Saint Seiya Initiu Legends: Saga Santuário escrita por Katrinnae Aesgarius


Capítulo 13
Torneio Galáctico - O Legado de Cisne


Notas iniciais do capítulo

Nas longínquas terras geladas, lendas e mistérios cercam a antiga muralha, a Geleira Eterna. O canto dos cisnes ecoam anunciando novos tempos.



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— MALDITA!

Havia exclamado Seiya seguida de um soco na mesa, curvando o corpo para frente e afundando a cabeça entre os braços antes de empurrar o que podia para o chão, incluindo canetas e um copo que somente não se quebrou por ser de acrílico, mas indo parar no canto da cozinha. Levou a mão ao rosto olhando um dos papéis que tinha a foto de Seika e se levantou, arrancando–a da folha e caminhando pela quitinete. Reconhecia aquele lugar, e isso o fez soltar um pesado suspiro enquanto uma lágrima descia por sua face.

"— A luta foi espetacular! Por um momento pensei que ele fosse perder a luta...

— Também pudera, o seu oponente era um gigante, lembrando um urso"

Eram os comentaristas da TV, exibindo ainda flashes de sua luta com Geki de Urso transmitido na tarde anterior. Seiya apenas puxou a cadeira para ouvir a TV mais de perto. Já era madrugada e não queria aumentar demais a TV e incomodar o apartamento vizinho. Curvou–se para frente apoiando–se nas pernas e trocou de canal. Todos estavam a comentar do Torneio Galáctico.

"— Por um instante acreditei ter ouvindo um estalo. Crec! 'Quebrou o pescoço', pensei eu na hora e gritando 'Morreu!'

— Realmente, acho que qualquer um teria quebrado o pescoço. Aquela pressão é como da bocarra de um crocodilo se fechando."

De fato, Seiya havia se tornado uma celebridade. Fossem rasgando elogios ou criticando aquele torneio, estava sendo o comentário do momento, e não apenas durante o duelo na arena, continuava a aparecer na TV, e aquilo era bom. Em algum momento Seika o veria e o procuraria, onde quer que estivesse. Não mais que isso estava servindo para aquele grande espetáculo de Saori.

"— Violento! Como podem transmitir isso? Qual a idade desses garotos? Pensam que isso é um show de gladiadores? Aquele menino quase morreu!" 

"— Tudo aquilo é uma farsa! Onde já se viu aquilo? Aquilo não existe. É apenas um show com grandes efeitos especiais, uma encenação barata..." 

Encenação. Aquilo fez Seiya rir por um instante. Se não reagisse, certamente teria seu pescoço quebrado por Geki em seu breve momento de inconsciência, o que permitiu lembrar do aprendizado de Marin. E assistindo aquilo, remeteu outra breve recomendação e muito recente, partindo do próprio Grande Mestre sobre o uso da armadura para objetivos pessoais... como estava a fazer naquele momento. Usava a armadura de Pegasus para um duelo televisivo, num show onde o mundo conhecia os Cavaleiros Sagrados de Atena — ou deveriam conhecer. Certamente seria punido com morte! Mas, para quem fugiu do Santuário carregando a armadura, estava encrencado de todo jeito.

Levantou–se após desligar a TV. Estava cansado de ouvir tudo aquilo. Caminhou até à janela e cruzou os braços, olhando as estrelas que surgiram mesmo sob as nuvens de chuva. Havia dado uma trégua. No Santuário a visão era mais limpa, mas não ali. Havia muitas luzes e prédio, mas ainda assim podia ver uma estrela em especial, surpreendendo–se de encontrá–la tão visível naquela noite: a constelação de Pegasus.

— Espero que me perdoe por usá–lo desta maneira, Pegasus. — dizia Seiya olhando para a estrela que brilhava intensamente. — Sei que não deveria usar a armadura para isso, mas... — ele pega a foto da irmã e a vê, contemplando–a por alguns instantes. — É por uma boa causa. Marin me disse que a armadura escolhe seu cavaleiro, e pode abandoná–lo quando não a usa para justiça e com objetivos egoístas, mas... Eu preciso encontrar minha irmã. Portanto, me dê apenas mais um tempo. Apenas, um pouco mais.

