O Lado Bom De Ser Invisível escrita por Maga Clari


Capítulo 5
Capítulo 5 - Beijos e despedidas




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10 de Setembro de 1991

Querido amigo,

Craig está arrumando as coisas dele agora. Os pais dele vão chegar no fim do dia para levá-lo embora. Estou escrevendo enquanto ele faz isso, não quero atrapalhá-lo. Ontem de madrugada, eu bati na porta dele, meio chorosa, e insisti que me deixasse entrar. Pedi desculpas pelo meu sumiço e falei que fui burra, eu devia era ter aproveitado os últimos dias dele aqui, mas eu sempre faço a coisa errada.

Passei a maior parte da noite acordada, guardando cada detalhe do meu melhor amigo. Ele deixou que eu repousasse minha cabeça em seu ombro enquanto tentava me garantir que continuaríamos amigos, independente de qualquer coisa. Lembro dele ter dito que eu devia me comportar e fazer o possível para sair daqui também, e assim a gente poderia se encontrar fora desta clínica. E então beijou meu pulso e pediu para eu nunca mais fazer aquilo outra vez.

Eu disse que ia fazer o possível. O problema é que minha cabeça está a mil por hora desde que eu soube que Craig ia embora. Eu não estou mais preocupada em tomar remédio nenhum, nem lembro de comer, sabe. Mas, por favor, isso fica entre nós; ninguém pode saber, okay?

Enfim, o resto da noite (ou melhor, começo da manhã) foi dolorosa, porém divertida. Lá pelo nascer do sol, eu levantei num pulo e procurei o violão dele.

"Onde que está?"

"Ah, deve estar por aqui", ele se abaixou e procurou embaixo da cama, "O que você está pensando em fazer?"

Sorri enquanto subia no gaveteiro próximo à janela. Ele ria do que quer que eu fosse fazer. Dei uma piscadela e comecei a dançar e tocar.

"UNDER PRESSURE?!"

"SIM!"

Foi aí que Craig se juntou a mim, cantando. No primeiro dia que nos conhecemos, na oficina de música, cantamos isso juntos. Foi muito divertido. Nós fingimos que éramos estrelas do Rock e tals. Hoje, meses depois, aquilo parecia algo muito distante...

Preciso terminar esta carta antes que eu chore novamente. Preciso do meu amigo de volta.

Com amor,

Noelle

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11 de Setembro de 1991

Querido amigo,

Eu odeio este hospital.

Depois da apresentação do Horror Picture Show, eles me prenderam nesta maca com uma camisa de força. Você deve estar se perguntando o porquê, né? Bom, digamos que eu perdi o controle depois de ouvir a tal música.

Primeiro, eu meio que perdi os sentidos e nem terminei de te escrever. Depois, acho que saí batendo nos caras que estavam tocando a música. Não lembro muito bem. Sam e Patrick conseguiram me alcançar na rua, quando eu já estava querendo tirar aquela melodia da cabeça o mais rápido possível.

A última coisa que me lembro foi a Sam tentando parecer calma e dizendo que tudo ia ficar bem e que ia me trazer de volta ao hospital; só que eles fizeram isso comigo. Tudo bem, não posso culpá-los, eu realmente devia estar agressivo, ou algo assim.

Eles só me liberaram para sair, escrever e receber visitas hoje. Meus pais apareceram e meus amigos também. Eu lhes contei a história toda da música e eles me prometeram nunca mais tocar. Agradeci profundamente.

Até mesmo Noelle apareceu aqui. Eu disse que sentia muito pelo Craig. Ela disse que tudo bem, que eu não precisava me preocupar com ela. Conversamos bastante e ela me confessou que sentia um pouco de falta de ir à escola. Eu disse que ela poderia ir comigo um dia desses; de repente eu não me sentiria tão sozinho assim.

"Ah, Charlie", ela hesitou, "Eu não tenho permissão para sair. Eu só saio escondido"

"E daí?"

"Você não está pensando..?"

"Estou sim"

Pois é isso. Amanhã vamos os dois para a escola, vai ser super legal! Eu até te chamaria, mas eu sei que você não iria querer sair com pirralhos, como nós. Se bem que eu nem mesmo sei a sua idade. Talvez você seja até mais novo que eu. Mas isso não importa, o que mesmo importa é que você me entende.

Muito obrigado. De verdade.

Com amor,

Charlie

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12 de Setembro de 1991

Querido amigo,

Hoje estive numa aventura! Às 6 e meia eu já estava esperando Charlie e Bobby na frente da sala de artes. Depois de quase um ano eu estaria de volta à escola, isso era demais para mim.

