Flores Secas escrita por axcel09


Capítulo 2
Perda de Consciência





Capítulo 2

Perda de Consciência

Pouco tempo de viagem e Sandra já havia percebido que era apenas uma ilusão dela, Roger e Laura não estavam mais próximos coisa nenhuma! Na verdade os dois vieram o caminho todo ignorando a presença um do outro... Ninguém dizia nada e todo aquele silêncio já estava irritando Sandra. Roger colocou os fones de ouvido e viajava para outro mundo ao som de Slipknot, sua banda favorita.

– Lamento pela morte do seu marido.

– Que?

– Disse que lamento pela morte do seu marido. – Laura parecia realmente abalada.

– Ah, sim. Obrigada. – O silêncio voltou a tomar conta da viagem por longos quilômetros.

Finalmente eles chegaram ao seu destino, Sandra estacionou o carro na garagem da casa e todos suspiraram. Laura entrou rapidamente na casa e correu para o banheiro, Roger ficou dentro do carro ainda e Sandra também não tinha vontade de sair. Ela achava aquela situação extremamente bizarra e não sabia o que fazer, ficava se perguntando se toda experiência pós-funeral era assim, se as vidas de todas as pessoas seguiam daquele jeito que estava acontecendo com ela, se todas as famílias voltariam para suas casas e estacionariam o carro, continuariam indo trabalhar, assistindo aos programas de televisão aos domingos e colocando o lixo para fora... Essas coisas que ela achou que mudariam com a morte de John, ou melhor, que ela nunca pensou como seriam depois da morte de John. Para a surpresa de Sandra tudo continuava absolutamente normal, ela ainda teria que entrar em casa, tomar o seu banho, preparar algo para quando tivesse fome, o que ela julgava pouco provável de acontecer... E, pior, procurar alguma coisa que pudesse deixá-la ocupada pelo restante de sua vida. Sim, Sandra precisaria se distrair, se virar, trabalhar, encontrar outro sentido para continuar vivendo... Recuperar a sua coragem e encarar o presente ao lado do seu filho que agora crescia sem um pai. E onde estava o seu filho? Ah, claro... Com a morte de John ela não teve condição de continuar com ele e uma assistente social aconselhou que a criança ficasse com a avó em Colina Dourada até ela se recuperar do trauma. Sandra achava que aquilo era uma bobagem, ela não se sentia traumatizada a ponto de não conseguir ficar com o seu filho, mas agora ela entendeu porque haviam decidido que assim seria melhor. De fato ela tinha esquecido o seu filho Guilherme durante esses dois dias em que só pensava em John... E se sentiu mal por isso, e era com esse sentimento de pior mãe do mundo que ela agora encarava a realidade de que alguma coisa ainda a ligaria aquele lugar de onde ela tanto tentava fugir... Sandra teria que voltar para Colina Dourada quando se recuperasse do choque que a tirou dessa realidade para conseguir o seu filho de volta.

– Roger... Eu vou para o meu quarto, está bem?

– Tudo bem... Se precisar de alguma coisa pode pedir.

– Eu estou bem, só preciso dormir um pouco. – Sandra deixou o carro e entrou na casa.

Sandra adentrou no quarto chorando, deitou no colchão descoberto na sua antiga cama de solteiro e viu o teto ficar embaçado atrás de suas lágrimas, ela implorou para sentir a presença de John que só apareceu quando sua mente já estava inebriada pelo sono, então ela não podia saber se ele estava de fato ali ou se estava apenas sonhando. Mas isso pouco importava se ela pudesse vê-lo afinal.

– John... Eu me sinto tão mal... – Foi o que ela conseguiu retirar da sua garganta sobrecarregada.

– Porque está falando isso, querida?

– Eu esqueci o nosso filho, John. O nosso filho! Fiquei tão obcecada pensando em você que nem me importei em ligar para saber como o Guilherme estava.

– Meu amor, você sofreu uma perda muito grande... Não me tem mais ao seu lado fisicamente, e ainda me viu ser assassinado pelo aquele bandido. É completamente compreensível que você tenha passado por isso.