E olhou a estrela, tendo a sensação de que a viu brilhar ao fim de suas palavras. Sorriu, voltando–se para a foto de Seika: tinha os cabelos cheios ondulados acobreados caindo sobre os ombros, os olhos tão brilhantes quanto seu sorriso. Foi uma foto tirada no parque do orfanato, onde trabalhava ajudando a cuidar das crianças — garantindo manter–se próxima ao irmão, até que adotado e ela tivera conhecimento somente quando estava sendo levado pelo carro. Seiya a assistiu correr pela rua principal e cair, chamando–o, até que ela desaparecesse.

— Eu vou encontrá–la, Seika. Haja o que houver, eu vou encontrá–la.

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Sibéria Oriental - Vilarejo de Kohoutek

A grande muralha de gelo era visível do vilarejo, uma obra esculpida há milhares de anos segundo a história dos anciões e os mitos ligados aos cisnes que sobrevoavam aquelas paredes de gelo. Segundo contavam sobre sua constelação, as asas de Cisne desdobravam–se por um enorme rio que flui o céu, sendo seu papel conectar as duas margens que se mantinham separadas. Um mito, mas também uma metáfora da realidade dos aldeões.

Aquele vilarejo nasceu pouco mais de meio século, sendo remanescentes da abandonada Blue Graad, uma cidade localizada mais ao norte. Por estar num nível mais elevado, tornava o lugar ainda mais frio, fazendo com que fosse abandonada na segunda metade do século XVIII até ser uma terra esquecida nos 'confins gelados do norte', como alguns do vilarejo referenciavam o lugar. E o brasão daquele pequeno império esquecido tinha o Cisne em suas indumentárias, as mesmas aves que circundavam a grande muralha de gelo tão fora de sua época.

Os olhos azuis cristalinos daquele jovem mantinham–se compenetrados naquelas aves circulando em volta daquele muro. Sentara–se ali, com seu casaco aberto, os braços apoiados no joelho, silencioso. A brisa fria que cortava ali apenas criavam pequenas camadas de gelos em seus cabelos loiros que destoavam com a paisagem azulada e esbranquiçada da região. Estava tão distraído e perdido em seus pensamentos que não percebeu alguém se aproximar, somente quando sua voz ecoou forte, mas ao mesmo tempo tranquila.

— Cisnes. Há muito não as vejo por estas terras. Acho que nunca os viu desde que chegou, não é mesmo... Hyoga? 

— Não, mestre Cristal. — disse o rapaz mantendo–se sentado, olhando as aves ao longe. — Sempre escutei as histórias, mas jamais os vi aqui antes. Ouço seus cantos e são tão... belos!

O homem se aproximou, deixando visível apenas parte de sua indumentária sagrada em um prateado com detalhes incrustados azulados, com uma gema na altura dos joelhos que refletiam a paisagem num belo cristalino.O  restante do corpo estava coberto por um manto de capuz que se encontrava abaixado, permitindo ver a tiara brilhante, parte da armadura, no alto da cabeça cruzando a testa, deixando seus cabelos ruivos claro esvoaçando com a brisa.

— Sim, e se bem me lembro, algumas histórias contam que o canto do cisne seria sua despedida, o mavioso e último gorjeio antes de sua morte.  — Dizia o homem olhando para as aves distante, enquanto Hyoga piscou olhando–o de soslaio. — Em Blue Graad, acreditavam que seu canto trazia prosperidade e mudanças. Aquele que era agraciado pelo canto de um cisne branco, acreditavam ser os escolhidos de sua constelação... Cygnus. 

