sido o responsável por fazer aquilo com as suas chamas havia sido um corpo, e “um corpo” porque simplesmente se recusava a considerar aquilo como Saber. O corpo certamente era o dela – conseguia ver isso claramente pelas cicatrizes, embora ele tivesse uma marca aparentemente recente de um local perfurado por uma espada – mas ao mesmo tempo, ele não tinha cabeça!

— Mas... o que... o que diabos?! O que porra significa isso?! – Esbravejou Anabeth, incapaz de compreender aquilo.

Maldição da Morte: Durahan. — Disse a voz de Saber, vindo de nada menos do que da “bola” coberta pelo pano.

O corpo da mulher estava entre Anabeth e o pano até então, mas no momento em que a voz de Saber soou ele desapareceu por um instante, reaparecendo não mais do que um palmo atrás do pano em questão. Sem se importar com a presença de Anabeth ele caiu de joelhos, tomando o pano em uma de suas mãos e jogando-o para o lado para mostrar nada menos do que a cabeça de Saber no chão, aparentemente decapitada, mas sem sinal nenhum de sangue ao seu redor. Mais do que isso: embora fosse uma cabeça decepada, os olhos de Saber estavam bem abertos e fixos em Anabeth de uma forma que deixava bem claro que, apesar de tudo, ela ainda estava viva.

— Eu tenho que admitir, você é bem esperta, Anabeth – murmurou Saber calmamente, ignorando completamente o absurdo da situação mesmo enquanto o seu corpo lhe apanhava pelos cabelos e começava a lhe segurar com um braço, prensando-a contra o torso como um cavaleiro faria para segurar seu elmo. – Eu pensei que você seria movida pela curiosidade e veria até aqui ver o que estava por baixo do pano. O susto que você levaria com isso provavelmente me daria uma boa chance de te ferir, talvez até mesmo de acabar com a luta em um único movimento. É uma pena que isso não tenha acontecido, mas não tem importância. Você não vai me derrotar agora. Com a ajuda da Maldição de Durahan, eu sou virtualmente invencível.

Maldição de Durahan? Virtualmente invencível? Não tinha a menor ideia de metade das coisas que a mulher falava, mas não conseguia imaginar que fossem boas de qualquer forma. Bom, ela – ou melhor dizendo, o corpo dela – conseguiu lidar com o meu ataque sem muitas dificuldades aparentes, o que significa que, o que quer que ela tenha feito, isso parece ter dado certas habilidades especiais a ela. Por bem da precaução, irei assumir que ela possui mais cartas na manga do que a que eu vi. Isso era algo que complicava a luta – principalmente por não saber exatamente quais eram essas habilidades – mas supunha que podia lidar com isso conforme a luta se desenvolvesse. Isso dito, esse corpo dela não estava em lugar algum, o que significa que ele deve ter alguma habilidade como invisibilidade, movimentação instantânea ou no mínimo supervelocidade. Considerando que ele só se mostrou quando eu ataquei o que se revelou ser a cabeça dela, que ele surgiu defendendo essa cabeça e a o fato de que a primeira coisa que ele fez foi apanhar a cabeça para mantê-la junto de si... então creio que posso teorizar que a cabeça decepada dela é algum tipo de ponto fraco? Estava trabalhando apenas com base em hipóteses e achismos ali, mas estava gostando do que tinha até então: sentia-se confiante naquilo. Muito bem, sendo assim, partindo do princípio de que eu esteja certa... acho que sei o que devo fazer.

— “Virtualmente invencível”, você diz? Isso me soa como um desafio. – A mão de Anabeth foi se erguendo de forma deliberadamente lenta, tentando fazer com que o movimento fosse o mais intimidador possível antes de finalmente esticar seu indicador e apontar com ele para Saber. Suas flechas tremeram no momento em que fez isso, como se tivessem vida própria e estivessem ansiosas para o que estava por vir. – Permita-me testar, Saber. A sua invencibilidade!

