Pele Morta escrita por axcel09


Capítulo 1
Capítulo 1 - Eu vou lembrar você


Notas iniciais do capítulo

Olá leitores, esta é uma história original criada por mim, espero que curtam bastante o enredo e divulguem para os seus amigos também. Pele Morta também está disponível no site do Clube de Autores, quem tiver interesse em adquirir o livro pode acessar o site clicando no link: http://migre.me/gEIdO
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Obrigado por acompanharem a minha fic.
Boa leitura!




Capítulo 1

Eu vou lembrar você.

Finalmente, senti que aquele era o momento perfeito, tanto tempo esperava por isso, tomei o pouco de coragem que havia no meu corpo e me aproximei. Já tinha arquitetado milhares de maneiras para um “primeiro encontro” antes, mas nada do que eu imaginei me veio em mente, e a emoção daquele momento era muito mais intensa do que eu havia esperado sentir. A sensação era de que eu iria morrer depois de cada batida que o meu coração dava. Quem nos visse tão próximos nunca poderia idealizar como eu me sentia em cada sorriso não correspondido, em cada olhar que ela nunca me dava. Aquela parecia uma oportunidade perfeita para que eu, enfim, pudesse mudar a vida dela.

- O meu nome é Luís, como vai? – Disse me aproximando dela.
- Desculpe, mas eu não entendi...
- Eu disse o meu nome.
- Eu te conheço? – Não queria que as coisas acontecessem assim, ela simplesmente não me conhecia, não posso culpá-la, jamais tive coragem de me apresentar e ficava distante o tempo todo, uma resposta diferente seria cobrar demais.

Ela estava sentada no banco de madeira que ficava em frente a sua casa, fazia pouco tempo que tinha se mudado para cá e era evidente que estava enfrentando muitos problemas, ela levantou os olhos molhados e fixou o olhar em mim, procurando me identificar no meio da infinidade de rostos que ela já tenha visto, ela era muito

ligada a detalhes, talvez por isso fosse tão desligada do mundo. Contudo, eu já sabia que ela não se lembraria de mim assim tão fácil... É muito difícil se lembrar do que nunca viu, e era assim que eu me sentia. Eu teria que pensar em algo realmente bom para dizer, queria impressioná-la e parecer simpático, sabia que o que ela estava enfrentando era desagradável e queria demonstrar sensibilidade suficiente para ajudar no que ela precisasse. Queria que ela confiasse em mim.

- Pode-se dizer que agora sim, será que vai me dizer o seu?

Ela me olhou desconfiada. Era o que eu temia.
- Desculpe, mas você é um estranho.
- E vou ser pra sempre se você não me disser o seu nome.

- Não quero ser rude, mas...
- Sei que não quer. Mas você não consegue evitar...
- Falando assim até parece que você me conhece. – Disse ela dando um riso forçado.
- De certo modo sim. Eu ouvi a briga, você está bem?
- Você ouviu não é? Acho que nossa casa já está ficando famosa por aqui por causa disso... Tem ideia de como isto é horrível? Estou me sentindo tão ridícula... – Ela se lamentava abraçando as pernas com a cabeça apoiada nos joelhos, chorando. – Acho que estou me lembrando de você, o vizinho que ajudou a minha mãe no dia da mudança.
- Ele mesmo, sou amigo do Seu Samuel, foi ele quem pediu que eu ajudasse a sua mãe quando ela veio para cá – Me sentei do seu lado, já não era um “estranho”.
- Sou péssima em gravar semblantes, a sua perna está melhor? – Concluiu enxugando o rosto.
- Já recuperei alguns movimentos... – Ela me olhou séria, já sabia que estava de péssimo humor, se queria provar isso

para mim mesmo, tinha conseguido. – Desculpe, foi só pra você rir um pouco, não gosto de te ver assim.
- Nem eu, mas foi engraçado, estou rindo por dentro.
- Percebi. – Ela ainda estava séria, seus olhos parados brilhavam com o reflexo das luzes dos postes da rua e das estrelas em suas lágrimas. – E então, o que pretende fazer?
- Eu ainda não sei, já é a segunda vez que nós discutimos hoje, e eu sempre saio mal.
- Talvez a culpa não seja sua...
- Luís, eu agradeço a sua preocupação, mas não quero ouvir conselhos, não agora, eu preciso descansar um pouco, boa noite. – Ela levantou rápido demais, como se quisesse esconder alguma coisa caminhou em direção à porta e depois virou o rosto para mim.

- Não se preocupe, não vou esquecer-me de você de novo. – Sorriu com tristeza e entrou. Parecia realmente cansada, tinha sido um péssimo dia para ela.

Permaneci sentado no banco, contemplando as estrelas que pareciam ser bem mais brilhantes quando refletidas na íris de um azul violáceo, arrebatador e intenso que apenas ela possuía.

Aquele olhar era simplesmente extraordinário, se juntava em perfeita harmonia com os traços delicados de seu rosto infantil. Eu ainda ficava na expectativa de que ela pudesse sair a qualquer momento, mas depois de alguns minutos me veio a certeza de que ela não sairia mais, resolvi ir para minha casa que ficava ali em frente, talvez ela se lembrasse de mim no dia seguinte, talvez não. A única opção que me restava era esperar, e essa era a alternativa que mais me intimidava.

