O Lado Bom De Ser Invisível escrita por Maga Clari


Capítulo 4
Capítulo 4 - Segredos de Noelle


Notas iniciais do capítulo

Desculpa pela demora, mas já está aqui. Boa leitura :)



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5 de Setembro de 1991

Querido amigo,

Desculpa a demora, mil perdões. Mas tive uma pequena impressão de que a doutora Minerva viu de relance aquela última carta. Bom, acho que ela não viu mesmo porque ela nem tocou no assunto, porém, resolvi ser mais cuidadosa. Você sabe o quanto é importante para mim e eu não quero nem pensar em te perder.

Enfim. Estou escrevendo hoje para contar a novidade: o tal garoto esquisito veio falar comigo. Sério! Nem eu acreditaria, por isso estou anexando uma foto nossa, pode conferir! Haha.

Eu estava almoçando no refeitório, como sempre, com Craig e Bobby, quando ele me apareceu. Estava meio nervoso, coçando atrás da cabeça e tentando achar as palavras certas, presumo eu.

"V-você pode vir aqui um instante?"

"Claro"

Levantei surpresa, ouvindo as babaquices de Bobby; ele dizia coisas do tipo 'corra Craig, ou vai perder sua garota'. Não sei mesmo de onde ele tira essas coisas. Até porque seria estranho, Craig tem a Nia.

Em todo caso, o tal garoto - que descobri que se chama Charlie - falou que estava me procurando o dia todo, até lhe informarem que eu estava ali. Ele pediu desculpas por não ter me respondido, mas afirmou ter ido à tal festa.

Tudo bem que foi legal da parte dele aparecer, mas ele está mentindo. E eu odeio mentiras.

Eu pedi que ele me mostrasse a carta só para conferir se eu tinha dito tudo certinho mesmo, mas ele a tinha deixado no quarto. Típico. Eu fui embora, sem nem olhar pra ele, apressadamente pelo corredor. Minhas mãos procurando tremulamente pelo masso de cigarro.

"Ei, ei, espera", ele apareceu, ofegante, ao meu lado, "Eu estou dizendo a verdade e... Espera, você fuma?"

Dei de ombros e estendi-lhe a cartela. Passamos uns bons 15 minutos no silêncio. O vento do telhado bagunçava nossas roupas. Jogamos as cinzas e o que restou dos cigarros muro à baixo. Algo na cara desse garoto me diz que ele estava falando a verdade. Mas por que eu insisto em achar que não? E por que eu me importo tanto assim?

Me ajuda, por favor! Se descobrir alguma coisa, me fale.

Com amor,

Noelle

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6 de Setembro de 1991

Querido amigo,

Continuo indo à escola e ficando no hospital o resto do dia. Sam e Patrick realmente são as melhores pessoas do planeta, sério. Eles alegram meu dia e de repente a escola não me parece mais tão chata. Mas só nos intervalos, claro, porque o resto da manhã continua como se não houvesse mudado nada. O mesmo idiota de sempre, fazendo as coisas de sempre, sem o clone que o seguia. Mas eu gosto de pensar que na vida nada se perde, tudo se transforma, como já dizia aquele filósofo. Mas no meu caso, eu acrescentaria uma coisinha a mais: quando algo se "perde", recebemos uma compensação múltipla. E a minha eu chamo de Pat, Sam, Alice e Mary Elisabeth.

Minha médica está feliz por mim. E ela disse que em pouco tempo já o terei esquecido, mas que por enquanto, eu devia continuar te escrevendo. Só que eu gostei mesmo de você... Não sei se te deixarei tão cedo. Em todo caso, lembra daquela garota que te falei? Noelle? Eu realmente acho que tem alguma coisa errada... Eu fiz uma lista com minhas suposições:

1- Me deram aquele bolo de novo, dessa vez tão forte que eu nem me lembro de ter comido.

2- É algum tipo de pegadinha e a qualquer momento alguém vai gritar "Te pegueeeei" e vai aparecer o elenco todo de Saturday Night Live dizendo que sou o novo participante especial do programa.

3- Não tem três, eu sou Charlie, o menino que só arruma situações estranhas e que ninguém nunca explica nada!

Como assim estivemos na mesma festa sem sermos vistos?? Como assim ela não acredita em mim?? Ontem fui me desculpar, mas eu a chateei ou algo assim. Fomos até o telhado. Aquele mesmo telhado onde nos vimos uma vez. Ela me deu um cigarro, o que achei extremamente estranho. Mas eu aceitei por educação. Conversamos finalmente, e eu pude desabafar um pouco. Eu disse que a apresentaria a meus amigos e eles confirmariam que eu estive na festa, mas ela disse para eu deixar pra lá e que eu parecia ser legal.

Ela pegou o celular dela (sim, ela tinha um celular!) e tirou uma foto nossa. Eu tentei sorrir.

Nunca tinha visto um celular tão perto antes, essas coisas são super legais mesmo.

"Se importa?"