Ao som das suas palavras as várias flechas de fogo que flutuavam ao redor dela foram disparadas em uma barragem flamejante que foi direto contra Saber. Podia disparar todas simultaneamente, mas preferiu não fazer isso; tinha um plano em mente, e para executar esse plano ela tinha que disparar cada flecha em um momento diferente. Ao menos no início isso não fez diferença alguma; o corpo de Saber ficou parado bem onde estava, e todas as flechas que o atingiram não causaram dano algum. Ou melhor, não, dizer isso não era o correto. Todas as flechas que deveriam o atingir não o atingiram. Cada uma delas, sem exceção, pareceu “mergulhar” numa estranha espécie de poça quando sua ponta tocou o corpo dele, afundando para dentro da sua carne como se estivessem sendo absorvidas sem causar nenhum dano visível. Pela tranquilidade que a cabeça de Saber expressava em seu rosto, era óbvio que ela já sabia que isso iria acontecer. Então, é isso que ela quis dizer com “invencibilidade”? Todos os ataques contra o seu corpo vão falhar em atingi-lo? Aquilo era interessante e mais do que um pouco preocupante, mas felizmente, Anabeth tinha um plano, e aquilo só havia feito confirmar a sua teoria. Se os ataques não acertam o seu corpo, então não faria sentido que ela tivesse medo daquele meu golpe. Se ela se deu ao trabalho de mover o seu corpo para se defender do meu ataque, então isso significa que a cabeça dela deve ser realmente um ponto fraco!

Compreender isso fez com que abrisse um sorriso, em parte pela confirmação, em parte pelo fato de que, naquele exato momento, uma de suas flechas estava seguindo em direção à cabeça.

A espadachim notou isso, também, e isso fez com que a expressão da sua cabeça se tornasse uma de pânico por um momento. O corpo dela ainda trazia em uma de suas mãos a sua espada, e ela não hesitou em mover sua lâmina contra a espada, como se pretendesse cortá-la com ela. Como esperado, aço não cortou fogo, mas isso não impediu a mesma habilidade estranha que havia a salvado da rajada do seu revólver de atuar novamente, fazendo com que sua flecha brilhasse em azul e preto antes de se desfazer. Não teve a sua moral afetada por isso, no entanto. Muito bem, então ela ainda pode usar a sua habilidade estranha para se defender, mesmo caso eu lance um ataque direto na cabeça. Isso é um pouco problemático, mas bem, acho que é o lógico a se esperar já que ela se deu ao trabalho de segurar essa cabeça. Mas isso só significava que o que ela tinha de fazer era primeiro distrair a sua oponente para depois desferir um golpe certeiro.

E tinha a ideia perfeita de como fazer isso.

Antes que sua oponente pudesse formar algum contra-ataque, Anabeth foi rápida em cair sobre um joelho e apoiar sua mão no chão. Concentrou-se um pouco, e não demorou para que uma energia avermelhada começasse a fluir visivelmente pelo seu braço. Ela fluía como finos feixes que pareciam ao olho nu como uma estranha forma líquida do fogo, mas em verdade eles não eram nada mais do que pura energia. Eles se concentraram na mão e refletiram na palma dela, e então – justamente no momento em que o corpo de Saber estava dobrando as pernas como se estivesse prestes a investir – o próprio chão ao redor da área da sua mão começou a se transformar em fogo.

Mundo em Chamas.

Testemunhar aquilo aparentemente surpreendeu Saber o suficiente para fazer com que ela esquecesse de agir, e Anabeth fez o seu melhor para trabalhar em cima da oportunidade que isso lhe deu. Fez com que o seu poder se alastrasse ainda mais, fazendo com que o chão e os destroços ao seu redor se transformassem em chamas dançantes, e assim que teve chamas o suficiente sobre o seu controle ela fez com que essas avançassem como se tivessem vida própria, avançando contra Saber em ondas flamejantes, quentes como o sol de verão. Saber inicialmente não reagiu a isso – certamente confiando que sua habilidade iria lhe salvar – mas conforme as chamas iam ficando mais próximas e a sua habilidade não agia, os olhos da sua cabeça se arregalaram e ela compreendeu que estava com problemas. Seu corpo saltou rapidamente, conseguindo apenas por pouco evitar as chamas que engoliram rapidamente a área que atingiram.

— Não é possível! – Exclamou a espadachim em meio ar, olhando para as chamas de Anabeth com um misto de descrença, frustração e puro medo. – Fogo não deveria funcionar contra mim! Nada deveria funcionar contra mim! Como você está fazendo isso?!

— Essas não são chamas normais, Saber. Você viu, não viu? Essas chamas são fruto do próprio ambiente, elas são o ambiente ao nosso redor! – Disse Anabeth, sem esconder o sorriso que ganhou seu rosto ao ver o pânico da sua oponente. Isso. Isso mesmo! Se distraia, Saber. Se distraia! Esse será o seu maior erro! — Não importa o quanto tente, você não poderá deter essas chamas especiais! O Mundo em Chamas não é uma técnica com a qual você pode lidar assim tão facilmente, Saber!

