O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 100
O Grande Lobo Mau




 Segundo Andar do Pandemonium, “Labirinto Eterno”

 

PRIMEIRA CAVALEIRA DA QUINQUAGÉSIMA-PRIMEIRA LEVA DO SALÃO CINZENTO: VALERY ALCAHEIM, CONHECIDA COMO A “A MIRAGEM”.

Era esse o nome da mulher que, naquele exato momento, estava correndo desesperadamente pelos corredores do Pandemonium.

Sangue escorria de três pontos do seu corpo; de um corte na testa – acima do olho esquerdo –, de um buraco no meio do seu ombro direito, e das feridas similares a garras que haviam cortado através da sua armadura, rasgando sua barriga como se não fosse nada. Apesar de ser destra, a cavaleira era forçada a correr segurando sua espada na mão esquerda, uma vez que por menor que a ferida em seu outro braço pudesse parecer, a dor que sentia vindo dela era absurda. Mas que tipo de monstro é esse?!, pensou ela, olhando para trás, para a estranha névoa densa que havia surgido no corredor e parecia lhe caçar, uma névoa que impedia que ela visse exatamente o que lhe perseguia.

Mas permitia, ao mesmo tempo, que visse o suficiente. Permitia que tivesse um vislumbre do par de olhos dourados que lhe caçava – olhos alongados e espectrais – e isso era o suficiente para lhe aterrorizar. Maldito...! Por quê?! Por quê esse maldito me quer morta tanto assim?!

Voltou a olhar para frente, e ao fazer isso foi recebida com uma das coisas mais belas as quais não dava valor normalmente: uma encruzilhada. Haha... hahahahaha! Perfeito! Simplesmente perfeito! Para a maioria das pessoas, uma encruzilhada não era nada mais do que o encontro entre vários caminhos, mas para Valery, essa era a sua salvação. Era, afinal de contas, uma guerreira-ilusionista, alguém que se especializava em criar ilusões em meio ao combate com as quais confundia seus inimigos. Aquilo não era necessariamente um combate, e aquela coisa certamente não era nada parecido com algum dos inimigos que tinha o costume de enfrentar, mas sua habilidade continuava a funcionar da mesma forma.

Fechou seus olhos um pouco para se concentrar, e quando pisou no centro da encruzilhada, deixou que sua magia agisse. Três imagens dela foram criadas simultaneamente, e cada uma delas seguiu para um dos lados. Era uma guerreira antes de uma maga, mas isso não significava nada; as habilidades mágicas de Valery eram tão boas como as de qualquer mágico, e isso foi provado pelas suas ilusões perfeitas que seguiram nas várias direções como se fossem a própria Valery, de forma completamente perfeita. Eu segui em frente, enquanto as minhas miragens seguiram para a direita e esquerda. Isso significa que tenho uma chance de duas em três de que meu inimigo persiga apenas uma miragem. Aquilo não era necessariamente o ideal, mas já era o suficiente para fazer com que ela sorrisse, quase chegando ao ponto de gargalhar de felicidade, se segurando apenas porque sabia que fazer isso seria o mesmo que gritar sua localização para o que lhe caçava. Hahahaha, isso é ótimo! Se ele ir atrás de uma das minhas miragens... se eu conseguir enganá-lo... então eu estarei salva! Salva! Eu poderei sobreviver, hahaha

— Que tolice... você acha mesmo que um truque barato como esse vai me fazer de bobo, cavaleira? – A voz feral da criatura soou das suas costas, e ouvi-la novamente fez com que sentisse um arrepio correr pela sua espinha. Não pode ser.…! Voltou seu rosto para trás, e dessa vez ela não viu apenas olhos. Ela viu aquele lobisomem prateado correndo contra ela em quatro patas, completamente animalesco, com seus olhos brilhando intensamente e sua boca aberta, mostrando seus grandes dentes que pareciam prontos para rasgar Valery em pedaços. – Eu sou um lobo, garota! Um caçador! E você é uma ovelha teimosa que insiste em fugir, mas se esquece do principal! Um lobo como eu nunca perde o cheiro da sua presa! Não importa o que você faça ou que táticas você tente, eu sempre vou estar bem atrás de você!

