Um novo conto da Bela e a Fera escrita por Dani Silva


Capítulo 3
Capitulo 3




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Os dias foram passando lentamente, eu e Alice desenvolvemos uma amizade dentro do castelo, ela me ensinava tudo sobre castelos e feras(e acredite não eram poucas lições), e eu a ensinava as melhores poesias da atualidade.

O que eram muitas, e todas eu escrevia ou até reescrevia em meu diário para que jamais fossem esquecidas por alguém ou até mesmo por mim.

Hoje começou a nevar, Alice me emprestou botas de neve, luvas e um vestido mais quente. O vestido azul tinha um tecido pesado que não consegui distinguir qual era, mas Alice disse que iria me acostumar com aquele tecido pois era o único que ela tinha, que caberia em mim.

As noites tempestuosas só faziam com que sentisse mais medo, a cada dia eu ouvia Alice resmungar sobre como eu poderia não gostar dali. E eu olhava para a janela sonhando que iria ser resgatada por alguém... Não me importava com os dotes, mas só queria sair...

A enorme porta foi escancarada e a fera entrou resmungando com raiva, seus sapatos estavam cheios de neve e seu cabelo também. Dei um risinho o que chamou a atenção dele, me virei rapidamente para a janela e jurei que não riria nunca mais em toda a minha vida.

– O que é tão engraçado? - perguntou a Fera ao meu lado.

– Desculpe, foi imperdoável de minha parte rir de um cavalheiro, mas o seu cabelo esta coberto de neve e... - disse mais soltei outra risada. Tapei a boca e corei.

Como pude ser tão imprudente? Rir da Fera na cara dele! Se me expulsasse ou me devorasse seria bem feito... Mas dos dois jeitos eu morreria era apenas decidir entre ser devorada ou ser congelada naquela nevasca.

Mas ele sorrio. Era um sorriso doce, não como se ele fosse a Fera querendo me devorar, mas como se fosse normal...

– Sim, receio que devo ser engraçado coberto de neve... Ela me pegou de surpresa. - disse ele. Passou a mão pelo cabelo e gotas de neve derretida caíram em meu cabelo e no rosto. Ri enquanto passava as mãos por todos os lados tentando tirar a neve de mim.

– Eu adorava sair quando nevava... Meu pai nunca descobriu, mas algumas crianças da cidade iam até minha casa e brincavam me chamando, eu ia de bom grado sempre, ficávamos lá jogando bolas de neve uns nos outros, sei que não é uma atitude de uma dama, mas parecia tão divertido... - disse suspirando.

– E por que não faz isso agora? -´perguntou a Fera. O encarei nos olhos.

– Olhe para mim, jamais poderia fazer isso e estou tão inadequada para sair em uma nevasca e provavelmente congelaria... - disse.

– Eu não a entendo... A senhorita quer sair mais não vai porque? - perguntou ele.

– Esta nevando... E esta frio, quando vim para cá... Não sei se lembra, mas não trouxe casacos e nem vestidos... Este me foi emprestado e ainda sim não é adequado para estar em uma nevasca. - disse.

– Venha comigo. - disse a Fera.

O segui curiosa. As salas que ele me levava não eram conhecidas para mim, Alice me explicou que jamais deveria ir até essas partes do castelo e se fosse seria apenas com ela. Mas aqui estou eu seguindo a Fera.

Ele parou em frente a um quarto e o abriu me dando passagem. A iluminação não era nada comparada a pintura do teto. Parecia o céu, o candelabro de cristal estava aceso mas a luz vinha de outro local, havia uma cama de casal em um canto e um armário enorme. A Fera entrou no quarto e foi em direção ao armário.

Olhou lá dentro e depois fechou as portas.

– Se vista adequadamente como a senhorita disse, aqui há o que você precisa... Esse quarto pode ser seu se quiser. - disse ele. Sorri-lhe constrangida.

– Eu o aceitarei... Obrigada. - disse.

