Doce Engano escrita por Kaline Bogard


Capítulo 1
Capítulo Único


Notas iniciais do capítulo

Gostaria de dedicar essa história à Fá, por que ela é uma pessoa muito gentil, que está sempre acompanhando meus trabalhos! Só não sei se ela lerá isso aqui algum dia xD Espero que sim!!

Tenho outras pessoas em mente para presentear com fanfics, não que as minhas fanfics sejam um bom presente, enfim...

Aguardem novidades! Assim que eu tiver tempo D:

Notas:

1- Feito para o desafio relâmpago promovido pela página do face do Nyah!

2- Não foi betada, mas tentei revisar e caçar os erros.

3- Boa leitura!



Doce Engano

Kaline Bogard

Parte Única

A noite estava fria e chuvosa, o que até era normal na Califórnia, nas mudanças de estação. E combinava com o estado de espírito de Derek Hale. O rapaz estava deprimido, desanimado.

Pelos últimos dias evitara todas as ligações da irmã mais velha, Laura, que insistia em reunir o que sobrara da família no domingo, para comemorar o feriado da Páscoa.

Os Hale não eram religiosos devotados, mas tinham tradições que comemoravam ano após ano, e a Páscoa era uma dessas. Comemorar a renovação, a vida nova, a libertação.

Como poderiam festejar isso depois do incêndio criminoso que dizimara a família dez anos atrás? Ele não conseguiria. Ainda não superara a dor da perda para sentar-se em uma mesa e comemorar vida nova. Derek odiava a Páscoa.

Derek estava preso à sua dor. Arrastava o passado como se carregasse uma âncora que o impedia de se libertar. Se punia pela tragédia, pois ele se envolvera romanticamente com a mulher que causara o incêndio. Não podia jamais negar sua parcela de culpa.

E ali estava ele, na noite de sábado, andando pela rua molhada da chuva recente, sentindo o ar frio castigar seu rosto com a barba por fazer, enquanto o resto do corpo estava protegido por roupas quentes. Era inicio de primavera, mas a recaída do tempo frio não parecia querer deixar as flores desabrocharem.

Balançou a cabeça pelos pensamentos bobos.

Só queria continuar assim: sozinho com sua dor.

Foi nesse momento que o celular vibrou dentro do bolso, fazendo Derek suspirar. Só podia ser Laura ou Cora, insistindo no almoço de domingo.

Puxou o aparelho telefônico e hesitou. Não reconheceu o número como sendo de suas irmãs. Abriu a mensagem com certa curiosidade.

Cara, cadê vc? To congelando aqui :( ”, dizia o SMS.

A frase não fez sentido algum. O rapaz apenas deu de ombros e deduziu que se tratava de um engano. Guardou o celular e caminhou até uma pequena ponte. Debruçou-se na muretinha, olhando para o córrego de águas turvas. Um reflexo semelhante a própria vida.

Porém o pensamento depressivo foi impedido de continuar quando um novo SMS fez o celular em seu bolso vibrar.

Só podia ser a mesma pessoa que enviara o anterior. Pensou em ignorar, mas a curiosidade foi mais forte. Sem que pudesse evitar se viu puxando o celular e lendo a mensagem.

Porra, faz quarenta minutos q to aki, eu to com o cel do meu pai, senão ligava pra alguém, mas só lembro do seu numero. E isso é culpa sua! Vc deixou td pra ultima hora! ¬¬

Continuou não fazendo sentido. Contudo, Derek sentiu pena de quem lhe enviava o SMS pensando ser outra pessoa. Com certeza trocara o número de telefone. Desse jeito teria que esperar muito mais naquele tempo frio.

Pensou em responder, explicando o engano. Não teve tempo, outro SMS chegou.

PS: Se não estiver aki em 15min vou quebrar seus ovos! >(

Ao ler a ameaça foi impossível não baixar os olhos para os preciosos... “ovos”. Um sorriso involuntário distorceu os lábios finos. Precisava desfazer o engano.

Está falando com a pessoa errada. Sinto muito.

Digitou e enviou.

Um novo SMS iluminou a tela em questão de segundos.

Ava, cara. ¬¬

Derek ergueu as sobrancelhas, confuso com a resposta. O complemento veio em seguida, mostrando que a pessoa que envia os SMS era bem impulsiva.

Não adianta escrever tipo um velho. Sei q é vc. Só vc inventaria algo tão ridículo como desculpa. E vc vai sentir muito qd eu te chutar o traseiro ò.ó”

Derek fez uma careta. Desde quando escrever corretamente era considerado coisa de velho?! O celular vibrou em sua mão outra vez.