Hyoga se voltou para a direção em que seu mestre apontava no céu, observando a brilhante constelação de Cisne  sobre as aves que bailavam na Montanha do Gelo Eterno. Quando se voltou para o seu lado, Cristal caminhava já distante, deixando suas pegadas na neve. O recado havia sido entregue e o grande dia havia chegado. Então, ele teria sido escolhido pela Constelação de Cisne? Ele sorriu, jogando–se na encosta da montanha e deslizando até sua base, cruzando o grande pátio de gelo em direção à grande muralha.

Uma vez diante dela, Hyoga a tocou com as mãos nuas, e sentiu que não se tratava de uma montanha como as outras. Havia algo em especial, uma energia latente vibrando silenciosamente. Ao tocá–la, era como sentir uma corrente elétrica percorrer seu corpo e fazendo seu cosmo ascender, involuntariamente. Era ali que ela estava guardada? A armadura sagrada de Cisne estava confinada na montanha do gelo eterno?

— Montanha do Gelo Eterno? — indagou Hyoga com uma voz tímida e tremendo com o frio, mesmo sob o pesado casaco reforçado e do capuz que cobria sua cabeça. Porém, isso não o impedia de contemplar a grande muralha à sua frente.

— Sim. Conta–se que esta muralha está aqui há centenas, milhares de anos, resistente a todas as adversidades. — comentou um homem de voz forte e incisiva.

Ao contrário de Hyoga, ele se mostrava bem à vontade com uma calça escura e blusa justa ao seu físico malhado, sem mangas. Não era musculoso, mas tinha boa definição dos músculos. Pele alva, olhos claros num azul–esverdeado e uma expressão séria em traços suaves, ao mesmo tempo masculinas. Tinha longos cabelos genuinamente ruivos, cortado em camadas até altura da cintura e levemente desarrumados no alto, além de uma franja partida desfiada para à direita sem cobrir seus olhos incisivos e tão frio quanto o vento que cortava o ar naquele momento.

— Muitos morreram buscando quebrá–la, mas jamais conseguiram provocar um único arranhão e sabe por quê? — olhou o garoto por cima, vendo–o menear negativamente. — Não era tão fortes quanto ela. Essa geleira está viva, Hyoga. Sinta–a!

O homem recuou alguns passos e cruzou os braços, abrindo passagem para o garoto que se aproximou temeroso, olhando para aquele homem que apenas o observava. O que deveria fazer ali? Observava seu reflexo distorcido, como os gelos do lago ou de qualquer outra superfície congelada. Isso até ver o reflexo de asas que o assustou, buscando algo às suas costas, mas nada havia. Aquilo o instigou a tocar naquela parede cristalina, mas sentindo apenas o frio. Não mais que isso. 

— Está... fria — disse o garoto se sentindo um idiota por constatar algo tão óbvio, temendo se voltar para aquele homem e este repreendê–lo por algo tão estúpido. Mas, o que ouviu, apenas o fez arregalar os olhos surpreso.

— Então, se torne tão frio quanto ela.

"Tornar–me tão frio quanto esta geleira", pensava ele emanando seu cosmo, removendo o casaco e fechando os olhos. Sentiu a pele reagir ao frio, com os pêlos do corpo eriçando e ouvindo o som do gelo que parecia se formar sobre sua pele. Aquilo não o preocupou. O que fez foi manter–se imóvel por alguns instantes. Tornar–se–ia tão frio quanto àquela geleira, como se tornara nas águas daquele lago congelado.

Deixava o seu cosmo esbranquiçado como o vapor do gelo envolvê–lo e abrindo seus olhos enquanto seus punhos se fechavam. Jogou o braço para trás, girando seu punho e deferindo um soco contra a parede de gelo, gerando um baque surdo e um reflexo de luz que se dissipou pelo espelho congelado da muralha. Hyoga se manteve parado ali ainda por alguns instantes, seus olhos observando seu reflexo à sua frente. Jamais se vira tão nítido como se via agora, e isso segundos antes de uma luz reluzir dentro da geleira, sendo o momento que Hyoga ficou a observar admirado, removendo a mão e recuando alguns passos.

