Um Erro Inocente escrita por Lady Light Of Darkness


Capítulo 23
Capítulo 22


Notas iniciais do capítulo

Sem revisão



Epilogo

O reverendo Sid foi obrigado a se agarrar a toda sua caridade cristã, sem mencionar sua força de vontade, para manter-se calado.
Não que o novo reverendo fosse um homem digno de críticas. De jeito nenhum. Sid estava certo de que ele se dispunha a fazer o melhor pelas pessoas da região.
Mas, mesmo tentando convencer-se de que a igreja estaria em boas mãos, não conseguia negar certa tristeza ao olhar em volta e examinar o vicariato limpo e reformado, mobiliado com uma formalidade severa que revelava muito sobre o jovem reservado e sério.
Como ele reagiria quando os colonos do lugar entrassem em sua casa com suas botas sujas de lama e seus fiéis sabujos? Ou quando as crianças entrassem correndo em busca dos doces que ele sempre mantinha no hall de entrada?
Um suspiro escapou de seu peito.
Sem sequer imaginar os pensamentos sombrios de Sid, o Sr. Strauss olhou para a biblioteca sem esconder a satisfação que sentia diante da limpeza estéril.
— Como pode ver, criei um sistema de registro de dados inteiramente novo — ele comentou orgulhoso, apontando para a escrivaninha. — É muito mais produtivo do que jogar por aí documentos importantes que provavelmente não serão encontrados mais tarde, quando forem necessários.
Sid pigarreou, consciente da crítica a sua falta de organização.
— Oh, sim — concordou. — Tem razão.
— E também reorganizei os livros. — O homem magro olhou para Sid com ar crítico. — Francamente, não sei como conseguia encontrar as referências necessárias.
Sid encolheu os ombros, sem querer admitir que raramente se incomodava com referências quando escrevia seus sermões. Em sua opinião, falar com o coração e numa linguagem que pudesse ser compreendida por todos era muito mais importante. — Suponho que tenha tido sorte.
O Sr. Robert suspirou.
— Ainda não comecei a organizar os registros da igreja. Receio que eles exijam de mim considerável esforço e tempo.
— Parece que tem estado ocupado.
— É meu dever.
Resistindo ao impulso de comentar que atender as necessidades dos paroquianos era certamente seu maior dever, Sid pigarreou mais uma vez.
— Já teve oportunidade de conhecer seus vizinhos?
— Certamente. Muitos vieram ao vicariato para visitar-me. — Seus traços ainda revelavam desaprovação. — Na verdade, fiquei atônito por descobrir que tinha o hábito de encorajar sua congregação a vir visitá-lo sempre que desejavam.
— Para ser honesto, eu apreciava muito essas visitas. Gostava de conversar com as pessoas daqui.
— Muito adequado, é claro, mas não creio que tenha feito bom uso de seu tempo. Deve haver uma rotina estabelecida para que o trabalho de Deus possa ser feito. Solicitei que todas as visitas sejam confinadas a um determinado horário, entre duas e cinco da tarde. É mais produtivo do que ter sempre alguém me interrompendo.
— Muito produtivo. — Sid começava a se sentir aliviado com a decisão da Sra. Strauss, que optara por acompanhá-lo em sua aposentadoria. Ela também iria morar no chalé. Não queria nem imaginar o que ela teria a dizer desse novo e rígido procedimento adotado pelo jovem reverendo.
— Gostaria de ver o que fiz com o escritório?
Sid conseguiu disfarçar um tremor. Infelizmente, sua caridade cristã tinha limites.
— Não hoje, obrigado — respondeu apressado. — A Sra. Strauss espera por mim em casa.
— Que pena. Espero que volte e venha conferir o restante da reformulação.
— Oh, sim, eu voltarei. No horário entre as duas e às cinco da tarde, certamente — Sid acrescentou, incapaz de resistir.
Sentindo que havia sido insultado, o Sr. Robert assentiu.
— Talvez seja melhor assim.
— Sem dúvida. Bem, espero que tenha um bom-dia. — Com uma inclinação polida, Sid pegou seu chapéu e saiu para enfrentar a longa caminhada até seu chalé.
— Sid, você é um velho tolo — censurou-se em voz baixa, detestando os pensamentos mesquinhos que passavam por sua cabeça. Sua desaprovação era, em grande parte, fruto da relutância em reconhecer que não era mais o vigário local. Encontraria defeitos em qualquer um que chegasse para substituí-lo, e sendo esse substituto um homem tão diferente dele mesmo... — É hora de dar espaço à nova geração.