"Hey maaan", Bobby fez um sinal de 'paz e amor' assim que Charlie apareceu.

"Hum, hey. Sou o Charlie"

"Bobby. Às suas ordens"

Acho que demorou para ele cair a ficha de que Bobby era realmente maluco. Cerca de alguns segundos depois, todos nós estávamos rindo. Colocamos nossas vestes de hospital e saímos sem ninguém perceber. Algo me dizia que a mente de Charlie estava maquinando alguma coisa. Então eu perguntei e ele respondeu.

"Noe, este é o 'Bob' da festa?"

"Da festa que você NÃO foi? Sim, é ele"

Charlie começou a rir.

"Noe, eu fui à festa de outro Bob. E se escreve B-O-B, sem o Y. Acho que foi um mal entendido. Por falar nisso, posso te apresentar a ele hoje se quiser"

Ai meu Deus, eu sabia que tinha algo errado nessa história. Então ele não era um mentiroso, afinal de contas. Que bom. Chegamos na escola e eu tive que me esconder no banheiro durante as aulas para não sermos pegos. Lembro que eu costumava ir para lá quando me sentia triste. Te contei que Charlie estuda onde eu também estudava? Coincidência, não é?

Gostei dos amigos dele. Parecem ser legais. Achei engraçado o jeito como Charlie baba enquanto olha para Sam. É hilário, sério.

Patrick é totalmente sem noção, Bob também. Na verdade, todo mundo ali era! Acho que já vi Mary Elisabeth em algum lugar antes...

Em todo caso, me deu muita vontade de voltar lá. Mas medo também.

O que eu faço agora? Preciso dos seus conselhos.

Com amor,

Noelle

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16 de Setembro de 1991

Querido amigo,

Me desculpa ter passado todos esses dias sem escrever. Mas é que eu sou mesmo um idiota.

Antes de ontem, demos uma festa na casa de Sam e Patrick. Pra começo de conversa, esqueci de chamar Noelle e aposto que é por isso que ela não me procurou mais. Além disso, fiz o que o cara mais burro do planeta faria. Vê se tenta me entender:

Há alguns dias, Mary Elisabeth me chamou num canto e me pediu para ir com ela no baile 'a garota escolhe' e eu aceitei. Eu nunca tinha ido a um baile antes, talvez fosse minha primeira e única oportunidade. Mas eu nunca gostei dela mais do que como amiga, entende? Pois parece que ela não entendeu.

Eu queria mesmo era ir com a Sam. Mas ela não me chamou. Ela foi sozinha porque o namorado dela, Craig - e não, não falamos do mesmo Craig do hospital, pelo amor de Deus não confunda - não quis ir a um baile idiota de escola.

Ela disse que estava feliz por mim, por meu primeiro baile e meu primeiro encontro. Sim, amigo, eu nunca namorei antes. Meu primeiro beijo foi com Sam, só que ela apenas queria que eu me sentisse seguro, só isso. Foi naquela festa que eu te falei, lembra? Ela disse que 'meu primeiro beijo devia ser com alguém que me amasse', mesmo se não fosse daquele jeito.

Acontece que depois daquela noite eu não pude mais vê-la de outra forma, muito menos esquecer aquilo. E foi então que eu fiz a tal besteira. Há dois dias, estávamos eu, Sam, Patrick, Mary Elisabeth, Alice e Bob, jogando o jogo da garrafa.

"Então... Vamos ver... Charlie!", Patrick sorriu um sorriso meio psicótico para mim e continuou, "Como vai o relacionamento entre você e Mary?"

Sim, meu amigo, estávamos namorando e eu nem sabia.

"Está tão ruim que às vezes fantasio que um de nós está morrendo de câncer"

"Charlie. Verdade ou desafio. Dãã"

"Ah, é", as pessoas todas riram, "Desafio então".

"Eu te desafio a beijar a garota mais bonita desTa casa. Reparem que eu disse 'garota' ao invés de 'pessoa', senão eu ganharia de todas vocês, bitches"

Como num impulso, levantei e beijei Sam. Ela olhou para mim atônita. Todos levantaram, inclusive Mary (que por sinal estava chorando), e me mandaram ir embora. Me expulsaram, para ser mais específico. Agora, ninguém mais fala comigo.

E isso está me matando.

Para piorar, nem Noelle está falando comigo!

Eu sou uma pessoa horrível. Eu devia ficar aqui para sempre e nunca mais atrapalhar a vida de ninguém. Nem a sua.

Me desculpa.

Com amor,

Charlie

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