"Er... Tanto faz, pode ser", no 'xis' ela apertou o botãozinho e apareceu nossa imagem estática na tela. Acho que ganhei mais uma amiga. Eu acho.

Estranho como minha vida deu um loopping de uma hora pra outra, né? Mas nem se preocupe, não vou te esquecer.

Com amor,

Charlie

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8 de Setembro de 1991

Querido amigo,

Não sei porque estou te contando isso, mas eu estou entendiada e não tenho ninguém para conversar, de todo jeito...

Enfim.

A Nia veio ontem aqui visitar Craig. Ele ficou muito animado, e eu fico feliz por ele, sabe. Só que sempre que ela aparece, Craig esquece de mim, entende? Eu não gosto dele do jeito que você está pensando, mas gosto da companhia dele. Este hospital consegue ser chato de vez em quando; e não tenho muitos amigos aqui. Bobby me levou para tomar sorvete escondido esses dias e, graças a Deus, não nos pegaram. Demos boas risadas depois disso. Bobby se superou no disfarce dessa vez: até eu mesma parecia uma médica de verdade.

"Bom dia, senhor Williams"

"Bom dia, senhora Rivers"

Foi hilário, sério. Eles nem sacaram que nos nossos crachás tinham nomes falsos!

Em todo caso, Bobby é um fofo por tentar evitar minha depressão, afinal, é por isso que estou aqui, não é? É muito difícil, sabe? Por isso eu tenho medo de ter auta, porque aqui eu tenho gente que se importa. Mas e lá fora? Como fica? Vai voltar tudo de novo, tenho certeza. E estou te escrevendo exatamente para dizer o porquê da visita da Nia: Craig vai ser liberado. Como eu vou ficar sem ele? Eu dei um gelo nele todos esses dias.

Você acha que fiz certo?

Olha, ontem eu estava sentada no banquinho de entrada do hospital quando Charlie apareceu. Enxuguei meu rosto correndo antes que ele me visse chorar. Só que ele viu algo muito pior.

"Hey Noe", ele sorriu e sentou ao meu lado, "Espera, o que é isso no seu braço?"

Esqueci das malditas mangas! Xinguei a mim mesma mentalmente por isso. Bom, uma hora ele ia descobrir, né? Aposto que Charlie não deve ser tão são assim para estar aqui também, talvez ele nem tenha achado tão estranho. Agradeci internamente por ele ter apenas me abraçado de lado sem precisar dizer nada. Nós nos entendemos e isso é bom. Eu acho.

Talvez eu o tenha julgado mal, o que você acha?

Com amor,

Noelle

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9 de Setembro de 1991

Querido amigo,

Prometi a mim mesmo (e à própria Sam) que pararia de pensar na Sam daquele jeito. Ela tem namorado. E isso basta. Mas meus sonhos e devaneios são inconscientes,n ão consigo controlar; por mais que eu queira. Pior ainda quando a pessoa em questão anda todo dia comigo, né? Por falar nisso, o pessoal me chamou para assistir o ensaio e a apresentação do Horror Picture Show e eu vou. Será super legal. Patrick é divertido demais nesse papel, você devia ir lá algum dia, o que acha?

Eu estou escrevendo diretamente dos bastidores, me sinto uma celebridade. Ou quase isso. Bom, mudando de assunto, esses dias eu me senti super mal pela Noelle. Eu tinha ido ao portão da clínica tomar um ar quando eu a vi sentada sozinha. Pensei tê-la visto chorando, então me aproximei para ter certeza. E de repente, meus olhos bateram em alguns arranhões na pele dela; coitada. Fiquei paralisado. Pensei no Michael de novo. Eu fiquei tão mal que não consegui abrir a boca para dizer mais nada; meus sentidos involuntários a envolveram num abraço, mais para o meu conforto do que para o dela.

Por que as pessoas ficam tristes? Por que não somos todos felizes sempre, de uma vez? Não é justo. Ou talvez seja, senão não teria graça, não é? Tudo ficaria fácil demais...

Preciso terminar logo, o pessoal aqui está quase pronto para atuar. Já gritaram coisas como:

"Charlie, larga esse papel"

"Charlie, vai perder a maravilhosa visão sexy de mim no palco?", Okay, essa foi o Patrick. Haha.

Espera... Eles estão aquecendo com aquela música... A música do Michael... Ai meu Deus, minha cabeça está doendo de novo e parece que está cheio de vozes e imagens rodando. Só consigo ouvir palavras soltas do tipo "Charlie"; "Bem?"; "Levanta"; "Me ajuda?", mas eu não consigo desgrudar da cadeira, nem largar a caneta do papel.

Com amor,

Cha

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Notas finais do capítulo

Espero que tenham entendido. Para aqueles que não entenderam, o Charlie nem sequer terminou a carta, vejam que ele assinou "CHA" ao invés de "CHARLIE". Fica à imaginação de vocês o que quer que tenha acontecido! ^^



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