Ninguém está pronto para a vida escrita por Kori Hime


Capítulo 1
Ninguém está pronto para: Assumir um romance


Notas iniciais do capítulo

"Como fica forte aquele que tem a certeza de ser amado."
Freud, S.

(Imagens utilizadas como meras ilustrações. Nico, Percy.)



Aquela seria somente mais uma noite de fartura à mesa e música em volta da fogueira. Mas era mais do que isso, era uma noite para comemorar a reconstrução do Acampamento meio-sangue. Uma noite de alegria e diversão, ao qual eles celebravam a continuidade de tudo o que conheciam, àquela vida que poderiam desfrutar dali em diante.

As oferendas aos deuses foram grandes e também cada prece eram carregadas de esperança e saudades daqueles que lutaram bravamente e pereceram no campo de combate. Mas lembrados com orgulho, por seus atos de coragem.

Enquanto todos estavam comemorando, do jeito que melhor sabiam fazer, Nico e Percy estavam afastados da festa, próximo ao estábulo. Dava para ver Blackjack se gabando de seus últimos feitos junto à seu boss enquanto algumas éguas relinchavam cheias de fricote. Percy riu, mas era chato quando só ele entendia os cavalos, e ficava rindo sozinho.

Por outro lado, Nico estava silencioso e misterioso. Não muito diferente do que costuma ser. Mas mais do que o normal. Percy bebeu o refrigerante, amassando a latinha depois, ele preferiu não perguntar (novamente) porque estavam ali, já que Nico dissera antes que não era para apressá-lo.

Enquanto Percy esperava Nico tomar coragem e falar de uma vez porque o levou ali, ele subiu na cerca de madeira do estábulo e ficou tomando conta da vida de seu cavalo. BlakcJack não perdia tempo, estava jogando charme para três éguas, e as três pareciam tá caindo na lábia dele.

— Cavalos são espertos. – Pensou alto.

— O que disse?

— Hã? Nada, nada não. – Percy girou o corpo na cerca, deixando os bichos terem um pouco de privacidade. – Você quer me contar alguma coisa?

— Eu? Sim, digo, não. – Nico parecia confuso, por isso Percy desceu da cerca e parou na frente do rapaz, fazendo-o dar alguns passos para trás, virando seu rosto em direção a floresta.

— Ok! Eu estou ouvindo. – Percy cruzou os braços.

— Está bem. – Nico respirou fundo e encarou os olhos verdes de Jackson. – Você sabe que desde nosso retorno para o acampamento... quer dizer, eu não ia retornar se não fosse por você. Digo, todos vocês...

— Já falamos sobre isso. – Percy levou as duas mãos aos ombros de Nico. – Você sabe que eu jamais deixaria você.

— Ja-jamais? – Nico gaguejou.

— Ja-jamais! – Percy riu, mas Nico ainda estava fitando-o sério. Ele entendeu que havia algo mais importante para ser dito. – Você pode confiar em mim e me contar tudo o que quiser.

Nico encheu-se de coragem e jogou o corpo para frente, enlaçando seus braços ao redor de Percy, enquanto um beijo era selado.

A princípio, o filho de Poseidon não entendeu nada do que estava acontecendo. Ele não empurrou Nico, ou foi grosseiro, apenas tratou de segurá-lo, pois da forma como ele se jogou, poderia cair no chão se não fosse amparado. E depois, o beijo. Percy ainda estava de olhos abertos, mas quando os lábios de Nico esquentou os dele, o rapaz fechou os olhos, se deixando levar pelo momento.

No final, quando eles se afastaram, mas não muito, Percy queria dizer alguma coisa, mas estava sem palavras. Quem dirá Nico, que não esperava a recíproca.

Já que ninguém falou, o senhor D. resolveu tomar a dianteira.

— Perry e Nando, é melhor vocês dois voltarem para aquela maldita festa, antes que eu os transforme em um casal de gafanhotos.

