Ninguém está pronto para a vida escrita por Kori Hime


Capítulo 4
Ninguém está pronto para: Lidar com rejeições


Notas iniciais do capítulo

Levar um fora faz parte da vida. Mas não é nada bom.
(Imagem na sequencia: Nico, Leo)



A vida nos prega peças inimagináveis e dolorosas. Muitos com certeza já passaram por essa situação que irei relatar agora. E eu vos digo. É normal. Acontece com todos nós. A vida é uma grande roda da fortuna, quando ela está quase parando no prêmio de um milhão, a roda toma impulso e te arremessa para a puta que pariu.

Vamos ao que interessa.

Namorar não é uma tarefa fácil. Ser um semideus não é uma tarefa fácil.

Logo nós concluímos que: Namorar um semideus, não é uma tarefa fácil. E quando você inclui homossexualidade na lista. As coisas ficam mais complicadas.

E quando você tem mais de cinquenta anos de diferença do seu namorado? As coisas podem ficar mais do que complicadas. No entanto, Nico Di Ângelo nada se parecia com um jovem de décadas passadas. A primeira vista você via um rapaz que aparenta uns dezoito anos. Cabelos escuros e bagunçados, magro mas charmoso. Sabe? Ao melhor estilo rebelde punk, que tem uma banda na garagem dos pais, mas que ainda tem tempo para fazer o dever de matemática e estudar para geografia.

Ufa. Quanta rebeldia para uma criança de Hades.

O problema de Nico é que ele possui uma autoestima um pouco baixa, é verdade. Acha que é magro demais, ou não tão atraente como seu namorado Percy Jackson. Mas todos sabemos que Nico possui o seu charme pessoal.

Ele é bonito do jeito que é.

Percy concorda comigo. Todos concordam comigo. Nico discorda.

O segundo perfil que vou descrever não foge muito a regra. É um belo moreno de cabelos negros e um sorriso marcante. Não é lá tão alto e forte, mas está em sua melhor forma aos dezoito anos recém completado. E aqui vai a história de um rapaz que todos gostam... apenas como amigo.

Musiquinha triste.

Eu os reapresento Léo Valdez.

Passado o choque inicial, vamos ao que interessa.

Quando você é jovem e tem a vida toda pela frente (fica difícil quando se é um semideus), você tem muito tempo para viver aventuras (não falei matar monstros) e quebrar a cara algumas vezes. Léo Valdez sabia, muito bem, como quebrar a cara diversas vezes.

Ele estava totalmente deslocado desde que se mudou para Nova Iorque. E sua lista de amigos não estava lá muito cheia. Foi por isso que alguém no Olimpo decidiu que seria legal Léo ser amigo de Nico.

Eu disse amigos, não confunda as coisas seus pervertidos.

Não me questionem os motivos, eu apenas narro os fatos. Os deuses devem estar entediados para brincarem um pouco com o destino das pessoas, mas a verdade é que eles realmente tem muita coisa em comum.

Duas semanas atrás Nico entrou em contato com Léo. Ele queria ajuda para encontrar um presente de aniversário para Percy. Não sabia exatamente o que queria, mas achou que Léo poderia dar alguma solução. Eles se encontraram em uma lanchonete na Avenida Madison.

Conversaram por meia hora, enquanto Léo comia muitos tacos e chilli. Depois, pegaram o metrô e foram visitar algumas lojas no Soho. Nico achou que seria legal comprar uma decoração para o quarto. Mas uma hora depois desistiu.

— Que tal um jantar romântico? – Léo sugeriu, até que não era má ideia. Se não estivéssemos falando do filho de Hades.

— Ele tem mais jeito com essas coisas. Uma vez me levou para jantar em cima de uma montanha.

— Uau. – Léo revirava uma pilha de livros. – Parece emocionante.

— A vista era boa e a companhia também. Mas ele não é bom cozinheiro.

Léo gargalhou, seus cachos caíram para trás, conforme ele jogava a cabeça. Nico o achava engraçado. Bastante. Léo não parecia preocupado se alguém o acharia extravagante, ainda mais gargalhando no meio de uma loja silenciosa.

— Além do mais, BlackJack e eu não temos uma relação muito boa. Nós fizemos um cessar fogo sabe. Por Percy. Mas mesmo com a trégua, o clima fica pesado quando Percy pede para ele nos levar para alguma montanha muito alta. Uma vez eu quase caí e me quebrei todo no chão.

— Você é um cara peculiar. Tem um namorado e um inimigo. Ganhou meu respeito. – Nico riu com o comentário de Léo. – Vocês estão levando isso bem a sério mesmo não é? Digo, o namoro. – Ele desistiu de achar um livro interessante e atacou os discos de vinil. – Não é fácil, mas é invejável.

