A Garota Dos Defeitos escrita por Tamires Rodrigues


Capítulo 3
Eu quero a sua roupa


Notas iniciais do capítulo

Muito obrigado Vick Yoki >



Encostei-me na parede, fechando os olhos – eu não sou o tipo de garota que desobedece os pais por que diabos eu resolvi começar logo agora?

Era ridículo que meu primeiro grande ato de rebeldia fosse fugir para o shopping de tão patético era quase engraçado. Certamente uma historia para contar para os meus netos.

— Não tem ninguém – ele murmurou voltando.

— Tem certeza?

— Ninguém - repetiu.

Fiquei andando de um lado para o outro como costumo fazer sempre que fico nervosa. Pelo canto do olho vi o cidadão me olhando com curiosidade.

Parei na frente dele, e sorri.

— Eu quero a sua roupa.

Deus será que isso soou tão estranho para ele, quanto para mim?

Ele não pareceu nem um pouco surpreso _ como se coisas assim acontecessem todos os dias com ele. Garotas loucas fugindo dos pais, e se escondendo em banheiros masculinos, devem com certeza acontecer o tempo todo.

— Não - ele disse cruzando os braços de forma presunçosa – você quer me ver sem ela.

Meu queixo caiu e para disfarçar eu rolei os olhos.

— Admita- insistiu rindo.

— Se isso manter seu ego em pé – encolhi meus ombros. _ Acredite no que quiser.

O garoto riu, passando as mãos pelos cabelos negros _ e eu devo admitir ele tinha uma aparência incrível _ bochechas salientes, queixo forte, profundos olhos esmeraldas penetrantes. Apenas o sorriso dizia: eu não me importo com o que você pensa de mim. E o andar complementava o pacote – cheio de graça, e confiante.

Encrenca.

Inclinei a cabeça avaliando minha situação.

Eu estava fugindo do meu pai.

Eu estava em um banheiro masculino.

Dei uma olhadela ao redor do banheiro, e conclui que estávamos sozinhos.

O garoto tinha pelo menos uns 15 centímetros a mais do que meus 1,70 de altura , e tinha que ter saído de um dos livros de romance que eu não canso de ler.

— Quem está avaliando quem agora? – a voz dele me tirou da minha... Inspeção? Levantei os olhos até ele – ao contrário de mim ele não ficou desconfortável ao ser abertamente encarado.

Sem nem me dar tempo para respirar ou sentir vergonha, eu disse:

— Preciso sair daqui, e não pode ser assim ele vai me reconhecer.

Ele fez uma pausa, como se me avaliando. Não da forma que fez antes, entretanto, mas de uma forma que eu não sei explicar.

— Quem? – sua voz saiu apertada, e suas sobrancelhas franziram. Quase como se ele achasse que eu estava metida em algo mais sério.

— Por favor, - soltei o ar. _ Basta me dar sua jaqueta, você pode me seguir até a saída e eu juro que a devolvo para você lá. – Para minha surpresa ele tirou a jaqueta de couro preta ficando com uma camiseta de manga comprida cinza. Eu provavelmente deveria não notar – ou gostar – mas a camiseta agarrava os músculos magros do seu braço como se tivesse sido feita para isso. Ele não deveria ter mais que a minha idade, 17 anos, quase 18.

Estiquei a mão para pegar a jaqueta, mas claro que não podia ser tão fácil.

— Seu número- ele disse segurando o pedaço de couro preto.  – Suspirei e sabe-se lá porque só lembrei-me de dar um número errado horas depois.

— Só por curiosidade – ele disse enquanto eu vestia a jaqueta que praticamente engoliu meu corpo_ Qual seu nome?

— Suzanne – respondi e quando ele não me disse o seu indaguei: - O seu?

— Gabriel – murmurou segurando a porta do banheiro para que eu pudesse passar. Sorri em agradecimento.

— De quem você está fugindo? – Gabriel diminuiu o passo para me acompanhar.

— Meu pai – respondi encolhendo os ombros. Minha voz saiu baixa e eu quase desejei que ele não me ouvisse, mas dane-se eu não o veria novamente.