O que eles poderiam fazer, senão obedecer o deus?

Vocês devem estar curiosos sobre o que aconteceu depois do pequeno flagrante. Pois muito bem, eu contarei. Eles passaram o resto do verão sem conversar. Pois é. Nico fugiu de Percy como o diabo foge da cruz, ou se preferir, como as amantes de Zeus foge da ira de Hera.

No último dia, Rachel e Percy estavam no topo da colina, sentados na grama. Sem saber com quem poderia conversar sobre aquele assunto, Percy acabou contando para a amiga o que aconteceu com Nico.

Ela não pareceu surpresa, o que deixou o rapaz um pouco desanimado, mas nem tanto. Já que ela era um oráculo, talvez soubesse dos sentimentos de Nico por poder ver o futuro.

— Eu não tenho bola de cristal, Percy! – Zangou-se Rachel, batendo na cabeça dele. – Nico sempre me pareceu um rapaz tímido, mas quando ele está ao seu lado, parece até que vomita arco-íris.

— Não exagera. – Ele a empurrou, sem força, é claro.

— Está bem, não vou dizer que era óbvio, mas eu também não vejo porque a surpresa.

— Como assim? Se uma garota te beijar, você não vai ficar surpresa? – O silêncio foi uma resposta. – Quem?

— Não importa quem foi, ou quando foi... nem o fato dela morar longe daqui. Estamos falando de você. O que você sentiu?

— Sei lá. – Percy se jogou contra a grama novamente, olhando para o céu. – Foi diferente de quando a gente se beijou.

— Ah é? – Rachel deu uma risadinha. – Até que não foi tão mal, sabe.

— Hmm. – Ele não tinha certeza agora. – Também não foi como beijar a Annabeth.

— Oh! – Rachel se mexeu, sentando rapidamente, com as pernas dobradas. Ela encarou Percy ansiosa, estava aguardando por aquela conversa há muito tempo. – Por falar nisso, você não me contou o que aconteceu entre vocês.

— Como eu posso dizer, se nem mesmo eu sei o que aconteceu? – Percy fechou os olhos.

— Alguma coisa idiota você deve ter feito. – Rachel o recriminou, cutucando-o nas costelas.

— Eu juro que não fiz nada (muito) idiota.

— Então ela simplesmente se afastou de você? Sem dizer nada?

— Ela disse que as coisas não eram mais as mesmas, e que precisava de um tempo. Eu não sei o que isso quer dizer, a única coisa que sei é que se alguém tem dúvidas em ficar comigo, porque eu teria que aceitar que ela vá e volte quando bem entender?

— Uau, Percy. Até que o seu raciocínio não está errado. – Rachel deitou novamente na grama, cortando o ar com seu dedo, enquanto desenhava uma das nuvens. – Mas e o Nico? Você não me falou o que sentiu quando o beijou.

— Foi diferente, não ruim, apenas diferente.

— Sei. – Ela deu uma risadinha. – Você tem vontade de ficar com ele novamente?

Percy abriu a boca, mas fechou rapidamente. Ele já havia pensado nisso dia após dia. E a resposta era sim. Sentia tanta vontade, que já estava pensando coisas que não deveria pensar, ou deveria?

O conselho de Rachel foi simples. Conversar era a solução, e se tivesse que experimentar novamente outro beijo, que fizesse. Era fácil para ela, é claro, Percy pensou. Mas não deveria ser assim tão difícil ir conversar com Nico. O mais difícil era achar ele.

Foi como achar uma agulha no palheiro. Mas no final do dia, Percy encontrou-o de pé na frente do rio, jogando algumas pedrinhas na água, enquanto uma nereida saltava para capturá-la, mergulhando novamente na água.

— Finalmente te achei. – Ele disse, dando um susto em Nico. – Foi mal, eu não queria te assustar.

— Eu não me assustei. – Nico mentiu.

— Vai me contar porque está fugindo de mim?