Duas asas pareciam serem abertas naquela luz enquanto um canto dos cisnes, mais uma vez, ecoavam, numa clareza filarmônica.  Percebeu o pescoço da ave nascer entre as asas e um brilho reluzir ainda mais forte, sendo dos olhos da ave que piscou, fazendo Hyoga cobrir o rosto e sentir seu cosmo responder àquele emanado de dentro da geleira, chamando–o. Alguns passos, o jovem estendeu o braço e percebeu que não mais havia um gelo, mas uma camada etérea que o separava da armadura sagrada de Cisne. Esta logo foi ao seu encontro,  envolvendo todo seu corpo, com a ave abrindo os braços sobre o seu Cavaleiro.

Com a urna nas costas, Hyoga estava de pé, olhando a Geleira Eterna de onde, horas antes, a via cercada de Cisnes. Agora  estava silenciosa, mas continuando a imperar. Diferente de poucas horas atrás, a mesma despertava um total fascínio, mas que pareceu desaparecer. Nem mais seu brilho era aquele incomum. Parecia uma montanha de gelo como tantas outras que a cercava. Aquilo que a tornava especial agora estava com ele: a armadura sagrada de Cisne.

— Sabia que os Guerreiros Azuis de Blue Graad ansiavam conquistar uma lendária armadura sagrada que diziam estar guardada na Geleira Eterna? — era Cristal se colocando ao seu lado.

Era mais alto que Hyoga, de corpo esguio. A sua indumentária, revelada por conta do vento que fez abrir mais o seu manto, revelava sua armadura sagrada, parecendo que cristais de gelo 'desenharam a armadura sobre seu corpo destacando cada musculatura sobre a malha revestida escamada envolvendo-o das pernas aos braços até a altura do pescoço. As gemas na ombreira, joelhos e na altura do peito direito pareciam vivos, refletindo a luminescência de uma aurora boreal.

— O Mestre Camus me contou essa história uma vez, de quantos morreram buscando pelo tesouro guardado na Geleira Eterna... — comentou Hyoga, mas logo franzindo a testa, se voltando para Cristal. — Mestre Cristal, se os Cavaleiros servem à Atena e seu Santuário fica na Grécia, porque o senhor está aqui?

Cristal sorriu, continuando a olhar pra frente por mais alguns instantes. Apontou na direção norte da geleira, para as terras geladas de Blue Graad.

— Desde a Era Mitológica, quando Atena fez nascer seus 88 cavaleiros, alguns são incumbidos de vigiar algumas regiões, e eu sou um deles. Aos Cavaleiros de Coroa Boreal cabem a eles vigiar Blue Graad. — e se voltou para Hyoga. — Coincidentemente, minha terra–natal. 

— Mas o que tem para vigiar numa cidade há tanto abandonada? — indagou Hyoga se voltando para Cristal um tanto curioso. — Quero dizer, ela está abandonada há anos. Por que mandariam vigiar aquelas terras? 

— Blue Graad é a cidade que guarda uma das entradas para o Santuário Submarino de Poseidon. — afirmou cristal de modo tão natural e voltado para a direção da cidade que nem percebeu a expressão de surpresa de Hyoga. — Blue Graad era um reino pequeno, com uma aristocracia devota a Poseidon, mas que se voltou para Atena ao longo da Guerra Santa. Quando Atena derrotou o Imperador dos Mares, selou a alma do deus e de seus Marinas enviando para resguardá–los na cidade, sendo mantida desde então. A presença de cavaleiros guardiões tem sido um dever desde tempos imemoriais.

— Um destes poderia ter sido o Cavaleiro de Cisne? — questionou Hyoga interessado.

— Possivelmente, o que explicaria  do confinamento da armadura na geleira e torná–la 'eterna'. — respondeu Cristal dando os ombros. — Sendo assim, sendo o Cavaleiro de Coroa Boreal, é meu dever vigiar Blue Graad de toda e qualquer eventual ameaça, principalmente daqueles que desejam chegar ao Santuário Submarino.