Ele acenou e saiu do quarto me deixando sozinha. Corri até o armário e procurei algo para me vestir. Peguei um vestido preto de mangas e corpete, uma capa e botas de neve.

Os vesti correndo, paguei as luvas de Alice e sai do quarto.

A Fera não estava em local algum, então fui direto para fora. A neve já estava presa ao chão e apenas alguns flocos ainda caiam do céu. Sai correndo e me joguei na neve.

O gelo apenas trazia lembranças felizes, sorri de olhos fechados. Quando senti algo perto da minha cabeça. Abri meu olhos e vi um cachorrinho.

– Olá pequeno. - disse e o cachorro pulou no me colo. Sorri-lhe e afaguei sua orelha.

O cachorrinho era pequeno e preto, seu rabinho balançava de um lado para o outro em alegria, ri-lhe e o peguei me levantando.

– O que faz aqui? - perguntou-me Alice.

A encarei ainda sorrindo.

– Eu falei com seu senhor Alice, ele me deu vestidos e esta capa para poder vir aqui fora... A Alice, eu amo tanto a neve. - disse e olhei para cima. O céu estava cinzento mas isso só me alegrou mais.

– Você esta sorrindo? E porque Alex esta aqui fora? - perguntava ela. Ri-lhe.

– Ele veio até mim.. Eu o adorei. - disse colocando o cachorrinho no chão ele pulou na minha perna feliz.

– Vamos... Esta esfriando. - disse Alice ainda me encarando mas vi que um sorriso surgiu em sua face.

Ela foi andando na frente, peguei um pouco de neve e joguei em direção a suas costas. Mas ela desviou bem na hora.

– Eu vou pegar você! - gritou ela correndo em minha direção.
Ri-lhe e corri na direção contraria.

Ficamos brincando a tarde toda quando Alice me obrigou a entrar. Tomei um banho quente e coloquei um vestido azul, e botas de neve.

A lareira estava acesa, cheguei perto e vi um livro de poesia no chão, corri para pega-lo. O abri com cuidado, as palavras ali me fizeram sorrir.

ELA - Machado de Assis

Nunca vi, - não sei se existe
Uma deidade tão bela,
Que tenha uns olhos brilhantes
Como são os olhos dela!

SEUS OLHOS que brilham tanto,
Que prendem tão doce encanto,
Que prendem um casto amor
Onde corri rara beleza,
Se esmerou a natureza
Com a meiguice e com primor.

Com sua boca mimosa
Solta voz harmoniosa
Que inspira ardente paixão,
Dos lábios de Querubim
Eu quisera ouvir um - sim -
Pra alívio do coração! ....

– Você gosta de poesia? - perguntou a Fera. Fechei o livro e sorri-lhe envergonhada.

– Peço perdão por mexer em suas coisas, eu não tinha o direito... Mas eu amo poesia. - disse.

– Sim, ela diz coisas que não conseguimos dizer... - disse ele.

– E sussurra palavras que gostaríamos de ouvir... - disse olhando para o livro.

A Fera se sentou ao meu lado de frente a lareira.

– Vamos, leia para mim... - disse ele.

– Suas faces purpurinas
De rubras cores divinas
De mago brilho e condão;
Meigas faces que harmonia
Inspirada em doce poesia
Ao meu terno coração!

Sua boca meigo e breve,
Onde um sorriso de leve
Com doçura se realiza

Ornando purpúrea cor,
Celestes lábios de amor
Que com neve se harmoniza.

Vem, ó anjo de candura,
Fazer a dita, a ventura
De minhalma, sem vigor;
Donzela, vem dar-lhe alento,
Faz-lhe gozar teu portento
"Dá-lhe um suspiro de amor!" - disse e suspirei.

Ele me olhou nos olhos e eu nos dele. E vi o que ele jamais mostrou a alguém, vi amor.


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Notas finais do capítulo

Desculpe a falta de parágrafos...
Vou tentar melhorar no próximo capitulo
Beijos e comentem!