Ao soar das suas palavras, as chamas que haviam acabado de avançar contra Saber tornaram a investir contra a espadachim mesmo enquanto ela estava em meio ar. Ela teve de manobrar seu corpo rapidamente, e mesmo assim não conseguiu mais do que evitar por pouco que o golpe lhe atingisse, e mesmo enquanto aquele ataque ainda estava sendo realizado, as chamas de Anabeth predominavam mais e mais. Mesmo enquanto ela falava e atacava o seu poder não parava de agir, fazendo com que uma parte cada vez maior do ambiente fosse transformada em chamas que obedeciam a sua vontade e que, por tal, avançavam direto contra Saber.

Os pés da espadachim mal tocaram o chão antes que ela começasse a correr como louca, disparando a toda velocidade enquanto tentava evitar as várias ondas de chamas que avançavam contra ela, fazendo com que seu progresso fosse desordenado, sem ir para nenhum ponto específico, não muito diferente do que ela havia demonstrado antes quando ainda lutavam na outra sala. A cada minuto que passava ela complicava ainda mais a situação para si mesma, já que as chamas criadas por Anabeth e as chamas espalhadas pelo que era consumido pelas chamas que falhavam em acertar Saber criavam o dobro de vias pelas quais podia lançar ataques e reduziam cada vez mais a área pela qual a espadachim podia se mover, e era exatamente isso que ela queria. É impossível prever para onde ela vai quando ela tem toda essa área disponível para se locomover como bem entender, mas uma vez que eu reduzo essa área de locomoção as coisas ficam muito mais fáceis. Podia disparar uma rajada de chamas contra ela novamente, mas não queria fazer isso; não era estúpida e gostava de pensar que aprendia com os seus erros, e por isso sabia que se fizesse algo assim novamente ela estaria praticamente pedindo para ser derrotada. Por isso o mais importante para Anabeth não era simplesmente reduzir os movimentos de Saber o máximo possível, mas sim prevê-los com perfeição.

Com a sua zona de ataque sempre-crescente, não demorou muito para que colocasse sua oponente em uma enrascada. Esperou pacientemente até o melhor momento – quando ela se viu cercada por chamas de praticamente todos os lados – para fazer com que todas essas chamas avançassem contra ela de uma única vez, no mesmo instante. Eu poderia lançar um ataque após o outro, mas isso faria com que ela se focasse em desviar delas individualmente, o que lhe daria múltiplas formas de se esquivar. Mas atacando simultaneamente com todas essas chamas, de tantos pontos diferentes, ela só possui uma forma decente de evitar o meu golpe, o que permite que eu possa fazer isso!

Quando viu todas aquelas chamas avançando contra ela, Saber as evitou da única forma possível; saltando para cima, tão alto quanto pôde. E quando fez isso e se viu no ar, vendo as chamas colidirem entre si abaixo dela, ela também ouviu a voz de alguém que vinha em sua direção.

— Diga, Saber, por que você acha que essas chamas não podem ser liquidadas pela sua habilidade como as outras? Você acha mesmo que o fato de serem chamas criadas a partir dos nossos próprios arredores fazem com que elas sejam especiais o suficiente para não serem afetadas pela sua habilidade? Porque isso está tão, tão errado!

Essa voz... A guerreira amaldiçoada virou-se assim que ouviu aquela voz, e o que viu foi ninguém menos do que Anabeth, vindo em sua direção rapidamente, aparentemente tendo saltado contra ela assim que a viu no ar, com uma energia avermelhada e aparentemente quente se concentrando ao redor da sua mão.

— Essas chamas não foram liquidadas pela sua habilidade simplesmente porque elas não existem de verdade! – Anunciou a arqueira, sorrindo abertamente. – Eu treinei com uma ilusionista, Saber! Aprendi alguns de seus truques! Criar uma ilusão não é algo exatamente fácil, mas conhecer profundamente aquilo do qual você está criando a ilusão facilita bastante o trabalho! Sendo assim, foi fácil para mim criar a ilusão de chamas com a qual te enganei! Tudo para te fazer agir de determinada forma, tudo para esse momento!