— Você com inveja? Não sinta. Pelo menos não de Percy, talvez de mim. Ou seria o contrário? – Nico já estava achando que não acharia nenhum presente bom o bastante. – Alguns campistas pararam de falar com a gente. Por isso eu acho que não irei ao acampamento esse ano. Não quero ser motivo de fofoca ou olhares atravessados.

— E quem liga para o que os outros dizem? – Léo pegou um disco antigo da banda Pink Floyd, The dark side of the moon. – Eu estava procurando esse aqui tem algum tempo. Cara! É simplesmente foda.

Nico conhecia aquela banda. Seu pai era fã do Pink Floyd. Isso mesmo, Hades curte o som dos caras. E vocês não tem ideia de como Hades ficou quando Syd Barrett morreu e apareceu lá no mundo inferior. Ele próprio foi dar as boas vindas.

E quando Nico contou isso para Léo, o rapaz ficou pirado. Perguntou até se conseguiria um autógrafo. Mas, mudando de assunto.

— Eu me preocupo com o que falam do Percy. Não quero que as pessoas falem mal dele. Percy não merece. Já salvou tantas pessoas. Deve ser lembrado como um herói.

— Ninguém nunca falou mal de vocês para mim. E se falassem eu ia fazer eles engolirem.

— Obrigado. Mas eu sei que isso acontece. É claro que eles não vão dizer nada aos nossos amigos.

— E são os amigos que você deve ouvir. Não as pessoas que mal te conhece.

— Talvez. – Desanimado, Nico aguardou Léo pagar pelo disco e depois saíram da loja. Eles ainda caminharam alguns minutos até acharem uma loja de roupas. Havia uma jaqueta na vitrine e Nico gostou. Ele conseguia visualizar Percy usando aquela jaqueta. Comprou antes que tivesse que gastar toda a sola do tênis batendo perna no Soho.

— Ótima escolha. Acabei sendo desnecessário nesse passeio.

— Você me acompanhou, eu já fico grato. – Nico e Léo caminhavam pela calçada, atravessaram a rua em seguida para pegar o metrô. – Você está morando por aqui?

— Aluguei um galpão no Brooklyn. Quero dizer, é uma garagem. Um pouco menor. Não cabe muita coisa, mas dá para trabalhar.

— Pretende ficar aqui então? – Eles giraram a catraca do metrô e desceram as escadarias. Normalmente os meio-sangue não usufruíam do metrô ou alguns outros meios de transporte. Mas Léo gostava de viver normalmente sua vida. Depois de tanta aventura, queria por os pés no chão e suar a camisa como qualquer ser humano normal. O que ele não era, por isso não fugia das suas raízes. E não estava nada interessado em viajar pelas sombras com Nico. Já havia feito isso antes e foi muito, mas muito ruim para sua saúde.

Estava trabalhando por conta própria. Agora, que teoricamente não havia riscos de um fim do mundo próximo. O mundo estava salvo e blá blá blá. Até a próxima profecia ser proferida por Rachel.

Léo desejava que a próxima demorasse alguns anos, por exemplo, muitas décadas. De preferência quando ele já estivesse aposentado. Se é que a profissão de semideus houvesse aposentadoria.

— Quer conhecer minha oficina? – Perguntou, entrando no vagão. Sentaram em dois bancos vazios, e não demorou muito para as pessoas se afastarem dos dois. Léo percebia que isso geralmente acontecia em lugares mais fechados. E não, não era porque ele ficou sem tomar banho. Era Nico. Ele possuía aquela aura pesada. Era tão forte que para os mortais deveria ser ameaçadora.

Léo não podia imaginar o que os outros viam. Como é que a névoa poderia cobrir aquela cara fofa de Nico? Porque essa era a verdade. Léo Valdez achava Nico parecido com aqueles vocalistas de banda da moda, cheios de atitude e rebeldia, mas quando era fotografado por alguma revista adolescente, fazia garotas suspirarem e prenderem pôsteres nas paredes dos quartos. Nico era uma mistura de Harry Styles e Gerard Way. Ou alguma coisa do gênero. O fato aqui é que, Léo, não conseguia ver mais do que um rapaz normal ao seu lado.

Nico o olhou sem jeito. Já havia pedido desculpas para Léo sobre aquilo, quando eles entraram em uma lojinha de CDs e de repente todo mundo saiu da loja passando mal. Não era culpa dele, o lugar parecia uma caixa de sapatos.

— Sinto muito. – Nico falou baixinho, olhando de soslaio para Léo.

— Relaxa cara. – Ele deu uns dois tapas leves na perna de Nico. – Isso já aconteceu comigo. Uma vez, eu estava no ônibus de viagem para o Tennessee

— O que você foi fazer lá?