Aquela promessa despertou um medo especial em Valery; um medo primal, um temor que teria feito com que todo o seu corpo tremesse, não fosse pelo fato de que ela sabia que algo assim iria marcar a sua perdição para aquela criatura. E foi por esse conhecimento que ela fez o que fez: sem aviso, sua magia começou a atuar quase que loucamente pelo ambiente ao seu redor, criando miragens absurdas e claramente desconexas, ilusões que nunca enganariam nem ao mais tolo dos homens. Num momento estavam correndo por um bosque de árvores enormes com fadas flutuando ao redor deles, e no segundo estava correndo em meio a grandes geleiras que se quebravam ao horizonte enquanto um gigante-de-neve rugia e batia no peito a frente deles. Pouco depois estavam correndo pelas dunas de um grande deserto, sem uma gota de água ao redor, com uma enorme serpente-da-areia emergindo de uma duna ao lado deles para entrar em outra um pouco distante. Correram em um vulcão, correndo sob a lava ardente enquanto um gigante de puro magma emergia no centro, rugindo contra os céus, e um instante depois estavam nos céus, perto das estrelas, correndo sobre as costas de uma gigantesca água de duas cabeças e seis asas que cortava os céus. E a medida que ele ia vendo todos esses absurdos, o lobo que caçava Valery começou a rir, gargalhar com vontade enquanto corria, tirando graça daquilo tudo, da loucura da mulher.

E então o seu riso acabou quando o mundo foi tomado por uma escuridão súbita e absoluta, deixando-o sem ver nada, pior do que como se estivesse em uma noite sem lua ou estrelas.

Aquilo não foi por sorte, mas deliberado. Aquele foi o plano de Valery. Fez propositalmente que a sua magia criasse ilusões absurdas, justamente porque queria passar por louca. Queria convencer o seu inimigo de que o medo e o terror haviam a enlouquecido, porque sabia que isso faria ele baixar a guarda e perder a atenção, e isso lhe daria a chance perfeita. Enquanto estavam em suas miragens o lobo não podia ver o mundo real, mas ela sabia, e por isso sabia que naquele momento estava em uma interseção, com um caminho seguindo para a esquerda e outro para a direita. Entrou no da direita sem pensar duas vezes, sabendo que tudo o que seu oponente devia ver naquele momento era a mais completa escuridão. Isso deve me comprar ao menos alguns segundos. Tenho que fazer eles valerem a pena!

Por sorte, parecia que os espíritos dos Deuses mortos simpatizavam com ela, pois o caminho que havia escolhido era cheio de interseções e encruzilhadas, e Valery fez o seu melhor para aproveitá-las. Sabia que estava deixando um rastro de sangue por onde passava – um fraco, mas ainda perceptível – e tomou o cuidado de usar suas miragens para fazer com que esse rastro fosse visível por todos os caminhos possíveis de cada interseção e encruzilhada pela qual passou.

Fez isso até chegar num corredor que tinha uma porta em um dos lados, e decidindo entrar por aquela porta ela fez com que sua miragem estendesse seu rastro mais além do que até onde ela havia ido. Por mais que estivesse com pressa, fez questão de parar em frente a porta e abrir e fechá-la com calma, sabendo que fazer aquilo de forma apressada iria fazer barulho, e que fazer barulho em um momento como aquele iria selar a sua morte.

Foi só depois que entrou naquela sala, fechou a porta e se certificou mentalmente de que todas as miragens estavam ativas que ela se permitiu relaxar um pouco, reclinando seu corpo para trás – contra a porta – e respirando profundamente, numa tentativa tanto de abastecer seus pulmões como de se acalmar um pouco. Isso é.… esse é um oponente terrível. Como podemos ter alguém como esse lobo como oponente? Confiava nas suas habilidades – era uma Primeira Cavaleira do Salão Cinzento, afinal de contas, e embora não fosse necessariamente uma Titânia ou Gwynevere, podia se orgulhar do fato de ser uma das guerreiras de elite do Salão Cinzento – e, no entanto, quando havia enfrentado aquele lobo... ela simplesmente não havia conseguido fazer nada contra ele. Não porque ele desviava dos seus golpes ou porque sua pele era dura, mas porque não conseguia tocá-lo. Sempre que movia sua espada contra ele, quando a lâmina estava prestes a acertá-lo, o seu corpo parecia se tornar etéreo, e o aço passava por ele sem causar um arranhão.

