Ninguém está pronto para a vida escrita por Kori Hime


Capítulo 38
Ninguém está pronto para: Banho com esfregão


Notas iniciais do capítulo

Um banho com oferecimento Paco Rabanne.



A única coisa que Percy conseguia sentir naquele momento, era uma dor insuportável nos pulsos, onde as algemas apertavam severamente. Cada vez que se mexia, parecia que o metal ia se retorcendo e apertando. Chegou uma hora que ele decidiu não mover mais as mãos, ou ficaria sem elas. Estava muito escuro, não conseguia enxergar um palmo na frente do nariz. Ele tentou então se concentrar nos únicos sentidos que restara. Podia ouvir um barulho de metal arranhando ao longe de onde estava, e também sentia uma leve tremedeira no chão duro em que fora colocado. E com o cheiro de esgoto que sentia, ele não demorou muito para sacar que estava embaixo da terra, de preferência em algum lugar no subterrâneo de uma estação de metrô.

— Maravilha, estou de volta a Nova Iorque. — ele murmurou, girando o corpo no chão, mas bateu em uma parede, tentou o mesmo do outro lado, e encontrou outra parede. Decidiu virar o corpo para a outra direção, julgando ser para frente. Encontrou uma grade. E para trás, outra grade.

Estava preso. Tinha que admitir que a pessoa que o prendeu ali era esperta e devia saber o que estava fazendo.

Percy tentou se concentrar no que ele sabia. Provavelmente alguém o queria preso, mas porque? Ele não tinha nada importante para oferecer. Ou tinha?

Não soube dizer quanto tempo se passou desde que ele perdeu a consciência e despertou naquele lugar, mas imaginou que não poderia ser mais do que algumas horas. Quando ouviu vozes, queria ter tido algum plano em mente, mas a única coisa que possuía naquele momento, era a boa e velha arte de improvisar.

As risadas esganiçadas eram conhecidas de Percy. Ele teria revirado os olhos para o momento clichê, se não estivesse tão cansado.

— Achei que vocês tinham se esquecido de mim. — Percy falou, apertando os olhos quando uma Harpia iluminou sua prisão com uma tocha de fogo. — Aliás, esse lugar é nojento, bem que vocês poderiam arrumar uma base secreta mais limpinha.

— Calado filho de Poseidon. — o bafo da Harpia viajou pelo ar até o rosto de Percy. — Nossa senhora logo despertará, e ela vai gostar do presentinho que vamos oferecer.

— Um semideus poderoso para alimentá-la. — a outra Harpia gargalhou.

— Oi? Alimentar? Espera, gente. Acho que ninguém vai querer comer um cara sujo de... — Percy farejou com o nariz o fedor ao seu redor. — Ew... ninguém vai querer me comer nesse estado. Vocês querem agradar sua senhora? Então sugiro que me deem um banho antes. Sabe, acho que ela ia gostar de um presente mais limpo.

As duas Harpias se entreolharam, e Percy torceu para que elas não fossem muito espertas.

— Tem razão. — a Harpia que carregava a tocha falou. — Nossa senhora odeia sujeira, precisamos dar um banho nele.

— Está fedendo como um rato. — a outra avaliou. — Um rato morto.

— Ok! Sem ofensas. — Percy não sabia onde aquilo ia dar, mas ele só pensava em conseguir mais tempo para bolar algum plano.

A grade foi destrancada e as Harpias o puxou de la de dentro e foi arrastando pelo esgoto. Percy tentava não pensar que estava sendo arrastado por cima de todo o tipo de nojeira do esgoto, o que aliviava era a promessa de banho que ouvia as Harpias tramarem.

— Espuma e esfregão.

— Precisa de perfume, Invictus, the new fragance for men by Paco Rabanne.

— E um pouco de gel de cabelo Refresh Advanced. Especial para cabelos masculinos.

— Sim, sim...

— Vocês assistem muita televisão. — Percy sentiu a cabeça bater em um cano menor. — Cuidado! Vão quebrar o presente para... seja lá quem é a senhora de vocês.

— Cuidado, cuidado.

— Cuidado você.

— Eu estou tomando cuidado.