— Longa história. – Léo sacudiu a cabeça, voltando a história. – Estava lá no ônibus e uma menina atrás, devia ter uns oito anos, ficava chutando meu banco. Aquilo me irritou. Quando o motorista fez uma pausa de vinte minutos, eu aproveitei para trocar de lugar. Daí sentei lá no fundão. Mas o cheiro do banheiro estava insuportável. Foi aí que notei o porque ninguém queria ficar lá.

A história acabou ali e Nico ficou esperando Léo falar algo mais. Porque parecia que ele ia contar alguma coisa relativo ao que acontecia com ele mesmo. Sabe, essa história de repelir as pessoas. Ok! Deixa para lá.

Nico riu, sem um motivo em especial. Apenas olhou para Léo e riu.

Depois do metrô, ainda precisaram pegar um ônibus e meia hora depois chegaram à oficina Valdez. E era mesmo pequena. Nico sentiu-se um pouco desconfortável no começo. E percebendo isso, Léo tratou de abrir todas as três janelas existentes ali dentro. A luz da tarde entrou pelas janelinhas, mas não houve muitas mudanças.

Nico focou sua atenção nos equipamentos sobre as mesas de trabalho. Uma prancheta com desenhos e muitos rascunhos. Uma infinidade de lápis, canetas e réguas de todos os tipos. Ferramentas sobre a bancada de madeira entre outros objetos que ele não sabia para que servia. Pegou um dos desenhos e analisou. Era uma espécie de moinho de vento, só que bastante futurista.

Léo ofereceu algo para beber. Então Nico notou uma ala a parte da oficina. Valdez empurrou as paredes de madeira que deslizaram para o lado.

Ele abriu os braços e mostrou seu espacinho de descanso. Uma cama box simples, com roupas largadas por cima. Léo tratou de enfiá-las dentro de um baú que ficava aos pés da cama. Do outro lado, um armário embutido, criado pelo próprio. Léo também criou a mesa de refeição, a pia, o fogão, a geladeirinha embutida no armário da cozinha embaixo da pia. Enfim. Era uma quitinete bastante funcional. E bonito, bom ressaltar isso.

— Gostei bastante daqui. – Nico aceitou o refrigerante, porque ele não se dava bem com cerveja ou qualquer tipo de álcool. Melhor evitar confusões. – Você está trabalhando no que?

— Faço esses projetos para quem quiser e puder pagar. Tenho um bem legal aqui. – Ele foi até a prancheta e pegou a folha. – Esse é um sistema de ventilação. E aquele é uma coisinha que estou planejando para a internet 2. Sabe, a internet para meio-sangue. Estou em negociação com o banco Grego. Eles não querem liberar uma grana extra, já que a última ainda não foi quitada. Mas eu precisava de materiais para dar inicio ao meu trabalho.

— Você é genial. – Nico terminou o refrigerante, eles conversaram bastante sobre o sistema de ventilação e a internet 2. Léo gostava quando alguém se interessava pelos assuntos que ele falava. Geralmente as pessoas apenas falavam: Bom trabalho. Mas não queriam saber como e porque ou quando. Ao contrário de Nico. Era curioso e bom ouvinte.

— Então eu criei essa nova fibra. – Sim, ele estava empolgado com a conversa. Tanto é que passava das sete da noite. E eles continuaram conversando. E quanto mais conversavam, mais encontravam assunto em comum.

— Digamos que meu pai tem muita expectativas comigo. Eu ainda não sei porque. No começo ele dizia que não era Bianca quem devia ter morrido. E agora age como se eu fosse herdar sua herança. Falando francamente, eu não quero herdar um lugar cheio de gente morta.

Léo gargalhou. Daquela forma exagerada e também graciosa, como se estivesse a vontade com qualquer coisa. Nico balançou os ombros, já havia falado muito sobre ele mesmo, mas Léo, ele só falava de trabalho. Não acreditava que só existisse isso na vida dele.

Quando Di Ângelo perguntou algo pessoal, como por exemplo, se ele estava saindo com alguém, o silêncio foi absurdamente constrangedor. Nico podia cavar um buraco no chão e enfiar sua cabeça lá, de tanta vergonha.

Com um sorriso treinado, Léo respondeu.

— Eu ando muito ocupado. Não tenho tempo nem para ir no supermercado. Olha minha geladeira como está vazia. – Parecia, e era, uma desculpa quase convincente.

— Não precisa falar disso, se não quiser. É claro.

— Tá tudo bem. – Léo puxou um banco para sentar. Nico estava em cima da sua cama, agora arrumada e sem nenhuma roupa espalhada. – É complicado.

— Não sei se você notou, mas está conversando com a pessoa mais complicada que vai encontrar em anos. – Ele não podia obrigar o amigo a falar, mas podia tentar.