— E o que você fez? – indagou e eu pude notar que por trás da voz rouca ele escondia um sorriso novamente, mas dessa vez de deboche.

— Tirei nota baixa em matemática.

 Quais as chances de ele me ver novamente? Eu podia admitir qualquer coisa a ele sem me preocupar.

— Você ficou de castigo por tirar nota baixa? – quis saber lentamente como se fosse difícil de acreditar.

— Sim. Algum problema? – resmunguei começando a ficar fula.

— E o que acontece se você não escova os dentes, ou tira não arruma a cama?

— Pare de ser tão babaca – surtei. _ Não é capaz de fazer além de me irritar?

Cerrei os punhos. Cada palavra que eu falava ou gesto que eu fazia me fazia parecer uma criança mimada.

 Ele riu.

— Eu sei fazer muitas coisas Suzanne, você só precisa dizer quando e eu posso te mostrar. Abri a boca, não consegui pensar em nada para dizer, por sorte eu não precisava porque estávamos na portas de saídas Tirei a jaqueta e entreguei para ele .

— Obrigada – eu disse atravessando a saída.

Passos de distância depois eu achei ter ouvido meu nome, mas não virei para trás para ter certeza.

O caminho inteiro de volta para casa eu só fiquei pensando que desculpa eu iria inventar se meu pai chegasse antes de mim em casa. Provavelmente eu iria ficar de castigo até completar 104 anos. Eu nunca tinha fugido de uma punição antes – e não estava particularmente ansiosa para tentar novamente. Mas para minha defesa eu tenho 17 anos –18 em breve – e a reação dos meus pais em relação a um cinco em álgebra foi um pouco exagerada, o ano letivo mal começou, não é como se eu não pudesse recuperar. Eu sei que não é uma nota ideal, mas minha mãe que é sempre tão calma agiu como se eu tivesse posto fogo em um orfanato e acendido um cigarro com as chamas, e meu pai me colocou de castigo por uma semana inteira.

O céu estava uma bonita mistura de azul e rosa, o chão com um lençol de folhas caídas de arvores. O vento de final de tarde bagunçava ainda mais meu cabelo.

Consegui apenas trocar meu suéter, por um moletom e meu all star por um chinelo, antes de ouvir o motor do carro do meu pai e a porta do meu quarto se abrir com uma batida brusca.

— Como? Eu achei que... - meu pai gaguejou com uma expressão confusa. _ Vi alguém parecida com você hoje.

 Aposto que sim.

— Hum... – murmurei tentando parecer irritada por estar de castigo, e não culpada, e só um pouco com medo de ser pega. _Comprou as ferramentas que queria? - Meu pai trabalha como empreiteiro, e sempre precisa de ferramentas novas.

— Não - ele disse - Fui ao shopping.

— Ah... - Peguei um dos livros de calculo espalhados pela minha escrivaninha parecia ainda mais confuso do que a última vez que eu havia tentado entende-lo.

— Eu já vou trabalhar vim apenas para... Apenas para me despedir.  

—ok até amanhã – murmurei me escorando nos travesseiros.

  Meu pai ás vezes chega tarde ou passa a noite no trabalho – acontece o mesmo com a minha mãe embora ela trabalhe para uma das maiores cadeias de hotéis da cidade.

— Até amanhã – disse antes de sair._ Se comporte, vai esta sozinha esta noite. – Ele prestes a fechar a porta quando fez uma pausa, meu coração deu um pulo: - Sei que sua mãe e eu exageramos na semana passada por causa do seu teste de álgebra, ignore as coisas que dissemos você não está mais de castigo.

Ele não esperou por uma resposta, apenas fechou a porta e saiu.

Baixei o olhar assim que ele saiu, entendendo o que estava errado com o livro. Estava de cabeça para baixo.

Encarei a porta fechada do meu quarto, e suspirei aliviada.

Foi quase fácil demais.

 



Notas finais do capítulo

Oii obrigado por ler !!! :)



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