Enquanto as Harpias discutiam, Percy ficou largado no chão, haviam chegado em uma sala não muito confortável, nem mais limpa do que era o esgoto. Parecia um covil de algum bicho melequento.

Uma nova tentativa frustrada de tirar as algemas, e Percy Jackson caiu novamente no chão quando uma terceira Harpia chegou causando confusão, abrindo as asas e dando gritos ensurdecedores. Ela queria saber o que as outras duas faziam com o presente da senhora. E, enquanto as Harpias explicava sobre o banho para limpar o filho de Poseidon, Percy foi arremessado para o outro lado da sala, onde podia ver claramente Drew e Jason caídos dentro de uma cela, um pouco maior do que a que ele estava.

— Hey. Psiu. — Ele fez barulhos bem baixinhos, para não chamar a atenção das Harpias. Mas não estava funcionando muito bem. — Drew! Jason. Acordem.

Antes de conseguir acordá-los, Percy foi arrastado para o banheiro, onde as Harpias o jogaram num tanque de água.

— Eu não estava esperando um tanque, onde está a banheira com água quente e espuma? — Percy protestou.

— Sem espumas, sem água quente. Vai tomar banho no tanque. — a Harpia pegou um esfregão, daqueles que limpa o chão e passou esfregar o corpo de Percy.

— O que você está fazendo? Tira essa coisa nojenta da minha cara. — Ele reclamou. — Solte as algemas que eu posso esfregar as minhas partes íntimas.

A Harpia olhou para ele, sem entender muito bem o que o rapaz dizia.

— Eu limpo as partes íntimas. — ela decidiu.

— Nem pensar. — Ele afastou-se no tanque, a água não cobria nem metade do seu corpo. Percy sentia a pressão a água ao seu redor, mas não achava prudente causar um Tsunami debaixo dos trilhos do metrô, poderia machucar mais do que as Harpias. Além de que, estava perto de descobrir o que estava por trás de tudo aquilo, e tinha quase certeza de que seus amigos saberiam muito bem onde encontrá-lo.

— Achei o perfume. — a Harpia voltou com as penas eriçadas. — Perfume para campeões.

— É, tô sabendo, eu também assisto os comerciais do Super Bowl. — Percy pegou o frasco de perfume, e imaginou de onde é que elas tinham tirado aquilo. Ele abriu o frasco e sentiu o estômago embrulhar ao cheirar a fragrância. Definitivamente não era Paco Rabanne.

— O banho acabou. — a Harpia maior ordenou.

— Espera, vou ficar usando essas roupas molhadas? Preciso me trocar. — Percy precisava ganhar mais tempo. Pelo menos se Jason acordasse, poderia ajudar muito. — Que tal as roupas daquele ali? Acho que serve em mim.

— Pega a roupa. — a maior mandou que a outra Harpia trouxesse as roupas de Jason.

Percy comemorou em silêncio que seu plano começava a tomar forma. A Harpia despertou Jason a base de cutucadas com o esfregão. Ele acordou desorientado, mas logo que compreendeu a situação em que estava. Principalmente quando viu Percy Jackson fazer sinais com a cabeça e caretas com a boca.

— Tire a roupa. Agora!

— Hmm. Eu não entendi, o que você disse? — Jason aproximou o rosto da grade, fazendo a Harpia mexer a cabeça impaciente.

— Tira a roupa, tira a roupa. — ela gritava.

— Ok! Ok! Eu vou tirar. — Jason levou as mãos até a barra da camiseta, erguendo o tecido, tirou e arremessou a peça para fora da grade, que caiu no rosto da Harpia. Ele disparou uma rajada de vento que fez a Harpia voar e bater o corpo contra a parede. A essa altura, Drew já havia despertado. Apesar de estar sem seus poderes, ela sacou sua arma favorita de dentro do cano da bota. A adaga com cabo de ouro, e um dragão chinês desenhado na lâmina, e abriu a fechadura da prisão.

— Não me diga que estamos naquele esgoto nojento do metrô da Essex Street. — ela lamentou, quando pôs os pés no chão e sentiu pisar em algo asqueroso com o salto da bota.

— Parabéns, você adquiriu poderes telepáticos. Agora me ajuda a tirar essas algemas. — Percy ergueu os braços e Drew caminhou cautelosamente pela sujeira. — Depressa, aquelas duas malucas podem voltar. Jason, ela está ferida?

