Ninguém está pronto para a vida escrita por Kori Hime


Capítulo 39
Ninguém está pronto para: Sacrifícios


Notas iniciais do capítulo

Ninguém está pronto para ler esse capítulo até o final.



Os canos explodiram e milhões de litros de água jorraram para todos os lados. Percy Jackson flutuava sem dificuldades na água, sem nem se molhar. Segurando com seu braço direito, estava Jason, ferido. No lado esquerdo, Percy segurava a mão de Drew, mas com a pressão da água, ele quase a perdeu. Conseguiu mantê-los secos, pelo menos até que a água se acalmasse e se espalhasse até ir diminuindo a pressão, restando uma pequena correnteza de meros dez centímetros.

Percy ajudou Jason a ficar de pé, ele garantiu que estava bem, embora o sangramento no braço dissesse o contrário.

As Harpias haviam sido derrotadas, junto com os Milhafres. Os três estavam com dificuldades para ouvir bem, pois os pássaros zuniam ainda mais alto embaixo da terra, mas conseguiam enxergar muito bem.

A água se espalhava pelo piso de mármore majestoso do Banco Grego. As estátuas pingavam com musgos pendurados em seus narizes. Os móveis estavam completamente encharcados e o carpete perdido, nem uma semana no sol conseguiria secar e remover o odor que ficaria depois.

No centro do saguão, estava um altar preparado para o que parecia ser um sacrifício. Muito parecido com as ilustrações que eles viram em diversos livros na biblioteca do Acampamento, até Percy reconheceu a figura, pois foi trabalho de escola em seu último ano. Milagrosamente ele não esqueceu daquela imagem. Uma cabeça de javali estava pendurada em uma das estátuas que compunha um círculo ao redor de uma pedra de mármore branco, adornada com margaridas e jacintos. As outras estátuas possuíam cabeça de cabra, um gato e um falcão.

O livro das Harpias se encontrava aberto no altar, ao lado de uma vela de chama azul. Haviam muitos cristais ao redor do saguão, todos protegidos magicamente, por isso não estavam molhados pela água. Percy não sabia dizer quais eram aqueles cristais, pois seu conhecimento no tema era desanimador. Mas julgando pelo que sabia sobre sacrifícios, não estavam em uma situação boa. Ao menos ele era somente um presente para quem quer que fosse a convidada. E era bom que não fosse um presente de comer com garfos. Embora qualquer outro tipo de significado da palavra comer, fosse ruim.

Percy olhou para Drew e Jason. Um dos dois realmente deveria estar ali, e o mais indicado era que fosse…

— Minha querida irmãzinha. — Charlote apareceu, na companhia de Moros, o deus da sorte e do destino, que era gerente do Banco Grego nas horas vagas quando não estava em planos malignos com filhos de Afrodite. Percy sentiu-se decepcionado naquele momento, afinal de contas, foi ele quem deu um empréstimo para abrir o Café. — Não sejam tímidos, aproximem-se.

— O que você pretende com tudo isso? — a voz de Drew estava dura feito aço. Percy queria ter feito aquela pergunta, mas parecia que o assunto ali era coisa de família.

— Não me diga que além dos poderes, você também está sem memória? — Charlote riu, ela usava um manto vermelho por baixo de um vestido branco. Seus cabelos enfeitados com fios dourados e pequenos cristais brilhavam aqui e ali. Conforme ela se movia, a luz das velas do saguão a deixava irradiante.

— Perguntei só para ter certeza se eu enfio essa adaga no seu peito, ou corto sua cabeça fora de uma vez. — Apesar de a ameaça soar bastante desafiadora, Percy não tinha certeza se Drew, sem poderes, conseguiria passar por cima de Moros e enfiar a adaga no peito da irmã. Mas ele estava pagando para ver aquela cena.

— Eu sei que vocês têm problemas familiares para resolver, mas eu só queria dizer que estamos aqui para te impedir. — Percy enfiou a mão no bolso da calça, passando os dedos em sua caneta esferográfica. — Gente megalomaníaca geralmente tem um final meio deprimente.

— Oh! Percy Jackson, eu já ia falar com você. Fiquei tão feliz quando soube que aquelas inúteis das Harpias finalmente haviam feito algo correto. Trouxe você aqui. — Charlote olhou na direção de Jason, com um sorriso mais contido. — E você também estava na minha lista.

— Eu não sei se fico lisonjeado, ou se deixo Drew enfiar a adaga no seu peito.

— Você pode ficar tranquilo, Jason. — Charlote ergueu a mão, e Moros moveu-se do lugar. Todos os três, do outro lado do altar, ficaram em alerta. Quando Moros retornou, estava com o corpo de Duncan, desacordado.