Como podemos vencer alguém que não podemos ferir? Como derrotar um oponente que não pode ser derrotado? Não conseguia compreender como deveriam derrotar aquele monstro... e não teve tempo também para pensar em como fazer isso. Buracos foram abertos na porta abruptamente, e o susto fez com que Valery se atrasasse por um instante, o suficiente para que longas garras prateadas segurassem o seu rosto, unhas afiadas e monstruosas colocando uma sutil pressão sobre a sua pele que parecia ser capaz de perfura-la a qualquer momento.

— Eu já disse, criança. Eu sou um caçador, e vou estar sempre atrás de você. Até o dia da sua morte.

Ouvir a voz daquele monstro de novo assim tão próxima e saber que a distância entre eles era tão pequena – que nada mais do que uma porta os separava – fez com que o sangue da cavaleira gelasse em suas veias, enquanto ironicamente o seu coração começava a bater mais forte, palpitando em seu peito a tamanha intensidade que parecia que ele poderia arrebentar pra fora dele a qualquer instante.

— Você tem que aprender, cavaleira, que o que você faz não muda nada. É inútil. Se você quiser, você pode correr...

As garras e as unhas se firmaram com mais força sobre o rosto de Valery, chegando ao ponto de arrancar gotas gordas de sangue de algumas feridas que criaram. A mulher queria gritar por ajuda, mas não conseguia. O medo havia dado um nó em sua garganta, lhe impossibilitando de falar qualquer coisa.

— Se você quiser, você pode se esconder...

Uma cabeça abriu um terceiro buraco na porta, mais acima, acima da cabeça de Valery. Ergueu seus olhos para ver olhos dourados olhando de volta para ela, e isso fez com que lágrimas começassem a escorrer, acompanhadas por soluços mudos.

— Mas não importa o quanto você tente – disse o monstro, abaixando seu rosto ao nível dela, sua boca se abrindo e mostrando os dentes enormes, seu hálito e sua respiração no pescoço dela, cheirando o que estava prestes a devorar – você nunca vai escapar do Grande Lobo Mau.

Ele disse aquilo e gargalhou baixinho bem ao lado do ouvido de Valery, como que achando graça em sua pequena piada. Na sua situação, o humor dela foi completamente perdido. Eu vou morrer. Eu vou morrer nas mãos desse monstro. Não esperava uma morte rápida, não dele. Aquela aberração já havia demonstrado um sadismo, brutalidade e selvageria que deixavam claro que não podia esperar nada de bom vindo dele. Por quê? Por que isso tem que acontecer comigo?! Por que eu tenho que morrer?! Queria viver, mais, queria sobreviver àquela guerra e poder seguir em frente com a sua vida, queria se aventurar por um lugar conhecido até o dia em que ficasse velha e fraca, para que então pudesse se casar e viver em tranquilidade com alguém que amava até os fins dos seus dias. Sabia que aquilo provavelmente era tolice considerando que era uma cavaleira, mas sempre se imaginou morrendo pacificamente em uma cama macia, cercada por aqueles que amava. Não queria morrer. Não ali, não agora, não nas mãos daquele monstro. Por favor, não. Por favor, por favor, por favor! Se há algum Deus ainda vivo ou alguma coisa que olha por nós... por favor, me salve, eu imploro!

Em toda a sua vida, Valery nunca foi uma mulher que ligou muito para fé ou religião, mas talvez isso tivesse sido um erro, pois suas preces foram ouvidas.

As garras do lobo abandonaram rapidamente seu rosto – causando alguns cortes nele que sangraram bastante graças a isso – ao mesmo tempo em que o som de carne batendo em carne ressoou pelos seus ouvidos. Esse foi... o som de um golpe? O corpo do lobo de prata, tão temido e tão amedrontador, foi lançado pelos ares acima da sua cabeça, e quando os olhos de Valery viu isso, eles se arregalaram. Ele... ele foi atingido?! Esse lobo foi atingido?!

— “Grande Lobo Mau”...? É sério isso? – A voz que disse essas palavras era feminina, mas séria e impaciente, com o timbre característico de guerreiros perigosos. Uma mão empurrou Valery para fora do caminho de surpresa, e quando virou o rosto para ver quem era responsável por isso, o que viu foi uma mulher de cabelos ruivos e olhos afiados, trazendo uma espada em sua mão direita enquanto avançava sem medo. – Essa tem que ser uma das coisas mais idiotas que eu já ouvi, e eu convivo com Kastor. Onde é que Balak arranja vocês, em um circo de horrores?