Mesmo assim... não havia como negar que o homem era antipático, insistiu uma voz obstinada.
Balançando a cabeça para as bobagens do Sr. Robert e as dele, Hammerback continuou caminhando.
O problema era que ainda não aceitara inteiramente a decisão de aposentar-se e ir viver no pequeno chalé, ele reconheceu. Não que não considerasse o novo e modesto lar tão aconchegante e pacato quanto se podia desejar, e apreciava muito a idéia de cuidar do jardim e ter mais tempo para suas coisas. O fato era que não gostava de sentir que não era mais necessário.
Ele suspirou.
Havia algo de muito satisfatório em pensar que podia levar conforto a uma viúva doente ou dizer algumas palavras encorajadoras a um colono desanimado, ou até convencer um senhor local a extravasar sua ira em outros indivíduos de sua camada social, em vez de usar seus colonos como válvula de escape para as frustrações diárias.
Sabia que suas habilidades pessoais nunca mudariam o mundo, mas faziam diferença na vida das pessoas de quem cuidava. Sentiria falta dessa sensação de ser necessário e útil.
Sentindo-se estranhamente triste e aborrecido, Hammerback chegou ao pequeno chalé e entrou sem a alegria eufórica de costume. Estava tirando o chapéu quando a Sra. Strauss se aproximou.
Desde que deixara o vicariato, a velha governanta se mostrava ainda mais propensa a cuidar dele como se tratasse de uma criança indefesa.
— Ora, Sr. Hammerback, já era hora de voltar para casa!
Ele respondeu ao tom de censura com um sorriso. Jamais conseguiria entrar sem ouvir um de seus sermões domésticos.
— Desculpe-me pelo atraso, mas decidi passar pelo vicariato para visitar o novo morador.
— Ah! Então entendo porque está com esse ar carrancudo. Aquele homem é capaz de irritar até um santo!
Lamentando ter de concordar com a opinião de sua governanta, Sid balançou a cabeça.
— Sra. Strauss, ele parece ser muito... organizado.
— Um tolo pomposo é o que ele é.
Cansado de pensar na arrogância do novo reverendo, Sid tentou distrair a mulher e, assim, escapar de mais algumas horas envolvido na mesma conversa.
— Acho que vou beber uma dose de licor antes do almoço — disse.
Com velocidade espantosa, a Sra. Strauss trocou o ar sombrio por um sorriso amplo.
— Peço que me desculpe, senhor, mas há uma visita esperando por sua presença no jardim.
Sid parou surpreso. Depois de retirar-se do vicariato, era raro ter visitantes.
— Alguém espera por mim? Quem pode ser?
O sorriso da governanta tornou-se mais largo.
— Creio que deve ir ver por si mesmo.
A situação era realmente curiosa. A Sra. Strauss não costumava entreter-se com tais jogos de adivinhação. Pelo contrário, ela era a mulher mais objetiva e direta que já havia conhecido.
— Por Deus, agora está se tornando misteriosa...
— Por que não vai ver quem o espera? Levarei uma bandeja de chá.
Imaginando quem poderia ter colocado aquele brilho luminoso nos olhos de sua governanta, Sid assentiu.
— Muito bem.
Curioso, ele seguiu para o fundo da casa. Esperava que a visita em questão permanecesse ao menos por algumas horas. Seria bom poder conversar com um antigo conhecido. Talvez pudesse até convencer a pessoa a ficar para o jantar e jogar xadrez enquanto saboreavam um bom cálice de porto.
Sid abriu a porta que se abria para o jardim e saiu para o dia quente e ensolarado. Por um momento foi ofuscado pela intensa luminosidade, e tudo que viu foi um certo número de sombras espalhadas pelo jardim. Depois, quando seus olhos se ajustaram, o choque o fez abrir a boca.
— Oh... Oh!
Os três casais conversavam em voz baixa perto das preciosas roseiras, mas se calaram ao ouvir a exclamação perplexa.
Lindsay estava ali com seu marido Daniel, Catherine ao lado de seu dedicado Gilbert, e, é claro, Stella e Taylor também integravam o grupo.
As três mulheres caminharam em sua direção sorrindo. Emocionado, Sid estudava aquelas três criaturas que havia aprendido a amar como filhas. Lindsay e seu espírito irrepreensível, Catherine com sua inteligência quieta, e Stella com sua beleza gloriosa. Todas muito diferentes, mas muito semelhantes na bondade de seus corações e na generosidade de suas naturezas.
— Sr. Hammerback — Lindsay cumprimentou-o com tom doce.
— Lindsay, o que está acontecendo aqui? — ele perguntou surpreso.