Caso n tenha notado eu to furioso!

Com um suspiro pensou em ligar para o número. Talvez assim a pessoa se desse conta do engano. Um breve olhar na tela o fez mudar de ideia. Era quase dez horas da noite. Pelo tipo de conversa se tratava de alguém jovem, sozinho e esperando por uma carona que não viria tão cedo... além disso sentiu-se curioso para ver quem podia ser aquela pessoa tão singular.

Onde você está?” Digitou a pergunta e enviou.

Onde vc pensa q eu estou? Onde vc me pediu para vir, idiota. ¬¬ Mas a loja já fechou e eu to em frente a biblioteca.

Derek rolou os olhos. Quanto drama. Por que não dissera logo onde estava, ao invés de ficar resmungando? Por sorte a biblioteca não ficava assim tão longe. Sua curiosidade fora aguçada e mal se lembrava dos pensamentos depressivos que guiavam seus passos até então. Agindo totalmente diferente do costumeiro, resolveu ir até o local.

Okay”, digitou e enviou.

Tomou a direção contrária do qual viera e seguiu pela rua deserta. Tinha se afastado um bom pedaço quando o celular vibrou em sua mão. Surpreendeu-se por levá-lo assim, quase como se estivesse esperando um novo SMS. O pensamento o surpreendeu. Ele realmente estivera esperando.

Okay? OKAY?! Pode preparar algo melhor para se desculpar. Se n saiu d casa ainda me traz 1blusa. To congelando aki. E vem logo, q tá parecendo Silent Hill...”

Derek teve que ler duas vezes (a segunda lentamente) para poder entender. Dessa vez o rapaz não respondeu. Sabia que Silent Hill era um filme de terror. Seria a forma de a pessoa dizer que estava assustada? Não podia fazer nada quanto ao pedido de um agasalho. Apenas apertou o passo e seguiu para a biblioteca.

Caminhou pela rua silenciosa e deserta até aproximar-se de uma esquina. Sabia que ao virá-la se depararia com a biblioteca. Um rápido vislumbre iluminou sua mente, alertando Derek para a loucura do que estava fazendo.

Acabou dando de ombros vencido pela curiosidade.

Dobrou a esquina e deparou-se com o prédio antigo e muito digno da biblioteca municipal. Uma construção do final do século XIX que dominava todo o quarteirão a direita da rua na qual virara.

Mas a beleza arquitetônica não foi o que chamou sua atenção. E sim a figura solitária parada debaixo da marquise de acesso à biblioteca. Dirigiu-se para lá como quem não quer nada.

Com calma pôde examinar a pessoa. Acertara em cheio: era um garoto que não devia passar dos dezesseis anos, quase tão alto quanto Derek, mas bem mais magro, sem os músculos que definiam o corpo do rapaz e faziam garotas suspirarem. Alias, aquele garoto estava mais para o rótulo de “nerd” do que outra coisa. Principalmente com a camisa de mangas longas do Lanterna Verde, um gorro de lã azul por onde escapavam alguns fios de cabelo e óculos de aro escuro, cujas lentes estavam meio embaçadas pelo sereno da noite. Só ao se aproximar e colocar-se debaixo da marquise foi que Derek notou as pintas que marcavam a pele quase pálida, o nariz empinado vermelho de frio e os olhos castanhos.

Olhos que observaram Derek de cima a baixo com suspeita, antes que o garoto balançasse a cabeça em cumprimento e afastasse um passo para o lado, de modo não tão discreto. Na mão esquerda uma sacola de bom tamanho cheia de ovos de páscoa, visão que fez o mais velho entender a ameaça de quebrar determinados ovos...

A situação fez com que Hale se sentisse um pouco ridículo. O que estava fazendo ali, afinal de contas? Como começaria a explicar o mal entendido?

Antes que fizesse qualquer coisa, notou pelo canto dos olhos que o garoto puxava o celular, um modelo antigo que dificilmente via com jovens daquela idade. Lembrou-se que ele afirmara ser o telefone do pai. Discretamente assistiu enquanto ele digitava algo no celular.

Logo sentiu o seu vibrar e entendeu o que acontecera: o jovem enviara uma nova mensagem por engano. Suas entranhas se reviraram de curiosidade, mas Derek esperou alguns segundos, para que o outro não desconfiasse de nada, antes de puxar seu aparelho.