— O que você fez com ele? — Jason tencionou avançar na direção do corpo de Duncan, arremessado no chão por Moros, mas Percy não deixou que ele fosse até lá, poderia ser uma armadilha.

— Ele está vivo, mas não sei se vai voltar a falar, andar, essas coisas. — Charlote esfregou as mãos levemente, olhando para o corpo do romano no chão. — Ele foi meu primeiro teste para o ritual, infelizmente eu cometi um pequeno equívoco, e houve um errinho de cálculo. Mas está tudo bem, porque na segunda vez, sempre dá certo. Eu descobri o que preciso. Eu preciso de você para completar meu ritual, maninha. — Charlote declarou.

— Você é mesmo pirada. — Percy tirou a caneta esferográfica do bolso, estava pronto para lutar. — Acha que vou deixar você matar Drew?

— Não quero matá-la, só preciso do coração dela. Um coração leal. Estava tudo escrito no livro, mas eu nunca fui muito boa em línguas antigas. — Charlote desceu um degrau e caminhou lentamente, passando a mão sobre a pedra de mármore. O cheio das velas, misturando-se com aquelas flores, começava a causar ânsia em Percy, sem falar na péssima combinação de esgoto. — Quando você abriu mão de seus poderes para se redimir dos erros que cometeu, foi a chave para eu solucionar o que faltava. Eu traduzir errado o coração leal com valentia.

Percy queria apertar a mão de Drew e falar para ela que tudo ia ficar bem. Mas, mais uma vez, nem ele sabia se ia.

— Afinal de contas, o que você vai fazer com o coração dela?

— Que bom que perguntou, Percy. — Charlote retirou um Jacinto do altar e segurou a flor com as duas mãos. — Ela é o corpo perfeito para que a grande deusa retorne para nosso plano.

— Quantas grandes deusas existem nesse mundo? Porque todas elas querem voltar? — Percy deu alguns passos para o lado, conforme Charlote caminhava ao redor do altar.

— Existem muitas deusas aprisionadas, impedidas de se revelar para a humanidade. — Charlote parou próximo de Percy. — Deusas que sofreram grandes traições e foram punidas de maneira cruel e perversa.

— Tá, mas o que essa deusa fez de tão mal para ser aprisionada? — Percy abaixou a espada, conquistando a atenção de Charlote. Ele poderia ganhar mais tempos com aquela conversa.

— A inveja dos outros deuses a derrubou. — Charlote pareceu mais agressiva em suas palavras e na expressão de seu rosto. — E nenhuma deusa foi ao seu clamor. Todas se viraram contra a grande deusa tríplice, por puro medo de enfrentar a ira dos grandes deuses. Inclusive minha mãe.

— Porque você está fazendo isso?

Charlote sorriu levemente e depois soltou uma gargalhada.

— Porque a deusa mãe me escolheu. Eu ouvi o seu chamado em meus sonhos. Durante anos eu me resguardei para esse momento, aprendi tudo o que podia com minhas irmãs, e aqui estou, pronta para resgatar a deusa Freya de seu castigo eterno, lançado pelos deuses.

— É, você tem tudo o que precisa para um sacrifício, mas, Charlote... — Percy apontou para Drew. — ela é sua irmã, quer mesmo que essa deusa mãe possua o corpo dela? Não tem outro jeito?

— Eu mesma daria meu corpo se fosse possível, mas não sou digna de recebê-la. — Charlote olhou para a irmã, com um brilho de inveja no olhar. — Quem diria, você, a mais odiosa das filhas de Afrodite, será abençoada com o poder da minha senhora.

Drew ainda segurava sua adaga, não com tanta força e ódio como fazia no começo, ela estava cansada e Percy podia ler aquela expressão em seu rosto. Era culpa.

— Charlote, eu sei que não fui a melhor pessoa no passado. — Drew começou a falar. — Eu me lembro de te contar essas histórias, logo quando você chegou no Acampamento. Você estava com medo, tinha acabado de ser abandonada por sua família, seu pai.

— Não fale daquele homem! — Charlote gritou enraivecida.

Percy ergueu a mão, pedindo para que as duas se acalmassem, enquanto ele observava Jason deslocando-se de seu lugar, sendo vigiado por Moros. De repente, algo chamou a atenção de Percy. Era uma luz que vinha da passagem do esgoto. Uma pequena bola de fogo.

— Seu pai te deixou, mas ele não tem culpa de ter passado por tudo o que passou. — Drew continuou. — Você está sendo usada por Freya... nossa mãe me contou a verdade. Ela não voltou para ajudá-la porque Freya foi responsável pela morte de milhares...