O lobo havia sido arremessado girando pelos ares, quicando no chão por algumas vezes antes de conseguir recuperar o controle de si mesmo e girar por vontade própria, de forma a aterrissar agachado no chão, cravando suas garras no solo para reduzir sua velocidade e controlar melhor os seus movimentos. Sangue escorria do que deveria ser a sua nuca, tingindo o seu pelo prateado de vermelho, e ele não ficou nada satisfeito com isso. Rosnou entre dentes e moveu seus olhos para a responsável por aquilo.

— Você me chutou – disse ele, furioso, encarando a ruiva com um olhar fulminante. – Você me chutou, sua vadia vermelha.

— E você é bom em constatar o óbvio, aparentemente – foi a resposta ácida de Bryen Hardying, membra da guilda de Kastor, a Era Dourada, respondendo ao olhar de seu inimigo com um a altura. – Sim, eu lhe chutei. E vou repetir a dose daqui a pouco.

Ouvir isso fez com que o lobo risse de forma debochada, e isso fez com que fosse a vez de Bryen ficar irritada. Uma veia se tornou visível na testa da ruiva, e a sua mão começou a apertar o cabo da sua espada com mais e mais força, fazendo com que por um momento Valery temesse que ela fosse avançar cegamente contra seu oponente, mas isso não aconteceu. Por mais que ela estivesse obviamente furiosa, Bryen permaneceu aonde estava, usando de cautela e mantendo seus nervos sob controle.

— Para alguém famosa por ser nervosa, ela se controla até que bem no campo de batalha. – Aquelas palavras vieram num sussurro, originadas de uma voz que Valery reconhecia bem. Virou seu rosto para o lado bem a tempo de ver Enderthorn passar por ela, parecendo completamente exausto e cheio de ferimentos que, apesar de não sangrarem, pareciam bem dolorosos. Ele estava andando apoiado em sua espada para se sustentar, mas mesmo isso não parecia ser o suficiente para mantê-lo de pé, visto a forma como suas pernas tremiam e vacilavam.

— Ender! – Gritou a cavaleira, despertada do transe surpreso no qual todos os acontecimentos recentes haviam lhe colocado, precipitando-se para ajudar seu companheiro. Mal começou a se aproximar, no entanto, e ele prontamente lançou um olhar sério para ela, um olhar que dizia claramente que ele não queria a sua ajuda. Parou diante dele e sentiu seus ombros encolherem um pouco, parte em vergonha, parte por não saber o que deveria fazer então. – Você... você está bem ferido. O que aconteceu?

— Uma luta. Nada de grande importância – murmurou ele, movendo-se um pouco para o lado com a ajuda da sua espada, até conseguir apoiar suas costas na parede. Então ele se deixou desabar, seu corpo escorregando por ela até cair ao chão, com sua espada lhe acompanhando e ficando ao meio de suas pernas. Mais uma vez ela se precipitou em direção a ele, mas outro de seus olhares a censurou. – Não desperdice seu tempo comigo – balbuciou ele, entre respirações profundas, apoiando sua cabeça na parede para poder olhar bem a cavaleira. – Eu estou um pouco ferido e me sinto uma merda agora, mas não estou sob risco de morte ou coisa do tipo. Não precisa se preocupar. Mais importante, se você tem tempo para se preocupar comigo, então dedique esse tempo em ajudar Bryen. – Com um movimento sutil da sua cabeça ele gesticulou em direção ao lobo, fazendo com que o olhar de Valery caísse sobre ele. – Pelo que parece, esse vai ser um oponente perigoso. Vamos precisar de tudo que temos para derrota-lo.

Sua atenção voltou a se focar no lobo depois de ouvir aquilo. Enderthorn não havia dado voz aos seus verdadeiros pensamentos, mas ele não precisava fazer isso para que entendesse aonde ele queria chegar. Esse inimigo é perigoso, então eu devo ficar atenta a tudo par ajudar essa tal de Bryen o máximo possível. Não sabia como ela havia conseguido golpear o monstro, mas isso lhe dava alguma esperança de vitória, e não planejava desperdiçar isso. Eu não consigo ferir essa criatura, mas eu tenho múltiplas ilusões no meu arsenal. Se eu não posso colaborar com o meu aço, então servirei como suporte para que ela vença!