Cara, onde vc está? Acabou de parar um homem assustador do meu lado :o

Derek ergueu as sobrancelhas. Assustador?! Como assim “assustador”? Digitou a resposta e enviou, mas continuou fingindo mexer no celular mesmo depois de mandar o SMS. Sentiu-se extremamente infantil e bobo por isso. E animado, inexplicavelmente, com a inusitada aventura. Ouviu um sonzinho parecido com de video-game, algo que ele não identificou, alertando que o garoto recebera o SMS. E ele se pôs a digitar frenético, sem saber que era discretamente observado.

Do tipo barbudaum com jaqueta d couro. Sabe aqueles caras q praticam luta greco-romana? OMG acho q é um psicopata. Cara, vou ser assassinado na véspera da Páscoa, sem comer chocolate e a culpa é sua!!!!!”

Derek quase praguejou. Primeiro por causa do drama. Depois por ser tachado de “barbudaum” pela charmosa barba por fazer a apenas dois dias. Aquele garoto parecia o exagero em pessoa.

Sem ter tempo de responder, o aparelho em suas mãos vibrou novamente.

Hum... mas só entre nós, o cara tem um corpão... vc sabe... é bem o meu tipo >) Eu catava sem remorso

Hale quase engasgou ao ler aquilo. Foi a muito custo que manteve sua expressão sob controle. Resolveu por mais lenha na fogueira, intimamente lisonjeado com o elogio que recebera. Continuou fingindo mexer no celular, enviou outro SMS para o garoto e aguardou ansioso a resposta.

Falar com ele?! O.o Vc pirou? Um cara gostoso desses jamais falaria comigo u.u

Derek foi incapaz de impedir um sorriso torto de delinear-lhe os lábios finos. Gostoso? Acabara de ser chamado de gostoso. Não teve tempo de responder e uma nova mensagem lhe chegou.

E vc sabe, eu n to pronto p outra, ainda nem me recuperei :(

O rapaz se perguntou do que um moleque de dezesseis anos precisaria se recuperar. Uma derrota no video-game? Uma nota vermelha na prova? O menino não devia ter sentido o gosto real do que era viver e sofrer.

Aquela geração seria assim tão dramática? Ou o garoto ao seu lado que era a rainha do drama? Com certeza a segunda opção, já que Cora, sua irmã caçula, não era assim. Pelo contrário. A menina de gênio forte detestava exageros, sendo prática e bem direta em suas ações e opiniões.

O pensamento trouxe um aperto ao coração de Derek e uma súbita onda de saudades das irmãs, da família e do que costumavam ter antes, há dez anos passados; quando também era um jovem despreocupado de dezesseis anos.

Então caiu em si.

Quem era ele para julgar a criança ao seu lado? Como podia saber se ele não se recuperava realmente de alguma perda? Só por que estava ali, parado com ovos de Páscoa prestes a comemorar um feriado? Isso provava o que? Que se recuperava de alguma tragedia fútil ou apenas mostrava que era um garoto forte pronto a dar o próximo passo, o contrário de Derek que apenas fugia dia após dia, por que se permitir curar significava ter que encarar a própria dor e exorcizar seus demônios e isso, verdadeiramente, o assustava?

O celular vibrou em suas mãos. Ele respirou fundo e leu o textinho.

Sério, cara. Vc vai demorar muito? Eu to congelando e o cara quente aki ao lado me ignorando total. Ele não vai me esquentar. Vem logo pls i.i

Isso fez com que Hale respirasse fundo. Olhando bem atentamente podia-se ver que o menino tremulava de frio. Era hora de acabar com a brincadeira de mal gosto.

Já estou aqui”, digitou e enviou.

Assistiu seu companheiro não voluntário de aventura erguer a cabeça após ler o SMS e dar um passo a frente, olhando em volta como se procurasse alguém. Inevitavelmente acabou virando o rosto na direção de Derek, que o fitava de volta com intensidade.

O adolescente mirou de Hale para o celular na mão do homem e então de volta para as íris de um verde cristalino, que brilhavam em diversão. Finalmente a ficha pareceu cair na mesma rapidez que seu queixo, que quase alcançou o chão.

Você...? – ele recuperou-se um pouco da surpresa e balbuciou em um tom de voz incrédulo que soou como seda aos ouvidos de Derek ao ouvir o menino pela primeira vez.

Eu – respondeu dando de ombros e erguendo as sobrancelhas.

Santo Deus!

O desconcerto visível na expressão juvenil fez Derek sorrir.

