O Lado Bom De Ser Invisível escrita por Maga Clari


Capítulo 12
Capítulo 12 - Eu preciso de você




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25 de Outubro de 1991

Querida Sam,

Eu sei que é você.

Não adianta perguntar como eu sei. Eu apenas sei. Deu pra entender? Para começo de conversa, eu conheço sua letra, Sam. Eu sou um observador, lembra? Patrick me disse isso uma vez, na minha primeira festa. Logo quando a gente se conheceu. Nas palavras dele, eu vejo tudo, percebo tudo. E eu não suporto o fato de não conseguir controlar meus impulsos. Eu continuo pensando em você daquele jeito, não se preocupe. Se bem que eu não sei mais o que você quer...

Escuta, Sam, eu reconheci a sua letra justamente pelo fato de eu prestar atenção em tudo, principalmente em você. Eu sei que você usa shampoo sabor rosas e que seu perfume é o mesmo que a mulher da televisão diz que vai deixar você mais feminina e que vai te levar pra comer comida chique em Paris. Eu sei que você usa esse corte de cabelo porque é mais prático e não precisa pentear todos os dias e mesmo assim vai parecer bonita.

Eu também sei que namora o idiota do Craig porque você aceita o amor que acha que merece. O Bill me falou isso uma vez. E acho que se aplica direitinho, sabe. Só que ele NÃO te merece. Ninguém que faça o que ele fez mereceria. Noe me contou sobre o caso dele e resolvemos espioná-lo, tirar uma foto e depois mostrar pra você.

Sam, eu sei mais sobre você do que sobre mim mesmo. Na verdade, eu nem sei quem eu sou direito. A única vez que me senti alguma coisa foi naquele dia, no túnel. E pronto. E me odeio por te fazer chorar. Eu queria te fazer feliz, que nem você faz comigo. Mas eu estrago tudo, como sempre. Olha, eu não queria ter beijado a Noe. Ou talvez eu quisesse, mas agora eu me arrependo de verdade.

Desculpa de novo. É que foi o calor do momento, entende? Eu finalmente havia tirado a tal foto e você terminaria com o Craig e nós dois ficaríamos juntos, como eu sempre quis. Daí a Noe disse que precisava ir encontrar um amigo e que era para eu ir embora. Daí eu disse que eu também ia. Então a gente descobriu que havíamos marcado um encontro com o outro sem saber. Ela é a pessoa que recebe minhas cartas, Sam, não é incrível?

Eu fiquei tão feliz em saber, e ela também, que acabamos nos beijando sem querer. Eu não sei se você viu essa parte, Sam, mas eu a empurrei. Disse que ela estava misturando as coisas e que a pessoa que eu realmente amava era você. Eu disse. E que o motivo pelo qual estávamos ali era justamente esse: eu finalmente ter você. Daí eu fui embora e ela correu atrás de mim até o hospital.

Volta pra cá, Sam, por favor. Eu te imploro. Passei o resto do dia e da noite chorando e nem fui para a escola hoje. Ignorei as batidas na minha porta e me recusei a comer novamente. Eu não quero voltar à estaca zero de novo, Sam, eu preciso que você me ajude a ser infinito outra vez, eu não aguento mais. Não quero que pense que estou desqualificando a sua dor, mas eu estou pedindo como um morto que pede uma corda para tirá-lo do mar.

Eu preciso de você.

PS: Se o Bill visse essa carta eu sei que ele reclamaria do excesso de oralidade e repetição de palavras. Mas eu estou me cagando para a gramática. Na verdade, estou cagando para qualquer coisa. Eu não faço nada certo.

Com amor,

Um amigo que ainda te ama muito.

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26 de Outubro de 1991

Querido amigo,

Apesar de ter descoberto sua identidade, prefiro continuar te chamando assim. De uma forma estranha, gosto dessa coisa misteriosa. Não me entenda mal, mas eu gosto mais quando VOCÊ lê minhas cartas. Não é nada pessoal, e eu gosto muito do meu amigo Charlie, sabe. Mas às vezes continuo tendo essa sensação de que vocês são pessoas diferentes. E de fato são. O Charlie que eu conheço é muito mais problemático do que você.

Não vou mentir, eu adorei descobrir que esse "amigo" para quem eu escrevo é meu amigo de verdade. Mas acho que as coisas têm tomado um rumo diferente do que eu pretendia. Me desculpa por ter te beijado, Charlie. Olha, eu sou uma idiota. Ao longo de todos esses anos, eu fui do tipo que não sabe diferenciar amizade de amor. As pessoas me confundiam, entende?

Eu fui estúpida, eu sei. Mas é que eu escrevo para você a tanto tempo que é como se fossemos realmente velhos conhecidos. Eu sei que talvez você só tenha tomado forma agora. Afinal, eu escrevo desde antes de conhecer meu amigo Charlie. Às vezes, eu penso que você não existe. E que alguém, que não sei quem foi, resolveu de uma hora para outra brincar com os sentimentos de nós dois.

Não sei o que essa pessoa tinha na cabeça, amigo, mas eu tenho medo de descobrir. Como vai ser daqui pra frente, hein? Vamos continuar escrevendo um para o outro? Ou vamos parar com esse hábito? A minha médica já mandou eu parar faz tempo, mas eu escrevo escondido. Você também?

Eu não estou certa se vou conseguir continuar com isso, sabe? Agora que eu já te conheço. Afinal de contas, você faz parte da minha vida agora, Charlie, você é meu melhor amigo. Craig e Bobby também o são, mas eles não estão mais 24 horas por dia comigo. Talvez eu queria voltar a falar todo dia com o Craig; talvez eu deva sair desse hospital finalmente. Talvez eu deva parar com esse vício que é falar com você: meu amigo imaginário. Talvez...

Talvez a gente devesse tentar "participar", como nosso professor de Inglês nos disse. Eu acho que todo mundo aqui deveria dar o melhor de si para se recuperar e sair desse manicômio idiota. Não somos anormais, Charlie. Somos totalmente capazes de viver...

Você me fez perceber isso, sabia? Eu já tinha desistido de tudo, antes de você chegar aqui. Empurrava com a barriga, sabe. Claro que tinha minhas amizades, mas era cômodo para mim continuar aqui. Eu não tinha uma motivação especial para melhorar meu quadro e seguir com a minha vida, entende? Mas você me fez sentir vontade de melhorar.

E se a gente começasse a divulgar essa ideia, hein? Poderíamos ajudar todo mundo a melhorar e fazer uma campanha. Agora eu tenho um emprego na Broadway e posso ajudar a pagar o que for preciso. E eles vão ter que me dar auta. Eu preciso desse emprego...

E então, o que acha? Podemos começar a "participar" ou não?

Se disser sim - isso se tivesse escolha, porque você VAI dizer sim -, você tem que começar saindo desse quarto, levantar a bunda dessa cama e me encontrar amanhã na escola, está me ouvindo? (ou lendo? Haha).

Com amor,

Noelle

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