Jason estava ao lado da Harpia caída no chão. Ele pegou a camiseta e vestiu.

— Nada muito grave, mas pode acordar logo. O que estamos fazendo aqui?

— Tenho um palpite — Percy esfregou as mãos nos pulsos, sentindo um alívio imenso quando as algemas caíram no tanque de água. — Drew, o que você sabe sobre aquele livro que as Harpias roubaram? Tinha algo muito perigoso que possa causar um problema grave?

— Basicamente todas as grandes poções. — eles caminharam para fora daquela sala e seguiram por uma tubulação não muito agradável. — Oh! Darling, você está fedendo.

— É, o banho não ajudou muito. — Percy deu uma risada sem humor. — Eu não entendo, porque eles querem vocês dois?

— Porque eles querem você? — Jason perguntou.

— Sou um presente, sabe, esses monstros se amarram num filho de Poseidon. Meu pai deve ser muito cobiçado.

— Ah! Tá bom. — Jason revirou os olhos.

Não demorou para chegarem onde menos esperavam, a passagem dos esgotos que conectava o Banco Grego.

— Tá de brincadeira, né? — Percy impediu que Drew desse mais um passo, eles se encostaram na parede de musgo do esgoto, a fim de se esconderem de quem vinha do outro lado. Ele levou o dedo até a boca, pedindo para que os amigos ficassem em silêncio.

— Onde está Moros? Temos um horário para seguir. Quero tudo pronto antes da meia-noite.

Drew abriu a boca, mas Percy a silenciou. Aquela era a voz de sua irmã Charlote, que havia lhe atacado e roubado o livro de poções. Assim que a voz de Charlote se afastou, Percy tirou a mão da boca dela.

Son of a bitch. — Drew fechou as mãos em punho. — Eu vou arrancar a cabeça dela e enfiar num espeto, e arremessar no fogo como oferenda para Ares.

— Certo, mas primeiro, vamos tentar descobrir o que essa maluca está planejando. — Percy deu um passo para frente, vistoriando se tinham como sair dali sem serem vistos.

Não houve tempo para criar um plano eficiente. As Harpias já esganiçavam pelos corredores do esgoto até a conexão do Banco Grego, e não estavam sozinhas.

Só houve tempo de Jason reproduzir um redemoinho de vento. Ele gritou que não poderia continuar por muito tempo, visto que ainda estava debilitado e com machucados. Percy mandou que Drew corresse na frente, pois ele ajudaria Jason a se livrar dos monstros.

— Plano B. — ele falou, olhando para Jason.

— Qual é o Plano B? — o loiro perguntou, sentindo dor no braço enfaixado, mas não deixou que a força do vento diminuísse.

— Não sei, falei por impulso. — Percy abriu as mãos, podia sentir o poder da água como da primeira, quando Clarisse o enfrentou no vestiário do acampamento, anos atrás. — Vamos pegar Charlote, o livro e fazer o que a gente sabe fazer de melhor. — Percy olhou para Jason.

— Destruir tudo?

— Isso mesmo.

***

O sinal para apertar os cintos de segurança piscou no painel. Leo Valdez afivelou o cinto, olhando depois para a janela do avião. Era noite, e eles estavam pousando no aeroporto La Guardia. Ao seu lado estava Alex, com um mapa em mãos, compenetrado num plano que discutia com Annabeth.

Leo olhou para os filhos de Atena e pensou que aquelas crianças deveriam ter um idioma próprio, porque não conseguia entender nada do que estavam falando. O moreno então tentou relaxar, mas era impossível. Ele não conseguia parar de pensar em Jason. A culpa o assolava, mas, pior que isso, era o medo de que algo grave acontecesse com ele.

Pensar nas últimas horas que viveram, sem a certeza do que estava acontecendo, deixava Leo ansioso. Depois do desaparecimento de Jason, Drew e Percy, o grupo foi para a cidade mais próxima da estrada. Rachel não teve dificuldades de conseguir apoio do pai. Leo pensou que era bom ter uma amiga com contatos como ela. Pegaram um avião particular em Utah, sem escalas, direto para Nova Iorque.

