O Lado Bom De Ser Invisível escrita por Maga Clari


Capítulo 6
Capítulo 6 - Vamos tentar de novo




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18 de Setembro de 1991

Querido amigo,

Acredita que o Charlie não me chamou para a festinha deles? Pensei que eu fosse amiga dele, sabe. Depois de tudo, ele ainda faz isso, cara. Se bem que talvez eu só esteja projetando Craig nele... Talvez eu tenha que ir com calma, ele não é Craig.

Em todo o caso, ainda não me decidi se vou voltar à escola ou não, embora eu esteja tendenciosa a ir. Talvez seja bom voltar à vida normal de vez em quando... E por falar nisso, soube que vai ter um concurso para o próximo elenco na Brodway e eu queria muito entrar.

Eu não tenho muita certeza se tenho todo esse talento, mas eu adoraria tentar. Os testes começam em duas semanas, mas eu ainda não tenho parceiro... Você acha que eu devia chamar o Charlie? Sabe, com toda aquela experiência no Horror Picture Show e coisa e tal?

Mas pensando melhor, não. Ele nem é meu amigo mesmo... Te falei que estou dando um gelo nele? Eu achava que por ser uma pessoa como eu, ele entenderia como funciono e não faria esse tipo de coisa...

Preciso terminar esta carta logo, hoje o Craig vai vir me buscar para passear e eu tenho que estar pronta em meia hora. Ops, 20min, perdi tempo demais escrevendo. Enfim, espero que tudo volte a ser como antes, sinto a falta dele mais do que tudo.

Prometi a ele que iria me comportar, mas é muito difícil, sabe. Principalmente porque meu melhor amigo se foi, a comida daqui é ruim, e Bobby gosta tanto quanto eu de aventuras.

É realmente tentador quebrar as regras.

"Noelle, Craig no ramal 2"

Ouvi a enfermeira gritar. Agora é realmente sério, vou terminar de escrever e atender o telefone. E se ele já estiver aqui??? E eu com essa cara e roupa de quem acabou de acordar!

Com amor,

Noelle

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20 de Setembro de 1991

Querido amigo,

Eu não como há três dias, e não vou à escola também. Por que será que sempre que acontece algo de bom na minha vida tem que ser destruído logo depois? Já liguei para todo mundo e ninguém me perdoa. Disseram para eu parar de me humilhar; mas é tão difícil...

Parece que dessa vez eu pareço ter voltado e regredido todo o tratamento médico. Não tenho ânimo nem mesmo para abrir a janela, afinal, para quê abri-la, não é?

Ontem, a enfermeira veio e me obrigou a tomar banho. Tiveram que me dar uma injeção calmante, senão eu não iria nunca. Pois então... É assim que anda minha vida desde aquela fatídica festa. Às vezes, fico pensando que eu devia fazer uma promessa na igreja e nunca mais ir a festa alguma.

O que me lembra das minhas idas a igreja com a tia Helen, e da hostia. Como era mesmo o gosto? Acho que parecia bolo. Mas eu não gostava não. Aliás, eu não sei direito, algumas das minhas lembranças ainda são confusas... Misturam-se umas com as outras, sei lá.

"Charlie, você tem visitas", ouvi a enfermeira dizer.

"Manda embora"

"É a sua irmã. Não vai mesmo recebê-la?"

Pensei por alguns instantes, hesitantemente, e afirmei um 'sim' com a cabeça. Gosto de conversar com ela.

"Oi Candace"

"Hey, Charlie"

Ela tinha uma expressão tristonha no rosto e eu perguntei o que tinha acontecido. Ela me contou tudo sobre o Derek rabo-de-cavalo, e como ele continua batendo nela e que estava pensando em terminar, mas tinha medo. Fiquei triste pela minha irmã. Ela não era como a tia Helen, ela tinha medo.

Quando eu me casar, eu nunca vou bater na minha esposa. Eu vou amá-la tanto que isso nunca iria passar pela minha cabeça. Talvez eu a ame até mais do que a mim mesmo.

Isso se eu estiver bem até lá, né?

Com amor,

Charlie

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22 de Setembro de 1991

Querido amigo,

Desisti de ficar com raiva do Charlie. Ele não dá sinal de vida faz cinco dias!!

Ele não apareceu no refeitório, nem nas oficinas de recorte e música, nem mesmo no terraço!! Estou começando a me preocupar e me sentir culpada por não procurar por ele antes. Tenho medo dessas coisas, sabe? Se bem que se algo tivesse acontecido, já teriam avisado, não? Ou teriam me poupado justamente por causa do meu quadro??

"Vai ficar tudo bem", Craig me disse quando liguei para ele mais cedo, "Já procurou no quarto dele?"

"Está sempre trancado, Craig"

"Hum", ele hesitou no outro lado da linha, "Converse com a médica dele, sei lá"

"Você não sabe o histórico dele, Craig, você não está entendendo a gravidade do problema"

"Eu não entendo?!", ele aumentou a voz, "Eu quase me atirei daquela ponte, sei bem do que você está falando! Agora, se realmente você acha que ele é tão importante assim, vai lá e procura, mas que saco!"

E ele bateu o telefone.

Nunca imaginei que brigaríamos por algo assim antes. Fiquei lá, pensando no que ele disse, e resolvi ir atrás do Charlie. Agora estou na anti sala da médica dele, esperando um paciente sair. Acho que ouvi uma tranca girar, deve ser minha vez.

Espero que dê certo, me deseje sorte.

Com amor,

Noelle

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23 de Setembro de 1991

Querido amigo,

Ontem eu fui surpreendido por mais uma visita: Noelle. Me senti extremamente desconfortável por ela me ver naquele estado; eu tinha olheiras, a boca seca, e um monte de tubos saindo da minha veia.

"Olá", respondi, cansado, "Tá fazendo o quê aqui?"

"Fiquei preocupada com você", ela sentou na beira da minha cama e passou as mãos em meu cabelo, "Não suma mais assim, okay?"

"Pensei que estivesse brava comigo"

"No começo, até estava, mas era ciúmes idiota, esquece isso"

Então ela sorriu e começamos a conversar. Noe me falou sobre o concurso que queria muito participar, sobre a reação do Craig no telefone, e sobre como amou voltar à escola.

"Charlie, a sensação de voltar a viver de verdade foi tão boa... Não quer mesmo sentir isso outra vez?"

Pensei em como havia sido minha vida até hoje. Pensei no Michael, na tia Helen, nos dias do futebol na tv com minha família. Pensei nos meus aniversários e no dia do túnel.

Comecei a sorrir, mas um outro pensamento veio à tona. A noticia do Michael. Darek rabo-de-cavalo batendo na Candace. O namorado da tia Helen fazendo o mesmo. Os garotos me prendendo no armário. O meu aniversário de nove anos. Vai ser nosso segredinho. Mary Elisabeth mandando eu parar de me humilhar.

"AAAAAAH!"

Me encolhi na cama, abraçando as pernas, e chorando. Noelle me abraçou forte e perguntou o que foi. Eu não consegui dizer nada por um bom tempo, mas cerca de 15min depois, expliquei tudo. Existe tanta dor nesse mundo, que talvez seja melhor mesmo ficar aqui.

Ela acabou me convencendo a tentar de novo. Disse que também se sentia assim durante todos esses anos até agora.

Vamos tentar de novo amanhã.

Me deseje sorte.

Com amor,

Charlie

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