– Não! Nada justifica uma mãe esquecer-se do próprio filho... Eu sou um monstro egoísta! Só penso no meu sofrimento, não ligo para mais ninguém além de mim... – Sandra se desesperava.

John abraçou o seu corpo jogado na cama enquanto ela chorava e soluçava sem parar, ela acabou adormecendo sentindo a presença do corpo de John deitado atrás do seu, envolvendo o seu corpo num abraço feito de proteção e carinho, mas que estranhamente lhe transmitia a sensação de frio.

Na manhã seguinte Sandra estava pronta para encarar o seu primeiro dia de volta à casa antiga, ela acordou com o barulho do telefone tocando e Laura rodando para um lado e para o outro, tentando deixar a casa organizada e ao mesmo tempo pentear o seu cabelo. No telefone era um dos seus clientes que estavam estressados com a demora na entrega de algum produto, Laura interrompeu uma das coisas que estava fazendo para comunicar a sua irmã que a pia da cozinha estava com defeito e a do banheiro também, e que aquilo de alguma forma era culpa de Sandra.

– Bom dia para você também, Laura. – Foi o que Sandra respondeu.

Depois de ter tomado um banho ela foi até a cozinha para dar uma olhada no que estava acontecendo. Roger estava debaixo do balcão examinando a tubulação como fazia quando era criança e brincava com seu equipamento de encanador de brinquedo. Ele resmungava alguma coisa e Sandra ria, estava tendo uma sensação boa que alguma lembrança antiga lhe trouxe.

Roger não conseguiu consertar o defeito da pia, o que deixou Laura nervosa e também decidida a ligar mais uma vez para o encanador e enche-lo dos mais diversos desaforos. Sandra chamou Roger para a garagem na frente da casa e ele a seguiu.

– Então... Acha mesmo que ela está com ciúmes da gente? – Perguntou o jovem.

– Mas é claro que sim, não viu a cara que ela fez quando nos viu abraçados na cozinha?

– Então eu estou confuso. Isso quer dizer que ela gosta de mim de alguma forma? – Roger fez uma careta de reprovação.

– Claro que ela gosta! Apesar de tudo vocês são irmãos... Ou você vai me dizer que não gosta da Laura?

– Claro que eu gosto, mas ela implica tanto comigo que... Não sei...

– É porque ela não te deixa dirigir, não é? – Sandra deduziu.

– Começando por isso aí... E também porque ela me ignora a maior parte do tempo.

– Pois hoje você finalmente vai matar o seu desejo. – Disse Sandra balançando o seu chaveiro com a chave do carro.

– Sandra! Você é incrível maninha! – Roger pulou de alegria e abraçou a sua irmã. – Vai me deixar dirigir o seu carro?

– Sim, vamos lá! Vamos dar uma voltinha, meu pequeno motorista! – Sandra o motivou.

Roger entrou no carro animado e deslizou as mãos pelo volante, seus olhos brilhavam e Sandra podia perceber que ele estava realmente muito feliz com aquela oportunidade que lhe estava sendo concedida.

– Pronto, pode ligar o carro agora.

– É pra já! Coloque o cinto. – Roger recomendou.

– Não vá muito rápido, está bem?

– Relaxa! Eu sei o que estou fazendo...

Sandra sentiu uma dor aguda na cabeça que a fez fechar os olhos com força por alguns milésimos de segundos. Sua mente foi preenchida por pensamentos vazios que resumiam todo o percurso da sua vida, ela colocou as mãos no rosto institivamente e abriu os olhos no momento exato em que o seu carro se chocava violentamente com o carro do seu vizinho da frente, que estava estacionado ali como já era de costume. Seu coração palpitou, sua cabeça foi lançada com violência para frente e para trás. Ela olhou horrorizada para Roger que estava igualmente em choque, ele não sabia o que fazer. Sandra ainda não entendia o que tinha acontecido, foi tudo muito rápido e ela não tivera tempo de raciocinar.

– Essa não! O meu carro! O meu carro! – Disse o Sr. Davis saindo de sua casa, acompanhado por sua esposa.