A dica veio de alguém que menos esperavam. Chegaram no aeroporto e encontraram um homem carregando uma placa e uma cesta com romãs. A placa dizia “o caminho a seguir”, em grego, além da assinatura, uma pequena rosa desabrochada. Não foi difícil todos reconhecerem os símbolos da deusa do amor. Pelo visto, ela estava desafiando a autoridade de Dionísio.

Leo mexeu a cabeça, olhando para trás, encontrou Luke sentado ao lado de Dante, que parecia dormir, mas, na verdade, só estava de olhos fechados, provavelmente fantasiado como ira matar a pessoa que levou Drew embora.

O avião iniciou a manobra de pouso. Para relaxar, Leo começou a pensar nos parafusos e engrenagens que mantinha aquela aeronave no ar. Deu tão certo que, quando Alex o chamou, eles já estavam prontos para sair do avião.

Após saírem, os jovens se reuniram a pedido de Rachel. Já era quase meia-noite, fazia muito frio e uma pequena garoa começou. Leo sentiu a mão de Alex o abraçar na cintura, trazendo-o para mais perto, aquecendo um pouco daquele frio.

— Eu disse que estaríamos aqui antes do sol nascer. Vejam só. — Rachel deu um sorriso esperançoso, ela sabia, mais do que ninguém, que as coisas estavam indo de mal a pior. — Eu recebi a informação de que um helicóptero está à nossa espera, mas, infelizmente, somente cinco de nós poderá ir. Os outros têm que fazer a viagem de carro até Manhattan.

— Vamos nos dividir em grupos. — Annabeth virou-se, Leo notou as olheiras delineadas embaixo de seus olhos, os cabelos presos desajeitadamente, enquanto segurava uma revista que havia sido distribuída no avião. Ele não soube para que ela queria um exemplar da revista naquele momento, mas não parecia ser a coisa mais importante a pensar. — Podemos estar errados sobre onde encontrá-los. Por isso acho que precisamos de toda a ajuda possível. Alex você vem comigo?

— Claro.

Leo ergueu a mão, num impulso.

— Eu gostaria de ir no helicóptero. — ele falou, sentindo que Alex o encarava. — Não quero ser chato, nem nada disso, mas não podemos perder tempo conversando aqui.

— Eu também vou. — Dante deu um passo para frente, não era como se ele quisesse ouvir um não como resposta.

— Eu também vou. Posso ser de alguma ajuda. — Luke falou sério, depois completo. — Se não houver objeções.

— Certo. Então vocês vem comigo. — Annabeth olhou para Butch. — Você pode dirigir o carro e levar os outros? — Butch balançou a cabeça, confirmando.

Annabeth tentou um discurso de motivação, mas a única coisa que conseguiu falar era que cada um se protegesse como pudesse. Leo segurou a mão de Alex, mas eles se separaram quando caminharam apressadamente para onde o helicóptero os aguardava.

Leo sentou-se ao lado de Annabeth, ela ainda segurava a revista que pegou no avião, e durante toda a viagem ficou olhando as páginas da revista. Aquilo o intrigou no começo, mas depois que Annabeth ficou mais tempo em uma página com o anúncio de uma marca de sapatos, Leo começou a entender melhor o que a revista era na verdade.

— Afrodite tem meios estranhos de nos ajudar, mas eu acho que ela jamais permitiria que outra filha talentosa morresse. — Annabeth apontou para o anúncio da página anterior. — Essa é a loja onde Drew costuma comprar roupas, e essa é a marca de sapatos que ela gosta de usar. Todos ficam na mesma rua, próximo ao metrô da Essex Street. — Annabeth virou algumas páginas e apontou para um anúncio de um cartão de crédito. — E aqui está o Banco Grego. Estou com um péssimo pressentimento sobre isso, se Charlote realmente está por trás do sequestro, ela deve ter a ajuda de alguém poderoso.

— Do tipo que fazem a segurança de um banco? — Leo perguntou, mas pelo olhar de Alex, ele já sabia a resposta. — Qual é o plano?



Notas finais do capítulo

Dividi esse capítulo em duas partes porque ficou muito grande.
Tô com pena de escrever o último capítulo UHSUHUHSAUHS estou enrolando :x
Beijocas, obrigada por continuarem e não desistirem.