— Hehehehehe... hahahahahahahaha! Você realmente acha que conseguirá me atingir de novo, garota estúpida?! Hahaha, pelos Deuses, você realmente não deve ter a menor ideia de com quem está lidando! – A voz do lobo veio estridente dessa vez enquanto ele jogava sua cabeça para trás e gargalhava loucamente com claro prazer. Lentamente ele foi se colocando de pé, e quando olhou novamente para Bryen, seus olhos dourados pareciam provocativos, como se estivesse a desafiando com o olhar a avançar contra ele. – Esse seu golpe de agora a pouco foi um golpe de sorte, algo que você só conseguiu acertar porque me atacou de surpresa. Isso não vai voltar a acontecer; você não vai voltar a me acertar, e você não vai me pegar de surpresa de novo. Então, pode desistir de qualquer ideia que tenha de sair daqui com vida.

— Ah, é? – Pela feição sombria de Bryen era claro que ela estava bem irritada pelo que ouvia, mas ainda assim tudo que ela fez foi oferecer aquela curta resposta seca. Ela está se contendo, compreendeu Valery, mas por quanto tempo ela vai conseguir manter isso? A cada minuto que passava ficava mais claro que ela tinha cada vez menos paciência para com o lobo, e isso aumentava o risco de ela fazer alguma vontade. E ele sabia disso, pois um sorriso se abriu, mostrando seus dentes ferais.

— Huh. Parece que você realmente não sabe quem eu sou. Bom, que seja. Permita-me me apresentar, Bryen Hardying da Era Dourada! – O anúncio de que ele sabia bem com quem estava lidando não afetou Bryen, e ela apenas manteve seu olhar firme mesmo enquanto o lobo erguia uma de suas garras, bem lentamente, até apontar para seu próprio peito com uma das suas unhas longas. – Meu nome é Presas, um dos membros do Olho Vermelho, e em particular, um dos que foi incumbido de caçar o seu líder inicialmente. Diga, você sabia que deveríamos ter nos enfrentado em certo ponto? Infelizmente, o destino não quis assim. Ao invés de mandar Kastor na nossa direção, ele enviou Odin, e Odin... bom, digamos que ele era um pouco mais problemático do que tínhamos em mente.

— O que é uma forma sutil de dizer que ele chutou a sua bunda – afirmou Bryen, pendendo sua cabeça para o lado enquanto encarava o homem-lobo. Seu comentário havia sido feito para provocar o oponente, mas não teve muito sucesso com isso. Presas era muito melhor em se controlar do que ela, e suas palavras não o afetaram mais do que a picada de um mosquito.

— Sim, eu perdi para Odin. Não tenho vergonha disso. Mas, sabe... Odin é o único de vocês que pode me derrotar. – Enquanto falava o lobo gesticulava com suas garras e alargava seu sorriso da forma mais zombeteira que uma besta como ele podia fazer. – E você sabe disso, não sabe, Hardying? Ele deve ter falado com vocês, certamente. Ou será que ele pensou que eu havia morrido e deixou isso de lado? Há! Bom, não importa de qualquer forma. Só existe uma coisa importante aqui que você deve saber, e ela é bem simples; você não vai me acertar.

Ele saltou logo após dizer aquilo, brandindo uma de suas garras ferozmente a frente do seu corpo, suas unhas tão afiadas que Valery podia ouvir o som delas contra o ar como se fosse uma lâmina. Tão rápido! Mal conseguia acompanhar os movimentos dele com os olhos, mas felizmente esse não parecia ser um problema que Bryen encontrava. A garra do lobo desceu contra ela, mas ela não acertou nada mais do que o chão, pois o tempo que ela levou para fazer seu caminho contra a ruiva foi o suficiente para que a mulher reagisse rapidamente, dançando até que parasse às costas de seu oponente, brandindo sua espada em ambas as mãos. Sem desperdiçar um segundo sequer ela moveu sua lâmina contra ele...

E tal como havia acontecido com Valery, o corpo de Presas pareceu tornar-se etéreo, tornando-se transparente como um fantasma e deixando que a lâmina simplesmente passasse inofensivamente por ele até sair do outro lado, sem ter sequer chegado perto de lhe causar um arranhão.