– Calma Sr. Davis! Não precisa ficar nervoso, a culpa foi toda minha. – Disse Sandra pulando para fora do carro, tentando defender o seu irmão. – Me desculpe pelo que aconteceu com o seu carro, mas eu vou pagar pelo prejuízo. Fui eu que fiz isso.

– É claro que foi você sua vadia! Olha só o que você fez... – Gritou o homem irritado.

– Me desculpe. Nós vamos dar um jeito nisso... Vou pedir para a minha irmã ligar para um mecânico agora mesmo.

Não foi preciso que Sandra entrasse na casa para chamar a sua irmã, Laura tinha ouvido o barulho da batida e tinha saído para ver o que acontecia lá fora, viu os dois discutindo e correu para perto de Sandra.

– Sandra, o que está fazendo? – Laura perguntou. – Você está bem?

– Eu bati o carro.

– Você fez o que?!

– Sim, bateu no meu carro, mocinha... E agora? Como vamos resolver isso? – Disse o Sr. Davis.

– Sandra, entre agora mesmo. – Laura disse séria. – Eu resolvo esse assunto.

– Tudo bem, mas não fique brava. Não culpe o Roger, por favor... – Sandra pedia chorando. – Eu que tive a culpa. Achei que ele estava pronto para dirigir e quis lhe dar uma chance.

Laura virou o rosto para olhar para a sua irmã, o Sr. Davis olhou para a sua esposa que olhou para ele também na mesma hora, colocando a mão sobre a boca e abrindo bem os olhos, assustada.

– O que você está dizendo, Sandra? – Laura disse com a voz excessivamente baixa. – Roger morreu há quatro anos.

Naquele momento Sandra sentiu um forte impacto lançar o seu corpo contra o chão. Caída de joelhos ela conseguiu se levantar com a ajuda do seu vizinho que outrora estava muito irritado, mas que agora não sabia o que fazer.

– Olha... Desculpe-me por ter falado daquela maneira com você, só Deus sabe pelo que você está passando agora... Não merecia ouvir nada daquilo. – O Sr. Davis se desculpava envergonhado.

– Tudo bem eu... Me desculpem, não estou em condições para falar... Eu...

– Não. Claro, está tudo bem... É melhor você entrar e descansar um pouco. – O pobre homem a encarava com olhos de piedade.

Sandra voltou para dentro de casa a passos lentos, sentou-se no sofá da sala e tentava digerir a ideia de que Roger estava morto e que ela chegou a vê-lo realmente por alguns dias, assim como John. Ela agora tinha a certeza de que enlouquecera depois de haver perdido o seu marido e aquilo fez com que ela fosse capaz de voltar a acreditar que eles ainda estavam ali. Laura não ergueu a cabeça nem teve coragem de olhar para o rosto de Sandra enquanto ela voltava para dentro da casa. Ficou lá fora se desculpando e tentando chegar a um acordo com o vizinho que agora aparentava estar bem mais compreensível. Os dois discutiam qual seria a melhor maneira de reaver o prejuízo do carro e qual destino seria melhor para Sandra, visto que talvez não fosse tão apropriado para ela continuar ali em Monte Belo, talvez se adaptasse melhor em Colina Dourada. Fugir da realidade não estava ajudando-a, ela precisava encarar os fatos verdadeiramente e somente voltando para Colina ela conseguiria isso.

A porta da sala se abriu e Sandra ainda não sabia qual seria a reação da sua irmã depois de que ficou claro para todos que ela estava ficando maluca. Sandra respirou aliviada quando percebeu que quem estava entrando não era Laura, e sim a mulher do Sr. Davis.

– Olá menina, como está?

– Dona Verônica... Eu estou tão envergonhada. – Lágrimas rolaram pelo rosto corado de Sandra.

– Ei... Mas o que é isso? Não existem motivos para você ficar assim.

– Existem sim. Todos vão pensar que eu fiquei maluca, e eu realmente acho que fiquei...

– Não seja tão dura com você mesma... Vai ficar tudo bem.

– Eu destruí o carro do seu marido, estou trazendo problemas para minha irmã... Talvez tivesse sido melhor que eu tivesse morrido naquele assalto no lugar do John, ele saberia encarar essa situação melhor do que eu. Ele resolvia tudo...

