Lobotomy escrita por Tom


Capítulo 1
Quatro Vezes Você


Notas iniciais do capítulo

Caraca, acho que viciei em One-shots, mas essa daqui, provavelmente, foi a primeira ideia que tive para uma, a muuuito tempo atrás, só não havia escrito ainda. Bom, divirtam-se. ;)



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“O que você faz quando
Ninguém te vê fazendo
Ou o que você queria fazer
Se ninguém pudesse te ver.”

Zona. Era assim a minha vida. Em cada mínimo detalhe ou em cada mínimo pensamento eu estava em uma bagunça, uma confusão. Pessoas me olhavam, riam para mim, conversavam livremente, mas eles não percebiam o quanto eu estava quebrada por dentro. O quanto eu estava machucada.

Zona. Essa era a minha aparência. Blusa comprida, jeans sujos, tênis. Cabelos desgrenhados soltos em minhas costas, olheiras profundas, semblante cansado. Eu sequer tinha forças para pedir ajuda, para encontrar minha salvação.

Mas é claro que ninguém perceberia o meu desespero. Eu tinha muita vergonha acumulada para deixar transparecer alguma coisa, qualquer coisa. Era boca fechada e, de vez em quando, um sorriso seco para as piadas idiotas.

Um ciclo.

Zona. Era assim a minha casa. Queria ser como os adolescentes normais de minha idade que se sentiam aliviados de chegar a sua sweet home depois de um dia cansativo de aula, mas já fazia algum tempo que essa sensação boa havia me deixado e, mesmo assim, a minha imaginação não se refreava de me apunhalar pelas costas.

Comida sobre a mesa, tudo limpo, mamãe sorridente.

Ah!, mas que sabor amargo tinha essa palavra.

Não tardei a abrir a porta da frente e ver a mesma cena que me assombrava em pesadelos de olhos abertos. Mamãe deitada no sofá como se tivesse caído morta ali mesmo, totalmente suja, nojenta. Seus cabelos oleosos estavam mais curtos do que hoje de manhã, quando a vi pela última vez, o que significava que ela tinha aprontado novamente.

Ao chão jaziam espalhadas diversas garrafas de cerveja, alguns tipos desconhecidos de bebidas alcoólicas e, não poderia faltar, o seu precioso Prozac. Minha mente atropelou minha razão e me vi pensando:

“Tomara que esteja morta”

Esperança vã. Ouvi um gemido e percebi que ela estava acordando e eu simplesmente não suportaria vê-la daquele jeito, completamente bêbada e dopada com tantos comprimidos. Corri escadas acima, largando-me no chão do banheiro. Tranquei a porta e deixei que, como sempre, as lágrimas escorressem diante meus olhos e a amargura apertasse meu coração.

Eu já não suportava mais aquilo. Já não suportava mais nada.

Mas a vida parece sorrir para mim quando me tranco naquele lugar mal cheiroso, ouvindo os berros desconexos de minha mãe no andar de baixo, o som de garrafas sendo quebradas. Ali, escondido atrás do vaso, está meu pequeno poço de alegria. Peguei a lâmina já suja e quase cega; cortei-me.

“Parece muito, mas podia ser...”

•••

A sociedade era completamente idiota. Tantas regras, tantos padrões, tantos tudo. Era tão chato... Tão tedioso. E eu queria mudar aquilo, queria mostrar para eles que nem tudo é careta ou nem tudo é tabu. Mas, como dizia meu pai, mocinha de família não faz atrevimentos.

Rá! Outro velho em meio a tantos velhos.

Eu estava cansada disso tudo, eu queria fazer alguma coisa diferente. Alguma coisa... Significativa, que deixasse marcado a mente de todas as pessoas durante muito, mas muito tempo mesmo. Que as chocasse. Eu adoraria isso.

Sentei em minha cama e fitei a minha imagem diante o espelho e, devo assumir, ela me estressava. Eu era mais uma menininha apagada, que todos viam como a nerd da sala, como a que sempre usa vestidinhos, saias e blusas de cor pastel.

Idiotas! Idiotas! Idiotas!

Eu iria mostrar para eles que eu não seria mais um padrão. Olhei para as minhas unhas, hoje sem esmalte, e decidi que a primeira medida seria mudá-las. Suspirei uma vez e escorreguei meu corpo para debaixo da cama, tirando de lá uma caixa rosa. Dentro havia coisas que eu deixava comigo, coisas que meu pai acharia “vergonhosas” e “impuras”. Peguei o esmalte vermelho, olhando-o cobiçosa.

Vermelho sangue, vermelho prazer.

Não tardei a passá-lo.

Mas aquilo não bastaria. Nem chegaria perto.

- Filha, três e meia. Hora do estudo! – anunciou meu pai por de trás da porta. Revirei os olhos, mas respondi com a voz mais meiga que pude.

- Claro, papai.

Eu poderia ver, mesmo com a porta fechada, o seu sorriso satisfeito. “Filhinha do papai”. Eu já não aguentava mais.

Comecei a despir-me sem hesitar. Já nua, passei a mão pelo meu corpo. Meus seios pequenos com mamilos rosados, minha barriga gordurosa, meu sexo com cabelos recém-aparados, minhas coxas desiguais com algumas estrias e celulites.

Ah!, o desejo ardente de me mostrar.

Corri até a cômoda e peguei uma câmera fotográfica. Aquilo sim era liberdade, era ser diferente dos outros.