Hyoga assentiu. Conhecer aquela história o tornava ainda mais orgulhoso, mas potencialmente mais animado em saber que poderia regressar e tornar–se um guardião da região, o que o deixaria permanentemente próximo de sua mãe, mergulhada nas águas geladas da Sibéria.

Uma nevasca cortou o vilarejo naquela noite, isolando todos novamente em suas propriedades. Hyoga se encontrava frente a uma lareira aquecendo seu jantar. Lançou novamente um olhar para a urna ornamentada de Cisne. Era brilhante e nem tão grande como pensava para transportar a armadura sagrada que revestiu seu corpo naquela tarde. Ao longo daqueles anos, seu treinamento visava destruir, mas somente depois compreendeu as palavras de seu mestre, Camus, sobre o que era realmente preciso: tornar–se tão frio quanto àquela muralha. E conseguiu.

Somente assimilou isso quando conseguiu vencer o frio do mar onde estava sepultada sua mãe, conseguindo fazer seu cosmo ficar tão frio quanto aquelas águas. Precisava torná–la agora tão gélida quanto a muralha. Não seria pela força que a venceria, mas pela troca, despertando o adormecido Cisne sagrado. O que sabia da indumentária, foi a breve história contada perlo Mestre Cristal naquela tarde, sobre muitos que buscaram conquistá–la, mas somente ele, após milhares de anos, havia sido o escolhido. Aquilo o encheu de orgulho.

Tocou a urna por alguns instantes e se voltou para sua cama, onde um envelope com fita azul tinha sido deixada. Piscou aturdido, pois não havia notado aquilo quando chegou com a urna, nem quando a depositou ali no canto do quarto cobrindo–a com um manto. Nem mesmo vira Cristal retornar ainda para deixar qualquer algo. Certamente deveria ter deixado mais cedo.

Sentou–se na cama apanhando o envelope que continha um selo azul e um brasão que reconheceu ser de Atenas. Havia visto um há dois anos quando Camus recebeu um de selo lilás, sendo uma convocação do Santuário. Desde então, ficara sob a tutela de Cristal, seu aprendiz e Cavaleiro de Prata de Aurora Boreal. Hyoga pestanejou alguns instantes e rompeu o lacre, lendo seu conteúdo e ficando surpreso com o que estava descrito. Junto ao fogo, queimou o envelope com um largo sorriso no rosto.

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Japão - Propriedade Kido 

O som de impacto das espadas ecoavam no grande salão: piso de madeira corrida brilhante que se estendia até metade da parede e outra pintada de branco. Janelões circulavam o salão, ficando entreaberto para circulação de ar. Era uma área mediana, mas bem iluminada. Durante os treinos de Kendo, nenhum atendimento a telefonema e visitas eram feitom, mantendo uma dedicação exclusiva à arte. No salão, apenas Jabu se mantinha ajoelhado observando Tatsumi e Saori no centro do salão.

Ambos portavam um shinai, uma espada feita de bambu, e trajando uma hakama[1], uma calça pregueada usada por cima do keiko–gi, a vestimenta superior. Ambas eram feitas de algodão, mas as cores denotariam suas singularidades.

Ambos usavam as caças pretas, mas Saori usava uma keiko–gi branca e Tatsumi uma azul–marinho. Ele se mostrava bem ágil em seus movimentos e instruía de Saori acompanhá–lo. Fosse na movimentação dos pés e do corpo ao ato de golpear, precisando focar na coordenação e angulação dos movimentos. Jabu contabilizava estarem naquele exercício, o kihon, há pelo menos 2h. As pausas eram somente para beber água e observar a mudança de ângulo e na explicação dos movimentos.

Em alguns momentos se assustava quando ouvia um forte grito de Tatsumi: suri–ashi, um tipo de movimentação com os pés. Para Jabu, parecia uma movimentação 'travada', mas havia um graduado movimento, percebendo–se a fluidez e a leveza que aquele treinamento intensivo despertava. Saori seguia de maneira dedicada, em perfeita sincronia com Tasumi, chegando a ser hipnotizante.

