Dona Distância - 1ª Versão (HIATOS) escrita por Capitã Sparrow


Capítulo 3
Capítulo 3


Notas iniciais do capítulo

Desculpa gente!!! >< Mil desculpas do fundo do meu coração... Eu sei que demorei milênios, mas eu estava com dificuldade de escrever sobre o Sr. Tempo, com bloqueio e cheia de problemas ;-; Espero que gostem...
(Será que ainda tenho leitores?)



As tímidas gotas de chuva começaram a cair de repente, surpreendendo as pessoas que passeavam pelo parque naquele domingo. Enquanto as mães começaram a arrastar seus filhos em direção à saída, sem se importar com as birras e protestos, os idosos guardaram suas cartas e tabuleiros de xadrez com certa má vontade, antes de fugir da chuva gelada em seus passos não tão rápidos.

Em poucos minutos o parque tornou-se deserto, ou quase. Uma figura de paletó preto e calça jeans encontrava-se em um dos bancos do parque, apoiado numa espécie de bengala comprida em um tom escuro de marrom e observava calmamente as árvores mortas do outono.

Seus olhos frios percorriam o cenário com certo ar de superioridade, como se tudo aquilo fosse irrelevante. A chuva parecia não incomodá-lo. Teria permanecido ali se não fosse por um galho se soltar da árvore morta que cobria parcialmente seu banco. Apenas ergueu o braço interceptando a queda, sem esforço algum e largou-o ao lado. Vendo assim, ninguém diria que o galho pesava mais de cinco quilos.

Levantou-se impassível apoiando-se na bengala elegante. Passou os dedos magros e compridos pelo cabelo levemente grisalho e fechou os olhos com um suspiro entediado. Permaneceu assim por alguns segundos, quando algo atravessou seus pensamentos. Torceu seus lábios finos em um pequeno sorriso de lado e ajeitou seu paletó. Seus olhos carregavam um brilho arteiro que só crianças conseguiam ter. Senhor Tempo era um ser imortal muito antigo, sem limites, sem cansaço, sem chatices, sem idade. Apesar de existir a muito tempo, não agia como um velho, às vezes parecia uma criança impulsiva. Ninguém poderia definir Tempo, a não ser ele mesmo.

Levantou a bengala e cortou o ar como se ela fosse uma espada. De imediato um rasgo surgiu entre as árvores do parque e nele podia-se ver um pedaço de constelação. Tão próximo que se ele esticasse os dedos poderia tocá-la.

Ele olhou para trás sentindo a brisa fresca da chuva contra seu rosto molhado, causando-lhe um pequeno arrepio, apoiou-se novamente na bengala e com um passo entrou na fenda que abriu. Quando seu corpo atravessou-a por completo, o portal se fechou, voltando tudo como era antes.

***

Assim que conseguiu o que queria com seu velho amigo, Morfeu, seguiu seu destino sem ao menos se importar como que aconteceria se Morte, sua atual companheira, faria se descobrisse sua pequena visitinha à Lonjura.

Andou pelo reino cumprimentando seus velhos conhecidos, Smelly, Chess e Black, os gatos mais loucos e interessantes de todo o domínio de Distância. Eles poderiam passar horas e horas contando suas aventuras e você nunca se cansaria de ouvi-los.

Seguiu até a porta de madeira entalhada e apertou a campainha, esperando pela excêntrica mulher do seu passado. Ou talvez do seu futuro. Presente, quem sabe... Tempo era dono de si mesmo. Ele e apenas ele poderia definir passado, presente e futuro.

Levou o girassol aos lábios sentindo o cheiro de Distância emanando dele. O aroma era levemente adocicado e estava misturado a um cheiro quase imperceptível que poucos poderiam decifrar, cheiro de um sonho recentemente roubado. Fechou os olhos e esperou pacientemente.

***

Dona Distância estava petrificada e seus pensamentos voavam a mil.

Seus olhos arregalados demonstravam mais que surpresa, era um misto de raiva a muito guardada e receio, que podiam ser facilmente confundidos com aversão. Ele, mais que qualquer outro, a conhecia, sabia interpretar desde seu mais simples gestos até o olhar mais misterioso. Isso a intimidava.

Um turbilhão de pensamentos passavam pela sua mente, atropelando uns aos outros, tornando o raciocínio impossível. Ela não sabia o que fazer nem o que dizer. Aquela situação acontecera tantas vezes em seus sonhos que os havia abandonado no Sonhar, o reino onde os sonhos acontecem, para evitar seu sofrimento e desespero. Para esquecer.

E agora ele havia voltado! Como se nada tivesse acontecido, cheio de poses, sorrisos e palavras sedutoras. Se ele queria deixar Distância louca, estava perto de conseguir.

– Não vai me convidar para entrar? – disse interrompendo os pensamentos de Distância. Ela percebeu que não havia falado uma única palavra então murmurou roucamente:

– O que você veio fazer aqui? – Não conseguiu esconder o descontentamento.

– Nossa Lonjura. Para que toda essa aversão? Eu apenas vim deixar essa flor. Estava por perto e lembrei de você.

Distância odiava quando ele a chamava de Lonjura, sempre foi o apelido que ele mais usava para atormentá-la. Fechou a cara e cruzou os braços, como uma criança descontente, fazendo-o sorrir ainda mais. Ela sabia que essa flor não se achava em qualquer lugar e que ninguém nunca está “por perto” do seu reino distante. Mas antes que pudesse dizer algo, viu Solidão entrando na sua frente numa posição defensiva.

Solidão estava carrancuda, de todos os seres desprezíveis e rastejantes, Tempo era o que mais odiava. Tempo sempre fora extremamente vaidoso. Apesar de aparentar mais de cinquenta anos, agia como um jovem imaturo. Usava seu usual paletó preto com calça jeans, como se fosse um jovenzinho de 19 anos. A camisa púrpura estava pra fora da calça e os dois primeiros botões abertos, o que fez Solidão contorcer o rosto em desaprovação.

– Deselegante como sempre Tempo. Está interrompendo uma reunião importante. Vá embora. – disse rispidamente.

Ele a ignorou completamente, apenas piscou para Distância:

– Voltarei outro dia quando não estiver com tal companhia desagradável. Adeus doçura. – disse aparecendo atrás dela e beijando-lhe o topo da cabeça.

– Mas como.. ? – Solidão ficou atordoada.

Antes que pudesse protestar, Tempo desapareceu, deixando apenas o imenso girassol aos pés das duas. Distância curvou-se para pegá-lo e respondeu a amiga que estava irada, com todos os motivos:

– Ele faz isso às vezes. – foram as únicas palavras que Distância conseguiu proferir, depois do beijo. Ele tinha essa capacidade de deixa-la sem palavras, sem ritmo, sem reação. E de certa forma, ele conseguia preencher todos os espaços vazios.



Notas finais do capítulo

Curiosidade: Smelly, Chess e Black são referências ^-^ O primeiro á uma música da série Friends (Smelly Cat da Phoebe), o segundo de Alice no país das maravilhas e o terceiro ao Negro Gato (música do Roberto Carlos), pq eu amo esses gatos !!! :3