Em casa, depois de certificar se Gregory não tinha saído, tranquei a porta, é claro que aquele gato preguiçoso não iria a lugar nenhum. Depois de trancar a porta e fechar as janelas, apaguei as luzes. Restavam muitas horas para eu ir dormir, mas não queria que ela viesse me importunar com outras perguntas constrangedoras, e ela com certeza já estava a caminho... As luzes apagadas e a porta trancada eram na verdade uma tentativa de me esconder dela, Dona Arlete era realmente terrível, certamente viu que eu estava conversando com a vizinha da frente outra vez e deveria estar morrendo de curiosidade. Sentei na poltrona da sala e tentei relaxar um pouco, acabei dormindo.

Acordei com alguém batendo na porta e me chamando numa voz insuportavelmente aguda, era D. Arlete.

- Seu Luís, Seu Luís!

Voltei a dormir, ignorando-a, normalmente não faço isso, mas D. Arlete poderia insistir mais um pouquinho enquanto eu ocupava minha mente com os olhos perfeitos dela, depois de 10 minutos as batidas pararam, e apenas o rosto perfeito dela foi tomando conta de toda minha mente, de toda a casa, de todo meu coração. Foi quando o telefone tocou, atendi.

- Alô.

- Luís, tudo bem com você irmão?

- Eu estou ótimo Pablo.

- Que bom, estou ligando para lembrar o...

- Do seu aniversário no domingo. Eu sei, não pensou que eu iria esquecer não é?

- Eu sei que não, não é à toa que você é meu melhor amigo. Então você vem. Certo?

- Não sei Pê, certamente vou aí te dar os parabéns, mas, você sabe que odeio festas...

- Tudo bem, não precisa ficar, nem demorar muito, apenas venha! Pode trazer quem você quiser. Vai ser uma coisa simples.

- Simples? Sei... Fique tranquilo. Estarei lá. – Não podia desapontar o Pablo.

- Ok. Boa noite.

Desliguei o telefone e fui para a cozinha preparar o jantar, abri a janela e segundos depois D. Arlete aparece com tudo na vidraça:

- Seu Luís! – Disse com a voz abafada de curiosidade. – Quem era no telefone?

- Meu Deus, D. Arlete! Assim a senhora me mata do coração!

- Ah, mas o senhor é jovem e forte, aguenta muita coisa, só não vá aprontar muito hein, meu garoto... – Às vezes eu me perguntava quem dava tanta intimidade...

- Por favor, D. Arlete, agora não.

- Vai deixar uma pobre senhora solitária como eu falando sozinha? Você é um péssimo vizinho rapaz. – Nesse momento a ficha caiu.

- Não me lembro da senhora ser tão alta.

- É que eu subi num banquinho. – Definitivamente não tinha o mínimo de sutileza, mas tinha um bom coração.

- Por que a senhora não vai cuidar da sua vida D. Arlete?

- Por que eu não tenho mais vida filho, e a sua é mais interessante. – Não pude conter o riso.

- Então, já que eu não vou conseguir me livrar da senhora mesmo, gostaria de entrar?

- Que gentileza filho, mas vou ter que deixar pra outra hora, tenho que cuidar de umas coisas sabe... Essa semana meu querido Raul faz aniversário. Quero fazer uma surpresa pra ele.

- Mas, o seu marido não está... Morto?

- Sim, filho, está. Vocês jovens ligam muito pra detalhes, agora tenho que ir, mas antes me diga. O que estava conversando com aquela moça hoje mais cedo?

- Ah sim, estávamos... Nos conhecendo.

- Ah, não estavam não, outro dia eu vi você entrando na casa dela carregando algumas coisas!

- É verdade, foi quando ela chegou aqui, só tem algumas semanas, eu e alguns amigos ajudamos a levar a mobília da casa, mas não nos apresentamos.

- Há quanto tempo observa essa moça?

- Mas o que é isso D. Arlete?!

- Não tente esconder de mim menino... Vamos, conte.

- Não fico observando ninguém, somos apenas vizinhos, não quero que pense isso de mim.

- É normal observar a vida dos outros quando se sente atraído por essa pessoa.

- Quer dizer que a senhora está atraída por mim?! – Perguntei espantado, ela era especialista em me dar sustos.

- Me respeite menino, eu sou uma senhora viúva! Oras, que descaramento!

- Desculpe D. Arlete, não quis te ofender, é que do jeito que a senhora falou...

- Você quer dizer que eu não faço outra coisa além de cuidar para que você não faça nenhuma besteira? Deveria me

agradecer por cuidar tão bem de você! Seu incivil! Grosso! Desaforado!

- Perdão D. Arlete, eu não quis te ofender.

- Está perdoado menino, mas me diga, está gostando dessa mocinha?

- Estou sim D. Arlete, satisfeita agora?

- Não, quero conhecê-la.

- Em outra oportunidade, D. Arlete, mas me deixe sozinho agora, lembre-se da festa do seu marido.

- O quê?! Acha que eu seria capaz de fazer uma festa em comemoração à morte de meu marido?

- Mas a senhora disse que ele estaria fazendo aniversário e faria uma surpresa para ele!

- Precisa interpretar melhor as coisas Sr. Luís. Boa noite.

Ela saiu sem esperar que eu respondesse, as confusões dela me irritavam, mas muitas vezes me divertiam... Uma coisa era certa, não teria muita graça sem ela por aqui. Já começava a sentir sono quando terminou o noticiário e eu fui me preparar para dormir, subi as escadas até o meu quarto, apagando as luzes do corredor, pouco tempo depois a escuridão dava lugar ao sorriso dela, perdido nas paredes do meu quarto.



Notas finais do capítulo

Continua...



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