Uma das sobrancelhas de Bryen se arquejou ao ver aquilo, enquanto Presas sorriu malignamente. Aproveitando-se da surpresa da mulher, Presas foi rápido em investir em um novo golpe assim que seu corpo voltou a ser sólido, mas Bryen estava atenta e conseguiu evitar o golpe ao saltar para trás. Isso não foi o bastante para desencorajar o lobo, no entanto; ele não perdeu tempo em tornar a avançar contra ela, brandindo suas garras com força enquanto começava a gargalhar maniacamente, lançando golpes selvagens que pareciam querer rasgar Bryen em pedaços. A ruiva recuava, aparava alguns golpes com sua espada e tentava a sorte com alguns contra-ataques rápidos quando tinha a chance, mas cada golpe que lançava era inútil, pois quando ele estava prestes a atingir ele simplesmente passava inofensivamente pelo corpo do lobo.

Por que? Por que ela não está conseguindo mais atingi-lo?! Dizer que aquilo era “frustrante” seria pouco; aquilo era enlouquecedor, absolutamente aterrorizador, e Valery não pôde impedir que suas mãos fossem aos seus cabelos, agarrando as mechas e puxando-as com força, como se quisesse arrancá-lo violentamente. Ela havia conseguido atingi-lo antes! Não é possível que aquilo tenha sido apenas um golpe de sorte, não é? Isso não é possível! Antes da chegada de Bryen ela havia desistido completamente da vitória e se concentrado em fugir e tentar sobreviver. A chegada daquela mulher havia lhe dado esperança, esperança de que pudessem vencer, e agora essa esperança estava azedando em sua boca enquanto via aquilo. Por quê...?! POR QUE VOCÊ NÃO ACERTA ELE, SUA RUIVA MALDITA?!

VALERY! POR QUANTO TEMPO VOCÊ PRETENDE CONTINUAR A SER INÚTIL?! — A voz furiosa que gritou contra ela fez com que a cavaleira estremecesse e encolhesse como uma criança que acabou de tomar pito. Lenta e temerosamente ela se virou na direção da qual ela havia vindo, e lá estava Enderthorn, ainda apoiado na parede, ainda ferido, mas parecendo irado. Veias eram visíveis em seu rosto e pescoço, e parecia que ao menos por um momento a sua fúria havia permitido que ele ignorasse a sua dor. – Você é uma cavaleira, não é? Então faça alguma coisa! Eu não me importo se você vai pegar a sua espada e tentar cortá-lo, se tentará enganá-lo com alguma ilusão ou se vai cair de joelhos e orar por um milagre, mas faça alguma coisa além de ficar parada que nem uma anta olhando tudo!

Olhou nos olhos dele enquanto ele berrava aquelas palavras, e foi neles que viu a verdade. Ele não havia dito isso com palavras, mas Enderthorn tinha visto o seu medo. O seu desespero. Provavelmente até mais do que isso. Não duvido que ele tenha vido meus pensamentos, sendo ele quem é. O que ele estava fazendo não era tanto mandar ela parar de ser inútil e fazer alguma coisa, mas mandar ela parar de se lamentar e fazer alguma coisa. Em teoria essa última deveria ser a mensagem mais gentil, mas na prática, ela era de longe a pior.

Mas o que diabos eu estou fazendo? Suas mãos se fecharam com força, carne pressionando carne com força o bastante para fazer com que seus punhos começassem a ficar brancos e com que um filete de sangue escorresse por entre seus dedos. Por que... por que eu estou agindo dessa forma? Tão... temerosa. Tão desesperada. Cavaleiros não deveriam agir assim. O medo era um sentimento normal, que cada humano sentia. Os cavaleiros haviam lhe ensinado que ter medo não era algo ruim – na verdade, ter medo era algo bom, pois isso provava que você valorizava alguma coisa, provava que você era humano. Mas se entregar ao medo... isso era ruim. Isso fazia com que você agisse de forma desesperada e irracional, com que você fizesse coisas que você nunca faria normalmente e com que você cometesse erros dos quais certamente iria se arrepender depois de algum tempo. E um erro do qual eu tenho certeza de que eu me arrependeria... seria ficar parada de braços cruzados sem fazer nada!

