Forget me. escrita por Marril


Capítulo 5
Capítulo 5: The past is well behind you.


Notas iniciais do capítulo

Hey!!
Eu sei que venho um pouco tarde hoje, mas estou com pressa... Estes últimos dias tem sido tumultuosos >.



POV Castiel ON

Cabra! Mas quem é que aquela miúda pensa que é? Primeiro mexe na minha guitarra e a seguir ainda tem o atrevimento de fugir, depois de me bater! Mas ela vai ver, assim que a vir outra vez vou dar-lhe uma bela lição, sim, ela vai pagar!

–Até está bem afinada. – Diz Lysandre, afastando-me dos meus pensamentos.

–O quê? – Pergunto para ter a certeza do que acabei de ouvir.

–A guitarra. Está bem afinada, ela fez um bom trabalho.

–Que se lixe o trabalho, ela não devia ter sequer tocado nela!

–Como queiras. – Afirma deixando a minha guitarra, que entretanto esteve a analisar, de lado e aproximando-se do balcão.

–Mas ela vai ver. Assim que a encontrar vou ter uma conversinha com ela. – Desabafo irritado, aquela baixinha tira-me do sério.

–Parece-me que isso vai acontecer mais cedo do que pensas. – Informa-me com um pequeno sorriso.

–Como é que sabes? – Pergunto e logo de seguida ele aponta para o chão, concentro o meu olhar para o local onde ele está a apontar e vejo qualquer coisa lá caída.

Aproximo-me calmamente do sítio e vejo um pequeno livro estendido no chão, apanho-o e analiso-o, não me parece nada de especial, mas ao esfolheá-lo descubro que é um livro de música novinho em folha. Primeiro penso em ficar com ele, mas ao pensar que ele já pertenceu a ela afasto imediatamente a ideia, não quero ter nada que já foi dela, além disso posso aproveitar o facto de ter de lhe entregar isto para nós “conversarmos”. Sorrio maldosamente, eu vou divertir-me tanto amanhã.

POV Castiel OFF

Entro em casa mais calmamente, apenas quando entrei na minha rua é que desacelerei o passo, portanto estou mais cansada do que parece. Subo as escadas com as pernas a fraquejar e arrasto-me praticamente até ao meu quarto, assim que entro nele deixo cair as minhas coisas no chão e atiro-me para cima do meu puff gigante, deixando-me afundar nele.

Fico alguns minutos a retomar o fôlego, respirando lentamente. Quando me sinto mais “normal” levanto-me descalçando os ténis e substituindo-os por umas pantufas azuis, desço silenciosamente até à cozinha na esperança de encontrar alguém, mas para novidade minha (ou talvez não) não encontro ninguém. Em vez disso noto um pequeno pedaço de papel em cima da mesa. Aproximo-me e vejo um rabisco escrito à pressa, leio em segundos a informação de que a minha mãe chegou a casa, mas imediatamente a seguir foi chamada para uma emergência no trabalho, para além disso o meu pai ligou a avisar que não teria tempo suficiente para vir almoçar a casa. Concluindo, eu encontro-me por conta própria, mais uma vez. Suspiro pesadamente, perdera a vontade de comer, ainda assim faço uma sandes, que acabo por comer sem vontade devido à inexistência de sabor, até parece que as minhas pupilas gustativas adormeceram.

Acabo de comer rapidamente, engolindo o resto com a ajuda de um copo de água. Deixo a loiça dentro do lavatório e subo novamente, sem saber ao certo o que fazer para passar o tempo. Ao entrar no quarto lembro-me que desde que cheguei ainda não olhei como deve de ser para ele, sento-me no chão de modo a poder observar toda a divisão. Os móveis continuam todos no mesmo lugar, no entanto são as únicas coisas que se mantiveram iguais, já que eu fiz questão de mudar todas as decorações, desde dos quadros e fotos que antes se encontravam penduradas nas paredes e que agora nem sequer existiam, deixando as paredes completamente despidas, aos conteúdos das prateleiras que antes se encontravam apenas com materiais escolares e atualmente a abarrotar de diversos livros, CD’s e a minha preciosa coleção de palhetas. De resto, as únicas diferenças são a existência de uma guitarra acústica perto da janela e as enormes caixas de cartão escondidas debaixo da minha cama.