— Não estou fugindo de você.

— Olha, Nico. – Percy sentou-se perto do rio, mexendo na água com a mão. – Eu não tenho ideia do que rolou aquela noite, mas o fato é que você começou com isso. Agora precisa terminar o que começou.

Os olhos de Nico se arregalaram, deixando cair as pedinhas no chão.

— Como assim, terminar o que comecei? – Perguntou, num tom desesperado. Percy compreendeu porque ele se assustou e tentou explicar que não era o que pensava.

— Eu quero dizer que precisamos conversar sobre isso. Você chega e me dá um beijo, sem explicação, não faz sentido.

— Não faz? – Nico, que antes estava com o corpo todo endurecido, pareceu relaxar os ombros. – Aquele beijo não fez nenhum sentido para você? – Agora ele soou incrédulo, quase ofendido.

— Sim, digo... talvez. – Percy esfregou o rosto com as mãos molhadas. – Olha, eu nunca fiz isso antes.

— E você acha que eu já fiz? – Nico estava mais irritado do que envergonhado.

— Não sei, você que me atacou.

Percy se levantou e riu, Nico queria acertar um soco no queixo dele, mas antes que pudesse pensar em mais alguma coisa, recebeu um beijo. E dessa vez não foi um beijo assustado (embora Nico sentisse as pernas bambear), foi mais um beijo carregado de desejo. Ele ainda ficou de olhos abertos por alguns segundos, mas acabou cedendo e deixando Percy abraçá-lo na cintura.

Depois que o beijo acabou, Percy ainda estava com suas mãos em volta do corpo de Nico.

— Ah, é! Eu acho que gostei disso.

— Você acha? – Nico empurrou-o. – Não me use para seus joguinhos idiotas, Jackson.

Percy coçou a cabeça.

— Eu to ficando confuso. Não era para gostar?

— Claro que não!

— O que?! Como assim não?

— Não era para você gostar! Não era para você deixar isso acontecer! Não era para você sequer saber isso... – Ele articulou com mãos, braços, pernas e cabelos sacudindo. – Era para você me ignorar, me odiar e nunca mais olhar na minha cara.

Depois que Nico desabafou, ele caiu sentado no chão, sem forças para nada. Percy sentou ao lado dele. Ergueu a mão para passar sobre a cabeça dele, mas desistiu, porque não sabia se seria bem recebido. Que confusão.

Ficaram ali em silêncio, até o por de sol. Já estava escurecendo, quando Percy cansou de esperar.

— Eu vou voltar para Nova Iorque. Você pretende permanecer aqui?

Num suspiro, Nico respondeu: – Vou para casa.

Casa, ou mundo inferior. Como preferir.

— Se quiser pode ir me visitar.

— Sei...

— A gente pode ir no cinema, sei lá...

— Hmm.

— Eu vou ter que falar isso ao pé da letra? – Percy jogou a cabeça para trás, olhando as estrelas. – Não sou muito bom com as palavras.

— Tente. – Nico di Ângelo desafiou, observando o céu estrelado ao qual Percy tanto olhava.

— Eu não sei, Nico. – Ele desviou o olhar. – Me faça entender o que está acontecendo.

O rapaz não respondeu de imediato, ele apenas deitou a cabeça no ombro de Percy, não havia pressa. Pelo menos não até ouvir, pela segunda vez no mesmo mês, uma ameaçada vinda do diretor da escola.

— Será possível que ele está em todo lugar? – Percy resmungou.

— Sim! Eu estou. – D. respondeu. – E não sou surdo, Peter, agora andem logo.



Notas finais do capítulo

Só para esclarecer uma coisa aos leitores, eu não li a Saga Herois do Olimpo totalmente, parei no começo do livro A Casa de Hades. É por isso que alguns personagens como Will Solace não aparecem nessa fanfic. Assim como alguns outros fatos não seguem os acontecimentos do final dessa Saga.

Agora sim, podem comentar.