— Por hoje já basta, Srta. Saori. Podemos avançar para o módulo seguinte na próxima aula. — disse Tatsumi por fim, ficando de frente à jovem e ambos prestando reverência um a outro antes que a espada fosse entregue à Tatsumi.

Jabu se levantou de onde estava e seguindo até uma mesa próxima, recolhendo uma das garrafinhas de água e entregando à Saori que removia o men–himo, uma espécie de máscara  com amarras para proteção durante o treino, soltando também os longos cabelos e balançando–os. Percebendo a aproximação de Jabu, nem bem ouviu o que ele dizia — ele rasgava elogios, como de praxe — e empurrando a máscara enquanto tomava a garrafa e pedindo novidades. 

— Ahn... Os jornais de todo mundo só falam de torneio e a mídia não fala outra coisa. — dizia ele, vacilando um pouco no que estava para dizer. — Principalmente... na luta de Seiya ontem. Geki se recupera bem.  — desviou do assunto sobre Seiya, caminhando junto à Saori. — E deve receber alta amanhã cedo... 

— Quero saber se chegou mais alguém, Jabu! — disse Saori com um ar desinteressado e caminhando em direção à saída do salão. Tatsumi ficara a guardar os equipamentos e já acompanhava Saori dizendo que mandaria pôr o jantar. — Nenhum recado, presença...? Amanhã temos uma apresentação, e não pode haver um embate de uma pessoa só, não é mesmo? — sorri com sarcasmo, logo voltando a ficar séria. Caminhava em direção às escadas. — Providencie um reserva. Não vou cancelar uma luta por falta de cavaleiros... Nem que coloque você naquela arena.

E subiu as escadas, sem dar uma única chance de Jabu falar qualquer coisa. O que fez foi manter–se de boca aberta enquanto a via subir para seus aposentos, acompanhada de uma empregada, e depois engolir a seco. Respirou fundo olhando o men–himo em suas mãos e se retirando. Precisaria deixar tudo esquematizado para o evento na tarde seguinte.

A manhã seguinte transcorreu livre de chuva. Embora o céu continuasse nublado, o sol se apresentou e permitindo um calor moderado, levando muitos que saíram de casaco de casa guardasse em mochilas ou amarrasse na cintura. Seiya arriscou, e não se arrependeu. Deixara o casaco em casa enquanto circulava pelo bairro, reconhecendo alguns comércios e parando no parque onde, frequentemente, sua irmã o levava com um grupo de crianças do orfanato no fim de tarde. O mesmo da foto que carregava no bolso de sua calça.

"SEIYA!", ouviu alguém gritar, reconhecendo Miho do outro lado de um lago com algumas crianças. Caminhou até ela, cruzando o parque numa corrida, atravessando uma pequena ponte em arco e cumprimentando a amiga de infância sob os olhos curiosos de alguns pequenos. Deveriam ter entre 5 e 7 anos, no máximo. Alguns brincavam no playground sob o olhar vigilante de Eiri, enquanto outros junto de Miho.

— Não esperava encontrá–lo aqui. Não deveria estar na concentração para hoje à tarde? — comentou Miho observando os garotos brincando próximo num campinho.

— Com a raiva que estou, quanto menos ver a Saori é melhor. — comentou Seiya com a mão no bolso da calça. — Ela me deu alguns documentos de Seika, as fichas que esperava encontrar no orfanato e que foi dado como perdido. — comentou, apontando um banco próximo para se sentarem. Quando Miho perguntou o que mais havia, Seiya deu os ombros. — E nada! Apenas o que já havia me dito, exceto de que ela reuniu muitas licenças. Sabe por que? 

Miho baixou a cabeça, recolhendo as mãos em seu colo.