Todas as chamas que queimavam pela sala desapareceram de uma vez ao soar daquelas palavras sem deixar rastro algum, como se nunca tivessem existido em primeiro lugar. Sua... maldita, miserável! Os olhos da sua cabeça haviam se arregalado ao ver a arqueira vindo em sua direção, mas agora eles se afiavam de raiva ao compreender o que havia acontecido. Mas isso também não durou muito. Não demorou para que esse olhar afiado voltasse a ser um olhar arregalado no momento em que ela testemunhou uma flecha de fogo ser forjada na palma da mão de Anabeth, parecendo mais quente e alimentada por mais energia do que qualquer uma das outras que ela tinha disparado. A arqueira segurou-a firmemente, como se fosse um punhal.

— Mas não se preocupe; essa flecha que seguro em minha mão é de verdade! – Destemida, Anabeth jogou seu braço para trás, preparando-se para o seu ataque, a última investida. – Ela é de verdade, pois com ela, eu acabo com isso!

Ela usou sua flecha como um punhal. Investiu com ela de uma única vez, colocando todas as suas forças por trás daquele golpe, mirando diretamente no crânio da cabeça de Saber.

E ela a acertou.

E no momento em que a acertou, a flecha afundou para dentro da cabeça de Saber, sendo absorvida.

Os olhos de Anabeth se arregalaram no momento em que viu aquilo, mas não estava disposta a perder a oportunidade que tinha diante de si por falar demais, por isso a primeira coisa que fez foi mover sua espada com todas as forças. Seu sabre cortou diagonalmente através do peito da sua oponente, espalhando sangue quente pelo seu corpo e pelo chão da sala. Estando no ar, a força do golpe foi o suficiente para inclinar o corpo de Anabeth um pouco para trás, o suficiente para que ela caísse de costas no chão enquanto Saber aterrissava tranquilamente de pé.

Dignou um rápido olhar a arqueira depois do seu ataque. Considerando que ela era uma guerreira que lutava a distância, ela mostrava uma resistência impressionante. Mesmo depois de um golpe como aquele ela ainda mostrava vida em seu corpo, pela forma como seus olhos continuavam arregalados e seu peito subia e descia. Hm.… interessante. Eu pensei que esse ataque seria o suficiente para lhe matar de uma vez, mas parece que ela é mais dura na queda do que eu tinha imaginado. Tinha de admitir, admirava isso um pouco. O suficiente para decidir que, enquanto tinha vida, a mulher merecia ao menos saber o que exatamente havia acontecido.

— Você assumiu que a minha cabeça era um ponto fraco, não é? Não se sinta mal por isso. As minhas ações foram todas feitas para criar esse exato pensamento. A forma como movi meu corpo em defesa a ela, a forma como a mantive sempre próxima, a forma como a protegi e fingi preocupação quando você disparou uma flecha contra ela... tudo isso foi um teatro, uma atuação para fazer com que você assumisse que ela era um ponto fraco e se colocasse em uma posição vulnerável na tentativa de explorar essa “fraqueza”. A verdade é, eu não tenho nenhum ponto fraco nessa forma. Ou, ao menos, nenhum que você possa explorar. – Deixou sua espada cair ao chão e tomou sua cabeça em ambas as mãos. Colocou-a em seu respectivo lugar com calma, fechou os olhos para concentrar-se um pouco e, assim que desfez a sua maldição, sentiu sua cabeça se juntar novamente ao resto do seu corpo. Girou seu pescoço depois disso, tanto para testar se a maldição não havia deixado nenhuma sequela quanto para voltar a se acostumar com os movimentos. Só depois foi que ela voltou a falar. – Enquanto a Maldição de Durahan estiver sob efeito, apenas ataques que possuam o elemento “fantasma” ou “sagrado” irão me ferir. Golpes santos, técnicas sobrenaturais, alguns tipos de chamas especiais... só isso. O que é, adimissivelmente, uma habilidade extremamente poderosa. Mas uma que tem um grande risco, também. Se você ficar mais do que dez minutos por dia no estado “Durahan”, você se torna um Durahan, permanentemente e de forma irreversível. Isso significa que você se torna uma espécie de fantasma, entre os vivos e os mortos, e a sua mente decai e é corrompida até lentamente ir se tornando completamente degenerada. Em nossa luta, para eu conseguir a chance necessária para lhe derrotar, eu fiquei cerca de oito minutos nesse estado, então... considere isso como um consolo. Eu não poderei voltar a usar essa habilidade hoje.