— Eu nunca tive muito jeito com as garotas. Na maioria das vezes eu era aquele amigo que elas confiavam. Mas também não era lá um bom amigo. Estava sempre ocupado tentando não por fogo nos cabelos delas. – ele olhou para a garrafa de cerveja, achando que estava na hora de pegar outra, a conversa seria longa. – Uma vez eu estava com uma garota. Dayanne Liz. Ela 'tava' interessada em mim. Mas na primeira oportunidade que ficamos sozinhos, eu botei fogo no cabelo dela. Cara! Ela gritou tão alto que eu levei um susto. Quase perdi o controle, poderia ter feito churrasquinho de Liz.

— O que ela fez?

— Saiu correndo. – ele riu, porque era uma lembrança do passado e o que mais poderia ser feito agora? – Depois dela teve a Marize. Ela era tão bonita, eu nem acreditei quando deu mole pra mim. Mas como eu suspeitava, era tudo armação. Só que a galera se deu mal, porque sem querer aconteceu um acidente com os pneus do carro.

— Você explodiu o carro?

— Não! Derreti os pneus.

— Genial.

— Então eu entrei nessa aventura com o Jason e a Piper. Algumas garotas mais complicadas passaram na minha vida. Mas nenhuma delas ficou. – Seu tom de voz era baixo, diferente do que Nico presenciara alguns minutos atrás. Como se Léo estivesse triste. Seria isso?

— Você gosta de alguém em especial? – Nico tentou. Ele estava na dúvida, mas achou que poderia estar no caminho certo. Quem sabe até ajudaria?

— Eu? Não... – Léo não falou com convicção. Por isso Nico ainda olhava sério para ele, aguardando a resposta final. – Uma época eu até gostava de uma pessoa. Mas ele... – Então Léo parou de falar. E seu belo rosto inflamou e explodiu em vários tons avermelhados.

Nico apostou errado. Ele pensou que talvez Léo estivesse apaixonado por sua amiga Piper. Contudo, a verdade era outra. Não foi preciso forçar Valdez a falar, dali em diante ele estava fácil, fácil.

Fácil de contar a história, não pensem besteira.

— Eu estava com isso entalado na minha garganta tem um tempo. Então decidi contar toda a verdade. Precisava dizer, ou iria enlouquecer. – Léo suspirou um segundo e prosseguiu. – Naquela noite, no Acampamento, quando todos comemoravam. Eu decidi desabafar. É claro que eu estava esperando uma reação adversa. Até então não falamos sobre nada disso. Mesmo porque, ele e Piper pareciam muito mais ligados do que agora.

— Que coincidência. Foi na mesma noite que eu conversei com o Percy.

— É? Você pelo menos teve um final mais feliz.

— O que ele te falou?

— Aquele papo de sempre. Sinto muito, eu não sabia. Ainda somos amigos. Eu amo você como um irmão. – Léo caminhava pela oficina, segurando a garrafa de cerveja. A gente acabou se afastando, ele insiste em dizer que é porque esta dividido entre os dois acampamentos. Mas eu sei muito bem o porque.

— Eu queria poder ajudar. – Nico encolheu os ombros, recordando-se daquela noite. Para ele foi tão incrível que poderia passar um milhão de anos e não iria se esquecer.

— Acho que o melhor a fazer é seguir em frente. – Léo virou-se e piscou para ele.

— Tem razão. Foi legal vir aqui e conversar.

— Foi mesmo, não é? Vamos fazer mais vezes.

— Da próxima chamamos o Percy e poderemos ir jantar em cima de uma montanha.

— Ah! Não sei, talvez um vulcão. Pode ser?

— Acho que sim. – Nico riu. – A gente se vê no aniversário do Percy.

Já estava ficando tarde. Claro que para o filho de Hades, sair sozinho à noite não era realmente um problema. Ele se despediu de Léo.

Léo ainda reforçou que ele deveria relaxar. Pois a opinião das outras pessoas somente são importante para as outras pessoas.

— A propósito. – As sombras negras circulavam em volta de Nico. – Jason foi um idiota em não te dar uma chance. Eu espero que você encontre alguém que vale a pena.

— Eu também.

Então Nico desapareceu nas sombras e Léo se viu mais uma vez sozinho em sua oficina.



Notas finais do capítulo

Como a história se passar em Nova Iorque, eu vou falar muito sobre os lugares de lá. Soho é um lugar bem popular em NY para compras, principalmente as galerias de arte, lojas de Marca e aparece muito em filmes Cult. É a cara do Nico.

Eu ressaltei que eles são amigo aqui, amigo. Porque as vezes as pessoas interpretam completamente errado o que eu escrevo.

Se tiver alguma duvida quanto localização e palavras 'estranhas' me perguntem, não fiquem com medo. Eu não mordo. Conversamos mais nos comentários :D