Três cliques, três poses. Três fotos nua de frente ao espelho.

“Parece estranho, mas podia ser...”

•••

- Pai, deixe que eu faça as minhas escolhas! Você não manda em mim, porra! – gritei. Eu já não sabia qual era o número de discussões que eu tinha com o meu pai, mas o assunto era sempre o mesmo: irresponsabilidade.

Primeiramente, eu não era irresponsável! Desde quando viver a música é ser irresponsável? Desde quando estudar música era irresponsabilidade? Esse homem era um grande imbecil moldado por sua era de moralismo. Caralho! Era pedir demais um pouco de paz? Um pouco de liberdade?

- Isso que você faz é errado! É tudo errado! Ficar tocando violão por aí sem ganhar nenhum trocado? Seu moleque idiota. Você não vai ter futuro nenhum. Nenhum! Só me traz vergonha e despesa! – ele berrou e aquela foi a gota d’água. Eu não suportaria mais olhar para a cara papuda dele.

- Cala boca, desgraçado! Você não tem nenhum direito sobre mim. Fica batendo uma punheta como se fosse jovem olhando fotos de menininhas de biquine prestes a pular a piscina e quer me falar sobre o que é ou não errado? Você precisa é ir tomar no meio do seu cu. – rosnei e peguei a pequena mochila e o violão que jaziam aos meus pés. Eu iria sair de casa, viver em qualquer lugar, desde que eu não olhasse mais para aquele gordo. Vi o ódio estampado em sua cara vermelha, em sua veia pulsante no pescoço.

- Isso, corra para a vagabunda da sua namorada! Quero ver se ela vai te sustentar, verme. Inútil! – cuspiu as palavras sobre mim, mas não o olhei novamente, sabia que ele iria continuar prolongando aquela briga. Bati a porta de sua casa, sentindo, em seguida, o vento da liberdade bater contra o meu rosto. Esqueci esses momentos que antecederam a minha partida tão rápido quanto um único acorde de meu violão.

E era exatamente graças a minha namorada que eu estava fazendo isso. Ela havia me dado a grande ideia.

“ - Vamos lá, baby. O que você está fazendo na sua casa ainda? Pegue o seu violão, venha viver comigo. – disse em um murmuro ao pé de meu ouvido; me arrepiei. Estávamos em um beco escuro, nosso ponto de encontro. Eu a prensava contra a parede, recuperando o ar. Levei uma de minhas mãos à sua coxa e a levantei até parar na altura de meu quadril. Sorri ao ouvir suas palavras, mas nada eu disse em resposta. Pelo contrário, eu a beijei vorazmente.

Seus dedos se entrelaçaram em meu cabelo, nossas línguas se deliciaram com o contato uma da outra, traçando movimentos sensuais, fazendo com o que meu corpo ardesse como uma chama. Eu a peguei no colo e ela apertou suas pernas em volta de minha cintura deixando o nosso contato ainda maior. Eu sabia que ela estava sentindo minha ereção roçando em seu sexo e sabia também o quanto ela gostava daquilo.

Enchi minhas mãos com a carne de seus glúteos, apertando-os com força.”.

Na esquina da rua de minha casa eu parei, olhando ao redor e a mim mesmo. Poucas roupas, nenhum dinheiro e um violão velho.

“É complicado, mas podia ser...”

•••

Eu era estranha, sabia disso. Cada célula de meu corpo sabia disso. As pessoas ao meu redor sabiam disso. Papai e mamãe sabiam muito bem disso. Até meus avós sabiam disso.

Mas por que eu me sentia tão deliciada sendo diferente? Meu corpo se sentia aquecido com aqueles pensamentos que invadiam minha mente, e minha boca chegava a salivar de desejo, de vontade.

Era incrível, maravilhoso, mas inegavelmente estranho.

E confuso, claro.

Eu era uma pessoa muito confusa, aliás. Em tudo o que eu fazia, nas coisas que recebia ou nas coisas que eu tinha que dar. Eu não sabia se teria de escolher entre A ou B, mesmo pensando intensamente na letra C.

Mas cara, eu adorava ser assim.

Adorava ser assim a cada vez que eu beijava mais uma garota, sentindo o seu corpo colado ao meu, nossos lábios frágeis e femininos se tocando com ardor, descobrindo-nos lentamente, o sabor, o desejo. Suas mãos delicadas em meu pescoço, as minhas mãos atrevidas travando uma luta contra o seu sutiã, que apertava demais os seus seios e os tornavam tão visualmente saborosos.

Quanto pecado, quanta volúpia. Quanta vontade de repetir de novo, de novo e de novo. De tocá-la mais uma vez, de ela me tocar mais uma vez. Movimentos ágeis e rápidos, o ápice explosivo. Nossos corpos femininos entrelaçados, nossos cabelos compridos molhados de suor, nossos sexos molhados de prazer.

Mas eu não gostava de rotina, literalmente não. E talvez fosse por isso que todos me achavam tão estranha. Não por beijar meninas – não só por isso, quer dizer –, mas por beijar meninos também. De vez em quando, claro, mas beijava. Para não cair na rotina, entende?

“É diferente, mas podia ser...”

“O que você faz quando
Ninguém te vê fazendo
Ou o que você queria fazer
Se ninguém pudesse te ver.”


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Notas finais do capítulo

Espero que tenham gostado. Críticas, bem-vindas. Elogios, mais ainda!