— Ela usava as folgas e pedia licença para saber onde você estava, saber por quem foi adotado... Ficou assim até saber que estava na Fundação Graad, mas nunca a deixavam entrar. Ela voltava muito triste porque queria saber como estava.  — revelou Miho, percebendo a tristeza no olhar de Seiya. — Não demorou muito e ela sumiu. 

— Eu espero que com a minha cara aparecendo na TV, ela possa me encontrar.  — comentou Seiya inclinando–se para frente. — Se ela aparecesse agora, pegava pelas mãos e sumia! Saori que ficasse por aí com seu circo.

Miho apenas o olhou com pesar, segurando apenas em sua mão na intenção de apoiá–lo. Nem mesmo percebeu quando três crianças se aproximaram com risinhos, fazendo a Miho se levantar e arrumar o seu vestido enquanto indagava o que faziam ali, mandando–os brincar.

— Pode deixar, tia Miho. Só queria conhecer o Seiya. — respondeu um baixinho, parecendo o mais novo daquele trio. — E você é o Cavaleiro de Pegasus, não é? — e ouviu uma confirmação de Seiya, fazendo–o pular animado e se voltando para os amigos. — Viu? Eu disse que era ele! 

— E você, quem é? — indagou Seiya se voltando para os meninos, e todos os três falando ao mesmo tempo de modo a não deixar Seiya conhecer quem era quem até Miho se envolver. O mais alto e magro era Tatsuya, enquanto o mais gordinho era Akira. O mais comunicativo era Makoto. — Legal! E Vocês me reconheceram pela TV? 

— Não. Reconheci das fotos suas que tia Miho tem de você em seu quarto. E ela fala tanto de você... — Seiya arqueou o semblante surpreso, e se voltava para a amiga quando ameaçou pegá–los e eles correram. Isso fez Seiya se lembrar das brigas que tinham quando criança, com Seika sempre mediando os dois.

Após um entendimento, comprou sorvete para as crianças antes de voltarem para o orfanato, enquanto ele usaria o resto daquela manhã para descansar. Compraria algo para comer a caminho de casa na feira próxima ao porto. Foi quando percebeu que restara pouco do dinheiro que recebeu do trabalho no navio que veio do Santuário. Não pagaram muito, e tudo ali era bem caro quando comparado a Rodório.

— Ah, droga! Se continuar assim vou ficar logo sem dinheiro... — dizia para si mesmo guardando os últimos trocados e olhando o porto mais abaixo. A rua principal era 3m acima do mar e olhava os homens descarregando das barcas. — É, Seiya... As 'mordomias' do Santuário acabaram. Terei que procurar um trabalho se quiser sobreviver nessa cidade. Será que estão contratando alguém no porto? Melhor cheirando a peixe que olhar a cara daquela... — bufou Seiya, olhando a hora e vendo que teria pouco tempo para fazer algo para comer e sair para o Coliseu. Apanhou a bolsa das compras que fez e seguindo para o pequeno apartamento.

Ao atravessar a rua, nem mesmo percebeu uma presença que o observava à distância, baixando os óculos escuros enquanto sentado numa caixa com selo de 'Frágil' sob um carrinho com rodas. As madeixas loiras se revelaram quando o capuz abaixou. Em sua mão, estava o jornal com destaque da vitória de Seiya sobre Geki de Urso.

— Quem diria que nos reencontraríamos, Seiya. Será ótimo quando o derrotá–lo no Torneio Galáctico.



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[1]
Conta–se que Hakama possui 7 pregas, cada uma delas representado as sete virtudes do bushido: Gi (a decisão certa),Yu (a bravura), Jin (amor universal, benevolência com a humanidade, compaixão), Rei (ação correta, cortesia), Makoto (sinceridade, veracidade), Meyo (honra) e Chugi (devoção, lealdade).


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Notas finais do capítulo

No próximo capítulo:
Mas um embate na arena do Coliseu, além de olhares suspeitos cercando o evento. Quem poderia estar perscrutando o Torneio Galáctico e por que? Não confie no que sabe. Pode se surpreender.



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