Suspiro pesadamente ao constatar que as diferenças no meu quarto podem retratar perfeitamente as mudanças que eu decidi fazer em mim mesma e as razões que me levaram a mudar-me, em vários aspetos. Dói um pouco sempre que me lembro do passado, contudo nos últimos três anos foi exatamente isso que eu fiz, viver com a dor e eventualmente superá-la. Mas como? Perguntava-me sempre, só que nunca descobri a resposta. Pelo menos até um dia, o dia em que a palavra “vingança” entrou no meu dicionário. Foi há um ano e meio, mais ou menos.

Era um dia normal como todos os outros, quer dizer pelo menos para mim, continuava a ser a rapariga mais antissocial e esquisita da escola. Ignorada por todos, era como o vento, existia mas ninguém me “via”. Desde do ano passado começara a aprender a tocar guitarra acústica e era apenas essa atividade que me mantinha distraída e me fazia aguentar todas as provocações e insultos que recebia no meu dia-a-dia. Curiosamente em três dias realizar-se-ia um concurso de música, onde todos os alunos poderiam participar quer a solo, em dueto ou até mesmo em grupo, contudo por mais que eu desejasse parecia impossível, para mim, participar. Não que eu não tivesse talento suficiente, mas a minha timidez e o medo de provavelmente vir a ser ainda mais gozada por apenas participar impediam-me de inscrever-me, pessoalmente odiava-me por isso, por não conseguir ser mais forte e livrar-me desses preconceitos.

Ironicamente não foi preciso inscrever-me, os meus queridos colegas fizeram questão de o fazer por mim. Soube da novidade logo na primeira aula do dia, quando eles entraram na sala (antes do professor chegar) num grande grupo e me disseram:

–Boa sorte para o concurso de música. Tenta não fazer figura de parva, oh espera, isso é impossível, tu já fazes essas figuras todos os dias.

Depois, como se fossem um disco riscado, começaram-se a rir. As suas gargalhadas enchiam completamente os meus ouvidos, a minha cabeça estava prestes a explodir ao mesmo tempo que as minhas veias ferviam de irritação, por mais que eu quisesse enfrentá-los, o que podia eu fazer sozinha?! Simplesmente nada.

Foi nesse momento que a ideia mais brilhante da minha vida surgiu. E se eu participasse no concurso?! Talvez eu podia realmente ganhá-lo, talvez só precisava de livrar-me de todos os meus preconceitos, talvez eu não era um verdadeiro fracasso. Sim, talvez e pela primeira vez estava disposta a confirmar as minhas dúvidas, teria finalmente a minha vingança. Com essa ideia na cabeça, e ignorando as suas indiretas, sorri pela primeira vez desde algum tempo, porém ao ver o reflexo do meu sorriso na janela ao meu lado, descobri que este era tudo menos alegre. Diria mais que era de maldade, só que isso, para minha própria surpresa, não me assustou, pelo contrário, até me deu uma onda de satisfação, sentia-me bem, livre… poderosa.

No fim, e muito resumidamente, eu acabei por ganhar o concurso, humilhar uma pequena banda de raparigas também pertencentes à minha turma e voltar à minha vida de invisível, só que desta vez sem insultos e humilhações, pelo menos à minha frente. A vingança tinha um sabor delicioso, porém viciante. Eu queria mais, vingar-me de todos aqueles que me fizeram sofrer, vê-los sofrer igualmente ou ainda pior. Foi por isso mesmo que quando os meus pais pediram-me para regressar eu não recusei totalmente, eu queria vingar-me dele, aquele loiro idiota, aquele grande cabrão que iniciou o meu ciclo de dor. A culpa tinha sido dele, se não fosse ele a minha vida teria sido completamente diferente. É claro que eu também tinha a minha cota de responsabilidade, mas isso não me importava, a única coisa que eu via à frente era a sua humilhação e a minha vingança. E, até agora, nada disso mudou, eu ainda quero vingar-me e eu vou conseguir.