Eu avisei – ele lembrou ao outro que tentara desfazer o mal entendido desde o começo.

Estou totalmente sem jeito. Eu... eu... santo Deus, eu... o que eu disse... você sabe... espero que não tenha se ofendido. Por eu te chamar de... quero dizer... não que você não seja e... por favor, me diga que não é desses caras que saem pela noite batendo em homossexuais e...

Calma! – Derek cortou, confuso pela enxurrada de palavras sem sentido – Não estou ofendido e não saio a noite para bater em ninguém.

Ah – o garoto coçou a nuca, fazendo o gorro correr um pouco por seus cabelos e deixando Derek com vontade de arrumá-lo – Mas esse número é do meu amigo Scott, sabe? Não entendo como está com o celular dele. Ele não podia comprar os ovos de páscoa e pediu minha ajuda, mas pelo jeito me esqueceu aqui!

Esse número é meu. Você deve ter digitado errado.

Impossível – o garoto soou meio arrogante – Eu nunca erraria o número do meu melhor amigo: 555-46783.

Derek sorriu.

Errou por três. O meu termina em 86.

O menino olhou para a tela do celular e apertou uma das teclas, como se buscasse a confirmação. Quando deixou escapar uma exclamação fraca e constrangida, Derek compreendeu que ele descobrira que tinha cometido um erro.

Para salvá-lo do embaraço estendeu a mão.

Derek Hale.

O menino ergueu a cabeça e sorriu sem jeito, retribuindo o cumprimento.

Stiles Stilinski, em uma das situações mais constrangedoras da minha vida. Eu juro que é a primeira vez que isso me aconteceu.

Somos dois então.

Ficaram em silêncio por um instante. Derek observou Stiles e percebeu como o garoto parecia pensar em algo, com sua expressão facial concentrada e postura corporal de quem tentava se encher de coragem.

Ei, grandão... não que eu costume fazer isso, sabe, chamar caras mal encarados para sair... e não que eu esteja chamando você para sair... o que não significa que você não seja totalmente “chamável”... mas que tal eu calar a boca e você me pagar um café, para retribuir os elogios que eu te fiz, hum? – o garoto até tentou soar seguro, mas falhou miseravelmente.

Tem certeza que quer ser convidado por um psicopata barbudão com jeito de praticante de luta greco-romana? – perguntou divertido, adorando ver como o rosto do garoto se tingiu de vermelho.

Cara... você está me constrangendo!

O mais velho apenas se permitiu um sorriso suave, analisando a situação. Por um breve instante Derek quase negou. Afinal, estava a frente com um garoto, quase uma criança ainda. Mas o brilho de expectativa nas íris cor de chocolate e o sorriso cheio de esperança o fizeram mudar de ideia. Que mal haveria em dividir um café?

Não que eu faça isso de sair com crianças, mas conheço uma cafeteria vinte e quatro horas muito boa – Hale virou-se e começou a andar. Quando o garoto sorridente se pôs ao seu lado, com a sacola de ovos de páscoa e o celular na mão, lembrou-se de algo. Tirou a jaqueta de couro e ofereceu para Stiles. Vestia um suéter de lã por baixo, não sentiria frio.

Ei, cara. Não sou uma garotinha – Stiles resmungou, mas aceitou o agasalho. Estendeu a bolsa com os ovos para Derek segurar e vestiu a jaqueta, agasalhando-se. Parou de tremer na mesma hora em que o calor do corpo de Hale o aqueceu. Pegou o celular e digitou algo rapidamente.

Obrigado :) ”, foi o que Derek leu na tela do seu celular.

E não se deu ao trabalho de responder, não por SMS. Apenas virou o rosto para o garoto e sorriu com sinceridade. Por que se divertira um bocado naquele pouco tempo, por que se sentira vivo, realmente vivo. Mas, principalmente, por que no contato com o adolescente sentira o quanto sofria por ter afastado a família e ansiava restaurar o contato com eles.

Tudo graças a um SMS que chegara ao seu celular por engano e dera inicio, Derek tinha certeza, a uma nova fase em sua vida.

Talvez a páscoa não fosse tão ruim assim...

Fim



Notas finais do capítulo

É isso! Sei que é um plot meio estranho, mas isso já aconteceu comigo... eu trocando SMS com uma pessoa, achando que era outra. E o infeliz me respondendo...

Cara, é muita vergonha alheia!

A diferença é que eu nunca me encontrei com o cara. E nem quero xD

Espero que tenham gostado dessa one! Abraços e até a próxima!