— Aquele homem não é meu pai. Ele me largou em um orfanato quando eu era um bebê. Voltou para dizer que estava curado, mas na primeira oportunidade que teve, me abandonou novamente naquele Acampamento. — Charlote ergueu a mão e ordenou que Moros pegasse Drew. — Não! — Percy gritou, jogando seu corpo na frente de Drew, a caneta em sua mão havia se tornado uma espada. — Não vai encostar num fio de cabelo dela, seu doente. Eu confiei em você quando vim aqui com a minha mãe fazer um empréstimo, é assim que retribui?

Moros não respondeu, seus olhos anuviados pareciam duas bolas de gude.

— Ele está sob efeito de hipnose. Charlote sempre foi muito boa com magia, mas eu nunca imaginei que fosse por causa da ajuda da deusa Freya. — Drew estava agradecida pela ajuda de Percy, mas, ao mesmo tempo, sentindo-se inútil por não ter seus poderes naquele momento. Seria de grande ajuda. Tudo o que poderia contar eram suas adagas e as aulas de luta que praticara com Dante.

— Você está falando sério? — Percy recuou, fazendo Drew dar passos longos para trás, ou Moros iria acertá-los e cheio com uma maça de espinhos venenosos. Charlote gritou, confusa e arrependida por ter mandado Moros ataca-los, ordenando que ele não machucasse o corpo da irmã. — Já não bastasse Grega, Romana, agora estamos enfrentando a mitologia Nórdica. Os Vingadores podiam dar uma ajudinha aqui, hein? Thor? Alguém?

— Você sabe que essas histórias foram criadas por um filho de Apolo? — Drew arremessou uma de suas adagas, mas Moros a interceptou no ar, conforme ela havia previsto.

— Jura? — Percy aproveitou o momento para saltar o altar e pular na direção de Moros, cortando com sua espada a maça de espinhos venenosos. Ele caiu do outro lado, segurando o braço.

— Faça alguma coisa! — Berrou Charlote.

— Um pouco tarde, mana. — Drew acertou um chute na altura do estômago de Charlote. Ela teve corpo arremessado para trás, sendo pressionada contra uma estátua, enquanto Drew segurava a adaga em seu pescoço. — Por mais que eu esteja com raiva de você, jamais iria tirar a vida da minha própria irmã.

— Essa é a grande diferença entre nós duas. — Charlote apertou os lábios, e enfiou uma agulha escondida em suas mãos no braço de Drew, que caiu no chão desacordada logo em seguida.

— O que você fez? — Percy tentou se aproximar do corpo de Drew, caído no chão, mas seu braço machucado o impediu de continuar, ele caiu no chão.

— Uma pena. — Charlote pulou o corpo da irmã e se abaixou para ver Percy. — Seu braço foi envenenado pelos espinhos, veja suas veias como estão escurecendo. Você vai morrer, Percy.

Ela se levantou, olhando para os lados. Faltava uma pessoa, mas já era tarde, ela não tinha mais tempo a perder com Jason ou Percy Jackson. Precisava iniciar o ritual imediatamente.

Moros levou o corpo de Drew para o altar, enquanto Charlote abria o livro das Harpias e iniciava o ritual com uma prece à Deusa Freya.

Percy não conseguia mover mais o braço e quase todo o lado direto de seu corpo. Suas veias estavam realmente escurecendo, como se fossem fios negros avançando por dentro de seu corpo. Sentiu uma dor lancinante, e mesmo assim tentou alcançar sua espada caída ao seu lado. Embora se esforçasse ao máximo, sequer conseguia mover um milímetro.

A voz de Charlote parecia um fio distante, Percy não sabia dizer quanto tempo tudo aquilo aconteceu, parecia em câmera lenta, como se ele estivesse sentado no sofá assistindo a um filme na televisão. O corpo de Drew flutuava no ar, mas não por muito tempo, uma bola de fogo cortou o salão direto para o livro de encantos. As estátuas caíram conforme Moros era derrotado por raios e fogo. Era possível ouvir o grito desesperado e de ódio que Charlote proferiu.

Eles não estavam sozinhos, Percy não sentia mais o corpo, mas sua mente processava os acontecimentos conforme podia. Alguém estava ao seu lado, pedindo para ele aguentar mais um pouco, pois tudo ficaria bem.

Percy concordava, as coisas ficariam bem sim. Morrer não era tão ruim como imaginava. Afinal de contas, havia alguém esperando-o do outro lado.



Notas finais do capítulo

Oi gente, me diz como faz para 1 dia ter 50 horas no mínimo? Tá difícil organizar minha vida com apenas 24 horas, sendo que só durmo 4 horas por dia.
Mas a gente faz o que pode, né?
Ah! E, então... não sei o que falar desse capítulo heuehuehu espero para ver a reação nos comentários, só não vale me xingar.
Beijos