– Fique tranquila, sua irmã está aqui para te ajudar e eu vou conversar com o meu marido, ele só estava nervoso.

– Oh, eu sinto tanto...

– Ninguém pode julgá-la por isso menina, sua mente apenas está agindo como ela acha melhor para você. Vai ver como tudo vai se ajeitar depois que você superar esse trauma. Agora trate de dormir um pouco e esquecer esses problemas. Você precisa de ajuda e carinho, conte com a sua família e alguns amigos para isso. – Disse Dona Verônica, tranquilizando-a.

Laura cruzou a porta da sala e parou quando avistou a sua irmã no sofá, segurando as pernas numa posição que lembrava a de um bebê no ventre de sua mãe, ela respirou fundo e soltou o ar com violência. Dona Verônica levantou-se, beijou-lhe na testa e aproximou-se de Laura.

– Seja boazinha com ela. – Sugeriu antes de deixar a casa.

Laura andou até a beira do sofá e passou a mão no rosto de Sandra, arrumou o seu cabelo para trás revelando o rosto suado e preocupado da jovem.

– Desfaça essa posição, descruze as pernas. – Ordenou.

Sandra obedeceu.

– Então... Você via o Roger vivo... – Ela riu de nervoso.

– Me desculpe. – Foi tudo o que Sandra conseguiu dizer.

– Não, não. Eu já devia saber pelas coisas estranhas que você fazia. E as conversas que você tinha quando estava sozinha e que eu escutava de vez em quando. – Laura recordava-se. – O problema é que... Muita gente morre sabe? É natural... Só que isso não lhe dá o direito de enlouquecer e simplesmente esquecer-se da sua vida. Você precisa aprender a lidar com isso. Você quase enlouqueceu quando o Roger morreu, e se não fosse o John eu não sei o que seria de você hoje. Agora que ele também morreu você quer fazer a mesma coisa? Vamos reviver aquilo tudo de novo?

– Você tem razão.

– Claro que sim. E olha... Eu não sei, nem tenho a pretensão de saber como é que eu devo falar ou agir com você. Eu sei que você está sensível e passando por momentos difíceis. Tem todo direito de se sentir fraca sim, mas não aqui. Você tem que aceitar o fato de que John está morto e o Roger também, as pessoas morrem mesmo.

– Tá.

– Não me vem com essa de “tá”... Eu sei que você não vai aceitar fácil assim. Mas eu não tenho a paciência nem o tempo que você precisa pra entender isso, não sei cuidar de ninguém e nem lembro como o John fazia. O tempo que você vai passar comigo vai ser bom porque você vai aprender a ser um pouco mais independente. Está me ouvindo?

– Estou.

– O que você precisa aprender agora?

– A ser independente.

– E forte...

– E forte.

– Acha mesmo que vai conseguir?

– Não... – Sandra voltou a chorar.

– Não chore. – Laura sentou-se ao lado dela.

– Eu estou ficando...

– Não diga isso! – Laura disse num tom firme. – Não dê espaço para essa ideia em sua cabeça. Esse é um privilégio que você não pode ter.

– Me desculpe.

– Não use a loucura como uma desculpa pra fugir da dor. Essa é a sua oportunidade para começar a encarar a vida Sandra, agora sem o John aqui você vai ter que aprender a fazer isso. – Laura deslizou a palma da mão no ombro de Sandra, acariciando-a ternamente. – Eu te amo.

– Eu também te amo. – Sandra abriu os braços para abraçar a sua irmã.

– Seja forte, minha irmã. Seja forte.

– Talvez seja melhor mesmo voltar para Colina Dourada.

– Voltar para Colina? – Laura afastou-se bruscamente para olhar bem o rosto de Sandra. – De onde você tirou isso?

– A esposa do Sr. Davis me recomendou. Lá eu poderia procurar ajuda de algum especialista e ele me ajudaria a superar o trauma.

– Talvez seja melhor mesmo... Eu acho. – Laura voltou a encarar Sandra com aquele olhar preocupado.

– Você acha? Por quê?

– Porque a esposa do Sr. Davis está morta também.





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