Calmamente ela apanhou a espada que havia deixado cair ao chão. Segurou-a com a mão direita e depois juntou a esquerda a ela, e apontou a ponta da lâmina para Anabeth.

— Você fez um bom trabalho, Anabeth. Eu lhe aplaudo por isso. Mas considerando a força que você demonstrou e o fato de que você faz parte do grupo de principais inimigos do Olho Vermelho, eu não posso te deixar viver.

Não disse mais nada, pois sabia que qualquer outra palavra iria apenas fazer com que as coisas fossem mais difíceis para ela. Antes que pudesse pensar demais naquilo e se arrepender, avançou contra a mulher, brandindo sua espada em direção ao crânio dela.

Mas antes que sua lâmina pudesse a atingir, o som de uma explosão de chamas lhe interrompeu.

Voltou seu rosto na direção da qual o som veio, temendo se tratar de um inimigo, mas quem viu foi um aliado. Com seus braços e pernas envoltos em chamas que terminavam numa forma que lembrava garras e asas de fogo que saiam de suas costas, Cleus parecia compenetrado como sempre, trazendo a lâmina flamejante que era sua arma – Flamberge – em um dos braços. Seus olhos correram prontamente pela sala, olhando o sangue no chão e o buraco na parede sem expressar qualquer interesse particular por eles antes de voltar seu olhar severo para Saber.

— Cleus. – Foi ela que começou a falar. Sabia que o guerreiro não era muito falante, mas se ele estava ali, alguma coisa importante devia ter acontecido, e ela queria saber do que se tratava. – Você deveria estar protegendo o Primeiro Andar, não é? Como estão as coisas por lá? Alcatraz está bem? Os inimigos foram derrotados?

— Eu não sei como está Alcatraz, mas os invasores não foram derrotados – disse ele, aproximando-se um passo após o outro enquanto falava. – Na verdade, eu diria que o que aconteceu foi justamente o contrário. Por todos os lugares pelos quais passei, tudo que eu vi foram aliados do Olho Vermelho derrotados. Se fosse para fazer uma aposta, eu diria que o Primeiro Andar está sob controle do Salão Cinzento, e seu amigo deve ou estar morto ou ter sido capturado por eles.

Alcatraz? Morto? Supunha que a reação normal de alguém ao ouvir algo assim sobre um companheiro seria ficar nervoso ou temeroso, mas não foi o que aconteceu com Saber. Ela ficou calma ao ouvir aquilo. Completamente calma. Alcatraz não morreu, pensou ela com convicção. Alcatraz, Reivjak... eles não são homens que morrem facilmente. Não existe alguém no exército do Olho Vermelho capaz de mata-los. Mesmo que ele tenha sido derrotado, Saber confiava nele. Tinha certeza de que ele iria achar alguma forma de sobreviver, e por isso não temia pela vida dele.

Seus temores estavam, naquele momento, todos relacionados à Cleus. O homem estava agindo de forma estranha, e não gostava do fato dele estar caminhando em sua direção. Ele ainda está com todas as suas chamas ativas, notou Saber, e instintivamente ela recuou um passo para trás. Assim que fez isso ela viu os olhos de Cleus brilharem em um vermelho intenso por um momento, e mesmo com ele não tendo parado ou dito nada, ela compreendeu que ele iria avançar de uma vez caso fizesse isso de novo. Maldição, não é possível...

— Por quê? – Perguntou Saber, rangendo os dentes e apontando com sua espada para Cleus. Não era lerda; já compreendia o que estava acontecendo ali, e sabia que isso era péssimo para ela. – Por que você traiu o Olho Vermelho? Ela é a sua guilda, não é?

— Sim. Ela era a minha guilda. Mas os meus olhos se abriram e eu vi quão errado é o caminho que ela está trilhando, e como alguém que fez parte dela e a ajudou a trilhar esse caminho, é meu dever deter a minha antiga guilda. – Respondeu Cleus, confirmando as suspeitas de Saber com suas palavras. Ele ergueu sua lâmina, colocando-a em frente ao corpo, e seus olhos se afiaram enquanto encarava Saber. – Saber, seguidora de Jiazz. Não trago inimizade alguma quanto a você, mas como uma mercenária a serviço do Olho Vermelho, também não posso simplesmente ignorá-la. Minha redenção começa agora, com você.





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