Seu braço ferido ainda a incomodava, mas ignorou a dor o melhor que pode. Tomou sua espada em ambas as mãos e gastou apenas um segundo para entrar em posição de batalha antes de avançar correndo contra o lobo, brandindo sua espada com força no ar enquanto liberava um grito de guerra. O lobisomem estava enfrentando Bryen no momento em que fez isso, golpeando a mulher com suas garras de forma a colocar pressão e forçar ela a defletir seus golpes com a espada, mas o seu grito chamou a atenção dele e fez com que seu rosto se virasse em direção a ela – inicialmente confuso, mas com um sorriso divertido que logo se abriu.

— Hahaha, hahahahaha! Isso é sério? Você realmente acha que pode fazer algo contra mim, ovelha?! – O fato da sua atenção ter ido para Valery fez com que seus ataques parassem, algo do qual Bryen se aproveitou para desferir múltiplos golpes contra ele. Nenhum deles funcionou. Estocadas, cortes... não importava o que ela tentasse, o corpo dele sempre se tornava etéreo no último momento e a arma passava inofensivamente, e isso arrancou um grunhido de frustração da ruiva. – Bom, venha em frente! Faça o seu melhor! Não será o suficiente!

Eu sei que não, pensou consigo mesmo a cavaleira, quando estava prestes a saltar contra ele. Mas isso não vai me impedir de tentar! Moveu sua espada com todas as forças, mirando em um golpe no pescoço do lobo, mas tal como estava acontecendo com Bryen, o corpo dele se tornou etéreo no último momento, deixando que sua lâmina apenas passasse por ele. O sorriso no rosto do lobo se alargou ainda mais ao ver o quão vulnerável ela estava agora – em meio ar – e sem hesitar ele subiu com uma de suas garras, avançando com ela em direção ao rosto da mulher, mas antes que ela pudesse lhe atingir, a espada de Bryen caiu sobre seu braço, forçando-o para baixo. Ela o atingiu de novo, observou Valery, de olhos arregalados. Um dos olhos dourados de Presas caiu sobre a espadachim em resposta a isso, e todo o seu ar divertido se esvaiu como se fosse fumaça para revelar uma feição furiosa. A lâmina de Bryen não havia conseguido cortá-lo – aparentemente o couro era muito duro no braço para que conseguisse o ferir ali, e a rapidez com a qual ela teve de agir provavelmente não deixou que colocasse tanta força por trás do golpe quanto gostaria – mas ela havia conseguido o impedir de fazer o que queria, e ele não parecia disposto a deixar isso passar em branco.

Sua outra garra avançou contra Bryen, mas a ruiva foi ágil e criou distância com rápidos saltos para trás. Ele grunhiu ao ver aquilo, e seu olhar logo foi para Valery, mas ela havia se aproveitado da distração dele para criar alguma distância também, se afastando o suficiente para que tivesse certa segurança dele. Foi depois disso que ele realmente rosnou, verdadeiramente furioso, e sua boca se abriu, mostrando seus dentes avantajados.

— Suas malditas vadias. Vocês são bem irritantes – resmungou ele, bufando de raiva. Estalou seu pescoço em seguida e fixou seu olhar sobre Valery, virando seu corpo completamente em direção a ela. – Você, ovelha. Você é a primeira. Você é fraca, mas pode ser bem irritante. – Virou-se para Bryen depois de dizer aquilo, encarando-a com claro ódio. – Veja atentamente o que farei com ela, vadia vermelha. Você será a próxima.

Foi ele dizer aquilo e ele avançou. Rápido como o lobo que era, ele fez seu caminho em um salto direto contra Valery. Ela sabia que ele iria investir contra ela e estava preparada para isso, mas toda a preparação do mundo não lhe serviria de nada naquele momento. Ele a alcançou antes que pudesse fazer qualquer coisa, e suas garras desceram com força. Uma garra perfurou seu olho esquerdo, outra perfurou seu olho direito, uma terceira perfurou o centro da sua testa e as duas outras que sobraram se cravaram nas suas orelhas, segurando seu crânio no lugar enquanto ele forçava suas garras mais e mais. Ela gritou de dor ao sentir isso, mas seus gritos pareciam só fazer com que o homem se animasse ainda mais.

Bryen avançou imediatamente contra Presas ao ver aquilo, mas no momento em que ela tentou golpear o braço dele com sua espada o homem-lobo moveu seu braço livre, golpeando com força a espada de Bryen no momento em que ela desceu, fazendo com que a espadachim fosse lançada para trás. De onde estava, Enderthorn gritou pragas como um homem louco, tentando provocar o monstro para que ele se afastasse de Valery, mas ele ignorou completamente isso. Suas garras se fecharam ao redor dos ossos da mulher, e com um sorriso maléfico ele puxou sua mão com toda a força de uma só vez, arrancando o rosto de Valery em um movimento, toda a parte da frente de seu crânio.