Sou afastada dos meus pensamentos pelo meu telemóvel, que entretanto começou a tocar. Ao ver no ecrã a palavra “Mãe” atendo quase que imediatamente a chamada. A conversa é rápida, a minha mãe diz-me apenas que esta noite chegará muito tarde, mas que o meu pai provavelmente chegará a tempo do jantar, pois tem apenas um pequeno assunto para tratar, ao contrário dela que está atafulhada de trabalho. Portanto eu devo preparar o jantar para duas pessoas apenas. De seguida pergunta-me como foi o meu dia, do qual eu respondo apenas “Bom”, e ela, já sem muito tempo, despede-se rapidamente de mim com um “Ainda bem”, desligando logo de seguida o telemóvel dela antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa.

***

Quando falta cerca de uma hora para as oito da noite, hora que eu calculo que o meu pai chega, desço novamente para a cozinha. Nas últimas horas mantive-me distraída com um livro qualquer, já que o meu plano inicial de tocar algumas músicas do meu novo livro foi por água abaixo assim que descubro que não faço a mínima ideia de onde ele está, provavelmente perdi-o por aí, algo que não me é completamente estranho.

Coloco um avental, que encontro atrás da porta da cozinha, e enquanto amarro o meu cabelo num pequeno totó descaído (já que penteados muito elaborados não são a minha especialidade) abro a geleira à procura de ideias sobre o que cozinhar para o jantar. Encontro uma embalagem de hambúrgueres e decido utilizá-los, afinal também não encontrei mais nada de jeito.

Abro, de seguida, os armários à procura de acompanhamentos. Retiro um pacote de esparguete e pondero que mais posso fazer. Talvez uma salada, sim, uma salada calha bem, penso. Começo então a preparar o jantar, deixando para último a salada.

Já tenho os hambúrgueres e a massa nos seus respetivos pratos, quando oiço o barulho de chaves na fechadura da porta. Abandono a salada, que está quase pronta, e aproximo-me da entrada para confirmar quem chegou. Vejo o meu pai a acabar de fechar a porta, quer dizer, a tentar fechar a porta, já que ele parece estar um pouco estranho. Aproximo-me meio receosa e um cheiro a álcool invade imediatamente o meu nariz, paro subitamente, que devo fazer? Nunca soube lidar com pessoas bêbadas, aliás do que me recordo de alguns anos atrás, quando o meu pai chegava a casa um pouco alterado a noite nunca acabava em bem e uma vez ou outra tanto eu como a minha mãe acabávamos com pequenas, mas inesquecíveis recordações. Felizmente a regularidade destes acontecimentos era pequena, o que me permitia ocultar as poucas marcas e assim evitar inconvenientes.

–Pai? – Pergunto meio hesitante. -Está tudo bem?

–Claro que está!..... Porque não…havia de estar? Acabei de fechar…um ótimo…mas mesmo ótimo…negócio.

–Sim, e parece-me que não foi só o negócio que correu bem. – Desabafo comigo mesma, aliviada por ele não estar de mau humor.

–Mas aquele cabrão do Collins tinha de aparecer e tentar roubar-me o negócio! – Berra, de repente, o meu pai. Num outro movimento súbito, aproxima-se de mim e agarra-me no pulso direito com força enquanto continua: -Ah mas eu fui mais esperto, dei-lhes a volta e fechei o negócio!

E de seguida cai, adormecido, deixando-me sem reação. Fico ainda uns minutos a tentar assimilar o que aconteceu, mas depois acabo por arrastar o meu pai, o que melhor que consigo, até ao sofá, deitando-o. Janto sozinha e deixo o outro prato no frigorífico, juntamente com uma nota escrita à mão em cima da mesa.

Subo para tomar um banho, onde acabo por reparar que o meu pulso direito está vermelho. Desejando que amanhã não fique com nenhuma marca, saio da banheira e preparo-me para dormir. Ao entrar no quarto recordo-me que ainda não tenho a mochila preparada, junto todo o material que vou necessitar e arrumo-o dentro da mochila. De seguida arrasto-me até à cama, esperando uma bela noite de sono, e assim que me aconchego debaixo dos lençóis adormeço profundamente.



Notas finais do capítulo

Próximo Capítulo - Capítulo 6: You? Again?

Bye bye ^^

@Marril .