— Queríamos lhe dar as boas-vindas ao novo lar.
— E agradecer por tudo que fez por nós — Catherine acrescentou.
— Mas... — Constrangido com a situação inesperada, ele se deu conta de que corava como um menino. — Não precisavam vir até aqui só para visitar-me.
Lindsay riu.
— Teríamos viajado até as colônias, se fosse necessário. Além do mais, queríamos conhecer seu encantador chalé.
Pela primeira vez em sessenta anos de vida, Sid não tinha palavras para expressar-se. Saber que essas três mulheres haviam percorrido tão longa distância só para vê-lo fazia seu coração se encher de alegria.
— Oh, bem, não há muito o que ver — disse.
— Quanta modéstia! Sua nova casa é tão confortável e acolhedora quanto disse que era.
Sid olhou para a terceira integrante do grupo, a única que ainda não se havia manifestado.
— Stella, minha querida. Como tem passado?
— Muito bem — ela respondeu com um sorriso radiante estava diferente da ultima vez que a viu.
— Francamente, não deviam ter se dado ao trabalho de vir até aqui.
— Não foi trabalho algum, Sr. Sid. Queríamos estar aqui em sua companhia.
— Acha que pode nos levar para conhecer sua nova casa? — perguntou Catherine.
— Certamente, embora não haja muito que ver.
Lindsay sorriu misteriosa.
— Oh, pode ficar surpreso, senhor.
Sem saber ao certo o que ela queria dizer com essas palavras, Sid as convidou a entrar, surpreso ao constatar que as três seguiam sem seus maridos. Intrigado, ele olhou para os cavalheiros que permaneciam no jardim e ergueu as sobrancelhas.
— Não vão convidar seus maridos, senhoras?
— Oh, eles podem ficar e continuar conversando — garantiu Catherine.
Stella riu.
— Sim, eles parecem estar apreciando a companhia um do outro.
— Devem estar muito ocupados discutindo as inúmeras qualidades das mulheres com quem se casaram — Lindsay acrescentou sorridente.
— Talvez estejam debatendo qual de nós é a mais teimosa — sugeriu Catherine.
— É possível — Lindsay concordou. — Vamos deixá-los à vontade, Sr. Sid. Venha conosco.
Com determinação surpreendente, Lindsay entrou no chalé e conduziu o antigo reverendo à biblioteca instalada em um aposento ao lado da sala de estar. Ela abriu a porta e se afastou para deixá-lo entrar primeiro.
Sentindo que as três jovens tramavam alguma coisa, Sid entrou cauteloso na sala e parou espantado.
As prateleiras estavam repletas de livros. Poucas horas antes, ainda naquela manhã, haviam estado vazias abrigando apenas os poucos livros que trouxera do vicariato. Era como um milagre.
— Oh, céus...
Stella riu e parou ao lado dele.
— Cada uma de nós escolheu seus favoritos para comprar. Eu escolhi alguns clássicos e filósofos, Catherine optou por diários de viagem, e Lindsay adquiriu todas as novelas góticas e livros de poesia que conseguiu encontrar.
— Minhas queridas. — Era difícil conter as lágrimas de alegria. — Isso tudo é demais para mim.
— É apenas uma maneira singela de expressar nossa gratidão por tudo que fez, não só por nós, mas por toda a vizinhança — Lindsay explicou.
— E também é um meio de assegurarmos que nunca estará entediado em sua nova vida — acrescentou Catherine.
O fato de elas terem se empenhado tanto para agradá-lo fazia com que ele se sentisse o mais afortunado cavalheiro de todo os Estados Unidos.
— Não sei o que dizer...
— Não precisa dizer nada — Catherine informou com um sorriso terno. — Apenas seja feliz.
— Nada poderia ser mais feliz do que ter vocês três aqui.
Lindsay riu.
— Bem, espero que essa seja uma declaração sincera, por que pretendemos visitá-lo com certa regularidade.
— Sim, realmente — confirmou Catherine. — Não temos a menor intenção de abandonar nosso Cupido particular.
Sid sorriu satisfeito, sentindo-se subitamente mais feliz com seu pequeno chalé e sua nova vida.
— Vocês serão sempre bem-vindas em minha casa.
— Sim, mas para termos certeza disso, providenciamos uma pequenina surpresa — Stella contou, atravessando todo o aposento para ir pegar um cesto de vime atrás da escrivaninha. — Encontramos o caminho para o seu coração.
Aplaudindo, Sid encheu os pulmões com o aroma delicioso que brotava de dentro do cesto, fechando os olhos para melhor apreciá-lo.
— Ah, tortas de limão...

Fim





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