Os gritos da cavaleira pararam com aquilo, e o mesmo aconteceu com os gritos de Enderthorn. Bryen estava se recuperando para avançar novamente contra ele a essa altura, mas todos os seus movimentos pararam quando ela viu exatamente o que havia acontecido. O corpo de Valery caiu no chão, sem rosto, e o sangue fluiu para fora do seu crânio como um rio, encharcando o solo abaixo dela em uma profunda poça vermelha. Sorrindo, Presas jogou o rosto dela na poça de sangue, a feição de dor de Valery ainda grafada nele, e lentamente ele ergueu um de seus dedos vermelhos à boca, lambendo o sangue nas suas mãos como se fosse molho.

— Uma caiu – começou ele, sorrindo e virando-se em direção a Bryen, voltando sua atenção a espadachim – falta um-

Ele não teve tempo de completar a sua frase. A grande sala na qual estavam naquele momento era uma das várias salas do Pandemonium que parecia ter sido construída exatamente para que pessoas lutassem nelas, e isso significava que haviam duas portas nela: duas saídas e duas entradas. Uma delas era a pela qual todos os quatro haviam entrado, a que estava na lateral de um corredor, e a segunda era uma que estava na outra extremidade da sala, a sala final de um outro corredor.

Foi essa porta que saiu voando quando alguém invadiu a sala por ela, um momento antes que os olhos de Presas se arregalassem.

Um punho havia lhe acertado em cheio, afundando para dentro do seu estômago, fazendo com que o lobo de prata vomitasse sangue enquanto o golpe continuava a exercer pressão. Nem ele nem ninguém haviam visto os movimentos dele, mas um homem que não estava ali há meros momentos era o responsável por isso. Um homem de cabelos prateados, trajando uma armadura negra média, com seus braços a mostra. Um homem de pele mais escura, como se tivesse se bronzeado demais, que trazia uma espada a sua cintura. Um homem forte, que com um único soco isolou Presas até a parte superior da parede, esmagando o homem-lobo em uma cratera ali como se ele fosse uma mosca.

— Ah, não! MERDA! — As pragas fluíram sem controle dos lábios do Ascendente, Senjur Moondancer, enquanto ele se ajoelhava diante do corpo de Valery, parecendo irritado e ferido. – Eu cheguei tarde demais. Droga! Me perdoe, Valery... eu deveria ter chegado um pouco mais cedo. Se eu tivesse sido um pouco mais rápido...

Enquanto ele se lamentava por não ter salvo sua companheira, o corpo de Presas escorregou da cratera na qual ele havia sido cravado até que ele caísse ao chão. Caiu de joelhos, tendo que se apoiar em mãos e pés para não cair de cara no chão, e vomitou sangue novamente. Ele estava ofegante e claramente ferido, com sangue escorrendo da sua boca..., mas ainda assim, quando ele ergueu sua cabeça e viu quem havia sido o responsável por aquilo, seus olhos se arregalaram e ele esqueceu de respirar por um instante.

— V-Você?! – A voz dele, surpresa, estarreceu um pouco Enderthorn e Bryen. Aquela não era a surpresa de alguém que simplesmente não esperava encontrar com uma pessoa em particular. Aquela era a surpresa de alguém que não esperava nunca mais encontrar uma determinada pessoa novamente.

Senjur se ergueu lentamente ao ouvir a voz dele. Seus olhos ainda ficaram sob os restos de Valery por um bom tempo, antes de se erguerem para fitarem o lobo que ele havia acabado de golpear. A feição em seu rosto era um misto igual de fúria e decepção.

— Eu queria poder dizer que é bom te ver de novo, mas nessa situação, isso seria uma mentira. – Com um movimento rápido Senjur retirou a espada da sua cintura e avançou calmamente em direção a Presas, um passo após o outro, sem nunca tirar os olhos dele. – O que aconteceu? Diga-me, o que é que te fez decair tanto assim, Presas? Da última vez que chequei, meu irmão mais velho ainda era um homem decente.



Notas finais do capítulo

Música-tema do Presas: https://www.youtube.com/watch?v=z5X5zh00rdg



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